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terça-feira, 30 de outubro de 2018



“Encontro com uma profissão” de Eduardo Calisto de Amaral (1)


Embora apresente na capa a data de 2017, foi editado este ano um livrinho, da autoria do professor Eduardo Calisto Soares de Amaral, intitulado “Encontro com uma profissão”.

Com uma tiragem pequena e com uma distribuição restrita, o que é uma pena, o último trabalho daquele professor que marcou não só os seus alunos, mas todos os que com ele conviveram, merecia, pelos ensinamentos que dele se poderá extrair, uma maior divulgação. Contudo a decisão da família não foi esta e deve ser respeitada.

A pedido da família, o que muito me honrou, escrevi uma nota introdutória que achei por bem dar a conhecer aos leitores do Correio dos Açores. Dada a sua extensão, nesta semana divulgo a primeira parte e na próxima a segunda.

Este livro, tal como sugere o seu título, aborda parte da vida do professor Eduardo Calisto Soares de Amaral, com destaque para o período que vai desde 1955, ano em que iniciou a sua carreira profissional, na Escola Velha da Ribeira Seca, na Calçada, até 1992, ano em que se aposentou, estando também colocado na mesma localidade, mas no edifício do Plano dos Centenários.

Nesta nota introdutória, que escrevo com todo o gosto a pedido da sua família, é-me impossível fazer referência a todos os assuntos que o professor Eduardo Calisto aborda no seu livro, como o serviço militar que teve de cumprir por duas vezes, a aquisição e as alterações sofridas na sua casa, onde acabaria por habitar ainda antes de chegar a luz elétrica, a frequência de um curso de Orientação Pedagógica, as romarias à Senhora da Paz, as visitas de estudo anuais, o cantar à Estrelas, as festividades em honra de São João, etc., etc.. Assim, apenas destacarei as questões relacionadas com a educação.

Embora o professor Eduardo Calisto nunca esqueça, ao longo do texto, todas as pessoas que com ele cooperaram, com destaque para a sua “companheira de toda a vida”, a professora Adelaide da Conceição Soares, e para o seu cunhado, o professor Valter Soares Ferreira, que possuía uma destreza tal que era capaz de “reparar, melhorar, construir tudo e qualquer coisa que pudesse, de certo modo, melhorar o nível do ensino, no aspeto prático e visualizado”, esta pequena obra é muito mais do que uma despretensiosa autobiografia. Com efeito, através da sua leitura atenta é possível conhecer um pouco do estado da educação em dois regimes políticos diferentes, o Estado Novo, distinguindo-se dentro deste o período que foi até 1970, ano em que o Professor Catedrático José Veiga Simão assumiu o cargo de Ministro da Educação Nacional, e o regime democrático instituído a 25 de abril de 1974.

No que concerne às escolas, as descrições do Prof. Eduardo Calisto mostram que, sobretudo antes do Plano dos Centenários (1941-1969), que surgiu para, entre outras razões, acabar com o mau estado das instalações existentes nas várias escolas e para suprir a falta de salas para a separação dos sexos, não eram as mais dignas tanto para os docentes como para os alunos. A título de exemplo refiro o caso da Escola Velha da Ribeira Seca onde numa das salas “o professor, se sentado, não tinha visibilidade nenhuma para uma parte da sala” e as retretes sobretudo a masculina onde “por vezes as fezes chegavam a sair pela porta fora”.

Mas mais importante do que a apresentação do estado lastimável em que encontravam as instalações escolares, o mérito do Professor Eduardo Calisto está em não se ter conformado com a situação e, quer com ajuda exterior, quer recorrendo aos próprios meios, isto é, ao seu trabalho, ao dos colegas, e ao dos alunos, como no caso da escola referida, transformou o recreio desprezado num “belíssimo campo de mini-futebol “e “num pequeno jardim rústico”.

Relativamente à Escola Nova da Ribeira Seca, embora o edifício já apresentasse melhores condições, ao longo do tempo foi sofrendo melhoramentos, dos quais destaco o arranjo da latada da frente, a construção do tanque-piscina, o fecho dos alpendres, a instalação de alto-falantes e de intercomunicadores nas diversas salas, as alterações na cozinha e no refeitório e a construção dos anexos com duches e vestiários, etc. etc.

Teófilo Braga

domingo, 28 de outubro de 2018

COMBATE À TAUROMAQUIA NOS AÇORES: DO INÍCIO DO SÉC. XX ATÉ 2012



COMBATE À TAUROMAQUIA NOS AÇORES: DO INÍCIO DO SÉC. XX ATÉ 2012

Neste texto tenta-se fazer uma primeira reflexão, necessariamente incompleta por escassez de tempo, acerca da oposição às touradas nos Açores, desde o início do século XX até ao ano de 2012.
Na luta contra a tauromaquia, nos Açores, podemos distinguir três fases: a do combate individual, a da oposição à “espanholização” das touradas e a da defesa da abolição de todo o tipo de touradas.
A Primeira Fase
A primeira fase (1901- abril de 1988) é a fase da oposição às touradas por parte de algumas personalidades açorianas, que se distinguiram no campo da ciência, da cultura, da literatura e da vida política, algumas delas a residir fora dos Açores.
Nesta fase distinguiram-se, entre outras pessoas, Alice Moderno (1867-1946) (fig.1) que para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.

Alice Moderno foi uma das fundadoras da Sociedade Micaelense Protectora dos Animais e não foi indiferente às touradas. Com efeito, o jornal que dirigiu A Folha (1902-1917) deu guarida a diversos textos contra as touradas, a maioria dos quais da autoria do zoófilo Luís Leitão.
Foi convidada e assistiu contrariada a uma tourada, na ilha Terceira, e não ousou comunicar aos seus amigos, considerando-os “semi-espanhóis no capítulo de los toros”, o que pensava pois, escreveu ela, “não compreenderiam decerto a minha excessiva sentimentalidade”.
Na sua carta XIX, referindo-se à tourada a que assistiu escreveu o seguinte:
“É ele [cavalo], não tenho pejo de o confessar, que absorve toda a minha simpatia e para o qual voam os meus melhores desejos. Pobre animal, ser incompleto, irmão nosso inferior, serviu o homem com toda a sua dedicação e com toda a sua lealdade, consumindo em seu proveito todas as suas forças e toda a sua inteligência! (…) Agora, porém, no fim da vida, é posto à margem e alugado a preço ínfimo, para ir servir de alvo às pontas de uma fera, da qual nem pode fugir, visto que tem os olhos vendados!”
“E esta fera [touro], pobre animal, também, foi arrancada ao sossego do seu pasto, para ir servir de divertimento a uma multidão ociosa e cruel, em cujo número me incluo! (…) Entrará assim em várias toiradas, em que será barbaramente farpeada até que, enfurecida, ensanguentada, ludibriada, injuriada, procurará vingar-se, arremessando-se sobre o adversário que a desafia e fere. Depois de reconhecida como matreira, tornada velhaca pelo convívio do homem, será mutilada”.
Alfredo da Silva Sampaio (1872 - 1918), que foi um médico açoriano que se notabilizou como naturalista, como fundador do primeiro posto de observação meteorológica na ilha Terceira e autor de uma vasta obra sobre a história, a geografia e a história natural da Terceira, insurgiu-se contra o barbarismo das touradas à corda que na sua altura eram muito mais violentas/desumanas do que são hoje.
Embora longa a citação, retirada do seu livro “Memória da Ilha Terceira” (Fig. 2), publicada em 1904, vale a pena a leitura do seu texto sobre as touradas à corda:
“Uma corrida de touros à corda constitui, desde muito tempo, o principal divertimento do povo terceirense. Por ela abandonam os trabalhadores os campos, as oficinas, etc., deixando de ganhar o seu salário, para se transportarem a algumas léguas de distância, a verem um toiro, que, na maior das vezes, nada tem de bravo, e que percorre, amarrado por uma longa corda, algumas centenas de metros de uma estrada.
São geralmente em dias de trabalho que têm lugar estas corridas, e no dia seguinte ao de uma festa do Espírito Santo ou de outra qualquer festa religiosa. Ou são os impérios que promovem este divertimento público, ou qualquer influente político que, querendo ser grato aos seus amigos, promove e concorre com a maior parte das despesas.

Se é agradável e pitoresco a aglomeração de povo armado de compridos e grossos varapaus ferrados (muitas vezes mais perigosos que o touro), e os balcões e janelas das casas repletas de raparigas com vestuários de variegadas cores, ao mesmo tempo é bárbaro ver a corrida de um pobre animal, geralmente malezzo, ser espicaçado por milhares de paus, que lhe produzem largos ferimentos, chegando algumas vezes a esvaírem-lhes os olhos.

Findo o espectáculo, que é anunciado por muitos foguetes, recolhe o povo satisfeito a suas casas, sem se lembrar do salário que perdeu, e que pode facilmente adquirir ali a causa da sua morte.”


O libertário terceirense Adriano Botelho (1892-1983) manifestou, num texto intitulado “Contra os espectáculos imorais”, publicado, em 1925, no suplemento literário ilustrado do jornal A Batalha e reunido no livro “Adriano Botelho, memória e ideário” (fig.3), uma opinião muito semelhante à de Alice Moderno, como se pode concluir através da leitura do seguinte extrato:
”…fazem-se por outro lado, reclames entusiastas de espectáculos, como as touradas de praça onde por simples prazer se martirizam animais e onde os jorros de sangue quente, os urros de raiva e dor e os estertores da agonia só podem servir para perverter cada vez mais aqueles que se deleitam com o aparato dessa luta bruta e violenta, sem qualquer razão que a justifique”.




Companheiro de Adriano Botelho no movimento anarquista português, o cientista terceirense Aurélio Quintanilha (1892-1987) (fig. 4) que, entre outras funções, foi professor da Universidade de Coimbra, foi também um opositor às touradas tendo, a meados do século passado, afirmado o seguinte:
"Como homem e como professor não posso deixar de lhes enviar a minha mais completa e entusiástica adesão ao protesto levantado pela Sociedade Protectora dos Animais contra um espectáculo indigno do nosso tempo, da nossa mentalidade, da nossa civilização".



A Segunda Fase
A segunda fase (maio 1988- maio de 2009) é balizada pela oposição à introdução de touros de morte nos Açores e o chumbo, a 14 de maio de 2009, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores de um Projecto de Lei destinado a introduzir a sorte de varas.
Na sequência da notícia da apresentação por Adolfo Lima, Secretário Regional da Agricultura e Pescas para análise, em Plenário do Governo Regional dos Açores, suportado pelo PSD, de uma proposta que havia sido elaborada pelo Dr. Álvaro Monjardino (fig. 5), através da qual se pretendia que nos Açores fosse introduzida as touradas com touros de morte, os Amigos da Terra/Açores (atualmente Amigos dos Açores) organizaram uma campanha internacional que culminou com a apresentação de uma petição ao Parlamento Europeu.



A intenção não avançou, tendo na altura o presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. Mota Amaral, comunicado ao Director do Eurogroup for Animal Welfare que a legislação não avançaria devido às "reacções negativas da opinião pública".
A 21 de outubro de 1995, na ilha Terceira, realizou-se numa quinta particular uma tourada à espanhola, onde foram toureados e mortos dois touros. Na ocasião, tal ato a que assistiu o atrás mencionado membro do governo foi contestado por várias pessoas singulares e coletivas, como os Amigos dos Açores (fig. 6), algumas sociedades protetoras de animais e pelo partido os Verdes, na Assembleia da República.
Em resposta, a um ofício dos Amigos dos Açores, aquela associação recebeu da Presidência do Governo Regional dos Açores um ofício que dava conta que o Presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. Mota Amaral, tinha dado a devida atenção ao “protesto manifestado, informando que se tratou de um espetáculo realizado numa propriedade particular e que este tipo de touradas estão proibidas nos Açores” e acrescentava que “O Governo Regional por princípio e tendo sempre, também, em conta o impacto negativo na opinião pública açoriana de semelhante ato, envidará todos os seus esforços para que tal não se venha a repetir na Região Autónoma dos Açores”.

A 18 de outubro de 2002, o parlamento aprovou a introdução da sorte de varas, com 26 votos a favor, 13 contra e 4 abstenções. Este diploma veio a ser “chumbado” pelo Ministro da República, Sampaio da Nóvoa, já que não se revestia de interesse específico regional.
A contestação a esta nova tentativa de introdução da sorte de varas, como primeiro passo, para a introdução de touros de morte, partiu novamente dos Amigos dos Açores e, desta vez, contou, também, com a participação da Associação dos Amigos dos Animais da Ilha Terceira, que elaborou uma petição que recolheu duas mil assinaturas e que foi entregue ao Ministro da República (fig. 7).


Mais uma tentativa de introdução da sorte de varas, nos Açores, terminou, a 14 de Maio de 2009, com o chumbo pela Assembleia Legislativa Regional de uma proposta naquele sentido. Na votação, 28 deputados votaram contra e 26 a favor, registando-se duas abstenções e a ausência de um deputado do Partido Socialista que fora um dos seus proponentes.
A campanha contra esta última tentativa da introdução da sorte de varas partiu do Blogue Terra Livre/CAES - Colectivo Açoriano de Ecologia Social e contou com a participação da Associação de Amigos dos Animais da Ilha Terceira, que manifestou a sua discordância, dos Amigos dos Açores - Associação Ecológica, que para além da sua tomada de posição na comunicação social, enviou uma carta à Unesco, do CADEP, de Santa Maria, cujo coordenador escreveu vários textos para a comunicação social e outros dirigidos aos deputados, para além do contacto pessoal com alguns deles.
Para além das associações referidas, tomaram posição pública a Azórica, através de um texto assinado pelo seu presidente, e a Sociedade Micaelense Protectora dos Animais, que já não tinha qualquer atividade há alguns anos e que nunca mais deu razão de si depois, também emitiu um comunicado onde apelava aos deputados regionais para não aprovarem “os espetáculos que têm como pano de fundo os maus-tratos e o sofrimento dos animais”.
Foi no decurso da campanha, que vimos referindo, que surgiu o coletivo virtual “Açores Melhores sem Maus Tratos aos Animais” cujo principal é a Proteção dos Animais nos Açores, mas que é solidário com todas as lutas que tenham o mesmo fim em qualquer parte do Planeta.


A Terceira Fase

A terceira fase, iniciada em junho de 2009, surge como reação à tentativa de estender a tauromaquia a outras ilhas dos Açores, nomeadamente a São Miguel e a Santa Maria.
A expansão do negócio sujo da tauromaquia para as outras ilhas tem contado com o apoio direto ou indireto de departamentos do Governo Regional dos Açores, como a Direção Regional do Desenvolvimento Agrário, de alguns presidentes de Câmaras Municipais, com destaque para a de Lagoa, por juntas de freguesia, por um pároco e as últimas por Irmandades do Espírito Santo e pela Associação de Estudantes da Universidade dos Açores, cujo presidente é natural da ilha Terceira e tem ligações com a Tertúlia Tauromáquica Terceirense.
Como é impossível fazer algo na ilha Terceira, no que às touradas à corda diz respeito, pois este ano durante 168 dias, da época oficial, realizaram-se 244 touradas, ainda assim menos 13 do que no ano anterior, a reação tem-se limitado ao protesto pela realização de touradas noutras ilhas, sempre que é do conhecimento público (fig. 10).

Para o caso da ilha Terceira foram feitos protestos, envio de e-mails a várias entidades, pelo facto de ser ter realizado uma tourada de praça no dia 20 de junho de 2010, dia de luto nacional pela morte do escritor José Saramago, o que é proibido pelo artigo 12º do
Decreto Legislativo Regional n.º 11/2010/A (Regulamento Geral dos Espectáculos Tauromáquicos de Natureza Artística da Região Autónoma dos Açores). Foram, também, enviados, em outubro de 2010, e-mails à Diretora Geral da UNESCO para que esta “recuse a inscrição da Festa Brava da Terceira como Património Imaterial da Humanidade, por parte da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. Mais recentemente, na sequência da promoção pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores de uma tourada à corda no programa das comemorações do Dia dos Açores que foi celebrado, no dia 13 de junho de 2011, na cidade da Praia da Vitória, na ilha Terceira (Açores) foi feita uma campanha de protesto junto da Assembleia Legislativa Regional que decidiu transformar os e-mails enviados em petição.

As formas de protesto utilizadas têm sido a emissão de comunicados para a comunicação social, a publicação de textos em blogues, o envio de e-mails e ou petições aos promotores. Por uma única vez, em julho de 2009, um grupo de pessoas decidiu manifestar-se na rua contra a realização de uma tourada à corda promovida pela Câmara Municipal da Lagoa, ilha de São Miguel, tendo sido vítimas de agressões verbais e físicas, alegadamente por parte de funcionários da autarquia.

Nesta fase surgiu, em julho de 2009, o blogue/coletivo de defesa dos animais “Arquipélago dos Animais” que combateu todos os espetáculos com uso de animais (touradas, vacadas, bezerradas, rodeios, etc.)

Para além do blogue/coletivo Arquipélago dos Animais, continuam ativos nesta fase os Amigos dos Açores, o CADEP- Clube de Amigos e Defensores do Património de Santa Maria, o Blogue Terra Livre/CAES - Coletivo Açoriano de Ecologia Social e o blogue/coletivo Açores Melhores sem Maus Tratos Animais.


Mais recentemente, já em 2012, um pequeno grupo de pessoas que já trabalhava em conjunto e mantinha uma lista de discussão na internet decidiu criar um coletivo informal, o Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia dos Açores, que integra elementos da ilha de São Miguel e da ilha Terceira e que mantém uma lista de discussão, onde para além de pessoas das ilhas referidas também tem incluídas pessoas da ilha de Santa Maria.
A 23 de março, de 2012, começou a recolha de assinatura para a petição “Pelo Fim dos Subsídios Públicos à Tauromaquia nos Açores”. Esta petição deu entrada na ALRA a 20 de abril de 2012. Sobre a mesma foi elaborado um vergonhoso relatório pela Comissão dos Assuntos Sociais da ALRA, onde esta justifica “a tortura” dado o interesse cultural e turístico.
A 13 de Julho de 2012, foi feita, por ofício ao Diretor Regional da Cultura, uma denúncia acerca da presença de crianças em touradas. Como resposta aquela direção regional comunicou que a denúncia sido enviada à Tertúlia Tauromáquica Terceirense em para esta se pronunciar. No dia 10 de outubro foi enviada nova carta a perguntar que medidas foram tomadas para punir os prevaricadores.
A 12 de novembro de 2012, foi divulgado o manifesto pelo fim da tauromaquia nos Açores. Neste o MCATA para além de divulgar o seu grande objetivo que é a abolição da tauromaquia nos Açores, divulga os princípios que adota e que são:

● Independência face a qualquer outro tipo de grupo social constituído, como partidos políticos, organismos oficiais, grupos económicos, crenças religiosas ou outros grupos de interesse;
● Sem fins lucrativos, todo o trabalho é estritamente voluntário;
● Sem quaisquer hierarquias, é privilegiada a discussão e o consenso como principal método de tomada de decisões.
● A não-violência, o respeito pelo outro e o diálogo estão na base de todas as iniciativas e intervenções.

Considerações Finais
Embora seja cada vez maior o número de pessoas que perde o medo de manifestar a sua discordância para com a realização de espetáculos que de um modo ou de outro maltratam os animais, como as touradas, as organizações dos Açores que se têm oposto aos mesmos são muitas fracas, tendo em conta o poder económico e o apoio político que possuem os promotores das touradas pelo que o combate à industria tauromáquica só terá êxito se o que tudo o que for feito nos Açores tiver um vasto apoio nacional e internacional.

Bibliografia:
Abreu, C. & Freire, J.(1989) (Org.). Adriano Botelho, memória & ideário (antologia de textos). Angra do Heroísmo: Direcção Regional dos Assuntos Culturais.
Sampaio, A. (1904). Memória sobre a Ilha Terceira. Angra do Heroísmo: Imprensa Municipal.
Vilhena, A. (1987). Alice Moderno a mulher e a obra. Angra do Heroísmo: Direcção Regional dos Assuntos Culturais.

(Letra a Letra, nº 7, outubro de 2018)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

APONTAMENTOS SOBRE PAULO FREIRE


APONTAMENTOS SOBRE PAULO FREIRE

Comecei a ler, recentemente, o último livro de José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, que é uma referência em termos de inovação pedagógica, mas que infelizmente é mais conhecida no estrangeiro do que em Portugal.

José Pacheco, no seu livro “Um compromisso ético com a educação” cita, entre os vários autores que o inspiraram, o nome de Paulo Freire (1921-1997) que é considerado como o mais célebre educador brasileiro.

Paulo Freire é um nome que me é familiar desde os finais de 1974 ou no início de 1975 quando alguns militares ligados ao Movimento das Forças Armadas estiveram em Vila Franca do Campo e me ensinaram o que designaram “método de Paulo Freire” para posteriormente o aplicar junto de pessoas que não sabiam ler nem escrever. Tal ocorreu com algum sucesso, pois com algumas sessões realizadas no primeiro andar de um edifício do senhor Alfredo Gago, situado na rua Teófilo de Braga, onde no rés-do-chão existia uma padaria, foi possível ensinar a ler a dois adultos que até então nem conheciam ou conheciam muito mal as letras do alfabeto.

Paulo Freire começou a trabalhar com adultos analfabetos em 1947, tendo sido professor de História e Filosofia da Educação na Universidade do Recife. A partir de 1962 o seu método de ensino começou a ser experimentado e em 1963-64 foi aprovado um plano para que fossem abrangidos, no Brasil, dois milhões de analfabetos.

Em 1964, após um golpe de estado ocorrido no Brasil, Paulo Freire foi preso e teve de se exilar. Mais tarde, o seu método passou a ser aplicado no Chile e no ano 1969-70 foi professor convidado no Centro de Desenvolvimento e Mudança Social de Harvard.

Entre as várias ocupações e cargos que desempenhou, destacamos o de Secretário-Geral do Concelho Mundial das Igrejas.

Da sua vasta obra publicada, destacamos os seguintes livros: “Pedagogia do Oprimido”, “Educação como Prática da Liberdade” e “Uma Educação para a Liberdade”.

De acordo com Paulo Freire, o homem pode ser encarado como pessoa ou como coisa. Se o encararmos como coisa, a educação só pode conduzir a uma cada vez maior domesticação do homem e o ato educativo não é mais do que um ato de depositar conteúdos. Esta visão a que ele chama "conceção bancária" é a que infelizmente ainda predomina ainda nos dias de hoje.

Por outro lado, se o homem é visto como uma pessoa, deixa de ser uma "caixa passiva, que vai sendo preenchida", mas "um corpo consciente, desafiado e respondendo ao desafio", que está aberto ao mundo e atua de modo a transformá-lo.

Nesta segunda conceção chamada por Paulo Freire de humanista está afastada qualquer possibilidade do educador (professor) manipular o educando (aluno) porque nela está subjacente o seguinte: ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho e todos se educam entre si, mediatizados pelo mundo.

Sobre a tão apregoada neutralidade da educação/ensino, Paulo Freire é de opinião de que tal não passa de um mito. Com efeito, tal como Ivan Illich que considerava que as escolas constituem instrumentos de controlo social, ele defendeu que de forma consciente ou não a atividade dos educadores "desenvolve-se ou para a libertação dos homens- a sua humanização-, ou para a sua domesticação - o domínio sobre eles".

Para terminar este texto, que tem como fonte o último livro da autoria de Paulo Freire referido anteriormente, deixo uma pequena nota sobre o que ele chama de analfabeto político que “é alguém que tem uma perceção ingénua das relações dos homens e do mundo, uma inteligência ingénua da realidade social”. O analfabeto político ou não tem em conta a realidade e considera que o futuro é a repetição do presente ou considera que aquele já está pré-estabelecido. A primeira perceção ele considera reacionária, a segunda ele escreve que “é uma das deformações mecanicistas do pensamento marxista”.

Teófilo Braga
(enviado ao Correio dos Açores 14 de outubro de 2018, não publicado)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Letra a Letra


Acabou de sair o número 7 da revista, não periódica, “Letra a Letra”.

Neste número, os Açores estão em destaque com um texto de Dimas Simas Lopes, médico e artista terceirense, intitulado “Gandhi e Agostinho da Silva, Dois Mestres para o Século XXI” e um do micaelense Teófilo Soares Braga intitulado “Combate à tauromaquia nos Açores: do início do século XX até 2012”.

Para além dos textos referidos, é dado realce à ilha do Corvo. Assim, é republicada uma crónica, intitulada “Corvo - a ilha do comunismo patriarcal” de Paul Bartel, que viu a luz pela primeira vez no Correio dos Açores de 24 de setembro de 1933 bem como uns apetitosos textos do escritor Fernando Dacosta.

A revista pode ser pedida através do seguinte contato:
jope103 (arroba) hotmail.com

J.S.

Jogos da minha infância (2)

Quatro cantos (cantinhos)

Na terra ou num local cimentado, geralmente com um pedaço de telha (no cimento podia ser um giz, geralmente trazido da escola) desenhava-se um quadrado e traçavam-se as diagonais e duas linhas em cruz, unindo os centros dos lados do mesmo.

Cada jogador (só podem jogar dois de cada vez) usava três pedrinhas diferentes com o objetivo de as colocar alinhadas, em qualquer direção.

Como geralmente eram muitos os interessados em participar, jogava-se ao “bota fora”, isto é, quem perdia dava o seu lugar a outro.

sábado, 20 de outubro de 2018

Jogos da minha infância (1)

Ahhhhh Rolha!

Trata-se de um jogo de equipas, em que uma delas fica num determinado local de olhos fechados para não observar os movimentos da outra que se vai esconder num determinado local.

O objetivo da equipa que se escondeu é chegar com todos os elementos ao sítio onde a outra esteve e o desta é apanhar os elementos da outra equipa, bastando para tal apanhar um.

Na Rua do Jogo, o local que servia de base era a chamado “Cimento da Amélia”, zona cimentada que ficava em frente à casa de uma senhora já idosa chamada Amélia e os locais preferidos para esconderijos eram os terrenos situados no Canto da Ponta Garça.

Não encontrámos qualquer referência bibliográfica a este jogo que tem semelhanças com o Ferro Quente, pelo que o nome que escolhemos é o do grito que a equipa que se escondia dava para dar sinal que o jogo podia começar, isto é, já podia ser procurada.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A Escola de Ferrer, a de hoje e Agostinho da Silva


A Escola de Ferrer, a de hoje e Agostinho da Silva

Antes de dar a conhecer algumas ideias do pedagogo catalão Ferrer y Guardia (1859-1909) criador da Escola Moderna, tendo por base um livro que ele escreveu enquanto esteve preso na fortaleza de Montjuïc, esclareço que entre nós existe um Movimento da Escola Moderna, que não tem qualquer ligação com Ferrer, mas que foi inspirado no francês Célestin Freinet (1896-1966).

De acordo com Sílvio Gallo, Ferrer acreditava que se aprendia pelo afeto, isto é embora a aprendizagem “seja um ato mental, racional, nada se aprende se antes não passar pelo coração, se não mobilizar o desejo”.

Na Escola Moderna, seguia-se a “pedagogia racional” a qual segundo Sílvio Gallo é “um processo educativo que eduque pela razão, para que cada ser humano seja capaz de raciocinar por si mesmo, conhecer o mundo e emitir seus próprios juízos de valor, sem seguir nenhum mestre, nenhum guia”.

Começando pelas instalações escolares, Ferrer não aceitava uma escola fechada entre quatro paredes de modo que na sua Escola Moderna a par de salas bem decoradas, havia pátios destinados à realização de atividades ao ar livre. Além disso, toda a atividade escolar era complementada com visitas a fábricas e passeios diversos.

Num passado recente, nos Açores era fomentada a existência de clubes escolares e incentivava-se a realização de atividades extraescolares. Relativamente aos clubes, a Direção Regional da Educação chegou a editar um boletim intitulado “Clubismo” que no seu número oito, de dezembro de 1995, mencionava a existência nos Açores de trinta e um clubes. Hoje, restam muito poucos clubes que por vezes estão a funcionar com meia dúzia de alunos.

No que diz respeito a atividades extracurriculares, a recomendação é para a sua redução, com vista a não roubar tempo às aulas. Enfim, continua-se a privilegiar a transmissão de conhecimentos nas salas de aula, desligando a escola do meio onde se insere.

Sobre este assunto, Agostinho da Silva foi bem claro quando escreveu que “na escola aprendemos pouco e na vida aprendemos muito” e acrescentou: “só é viva a escola que estabelece com o ambiente uma série de trocas, que se deixa penetrar por ele amplamente e por sua vez o penetra e modifica”.

Embora não discutindo a utilidade de provas em alguma circunstância, o que é certo é que na Escola Moderna de Ferrer “não havia prémios nem castigos, nem provas em que houvessem alunos ensoberbecidos com nota dez, medianias que se conformassem com a vulgaríssima nota de aprovados nem infelizes que sofressem o opróbrio de se verem depreciados como incapazes”.

Ainda sobre a não existência de provas, Ferrer escreveu o seguinte: “os elementos morais que este ato imoral qualificado de prova inicia na consciência da criança são: a vaidade enlouquecedora dos altamente premiados; a inveja roedora e a humilhação, obstáculo de iniciativas saudáveis, aos que falharam; e em uns e outros, e em todos, os alvores da maioria dos sentimentos que formam os matizes do egoísmo”.

Agostinho da Silva, depois de referir que na escola tradicional são fomentados o isolamento e uma competição doentia, o que leva a que, ainda hoje, haja muitos alunos que não queiram trabalhar em grupo, escreveu que “a escola é uma carreira em que o aluno procura ultrapassar os camaradas e em que se sente sobretudo satisfeito quando for o primeiro da classe”.

Para Ferrer o “valor da educação reside no respeito à vontade física, intelectual e moral da criança”, assim o bom educador seria todo aquele que “contra as suas próprias ideias e suas vontades pode defender a criança, apelando em maior grau às energias próprias da própria criança”.

Agostinho da Silva que acreditava que “toda a educação verdadeira e sólida é uma autoeducação”, é mais claro quando se refere ao papel do professor que deve deixar de ser um mero transmissor de conhecimentos para ser um orientador dos alunos. Vejamos o que escreveu a este propósito sobre a Faculdade de Letras do Porto que foi extinta pelo governo: “…os mestres, mais do que ensinar, estimulavam a aprender e onde ninguém tinha de se pautar pelas receitas habituais, mas de escolher os seus próprios caminhos, certos ou errados”.

Teófilo Braga
Correio dos Açores, 31643, 9 de outubro de 2018, p. 16)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A Casa Azul


Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, 4 de outubro de 2018

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A Casa Azul de Natividade Ribeiro


A Casa Azul de Natividade Ribeiro

Depois de alguns anos de procura, foi no passado mês de julho que, na Ilha da Madeira, consegui adquirir o livro “A Casa Azul” da autoria da minha conterrânea Natividade Ribeiro.

Tal como muitos outros jovens vila-franquenses, Natividade Ribeiro estudou no antigo Externato de Vila Franca, tendo mais tarde ido para Lisboa, onde se licenciou em Filosofia. Foi durante muitos anos professora de português em Macau e depois lecionou (ou ainda leciona?) em Lisboa.

Da autora, para além do livro que abordo neste texto, já tive a grata oportunidade de ler “Os Três Lugares de uma Mulher” que também recomendo.

Neste livro que, também, pode ser considerado autobiográfico, Natividade Ribeiro retrata a vida em Vila Franca do Campo no final da década de 60 e início da de setenta do século passado.

Estando por escrever a história da Vila daquele período, este livro, embora de carácter literário, dá a conhecer a vida de um camponês com terra e da sua família, retrata a vida de jovens estudantes pertencentes a um estrato social médio e aborda ainda que levemente a política nos últimos anos do fascismo e o entusiasmo nos primeiros anos após o 25 de abril de 1974.

Para além das pessoas da família da autora, penso que não será difícil identificar os seus professores no Externato de Vila Franca e o ex-professor que era um “bufo amigo”.

O livro apresenta outra originalidade que é a descrição de vários locais onde a autora fazia piqueniques com os colegas estudantes e outros amigos. Assim, através da sua leitura fica-se a conhecer um pouco a geografia do concelho, como o Ilhéu, a Lagoa do Fogo, a Vinha d’Areia, a Lagoa do Congro, etc..

Sobre o Externato de Vila Franca, Natividade Ribeiro recorda o professor de Francês que “adorava fazer chamadas individuais a alunos que não tivessem estudado, quase como um prazer sádico”, o de Matemática que dizia que nos testes ninguém copiava pois ele sabia sempre mais uma cábula do que o aluno e o de “Ciências que tinha a mania que só os testes difíceis provavam a sua competência” e que fazia perguntas sobre conteúdos que não tinha ensinado, estando as respostas “nas notas de rodapé, em letra muito miudinha, nos manuais dos nossos irmãos mais velhos”.

Não se tratava do mero uso da pedagogia tradicional, para a qual foram treinados. Eram verdadeiros atos de malvadez de pessoas que, acabaram por ser, injustamente, homenageados em Vila Franca do Campo como grandes professores. Enfim, deviam ser reconhecidos por outros serviços prestados à comunidade, se os prestaram, e não como pedagogos.

A propósito da Casa Azul, hoje em ruínas, que era um mirante, Natividade Ribeiro apresenta as preocupações dos agricultores. Era a elevada produção de batata que não tinha venda, era a produção do vinho que não era boa, era a preocupação com a vinda de açúcar do continente que poderia prejudicar a cultura da beterraba que era “uma cultura que continua a ser rentável e pouco trabalhosa”.

Sobre a cultura do ananás os agricultores preocupavam-se com a eventual proibição da apanha de leiva. Sobre este assunto pode-se ler: “Dizem que já há picos muito devastados. Mas hão-de arranjar um substituto que não prejudique tanto a natureza”.

No capítulo intitulado “Piquenique na Vinha d’Areia”, a autora recorda que a mesma era conhecida por “Praia das Francesas”, que “fora comparada por umas francesas extravagantes que faziam nudismo nas varandas, para grande escândalo dos naturais”. Sobre as alterações sofridas pode-se ler: “A Vinha d’Areia actual é outra praia. É uma praia do progresso, do consumo. Igual a tantas outras que se foram descaracterizando pela construção do parque automóvel, balneários, bares, “Aqua Park”, marina.”

Muito ficou por dizer, daí que recomendo uma leitura e valia a pena uma reedição.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31640, 4 de outubro de 2018, p. 22)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Nome da Escola da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo


A propósito do nome da Escola da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo

O edifício escolar existente na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo foi construído ao abrigo do chamado Plano dos Centenários, implementado pelo Estado Novo entre 1941 e 1969, tendo entrado em funcionamento em 1962.

Hoje fechado, por razões demográficas e devido à política de concentração de alunos para poupar uns trocos para os gastar em coisas supérfluas, como festas e festivais, sem retorno financeiro e de duvidoso interesse cultural, se nada for feito acabará por ruir como já aconteceu com outros.

Sob a direção do professor Eduardo Calisto Soares de Amaral, a Escola foi a única entidade que dinamizou a Ribeira Seca, então integrada na freguesia de São Miguel. A título de exemplo recordo a organização de uma récita escolar, a criação da cantina, a construção de uma piscina, a organização das festas de São João, quando foram interrompidas na sede do concelho, e das marchas de São João nos restantes anos.

Ao contrário do que se esperava na localidade, os responsáveis políticos, como de costume sem ouvir a população, decidiram atribuir o nome da escola a um professor que esteve na localidade apenas um ano letivo, o docente Teotónio Machado de Andrade.

A proposta de nome que terá sido cozinhada em Vila Franca, foi feita pela Direção Escolar de Ponta Delgada que, depois de ouvir a Câmara Municipal, a submeteu à tutela. Como argumentos para a escolha do nome de Teotónio Machado de Andrade foram apresentados os seguintes: pedagogo, investigador do concelho, dinamizador de movimentos culturais, iniciador das primeiras instituições de assistência social escolar, autarca, delegado escolar do concelho e cultor de plantas ornamentais.

A proposta foi aceite pela Secretaria Regional da educação e Cultura que pelo Despacho D/SREC/94/16, de 1 de maio de 1994, determinou que o edifício deixasse de ter a designação Escola nº 3 de Vila Franca do Campo e passasse a denominar-se Teotónio Machado de Andrade.

A primeira reação pública contra aquela decisão governamental terá sido a minha, pois no jornal “A Vila” do dia 23 de junho daquele ano publiquei um texto onde sem retirar o mérito a ninguém argumentei que o professor Teotónio já havia “recebido as merecidas homenagens”. Na ocasião, para justificar o nome do professor Eduardo Calisto de Amaral, escrevi o seguinte:

“Por tudo o que fizeram por aquela escola, pela promoção sociocultural, recreativa e desportiva da comunidade que com muita dedicação serviram, à Ribeira Seca ficarão para sempre ligados os nomes dos senhores professores Eduardo Calisto de Amaral, Valter Soares Ferreira e suas esposas.
Pelas razões apontadas e por muitas outras que poderia referir, proponho que seja revista a decisão agora tomada e que na fachada da minha escola fique para sempre gravado o nome do professor Eduardo Calisto de Amaral”.

No mesmo ano, foi redigido um abaixo-assinado que, depois de recolher 200 assinaturas, foi enviado ao Presidente do Governo Regional dos Açores e ao Secretário Regional da Educação e Cultura. Se não me falha a memória, nenhuma das entidades se dignou acusar a receção!

Três anos depois, em agosto de 1997, uma comissão de moradores da Ribeira Seca composta por Emanuel Medeiros, Vitorino Furtado, João Norberto Salema, José Manuel Salema e João Alberto Pacheco, organizou um abaixo-assinado, que recolheu 310 assinaturas, com o fim de requerer ao Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo a alteração do nome da escola para “Escola EB/J Prof. Eduardo Calisto de Amaral”.

Por unanimidade, a 21 de setembro de 1998, a Câmara Municipal de Vila Franca do Campo deliberou satisfazer a pretensão dos moradores da Ribeira Seca, tendo suportado a sua decisão numa deliberação tomada pela Assembleia Municipal no dia 30 de junho do mesmo ano.

A 27 de outubro de 1998, o presidente do Conselho Diretivo da Área Escolar de Vila Franca do Campo informou o Conselho Diretivo da Área Escolar de Ponta Delgada que “a Escola EB/JI Professor Machado de Andrade passa a designar-se EB/JI Professor Eduardo Calisto Amaral”.

Para não afirmar outra coisa, o mínimo que se pode dizer é que em Vila Franca do Campo andavam todos distraídos, pois havia legislação que atribuía ao Secretário Regional com a tutela da Educação a fixação da denominação dos estabelecimentos de educação e de ensino públicos não superior.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31632, 25 de setembro de 2018, p.17)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Ainda sobre Antero de Quental e os animais


Ainda sobre Antero de Quental e os animais

Sobre Antero de Quental escreve-se muito, mas nem sempre se diz a verdade, acontecendo o extremo de se omitir muitas das suas opiniões ou partes significativas da sua vida, sobretudo as relacionadas com o seu ativismo em prol de uma sociedade mais justa.

Em relação aos animais, já houve um político que o tentou associar aos maus tratos animais que é prática comum na ilha Terceira, escrevendo, sem citar quaisquer fontes, que o mesmo apreciava touradas.

Em texto anterior, já denunciamos a desonestidade que parece quase endémica nos políticos da nossa praça. Neste, damos a conhecer um pequeno escrito de António Arroyo, onde este escreve que Antero de Quental não apreciava a caça e um extrato de um poema da sua autoria.

No livro “A Viagem de Antero de Quental à América do Norte”, António Arroyo relata uma ida à caça do comandante do navio que levou Antero aos Estados Unidos, tendo a propósito escrito o seguinte: “Antero não ia porque detestava tais divertimentos.”

Sobre a relação homem-natureza, haverá algo mais belo e elucidativo do seu pensamento do que o seguinte poema:
Redenção
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; salmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!

Pico da Pedra, 21 de setembro de 2018

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sobre o livro de memórias do mestre Dinis


Sobre o livro de memórias do mestre Dinis

Foi com estranheza que pessoa conhecida me informou que o mestre Dinis, da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, havia escrito um livro que foi lançado durante as festas do Bom Jesus da Pedra. Tal facto só pode acontecer por parte de quem foi educado num sistema de ensino e numa sociedade que sobrevaloriza o trabalho intelectual e que menospreza o trabalho manual.

Sobre esta falsa dualidade, o professor Agostinho da Silva escreveu que se todos os homens pensam, então todos são intelectuais.

Relativamente aos que por terem decorado passagens de alguns livros enquanto andaram pelas escolas e universidades, convém lembrar que mais importante do que o saber livresco é a honestidade e o carácter e que, tal como escreveu Agostinho da Silva “, para uma pessoa se educar não é necessário haver escola, como instituição, sendo a melhor escola a escola da vida”.

Numa poesia sobre “A Educação” o mestre Dinis escreveu:

“Na vida se for credível
É porque tem honestidade
Assim será possível
Viver em sociedade”

Depois desta um pouco longa introdução, vamos dar a conhecer um pouco o mestre Diniz e o seu livro, ignorando qualquer apreciação literária, pois não estamos habilitados para tal.

Quem é o mestre Dinis?

Natural do concelho de Vila Franca do Campo, Dinis Furtado Brum, nasceu no dia 27 de junho de 1944, sendo filho de João Furtado Brum e de Maria da Glória Travassos.

Viveu, uma parte importante da sua vida, na rua da Cruz, na Ribeira Seca, onde trabalhou na oficina de ferrador de seu sogro, o mestre Viriato Madeira. Com a substituição dos animais na agricultura, a oficina de serrador deu lugar a uma serralharia, tendo o mestre Dinis feito um estágio na empresa Technal.

Como hobby, o mestre Dinis dedicou-se à música, tendo sido executante da Banda Lealdade e é um exímio cantador ao desafio conhecido em toda a ilha de São Miguel.

O livro serviu de pretexto para a escrita deste artigo tem por título “Um pouco da minha vida… com amizade e serenidade”, sendo essencialmente de carácter biográfico, apresenta, entre outros, também, dois capítulos de temática religiosa, um sobre a Vila e outro de cariz etnográfico.

Por razões de economia de espaço, apenas farei uma breve referência a alguns temas que mais me impressionaram enquanto criança, também residente na Ribeira Seca, e às artes e ofícios que, fruto do progresso técnico, desapareceram.

Em criança, algumas vezes dei uma escapadela de casa e fui ver o trabalho na oficina do mestre Viriato. Lá, o que mais me impressionava, talvez por não ser um trabalho tão rotineiro, era o trabalho na funda, onde eram colocadas ferraduras nos bois. Sobre este trabalho , o mestre Dinis escreveu:

“E o boi que trabalhava
Na carroça canga dura
Na funda se amarrava
Para pregar a ferradura”

No capítulo “Artes e Ofícios” há referência, entre outras, às seguintes profissões já desaparecidas: galocheiro, lenhador, arrieiro, barbeiro, cesteiro, tecedeira, albardeiro, moleiro, vendilhão de peixe.

Termino com uma quadra sobre o cesteiro:

“O animal que trabalhava
Para o dono ganhar o pão
Muita coisa transportava
Através do seu ceirão”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31626, 18 de setembro de 2018, p.17)





quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Emygdio da Silva e os Jardins de São Miguel em 1893


Emygdio da Silva e os Jardins de São Miguel em 1893

Manuel Emygdio da Silva (1858-1936) foi um técnico ferroviário que trabalhou em várias companhias de caminhos de ferro e, entre 1911 e 1936, foi presidente da direção do Jardim Zoológico de Lisboa.

Distinguiu-se também como publicista, tendo colaborado no Diário de Notícias de Lisboa, onde publicou um conjunto de cartas sobre a ilha de São Miguel que mais tarde foram reproduzidas no livro “São Miguel, em 1893 - Cousas e Pessoas”, editado em Ponta Delgada, na coleção Biblioteca da Autonomia dos Açores.

Depois de referir que os jardins de Ponta Delgada ocupavam um lugar de destaque entre os mais belos jardins que conhecia na Europa, Emygdio da Silva explicou que o do conde de Jácome Correia (Palácio de Santana) distinguia-se “no género dos jardins ingleses”, o José do Canto, como “jardim botânico propriamente dito” e o António Borges “pela fantasiosa imaginação com que foi delineado e plantado”.

Nos três jardins de Ponta Delgada, Emydgio da Silva destaca a “exuberante vegetação que os continentais desconhecem” e a presença “dos mais belos exemplares da flora de todas as regiões”. Relativamente às espécies presentes, no Jardim do Palácio de Santana o destaque é dado a duas palmeiras (Jubaea spectabilis) que segundo ele “não têm menos de oito a dez metros de altura de tronco” e no Jardim José do Canto, para além das camélias, o destaque vai para o bosque de bambus que pela sua grossura não conseguem ser abraçados com ambas as mãos.

Nas Sete Cidades, Emygdio da Silva, visitou o parque adjacente ao Palacete do dr. Caetano de Andrade, ainda hoje digno de uma visita, tendo destacado a presença de “um bosque de 150 araucárias (o primeiro e único que conhecemos) de 16 a 18 anos, atingindo já 10 metros de altura, … bosques de criptomérias, havendo um exemplar desta árvore notável, trazido de Paris, em vaso, por António Borges, em 1854 e cujo tronco tem hoje quase três metros de circunferência, rodondendros com 5 a 6 metros de alto, bordando ruas; acácias de Austrália e outras espécies, camélias gigantescas; muitas espécies de eucaliptos…”.

Em Vila Franca do Campo, o jardim visitado foi o de Sebastião do Canto, avô do Engenheiro Artur do Canto Resendes, que ainda existe, não sabemos se com a área inicial.

De acordo com Enygdio da Silva, o seu proprietário “dava senhoria às begónias, às glicínias e aos caládios, excelência às palmeiras; às musas e às bambúseas, alteza às yucas, aos pandanos e às banksias e reserva tratamento de majestade para os seus magníficos fetos”. De entre os fetos, Sebastião do Canto destacava o Alsophila excelsa (Cyathea brownii), feto endémico da ilha de Norfolk.

Nas Furnas, o destaque vai para o então chamado “Parque das Furnas”, antes “Vila da Murta” e para o Vale dos Fetos.

No primeiro, depois de referir a presença de espécies de todo o mundo, Emygdio da Silva destaca a “representação dos mais notáveis exemplares da flora indígena, a qual por certo não é a que menos interessa o forasteiro do continente”. De entre as espécies da flora açoriana, são mencionadas as seguintes: azevinho, ginjeira-do.mato, o zimbro (cedro-do-mato) e a urze.

O Vale dos Fetos, que ainda pode ser apreciado hoje por quem visitar a Mata-Jardim José do Canto, nas margens da Lagoa das Furnas, constituía, segundo Emygdio da Silva “a grande atração dos forasteiros”. Sobre a espetacularidade do Vale dos Fetos, Emygdio da Silva escreveu o seguinte:

“O pequeno vale que outra cousa não é senão o fundo de uma grota em que a montanha se fendeu, tem por átrio um delicioso bosque de criptomérias gigantes e estende-se com pronunciada inclinação pelo monte acima. Fetos arbóreos e herbáceos de grande porte, musas, palmeiras, grupos de bambus (bambúseas), araucárias e pandanos com mais de 6m de alto, formam uma florestazinha que dá ao “vale dos fetos” um encanto verdadeiramente mágico. Entre os fetos conta-se as seguintes variedades: Cyathea nigra (grande exemplar muito notável), Cyathea medularis e dialbata, …Alsophila excelsa e australis, … e grande variedade de Pteris”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores 31620, 11 de setembro de 2018, p.13)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Escolas Alternativas


Escolas Alternativas

No próximo ano letivo funcionará nas Capelas uma experiência pedagógica inspirada na Escola da Ponte, que é uma escola pública que assenta na autonomia dos alunos. Na escola mencionada, que tem por valores a Solidariedade e a Democraticidade, as práticas educativas são muito diferentes das do modelo tradicional e em toda a vida da escola há uma participação efetiva dos docentes, pais e alunos.

O Projeto Novas Rotas irá funcionar na Quinta do Norte, propriedade adquirida pela Junta Geral, com dinheiros da herança da grande mulher que foi Alice Moderno.

Integrado na Escola Básica Integrada das Capelas que, ao contrário de outros estabelecimentos de ensino, teve a coragem de acolher o projeto, pelo que os seus órgãos de gestão estão de parabéns, a “nova escola” tem tudo para ser um sucesso. Assim. destaco o empenhamento dos pais, como tem sido demonstrado pelo trabalho voluntário que têm prestado na realização de obras no edifício e a dedicação dos professores como nunca tive a oportunidade de assistir, nem mesmo nos tempos a seguir ao 25 de abril de 1974 em que se acreditava que através da escola se podia mudar o mundo.

Vou seguir com muita atenção a implementação do projeto com a certeza de que os envolvidos não vão conseguir endireitar o eixo da Terra, mas vão mudar, para melhor, a educação e dar uma lição de democracia participativa a todos.

Não tenho conhecimento se o Projeto Novas Rotas foi pioneiro nos Açores em ternos de alternativa ao modelo de educação tradicional, mas sei que a nível nacional, no passado, foram vários os projetos e as escolas que funcionaram seguindo metodologias e obedecendo a princípios diferentes das escolas ditas oficiais.

Um dos projetos foi o da Escola Livre de Coimbra, ideia de João Evangelista de Campos Lima, amigo de Manuel de Arriaga, formado em direito, que, depois de visitar a comuna escolar “La Rouche”, em Paris, o elaborou, em colaboração com Tomás da Fonseca, Lopes de Oliveira e outros.

De acordo com Edgar Rodrigues, na idealizada escola o professor não forçava nada, sendo adotado um método moderno de ensino onde seria despertado “nas próprias crianças o desejo de aprender por si, não impondo nunca lições ou tarefas determinadas e esperando sempre que o próprio espírito de curiosidade eleve a interrogar o professor, tornando assim agradável e proveitosa cada lição”.

Sobre as finalidades da escola, o mesmo autor refere o seguinte:

“Enfim, a Escola Livre, esforçar-se-á por que cada criança fique com um conhecimento o mais completo de si própria e da vida em geral, habilitando-a a procurar os meios indispensáveis à conservação da existência: despertará em todos os sentimentos de independência e liberdade; desenvolverá entre elas o princípio do auxílio mútuo, base de toda a solidariedade; e, não tendo a pretensão de formar sábios, dar-se- á por satisfeita e cumpridora da missão se conseguir formar homens de carácter".

O projeto da Escola Livre, se fosse implementado, tinha como destinatários crianças de famílias pobres.

Pelas crianças de famílias mais desfavorecidas também se interessou a educadora, feminista e republicana Ilda Adelina Jorge de Bulhão Pato que, entre outras iniciativas, criou a Escola Maternal da Ajuda que funcionou entre 1920 e 1943.

Ilda Bulhão Pato que era adepta do método de João de Deus, defendeu uma escola que recebesse crianças de ambos os sexos dos três aos sete anos, onde para além das aprendizagens, segundo o método do alemão Friedrich Froebel, também tinham acesso a alimento e vestuário.

De acordo com Márcio Ferrari, Froebel, defensor da liberdade, defendia “que as crianças trazem consigo uma metodologia natural que as leva a aprender de acordo com os seus interesses e por meio de atividades práticas”.

Antecipando algumas críticas relativamente à questão dos interesses das crianças, afirmo que se uma criança não manifesta interesse nenhum por aprender, significa que está doente ou, melhor, que a sociedade onde ela se insere está moribunda ou já a castrou.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31614, 4 de setembro de 2018, p.16)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A Madeira continua a ser um jardim


A Madeira continua a ser um jardim

Já visitei a ilha da Madeira por quatro vezes, sempre com objetivos diferentes. Por razões profissionais, para troca de experiências no âmbito da Educação Ambiental, numa visita integrada num Projeto INTERREG, como integrante de um Curso sobre Património Cultural e Natural, destinado a professores, promovido pelo Centro Nacional de Cultura, em viagem turística e, por último, para participar no lançamento de um livro sobre o Jardim José do Canto.

Se me perguntassem que razões apresentava para aconselhar uma visita à Madeira, apontava as seguintes: o património natural, os trilhos pedestres, os jardins, o património cultural, a sua Biblioteca Pública e Arquivo Regional e a Livraria Esperança.

No que diz respeito ao património natural e à sua conservação, não vou referir-me à riqueza dos seus endemismos. Neste texto, apenas, quero realçar o trabalho hercúleo de reflorestação com espécies autóctones no maciço montanhoso do Pico do Areeiro, realizado pela Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal.

Tendo já participado há alguns anos, como voluntário, numa sessão de plantação, este ano tive a oportunidade de visitar uma parte da área intervencionada e de conhecer o Campo de Educação Ambiental do Cabeço da Lenha onde a associação tem instalações e onde também faz plantações.

Relativamente aos jardins, poderia enumerar vários cuja visita deve ser obrigatória, como o Jardim da Quinta do Palheiro Ferreiro, o Jardim Botânico da Madeira, o Jardim Tropical Monte Palace, o Jardim da Quinta da Vigia, a Quinta Jardins do Lago e o Jardim da Quinta da Casa Branca.

Na recente visita, estive nos últimos três jardins referidos, onde tive a oportunidade de ver plantas que para mim eram totalmente desconhecidas. Embora recomende uma visita a todos, destaco o Jardim da Quinta da Casa Branca que para além do jardim propriamente dito, possui uma área agrícola com bananeiras, papaeiras, abacateiras e maracujazeiros e uma pequena horta de plantas aromáticas.

Na Quinta da Casa Branca, hotel botânico, entre as mais de 260 espécies que podem ser observadas no jardim, destaco a árvore da canela (Cinnamomum verum), a macadâmia (Macadamia integrifólia), o pau-brasil (Paubrasilia echinata), a coralina-crista de galo (Erythrina crista-galli), a planta-dos-dentes (Plumeria rubra var. acutifólia), a chama-da-floresta (Spathodea campanulata), a palmeira azul (Brahea armata) e a árvore-das-salsichas (Kigelia africana).

Em relação ao património religioso/arte sacra, aberto a crentes e não crentes, recomenda-se uma visita à Sé do Funchal que possui uma cruz processional que é considerada um dos melhores exemplares da ourivesaria manuelina ou à Igreja do Colégio, um bom exemplo de templo jesuíta, cuja capela-mor possui um retábulo que é “uma das joias da talha madeirense”.

O que mais me encantou na última visita à Madeira foi, sem sombra de dúvidas, a Livraria Esperança que visitei todos os dias em que esteve aberta.

Localizada no centro do Funchal, a Livraria Esperança que é a maior livraria de Portugal e “uma das maiores livrarias do Mundo” possui “mais de 20 salas num espaço de cerca de 1200 m2 e mais de 107 000 livros diferentes expostos de capa.”

Criada em 1886 por Jacinto Figueira de Sousa, a partir de 1991, a livraria que se encontra informatizada, passou a pertencer à Fundação Livraria Esperança, uma Instituição Particular de Solidariedade Social que destina metade das receitas à oferta de livros às crianças da Madeira.

O leitor açoriano, na Livraria Esperança, pode encontrar muitos livros editados nos Açores ou sobre os Açores que hoje não estão disponíveis entre nós. A título de exemplo, refiro que encontrei um livro sobre Alice Moderno, que não tive a oportunidade de adquirir noutro local, vários livros da autoria do Marquês de Jácome Correia e o livro de Manuel Ferreira intitulado “As voltas que Santa Clara Deu”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31608, 28 de agosto de 2018, p. 16)

sábado, 25 de agosto de 2018

Em defesa da Reserva Natural da Lagoa do Fogo


Em defesa da Reserva Natural da Lagoa do Fogo

Da criação da Reserva Natural e dos atropelos ao longo dos tempos

A preocupação com a degradação da natureza não é recente, tendo ao longo dos tempos várias vozes se erguido a apelar e a exigir a sua conservação. Em termos de entidades oficiais, a nível mundial, podemos considerar que 1972 foi um ano em que se deram os passos mais importantes com a realização, em Estocolmo, da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano.

Aquele evento, onde foi criado o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), e aprovada a Declaração do Ambiente que foi considerado por John McCormick como “o acontecimento isolado que mais influiu na evolução do movimento ambientalista internacional” e onde “o pensamento progrediu das metas limitadas de proteção da natureza e conservação dos recursos naturais para a visão mais abrangente da má utilização da biosfera por parte dos humanos”.

Em Porttugal, por aquela altura, foram tomadas algumas medidas para a conservação da natureza que se estenderam aos Açores, como foi a criação no Faial e no Pico de “duas zonas de reserva integral, de acordo com a defesa da Natureza e das espécies florestais existentes”, a zona da Caldeira e a Montanha do Pico.

Na sequência daquela decisão governamental, o jornal Correio dos Açores, em 1972, lançou um apelo, para que a Lagoa do Fogo não fosse esquecida, nos seguintes termos:

“…acode-nos ao bico da pena o caso especial da nossa Lagoa do Fogo, de longa data a carecer de igaul medida ministerial, na justa defesa da sua beleza primitiva à volta de um conjunto panorâmico que importa salvar integralmente e enquanto é tempo”.

Há 46 anos, a visão profética do Correio dos Açores parece que se está a concretizar hoje com o aumento do fluxo turístico para a Região. Assim, a criação da Reserva da Lagoa do Fogo e de outras em várias ilhas, segundo o jornal, destinava-se a potegê-las “da mão do homem” e da “sua fúria por vezes tão destruidora como criminosa”, evitando assim as consequências do facto dos Açores irem “ser considerados como zona prioritária no sector do turismo”.

Criada em 1974, o que tem sido feito até hoje, em que a área está integrada no Parque Natural da ilha de São Miguel, tem sido quase só a mudança da lesgislação, adequando-a às alterações que ocorrem noutras paragens.

Ao longo dos tempos, desde a sua criação, a Reserva Natural da Lagoa do Fogo tem assistido a um conjunto de atropelos à sua integridade enquanto área destinada prioritariamente à salvaguarda dos ecossistemas, características naturais ou espécies de flora e fauna.

Não sendo exaustivos, registamos, a seguir, alguns exemplos onde a atuação das entidades foi de autorização, conivência ou inação:

- A plantação de extensas matas de criptoméria;
- A apanha de “leiva” para o cultivo do ananás;
- Associada à extracção de leiva, a propagação das espécies exóticas e invasoras como a Clethra arborea, a Leycesteria formosa, a conteira, a silva, o pica-rato e o gigante.
- A plantação de vastas áreas de eucaliptos na encosta Sul, nomeadamente no Pico da Praia;
- A tentativa, concretizada, de ajardinar e plantar ornamentais, como azáleas, cedros, hortênsias na encosta Sul, por parte dos Serviços Municipais de Ponta Delgada;
- O pastoreio por cabras e as queimadas provocadas por cabreiros;

Com a redução dos preços das viagens aéreas, o turismo tem crescido, nos últimos anos, na ilha de São Miguel e com ele, para além dos bem-vindos benefícios para a economia local, surgem os problemas associados à sobrecarga humana das zonas visitadas, entre as quais as mais sensíveis, as áreas protegidas.

Nada que não fosse de esperar, mas que o governo regional, uma vez mais, não quis ou não foi capaz de, atempadamente, tomar medidas para não depenar ou mesmo matar a nossa galinha dos ovos de ouro, o património natural dos Açores.

No caso da Lagoa do Fogo, pensamos que tem havido algum desnorte, quando, por exemplo, houve uma, não pensada, candidatura da praia ao concurso das Sete Praias Maravilhas de Portugal para pouco depois proibir “banhos e natação” ou quando se estabeleceu um prazo, muito alargado, para que um grupo de trabalho apresente medidas para regular o acesso à lagoa e conservar a qualidade da água.

De uma recente visita

No passado dia 22, acompanhado de familiares, uma das quais, em 1981, havia feito parte do percurso comigo, decidi descer à Lagoa do Fogo, contornar as suas margens e caminhar até Água d’ Alto, passando pelo percurso pedestre das Quatro Fábricas da Luz.

Começando pelo trilho que liga o miradouro à lagoa, verifico que há uma grande alteração no trajeto. Com efeito, há alguns anos quase não havia necessidade de escadas, pois o mesmo serpenteava aproveitando as curvas de nível. Hoje, com as escadas ter-se-á diminuído a distância, mas tornado tanto a subida, como a descida mais difíceis para quem não tenha uma boa condição física. Além disso, se se pretende oferecer qualidade a quem nos visita, o estado em que se encontram os degraus é deplorável e mesmo perigoso. Assim, alguns estão partidos e outros com desníveis muito altos e com ferros espetados, resultado da falta de manutenção e da erosão provocada pela água das chuvas que não foi devidamente desviada.

No que diz respeito à vegetação, verifico uma maior presença de espécies exóticas, algumas delas invasoras, entre elas destaco as conteiras. Também, não faz qualquer sentido, para além de ser ilegal, se a lei fosse para ser cumprida por todos sem exceção, uma pequena plantação de criptomérias existentes no inicio do trilho.

Na zona das Captações de Água, que é mantida pelos Serviços Municipalizados de Ponta Delgada, verifiquei que se continua a não perceber a diferença entre uma Reserva Natural e um Jardim. Com efeito, se aqueles serviços ajardinam muito bem as zonas onde mantêm as suas captações, na Reserva Natural deviam respeitar a legislação e não introduzir exóticas, como azáleas e hortênsias e muito menos penachos, uma terrível espécie invasora que facilmente domina a vegetação herbácea e arbustiva. Como só detetamos a presença de duas plantas, sugerimos a sua retirada antes que as mesmas se propaguem, o que tornará, mais tarde, difícil e cara a sua erradicação.

O aumento das espécies invasoras mostra que o combate às mesmas não passou de conversa para encher papel ou de meras ações pontuais, como aconteceu nesta reserva em 2009, quando foi contratada uma associação ambientalista para fazer o combate às mesmas, como reação a algumas ações de limpeza de infestantes organizadas pela efémera Liga dos Amigos da Lagoa do Fogo.

Por último, uma referência à fiscalização e à educação ambiental ou à ausência das mesmas. É lamentável que quando por quase todo o lado se construíram Centros de Interpretação, alguns megalómanos, a Reserva da Lagoa do Fogo tenha ficado no esquecimento e que a educação ambiental que já teve melhores dias nos Açores tenha desaparecido.

A par da prioritária educação ambiental, esta Reserva precisa de uma fiscalização permanente, sobretudo nos meses em que o número de visitantes é maior.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31607, 26 de agosto de 2018, pp. 6 e 7)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A Junta de Freguesia deseduca


A Junta de Freguesia deseduca

A Junta de Freguesia do Pico da Pedra parece que, também, já aderiu à onda de deseducação ambiental. Com efeito, ignorando a chamada política dos três Rs que coloca como primeira prioridade a redução da produção de resíduos, depois a sua reutilização e em terceiro lugar a reciclagem, num folheto editado por ocasião do 183º aniversário da criação da freguesia a única menção que é feita é a seguinte: “Cultive esta ideia” e “Reciclar fica mais bonito”.

Mais recentemente, chegou-nos à caixa de correio um desdobrável elaborado por um conjunto de jovens do Programa OTL- J onde aquela ideia errónea é reafirmada.

Não vamos dar importância à gralha existente no texto, onde aparece “conselho” em vez de “concelho”, mas achamos que deveria ter havido uma revisão do mesmo antes da sua distribuição.

No que diz respeito à mensagem, continuamos a reafirmar que está errada e aproveitamos para afirmar que a luta contra o aquecimento global, que agora virou moda, mas nada se faz, só será consequente se as palavras forem complementadas pelos atos.

É contraditório querer contribuir para uma eficiente gestão dos resíduos quando se utiliza apenas uma página de uma folha. O correto seria usar as duas páginas com um bom texto informativo ou a apresentação de uma paginação diferente, utilizando menos papel.

Pico da Pedra, 23 de agosto de 2018

T.B.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O PICO DA CRUZ


O PICO DA CRUZ

Na freguesia do Pico da Pedra havia a tradição da subida ao Pico da Cruz, elevação com 366 m de altitude, situada a sul da localidade.

O Pico da Cruz localiza-se na zona central da ilha de São Miguel, na denominada Plataforma dos Picos que está encaixada entre o Maciço das Sete Cidades e o Maciço de Fogo. Nesta plataforma, o ponto mais alto é a Serra Gorda, com 485 m de altitude.

O Pico da Cruz encontra-se coberto por vegetação variada, com destaque para eucaliptos, criptomérias e acácias. Na sua base situa-se uma das mais interessantes grutas da ilha de São Miguel que apresenta o teto em forma de mãos postas.

Uma das últimas iniciativas em que participei, com a intenção de escalar o Pico da Cruz, realizou-se no dia 10 de junho de 2016, promovida pela Junta de Freguesia do Pico da Pedra. Na ocasião, para desilusão da maioria dos participantes não foi possível atingir o ponto mais alto, em virtude do trilho se encontrar obstruído.

No dia 4 de junho de 1988, depois de uma visita à Gruta do Pico da Cruz, onde foi possível observar junto à sua entrada uma orquídea muito bonita e rara, que nunca mais observei em São Miguel, o bico-de-queimado (Serapias cordigera), fizemos uma tentativa falhada para subir ao Pico da Cruz.

Se não me falha a memória, a última vez que consegui atingir o cume do Pico da Cruz, foi no dia 12 de fevereiro de 2004, num dos passeios pedestres, integrantes do projeto “Conhecer para Proteger”, organizados pelos Amigos dos Açores- Associação Ecológica.

Se é verdade que todos os caminhos vão dar a Roma, não é menos verdade que o melhor trilho que nos conduz ao cimo do Pico da Cruz localiza-se na propriedade da família Cordeiro que, aquando da visita organizada pelos Amigos dos Açores, para além de prontamente ter autorizado a passagem pela sua propriedade, também ofereceu aos participantes um espetáculo equestre.

Se o leitor fizer uma pesquisa, facilmente encontrará referências e relatos de visitas efetuadas ao Pico da Cruz.

O Padre António Furtado de Mendonça (1864-1940) nas suas “Memórias da Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres do Lugar do Pico da Pedra”, no ano de 1913, escreveu o seguinte:

“…E para que nada falte, a quem se quer deleitar com boas vistas o pico da Cruz, tão próximo d’esta freguesia, sendo um dos mais elevados de toda a ilha, proporciona n’uma tarde de verão um dos mais agradáveis passeios pelas duas extensas faixas do litoral da ilha, que d’alli se descobrem, pelos lados norte e sul.”

A melhor descrição, que conhecemos, de uma visita ao Pico da Cruz deve-se a Sebastião Carlos da Costa Brandão de Albuquerque (1833-1927), Visconde do Ervedal da Beira, que em 1894 foi colocado no Tribunal da Relação dos Açores.

No seu livro “Narrativas Insulares”, recentemente editado pela Letras Lavadas Edições, podemos ler o seguinte:

“De Ponta Delgada, avista-se muito bem, é um dos muitos cabeços que mais se destacam dos outros pela altura e isolamento em que se acham, mas a maior parte das pessoas ignora os tesouros que ele põe à sua disposição; ninguém vem dizer ao forasteiro, suba aquele outeiro, que não perde o seu tempo, suba que vê de lá dois mares; se olhar para sul divisa ao longe a ilha de Santa Maria…mais para cima encontra a grande e formosa Vila da Ribeira Grande no meio de arvoredos, encantadora pela alvura das suas habilitações e edifícios e pela sua situação e posição de esplendor.”

O leitor impossibilitado de subir ao Pico da Cruz poderá obter um panorama semelhante se subir a “torre” existente no Pinhal da Paz.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31602, 21 de agosto de 2018, p.14)
Fotografia: Amigos dos Açores, 2005

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O LEGADO DE JOSÉ DO CANTO



O LEGADO DE JOSÉ DO CANTO

Muito já se escreveu sobre o legado de José do Canto para a sociedade açoriana, contudo penso que ainda muito há a pesquisar para conhecermos a fundo o homem multifacetado que ele foi.

José do Canto, em criança, sonhou ser médico, na juventude queria estudar botânica e, ao contrário do que pretendia, acabou por se matricular em Matemática. Tendo desistido da frequência universitária para casar com sua prima Maria Guilhermina, acabou por ser gestor de uma empresa agrícola de sucesso e um botânico amador, isto é, que amava o que fazia.

Sobre o seu amor ou a sua paixão pelas plantas escreveu: “… mas o que me restabeleceria completamente ao meu antigo vigor seriam umas férias absolutas…ver e examinar as plantinhas, classificá-las, descobrir algumas novas que, introduzidas, possam ser úteis ou elegantes…”

José do Canto não se distinguiu, apenas, pelo contributo que deu ao desenvolvimento da agricultura, sobretudo através da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. Com efeito, também, se preocupou com o ensino/educação, tendo sido membro ativo da Sociedade dos Amigos das Letras e Artes, instituição que criou várias escolas primárias em diversos locais da ilha de São Miguel, apoiou instituições de solidariedade como o Asilo da Infância Desvalida e o Hospício de Maria Tereza, cujas instalações mandou construir em memória de sua irmã D. Maria Teresa do Canto que faleceu num desastre, em 1857.

Ainda no que diz respeito à sua preocupação para com os mais desfavorecidos, José do Canto por diversas vezes teve intervenção durante as crises dos cereais, no sentido de impedir a subida dos preços dos alimentos essenciais à sua subsistência.

Relativamente às artes/letras, José do Canto foi um mecenas que apoiou os estudos de Marciano Henriques e custeou a publicação de livros de Bulhão Pato, de Feliciano de Castilho e de Gomes de Amorim. Como bibliófilo José do Canto deixou-nos uma biblioteca camoniana que é considerada, pelo Professor universitário Justino Mendes de Almeida, um “monumento imperecível”.

José do Canto foi também coautor de estudos importantes, como a “Memória sobre a possibilidade e utilidade da construção de um molhe em Ponta Delgada”, tendo na luta pela construção da doca, segundo ele, perdido anos de vida.

José do Canto teve uma pequena participação política, tendo presidido à Junta Geral. Contudo, tendo, em 1852, sido proposto para se candidatar a deputado, recusou. Na ocasião escreveu um pequeno texto intitulado “Aos micaelenses que pretendiam eleger-me deputado”.

Para despertar a curiosidade para a sua leitura, aqui vai um pequeníssimo extrato sobre a caracterização da sociedade do seu tempo:

“Uma dívida pública enorme, impossível de pagar na totalidade, e que só com o pagamento dos juros dessagra o país, e extinguirá em pouco tempo o seu numerário ..;

“Os homens públicos, sem fé, nem honestidade, os cidadãos honestos, poucos em número, e sem a força ou energia de suplantarem os que abusam da sua cordura;

Termino, com uma citação de um texto que o Dr. Eugénio Pacheco, professor, republicano e autonomista, escreveu aquando do seu falecimento:

“Recordemos apenas que, apesar dos seus méritos, José do Canto tinha a rara virtude da modéstia. Desprezou todas as honras e jamais se armou à popularidade. Podendo aspirar a muito alto, circunscreveu-se apenas a bem servir a sua Pátria. O seu desprendimento de vaidades assinalou-se primeiro no opúsculo em que rejeitou a candidatura de Deputado por este círculo e realizou-se depois em toda a sua vida. Das mercês que lhe quiseram conferir aceitou unicamente a de sócio da Academia Real das Ciências porque nessa eleição ia um preito ao seu querido Camões. Nobre e grandioso exemplar de vida prestante e pura!”

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31597, 14 de agosto de 2018, p. 12)