sexta-feira, 15 de março de 2013

Por uma nova política


Correio dos Açores, 15 de Março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

O currículo oculto dos manuais escolares


O currículo oculto dos manuais escolares

“Minha avó queria que eu me educasse, por isso jamais me deixou ir à escola” (Margaret Mead)
A Comissão da Educação Ecológica da rede espanhola “Ecologistas Ecologistas en Accíon” editou, em 2006, um livro intitulado “Estudio del curriculum oculto antiecológico de los libros de texto”.
O estudo consistiu na análise de 60 manuais escolares, da quase totalidade das disciplinas e das principais editoras de Espanha, usados no 6º curso de Ensenanza Primária (6º ano de escolaridade) e no 1º de Bachillerato (9º ano de escolaridade).
Segundo os autores do relatório, de um modo geral, os livros de texto apresentam uma visão do mundo que, para além de legitimar a forma como atualmente este está organizado, também legitima todos os procedimentos do sistema produtivo que estão a levar ao agravamento da grave crise ecológica que atinge todo o planeta.
Nos manuais espanhóis quando são apresentadas soluções para a resolução dos problemas ecológicos, curiosamente ou talvez não, as que são mencionadas são precisamente as que os causaram ou que foram responsáveis pelo seu agravamento, como mais mobilidade, mais tecnologia, mais energia e mais distância.
Além do mencionado, a ciência e a técnica são apresentadas como vacas sagradas que resolverão todos os problemas, ignorando por completo os seus impactos.
Desconheço se, em Portugal, alguma associação ambientalista ou ecologista fez algum estudo sobre os manuais escolares usados nas nossas escolas e tenho quase a certeza absoluta que um estudo deste tipo nunca foi feito nos Açores, tanto pelas associações como por qualquer outra entidade, como a Universidade dos Açores.
Embora por várias vezes tenha pensado em analisar, em pormenor, todos os manuais da disciplina que leciono, a falta de tempo tem-me impedido de o fazer e até ao momento tenho-me limitado a fazer todas as leituras necessárias para poder fazer a sua escolha sempre que sou chamado a dar a minha opinião.
Curiosamente, sempre que o meu grupo disciplinar é convocado a escolher um manual escolar, a primeira coisa que faço é ver todas as referências aos Açores e verificar se as mesmas são corretas ou não. Quando surgem afirmações incorretas sobre os Açores ou mesmo fotografias mal legendadas fico logo com vontade de os eliminar da lista dos manuais adotáveis e escrevo às respetivas editoras a apontar as falhas e a sugerir a correção das mesmas, nem sempre com sucesso.
Este ano letivo, à medida que vou usando o manual e vou consultando outros usados noutras escolas, tenho deparado com aspetos que foram muito bem identificados pelo estudo que referi no início deste texto e que se resumem na transmissão da crença de que a ciência é capaz de resolver todos os problemas sociais.
Como um dos temas que tem sido alvo de algum debate, pelo menos na ilha de São Miguel, tem sido o da gestão dos resíduos sólidos urbanos que até há pouco tempo eram tratados com profissionalismo, a oitocentos euros por reunião para cada um dos doutos intervenientes, redobrei a minha atenção e com grande curiosidade fui ver como era tratado o assunto da energia e se havia alguma ligação entre a abordagem desta e a questão dos resíduos.
Em relação às energias renováveis o manual em questão trata o assunto pela rama e sem nunca falar nos Açores apresenta uma foto de uma fumarola, com a legenda “central geotérmica”, e uma foto da central ondomotriz do Pico, com a legenda “central de marés e ondas”.
No que diz respeito ao uso racional da energia a primazia é dada às melhorias da tecnologia e apresenta como exemplo de reutilização o bombear a água das centrais hídricas de volta para as albufeiras e “aproveitar as mesmas redes de água para fins agrícolas”. Não há dúvida que, para além de ser um exemplo de duvidosa aplicação nos Açores, ignora que sempre que há transferência de energia há uma parte dela, por vezes a maior, que se dissipa.
Talvez com medo de usar o vocábulo incineração ou por mera falta de espaço, o manual apresenta como exemplo de fonte de energia renovável os resíduos sólidos urbanos, esquecendo-se de que na sua composição existem materiais derivados de recursos naturais finitos ou que estão a ser extraídos descontroladamente.
Não satisfeitos com a desinformação, os autores, para reforçar o que antes afirmaram, apresentam um exercício onde pedem aos alunos para indicarem a percentagem de energia renovável produzida na ilha Madeira. Como seria de esperar a resposta correta, para os autores, é a que inclui a energia produzida pela incineradora.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2747, 13 de Março de 2013, p.13)

terça-feira, 5 de março de 2013

Padres

sexta-feira, 1 de março de 2013

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Espírito Aventureiro dos Açorianos



O ESPÍRITO AVENTUREIRO DOS AÇORIANOS

A leitura de vários estudos sobre a emigração açoriana, entre os quais os da autoria de Sacuntala de Miranda, com destaque para os publicados na sua obra “A Emigração Portuguesa e o Atlântico”, esclarece-nos acerca das principais causas que levaram muitos açorianos a emigrar.

Ao contrário do espírito aventureiro do povo açoriano, descendente dos temerários portugueses que percorreram o mundo em verdadeiras cascas de nozes que era um dos principais argumentos usado pelos “historiadores” do Estado Novo, a verdade verdadeira é que, como muito bem escreveu Sacuntala de Miranda, a fuga dos Açores foi e ainda é feita essencialmente por todos “aqueles que não vislumbram, dentro da pátria, oportunidades de fugir à fome, à miséria, à obrigação do serviço militar e …aos castigos de uma natureza madrasta e imprevisível que, de um momento para o outro, os fustiga com intempéries e terramotos devastadores”.

Mas não era necessário a leitura para sabermos que a esmagadora maioria das pessoas não abandonou os Açores porque estava cansada de cá estar e decidiu ir respirar outros ares. Com efeito, basta enumerarmos a lista de todas as pessoas que cada um conhece para se chegar à conclusão que quem saiu de cá foram, sobretudo, as pessoas que pouco ou nada tinham e que viviam muito mal, ainda por cima numa altura em que o chamado estado social nem miragem era.

A emigração é um “fenómeno” que atingiu todas as localidades dos Açores e a maioria das famílias açorianas.

No caso da minha freguesia, a Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, não sei se haverá alguma família que não tenha um dos membros a viver no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos e no Canadá.

No meu caso, tenho um irmão a viver nos Estados Unidos da América e dos três irmãos de meu pai, que foi emigrante no Canadá durante dez anos, dois deles emigraram e uma delas não emigrou, mas o seu marido também esteve vários anos no Canadá. Do lado da minha mãe, dos quatro irmãos, dois foram emigrantes e um deles ainda vive nos Estados Unidos da América.
Antes deles, que emigraram no século XX, sei que um bisavô meu andou pela Califórnia, nos últimos anos do século XIX, a trabalhar, em condições miseráveis, na criação de gado. Segundo relatos de alguns familiares, dormia nos armazéns onde guardavam o alimento para as vacas.

A meio da década de oitenta do século passado estive nos Estados Unidos e tive a oportunidade de conhecer um pouco da realidade da comunidade açoriana a viver em várias cidades e foi com satisfação que verifiquei que todos eles viviam, pelo menos materialmente, muito melhor do que em Vila Franca do Campo.

A grande maioria deles não pensava em regressar aos Açores pois os seus filhos e netos estavam todos lá e já não existiam quaisquer outros laços, familiares ou propriedades, que os fizessem pensar de outra forma. Alguns deles, meus colegas de infância, recusavam-se a cá vir mesmo passar alguns dias de férias, tal era a sua revolta pela miséria em que viveram e pela fome que cá passaram.

Tal como em todos os Açores, foram percentualmente muito poucos os emigrantes da Ribeira Seca de Vila Franca que regressaram e destes, alguns acabaram por já não se adaptarem cá e voltaram a partir.

Regressaram definitivamente à Ribeira Seca, sobretudo alguns dos primeiros emigrantes do sexo masculino que deixaram cá as suas famílias e que emigraram com o objetivo de ganhar algum dinheiro para adquirirem casa própria e comprar terrenos ou aumentar a área das pequenas propriedades rústicas que já possuíam.

Estou convencido de que com as dificuldades que muitos açorianos estão a sentir e que, tudo leva a crer, se agravarão este ano, se as portas da emigração se abrissem iniciar-se-ia mais um ciclo emigratório a juntar aos anteriores.

O desemprego para além de ter levado algumas pessoas a ter de recorrer ao conhecido “Rendimento Mínimo”, está a fazer com que outras regressem aos países onde já estiveram emigrados e a que muitos jovens, sobretudo os que têm habilitação superior, saiam do país.

Porque me custa a assistir ao subtil regresso às condições de vida existentes no Estado Novo, se tivesse menos idade, fazia o mesmo. Hoje, a suspirar pela aposentação, seria uma autêntica aventura.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 27365, 27 de Fevereiro de 2013)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A escola devagar, devagarinho, a caminho do abismo



A Escola devagar, devagarinho, a caminho do abismo

Não é novidade nenhuma dizer que, por mais voltas que já tenham sido dadas, a escola, tal como toda a sociedade em que vivemos vai caminhando lenta mas firmemente para o abismo. É, talvez pelo facto do processo não ser abrupto e por não atingir todos ao mesmo tempo que a sociedade se vai adaptando às dificuldades e não reage.
O grosso dos participantes nas manifestações de descontentamento não é composto por quem está a passar por mais dificuldades, entre elas, nalguns casos fome, mas por quem ainda está a trabalhar e a ver os seus salários e direitos sociais a serem reduzidos ou mesmo anulados.
No caso das escolas, a reação aos sucessivos cortes nos salários dos docentes são sempre recebidos com uma resignação de quem estava à espera de que fosse pior, no caso dos que estão em escalões mais altos na carreira docente, e de “paciência” pelos mais novos, pois para eles já é muito bom estarem a trabalhar.
Com as escolas com muitos frequentadores e com poucos alunos dignos desse nome, os docentes não têm outro remédio senão serem de tudo um pouco, desde pais, mães, psicólogos, confessores, etc., restando pouco tempo, em algumas aulas para transmitirem conhecimentos, que deveria ser a sua principal missão, já que a educação devia vir do berço.
A grande inovação do chamado currículo regional é assunto que não merece ser debatida, pelo menos nos intervalos entre as aulas, pois se para uns foi uma ideia peregrina, para todo o professor digno deste nome, nascido nos Açores ou que tenha adotado esta região para viver, os recursos e as vivências da nossa terra nunca foram olvidados.
Com os alunos a serem sujeitos a provas de avaliação nacionais, depois da esperteza saloia de experimentarem provas regionais que foram um fiasco nalguns casos, apesar de serem supervisionadas por nomes sonantes, não sabemos para que serve o arremedo de currículo regional se não houver a coragem de exigir uma “janela” em termos de horas a ele dedicadas.
Não é integrados num todo nacional, com autonomistas serôdios ou que vivem de joelhos ou de mão estendida, que se poderá reivindicar um espaço para a nossa história e para as nossas especificidades culturais.
Mas, se a formação das gerações mais novas está comprometida porque alguns desvalorizam a escola de tal modo que nada querem aprender, também passou a estar comprometida a chamada formação contínua dos docentes.
Depois de alguns anos em que, obrigatoriamente, todos os docentes tiveram que frequentar ações de formação para poderem “subir” na suas carreiras, a malfadada crise veio dar uma machadada final na formação contínua dos docentes. Com efeito, circula nos corredores a notícia da extinção dos Centros de Formação das Associações de Escolas, as principais entidades formadoras dos educadores e dos professores do ensino básico e secundário.
Se é verdade que algumas, muito poucas penso eu, das formações promovidas pelos Centros não satisfaziam os docentes, sobretudo por não serem específicas das disciplinas ou dos grupos disciplinares dos mesmos, não é menos verdade que se tal ocorreu deveu-se essencialmente à falta de disponibilidades de formadores e à exiguidade dos orçamentos com que os mesmos eram dotados.
Para além da “brilhante” medida, que está a ser tomada já há algum tempo, de considerar como formação a presença dos docentes em conferências, colóquios, jornadas ou outros eventos afins, não consigo descortinar que solução encontrará a tutela para disponibilizar formação aos professores.
Com a afirmação anterior não quero dizer que não se aprende nada naquele tipo de eventos, mas se até agora era difícil conseguir formação específica, a partir deste momento, para alguns grupos disciplinares vai ser quase impossível.
Não gastando muito mais palavras, vai passar-se dos oito para os oitenta. A estupidez dos testes que eram exigidos por alguns formadores ou entidades formadoras vai dar lugar ao facilitismo de, para se ter um certificado, bastar assinar um boletim, acompanhado ou não de uma taxa de inscrição, e nalguns casos à assinatura de uma folha de presenças. Certificados de presença, sem que os seus detentores ponham os pés nos eventos, também não irão faltar.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 27359, 20 de Fevereiro de 2013, p.13)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Tortura não pode ser património da Graciosa


Touradas como património Cultural Imaterial da Graciosa? Não, Obrigado.
Não fique indiferente- Entre em ação

A mesa da Assembleia Municipal de Santa Cruz da Graciosa pretende que que a Tauromaquia seja considerada Património Cultural e Imaterial do Município de Santa Cruz da Graciosa.
Escreva aos autarcas da Graciosa para que votem contra.

Pode usar o texto abaixo ou personalizá-lo a seu gosto.


Para: geral@cm-graciosa.pt, amscg@cm-graciosa.pt, amscg@cm-graciosa.pt


Bcc: matp.acores@gmail.com, acoresmelhores@gmail.com, amigosdosanimaisdailhagraciosa@gmail.com, geral@radiograciosa.com, luiscosta.rtp@gmail.com,



Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal da Graciosa
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal de Santa Cruz da Graciosa

A Assembleia Municipal de Santa Cruz da Graciosa reúne em sessão ordinária na próxima segunda-feira, 25 de Fevereiro, às 20h30, para discutir e votar uma proposta da Mesa da Assembleia Municipal para que a Tauromaquia seja considerada Património Cultural e Imaterial do Município de Santa Cruz da Graciosa.
A iniciativa em questão não tem nada de original, pois não é mais do que a cópia do que tem sido feito, em vários municípios onde a indústria tauromáquica teima em persistir.
Considerando que as touradas em nada contribuem para EDUCAR os cidadãos e cidadãs para o respeito para com os animais, para além de causarem sofrimento aos mesmos e porem em risco a vida das pessoas e dos próprios animais, não se coadunando com os valores humanistas do mundo de hoje, considera-se que a proposta de classificar as touradas como património cultural imaterial, a ser aprovada, uma mancha no bom nome dos cidadãos da Graciosa e um golpe no turismo de qualidade tão importante para uma ilha que está cada vez mais isolada no contexto regional.
Com os melhores cumprimentos

(Nome)