sábado, 3 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PONTA GARÇA


Coisas de Ponta Garça


Ponta Garça, com 29,38 km2 de área, é uma das seis freguesias do concelho de Vila Franca do Campo. Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra dá-nos uma explicação para o seu nome: “…A que chamaram os antigos descobridores Ponta Garça por lhe parecer de longe garça ou vulto o ar que lhe aparecia, da outra parte, branco como ela, por um buraco ou vão que a mesma ponta tem na rocha”.

Na minha juventude visitei várias vezes a freguesia de Ponta Garça, sobretudo durante as festas de Nossa Senhora da Piedade e no Carnaval onde, na companhia de um primo, mascarado visitava algumas famílias, entre as quais a de uma prima minha que hoje está emigrada.

Mais tarde, já adulto, quase todos os anos fazia o percurso pedestre entre a Gaiteira e a Ribeira Quente e mais tarde entre a Praia da Amora e a Ribeira Quente.

Em 2007, no âmbito da Associação Amigos dos Açores, quando colaborei na elaboração do roteiro do percurso pedestre “Ponta Garça – Ribeira Quente” da autoria de Rita Gomes Sousa, fiquei com a curiosidade de conhecer melhor a freguesia e partilhar alguma da informação recolhida.

Neste texto, darei a conhecer a descrição feita, por um ilustre visitante, acerca da penosa subida da Gaiteira que era feita por quem se deslocava de Vila Franca para as Furnas.

De igual modo, farei menção a um texto da autoria de Armando Cortes-Rodrigues sobre Gonçalo Vieira, segundo alguns o maior cantador popular de São Miguel do seu tempo.

1-   Gaiteira


Hoje, se é relativamente fácil subir a Gaiteira pois temos ao nosso dispor veículos motorizados, antes dos mesmos estarem ao nosso dispor era tarefa bastante difícil e cansativa. 

De acordo com o relato de Briant Barrett, na sua obra S. Miguel no Início do Século XIX, aquando de uma visita a esta ilha: “...as subidas e descidas inclinadas que fazíamos preparavam-nos ainda para outras, pelas quais teríamos de passar até que finalmente chegamos ao Monte da Gaiteira. Tendo eu pouca disposição para andar a pé, continuei sentado no meu burro, até me aperceber que este não me podia transportar mais, apesar dos esforços que o meu burriqueiro, rapaz preto e robusto, tentava fazer empurrando-o por detrás. Apeei-me consequentemente e escalei a montanha a pé, por cerca de uma milha. Esta era em certas partes mais inclinada do que muita escadaria”.

2 - Gonçalo Vieira

De acordo com o Dr. Armando Cortes-Rodrigues, distinto escritor e etnólogo açoriano, natural de Vila Franca do Campo, o “Tio Gonçalo Vieira” era natural do Burguete da Lomba da Maia e casou em Ponta Garça, onde viveu e veio a falecer com 82 anos de idade.

Sobre o local onde morava em Ponta Garça, na altura onde viveu constituída por “pouco mais do que uma rua, muito comprida e sinuosa, com casas de um lado e outro, dizia o cantador:

Se fores à Ponta Garça,
Perguntar pelo Vieira,
Mora pr’a cá da Furada,
Defronte de uma Figueira

Para além de participar em diversas folias do Espírito Santo, Gonçalo Vieira animou diversas cantorias ao desafio. É dele a autoria da quadra, abaixo transcrita, de agradecimento a uma oferta recebida por ocasião de um peditório que era feito pelos mordomos que percorriam todas as portas da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo:

A mesa que nos pusestes
De toalhas estendidas
As almas do purgatório
Vos ficam agradecidas

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31 de Julho de 2013)

terça-feira, 30 de julho de 2013

domingo, 28 de julho de 2013

quinta-feira, 25 de julho de 2013



RAZÕES DA MINHA CANDIDATURA


Nasci na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo no seio de uma família de camponeses e lavradores. Vivi a minha infância e juventude num meio bastante humilde, onde a pobreza extrema afetava algumas famílias que foram obrigadas a emigrar em busca de uma vida melhor.

Com 17 anos assisti ao 25 de Abril que para além de ter determinado o fim de um regime autoritário terá suscitado a esperança de uma vida melhor para todos. Na altura pensava que os partidos políticos representavam diferentes classes, estratos sociais ou ideologias políticas e que cada um à sua maneira procurava o melhor para o país.

Pertenci a partidos políticos, colaborei com outros na minha qualidade de independente, nas eleições autárquicas votei na esquerda, no centro ou na direita, dependente dos respetivos candidatos e neste momento encontro-me completamente desiludido, pois cheguei à conclusão de que os partidos servem essencialmente os seus dirigentes, que para além de procurarem protagonismo, servem-se do poder para encontrar soluções para os seus problemas pessoais, os da sua família ou os dos seus amigos.

Hoje, dou a cara por uma candidatura independente à Assembleia Municipal de Vila Franca do Campo, porque acho que a democracia, mesmo a representativa, não deve nem pode ser exclusiva dos partidos que pela sua ação encontram-se desacreditados.

Também dou a cara por Vila Franca do Campo porque considero que o concelho merece uma melhor gestão, ao serviço dos munícipes e não dos caprichos de alguns.

Por acreditar que a democracia só existe se houver a participação efetiva de todos em tudo o que diz respeito à causa pública e como estou desiludido com todos os que se dizem meus representantes, candidato-me, numa lista de independentes à Assembleia Municipal de Vila Franca do Campo, na certeza de que não quero representar ninguém, mas sim ser a voz de todo os que me fizerem chegar as suas preocupações e os seus anseios.

Vila Franca merece melhor.
ALGUNS DADOS BIOGRÁFICOS


- Nasceu na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, onde frequentou a respetiva Escola do 1º Ciclo.
- Frequentou o Externato de Vila Franca, tendo sido o melhor aluno do 5º ano (atual 9º ano), no ano letivo 1972-1973.
- É bacharel em Ciências Físico- Químicas/ Matemática, pela Universidade dos Açores.
- Possui o Curso de Estudos Superiores Especializados em Administração Escolar (equiparado a Licenciatura) pelo Instituto Superior de Educação e Trabalho do Porto.
- É mestre em Educação Ambiental, pela Universidade dos Açores.
- Exerceu o cargo de Vice- Presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária das Laranjeiras.
~Foi presidente do Conselho Executivo, do Conselho Pedagógico e da Assembleia de Escola da Escola Secundária da Ribeira Grande.
- É professor de Física e Química na Escola Secundária das Laranjeiras.
- Foi diretor da Agência Regional da Energia da Região Autónoma dos Açores.
- Foi presidente da direção da Cooperativa de Consumo do Pico da Pedra.
- Foi presidente dos Amigos dos Açores- Associação Ecológica.
- É membro de várias associações de defesa do ambiente e dirigente de associações de Protecção dos Animais.
- É autor e coautor de diversas publicações nas áreas da energia, do ambiente e do pedestrianismo, de que se destacam alguns roteiros de percursos pedestres no concelho de Vila Franca do Campo.
- Proferiu diversas comunicações em conferências e workshops, algumas das quais promovidas pelas Escola EBI de Vila Franca do Campo e Escola Profissional de Vila Franca do Campo.
- Na qualidade de membro dos Amigos dos Açores foi um dos redatores da proposta de classificação das Lagoas do Congro e dos Nenúfares como áreas protegidas.

- Foi e é colaborador de várias revistas e jornais, entre os quais A Vila, Terra Nostra e Correio dos Açores.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A ATUALIDADE DE ALDO LEOPOLD



A ATUALIDADE DE ALDO LEOPOLD

Na procura de respostas para ultrapassar a situação em que nos encontramos, vários autores apontam a incapacidade ou insuficiência da ética tradicional para responder às questões levantadas pela atual crise, advogando a necessidade do homem adotar uma nova ética na sua relação com os outros e com o planeta.

Aldo Leopold (1887-1948), engenheiro florestal norte-americano, é um nome incontornável quando se fala de ética ambiental, sendo “Pensar como uma Montanha” (tradução portuguesa de A Sand County Almanac), para alguns autores, o “livro mais importante alguma vez escrito”.

Na primeira parte de “Pensar como uma Montanha”, Aldo Leopold apresenta, mês após mês, um registo das suas observações (e reflexões a propósito do que via e das alterações que aconteciam) sobre a região onde passava os fins de semana com a família numa quinta que recuperou a que chamava A Choupana. Na segunda parte do livro, é-nos apresentado um conjunto de capítulos de índole mais filosófica “deste engenheiro dos bosques e das planícies, que soube ver mais fundo que a esmagadora maioria dos filósofos profissionais do seu tempo” (Soromenho-Marques).

Em todo o livro perpassa a ideia da grande importância do contacto com a natureza, para o homem poder viver em harmonia com a terra e com os outros homens. Os seguintes extratos, elucidam bem o atrás exposto: 

“Há dois perigos espirituais em não possuir uma quinta. Um é o perigo de supor que o pequeno-almoço vem da mercearia, e o outro que o calor vem da caldeira.”

“Choramos apenas aquilo que conhecemos. O desaparecimento do Silphium do oeste da circunscrição de Dane não é caso para luto se o conhecermos apenas como um nome num livro de botânica.”

 Outra das questões abordadas é a da educação e do ensino que, de acordo com Emanuel Medeiros, docente da Universidade dos Açores, para além “de ser uma tarefa de lucidez e um compromisso com a verdade”, tem de “desenvolver a interdisciplinaridade, no contexto escolar, e o diálogo interpessoal em todos os contextos educativos”. A propósito da educação e dos professores escreveu Leopold:

“A educação, é esse o meu receio, consiste em aprender a ver uma coisa tornando-nos cegos para outra”.

“Cada um deles [professores] seleciona um instrumento e passa a vida a separá-lo dos outros e a descrever-lhe as cordas e teclados….Um professor pode tanger as cordas do seu próprio instrumento, mas nunca as de um outro, e se conseguir ouvir a música nunca deverá admiti-lo junto dos seus pares ou dos seus alunos. Pois todos estão coibidos por um tabu férreo que decreta que a construção dos instrumentos é do domínio da ciência, ao passo que a deteção da harmonia é do domínio dos poetas”.

 Há cerca de 60 anos, Aldo Leopold já considerava desequilibrado “um sistema de conservação da natureza baseado apenas no interesse económico próprio” porque tendia a “ignorar, e por isso eventualmente a eliminar numerosos elementos da comunidade da terra desprovidos de valor comercial, mas que são (tanto quanto sabemos) essenciais para que ela funcione saudavelmente” e acrescentava que as instituições de educação para a conservação não ensinavam nenhuma obrigação ética para com a terra.

No mais conhecido e debatido texto de Pensar como uma Montanha intitulado A Ética da Terra, Leopold, depois de referir que “a relação com a terra é ainda estritamente económica, implicando privilégios mas não obrigações”, afirma que “a ética da terra apenas alarga os limites da comunidade de forma a incluir nela os solos, as águas, as plantas e ou os animais, ou, coletivamente: a terra”

Com a ética da terra, não é impedida a alteração e gestão do solo, das águas, das comunidades vegetais ou dos animais mas é alterada a postura do homem que deixa de ser conquistador e passa a ser membro de uma comunidade alargada.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2853, 24 de Julho de 2013, p.16)

quinta-feira, 18 de julho de 2013



Democracia moribunda
1-    A escola não educa
Durante grande parte da minha vida, acreditei que com o tempo a democracia, instaurada com o golpe militar de vinte e cinco de Abril de 1974, se aperfeiçoaria, que as gritantes desigualdades económicas e sociais se esbateriam e que a escola seria um dos principais instrumentos para a concretização do sonho de uma vida melhor para todos os seres humanos.
Hoje, passados trinta e nove anos, a minha desilusão é total e, tal como muitas outras vozes que se têm manifestado, considero que a democracia representativa está esgotada, que os partidos políticos, sem exceção, estão desacreditados, que os cidadãos foram lenta e progressivamente levados, pelas elites que nos têm governado, à apatia e ao descrédito.
Os partidos políticos que deveriam representar classes sociais, correntes de opinião ou ideologias políticas descaracterizaram-se e hoje parecem-se mais com autênticos sacos de gatos, de várias cores e raças, juntos quase e tão só para satisfazer clientelas e para promoção pessoal de dirigentes, de familiares e amigos chegados.
A escola com as diversas disciplinas que vai tendo, como Desenvolvimento Pessoal e Social, Educação para a Cidadania, etc. poderia ter dado um contributo para fazer com que a democracia representativa deixasse de ser apenas a rotina periódica de votar ciclicamente em pessoas que por vezes não têm quaisquer escrúpulos em prometer o que não podem cumprir, em não ouvir as pessoas que dizem representar e em “roubar” o dinheiro de todos os contribuintes.
Mas, ao contrário do que seria de esperar a escola pouco fez ou faz porque  mais não é do que o reflexo da sociedade e, se tal como sem ovos não se fazem omeletes, também sem democratas convictos não se pratica a democracia. Basta estarmos atentos aos acontecimentos dos últimos tempos para percebermos que maus exemplos são transmitidos pelas escolas, desde associações de estudantes que são correias de transmissão, a tomadas de posição de órgãos de gestão, que a comunidade escolar toma conhecimento pelos órgãos de comunicação social, até à existência de um órgão, a Assembleia de Escola, que não ausculta a opinião da comunidade educativa e que não presta contas do seu trabalho a ninguém.
2-   As eleições autárquicas em contexto de deseducação
Embora descrente, pois sinto que os meus representantes nunca cumpriram com o que deles esperava e não querendo ser representante de ninguém, decidi envolver-me nas próximas eleições autárquicas,
Pelos contatos que tenho tido com conhecidos e desconhecidos, tenho-me apercebido de que, a par de um desinteresse generalizado por parte da grande maioria que não acredita em ninguém, há pequenos grupos de pessoas que agem como se os partidos políticos fossem clubes de futebol ou, pior do que isso, fossem agências de emprego.
No que se refere a candidaturas ou candidatos, é possível assistir a um pouco de tudo, de modo que a participação numa determinada lista não depende dos projetos ou das ideologias das forças partidárias, mas dos previsíveis ganhos pessoais que possam ser alcançados para si ou para familiares, dos conflitos pessoais tidos com os cabeças das listas por que concorreram em eleições anteriores ou mesmo pela ordem por que foram convidados.
Sobre este último ponto, convém esclarecer que as pessoas disponíveis são muito poucas pelo que muitas delas já receberam convites por parte de todas as candidaturas já anunciadas e de outras que irão surgir em breve, pelo que, estando as cabeças vazias de projetos e de vontade de servir o bem comum, o critério para a sua participação é o de aceitar o primeiro convite que receberam.
A propósito de bem comum, parece que é objetivo que anda completamente arredado da cabeça de muitos. A título de exemplo, conheço um candidato a presidente de uma junta de freguesia que contatado por uma outra lista, depois de agradecer o convite e de mostrar que se sentia honrado com o mesmo, declarou que já havia sido abordado por outros, mas que estava à espera de saber o teor do convite (ou melhor que cargo lhe seria oferecido), pois considerava que já havia sido presidente da respetiva junta mas que a freguesia era muito pequena pelo que o projeto não o motivava.
Como a pessoa referida surge como primeiro candidato à assembleia da freguesia em causa, fico, sentado, à espera de saber que outra oferta lhe terá sido feita.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2847, 17 de Junho de 2013, p. 13)