quinta-feira, 8 de agosto de 2013



Andar a pé, regressar à terra

São diversas as razões que poderão ser apresentadas para justificar o facto das pessoas, tendo a possibilidade e os meios de viajar sem fazerem esforço físico, o fazerem cada vez mais usando os próprios pés.
Muitas vezes é por iniciativa própria, outras vezes por recomendação médica, como forma de combater o sedentarismo induzido pelo estilo de vida que é seguido pela grande maioria das pessoas (bem) integradas nas sociedades atuais.
Mas, mais do que “queimar gorduras”, andar a pé pode ser, como foi para Henry David Thoreau (1817-1862), um dos grandes vultos da cultura norte americana e um dos inspiradores do movimento naturalista, uma forma de “sentir e comunicar com uma inteligência pura e subtil que ultrapassa o pobre saber do homem comum”.
Thoreau, que vivia num perpétuo e constante desejo de mergulhar a cabeça em atmosferas que os seus pés desconheciam, não se sentia bem se ficasse sem fazer uma boa caminhada num único dia.
Para Thoreau a caminhada não era um simples exercício físico pelo que ele recomendava que se caminhasse “como um camelo, que segundo dizem, é o único animal que rumina enquanto caminha”.
Tal como Thoreau que chegou a viver mais de dois anos numa pequena cabana construída junto a um lago, onde cultivou a terra, observou a natureza, caminhou e escreveu, Aldo Leopold (1887-1948) também aproveitou o isolamento de uma quinta adquirida pela família para fazer observações e escrever muitos textos.
Aldo Leopold, desde criança demonstrou um interesse muito grande pela observação da fauna, sobretudo pelas aves e da flora, tendo passado muito tempo da sua vida a aventurar-se por bosques e pradarias que na altura estavam quase em estado selvagem.
De acordo com Martins Ferro, “para Leopold, o que é importante no usufruto da natureza não é propriamente o troféu de caça ou o «consumo» dos espaços naturais. Na era da mecanização, o «entusiasmo» pela natureza (todo-o-terreno, motas de água, armas de fogo) pode tornar-se numa força destruidora, e isso podemos nós constatá-lo diariamente. O que é importante, para o grande conservacionista, é o enriquecimento da perceção”.
Leopold que defendia o regresso à terra justifica-o do seguinte modo:
"A capacidade de apreender o valor cultural da natureza selvagem reduz-se, em última análise, a uma questão de humildade intelectual. O homem moderno de mente artificial, que perdeu o seu enraizamento na terra, julga que descobriu já o que é importante; ele é do género de palrar de impérios, políticos ou económicos, que hão-de durar mil anos. Só o estudioso compreende e aprecia que toda a história consiste em sucessivas excursões a partir de um único ponto de partida, ao qual o homem regressa uma e outra vez para organizar mais uma busca com vista a uma escala de valores. Só o estudioso compreende por que razão a crua natureza selvagem confere nitidez e significado à aventura humana."

A bióloga e escritora norte-americana Rachael Carson (1907-19649) era adepta das caminhadas e costumava fazê-las na companhia de seu sobrinho Roger, mesmo em dias de chuva. Para ela “os prazeres duradouros do contacto com o mundo natural não são reservados aos cientistas mas encontram-se ao alcance de quem quer que se coloque sob a influência da terra, do mar e do céu e da sua assombrosa vida”.

Para a autora de “Primavera Silenciosa”, “explorar a natureza com uma criança resume-se em grande parte a sermos recetivos a tudo o que nos rodeia. A reaprender a usar os nossos olhos, os ouvidos, as narinas, as pontas dos dedos, desobstruindo os abandonados e mal usados canais das impressões dos sentidos”

Por último uma breve referência a Antero de Quental que também gostava de caminhar.
O grande poeta açoriano, pelo menos durante o período em que frequentou a Universidade de Coimbra, entre 1856 e 1864, adorava fazer longas caminhadas na companhia de amigos. Manuel de Arriaga conta que “Antero era a alma viva, o ponto de convergência das nossas discussões, o mais dileto dos nossos companheiros” nas “largas excursões pelos arredores de Coimbra, Buçaco, Figueira, Senhor da Serra e Lousã”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2865, 7 de Agosto de 2013)


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

domingo, 4 de agosto de 2013

Ambiente e desporto

sábado, 3 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PONTA GARÇA


Coisas de Ponta Garça


Ponta Garça, com 29,38 km2 de área, é uma das seis freguesias do concelho de Vila Franca do Campo. Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra dá-nos uma explicação para o seu nome: “…A que chamaram os antigos descobridores Ponta Garça por lhe parecer de longe garça ou vulto o ar que lhe aparecia, da outra parte, branco como ela, por um buraco ou vão que a mesma ponta tem na rocha”.

Na minha juventude visitei várias vezes a freguesia de Ponta Garça, sobretudo durante as festas de Nossa Senhora da Piedade e no Carnaval onde, na companhia de um primo, mascarado visitava algumas famílias, entre as quais a de uma prima minha que hoje está emigrada.

Mais tarde, já adulto, quase todos os anos fazia o percurso pedestre entre a Gaiteira e a Ribeira Quente e mais tarde entre a Praia da Amora e a Ribeira Quente.

Em 2007, no âmbito da Associação Amigos dos Açores, quando colaborei na elaboração do roteiro do percurso pedestre “Ponta Garça – Ribeira Quente” da autoria de Rita Gomes Sousa, fiquei com a curiosidade de conhecer melhor a freguesia e partilhar alguma da informação recolhida.

Neste texto, darei a conhecer a descrição feita, por um ilustre visitante, acerca da penosa subida da Gaiteira que era feita por quem se deslocava de Vila Franca para as Furnas.

De igual modo, farei menção a um texto da autoria de Armando Cortes-Rodrigues sobre Gonçalo Vieira, segundo alguns o maior cantador popular de São Miguel do seu tempo.

1-   Gaiteira


Hoje, se é relativamente fácil subir a Gaiteira pois temos ao nosso dispor veículos motorizados, antes dos mesmos estarem ao nosso dispor era tarefa bastante difícil e cansativa. 

De acordo com o relato de Briant Barrett, na sua obra S. Miguel no Início do Século XIX, aquando de uma visita a esta ilha: “...as subidas e descidas inclinadas que fazíamos preparavam-nos ainda para outras, pelas quais teríamos de passar até que finalmente chegamos ao Monte da Gaiteira. Tendo eu pouca disposição para andar a pé, continuei sentado no meu burro, até me aperceber que este não me podia transportar mais, apesar dos esforços que o meu burriqueiro, rapaz preto e robusto, tentava fazer empurrando-o por detrás. Apeei-me consequentemente e escalei a montanha a pé, por cerca de uma milha. Esta era em certas partes mais inclinada do que muita escadaria”.

2 - Gonçalo Vieira

De acordo com o Dr. Armando Cortes-Rodrigues, distinto escritor e etnólogo açoriano, natural de Vila Franca do Campo, o “Tio Gonçalo Vieira” era natural do Burguete da Lomba da Maia e casou em Ponta Garça, onde viveu e veio a falecer com 82 anos de idade.

Sobre o local onde morava em Ponta Garça, na altura onde viveu constituída por “pouco mais do que uma rua, muito comprida e sinuosa, com casas de um lado e outro, dizia o cantador:

Se fores à Ponta Garça,
Perguntar pelo Vieira,
Mora pr’a cá da Furada,
Defronte de uma Figueira

Para além de participar em diversas folias do Espírito Santo, Gonçalo Vieira animou diversas cantorias ao desafio. É dele a autoria da quadra, abaixo transcrita, de agradecimento a uma oferta recebida por ocasião de um peditório que era feito pelos mordomos que percorriam todas as portas da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo:

A mesa que nos pusestes
De toalhas estendidas
As almas do purgatório
Vos ficam agradecidas

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31 de Julho de 2013)

terça-feira, 30 de julho de 2013

domingo, 28 de julho de 2013