quarta-feira, 9 de outubro de 2013


Cinco anos sem Veríssimo Borges

Ontem, dia 8 de Outubro, fez cinco anos que Veríssimo de Freitas Borges nos deixou.

Já por diversas vezes escrevi sobre os nossos encontros e desencontros, sobre as batalhas que travámos juntos e sobre a enorme falta que faz à manta de retalhos que era o movimento ambientalista que, depois de um período de núpcias com o Governo Regional dos Açores, acabou por (quase) desaparecer do mapa.

Hoje, não pretendo repetir-me, mas aproveito a oportunidade para recordar algumas das questões que eram levantadas/contestadas por ele e que ainda não perderam atualidade, com destaque para a incineração de resíduos sólidos urbanos que contra ventos e marés parece que está a avançar com a cumplicidade/financiamento da EU, sempre hipócrita a “enviar” fundos sem se preocupar se os mesmos são ou não utilizados em investimentos reprodutivos. Também não poderia deixar cair no esquecimento a obra faraónica, pelos gastos envolvidos, cujo montante nunca se chegará a conhecer, da estrada para a Fajã do Calhau que parece não resistir à erosão de nem uma mão cheia de anos e que ele, em devido tempo, tão bem soube contestar.

Neste texto, tentarei recordar um pouco a intervenção política do Veríssimo Borges que não começou com a implantação da democracia a 25 de Abril de 1974. Para isso recorri-me a informações retiradas do livro “A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em outras ilhas açorianas” e ao que me lembro das conversas que com ele mantive ao longo de alguns anos, sobretudo depois da sua integração no movimento SOS-Lagoas, de que já fazia parte desde o início, e mais intensamente durante alguns meses em que frequentamos o mestrado de educação ambiental, na Universidade dos Açores.

Já Salazar havia caído da cadeira quando se realizaram eleições para o parlamento nacional, em 1969. Neste ano foi elaborada a “Declaração de Ponta Delgada”, da candidatura Independente às eleições para deputados, tendo como redator principal Ernesto Melo Antunes. Veríssimo Borges, então estudante, foi um dos subscritores da Declaração e durante as férias participou “em muitos actos de pré-campanha”. No mesmo ano, Veríssimo Borges, havia sido detido pela PIDE, no dia primeiro de Maio, no Rossio, por estar a distribuir panfletos sobre uma manifestação comemorativa do Dia do Trabalhador.

De esquerda, mas sem complexos, Veríssimo Borges era convidado e aceitava participar em iniciativas das mais diversas organizações partidárias, independentemente do seu posicionamento ideológico. Para ele, a ecologia não estava à esquerda nem à direita, estava em primeiro lugar.

 Um dia numa aula ministrada pela Doutora Ana Moura Arroz, quando estava em debate a participação cívica e política, os vários alunos expuseram as suas ideias e posicionaram-se face às várias correntes políticas e ideológicas, tendo o Veríssimo Borges dito que se considerava “anarquista autoritário”, o que não deixa de ser uma contradição para quem defende que a anarquia não é a desordem, mas a “ordem sem a coação”.

Já com a doença devidamente identificada, o Veríssimo quis participar em mais uma batalha, a de uma campanha eleitoral para a Assembleia Regional dos Açores, integrado numa lista do Bloco de Esquerda. A este propósito, cito abaixo uma sua “justificação” para o facto e para a aceitação de um convite por parte do Correio dos Açores:

“O diagnóstico de cancro incurável abriu-me o apetite para, no curto prazo, me dedicar à luta política pelo Ambiente e Desenvolvimento Sustentável no âmbito da Assembleia Legislativa e respectivas Comissões. Para tal basta ser eleito, à boleia de açorianos suficientes, já que o Bloco de Esquerda honrosamente me cedeu o 2º lugar das suas listas, com total garantia de independência.
Com esta mesma independência aceitei, sem interferência partidária, o convite do Correio dos Açores para ir publicando (à margem das campanhas eleitorais) uma sucessão de artigos representativos de outras tantas iniciativas a que pretendo dar prioridade na minha acção parlamentar.”

O Veríssimo não venceu a batalha eleitoral, nem a batalha da doença, mas nunca desistiu. Por isso está sempre ao meu lado e estará sempre presente entre nós.


Teófilo Braga


(Correio dos Açores, nº 2918, 9 de Outubro de 2013, p.16)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Embora alguém já tenha decretado o fim da história e outros o fim das ideologias o certo é que, embora ache que não têm razão, por vezes fico com muitas dúvidas.
O que ouço mais, hoje em dia, por parte de alguns comentadores que se reclamam de direita é que não faz qualquer sentido falar na divisão entre esquerda e direita. Por outras palavras, o seu sonho é que a chamada esquerda desaparecesse do mapa e que todo o mundo adotasse um pensamento único, o deles.
Para a maioria da chamada esquerda, sobretudo para a que vive, com a direita, sob o manto ou guarda-chuva estatal, as ideologias ainda existem, mas para não amedrontar o cidadão mal informado ou desinformado o melhor é deixar cair todas as referências aos pais do socialismo ou mesmo da social-democracia.
Para quem acompanha, ao longe e de fora, a vida dos partidos políticos, nos Açores, desde o 25 de Abril de 1974, é fácil perceber as mudanças que ocorreram ao longo dos tempos.
Já, em texto anterior, referi que o PPD/PSD começou por se afirmar social – democrata e que hoje muitos dos seus militantes nem sabem o que é isto ou mesmo estão, pelo menos ideologicamente, frontalmente em oposição a qualquer política que pretenda conciliar o capital e o trabalho. 
Tempos houve em que, tal como nalguns partidos marxistas-leninistas que evocavam os seus mentores, Marx e Lenine, no Partido Social-Democrata os candidatos a qualquer cargo interno mencionavam a sua fidelidade aos princípios do seu fundador, o Dr. Francisco Sá Carneiro, que alguns consideravam como populista e outros como um defensor da social-democracia adaptada ao contexto da sociedade portuguesa.
Se fosse vivo hoje e se consultasse as redes sociais, Sá Carneiro indignar-se-ia ao ler afirmações de alguns militantes do PSD que não escondem as suas afinidades com o pensamento do ditador de Santa Comba Dão, pois ele, embora tenha sido eleito deputado pelo partido único, desenvolveu esforços, sob a ditadura, para a transformar num regime democrático e não o tendo conseguido teve a coragem de resignar ao cargo.
O Partido Socialista que começou por se anunciar como marxista, mas defensor de um socialismo em liberdade, e que no seu primeiro congresso apresentou um programa arrojado, diria mesmo que mais avançado do que o do Partido Comunista Português foi, com o passar do tempo, deixando cair as suas bandeiras e hoje, pelo menos nos Açores, é constituído por gente cuja única preocupação parece ser a de ocupar lugares no aparelho de estado, proveniente de todos os quadrantes políticos e partidários.
Não tenho a mínima ideia se os seus militantes ainda se reclamam do socialismo em liberdade ou da social-democracia ou se são daqueles que acham que as ideologias acabaram e o que há a fazer é governar a contento dos poderosos, distribuindo umas migalhas aos mais desfavorecidos para que, com alguma caridade, não se chegue a qualquer revolta.
Disse revolta pois as revoluções não estão na ordem do dia e as que existiram no passado falharam ou foram traídas pelos vencedores ou por quem a elas se juntou com o único objetivo de açambarcar privilégios.
Não menciono aqui o CDS/PP pois continua igual a si mesmo, pelo menos nos Açores. A nível nacional, a par da rejeição do centrismo, distingo as guinadas à “esquerda” dos seus ex-líderes Prof. Freitas do Amaral e Dr. Basílio Horta, tendo este passado de armas de bagagens para a salada russa que é o Partido Socialista.
O PCP e o BE, pelo menos nos Açores, suponho que perderam qualquer veleidade revolucionária e limitam-se a tentar melhorar o regime, defendendo com as suas propostas e a sua ação, aparentemente (ou não?), muito centrada na atividade parlamentar, algo semelhante a uma social-democracia.
Com uma população desmotivada e cansada de tantas promessas que são esquecidas logo a seguir às tomadas de posse, independentemente das cores partidárias, a chamada democracia representativa parece que está esgotada e não se vislumbra qualquer alternativa mais “democrática” que concilie maior participação cidadã e uma distribuição mais equitativa da riqueza criada.
No horizonte, só vislumbro mais autoritarismo e mais injustiça social. Oxalá esteja enganado.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2900, 18 de setembro de 2013, p.16)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Notas para a história da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo



Notas para a história da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo

A Ribeira Seca é a mais recente freguesia do concelho de Vila Franca do Campo, apesar da localidade ter sido habitada desde os primeiros tempos do povoamento da ilha de São Miguel.
Sem tempo para aprofundar os assuntos, neste texto vou divulgar um conjunto de episódios que ocorreram na Ribeira Seca ao longo dos tempos, na esperança de que alguém mais jovem e com outra formação se interesse pelo assunto e elabore uma monografia da localidade.
Desconhece-se a data da construção da Ermida de São João, sabendo-se que é anterior a 1522, data em que um “terramoto” soterrou parte de Vila Franca do Campo.
Em 1808, caiu uma pedreira na Ribeira Seca, tendo falecido duas pessoas, uma delas Arsénio de Sousa Batata.
Tal como aconteceu com a sede do concelho, a Ribeira Seca foi uma das primeiras localidades de São Miguel a possuir iluminação elétrica, o que aconteceu em 1901.
Em 1906, o jornal “O Autonómico” noticiava a construção de um fontenário na Rua da Cruz. Segundo o jornal tratava-se de um “melhoramento necessário e de máxima utilidade para os moradores d’ali e imediações”.
Em 1920, por decisão do presidente da Câmara Municipal, José Bento de Melo, foi criada, na Ribeira Seca, uma comissão encarregada de combater a peste bubónica através da desratização e saneamento geral. A comissão era composta por Manuel Carreiro Braga, António de Medeiros Agostinho e Jacinto Furtado Vinhateiro. Na altura, por cada rabo de rato grande entregue, o portador recebia 125 reis, o mesmo acontecia por dois rabos de ratos pequenos.
Em 1922, foi aberto um talho de carne de vaca. Hoje, não existe nenhum.
Tal como aconteceu noutras localidades, em 1925 e 1926, a peste bubónica causou numerosas vítimas na Ribeira Seca.
Em 1929, caiu uma “bomba de água” que felizmente não causou prejuízos, o mesmo tendo ocorrido no local da Praia.
O primeiro telefone foi instalado na Ribeira Seca, em 1930, e deveu-se à iniciativa do comerciante José Matias de Andrade. O Autonómico referiu-se ao evento, nos seguintes termos: “O melhoramento é de importância para aquele lugar, pela utilidade que lhe traz, sendo por isso caso para felicitarmos os seus habitantes”.
Em 1931, uma chuva torrencial fez com que a ribeira trouxesse tanta água que inundou os terrenos circundantes e provocou grandes prejuízos num moinho, tendo os seus moradores corrido perigo de morte.
O antigo edifício escolar, situado na Calçada, começou a ser utilizado em 1934.
Em 1938, a Ribeira Seca possuía uma equipa de voleibol, o São Miguel. Para além daquele clube, também existiu na localidade outra esquipa de voleibol, o Ribeirense.
Em 1939, começaram os trabalhos de abertura da variante da estrada que atravessa a Ribeira Seca.
A atual escola do primeiro ciclo, ameaçada de fechar as portas, construída ao abrigo do Plano dos Centenários, começou a funcionar em 1962 e o nicho com a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi inaugurado em 1966.
Em 1964, a Câmara Municipal recebeu 50 500 escudos por parte do Ministro das Obras Públicas, como comparticipação relativa “à execução dos trabalhos de construção do caminho municipal entre a Ribeira Seca e a Lagoa do Fogo”. Felizmente, para a conservação da natureza, o caminho nunca chegou ao fim.
Em 1971, o vento derrubou um carvalho, propriedade do senhor Arcádio Teixeira. Para o serrar e carregar foi empregado o trabalho de 66 homens e para o transportar foram necessárias 14 furgonetas e 2 camiões de oito toneladas.
Em 1975, foi a Ribeira Seca, através dos professores da sua escola, que não deixou que a comemoração do São João fosse esquecida. Naquele ano, três marchas desfilaram no recreio da escola do primeiro ciclo.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2894, 11 de Setembro 2013, p.16)

domingo, 8 de setembro de 2013

Jogo Sujo

Vejam as tabelas constantes do texto publicado pelo Diário dos Açores.

Permitir candidaturas independentes que nunca poderão concorrer com os meios usados pelos partidos é fomentar uma "fraude".

É tudo um nojo.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Vinha da Areia



Ir a banhos

Nas férias, aproveito sempre para revirar e rever papéis velhos, onde por vezes encontro algumas preciosidades ou pelo menos algumas notícias curiosas.

Desta feita deparei com uma singular notícia publicada no jornal “O Autonómico”, de agosto de 1936. Antes de a comentar aqui vai ela:

“Por ordem da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, foi mandada construir uma escada na praia de banhos da Vinha d’Areia, que este ano tem estado animadíssima. Oxalá que a digna Comissão resolva mandar construir barracas para assim esta Vila ficar com uma praia de banhos condigna”.

Através do mesmo jornal, fiquei a saber que no final de agosto o melhoramento já estava concluído.
Agora, vamos aos comentários/ interrogações:

- Não é de agora que quem gere a coisa pública faz obras a destempo. Então, as obras em zonas balneares não deviam ser feitas antes do começo da época balnear?

- O que terá levado a que aquela praia, alguns anos depois deixasse de ser “pública” e passasse a ser “propriedade” de cidadãos franceses?

Na minha juventude, a referida praia era conhecida por Praia da Vinha d’Areia, pelo menos para quem era da Ribeira Seca, Ponta da Cabra, para os meus colegas da sede do concelho e também praia das Francesas, porque o acesso à mesma fazia-se a partir de uma propriedade pertença de uns franceses que tinham lá casa onde passavam o verão.

Lembro-me bem de minha mãe falar na dificuldade em chegar àquela praia, pois o trajeto a seguir era feito a partir da foz da Ribeira Seca, havendo a necessidade de percorrer cerca de 300 metros, alguns dos quais por cima de rocha.

Mais tarde, surgiram dois caminhos, um que é mais ou menos o atual e que percorríamos antes das francesas lá colocarem o portão ou contornávamos o mesmo, saltando por terrenos que confrontavam com a propriedade dos franceses, e outro que era feito a partir de uma entrada aberta pelo sr. Albano de Azevedo, localizada na Figueira do Casquete. Neste caso só com autorização do sr. Manuel Andrade ou quando tínhamos a certeza que ele lá não estava, saltando os muros.

Com o 25 de Abril de 1974, a situação não se alterou significativamente pois o pronunciamento militar, nos Açores, terá levado a alguma descompressão, mas traduziu-se essencialmente por uma tentativa de ocupação dos diversos cargos quer por parte dos chamados democratas quer por parte dos ex-adeptos do antigo regime,  que se converteram, pelo menos aparentemente, à democracia. No caso de Vila Franca do Campo, aconteceu que dentro da ANP- Ação Nacional Popular, o único “partido político” legal dos últimos anos do Estado Novo havia “cisões” e com o 25 de abril uma delas saiu por uma porta do edifício da Câmara Municipal e a outra entrou pela outra, pelas mãos dos democratas.

No que se refere à Praia da Vinha d’Areia lembro-me que a melhoria introduzida foi a divisão da praia em duas partes, a nascente, aberta ao público que continuava sem acesso digno, e a poente reservada às francesas e amigos.

Lembro-me de um episódio ocorrido, não me recordo se no Verão de 1974 ou no de 1975, em que eu e um grupo de amigos decidimos não respeitar a regra e fomos ocupar o lugar reservado às francesas.

Pensando que com o 25 de abril os privilégios injustos e injustificáveis tinham acabado e por não estarmos a perturbar ninguém, já que nem havia estrangeiros na praia, fomos surpreendidos com a presença de um guarda da PSP que exigiu a nossa retirada do local.

Como não foi capaz de nos demover e como não usou a força da arma de fogo que possuía, que era a única que nos inferiorizava, a solução encontrada foi a via do diálogo. Assim, fui convidado a acompanhá-lo para falar com “as francesas”.

Sempre com o máximo de civismo e respeito estive algum tempo a dialogar com as estrangeiras, que matreiras me fizeram uma proposta no mínimo desonesta e que foi a seguinte: a partir daquela data elas permitiam o meu acesso à praia, passando pela sua propriedade, tendo a possibilidade de usar os seus duches, desde que continuasse tudo na mesma.

Como é óbvio, para quem me conhecia e me conhece bem, recusei.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 4 de Setembro de 2013)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A propósito do Senhor da Pedra


A propósito do Senhor da Pedra

No final da década de sessenta e início da de setenta do século passado, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo a vida era muito difícil para a maioria dos seus habitantes que viviam essencialmente da agricultura e da pecuária.
Existiam quatro ou cinco pequenos agricultores e alguns pequenos lavradores, cerca de meia dúzia de comerciantes e algumas famílias com um dos membros emigrado que viviam um pouco melhor, isto é, como se dizia na altura, com muita fartura dos produtos da terra mas pouco dinheiro na algibeira.
A grande maioria trabalhava ao dia e os salários eram baixos, dando apenas para viver o dia-a-dia com muitas dificuldades que por vezes eram resolvidas temporariamente por empréstimos de familiares e amigos que possuíam um pouco mais.
A grande maioria das crianças, embora frequentasse a escola, não passava da quarta classe ou nem a ela chegava. No meu tempo, só prosseguiram estudos, os filhos de emigrantes, como era o meu caso, os filhos de funcionários públicos ou os filhos dos comerciantes.
Os cuidados de saúde eram muito precários, a maioria morria sem sequer ser identificada a doença. Sempre que alguém perguntava a razão da morte, a resposta era quase invariavelmente: “foi um malesinho”. No meio desta desgraça, o Dr. Simas lá ia salvando um ou outro do caminho certo para Santo Amaro.
Naquela altura, as festas religiosas e sobretudo a do Senhor da Pedra, que para nós crianças (creio que também para os adultos) que mal saíamos de Vila Franca, era maior e mais bonita que a do Santo Cristo, marcavam o calendário anual.
Era pelas festas, que em muitas casas entrava a carne de vaca, o pão de trigo, a massa sovada e o arroz doce. Para as crianças era pelo Natal e pelo Senhor da Pedra que recebiam algumas prendas/brinquedos.
Pelo Natal os rapazes recebiam harmónicas rudimentares, por vezes de plástico ou de material semelhante, cornetas, bolas e o sonho de muitos era ter no sapatinho um canivete ou pequena navalha que era um utensílio que todos os camponeses possuíam e que tanto servia para cortar o pão como instrumento de trabalho. As raparigas recebiam essencialmente bonecas sem qualquer comparação com as “barbies” de hoje.
Pelo Senhor da Pedra havia, para as crianças, dois dias especiais, o da compra dos brinquedos feitos em louça de barro, penso que era no próprio domingo da festa, e o do fogo preso que era na terça-feira, o último dia das festas.
Os “assobios” ou “apitos” eram oferta tanto para rapazes como para raparigas, mas enquanto estas recebiam miniaturas de utensílios usados na cozinha, como trempes, panelas, talhões e alguidares, os rapazes recebiam instrumentos ligados ao campo, como barris, funis, ou um burro com seirão.
Na terça-feira, as festas terminavam com uma batalha naval entre dois barcos colocados entre as escadas localizadas a sul da Igreja Matriz e o Jardim Antero de Quental, a qual era assistida por muito povo, tendo uma vista mais privilegiada os que se posicionavam nas escadas e no adro da referida igreja.
Para suportar as despesas da festa, nomeadamente o dinheiro despendido nos carrinhos de choque, nos carrocéis ou nos matraquilhos havia quem ia colocando as suas míseras poupanças, como algumas moedas recebidas a troco de algum recado, feitas ao longo do ano, em mealheiros de barro que eram partidos nas vésperas do Senhor da Pedra.
No meu caso, a solução encontrada seria nos dias de hoje classificada como empreendedora. Num terreno que a família possuía na Courela, situado na Ribeira Seca de Cima, os meus pais semeavam sécias que floriam um pouco antes do Senhor da Pedra. Estas sécias eram colhidas e postas à venda por uma tia minha que possuía uma casa cujo quintal confrontava com o terreno onde estavam as flores. As receitas obtidas eram divididas por mim, por meu irmão e por uma prima minha.
As poupanças que via fazer em casa e o aperto em que viviam as pessoas que conhecia faziam com que, apesar da pouca idade, refletisse muito sobre o assunto, de tal modo que era tão comedido com os meus gastos nas festas que em alguns dias voltava a casa sem ter gasto um só escudo.
Com este perfil, com certeza não sirvo para autarca já que para a maioria o que importa é esbanjar dinheiro, o que as autarquias têm e o que não têm.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 28 de Agosto de 2013)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Vila Franca do Campo no início do associativismo de conservação da natureza


Vila Franca do Campo no início do associativismo de conservação da natureza 
Parece que longe vão os tempos em que as associações ditas ambientalistas estavam no seu auge, quer em termos de ações no terreno, quer no que se refere à sua presença na comunicação social, tanto divulgando as atividades que iam realizando como denunciando situações anómalas.
Hoje, ao contrário do que seria de esperar por todos os que acreditavam que, com o decurso do tempo, a democracia seria cada vez mais participada e os cidadãos seriam mais ativos quer individualmente quer organizados em associações, cooperativas, etc., assiste-se a um definhar das mais diversas instituições que se vão mantendo graças à abnegação de muito poucos.
Há três anos escrevia que o movimento ambientalista nos Açores encontrava-se na fase da “instrumentalização e da prestação de serviços”. Esta fase foi marcada pela entrada do Partido Socialista para o governo, em 1996, a qual teve implicações positivas e negativas.
De positivo, destacou-se a colaboração entre as associações e a secretaria que tutelava o ambiente, tendo-se institucionalizado o financiamento público a todas as associações, o que criou condições para que estas crescessem em termos de implantação ou mantivessem as suas sedes abertas, como aconteceu com a Quercus.
A outra face, diria que negativa, foi a lenta transformação de algumas associações, que mantinham um perfil de intervenção mais político, em prestadoras de serviços, de que é exemplo a associação Amigos dos Açores, sobretudo com a gestão das Ecotecas de Ponta Delgada e da Ribeira Grande.
Outro aspeto negativo para as associações foi o esvaziamento de algumas delas, com a saída de alguns dirigentes que foram ocupar os mais diversos cargos quer no governo quer na Assembleia Legislativa Regional.
Infelizmente hoje, esta fase mantém-se e o esvaziamento parece que não foi estancado, assistindo-se à quase inatividade de grande parte das associações e as que se mantêm ativas têm as suas atividades reduzidas à componente recreativa ou à vertente desportiva.
Ao contrário do que por vezes se escreve, não foi o Centro de Jovens Naturalistas de Santa Maria nem a associação os Montanheiros as primeiras associações dedicadas à conservação da natureza nos Açores, mas sim o NPEPVS-DA-Núcleo Português de Estudos e Proteção da Vida Selvagem/Delegação dos Açores.
A associação “Os Montanheiros”, fundada em 1963, na ilha Terceira, tinha como objetivos iniciais a realização de atividades de ar livre e depois, durante muitos anos, a exploração de cavidades vulcânicas.
O Centro de Jovens Naturalistas de Santa Maria (CJN), cuja atividade foi mais intensa nas décadas de 70 e 80 do século passado, tinha, entre outros, como objetivos principais “iniciar os jovens nas coleções ou preparações com elementos diversos da História Natural”.

Foi sim o NPEPVS/Delegação dos Açores, que esteve em atividade em São Miguel, de 1982 a 1984, o verdadeiro herdeiro dos movimentos naturalistas surgidos no século XIX que se preocupavam com a evolução da civilização e pretendiam essencialmente preservar a natureza selvagem.

O NPEPVS/Delegação dos Açores que tinha, de acordo com os seus estatutos, como objetivo prioritário a proteção da natureza, em especial da fauna e da flora, teve a sua sede localizada na rua Padre Manuel José Pires, localizada na freguesia de São Pedro, pertencente ao concelho de Vila Franca do Campo.

Para a concretização daquele objetivo o NPEPVS-DA conseguiu organizar, na sua sede, um centro de documentação com diversas publicações e filmes sobre a vida de aves e lançou duas campanhas, uma em defesa das aves marinhas e outra para proteção das aves de rapina. Da mesma associação, destaca-se a edição de dois números (Primavera de 1983 e Inverno de 1984) do “Priôlo - Boletim para a Conservação da Natureza nos Açores”, onde para além dos temas ligados à conservação da natureza, continham artigos contra o uso da energia nuclear e sobre problemas ligados à vida em meios urbanos.

Tendo como principais dinamizadores e fundadores o francês Gerald le Grand e o vila-franquense Duarte Soares Furtado, que dirigia o boletim, colaboraram naquele, entre outros, os seguintes naturais de vila Franca do Campo: António Frias Martins, na altura Prof. Auxiliar Convidado da Universidade dos Açores, Maria Furtado, da então Divisão de Ambiente da SRES e Teófilo Braga, que para além de ser membro do NPEPVS-DA, também havia sido um dos fundadores do Grupo Luta Ecológica, com sede na ilha Terceira.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2871, 14 de Agosto de 2013, p.15)