quarta-feira, 23 de outubro de 2013



A Propósito de Homenagens

Um pouco por todo o lado, como forma de homenagear pessoas dá-se o seu nome a ruas, ruelas, canadas e becos. Também se usa escolher algumas pessoas que se tenham distinguido no campo da pintura, da ciência, da pedagogia, etc. para figurarem como patronos das escolas.
No caso das ruas, por vezes substituem uns nomes por outros ao sabor das vontades de quem governa, dos regimes políticos, neste caso para eliminar personalidades que serviram o apeado e substituí-las por outras. Também acontece atribuírem nomes de familiares ou recuperar nomes que se tivessem caído no esquecimento não viria mal ao mundo.
Há muitos casos caricatos, mas o que me vem à memória é o do presidente de uma Junta de Freguesia da ilha de São Miguel que propôs o seu nome para uma rua da sua terra. Felizmente o bom senso imperou e a brilhante intenção não passou disso.
Não sei como se processa a atribuição do nome das ruas em Vila Franca do Campo, mas nunca ouvi falar na existência de uma Comissão Municipal de Toponímia e caso exista desconheço a sua constituição.
De qualquer modo, com ou sem comissão, refiro a minha discordância para com a ânsia de atribuir nomes, a determinadas artérias do concelho, de “personalidades” que pouco ou nada fizeram para o merecer e que praticamente nada fizeram em prol do bem comum. O mencionado também se estende à atribuição de medalhas por ocasião do São João da Vila já que ao querer fazê-lo anualmente corre-se o risco de banalizar o ato e a certeza de distinguir quem nada fez para o merecer.
Estejam descansados porque não vou aproveitar o espaço disponível para apresentar os nomes das pessoas que já foram homenageadas e que, do meu ponto de vista, não o deviam ter sido. Não vou manchar a folha do jornal nem perder o meu tempo com isso.
Neste texto, vou retomar uma causa que já abracei há muitos anos e que não mereceu a devida atenção por parte do Secretário Regional da Educação e Cultura. Com efeito, em 1994, fui o primeiro subscritor de um abaixo-assinado que apelava para que fosse revista a decisão de atribuir o nome de Teotónio Machado de Andrade, que já havia sido homenageado e que já possuía uma rua com o seu nome, à Escola do Primeiro Ciclo da Ribeira Seca.
Não vou expor argumentos contra a opção que foi tomada, mas gostaria de perguntar se a simples passagem de um professor por uma escola é suficiente para que seja atribuído o seu nome à mesma?
Penso que está na altura de dar o seu a seu dono, pelo que a Escola Básica Escola Básica e Secundária de Vila Franca do Campo, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia da Ribeira Seca deviam estudar seriamente o assunto e atribuir o nome da escola a quem efetivamente foi pioneiro na dinamização de uma comunidade.
No mencionado abaixo-assinado os subscritores solicitavam que à escola fosse atribuído o nome do professor Eduardo Calisto Amaral, que “pelo seu trabalho e dedicação marcou profundamente não só os seus alunos e as várias gerações que por aquele estabelecimento passaram mas também a comunidade local que tão bem soube servir”.
Como o apelo caiu em saco roto e como não sou pessoa de desistir à primeira, volto outra vez ao assunto esperando que desta vez tenha mais sorte.
Passados quase vinte anos mantenho a proposta, mas com uma preocupação que tenho partilhado com uma colega minha, a de não ser injusto para com os restantes professores que tornaram possível que a Escola da Ribeira Seca tenha sido pioneira na tão falada, mas cada vez mais esquecida, ligação escola-meio.
Embora possa estar a cometer um erro que espero corrigir, fizeram parte da equipa do professor Eduardo Calisto Amaral, os seguintes docentes:
- D. Adelaide da Conceição Soares
- D. Ilda Cesarina Borges
- D. Ildebranda Matias
- Valter Soares Ferreira
- D. Zulmira Teixeira
Por último, deixo uma menção especial ao professor Valter Soares Ferreira que foi meu professor nos últimos dois anos da então denominada escola primária e que muita matemática me ensinou. O que sou hoje, também, a ele o devo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2930, 23 de Outubro de 2013, p.16)

terça-feira, 15 de outubro de 2013



Bento de Jesus Caraça
“Se não receio o erro é porque estou sempre disposto a corrigi-lo” (Bento de Jesus Caraça)
Deve se muito reduzido o número de pessoas que, entre nós, saberá que foi Bento de Jesus Caraça o que é uma pena, pois não estamos, apenas, perante um ilustre matemático, mas também face a um cidadão que lutou contra a ditadura que durante quase meio século governou Portugal e que desenvolveu esforços para que a ciência fosse entendida por quem menos instrução tinha.
Bento de Jesus Caraça, que nasceu em 1901, em 1924, licenciou-se pelo Instituto Superior de Ciências económicas e financeiras da Universidade Técnica de Lisboa e seis anos depois passou a catedrático. Em 1938 funda, com outros colegas, o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia que dirige até 1946, ano em que o referido centro foi fechado pelo Ministério da Educação.
Preocupado em fazer com que a ciência e a cultura não ficassem restritas a uma elite, Bento de Jesus Caraça, filho de trabalhadores rurais, promoveu um ímpar programa de divulgação que contou com dois grandes instrumentos: a Universidade Popular Portuguesa e a Coleção Cosmos, editada por aquela instituição, a qual editou “114 livros com uma tiragem global de 793 500 exemplares”.
A sua oposição à ditadura fez com que pertencesse a várias organizações, com destaque para a Liga Portuguesa Contra a Guerra e o Fascismo, a Frente Popular Portuguesa e o Movimento de Unidade Democrática (MUD).
Por ter sido um dos signatários do manifesto “O MUD perante a admissão de Portugal à ONU”, onde era exigida a democratização de Portugal como condição para a sua admissão naquele organismo, foi-lhe instaurado um processo disciplinar que levou à sua expulsão da Universidade, a 5 de Outubro de 1946, e à proibição de ensinar tanto em escolas públicas como em escolas privadas. Para sobreviver viu-se forçado a dar lições em casa.
Da sua vasta obra, que conheço apenas uma ínfima parte, destaco o livro “Conceitos Fundamentais da Matemática” que li e reli, com muito gosto, por mais de uma vez.

Recomendo, também, a leitura do texto da sua mais conhecida palestra intitulada “A Cultura Integral do Indivíduo, Problema Central do Nosso Tempo”, proferida em 25 de Maio de 1933, em Lisboa.
A mencionada conferência, bem como outras, como “Galileo Galilei, Valor científico e valor moral da sua obra”, “Escola Única”, “A Arte e a Cultura Popular” e “Aspectos do problema cultural português”, bem como outros textos, como “A luta contra a Guerra”, “A evolução da Física”, de Albert Einstein e Leopold Infield”, “Galileo e Newton” e “A matemática na vida dos homens” estão reunidas no livro “Conferências e Outros Escritos” editado pela primeira vez em 1970 e reeditado em 1978, aquando da passagem do trigésimo aniversário da sua morte.
Não tendo espaço suficiente para expor o seu pensamento, limitar-me-ei a apresentar alguns excertos de textos sobre vários assuntos.
Num texto, de 1932, sobre a guerra e sobre o estado do mundo, Bento de Jesus Caraça escreve o seguinte: “O mundo está, como estava em 1914, governado por homens inferiores, caricaturas de homens, e o que eles governam não é uma sociedade humana – é uma caricatura de sociedade humana. E será assim, enquanto homens novos não tomarem a direção do mundo para fazerem dele uma sociedade de homens livres.” Será, hoje, a situação muito diferente?
A seguir, sobre “odiada” matemática, Bento Caraça, em 1944, escreveu que a mesma estava a ganhar importância pois, encontrava-se a invadir a vida moderna e assistia-se a “uma matematização das ciências que dia a dia se tornam mais imprescindíveis aos homens” e acrescentava que a “rainha das ciências” estava a “tornar-se numa companheira democratizada e querida de todos nós”.
Por último, em 1946, Bento de Jesus Caraça, numa palestra intitulada “Aspectos do Problema Cultural Português” falou sobre o medo que se havia apoderado da “quase totalidade da população portuguesa” e que parece estar de volta ou então nunca nos abandonou por completo. Segundo ele, “a primeira coisa a fazermos para sermos gente é extrair o medo dos corações dos portugueses, fazendo deles homens generosos e fortes, libertos das grilhetas da mais aviltante das escravidões”.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2924, 16 de Outubro de 2013, p.16)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013


Cinco anos sem Veríssimo Borges

Ontem, dia 8 de Outubro, fez cinco anos que Veríssimo de Freitas Borges nos deixou.

Já por diversas vezes escrevi sobre os nossos encontros e desencontros, sobre as batalhas que travámos juntos e sobre a enorme falta que faz à manta de retalhos que era o movimento ambientalista que, depois de um período de núpcias com o Governo Regional dos Açores, acabou por (quase) desaparecer do mapa.

Hoje, não pretendo repetir-me, mas aproveito a oportunidade para recordar algumas das questões que eram levantadas/contestadas por ele e que ainda não perderam atualidade, com destaque para a incineração de resíduos sólidos urbanos que contra ventos e marés parece que está a avançar com a cumplicidade/financiamento da EU, sempre hipócrita a “enviar” fundos sem se preocupar se os mesmos são ou não utilizados em investimentos reprodutivos. Também não poderia deixar cair no esquecimento a obra faraónica, pelos gastos envolvidos, cujo montante nunca se chegará a conhecer, da estrada para a Fajã do Calhau que parece não resistir à erosão de nem uma mão cheia de anos e que ele, em devido tempo, tão bem soube contestar.

Neste texto, tentarei recordar um pouco a intervenção política do Veríssimo Borges que não começou com a implantação da democracia a 25 de Abril de 1974. Para isso recorri-me a informações retiradas do livro “A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em outras ilhas açorianas” e ao que me lembro das conversas que com ele mantive ao longo de alguns anos, sobretudo depois da sua integração no movimento SOS-Lagoas, de que já fazia parte desde o início, e mais intensamente durante alguns meses em que frequentamos o mestrado de educação ambiental, na Universidade dos Açores.

Já Salazar havia caído da cadeira quando se realizaram eleições para o parlamento nacional, em 1969. Neste ano foi elaborada a “Declaração de Ponta Delgada”, da candidatura Independente às eleições para deputados, tendo como redator principal Ernesto Melo Antunes. Veríssimo Borges, então estudante, foi um dos subscritores da Declaração e durante as férias participou “em muitos actos de pré-campanha”. No mesmo ano, Veríssimo Borges, havia sido detido pela PIDE, no dia primeiro de Maio, no Rossio, por estar a distribuir panfletos sobre uma manifestação comemorativa do Dia do Trabalhador.

De esquerda, mas sem complexos, Veríssimo Borges era convidado e aceitava participar em iniciativas das mais diversas organizações partidárias, independentemente do seu posicionamento ideológico. Para ele, a ecologia não estava à esquerda nem à direita, estava em primeiro lugar.

 Um dia numa aula ministrada pela Doutora Ana Moura Arroz, quando estava em debate a participação cívica e política, os vários alunos expuseram as suas ideias e posicionaram-se face às várias correntes políticas e ideológicas, tendo o Veríssimo Borges dito que se considerava “anarquista autoritário”, o que não deixa de ser uma contradição para quem defende que a anarquia não é a desordem, mas a “ordem sem a coação”.

Já com a doença devidamente identificada, o Veríssimo quis participar em mais uma batalha, a de uma campanha eleitoral para a Assembleia Regional dos Açores, integrado numa lista do Bloco de Esquerda. A este propósito, cito abaixo uma sua “justificação” para o facto e para a aceitação de um convite por parte do Correio dos Açores:

“O diagnóstico de cancro incurável abriu-me o apetite para, no curto prazo, me dedicar à luta política pelo Ambiente e Desenvolvimento Sustentável no âmbito da Assembleia Legislativa e respectivas Comissões. Para tal basta ser eleito, à boleia de açorianos suficientes, já que o Bloco de Esquerda honrosamente me cedeu o 2º lugar das suas listas, com total garantia de independência.
Com esta mesma independência aceitei, sem interferência partidária, o convite do Correio dos Açores para ir publicando (à margem das campanhas eleitorais) uma sucessão de artigos representativos de outras tantas iniciativas a que pretendo dar prioridade na minha acção parlamentar.”

O Veríssimo não venceu a batalha eleitoral, nem a batalha da doença, mas nunca desistiu. Por isso está sempre ao meu lado e estará sempre presente entre nós.


Teófilo Braga


(Correio dos Açores, nº 2918, 9 de Outubro de 2013, p.16)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Embora alguém já tenha decretado o fim da história e outros o fim das ideologias o certo é que, embora ache que não têm razão, por vezes fico com muitas dúvidas.
O que ouço mais, hoje em dia, por parte de alguns comentadores que se reclamam de direita é que não faz qualquer sentido falar na divisão entre esquerda e direita. Por outras palavras, o seu sonho é que a chamada esquerda desaparecesse do mapa e que todo o mundo adotasse um pensamento único, o deles.
Para a maioria da chamada esquerda, sobretudo para a que vive, com a direita, sob o manto ou guarda-chuva estatal, as ideologias ainda existem, mas para não amedrontar o cidadão mal informado ou desinformado o melhor é deixar cair todas as referências aos pais do socialismo ou mesmo da social-democracia.
Para quem acompanha, ao longe e de fora, a vida dos partidos políticos, nos Açores, desde o 25 de Abril de 1974, é fácil perceber as mudanças que ocorreram ao longo dos tempos.
Já, em texto anterior, referi que o PPD/PSD começou por se afirmar social – democrata e que hoje muitos dos seus militantes nem sabem o que é isto ou mesmo estão, pelo menos ideologicamente, frontalmente em oposição a qualquer política que pretenda conciliar o capital e o trabalho. 
Tempos houve em que, tal como nalguns partidos marxistas-leninistas que evocavam os seus mentores, Marx e Lenine, no Partido Social-Democrata os candidatos a qualquer cargo interno mencionavam a sua fidelidade aos princípios do seu fundador, o Dr. Francisco Sá Carneiro, que alguns consideravam como populista e outros como um defensor da social-democracia adaptada ao contexto da sociedade portuguesa.
Se fosse vivo hoje e se consultasse as redes sociais, Sá Carneiro indignar-se-ia ao ler afirmações de alguns militantes do PSD que não escondem as suas afinidades com o pensamento do ditador de Santa Comba Dão, pois ele, embora tenha sido eleito deputado pelo partido único, desenvolveu esforços, sob a ditadura, para a transformar num regime democrático e não o tendo conseguido teve a coragem de resignar ao cargo.
O Partido Socialista que começou por se anunciar como marxista, mas defensor de um socialismo em liberdade, e que no seu primeiro congresso apresentou um programa arrojado, diria mesmo que mais avançado do que o do Partido Comunista Português foi, com o passar do tempo, deixando cair as suas bandeiras e hoje, pelo menos nos Açores, é constituído por gente cuja única preocupação parece ser a de ocupar lugares no aparelho de estado, proveniente de todos os quadrantes políticos e partidários.
Não tenho a mínima ideia se os seus militantes ainda se reclamam do socialismo em liberdade ou da social-democracia ou se são daqueles que acham que as ideologias acabaram e o que há a fazer é governar a contento dos poderosos, distribuindo umas migalhas aos mais desfavorecidos para que, com alguma caridade, não se chegue a qualquer revolta.
Disse revolta pois as revoluções não estão na ordem do dia e as que existiram no passado falharam ou foram traídas pelos vencedores ou por quem a elas se juntou com o único objetivo de açambarcar privilégios.
Não menciono aqui o CDS/PP pois continua igual a si mesmo, pelo menos nos Açores. A nível nacional, a par da rejeição do centrismo, distingo as guinadas à “esquerda” dos seus ex-líderes Prof. Freitas do Amaral e Dr. Basílio Horta, tendo este passado de armas de bagagens para a salada russa que é o Partido Socialista.
O PCP e o BE, pelo menos nos Açores, suponho que perderam qualquer veleidade revolucionária e limitam-se a tentar melhorar o regime, defendendo com as suas propostas e a sua ação, aparentemente (ou não?), muito centrada na atividade parlamentar, algo semelhante a uma social-democracia.
Com uma população desmotivada e cansada de tantas promessas que são esquecidas logo a seguir às tomadas de posse, independentemente das cores partidárias, a chamada democracia representativa parece que está esgotada e não se vislumbra qualquer alternativa mais “democrática” que concilie maior participação cidadã e uma distribuição mais equitativa da riqueza criada.
No horizonte, só vislumbro mais autoritarismo e mais injustiça social. Oxalá esteja enganado.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2900, 18 de setembro de 2013, p.16)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Notas para a história da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo



Notas para a história da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo

A Ribeira Seca é a mais recente freguesia do concelho de Vila Franca do Campo, apesar da localidade ter sido habitada desde os primeiros tempos do povoamento da ilha de São Miguel.
Sem tempo para aprofundar os assuntos, neste texto vou divulgar um conjunto de episódios que ocorreram na Ribeira Seca ao longo dos tempos, na esperança de que alguém mais jovem e com outra formação se interesse pelo assunto e elabore uma monografia da localidade.
Desconhece-se a data da construção da Ermida de São João, sabendo-se que é anterior a 1522, data em que um “terramoto” soterrou parte de Vila Franca do Campo.
Em 1808, caiu uma pedreira na Ribeira Seca, tendo falecido duas pessoas, uma delas Arsénio de Sousa Batata.
Tal como aconteceu com a sede do concelho, a Ribeira Seca foi uma das primeiras localidades de São Miguel a possuir iluminação elétrica, o que aconteceu em 1901.
Em 1906, o jornal “O Autonómico” noticiava a construção de um fontenário na Rua da Cruz. Segundo o jornal tratava-se de um “melhoramento necessário e de máxima utilidade para os moradores d’ali e imediações”.
Em 1920, por decisão do presidente da Câmara Municipal, José Bento de Melo, foi criada, na Ribeira Seca, uma comissão encarregada de combater a peste bubónica através da desratização e saneamento geral. A comissão era composta por Manuel Carreiro Braga, António de Medeiros Agostinho e Jacinto Furtado Vinhateiro. Na altura, por cada rabo de rato grande entregue, o portador recebia 125 reis, o mesmo acontecia por dois rabos de ratos pequenos.
Em 1922, foi aberto um talho de carne de vaca. Hoje, não existe nenhum.
Tal como aconteceu noutras localidades, em 1925 e 1926, a peste bubónica causou numerosas vítimas na Ribeira Seca.
Em 1929, caiu uma “bomba de água” que felizmente não causou prejuízos, o mesmo tendo ocorrido no local da Praia.
O primeiro telefone foi instalado na Ribeira Seca, em 1930, e deveu-se à iniciativa do comerciante José Matias de Andrade. O Autonómico referiu-se ao evento, nos seguintes termos: “O melhoramento é de importância para aquele lugar, pela utilidade que lhe traz, sendo por isso caso para felicitarmos os seus habitantes”.
Em 1931, uma chuva torrencial fez com que a ribeira trouxesse tanta água que inundou os terrenos circundantes e provocou grandes prejuízos num moinho, tendo os seus moradores corrido perigo de morte.
O antigo edifício escolar, situado na Calçada, começou a ser utilizado em 1934.
Em 1938, a Ribeira Seca possuía uma equipa de voleibol, o São Miguel. Para além daquele clube, também existiu na localidade outra esquipa de voleibol, o Ribeirense.
Em 1939, começaram os trabalhos de abertura da variante da estrada que atravessa a Ribeira Seca.
A atual escola do primeiro ciclo, ameaçada de fechar as portas, construída ao abrigo do Plano dos Centenários, começou a funcionar em 1962 e o nicho com a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi inaugurado em 1966.
Em 1964, a Câmara Municipal recebeu 50 500 escudos por parte do Ministro das Obras Públicas, como comparticipação relativa “à execução dos trabalhos de construção do caminho municipal entre a Ribeira Seca e a Lagoa do Fogo”. Felizmente, para a conservação da natureza, o caminho nunca chegou ao fim.
Em 1971, o vento derrubou um carvalho, propriedade do senhor Arcádio Teixeira. Para o serrar e carregar foi empregado o trabalho de 66 homens e para o transportar foram necessárias 14 furgonetas e 2 camiões de oito toneladas.
Em 1975, foi a Ribeira Seca, através dos professores da sua escola, que não deixou que a comemoração do São João fosse esquecida. Naquele ano, três marchas desfilaram no recreio da escola do primeiro ciclo.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2894, 11 de Setembro 2013, p.16)

domingo, 8 de setembro de 2013

Jogo Sujo

Vejam as tabelas constantes do texto publicado pelo Diário dos Açores.

Permitir candidaturas independentes que nunca poderão concorrer com os meios usados pelos partidos é fomentar uma "fraude".

É tudo um nojo.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Vinha da Areia



Ir a banhos

Nas férias, aproveito sempre para revirar e rever papéis velhos, onde por vezes encontro algumas preciosidades ou pelo menos algumas notícias curiosas.

Desta feita deparei com uma singular notícia publicada no jornal “O Autonómico”, de agosto de 1936. Antes de a comentar aqui vai ela:

“Por ordem da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, foi mandada construir uma escada na praia de banhos da Vinha d’Areia, que este ano tem estado animadíssima. Oxalá que a digna Comissão resolva mandar construir barracas para assim esta Vila ficar com uma praia de banhos condigna”.

Através do mesmo jornal, fiquei a saber que no final de agosto o melhoramento já estava concluído.
Agora, vamos aos comentários/ interrogações:

- Não é de agora que quem gere a coisa pública faz obras a destempo. Então, as obras em zonas balneares não deviam ser feitas antes do começo da época balnear?

- O que terá levado a que aquela praia, alguns anos depois deixasse de ser “pública” e passasse a ser “propriedade” de cidadãos franceses?

Na minha juventude, a referida praia era conhecida por Praia da Vinha d’Areia, pelo menos para quem era da Ribeira Seca, Ponta da Cabra, para os meus colegas da sede do concelho e também praia das Francesas, porque o acesso à mesma fazia-se a partir de uma propriedade pertença de uns franceses que tinham lá casa onde passavam o verão.

Lembro-me bem de minha mãe falar na dificuldade em chegar àquela praia, pois o trajeto a seguir era feito a partir da foz da Ribeira Seca, havendo a necessidade de percorrer cerca de 300 metros, alguns dos quais por cima de rocha.

Mais tarde, surgiram dois caminhos, um que é mais ou menos o atual e que percorríamos antes das francesas lá colocarem o portão ou contornávamos o mesmo, saltando por terrenos que confrontavam com a propriedade dos franceses, e outro que era feito a partir de uma entrada aberta pelo sr. Albano de Azevedo, localizada na Figueira do Casquete. Neste caso só com autorização do sr. Manuel Andrade ou quando tínhamos a certeza que ele lá não estava, saltando os muros.

Com o 25 de Abril de 1974, a situação não se alterou significativamente pois o pronunciamento militar, nos Açores, terá levado a alguma descompressão, mas traduziu-se essencialmente por uma tentativa de ocupação dos diversos cargos quer por parte dos chamados democratas quer por parte dos ex-adeptos do antigo regime,  que se converteram, pelo menos aparentemente, à democracia. No caso de Vila Franca do Campo, aconteceu que dentro da ANP- Ação Nacional Popular, o único “partido político” legal dos últimos anos do Estado Novo havia “cisões” e com o 25 de abril uma delas saiu por uma porta do edifício da Câmara Municipal e a outra entrou pela outra, pelas mãos dos democratas.

No que se refere à Praia da Vinha d’Areia lembro-me que a melhoria introduzida foi a divisão da praia em duas partes, a nascente, aberta ao público que continuava sem acesso digno, e a poente reservada às francesas e amigos.

Lembro-me de um episódio ocorrido, não me recordo se no Verão de 1974 ou no de 1975, em que eu e um grupo de amigos decidimos não respeitar a regra e fomos ocupar o lugar reservado às francesas.

Pensando que com o 25 de abril os privilégios injustos e injustificáveis tinham acabado e por não estarmos a perturbar ninguém, já que nem havia estrangeiros na praia, fomos surpreendidos com a presença de um guarda da PSP que exigiu a nossa retirada do local.

Como não foi capaz de nos demover e como não usou a força da arma de fogo que possuía, que era a única que nos inferiorizava, a solução encontrada foi a via do diálogo. Assim, fui convidado a acompanhá-lo para falar com “as francesas”.

Sempre com o máximo de civismo e respeito estive algum tempo a dialogar com as estrangeiras, que matreiras me fizeram uma proposta no mínimo desonesta e que foi a seguinte: a partir daquela data elas permitiam o meu acesso à praia, passando pela sua propriedade, tendo a possibilidade de usar os seus duches, desde que continuasse tudo na mesma.

Como é óbvio, para quem me conhecia e me conhece bem, recusei.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 4 de Setembro de 2013)