terça-feira, 5 de novembro de 2013

A serpentina em Vila Franca do Campo e em São Jorge


Em texto publicado, no passado dia 30 de Outubro, fiz referência à utilização das duas espécies que têm o nome comum de serpentina. Nesta edição do jornal, limitar-me-ei a escrever sobre a serpentina-mansa (Arum italicum), nomeadamente sobre o seu uso para o fabrico de uma farinha na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo e nas Manadas, ilha de São Jorge. 
Na ilha de São Jorge, a serpentina é também designada por jarroca. De acordo com uma recolha efetuada há alguns anos pelo Centro de Jovens Naturalistas de São Jorge, junto da família Raposos da localidade das Manadas, a soca era apanhada nos meses de Abril e de Maio.
Depois de colhidas as socas eram lavadas e raspadas com uma faca para retirar a “pele” e a seguir eram moídas num moinho de carne. A polpa obtida era colocada num alguidar com água que era mudada durante três dias. Em seguida, era escorrida e colocada num tabuleiro até secar bem.
Para além de ser usada no fabrico de papas, a farinha de serpentina era tida, em São Jorge, como bom remédio para “a diarreia de pessoas e animais”.
Ainda de acordo com a mesma fonte, a farinha de serpentina também era usada para fazer goma, procedendo-se do seguinte modo: “Para tal, dissolve-se, em água fria, a farinha de jarroca, junta-se água a ferver e, enquanto morna, molha-se a roupa que se põe a secar. Ainda húmida passa-se o ferro até enxugar”.
Por último, na mesma nota que vimos referindo e que foi da autoria da senhora Maria José Silveira Azevedo, das Manadas, ficamos a saber que “em tempos de fome, o povo ia pelos “biscoitos” e matas procurar a soca de jarroca e a soca de feto para fazer farinha com que preparava uma massa que era cozida em bolos, no tijolo”.
Na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, na década de 70 do século passado, alguns homens, sobretudo camponeses sem terra, dedicavam-se à recolha da serpentina para compensar a falta de trabalho em alguns meses do ano. Lembro-me de ver alguns deles com sacas às costas e a deixá-las na casa da senhora Antonina “Trovoa” que morava na rua do Jogo.
Segundo Manuel Francisco, sobrinho de Antonina “Trovoa”, grande parte da farinha produzida na Ribeira Seca era vendida para Ribeira Grande, presumivelmente para Ezequiel Moreira da Silva que chegou a fazer a sua exportação para Lisboa.
Na altura, era muito fácil encontrá-la na Ribeira Seca ou nas localidades vizinhas, enquanto hoje a bibliografia menciona a sua abundância sobretudo na Ribeira Chã e nos Arrifes. Nas minhas caminhadas pela ilha de São Miguel, tenho-a encontrado um pouco por toda a parte, sendo muito fácil encontrá-la no Pico da Pedra.
Em conversa recente com Madalena Oliveira, moradora na rua da Cruz, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, talvez a única pessoa que ainda mantém viva a tradição no concelho, confirmei tudo o que havia tomado conhecimento através de diversa bibliografia consultada, a qual não incluía o livro recentemente, e em boa hora, editado pela Junta de Freguesia da Ribeira Chã “Serpentina Uma Tradição de Raiz”, da autoria de Teresa Perdição.
Madalena Oliveira que, aprendeu com sua mãe, Maria dos Anjos Salema Carreiro, e sua avó, referiu que a recolha dos rizomas é feita antes de a plantas espigarem, sobretudo nos meses de Fevereiro e Março, mês em que obteve melhores resultados.
Como principais instrumentos usados na transformação dos rizomas em farinha, Madalena Oliveira mencionou um ralador adaptado para o efeito, uma peneira de milho, uma dorna de madeira e panas de plástico que substituíram os alguidares de barro. Longe vão os tempos, referidos por Silvano Pereira, em 1947, em que os rizomas eram desgastados “pela fricção contra uma pedra ou tábua de lavar”.
Numa altura em que está difícil a vida para quem vive do seu trabalho, a recuperação e valorização de conhecimentos e práticas antigas deve merecer o carinho de quem tem nas suas mãos a gestão da coisa pública, a começar pelas Juntas de Freguesia que são quem está em contato direto com as populações.
No passado, escreveu Silvano Pereira, o fabrico de farinha de serpentina constituiu “uma pequena indústria rural” que deu origem a “um comércio de certa importância”. Hoje, poderá ser um complemento ao rendimento de algumas famílias.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2940, 6 de Novembro de 2013, p.16)

domingo, 3 de novembro de 2013

Proteste: por um São Martinho sem tortura



A todas as pessoas singulares ou coletivas, solicita-se o envio do e-mail, abaixo dirigido ao presidente da Câmara Municipal da Lagoa (São Miguel – Açores) a solicitar o não apoio à vacada que está marcada para o próximo dia 9 de Novembro.
Muito obrigado

Enviar para: 


gabpres-cml@mail.telepac.pt, jfsantacruz-lagoa@sapo.pt, 


Ex. Senhor Presidente da Câmara Municipal da Lagoa,
Exmo Senhor Presidente da Junta de Freguesia de Santa Cruz

Tomei conhecimento de que se irá realizar na Freguesia de Santa Cruz, no próximo dia 9 de Novembro, uma vacada e venho por este meio manifestar o meu total repúdio por tal acontecimento, uma vez que as vacadas, contribuem para insensibilizar, habituar e até viciar crianças e adultos no abuso cruel exercido sobre animais.
Como muito bem escreveu o Médico Veterinário Vasco Reis “Vacadas e garraiadas contribuem para insensibilizar, habituar e até viciar crianças e adultos no abuso cruel exercido sobre animais, o que pode propiciar mais violência futura sobre animais e pessoas.
A utilização de animais juvenis submetidos à violência de multidões, não pode ser branqueada como “espetáculo que não tem sangue e é só para as crianças se divertirem". Mesmo que não tenha sangue, é responsável por muito sofrimento dos animais. Contribui, certamente, para a perda de sensibilidade de pessoas, principalmente de crianças, e para o gosto pela cruel tauromaquia. É indissociável de futilidade, sadismo, covardia. 
Vimos solicitar a Vossa Exª que tem apoiado as vacadas realizadas em anos para que reveja a sua posição e para os prejuízos que poderão advir para o Concelho da Lagoa pelo facto do mesmo passar a figurar na lista de cidades e concelhos a serem evitados por todos os turistas e pessoas de bem que para além de procurarem locais onde a natureza esteja imaculada também dão preferência a populações que respeitem os animais.
Com os melhores cumprimentos


Nome

quarta-feira, 23 de outubro de 2013



A Propósito de Homenagens

Um pouco por todo o lado, como forma de homenagear pessoas dá-se o seu nome a ruas, ruelas, canadas e becos. Também se usa escolher algumas pessoas que se tenham distinguido no campo da pintura, da ciência, da pedagogia, etc. para figurarem como patronos das escolas.
No caso das ruas, por vezes substituem uns nomes por outros ao sabor das vontades de quem governa, dos regimes políticos, neste caso para eliminar personalidades que serviram o apeado e substituí-las por outras. Também acontece atribuírem nomes de familiares ou recuperar nomes que se tivessem caído no esquecimento não viria mal ao mundo.
Há muitos casos caricatos, mas o que me vem à memória é o do presidente de uma Junta de Freguesia da ilha de São Miguel que propôs o seu nome para uma rua da sua terra. Felizmente o bom senso imperou e a brilhante intenção não passou disso.
Não sei como se processa a atribuição do nome das ruas em Vila Franca do Campo, mas nunca ouvi falar na existência de uma Comissão Municipal de Toponímia e caso exista desconheço a sua constituição.
De qualquer modo, com ou sem comissão, refiro a minha discordância para com a ânsia de atribuir nomes, a determinadas artérias do concelho, de “personalidades” que pouco ou nada fizeram para o merecer e que praticamente nada fizeram em prol do bem comum. O mencionado também se estende à atribuição de medalhas por ocasião do São João da Vila já que ao querer fazê-lo anualmente corre-se o risco de banalizar o ato e a certeza de distinguir quem nada fez para o merecer.
Estejam descansados porque não vou aproveitar o espaço disponível para apresentar os nomes das pessoas que já foram homenageadas e que, do meu ponto de vista, não o deviam ter sido. Não vou manchar a folha do jornal nem perder o meu tempo com isso.
Neste texto, vou retomar uma causa que já abracei há muitos anos e que não mereceu a devida atenção por parte do Secretário Regional da Educação e Cultura. Com efeito, em 1994, fui o primeiro subscritor de um abaixo-assinado que apelava para que fosse revista a decisão de atribuir o nome de Teotónio Machado de Andrade, que já havia sido homenageado e que já possuía uma rua com o seu nome, à Escola do Primeiro Ciclo da Ribeira Seca.
Não vou expor argumentos contra a opção que foi tomada, mas gostaria de perguntar se a simples passagem de um professor por uma escola é suficiente para que seja atribuído o seu nome à mesma?
Penso que está na altura de dar o seu a seu dono, pelo que a Escola Básica Escola Básica e Secundária de Vila Franca do Campo, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia da Ribeira Seca deviam estudar seriamente o assunto e atribuir o nome da escola a quem efetivamente foi pioneiro na dinamização de uma comunidade.
No mencionado abaixo-assinado os subscritores solicitavam que à escola fosse atribuído o nome do professor Eduardo Calisto Amaral, que “pelo seu trabalho e dedicação marcou profundamente não só os seus alunos e as várias gerações que por aquele estabelecimento passaram mas também a comunidade local que tão bem soube servir”.
Como o apelo caiu em saco roto e como não sou pessoa de desistir à primeira, volto outra vez ao assunto esperando que desta vez tenha mais sorte.
Passados quase vinte anos mantenho a proposta, mas com uma preocupação que tenho partilhado com uma colega minha, a de não ser injusto para com os restantes professores que tornaram possível que a Escola da Ribeira Seca tenha sido pioneira na tão falada, mas cada vez mais esquecida, ligação escola-meio.
Embora possa estar a cometer um erro que espero corrigir, fizeram parte da equipa do professor Eduardo Calisto Amaral, os seguintes docentes:
- D. Adelaide da Conceição Soares
- D. Ilda Cesarina Borges
- D. Ildebranda Matias
- Valter Soares Ferreira
- D. Zulmira Teixeira
Por último, deixo uma menção especial ao professor Valter Soares Ferreira que foi meu professor nos últimos dois anos da então denominada escola primária e que muita matemática me ensinou. O que sou hoje, também, a ele o devo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2930, 23 de Outubro de 2013, p.16)

terça-feira, 15 de outubro de 2013



Bento de Jesus Caraça
“Se não receio o erro é porque estou sempre disposto a corrigi-lo” (Bento de Jesus Caraça)
Deve se muito reduzido o número de pessoas que, entre nós, saberá que foi Bento de Jesus Caraça o que é uma pena, pois não estamos, apenas, perante um ilustre matemático, mas também face a um cidadão que lutou contra a ditadura que durante quase meio século governou Portugal e que desenvolveu esforços para que a ciência fosse entendida por quem menos instrução tinha.
Bento de Jesus Caraça, que nasceu em 1901, em 1924, licenciou-se pelo Instituto Superior de Ciências económicas e financeiras da Universidade Técnica de Lisboa e seis anos depois passou a catedrático. Em 1938 funda, com outros colegas, o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia que dirige até 1946, ano em que o referido centro foi fechado pelo Ministério da Educação.
Preocupado em fazer com que a ciência e a cultura não ficassem restritas a uma elite, Bento de Jesus Caraça, filho de trabalhadores rurais, promoveu um ímpar programa de divulgação que contou com dois grandes instrumentos: a Universidade Popular Portuguesa e a Coleção Cosmos, editada por aquela instituição, a qual editou “114 livros com uma tiragem global de 793 500 exemplares”.
A sua oposição à ditadura fez com que pertencesse a várias organizações, com destaque para a Liga Portuguesa Contra a Guerra e o Fascismo, a Frente Popular Portuguesa e o Movimento de Unidade Democrática (MUD).
Por ter sido um dos signatários do manifesto “O MUD perante a admissão de Portugal à ONU”, onde era exigida a democratização de Portugal como condição para a sua admissão naquele organismo, foi-lhe instaurado um processo disciplinar que levou à sua expulsão da Universidade, a 5 de Outubro de 1946, e à proibição de ensinar tanto em escolas públicas como em escolas privadas. Para sobreviver viu-se forçado a dar lições em casa.
Da sua vasta obra, que conheço apenas uma ínfima parte, destaco o livro “Conceitos Fundamentais da Matemática” que li e reli, com muito gosto, por mais de uma vez.

Recomendo, também, a leitura do texto da sua mais conhecida palestra intitulada “A Cultura Integral do Indivíduo, Problema Central do Nosso Tempo”, proferida em 25 de Maio de 1933, em Lisboa.
A mencionada conferência, bem como outras, como “Galileo Galilei, Valor científico e valor moral da sua obra”, “Escola Única”, “A Arte e a Cultura Popular” e “Aspectos do problema cultural português”, bem como outros textos, como “A luta contra a Guerra”, “A evolução da Física”, de Albert Einstein e Leopold Infield”, “Galileo e Newton” e “A matemática na vida dos homens” estão reunidas no livro “Conferências e Outros Escritos” editado pela primeira vez em 1970 e reeditado em 1978, aquando da passagem do trigésimo aniversário da sua morte.
Não tendo espaço suficiente para expor o seu pensamento, limitar-me-ei a apresentar alguns excertos de textos sobre vários assuntos.
Num texto, de 1932, sobre a guerra e sobre o estado do mundo, Bento de Jesus Caraça escreve o seguinte: “O mundo está, como estava em 1914, governado por homens inferiores, caricaturas de homens, e o que eles governam não é uma sociedade humana – é uma caricatura de sociedade humana. E será assim, enquanto homens novos não tomarem a direção do mundo para fazerem dele uma sociedade de homens livres.” Será, hoje, a situação muito diferente?
A seguir, sobre “odiada” matemática, Bento Caraça, em 1944, escreveu que a mesma estava a ganhar importância pois, encontrava-se a invadir a vida moderna e assistia-se a “uma matematização das ciências que dia a dia se tornam mais imprescindíveis aos homens” e acrescentava que a “rainha das ciências” estava a “tornar-se numa companheira democratizada e querida de todos nós”.
Por último, em 1946, Bento de Jesus Caraça, numa palestra intitulada “Aspectos do Problema Cultural Português” falou sobre o medo que se havia apoderado da “quase totalidade da população portuguesa” e que parece estar de volta ou então nunca nos abandonou por completo. Segundo ele, “a primeira coisa a fazermos para sermos gente é extrair o medo dos corações dos portugueses, fazendo deles homens generosos e fortes, libertos das grilhetas da mais aviltante das escravidões”.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2924, 16 de Outubro de 2013, p.16)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013


Cinco anos sem Veríssimo Borges

Ontem, dia 8 de Outubro, fez cinco anos que Veríssimo de Freitas Borges nos deixou.

Já por diversas vezes escrevi sobre os nossos encontros e desencontros, sobre as batalhas que travámos juntos e sobre a enorme falta que faz à manta de retalhos que era o movimento ambientalista que, depois de um período de núpcias com o Governo Regional dos Açores, acabou por (quase) desaparecer do mapa.

Hoje, não pretendo repetir-me, mas aproveito a oportunidade para recordar algumas das questões que eram levantadas/contestadas por ele e que ainda não perderam atualidade, com destaque para a incineração de resíduos sólidos urbanos que contra ventos e marés parece que está a avançar com a cumplicidade/financiamento da EU, sempre hipócrita a “enviar” fundos sem se preocupar se os mesmos são ou não utilizados em investimentos reprodutivos. Também não poderia deixar cair no esquecimento a obra faraónica, pelos gastos envolvidos, cujo montante nunca se chegará a conhecer, da estrada para a Fajã do Calhau que parece não resistir à erosão de nem uma mão cheia de anos e que ele, em devido tempo, tão bem soube contestar.

Neste texto, tentarei recordar um pouco a intervenção política do Veríssimo Borges que não começou com a implantação da democracia a 25 de Abril de 1974. Para isso recorri-me a informações retiradas do livro “A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em outras ilhas açorianas” e ao que me lembro das conversas que com ele mantive ao longo de alguns anos, sobretudo depois da sua integração no movimento SOS-Lagoas, de que já fazia parte desde o início, e mais intensamente durante alguns meses em que frequentamos o mestrado de educação ambiental, na Universidade dos Açores.

Já Salazar havia caído da cadeira quando se realizaram eleições para o parlamento nacional, em 1969. Neste ano foi elaborada a “Declaração de Ponta Delgada”, da candidatura Independente às eleições para deputados, tendo como redator principal Ernesto Melo Antunes. Veríssimo Borges, então estudante, foi um dos subscritores da Declaração e durante as férias participou “em muitos actos de pré-campanha”. No mesmo ano, Veríssimo Borges, havia sido detido pela PIDE, no dia primeiro de Maio, no Rossio, por estar a distribuir panfletos sobre uma manifestação comemorativa do Dia do Trabalhador.

De esquerda, mas sem complexos, Veríssimo Borges era convidado e aceitava participar em iniciativas das mais diversas organizações partidárias, independentemente do seu posicionamento ideológico. Para ele, a ecologia não estava à esquerda nem à direita, estava em primeiro lugar.

 Um dia numa aula ministrada pela Doutora Ana Moura Arroz, quando estava em debate a participação cívica e política, os vários alunos expuseram as suas ideias e posicionaram-se face às várias correntes políticas e ideológicas, tendo o Veríssimo Borges dito que se considerava “anarquista autoritário”, o que não deixa de ser uma contradição para quem defende que a anarquia não é a desordem, mas a “ordem sem a coação”.

Já com a doença devidamente identificada, o Veríssimo quis participar em mais uma batalha, a de uma campanha eleitoral para a Assembleia Regional dos Açores, integrado numa lista do Bloco de Esquerda. A este propósito, cito abaixo uma sua “justificação” para o facto e para a aceitação de um convite por parte do Correio dos Açores:

“O diagnóstico de cancro incurável abriu-me o apetite para, no curto prazo, me dedicar à luta política pelo Ambiente e Desenvolvimento Sustentável no âmbito da Assembleia Legislativa e respectivas Comissões. Para tal basta ser eleito, à boleia de açorianos suficientes, já que o Bloco de Esquerda honrosamente me cedeu o 2º lugar das suas listas, com total garantia de independência.
Com esta mesma independência aceitei, sem interferência partidária, o convite do Correio dos Açores para ir publicando (à margem das campanhas eleitorais) uma sucessão de artigos representativos de outras tantas iniciativas a que pretendo dar prioridade na minha acção parlamentar.”

O Veríssimo não venceu a batalha eleitoral, nem a batalha da doença, mas nunca desistiu. Por isso está sempre ao meu lado e estará sempre presente entre nós.


Teófilo Braga


(Correio dos Açores, nº 2918, 9 de Outubro de 2013, p.16)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Embora alguém já tenha decretado o fim da história e outros o fim das ideologias o certo é que, embora ache que não têm razão, por vezes fico com muitas dúvidas.
O que ouço mais, hoje em dia, por parte de alguns comentadores que se reclamam de direita é que não faz qualquer sentido falar na divisão entre esquerda e direita. Por outras palavras, o seu sonho é que a chamada esquerda desaparecesse do mapa e que todo o mundo adotasse um pensamento único, o deles.
Para a maioria da chamada esquerda, sobretudo para a que vive, com a direita, sob o manto ou guarda-chuva estatal, as ideologias ainda existem, mas para não amedrontar o cidadão mal informado ou desinformado o melhor é deixar cair todas as referências aos pais do socialismo ou mesmo da social-democracia.
Para quem acompanha, ao longe e de fora, a vida dos partidos políticos, nos Açores, desde o 25 de Abril de 1974, é fácil perceber as mudanças que ocorreram ao longo dos tempos.
Já, em texto anterior, referi que o PPD/PSD começou por se afirmar social – democrata e que hoje muitos dos seus militantes nem sabem o que é isto ou mesmo estão, pelo menos ideologicamente, frontalmente em oposição a qualquer política que pretenda conciliar o capital e o trabalho. 
Tempos houve em que, tal como nalguns partidos marxistas-leninistas que evocavam os seus mentores, Marx e Lenine, no Partido Social-Democrata os candidatos a qualquer cargo interno mencionavam a sua fidelidade aos princípios do seu fundador, o Dr. Francisco Sá Carneiro, que alguns consideravam como populista e outros como um defensor da social-democracia adaptada ao contexto da sociedade portuguesa.
Se fosse vivo hoje e se consultasse as redes sociais, Sá Carneiro indignar-se-ia ao ler afirmações de alguns militantes do PSD que não escondem as suas afinidades com o pensamento do ditador de Santa Comba Dão, pois ele, embora tenha sido eleito deputado pelo partido único, desenvolveu esforços, sob a ditadura, para a transformar num regime democrático e não o tendo conseguido teve a coragem de resignar ao cargo.
O Partido Socialista que começou por se anunciar como marxista, mas defensor de um socialismo em liberdade, e que no seu primeiro congresso apresentou um programa arrojado, diria mesmo que mais avançado do que o do Partido Comunista Português foi, com o passar do tempo, deixando cair as suas bandeiras e hoje, pelo menos nos Açores, é constituído por gente cuja única preocupação parece ser a de ocupar lugares no aparelho de estado, proveniente de todos os quadrantes políticos e partidários.
Não tenho a mínima ideia se os seus militantes ainda se reclamam do socialismo em liberdade ou da social-democracia ou se são daqueles que acham que as ideologias acabaram e o que há a fazer é governar a contento dos poderosos, distribuindo umas migalhas aos mais desfavorecidos para que, com alguma caridade, não se chegue a qualquer revolta.
Disse revolta pois as revoluções não estão na ordem do dia e as que existiram no passado falharam ou foram traídas pelos vencedores ou por quem a elas se juntou com o único objetivo de açambarcar privilégios.
Não menciono aqui o CDS/PP pois continua igual a si mesmo, pelo menos nos Açores. A nível nacional, a par da rejeição do centrismo, distingo as guinadas à “esquerda” dos seus ex-líderes Prof. Freitas do Amaral e Dr. Basílio Horta, tendo este passado de armas de bagagens para a salada russa que é o Partido Socialista.
O PCP e o BE, pelo menos nos Açores, suponho que perderam qualquer veleidade revolucionária e limitam-se a tentar melhorar o regime, defendendo com as suas propostas e a sua ação, aparentemente (ou não?), muito centrada na atividade parlamentar, algo semelhante a uma social-democracia.
Com uma população desmotivada e cansada de tantas promessas que são esquecidas logo a seguir às tomadas de posse, independentemente das cores partidárias, a chamada democracia representativa parece que está esgotada e não se vislumbra qualquer alternativa mais “democrática” que concilie maior participação cidadã e uma distribuição mais equitativa da riqueza criada.
No horizonte, só vislumbro mais autoritarismo e mais injustiça social. Oxalá esteja enganado.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2900, 18 de setembro de 2013, p.16)