sábado, 14 de dezembro de 2013
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
A Felicidade de todos os seres na sociedade futura
A Felicidade de
todos os seres na sociedade futura
"Gonçalves
Correia dá-me vontade de rir pela sua ingenuidade e tolstoianismo - mas acaba
por se me impor. Este homem, que pretende realizar um sonho, dá a esse sonho
tudo o que ganha, e, apesar da guedelha, das considerações ingénuas, faz-me
pensar" (Raul Brandão)
Nas
minhas pesquisas em jornais antigos cheguei a uma reportagem publicada no
jornal “A Vila”, publicada no dia 7 de Julho de 1994, onde se dá conta da
presença em Vila Franca do Campo de um bisneto do escritor e pensador russo
Leão Tolstói que havia adquirido naquela vila uma propriedade onde passou a
residir durante alguns meses do ano.
Quase
em simultâneo, também dei conta que o projeto de sociedade e as ideias
defendidas pelo famoso escritor russo eram muito apreciados em todo o mundo nos
primeiros anos do século passado sobretudo por quem se reclamava do pensamento
libertário.
Em
São Miguel, a sua obra e pensamento foi difundida pelo jornal “Vida Nova”.
Naquele jornal, entre outros, João Anglin, que mais tarde foi reitor do Liceu
Nacional de Ponta Delgada. a ele dedicou pelo menos um texto.
No
continente português, Leão Tolstói foi referência para António Gonçalves
Correia, anarquista tolstoiniano que esteve em São Miguel, em 1910, e que
colaborou em quatro números do quinzenário micaelense “Vida Nova”.
Gonçalves
Correia (1886-1967) foi um anarquista português que nasceu em Castro Verde e
faleceu em Lisboa. Vegetariano, foi ensaísta e poeta, tendo criado a primeira
comunidade anarquista em Portugal, a Comuna da Luz, no Vale de Santiago, em
Odemira.
De
acordo com José Maria Carvalho Ferreira, defendia um tipo de anarquismo que era
“marginal” em relação às teorias e práticas (anarco-sindicalismo e anarco-comunismo)
que eram dominantes na época em que viveu.
As ideias de Gonçalves Correia ainda hoje mantêm
atualidade já que o mesmo não se limitava a defender uma melhor vida para os
humanos mas também para todos os animais. Mas, se assim pensava melhor o fazia.
Sobre o assunto Carvalho Ferreira escreveu: “Comprar passarinhos que estavam
prisioneiros nas gaiolas aos comerciantes que os vendiam nas feiras do Alentejo
para depois os libertar, ou desviar-se com a sua bicicleta dos caminhos
percorridos pelas formigas para não as matar, são exemplos paradigmáticos de como
nós devemos agir para se construir um equilíbrio ecossistémico entre todas as espécies
animais”.
Gonçalves Correia, que é para alguns considerado
um precursor da permacultura, numa palestra intitulada “A
Felicidade de todos os seres na sociedade futura”, proferida em Évora, em 1922, e que mais tarde
foi publicada em livro, dizia que o sofrimento, “obra maléfica do homem”, afeta
não só os seres humanos mas também os “irracionais” que “vieram ao mundo para
serem a ajuda fraternista de todos nós e nunca escravos tristes e submissos que
chocam a nossa sensibilidade”.
Para
ultrapassar a condição degradante em que viviam todos os seres vivos, que
segundo ele tinha como causa principal a “fórmula errada da propriedade privada
“, Gonçalves Correia defendia que se devia empregar “todo o esforço sincero e
ardente no sentido de criar a alegria nos seres humanos, pois que a alegria,
assim, se irá refletir até mesmo nos seres inferiores”.
E como
alcançar a felicidade?
Gonçalves
Correia acreditava que a felicidade, a alegria de viver, podia ser alcançada
“pela clarificação da inteligência, pela bondade, pela pureza de intenções,
pela sinceridade, pelo trabalho”. Mas não qualquer trabalho, apenas o trabalho
“consciente, metódico, que não seja a tirania do salariato, que não seja a
escravidão, o trabalho feito com alegria, com boa vontade, com consciência, o
trabalho que dimana da nossa vontade soberana!”
E o
que queriam os militantes que pensavam como Gonçalves Correia?
“ A
abundância de pão para todas as bocas, a fartura de luz, essa luz bendita do
amor, para todas as almas”.
Na
sociedade futura que é perfeitamente alcançável, segundo Gonçalves Correia, não
só será possível a felicidade para todos os homens, mas também para os
“irracionais”. A este propósito dizia ele: “ O próprio irracional não terá,
como o boi simpático e paciente, olhos mortiços o corpo cansado e esquelético.
Compreenderá o homem, enfim que ser rei dos animais não significa ter o direito
à sua tortura. Os próprios irracionais terão lugar no grande banquete da vida,
inundando-se a terra de pura, de generosa alegria”
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, nº 2970, 11 de Dezembro de 2013, p.16)
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Lagoas, Lagoeiros e Charcos de Vila Franca do Campo
Lagoas, Lagoeiros e Charcos de Vila Franca do Campo
Não há consenso acerca da classificação das diferentes massas de água, nomeadamente lagos, lagoas e charcos. Contudo, podemos dizer, citando a Campanha “Charcos com Vida”, que “os charcos diferenciam-se dos lagos e das lagoas pela sua baixa profundidade, penetração total da luz na água, possibilidade de ocorrência de plantas em toda a sua área e ausência de estratificação da temperatura da água e de formação de ondas”.
O concelho de Vila Franca do Campo é, não temos dúvidas, um dos mais ricos dos Açores no que diz respeito à presença de diferentes massas de água de dimensões diversas, às quais está associada a beleza paisagística e a riqueza em termos de fauna e flora.
A Lagoa do Fogo, implantada na caldeira de colapso do Vulcão do Fogo, é a única cuja área envolvente mantém, apesar de algumas introduções voluntárias ou não, muitos exemplares da flora primitiva dos Açores que a todo o custo devem ser preservados.
A Lagoa do Congro, assim denominada por ter pertencido a André Gonçalves, cognominado de “o congro”, de acordo com Gaspar Frutuoso, “por em seu tempo ser o mais rico homem da terra, como dizem ser o congro, entre os peixes que se comem, o maior peixe do mar”, está implantada numa cratera de explosão que se terá formado há cerca de 3 900 anos.
José do Canto (1820-1898), grande proprietário e intelectual açoriano, amante da jardinagem e distinto botânico amador, mandou plantar nos terrenos circundantes da lagoa matas de criptomérias, pinheiros, eucaliptos e acácias, tendo também ajardinado a parte sul da sua propriedade e construído uma casa de campo, recentemente demolida.
Durante muitos anos os seus proprietários mantiveram os acessos à lagoa em muito boas condições e procediam à manutenção de toda a área, nomeadamente da antiga mata ajardinada. Mais recentemente a área foi sendo progressivamente abandonada, tendo-se degradado quase por completo.
Depois de sete anos de espera, a proposta de classificação das Lagoas do Congro e dos Nenúfares por parte da Associação Ecológica Amigos dos Açores como área protegida foi aprovada. Assim, em 2007, a cratera do Congro foi classificada como Área Protegida para a gestão de habitats ou espécies (Decreto Legislativo nº15/06/2007) e no ano seguinte parte da bacia hidrográfica foi adquirida pelo Governo Regional dos Açores.
A Lagoa dos Nenúfares, também denominada Lagoa do Conde Botelho, localiza-se na mesma cratera da Lagoa do Congro e encontra-se neste momento bastante assoreada e as suas margens estão cobertas por plantas exóticas. Toda a área envolvente merecia ser alvo de trabalhos de recuperação, nomeadamente o trilho que a bordeja e o caminho de acesso.
Localizada numa cratera de explosão existente no Pico da Dona Guiomar, a Lagoa do Areeiro é de uma beleza paisagística invulgar. No lado sudoeste do pico existe um mato jovem de vegetação endémica que merecia a todo o custo ser conservado.
A Lagoinha, situada na cratera de explosão do Pico da Lagoa, localiza-se a norte da Lagoa do Congro. Como curiosidade regista-se a presença nas suas águas do peixe mosquito. Neste momento, é muito difícil o acesso à mesma já que toda a área envolvente foi replantada recentemente e encontra-se completamente coberta por vegetação, nomeadamente silvas.
Para além destas, há a registar outras massas de água mais pequenas como os lagoeiros do Pico do Frescão, do Pico d’El Rei e dos Espraiados, bem como alguns charcos que antes foram usados para bebedouros do gado bovino.
Para além do valor científico e educativo, do valor estético e paisagístico, as massas de água constituem um poderoso recurso turístico que não está a ser suficientemente explorado no concelho de Vila Franca do Campo.
Há que por mãos à obra!
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2963, 4 Dez de 2013, p.11)
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Pelos Animais de Companhia
PELOS
ANIMAIS DE COMPANHIA
"Chegará
o dia em que todo homem conhecerá o íntimo dos animais. Nesse dia, um crime
contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade."
Leonardo da Vinci
Por
iniciativa de Céu Simas e Fátima Cerqueira Rocha, promotoras do evento a nível
nacional, realizar-se-ão em frente a algumas Câmaras Municipais de todo o país
cordões humanos “pela adoção e esterilização- não ao abate”.
Nos
Açores, o evento ocorrerá no próximo domingo, dia 24 de Novembro, pelas 15
horas, em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, Ribeira Grande e Vila Franca do
Campo, estando prevista a entrega de um manifesto aos presidentes das
respetivas câmaras e assembleias municipais no próprio dia ou em data a acordar
posteriormente.
Em
todos os concelhos a iniciativa é coordenada por uma ou duas pessoas ligadas ou
não às associações de proteção de animais existentes. No que se refere à ilha
de São Miguel não temos conhecimento da existência de nenhum membro dos órgãos executivos
das associações envolvidas na organização do evento e a nível nacional sabemos
que algumas associações não se quiseram envolver, alegando terem receio de
“represálias” por parte das autarquias com as quais alegadamente dizem manter
boas relações.
Esta
atitude é, do meu ponto de vista, incompreensível, pois o cordão
humano/manifestação é uma das formas que as pessoas têm, em democracia, de
manifestar a sua opinião, de comunicar os seus anseios a quem de direito ou
expressar a discordância com a política que está a ser seguida para com os
animais de companhia.
No
caso presente, para além do exposto, é também uma forma de alertar os cidadãos
para a necessidade de abandonarem a passividade e participarem ativamente numa
causa que cada vez mobiliza mais pessoas e uma forma de sensibilizar os
autarcas recentemente eleitos. Por último, o evento pode e servirá, não tenho
dúvidas, para juntar pessoas que não se conhecem, para troca de contactos com
vista a futuras atuações em conjunto.
Na
maioria dos concelhos será utilizado um manifesto nacional, mas em Vila Franca
do Campo os coordenadores acharam por bem adaptá-lo à realidade local. Neste
manifesto, entre outras medidas, defende-se:
1- A criação de um Centro de Recolha Municipal de Acolhimento e
Proteção dos Animais onde os animais abandonados, errantes e em risco possam
ser recolhidos, recuperados, tratados, identificados, esterilizados e
encaminhados para adoção responsável, com uma política de não-abate.
2- A criação de um Regulamento Municipal de Proteção dos
Animais, no qual se definam, de harmonia com a legislação nacional em vigor,
normas municipais mais estritas e mais firmes de proteção dos animais, com um
sistema contraordenacional e coimas correspondentes, verdadeiramente eficazes
para dissuadir/punir eventuais infrações às disposições desse Regulamento e à
legislação em vigor de proteção dos animais.
3- A abertura do Centro de Recolha aos serviços de voluntariado
de associações e de grupos de amigos dos animais, nomeadamente aos fins de
semana, de modo a garantir o acompanhamento dos animais que ali se encontrem e
a poder facilitar contactos com promitentes adotantes.
Esta iniciativa, que esperamos tenha a adesão de muitas
pessoas, surge numa altura em que por parte da Assembleia Regional dos Açores
há uma abertura para que seja implementada uma nova política que se traduzirá na
esterilização de animais errantes e no estabelecimento
de “parcerias que visem uma utilização pública do espaço do Hospital Alice
Moderno, em moldes que se mostrem adequados a todas as partes e que respeitem a
memória da referência, neste contexto, que é Alice Moderno”
Sobre o assunto do hospital Alice Moderno, o Secretário
Regional dos Recursos Naturais, em declarações à Comissão
Permanente dos Assuntos Sociais da Assembleia Legislativa Regional dos Açores,
também afirmou que “não veria problema de maior em que se tornasse um hospital
público” e abordou a “possibilidade do Governo Regional efetuar algum tipo de
protocolo com alguma associação”.
Pelos
vistos a “bola” está do lado das associações. Quem dá um passo em frente?
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, 2952, 20 de Novembro de 2013, p.16)
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Alice Moderno e os animais
ALICE MODERNO E A PROTEÇÃO DOS ANIMAIS EM VILA FRANCA DO CAMPO
Já por diversas vezes tive a oportunidade de escrever sobre o papel de Alice Moderno (1867-1946) na luta pela proteção dos animais no arquipélago dos Açores, nomeadamente na fundação e dinamização da atividade da Sociedade Micaelenses Protetora dos Animais, na denúncia persistente dos maus tratos infligidos aos animais de companhia e aos usados no transporte de mercadorias e, por último, no seu contributo, através da sua herança, para a construção de um hospital para tratamento dos animais doentes.
Numa altura em que um, ainda pequeno, grupo de vilafranquenses sensíveis à causa animal está a preparar uma ação de sensibilização com vista a minorar o sofrimento dos animais de companhia que são vítimas de maus tratos e de abandono, acabando por ir parar aos canis onde na sua maioria são abatidos, achei por bem dar a conhecer, através dos relatos de Alice Moderno, o que se passava no início do século passado e fazer o confronto com o que se passa hoje.
Começo por recordar que o jornal “O Autonómico”, que se publicou em Vila Franca do Campo, foi um grande defensor dos animais, quer saudando a criação de associações de proteção, quer exigindo o cumprimento do código de posturas municipal, quer denunciando os abusos cometidos.
A este propósito, Alice Moderno, a 13 de Outubro de 1912, denunciou no seu Jornal “A Folha” a existência “na pátria de Bento de Góis” de “um vendilhão de peixe, surdo-mudo de nascença, que espanca o pobre burro que lhe serve de ganha-pão com uma ferocidade inaudita e revoltante”. Segundo ela, que presenciou o episódio, “o pobre burro” foi alvo de “enormes bordoadas” por parte de um “ferocíssimo aborto” que estava “armado de um grosso cacete”.
Hoje, os animais de tiro quase desapareceram e com o seu desaparecimento terão acabado (?) os maus tratos de que eram vítimas e que cheguei a presenciar, na Ribeira Seca, durante a minha infância e juventude.
Ainda recentemente, tive a oportunidade e a tristeza de observar, em Água d’Alto, um cavalo que estava debilitado, fruto de um alimentação insuficiente e possivelmente de falta de tratamento veterinário adequado.
No que diz respeito ao melhor amigo do homem, o cão, Vila Franca do Campo tem, por um lado, exemplos de pessoas que têm sabido dedicar algum do seu tempo à sua proteção e, por outro, tem exemplos de gente de coração empedernido que trata os animais como se calhaus fossem.
Em 1945, Alice Moderno denunciou, no Diário dos Açores, o facto de “Vila Franca das Flores” se distinguir “pela guerra feita ao mais fiel amigo do homem, o pobre cão”.
No texto referido, intitulado “Envenenamento de um cão”, Alice Moderno menciona as denúncias que tem recebido por parte de vários vilafranquenses, entre os quais o Dr. Urbano Mendonça Dias, relativas ao “lamentável espetáculo que oferecem, expostos nas ruas, cadáveres de cães a que foi propinada estricnina por mão incógnita e impiedosa”.
Por último, Alice Moderno menciona um caso de abandono, muito comum nos dias de hoje, que mostra a crueldade de alguns e a humanidade de outros. Aqui fica o relato:
“Ultimamente deu-se mais um destes casos: um continental saiu da vila abandonando o um pobre cão que possuía.
Uma gentil criança, filha do sr. Manuel Cabral de Melo, residente na rua da Vitória, tomou o desamparado quadrúpede sob a sua proteção, e todos os dias lhe fornecia um repasto que lhe garantia a existência.
Pessoa de mau coração - parece que moradora na mesma rua e muito embora o infeliz animal fosse absolutamente inofensivo, entendeu eliminá-lo da circulação envenenando-o cruelmente com grande mágoa do seu jovem protetor, cujo excelente coração é digno de maiores elogios.
Felizmente, parece que semelhantes casos não se repetirão por muito tempo visto que no continente da República há quem esteja eficazmente ocupando dos direitos dos irracionais e do dever que assiste ao Estado de os proteger”.
Infelizmente, quase setenta anos depois, o flagelo do abandono de animais de companhia ainda não foi debelado. Até quando continuará o crime sem castigo?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2946, 13 de Novembro de 2013, p.16)
terça-feira, 5 de novembro de 2013
A serpentina em Vila Franca do Campo e em São Jorge
Em texto publicado, no passado dia 30 de Outubro, fiz referência à utilização das duas espécies que têm o nome comum de serpentina. Nesta edição do jornal, limitar-me-ei a escrever sobre a serpentina-mansa (Arum italicum), nomeadamente sobre o seu uso para o fabrico de uma farinha na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo e nas Manadas, ilha de São Jorge.
Na ilha de São Jorge, a serpentina é também designada por jarroca. De acordo com uma recolha efetuada há alguns anos pelo Centro de Jovens Naturalistas de São Jorge, junto da família Raposos da localidade das Manadas, a soca era apanhada nos meses de Abril e de Maio.
Depois de colhidas as socas eram lavadas e raspadas com uma faca para retirar a “pele” e a seguir eram moídas num moinho de carne. A polpa obtida era colocada num alguidar com água que era mudada durante três dias. Em seguida, era escorrida e colocada num tabuleiro até secar bem.
Para além de ser usada no fabrico de papas, a farinha de serpentina era tida, em São Jorge, como bom remédio para “a diarreia de pessoas e animais”.
Ainda de acordo com a mesma fonte, a farinha de serpentina também era usada para fazer goma, procedendo-se do seguinte modo: “Para tal, dissolve-se, em água fria, a farinha de jarroca, junta-se água a ferver e, enquanto morna, molha-se a roupa que se põe a secar. Ainda húmida passa-se o ferro até enxugar”.
Por último, na mesma nota que vimos referindo e que foi da autoria da senhora Maria José Silveira Azevedo, das Manadas, ficamos a saber que “em tempos de fome, o povo ia pelos “biscoitos” e matas procurar a soca de jarroca e a soca de feto para fazer farinha com que preparava uma massa que era cozida em bolos, no tijolo”.
Na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, na década de 70 do século passado, alguns homens, sobretudo camponeses sem terra, dedicavam-se à recolha da serpentina para compensar a falta de trabalho em alguns meses do ano. Lembro-me de ver alguns deles com sacas às costas e a deixá-las na casa da senhora Antonina “Trovoa” que morava na rua do Jogo.
Segundo Manuel Francisco, sobrinho de Antonina “Trovoa”, grande parte da farinha produzida na Ribeira Seca era vendida para Ribeira Grande, presumivelmente para Ezequiel Moreira da Silva que chegou a fazer a sua exportação para Lisboa.
Na altura, era muito fácil encontrá-la na Ribeira Seca ou nas localidades vizinhas, enquanto hoje a bibliografia menciona a sua abundância sobretudo na Ribeira Chã e nos Arrifes. Nas minhas caminhadas pela ilha de São Miguel, tenho-a encontrado um pouco por toda a parte, sendo muito fácil encontrá-la no Pico da Pedra.
Em conversa recente com Madalena Oliveira, moradora na rua da Cruz, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, talvez a única pessoa que ainda mantém viva a tradição no concelho, confirmei tudo o que havia tomado conhecimento através de diversa bibliografia consultada, a qual não incluía o livro recentemente, e em boa hora, editado pela Junta de Freguesia da Ribeira Chã “Serpentina Uma Tradição de Raiz”, da autoria de Teresa Perdição.
Madalena Oliveira que, aprendeu com sua mãe, Maria dos Anjos Salema Carreiro, e sua avó, referiu que a recolha dos rizomas é feita antes de a plantas espigarem, sobretudo nos meses de Fevereiro e Março, mês em que obteve melhores resultados.
Como principais instrumentos usados na transformação dos rizomas em farinha, Madalena Oliveira mencionou um ralador adaptado para o efeito, uma peneira de milho, uma dorna de madeira e panas de plástico que substituíram os alguidares de barro. Longe vão os tempos, referidos por Silvano Pereira, em 1947, em que os rizomas eram desgastados “pela fricção contra uma pedra ou tábua de lavar”.
Numa altura em que está difícil a vida para quem vive do seu trabalho, a recuperação e valorização de conhecimentos e práticas antigas deve merecer o carinho de quem tem nas suas mãos a gestão da coisa pública, a começar pelas Juntas de Freguesia que são quem está em contato direto com as populações.
No passado, escreveu Silvano Pereira, o fabrico de farinha de serpentina constituiu “uma pequena indústria rural” que deu origem a “um comércio de certa importância”. Hoje, poderá ser um complemento ao rendimento de algumas famílias.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2940, 6 de Novembro de 2013, p.16)
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