quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Do ensino privado ao público em Vila Franca do Campo



Do ensino privado ao público em Vila Franca do Campo
Em 1904, a então regente do reino, D. Maria Pia, concedeu licença para que o Instituto de Vila Franca do Campo, futuro Externato, iniciasse a atividade letiva.
Até à criação da então chamada Escola Preparatória de Vila Franca do Campo, que abriu as suas portas a 29 de Outubro de 1984, o Externato desempenhou um papel de relevo como instituição de caráter cultural e educativo, sendo apenas lá que se ministrava o ensino para além da quarta classe.
Até ao seu desaparecimento, pelo Externato de Vila Franca passaram muitos alunos sobretudo das famílias com mais posses. Contudo, foi graças a ele que muitos jovens oriundos de algumas famílias sobretudo da chamada classe média, de camponeses com terra ou filhos de emigrantes conseguiram prosseguir os seus estudos, pelo menos até ao antigo quinto ano de escolaridade (hoje nono ano).
Não sei se sempre, mas pelo na altura em que o frequentei a direção do Externato concedia, embora em reduzido número, a isenção do pagamento de propinas a alguns alunos mais carenciados, o que é digno de ser elogiado. Mas, como no melhor pano cai a nódoa, na ocasião soube que um aluno de Água d’Alto com bom aproveitamento escolar não conseguiu prosseguir estudos, para além do segundo ano, pois foi preterido a favor de outro que vivia com uma pessoa sem quaisquer dificuldades económicas.
Com a democratização da sociedade iniciada a 25 de Abril de 1974, os partidos e as pessoas ideologicamente situados à esquerda ou os “cristãos-novos” tudo fizeram para controlar o jornal “A Vila” que acabou por deixar de se publicar e para tirar o monopólio do ensino pós primário ao Externato de Vila Franca do Campo, cujos dirigentes e professores, na maioria padres e professores do primeiro ciclo do ensino básico, eram ou tinham sido apoiantes do regime deposto ou eram conservadores e ligados aos partidos colocados à direita do espectro político, o que só viria a acontecer 10 anos depois do levantamento militar.
De entre as diligências e ações efetuadas recordo-me de uma “campanha” de artigos de opinião publicados num dos jornais diários de Ponta Delgada planeada na casa, de um militante de um partido político não pertencente ao arco da governação.
No âmbito da referida “campanha”, que ocorreu em 1977, escreveram António Medeiros Andrade (pseudónimo), Humberto Amaral (pseudónimo), Ricardo Rodrigues e José Dias, tendo o Corpo Diretivo do Externato emitido um esclarecimento onde critica “os autores do artiguelho e da carta aberta” que “ou estão mal informados ou adulteram propositadamente a realidade para desvirtuarem a ação deste Externato “.
O esclarecimento, para além de referir “a degradação que o Ensino sofreu após o 25 de Abril com a onda de libertinagem e anarquia que assolou a Nação, a que Vila Franca do Campo não ficou alheia, da qual ainda se ressente e que alguém procura recriar, insuflando-lhe novas energias pseudo progressistas” apresenta ataques pessoais como se pode ver pelo parágrafo seguinte: “Não pode conceber-se que a formação de um Corpo Docente responsável fique à mercê de indivíduos que não conseguem outro emprego ou que falharam no exame de aptidão ao Ensino Superior e que pretendem apenas entreter as horas de ócio onde, erradamente julgam mais conveniente e fácil”.
Humberto Amaral, no seu texto denuncia o facto de os professores serem admitidos por simpatia, de alguns professores acumularem funções indo portanto “auferir dois ordenados” quando “naquela vila, há pessoas desempregadas, uns casados, outros solteiros, que não podem ser admitidos, e a razão é muito simples: o sr. Prior não quer!”
Ricardo Rodrigues, em Carta aberta ao Dr. Reis Leite, Secretário Regional da Educação, além de denunciar as mesmas situações referidas por Humberto Amaral, refere o facto de um professor recusar distribuir aos alunos textos recebidos do Ministério da Educação e o encerramento de uma cantina “porque não dava lucro”.
José Dias, por seu turno, relata que após algumas diligências feitas antes do 25 de Abril para a instalação do ensino oficial no concelho, foi a primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal que procurou dar corpo à ideia, a qual não foi implementada apesar de haver um despacho favorável à criação da referida escola. José Dias também referiu que outras localidades de outras ilhas iriam já beneficiar no ano letivo de 1977-78 “com o Ciclo Oficial” e acaba com a seguinte questão: o que espera a população local? Que o ensino oficial caia do céu?”
Por último, António Andrade chama a atenção para o facto de ser da incumbência do Estado “levar a todas as parcelas do território nacional, a toda a população do país, o ensino, a instrução, a cultura”
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2996, 15 de Janeiro de 2014, p.15)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A VONTADE DE ALICE MODERNO VAI SER RESPEITADA?



A VONTADE DE ALICE MODERNO VAI SER RESPEITADA?

1-   O bem-estar animal e o controlo das populações de animais errantes

Foi com muita satisfação que recebi a notícia da aprovação, por maioria, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, no passado dia 10 de Dezembro, de uma resolução que visa a promoção do bem-estar animal e o controlo das populações de animais errantes.

Se estão de parabéns todos os deputados que aprovaram a resolução, bem como todas as entidades que emitiram os seus pareceres favoráveis, como o Clube dos Amigos e Defensores do Património Cultural e Natural de Santa Maria e a APA- Associação Açoriana de Proteção dos Animais, lamenta-se o silêncio, embora possa haver justificações fortes para tal, de outras associações de proteção dos animais.

Embora respeitável, já que todos têm direito à sua opinião, considero lastimável o parecer da Delegação dos Açores da Ordem dos Médicos Veterinários, pois emite opiniões sobre um texto treslido.

Não deixando de ser extremamente positiva a aprovação da resolução, tenho sérias dúvidas acerca da sua implementação já que há sempre alguém apostado em puxar para trás, em tentar impedir a evolução das sociedades.

Não vou aqui rebater os vários argumentos contra a resolução, apenas mencionei o dos custos da implementação de uma política de não abate que é recomendada por várias organizações internacionais.

Por acaso, já alguém apresentou algum estudo com os custos do abate sistemático e da incineração dos milhares de animais mortos nos canis, licenciados ou não, nas diferentes ilhas dos Açores e que nunca pararão já que sem esterilizações os animais continuarão a procriar-se?

Temos dúvidas se o farão, pois o que é chique é fomentar o consumo, o usar e deitar fora e, no caso em apreço, é comprar e oferecer animais pelas festas ou aniversários para os abandonar à primeira oportunidade.

2-   Por que razão aderi à causa animal?

Há algum tempo, estou em crer que em jeito de brincadeira, alguém escreveu numa conhecida rede social que não podia contar comigo pois eu era amigo dos animais e não dos humanos.
Como não tenho que dar provas de nada e como cada um tem a liberdade de escrever o que lhe vai na alma, apenas aproveito para enumerar algumas razões que me motivam a lutar pelos direitos dos animais e que são, em síntese, as seguintes:
1-      Porque ninguém sensível poderá ficar indiferente, no caso dos animais de companhia, à barbaridade que consiste no abate, anualmente, de 100 mil animais em Portugal nos canis municipais, resultado de compras irrefletidas, de adoções irresponsáveis, de falta de compaixão e de políticas erradas;

2-      Porque não é incompatível o envolvimento na causa animal com a adesão a todas as outras. Quem contribui com o seu trabalho voluntário ou monetariamente para a proteção dos animais não está impedido de o fazer para outras causas, como o combate à fome no mundo ou na nossa terra, o apoio aos idosos ou aos sem-abrigo, etc..

3-      Porque, como muito bem escreveu Alice Moderno, “Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes”.

4-      Finalmente, porque, como muito bem escreveu Álvaro Múnera, antigo toureiro colombiano que, arrependido, passou a dedicar-se à defesa animal: “os animais vivem um absoluto inferno por culpa do beneficiário de noventa e nove por cento das causas existentes, o ser humano”.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2992, 9 de Janeiro de 2014, p.13)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Como foi vivido o atentado a Salazar em Vila Franca do Campo



Como foi vivido o atentado a Salazar em Vila Franca do Campo
Em edição anterior do Correio dos Açores publicámos um texto relativo ao atentado ao Doutor Oliveira Salazar, onde para além de termos referido a obsessão das autoridades por culpabilizar uma determinada força política, mencionamos o modo como alguns jornais reagiram ao mesmo.
Neste texto, vamos divulgar como foi sentido em Vila Franca do Campo o atentado ao Doutor Oliveira Salazar, que ocorreu a 3 de Julho de 1937.
As primeiras referências ao atentado surgiram, em Vila Franca do Campo, no dia 10 de Julho, no jornal “O Autonómico” e no dia seguinte, no jornal “A Crença”.
Com o título “Salazar – nefando atentado”, o redator principal de “O Autonómico”, o Padre João de Melo Bulhões, recordou outros atentados onde foram assassinados D. Carlos, “um grande português, precisamente no momento em que mais se empenhava por fazer sair o país do atoleiro da ignomínia em que as lutas mesquinhas dos partidos políticos o tinham lançado”, Sidónio Pais, “que queria inaugurar uma época de paz e tolerância, após o truculento domínio do democratismo intolerante” e António Granjo, “quando intentava fazer da república um regime para todos os portugueses”.
Sobre o atentado propriamente dito, o Padre João Bulhões escreveu que “a perda de Salazar era uma perda irreparável. Era lançar a nação nas incertezas dum futuro tenebroso”. E termina o texto escrevendo: “Para trás bandoleiros!..Queremos que governe Salazar, porque governando Salazar, sabemos para onde vamos e o futuro que nos espera. Queremos que governe Salazar, porque, governando Salazar, é Portugal que manda e nós somos portugueses.”
No jornal “A Crença”, que era dirigido pelo Padre Ernesto Ferreira e que tinha como proprietário e editor o padre João De Melo Bulhões, do dia 11de Julho de 1937, um pequeno apontamento dá conta que “a notícia do atentado contra o Dr. Oliveira Salazar causou em toda a Ilha de S. Miguel a maior repulsa e indignação, pois tal ato, além de ser vil e cobarde, representa um verdadeiro crime da traição à Pátria, neste momento difícil que atravessamos”.
A 11 de Julho, o Núcleo de Vila Franca do Campo da Legião Portuguesa, organização criada em 1936 com o objetivo de “defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e anarquista”, que mais tarde implementou uma rede de informadores, os “bufos”, mandou rezar uma missa na Matriz de São Miguel Arcanjo “acompanhando o movimento de repulsa que vai por todo o país”.
À missa que foi celebrada pelo Padre João de Melo Bulhões assistiram todos os legionários do núcleo local que era comandado pelo Dr. Luciano Machado Soares, Conservador do Registo Predial da Comarca de Vila Franca do Campo, bem como por “muitas senhoras, várias autoridades, funcionários públicos, cavalheiros de representação e muito povo”.
A 24 de Julho, o jornal “O Autonómico” transcreve um artigo da “pena do Ilustre Diretor de “A VOZ” onde este refere que quem lucraria com o atentado seria “em primeiro lugar os elementos revolucionários portugueses, mais ou menos retintos na vermelhidão, representantes do democratismo burguês ou do marxismo espanhol, que aspira a converter a Península em agregado de republiquetas soviéticas federadas sob a hegemonia de Moscovo”. Por último, a coordenar todas as forças, segundo o citado autor, estaria a Maçonaria que “é pelos seus ensinamentos hipócritas e pela sua sombria e ridícula liturgia, uma escola do assassínio político.”
A 4 de Agosto, o Correio dos Açores divulga uma nota, datada de 21 de Julho, do seu correspondente em Ponta Garça, que supomos ser o professor do ensino primário António de Medeiros Rodrigues, onde este refere que “causou em Ponta Garça a maior repulsa e indignação o vil e monstruoso atentado de que ia sendo vítima, no dia 4 do corrente, em Lisboa, o nosso querido e prestigioso Chefe – Dr. Oliveira Salazar”.
Por último, a 30 de Outubro de 1937, “O Autonómico”, numa nota publicada na primeira página, menciona que “O Sr. Dr. Oliveira Salazar quis ter a gentileza de distinguir a Comissão Administrativa do nosso Município com um atencioso cartão de agradecimentos pelos parabéns e protestos que esta lhe dirigiu contra o vilíssimo atentado de que S. Exª  ia sendo vítima e milagrosamente escapou”.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 2986, 1 Janeiro de 2014, p.15)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Atentado a Salazar na imprensa de Ponta Delgada



Atentado a Salazar

A 4 de Julho de 1937, o Doutor António de Oliveira Salazar (1889 1970), presidente do Conselho de Ministros, foi alvo de um atentado perpetrado por anarquistas, sendo o mais conhecido de entre eles o anarco-sindicalista Emídio Santana (1906 - 1988), autor de diversos ensaios sobre o anarco-sindicalismo e o mutualismo, que depois da queda do Estado Novo, em 25 de Abril de 1974, foi um dos fundadores do Movimento Libertário Português e da “Cooperativa Editora A Batalha” e diretor do Jornal “A Batalha”, que ainda hoje se publica.
Emídio Santana, que fugiu de Portugal por via marítima foi detido em Southampton, no Reino Unido, e entregue à polícia portuguesa em Outubro de 1937, no seu livro “História de um atentado: o atentado a Salazar”, publicado em 1976, relata com pormenor o ocorrido. Na referida obra nada lhe escapa, desde a preparação até às peripécias ocorridas depois do atentado, passando pelo ocorrido no dia. 
O jornalista Valdemar Cruz, no seu livro “Histórias secretas do atentado a Salazar”, editado pela primeira vez em 1999 e reeditado em Abril deste ano, por sua vez, dá-nos a conhecer os segredos da investigação policial, os falsos autores do atentado que depois de torturados confessaram o que não fizeram e as duas mortes que nunca ninguém explicou.
Curioso, ou talvez não, foi o papel desempenhado pela comunicação social que, como acontece nas ditaduras sejam elas quais forem, foi na sua maioria fiel aliada ou porta-voz do regime, divulgando todas as mentiras que eram sopradas pela PYDE, que obcecada com o Partido Comunista e em mostrar serviço, quarenta e oito dias depois noticiou a prisão de cinco falsos implicados no atentado.
Em São Miguel, a comunicação social foi unânime na condenação do atentado e na divulgação das várias manifestações de apoio ao Doutor António de Oliveira Salazar, embora o tema que mais preenchesse diariamente as páginas dos jornais, sobretudo do Correio dos Açores, fosse a guerra civil espanhola, entre republicanos e partidários de Francisco Franco, general que liderou um governo de orientação fascista de 1936 a 1975.
Com grande destaque na primeira página, no dia 6 de Julho de 1937, o jornal Correio dos Açores, dirigido por José Bruno Carreiro, refere que “a notícia do atentado contra Salazar …- causou em toda esta nossa ilha de S. Miguel, como não podia deixar de ser – as mais profundas e as mais justas indignações” e acrescenta “com verdade se pode dizer que este momento é uma encruzilhada da história em que se encontram frente a frente, embora pareça um paradoxo, Portugueses portugueses e portugueses que o não são. Para os primeiros vive Portugal, para os segundos vive Moscovo.
A 18 de Julho, o Correio dos Açores transcreve a notícia, publicada no Diário da Manhã oito dias antes, que menciona como culpado o “ignóbil facínora” António Conrado Júnior e como cúmplices, “iguais facínoras de igual jaez: Francisco Horta Catarino e José dos Santos Rocha”.
O Açoriano Oriental, dirigido por Ferreira d’Almeida, no dia 10 de Julho de 1937 apresenta na sua primeira página um texto intitulado “Salvé Salazar! Garantia do Império” onde são feitos elogios ao presidente do Conselho de Ministros e são referidas as manifestações de cariz religioso e cívico de condenação do atentado, realizadas em São Miguel.
A 28 de Agosto, o Açoriano Oriental divulga os nomes dos “autores do execrando crime”: Jacinto Carvalho, António Pires da Silva, Aires do Ascensão Eloy, José Hota e Manuel Francisco Pinhal. No mesmo texto são divulgadas declarações dos investigadores, segundo os quais a responsabilidade do crime era atribuído a organizações terroristas estrangeiras, “o partido comunista português era de nulo valor antes da guerra em Espanha” e os seus “chefes”, José de Sousa e Bento Gonçalves que estiveram na Rússia e receberam instruções do Komintern” eram “de baixa categoria”.
Não deixa de ser estranha a insistência das autoridades em atribuir a culpa aos comunistas quando o PCP, através do jornal “Avante”, saído no final do mês de Julho de 1937, já se havia pronunciado “contra o terrorismo individual porque esta tática só serve os interesses da contrarrevolução – do fascismo”.
Estranho, também, não deixa de ser o facto de os verdadeiros responsáveis pelo atentado, opositores ao regime e ao Partido Comunista, entre os quais Emídio Santana, Francisco Damião e Raul Pimenta, só começarem a ser presos nos últimos dias do mês de Setembro de 1937.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº2983, 27 de Dezembro de 2013, p.21)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O caminho faz-se ao andar…



O caminho faz-se ao andar…

Quando há cerca de 40 anos comecei a participar em passeios pedestres, sobretudo nos concelhos da Ribeira Grande e de Vila Franca do Campo, estava longe de imaginar que o pedestrianismo viria a ser uma prática que hoje atrai cada vez mais pessoas que têm como objetivo quase único o desfrutar do meio envolvente.
Também estava longe de imaginar que viria a interessar-me não só pelo pedestrianismo, o desporto dos que andam a pé, mas também pela frequência de ações de formação, pela organização de caminhadas, pela elaboração de roteiros e finalmente pela dinamização de ações de formação em escolas e para agentes turísticos, no âmbito dos Amigos dos Açores- Associação Ecológica.
Mas, o pedestrianismo que é a atividade de percorrer grandes distâncias a pé, na natureza, normalmente por caminhos bem definidos e sinalizados, é para alguns considerado como situado entre o desporto e o turismo. Com efeito, ao fazer deslocar pessoas para as zonas rurais, o pedestrianismo poderá promover o desenvolvimento socioeconómico através da rentabilização da oferta hoteleira, da restauração, do alojamento rural, do turismo de habitação, etc.
Quando foi aprovado, em Dezembro de 2004, pela Comissão de Acompanhamento dos Percursos Pedestres da Região Autónoma dos Açores, a primeira “Lista de Percursos Pedestres Recomendados” passaram a existir em oito ilhas dos Açores (o Corvo ficou de fora) 36 trilhos recomendados, sendo a sua extensão aproximada de 283 km. Na altura, 12 dos 36 trilhos (30%) existentes localizavam-se na ilha de São Miguel, sendo a sua extensão sensivelmente igual a 31% da dos trilhos dos Açores.
A grande aposta no pedestrianismo como atividade/oferta turística foi feita, a nível governamental, pelo Prof. Doutor Duarte Ponte, na qualidade de Secretário Regional da Economia e pela Drª Isabel Barata, Diretora Regional do Turismo. A propósito, refira-se que, a 23 de Setembro do ano 2000, o referido Secretário Regional fez a abertura simbólica do primeiro percurso pedestre sinalizado dos Açores, o da Serra Devassa, localizado no concelho de Ponta Delgada.
A nível autárquico, o concelho que mais apostou no pedestrianismo foi o da Povoação durante a presidência do professor Francisco Álvares. Infelizmente, apesar de algum trabalho efetuado, o concelho de Vila Franca do Campo poderia ter ido muito mais longe no aproveitamento das suas potencialidades.
Mas se houve algum alheamento ou mesmo uma aposta errada no percurso urbano “Ponta Garça- Vila Franca”, por parte da Câmara Municipal, os Amigos dos Açores fizeram uma aposta forte no concelho. Com efeito, ao longo dos anos e desde 1994 foram editados milhares de roteiros de percursos pedestres com destaque para o do percurso “Praia-Lagoa do Fogo”, o qual é, a par com o da Serra Devassa, já mencionado, e com o do Salto do Prego-Sanguinho, no Faial da Terra, um dos três mais visitados da ilha de São Miguel.
Os Amigos dos Açores editaram cinco roteiros de percursos pedestres implantados, no todo ou em parte, no concelho de Vila Franca do Campo, a saber:
- Praia Lagoa do Fogo, com diversas edições, com mais de 6000 exemplares publicados no total e que está esgotado;
- Três Lagoas, com pelo menos uma edição de 1500 exemplares;
- Quatro Fábricas da Luz, com pelo menos uma edição de 1500 exemplares;
- Pico da Vela, com três edições, de 1500 exemplares cada;
- Ponta Garça – Ribeira Quente, com uma edição de 1500 exemplares.
Hoje, se queremos aproveitar todos os recursos que a natureza nos deu para dinamizar o concelho de Vila Franca do Campo há que fazer uma aposta no pedestrianismo, quer acompanhando o que é feito pelo Governo Regional dos Açores, quer tomando a iniciativa de dinamizar a atividade e de recuperar trilhos e fazer uma ampla divulgação dos que já existem.
Em jeito de conclusão, sugiro que seja estudada a hipótese da sinalização do percurso do Pico da Vela e do das Três Lagoas, com as necessárias alterações, que na impossibilidade da manutenção do trilho Ponta Garça-Ribeira Quente o mesmo seja transformado num percurso circular não saindo do concelho de Vila Franca e que seja averiguada a possibilidade da abertura de um percurso circular com inicio na Praça Bento de Gois, passagem pela Senhora da Paz e pela Quebrada e regresso pelo antigo caminho do Calço com passagem pela Rua da Cruz e rua da Palmeira na Ribeira Seca e regresso ao ponto de partida.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 2976, 18 Dezembro de 2013, p.18)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Terra Livre

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Felicidade de todos os seres na sociedade futura



A Felicidade de todos os seres na sociedade futura

"Gonçalves Correia dá-me vontade de rir pela sua ingenuidade e tolstoianismo - mas acaba por se me impor. Este homem, que pretende realizar um sonho, dá a esse sonho tudo o que ganha, e, apesar da guedelha, das considerações ingénuas, faz-me pensar" (Raul Brandão)

Nas minhas pesquisas em jornais antigos cheguei a uma reportagem publicada no jornal “A Vila”, publicada no dia 7 de Julho de 1994, onde se dá conta da presença em Vila Franca do Campo de um bisneto do escritor e pensador russo Leão Tolstói que havia adquirido naquela vila uma propriedade onde passou a residir durante alguns meses do ano.
Quase em simultâneo, também dei conta que o projeto de sociedade e as ideias defendidas pelo famoso escritor russo eram muito apreciados em todo o mundo nos primeiros anos do século passado sobretudo por quem se reclamava do pensamento libertário.
Em São Miguel, a sua obra e pensamento foi difundida pelo jornal “Vida Nova”. Naquele jornal, entre outros, João Anglin, que mais tarde foi reitor do Liceu Nacional de Ponta Delgada. a ele dedicou pelo menos um texto.
No continente português, Leão Tolstói foi referência para António Gonçalves Correia, anarquista tolstoiniano que esteve em São Miguel, em 1910, e que colaborou em quatro números do quinzenário micaelense “Vida Nova”.
Gonçalves Correia (1886-1967) foi um anarquista português que nasceu em Castro Verde e faleceu em Lisboa. Vegetariano, foi ensaísta e poeta, tendo criado a primeira comunidade anarquista em Portugal, a Comuna da Luz, no Vale de Santiago, em Odemira.
De acordo com José Maria Carvalho Ferreira, defendia um tipo de anarquismo que era “marginal” em relação às teorias e práticas (anarco-sindicalismo e anarco-comunismo) que eram dominantes na época em que viveu.
As ideias de Gonçalves Correia ainda hoje mantêm atualidade já que o mesmo não se limitava a defender uma melhor vida para os humanos mas também para todos os animais. Mas, se assim pensava melhor o fazia. Sobre o assunto Carvalho Ferreira escreveu: “Comprar passarinhos que estavam prisioneiros nas gaiolas aos comerciantes que os vendiam nas feiras do Alentejo para depois os libertar, ou desviar-se com a sua bicicleta dos caminhos percorridos pelas formigas para não as matar, são exemplos paradigmáticos de como nós devemos agir para se construir um equilíbrio ecossistémico entre todas as espécies animais”.
Gonçalves Correia, que é para alguns considerado um precursor da permacultura, numa palestra intitulada “A Felicidade de todos os seres na sociedade futura”, proferida em Évora, em 1922, e que mais tarde foi publicada em livro, dizia que o sofrimento, “obra maléfica do homem”, afeta não só os seres humanos mas também os “irracionais” que “vieram ao mundo para serem a ajuda fraternista de todos nós e nunca escravos tristes e submissos que chocam a nossa sensibilidade”.

Para ultrapassar a condição degradante em que viviam todos os seres vivos, que segundo ele tinha como causa principal a “fórmula errada da propriedade privada “, Gonçalves Correia defendia que se devia empregar “todo o esforço sincero e ardente no sentido de criar a alegria nos seres humanos, pois que a alegria, assim, se irá refletir até mesmo nos seres inferiores”.
E como alcançar a felicidade?
Gonçalves Correia acreditava que a felicidade, a alegria de viver, podia ser alcançada “pela clarificação da inteligência, pela bondade, pela pureza de intenções, pela sinceridade, pelo trabalho”. Mas não qualquer trabalho, apenas o trabalho “consciente, metódico, que não seja a tirania do salariato, que não seja a escravidão, o trabalho feito com alegria, com boa vontade, com consciência, o trabalho que dimana da nossa vontade soberana!”
E o que queriam os militantes que pensavam como Gonçalves Correia?
“ A abundância de pão para todas as bocas, a fartura de luz, essa luz bendita do amor, para todas as almas”.
Na sociedade futura que é perfeitamente alcançável, segundo Gonçalves Correia, não só será possível a felicidade para todos os homens, mas também para os “irracionais”. A este propósito dizia ele: “ O próprio irracional não terá, como o boi simpático e paciente, olhos mortiços o corpo cansado e esquelético. Compreenderá o homem, enfim que ser rei dos animais não significa ter o direito à sua tortura. Os próprios irracionais terão lugar no grande banquete da vida, inundando-se a terra de pura, de generosa alegria”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2970, 11 de Dezembro de 2013, p.16)

                 Foto daqui:       http://revistaalambique.files.wordpress.com/2012/06/1goncalvescorreia.jpg