sábado, 7 de junho de 2014
terça-feira, 20 de maio de 2014
José do Canto e o seu jardim
Apontamentos
sobre José do Canto e o seu jardim
Em
texto anterior referi que José do Canto destacou-se entre os micaelenses que
foram responsáveis pela criação de jardins no século XIX. Neste divulgarei um
pouco da sua vida e obra.
José
do Canto nasceu, em Ponta Delgada, no dia 20 de Dezembro de 1820, sendo filho de
José Caetano Dias do Canto Medeiros e de Margarida Isabel Botelho. Faleceu a 10
de Julho de 1898, tendo sido sepultado na Ermida de Nossa Senhora das Vitórias,
edificada na margem da Lagoa das Furnas.
O
seu pai, o morgado José Caetano Dias do Canto e Medeiros (1786-1858) pai de
dezanove filhos de dois casamentos empenhou-se na criação dos filhos. De entres
estes, José do Canto distinguia-se pelo seu interesse, desde criança, pelos
livros.
Em
1838, depois de ter aprendido as primeiras letras e frequentado aulas régias no
Convento dos Gracianos, o seu pai revolveu matriculá-lo no Colégio de
Fontenay-aux-Roses, em Paris, com vista, pensa-se, a prosseguir estudos universitários
em França.
Pouco
tempo depois de estar em França, ainda antes do final do referido ano, as
saudades da família fizeram com que regressasse a São Miguel onde não terá
ficado muito tempo, pois volta ao continente para frequentar os preparatórios
da Universidade em Coimbra.
Ainda
não se havia adaptado à nova vida quando o pai ordena o seu regresso para se
casar com uma jovem morgada, sua prima, Maria Guilhermina Taveira Brum da
Silveira (1826-1887), que José do Canto não conhecia, mas cujo dote, no dizer
de Carlos Riley, “ofuscava todos os cursos universitários deste mundo”.
José
do Canto, com 22 anos, casou-se com Maria Guilhermina, de 16 anos, a 17 de
Agosto de 1842, passando a ser um dos maiores proprietários dos Açores, com
terrenos nas ilhas de São Miguel, Faial e Pico.
A
relação de José do Canto com a natureza caraterizou-se, segundo Carlos Riley,
“sempre por interesses bastante mais científicos e racionalistas: explorar os
campos segundo os princípios da emergente agronomia e ordenar, qual demiurgo do
novo século, a natureza em parques e jardins ao gosto de uma sensibilidade
estética caracteristicamente romântica.”
Para
poder executar o que sonhava, José do Canto na primavera de 1846 vai a Londres,
tendo aí visitado livrarias em busca das novidades sobre botânica e
agricultura, visita viveiristas para escolha de plantas e contatou o arquiteto David
Mocatta com vista ao desenho de um jardim e de um palacete que pretendia
construir em Ponta Delgada.
Foram
vários os jardineiros que estiveram ao serviço de José do Canto, tendo sido o
inglês George Brown o primeiro. Tendo chegado a São Miguel, em 1845, segundo
Isabel Albergaria, “já nesse ano
trabalha no delineamento das ruas, preparação dos solos e plantações”, seguindo
“grosso modo” as diretivas de Mocatta.
O
jardim, que foi sendo construído ao longo do tempo, em 1856, terá cerca de
“1028 géneros e aproximadamente 6000 espécies”, segundo uma nota de Ernesto do
Canto escrita numa página em branco do manuscrito “Enumeração das principais
plantas existentes no meu jardim de S.ta Ana, na primavera de 1856”, da autoria
de José do Canto.
Dez
anos depois, Edmond Goeze, diretor do Jardim Botânico de Coimbra, ao verificar
a “pobreza” botânica do seu jardim, vem a São Miguel com o objetivo de colmatar
aquela falha, levando de cá cerca de mil espécies, a maioria delas (mais de
800) do Jardim José do Canto.
Em
próximo texto, continuarei a dar a conhecer a obra de José do Canto, mas não me
limitarei ao jardim.
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, nº 30342, 21 de Maio de 2014)
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Voleibol em Vila Franca do Campo
Teófilo
de Braga, um “grande jogador de voleibol”
Pediu-me a jornalista
Ana Coelho um depoimento sobre a atividade de meu pai, Teófilo de Braga, como
jogador de voleibol.
Aceitei
com todo o gosto o desafio, pois recordar um ente querido é repto que não se
deve escusar, apesar da pouca informação disponível..
A
dificuldade em escrever sobre o assunto, deve-se a que, quando nasci em 1957 a
atividade desportiva em Vila Franca do Campo era quase nula, meu pai já não praticava
a modalidade há alguns anos e ao facto de não haver fontes escritas, pois a comunicação
social da época limitava-se a apresentar os resultados dos jogos entre as
diversas equipas.
Filho
de António Carreiro Braga e de Maria Estrela Furtado Braga, Teófilo Braga
nasceu na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, a 30 de Janeiro de 1925. Antes
de ser incorporado no serviço militar, em 28 de Abril de 1946, sabia ler e
escrever mal. Durante o serviço militar, terá jogado voleibol, o que atestam
algumas fotografias, e concluído a terceira classe.
Na
Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, existiram duas equipas de voleibol, o
“São Miguel” que terá existido no final da década de 30 do século passado e o
Ribeirense que terá aparecido posteriormente e tido uma duração efémera, cerca
de quatro anos. Este, possuía o seu campo no início da Ribeira Nova, no leito
da ribeira, o que mostra a falta de condições para a prática da modalidade.
Meu
pai foi jogador do Ribeirense, tal como o foram Caetano Ventura, Augusto Luís,
José de Amaral, Ângelo Furtado Lima, Manuel Arsénio Moniz, António Teotónio,
Urbano Furtado Lima, José Furtado Salema e Manuel Furtado Salema.
Para
além de jogar no Ribeirense meu pai foi jogador do Marítimo de Vila Franca do
Campo, concelho onde para além das três equipas referidas existiram, também, o
“Pátria”, o “Esperança”, o “Casa do Povo”, o “Águia Azul”, o “Marítimo” e o
“Senhora da Vida”.
Depois
do 25 de Abril de 1974, a Escola do Primeiro Ciclo da Ribeira Seca abriu-se,
mais do que as suas congéneres à comunidade, tendo chegado a organizar as
verbenas de São João, bem como jogos destinados às crianças e aos adultos. Num
dos jogos de voleibol que se realizaram, em 1975, vi meu pai jogar e fiquei
impressionado com a força do seu remate.
Da
época em que meu pai jogou voleibol, apenas possuo algumas fotografias que
guardo religiosamente e uma medalha que ele recebeu num torneio que foi jogar,
em 1959, a outra ilha que não sei precisar qual.
Sobre
a sua prestação como desportista, retenho na memória a frase “foi um grande
jogador de voleibol” que ouvia sempre que alguém, sobretudo do sexo masculino,
querendo saber quem eu era, me perguntava pelo nome de meu pai.
Pico
da Pedra, 3 de Março de 2014
Teófilo
José Soares de Braga
(Publicado
no livro “80 anos de voleibol em São Miguel: uma rede de depoimentos e história”,
de Ana Maria Botelho Costa Coelho, Ponta Delgada: Associação de Voleibol de São
Miguel)
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Jardins e Educação
Jardins e Educação Ambiental
Em todo o mundo existem 2550 jardins botânicos que desempenham um papel
importante na conservação da biodiversidade ex situ, isto é fora do seu ambiente, e na sensibilização dos cidadãos para a
importância dos recursos naturais, nomeadamente acerca da premência da
conservação dos recursos vegetais.
Deve-se a Aristóteles (284-322), segundo Fernando Pessoa e Ricardo Silva,
a criação do ”embrião do que mais tarde viria a se constituir como Jardim
Botânico”, o qual servia para a observação das espécies e para o ensino da sua
classificação.
Em Portugal, o
Jardim Botânico da Ajuda, o primeiro jardim botânico português, desde meados do
século XVIII, é considerado como “a primeira e a mais importante instituição dedicada à cultura da história
natural do País”, dedicou-se a estudar o potencial
económico das plantas provenientes das colónias.
Na ilha de São
Miguel, foi pela vontade e ação de três ilustres micaelenses, António Borges,
José Jácome Correia e José do Canto que surgiram, no século XIX, os três mais
importantes jardins da cidade de Ponta Delgada.
Não
menosprezando o labor de ninguém, de entre os vultos referidos destacou-se José
do Canto que construiu um jardim que, no seu tempo, ombreava com muitos outros
a nível europeu, como se pode comprovar pelo seguinte texto da autoria de
Edmond Goeze, diretor do jardim Botânico de Coimbra, que visitou São Miguel, em
1866: “O jardim do Sr. José do Canto é inquestionavelmente o mais rico de
todos, possuindo talvez mais de 3000 espécies. Nenhum dos jardins particulares,
que tivemos ocasião de visitar na Europa lhe pode ser comparado…”.
Pouco conhecidos
pela maioria da população da ilha, os jardins referidos, para além de
constituírem espaços únicos que deveriam ser aproveitados pelos residentes nos
seus momentos de lazer, poderão constituir, se houver uma divulgação e uma
animação adequadas, um atrativo para quem nos visita.
Os jardins e em
especial os botânicos podem também desempenhar um papel fundamental na educação
ambiental não formal, pois, segundo Fernando
Pessoa e Ricardo Silva já referidos acima, o seu “espaço
diferenciado de lazer tem a capacidade de despertar a curiosidade sobre as
plantas, criando condições próprias à implementação de ações que promovam,
junto aos visitantes, grupos escolares e comunidades locais, a perceção dos
impactos da ação humana sobre o meio ambiente e a consciência sobre os efeitos
negativos da perda da biodiversidade, motivando-os a participarem de um ciclo
de desenvolvimento sustentável”.
De entre as
possibilidades referidas por Júlia Wilison no livro “Educação Ambiental em
Jardins Botânicos”, editado no Rio de Janeiro, em 2003, qualquer um dos jardins
micaelenses mencionados detém coleções de plantas suficientes de modo a
servirem para o ensino:
- da incrível diversidade do Reino Vegetal;
- das relações complexas que as plantas
desenvolvem com o ambiente;
- da importância das
plantas em nossas vidas, em termos económicos, culturais e estéticos;
- das principais
ameaças que a flora mundial enfrenta e das consequências da extinção das
plantas;
Com um pouco de boa
vontade e com a criação de programas educativos adaptados a cada um dos jardins
seria possível fazer com que os visitantes possam ter a possibilidade de “aprender
sobre o trabalho que está sendo realizado pelos jardins botânicos e ajudar a
salvar e conservar a flora mundial”, “apreciar a natureza como um todo”, “adquirir
habilidades práticas e conceitos teóricos para conservação, reprodução de plantas
e paisagismo” e “desenvolver atitudes, comportamentos e habilidades necessários
para solucionar problemas ambientais” (Wilison, 2003).
Teófilo Braga
(Correio dos
Açores, nº 30341, 14 de Maio de 2014, p.14)
quarta-feira, 7 de maio de 2014
A propósito da maçonaria
A propósito da maçonaria
Era ainda criança quando em conversa com alguns
colegas ouvi pela primeira vez falar em maçonaria. Estávamos nos últimos anos
da década de sessenta do século passado e vivíamos numa localidade rural, onde
os seus habitantes eram maioritariamente camponeses sem terra ou pequenos
(muito pequenos) lavradores, com uma baixa escolaridade e possuidores de uma
formação religiosa caraterizada pela intolerância face a todas as outras
crenças.
Na altura, penso que foi o meu amigo de infância Paulo
Carreiro que, no Canto da Ponta Garça, me disse que em Vila Franca do Campo
existia alguém que era da maçonaria e que, ao contrário dos católicos que
adoravam Deus que está no céu, os seguidores daquela organização eram adeptos
do Diabo que pretendiam dominar o mundo a fim de escravizar todas as pessoas.
Na altura, fiquei com medo mas não dei grande
importância, pois não me pareceu que a situação para a maioria das pessoas que
viviam muito mal, algumas de esmola, poderia piorar ainda mais. Mas, a
apreensão inicial deu origem à curiosidade que procurei, sem sucesso, saciar,
através da biblioteca móvel da Gulbenkian que mensalmente visitava a Ribeira
Seca.
Não havendo muita informação imparcial disponível,
considero natural que persistam preconceitos contra a instituição e contra os
maçons que na sua maioria continuam a não tornar pública a sua condição de
membros da maçonaria.
Embora não ache que se justifique, na sociedade atual,
pelo menos no nosso país, o secretismo existente, a Grande Loja Legal de
Portugal considera que “ser maçom não será
propriamente perigoso, mas poderá ser incómodo, trazer prejuízos. Onde o
preconceito contra a Maçonaria e os maçons ainda dura e ser maçom e ser
conhecido como tal ainda pode causar danos profissionais ou sociais. Também
nestes locais se justifica, e facilmente se percebe que justifica, a reserva de
identidade do maçom, a não divulgação dessa condição.”.
Situação completamente diferente era a existente em
ditadura, como a do Estado Novo, onde o direito de associação foi bastante
condicionado, tendo a Lei nº 1901, de 21 de maio de 1935 ilegalizado e
dissolvido as sociedades secretas e previsto sanções para os seus membros.
Através da leitura do livro “"A Maçonaria
Portuguesa e os Açores (1792-1935) ", da autoria de António Lopes, fiquei
a conhecer que foram os valores da liberdade, igualdade, fraternidade e o da
tolerância que nortearam a organização e que são perfeitamente atuais, numa
sociedade, desmotivada e depauperada pelas políticas que têm sido implementadas,
como é a que vivemos.
Para além dos princípios seguidos pela maçonaria, o
livro mencionado dá a conhecer as escolas e instituições de carácter social que
foram criadas pela ação dos maçons, algumas delas elitistas, como a Sociedade
Amor da Pátria, no Faial, e o Clube Micaelense, em São Miguel.
No que diz respeito ao ensino, destaca-se a criação de
algumas escolas “João de Deus” que tinham como objetivo principal diminuir o
analfabetismo existente, e a implementação das escolas agrícolas Maria Cristina
que desempenharam um papel ímpar no desenvolvimento agrícola da ilha de São
Miguel.
Por último,
embora de menos importância do que aquilo que já referimos, o autor apresenta
listagens dos membros das várias lojas existentes nos Açores. A partir delas,
esclarecemos as nossas dúvidas relativas ao concelho de Vila Franca do Campo e
ficamos a saber que alguns dos maiores vultos da cultura e da vida social,
política e até religiosa açoriana foram membros da maçonaria.
Aproveitamos a oportunidade para um esclarecimento final, para que não fiquem a pairar quaisquer dúvidas: não temos nenhuma ligação a qualquer loja maçónica onde, com certeza, tal como nas restantes organizações, haverá pessoas boas, as que seguem os seus ideais, e as menos boas, as que se aproveitam para tirar dividendos pessoais.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30337, 7 de Maio de 2014,
p.16)
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Resistência à ditadura
Foram poucos os que resistiram
Já
tivemos a oportunidade de escrever que, nos Açores, foram poucas, muito poucas,
as pessoas que se opuseram à ditadura militar (1926-1933) e ao Estado Novo. Tal
facto deve-se à adesão da elite açoriana ao regime autoritário, o que servia
melhor à manutenção da sua vida faustosa, sem ter o desconforto de se submeter
ao voto da populaça.
De
acordo com alguns historiadores, a mesma elite açoriana ou uma parte dela
aderiu ao chamado marcelismo (1968-1974), pois acreditava que Marcelo Caetano
seria capaz de fazer com que o regime evoluísse para uma democracia.
Das
muitas obras sobre a resistência ao Estado Novo que têm sido publicadas,
destacamos a “História da Oposição à Ditadura 1926-1974”, da autoria de Irene
Flunser Pimentel. Nesta “história das várias oposições, dos seus ideais e dos
seus conflitos, dos seus feitos e dos seus fracassos”, “dos homens e das
mulheres que resistiram à Ditadura Militar e ao Estado Novo é feita referência
a opositores que de uma maneira ou doutra têm ou tiveram ligações aos Açores.
Consultando
o índice onomástico, o primeiro nome que nos aparece é o de Mário Abrantes que
pertenceu à “Ação
Revolucionária Armada”, organização criada pelo PCP cujo objetivo foi a luta armada contra a ditadura.
Mário Abrantes foi preso em 1973, tendo sido libertado a 27 de Abril de 1974.
Outro
nome referenciado é o de Ernesto Melo Antunes. Conhecido oposicionista ao
regime, foi fortemente vigiado pela PIDE e impedido de se candidatar nas listas
da Comissão Democrática Eleitoral às eleições legislativas de 1969, pelo
círculo de Ponta Delgada.
Adriano
Botelho, outro dos resistentes, foi um terceirense que foi dirigente da CGT –
Confederação Geral do Trabalho, de tendência anarco-sindicalista, fundada em
1919, em Coimbra. Adriano Botelho permaneceu na CGT até à sua extinção, em
1964, na clandestinidade, não tendo a sua identidade sido descoberta pela
polícia.
Jaime
Brasil foi outro terceirense que se distinguiu como jornalista e crítico
literário e de arte. Foi defensor de uma sexualidade livre de preconceitos
religiosos. Esteve preso em 1941 e 1942.
Natália
Correia, foi uma das opositoras ao regime tendo, no I Congresso Republicano,
realizado em 1957, denunciado o “ “malthusianismo intelectual” de elites muito
restritas e ciosas do seu domínio sobre uma sociedade arcaica e
maioritariamente iletrada”. Em 1965, o “Jornal de Notícias”, do Porto, recebeu
um telefonema dos Serviços de Censura comunicando que a partir daquela data
seria cortada qualquer referência aos nomes de um conjunto de escritores, entre
os quais o de Natália Correia.
Francisco
Liberato Fernandes, natural da Madeira, foi um dos colaboradores do jornal “Comércio
do Funchal”, dirigido por Vicente Jorge Silva, que, segundo Irene Pimentel,
“viria marcar uma geração de inconformistas com o regime e a guerra colonial”.
José
Medeiros Ferreira, que foi deputado e ministro depois do 25 de Abril de 1974,
foi preso em 1962 e expulso da Universidade em
1965. Corajoso dirigente associativo estudantil foi mais tarde desertor do
exército por ser contra a guerra colonial, tendo-se exilado na Suíça, onde
permaneceu entre 1968 e 1974.
Jaime Gama, que foi um dos colaboradores da revista “O Tempo
e o Modo”, foi perseguido e detido pela PIDE/DGS.
Herberto
Goulart, natural do Faial, foi dirigente associativo durante a ditadura, tendo
sido preso pela PIDE em 1963 e 1973. Foi candidato da CDE por Lisboa.
Mário
Mesquita, que esteve ligado à Oposição Democrática,
apoiou a CDE de Ponta Delgada em 1969 e 1973. Em Lisboa, colaborou no jornal
oposicionista "República" e foi um dos fundadores do PS, em 1973.
Sacuntala de Miranda após a sua formação na Faculdade de Letras
de Lisboa, não foi autorizada a trabalhar em qualquer estabelecimento de ensino
público, tendo-se exilado na Argélia e no Reino Unido. Na Inglaterra, fez parte
do Grupo de Portugueses Democratas de Inglaterra e foi membro do MAR- Movimento
de Ação Revolucionária.
Por último, surge o nome de Aurélio Quintanilha que militou nas
Juventudes Sindicalistas. Foi professor da Universidade de Coimbra, donde foi destituído,
tendo para sobreviver, durante algum tempo, conduzido táxis.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30332, 30 de Abril de 2014, p.16)
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Homenagem
António Guilherme Francisco: oposicionista ao salazarismo
O movimento das forças armadas que a 25 de abril de 1974 instituiu um regime de democracia pluralista foi recebido, em Vila Franca do Campo, com algum receio por parte dos apoiantes do regime deposto e com indiferença, ou mesmo desconfiança, por parte da maioria da população.
Como terá acontecido um pouco por todo o lado, foram os jovens recém-licenciados ou os que ainda estavam a completar estudos nas universidades no continente, os principais apoiantes do novo regime, pois em Vila Franca do Campo não existia, ao que sabemos, qualquer núcleo da chamada oposição democrática.
Também, como sucede sempre que há mudanças bruscas, os adeptos da ordem vigente optam por resistir às mudanças, sobretudo quando avaliam que as mesmas poderão ser revertidas a curto prazo, refugiam-se na inação à espera de melhores dias ou convertem-se aos novos regimes, tirando daí o máximo de dividendos possíveis.
Vila Franca do Campo não fugiu à regra, tendo acontecido um pouco de tudo. Desde, pelo menos um membro da ANP, na prática o partido único existente durante o Estado Novo que resultou na alteração da União Nacional, que passou a colaborar com o MDP-CDE até à inclusão de vários apoiantes do marcelismo nos diversos partidos que surgiram com o 25 de Abril.
Também, tal como acontece um pouco por todo o lado, as pessoas que podiam beneficiar com a ocupação de lugares nas diversas instituições, nomeadamente nas autarquias, aderiram aos partidos que estão ou têm maior possibilidade de chegar ao poder. O primeiro partido beneficiado foi o PSD - Partido Social Democrata e posteriormente o Partido Socialista, que ao longo dos anos se foi descaracterizando, não só com a viragem à direita que é comum a todas as forças partidárias, mas também com a adesão de membros do PSD, que foram perdendo eleições internas, e simultaneamente com a inclusão de membros ou simpatizantes de partidos situados à sua esquerda.
Mas, se quisermos falar em quem efetivamente se opôs à ditadura, o número de vilafranquenses foi bastante reduzido.
De entre eles, destaca-se o nome de António Guilherme Francisco, natural de Mogadouro, que foi membro da maçonaria, tendo feito parte da Loja Antero de Quental que foi criada, em Vila Franca do Campo, a 13 de Agosto de 1932.
No ano seguinte, na sequência de interrogatórios que ocorreram após a prisão de vários membros da maçonaria, chegou-se a acusar António Guilherme Francisco, então cabo de mar, de colaborar na introdução de armas em São Miguel, através do veleiro Celestina Duarte. Tal acusação caiu por terra, pois segundo se apurou o barco havia descarregado sal e não armas.
De acordo com o Dr. Carlos Melo Bento, António Guilherme Francisco chegou a ser preso pela PIDE que o foi buscar a casa e remetido para “o Forte de Angra do Heroísmo, onde um tribunal militar sumariamente o condenou a alguns anos de prisão” que felizmente não teve de cumprir. Ainda segundo o mesmo autor, António Guilherme Francisco havia sido “vítima de denúncias feitas por encomenda de rivais comerciais”.
Para além de contribuir com apoio financeiro para a oposição, António Guilherme Francisco foi, também, um dos subscritores da “Declaração de Ponta Delgada”, “plataforma eleitoral com vista às eleições de 1969”, em cujas conclusões pode ler-se o seguinte:
“O nosso primeiro objetivo é exatamente sacudir o torpor da gente açoriana, libertá-la do bloqueio moral, mais do que geográfico, em que tem vivido e levá-la a compreender que o seu primeiro dever, enquanto cidadãos, é a intervenção na vida pública para a defesa dos seus próprios interesses, para a edificação de uma sociedade mais justa e humana, a começar precisamente por aquela em que vive”.
Quem vive ou acompanha de perto a vida social em Vila Franca do Campo facilmente se apercebe das dificuldades com que vivem muitas famílias, da apatia de grande parte dos cidadãos face à participação na vida social e política, do medo em contribuir com as suas sugestões ou críticas, mesmo que construtivas, da clivagem em que a sociedade está dividida (alguém me dizia que existiam duas tribos cujo combate nunca terá tréguas). Assim, enquanto a democracia for apenas uma formalidade, o 25 de Abril do Povo continuará por se fazer.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30322, 16 de Abril de 2014, p.14)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



