quarta-feira, 1 de outubro de 2014
A transição para a democracia em Vila Franca do Campo
A transição para a Democracia em Vila Franca do Campo
“Em fins de 1975 as elites de agora são as mesmas de ontem, acrescentadas de uns poucos que, hábeis, subindo a tempo, ocuparam um lugar” J. Rentes de Carvalho
Sempre com o objetivo de melhor conhecer a terra que me viu nascer, tenho pesquisado nos jornais locais, como “O Autonómico”, “A Vila” e “A Crença”, e no “Correio dos Açores”, de Ponta Delgada, tudo o que se relaciona com a vida social e política do concelho de Vila Franca do Campo, desde a implantação da República até aos nossos dias.
Tal como no resto do país, em Vila Franca do Campo, durante do Estado Novo havia uma convergência de opinião ou mesmo cumplicidade entre o governo de então e a hierarquia da Igreja católica.
Mais do que ter uma voz persistente e pública a louvar as políticas do Estado Novo, a Igreja de Vila Franca do Campo fazia o que era feito em toda a parte, isto é, calava todas as injustiças sociais criadas e mantidas pelo sistema económico vigente e que de algum modo perdura, silenciava a violência da guerra colonial para os jovens vila-franquenses e para os habitantes das chamadas colónias ou territórios ultramarinos e ignorava que direitos humanos básicos, como o direito de reunião ou a liberdade de expressar as suas opiniões, etc. eram desrespeitados.
João Miguel Almeida, no seu livro “A oposição católica ao estado novo” escreveu que, com exceção do Bispo do Porto, só com o aproximar do fim do marcelismo a hierarquia da igreja começou “a tomar as suas distâncias com vista a evitar- e evitou- o erro trágico da queda da monarquia: o de morrer abraçada aos vencidos.”
No caso de Vila Franca do Campo, a partir de 1957 passaram a existir dois semanários, “A Vila” e “A Crença”.
“A Vila”, de carácter noticioso e bairrista, que era dirigido por um dos dirigentes da União Nacional, o distinto médico Dr. Augusto Botelho Simas, encarregava-se de transmitir a ideologia do regime e de noticiar, de vez em quando, as atividades das organizações que o suportavam.
“A Crença”, fundada em 1915, dirigida pelo padre António Jacinto de Medeiros, raramente trazia um texto noticioso sobre a vida política ou qualquer referência à atividade local, limitando-se a apresentar assuntos de caracter religioso. A título de exemplo, para confirmar o referido anteriormente, faça-se uma consulta aos anos de 1973 e de 1974.
Se não me passou despercebido, o primeiro texto que A Crença publicou sobre as alterações ocorridas a 25 de Abril de 1974 foi a transcrição de uma comunicação do presidente da República General António de Spínola a que deu um curioso título: “Chegou a hora de se assumirem e de se exigirem responsabilidades, saneando por igual, o dirigente inepto ou corrupto, o funcionário venal, o trabalhador parasita e improdutivo e o político oportunista, autocrático ou demagogo”.
Depois deste texto muitos outros se seguiram com o objetivo de alertar para a incompatibilidade entre o cristianismo e o comunismo/marxismo, socorrendo-se de artigos publicados em outros meios de comunicação social que por sua vez citam bispos de outras paragens e o papa Paulo VI que curiosamente foi um papa que foi persona non grata para o regime de Salazar.
A este propósito o escritor J. Rentes de Carvalho relata a censura que sofreu um artigo publicado numa revista onde se podia ler “Paulo VI é um homem inteligente”. A censura não permitiu que a frase saísse completa, pelo que o título ficou apenas “Paulo VI é um homem”.
Excluindo algumas escaramuças ocorridas no chamado Verão Quente, quase todas da responsabilidade de gente de fora do concelho, evidentemente com cúmplices locais, alguns ligados até ao tutano à ditadura derrubada, a transição para a democracia, tal como a que temos hoje, foi pacífica, bastando para tal a conversão à partidocracia por parte de quem antes achava que bastava um só partido.
Se alguém fizer um levantamento de todas as pessoas que em Vila Franca do Campo, desde o 25 de Abril de 1974 até hoje, ocuparam cargos partidários ou que foram membros dos órgãos autárquicos, facilmente concluirá que um número significativo, pelo menos nos primeiros anos da democracia, militaram antes na União Nacional ou na Ação Nacional Popular. No caso da Câmara Municipal, pelo menos 50% dos seus presidentes foram militantes daquele partido único.
Mal não viria ao mundo se os antidemocratas de ontem reconhecessem os seus erros e tivessem vindo a público declarar que estavam equivocados ao terem sido os suportes de uma ditadura e que humildemente aceitavam viver em democracia e dar o seu contributo para que o “poder” passasse efetivamente para o povo.
Como muito bem disse um conhecido político que já devia se ter remetido ao silêncio: “só os burros é que não mudam”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30451, 1 de outubro de 2014, p.14)
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terça-feira, 23 de setembro de 2014
As festas, os animais e o ambiente
As festas e o respeito pelos animais e pelo ambiente
A presença da cabeça de uma cabra num cortejo realizado, no passado dia 1 de setembro, no âmbito das festas em honra da padroeira da freguesia da Lomba da Maia, Nossa Senhora do Rosário, suscitou protestos diversos numa conhecida rede social por razões diversas, entre as quais se destacam, o facto da mesma poder estar relacionada com a falta de respeito pelos animais que servem de alimento e por poder constituir um mau cartaz turístico para a ilha, já que uma parte significativa de quem nos visita é sensível à causa animal.
Quando vi, pela primeira vez, a fotografia em questão, também achei que a presença da cabeça da cabra, para além de em nada contribuir para enriquecer o quadro em que estava inserida, podia dar, a quem nos visita, sobretudo aos estrangeiros, uma imagem dos micaelenses como a de um povo bárbaro.
Infelizmente, pelo que tenho visto, quer presencialmente, quer em imagens que têm chegado à minha caixa de correio, estamos muito longe de sermos um povo civilizado. Com efeito, são cavalos famintos, ou amarrados com correntes a trespassar-lhes a carne, são cães e gatos abandonados por toda a parte, com destaque nos miradouros, são os canis de abate superlotados, são os cães enforcados, etc…
Pensávamos que com o aumento da escolaridade, com a transmissão de programas nos vários canis de televisão sobre animais, com a proibição de abate de animais, sem ser nos matadouros, a situação se alterasse e as barbaridades cometidas no passado deixariam de estar presentes nos nossos dias.
Estávamos redondamente enganados. Com efeito, o aumento da escolaridade não significa aumento de conhecimentos, pois uma parte cada vez maior dos alunos nem aproveitamento consegue no ensino regular, as escolas deixaram de ser locais de transmissão de saber e passaram, para muitos alunos, a locais de entretenimento. Na televisão os programas educativos são preteridos a favor de outros de qualidade mais do que duvidosa e as leis ficam-se muitas vezes pelo papel.
Como resultado de tudo isso, nas festas ou fora destas, nem pessoas nem animais são respeitados e poucos são os que se atrevem a denunciar o que está mal com medo de represálias.
O desrespeito pelos animais, como sabemos vem de longe e, pelo que tenho lido, eram aceites com toda a naturalidade noutros tempos.
Eram nas festas do Espírito Santo que mais animais eram mais sacrificados. Abaixo, apresento um relato de como eram mortos os gueixos, em 1937, nas Furnas: “ o animal, forçado a ajoelhar, recebe entre os chifres a pontilha do improvisado magarefe e logo novo e enorme golpe entre as patas dianteiras. Enquanto garotos montam sobre is quatros da rês para precipitar a hemorragia, outros acorrem com malgas, tigelões, alguidares e marmitas ao chafariz de sangue”.
Cerca de 50 anos depois, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, a situação era um pouco semelhante e o mais degradante era o facto de os animais por vezes serem abatidos por quem não tinha prática e não morrerem à primeira.
Hoje, penso que se aceita que o homem ao utilizar os animais na sua alimentação deverá “fazê-lo com gratidão e sem sadismo”.
Não vou ser exaustivo a descrever a sujidade com que os espaços são deixados após os arraiais, o que apenas vem provar que a mentalidade de atirar tudo para o chão ainda prevalece entre a maioria das pessoas.
Também não tenho dados sobre o fogo-de-artifício que é usado em cada festividade por mais pequena que seja. O que posso testemunhar é que este é atirado muitas vezes a horas impróprias para quem está a gozar o merecido repouso e que parece estar a aumentar, pelo menos o número de foguetes caídos no meu quintal este ano foi muito superior ao caído em anos anteriores.
Já agora quem tiver dados e quiser fazer contas, por cada mil foguetes de um determinado tipo lançado são espalhados pelos terrenos cerca 24 kg de plástico.
Por último, quero que fique claro que não estou a sugerir que se acabe de uma vez por todas com as roqueiras e muito menos que se crie mais uma taxa verde ou esverdeada para refrear alguns ânimos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores 30446, 24 de Setembro de 2014, p.14)
A presença da cabeça de uma cabra num cortejo realizado, no passado dia 1 de setembro, no âmbito das festas em honra da padroeira da freguesia da Lomba da Maia, Nossa Senhora do Rosário, suscitou protestos diversos numa conhecida rede social por razões diversas, entre as quais se destacam, o facto da mesma poder estar relacionada com a falta de respeito pelos animais que servem de alimento e por poder constituir um mau cartaz turístico para a ilha, já que uma parte significativa de quem nos visita é sensível à causa animal.
Quando vi, pela primeira vez, a fotografia em questão, também achei que a presença da cabeça da cabra, para além de em nada contribuir para enriquecer o quadro em que estava inserida, podia dar, a quem nos visita, sobretudo aos estrangeiros, uma imagem dos micaelenses como a de um povo bárbaro.
Infelizmente, pelo que tenho visto, quer presencialmente, quer em imagens que têm chegado à minha caixa de correio, estamos muito longe de sermos um povo civilizado. Com efeito, são cavalos famintos, ou amarrados com correntes a trespassar-lhes a carne, são cães e gatos abandonados por toda a parte, com destaque nos miradouros, são os canis de abate superlotados, são os cães enforcados, etc…
Pensávamos que com o aumento da escolaridade, com a transmissão de programas nos vários canis de televisão sobre animais, com a proibição de abate de animais, sem ser nos matadouros, a situação se alterasse e as barbaridades cometidas no passado deixariam de estar presentes nos nossos dias.
Estávamos redondamente enganados. Com efeito, o aumento da escolaridade não significa aumento de conhecimentos, pois uma parte cada vez maior dos alunos nem aproveitamento consegue no ensino regular, as escolas deixaram de ser locais de transmissão de saber e passaram, para muitos alunos, a locais de entretenimento. Na televisão os programas educativos são preteridos a favor de outros de qualidade mais do que duvidosa e as leis ficam-se muitas vezes pelo papel.
Como resultado de tudo isso, nas festas ou fora destas, nem pessoas nem animais são respeitados e poucos são os que se atrevem a denunciar o que está mal com medo de represálias.
O desrespeito pelos animais, como sabemos vem de longe e, pelo que tenho lido, eram aceites com toda a naturalidade noutros tempos.
Eram nas festas do Espírito Santo que mais animais eram mais sacrificados. Abaixo, apresento um relato de como eram mortos os gueixos, em 1937, nas Furnas: “ o animal, forçado a ajoelhar, recebe entre os chifres a pontilha do improvisado magarefe e logo novo e enorme golpe entre as patas dianteiras. Enquanto garotos montam sobre is quatros da rês para precipitar a hemorragia, outros acorrem com malgas, tigelões, alguidares e marmitas ao chafariz de sangue”.
Cerca de 50 anos depois, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, a situação era um pouco semelhante e o mais degradante era o facto de os animais por vezes serem abatidos por quem não tinha prática e não morrerem à primeira.
Hoje, penso que se aceita que o homem ao utilizar os animais na sua alimentação deverá “fazê-lo com gratidão e sem sadismo”.
Não vou ser exaustivo a descrever a sujidade com que os espaços são deixados após os arraiais, o que apenas vem provar que a mentalidade de atirar tudo para o chão ainda prevalece entre a maioria das pessoas.
Também não tenho dados sobre o fogo-de-artifício que é usado em cada festividade por mais pequena que seja. O que posso testemunhar é que este é atirado muitas vezes a horas impróprias para quem está a gozar o merecido repouso e que parece estar a aumentar, pelo menos o número de foguetes caídos no meu quintal este ano foi muito superior ao caído em anos anteriores.
Já agora quem tiver dados e quiser fazer contas, por cada mil foguetes de um determinado tipo lançado são espalhados pelos terrenos cerca 24 kg de plástico.
Por último, quero que fique claro que não estou a sugerir que se acabe de uma vez por todas com as roqueiras e muito menos que se crie mais uma taxa verde ou esverdeada para refrear alguns ânimos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores 30446, 24 de Setembro de 2014, p.14)
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segunda-feira, 22 de setembro de 2014
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Herbicidas
O veneno é o melhor remédio?
Um dia destes, estava a passar numa determinada localidade do concelho da Ribeira Grande e deparo-me com duas pessoas com uma máquina às costas a aplicar um herbicida sobre ervas que cresciam numa rua.
A primeira constatação foi a de que tendo ouvido falar num conjunto de regras que os agricultores têm de cumprir, quer relativamente à compra, quer à aplicação de pesticidas, parece-me que as mesmas não são exigidas aos serviços oficiais, isto é Câmaras Municipais e no caso concreto Juntas de Freguesia.
No que toca à aplicação do produto, esquecendo a preparação a que não assisti, não vi quaisquer óculos, isto é não havia proteção aos olhos, não havia qualquer proteção ao nariz e à boca, não usavam luvas e estavam a trabalhar com a roupa que usam no dia-a-dia.
Fui indagar que produto era utilizado e cheguei à conclusão que felizmente não era o que foi denunciado recentemente pela Quercus e pela Plataforma Transgénicos Fora, o qual segundo aquelas organizações possui uma substância ativa o glifosato que “atua nos animais como desregulador hormonal e cancerígeno, em doses muito baixas, que podem ser absorvidas nos alimentos e na água de consumo, supostamente “potável”. Este herbicida tem ainda uma degradação suficientemente lenta para ser arrastado (pela água da chuva, da rega ou de lavagem, em conjunto com um resíduo também tóxico resultante da sua degradação), para a água, quer a superficial (rios, ribeiros, albufeiras e lagos), quer a subterrânea.”
De qualquer modo, embora não sendo o especificamente mencionado, o produto em questão também possui na sua composição o glifosato pelo que todo o cuidado deve ser pouco com o seu ab(uso).
No comunicado referido, aquelas organizações mencionam que se dirigiram a todos os presidentes de Câmaras Municipais “alertando para os riscos ambientais e de saúde, da aplicação de herbicidas em espaços urbanos, prática generalizada por todo o país”.
Não sei se quando se referiram todo o país, incluíram as regiões autónomas, muitas vezes esquecidas. Não conheço qualquer reação por parte das Câmaras Municipais, mas acho que a carta deveria chegar diretamente aos presidentes das Juntas de Freguesia, pois são eles que estão no terreno e são eles os principais responsáveis pelo cuidado das ruas e caminhos.
Mas, se não devem ser usados herbicidas, ou pelo menos alguns, pelos impactos na saúde e no ambiente, que alternativas existem?
Neste momento em que algumas autarquias têm à sua disposição muita mão-de-obra, o uso à monda manual não é de por de parte. Contudo, para quem ache que tal é voltar ao passado, as associações referidas sugeriram o recurso a diversos métodos com destaque para os seguintes: de abafamento, com interesse para jardins, mecânicos e térmicos.
Neste texto, vamos apenas referir os dois primeiros, apresentando as suas vantagens.
Sobre o primeiro método, no documento que vimos citando, podemos ler o seguinte: “O empalhamento consiste em colocar, no local onde se pretende o controlo das plantas infestantes, resíduos vegetais como relva cortada ou simplesmente deixar no local as plantas cortadas. Tem a vantagem de manter a humidade do solo. A plantação de plantas abafantes, de preferência de espécies autóctones, por exemplo em taludes, tem a vantagem de fixarem o solo evitando assim a erosão através de ravinamento”.
Sobre os métodos mecânicos, o texto refere que têm“ já uma expressão considerável no controlo de plantas infestantes em particular nas bermas e taludes ao longo das estradas e, em nossa opinião, deveriam ser mais aplicados em espaços urbanos e outros espaços públicos, em detrimento do uso de herbicidas. Estes métodos originam a produção de grande quantidade de biomassa e, como tal, um recurso com potencial para produção de composto em unidades de pequena escala, por exemplo à escala municipal, que permitem ainda aproveitar outras fontes de matéria orgânica como resíduos verdes dos jardins públicos”.
Em síntese, há alternativas ao uso de herbicidas, falta apenas acabar com as más “tradições” e vontade política para aplicá-las.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30434, de 10 de Setembro de 2014)
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
A proteção dos animais em 1938
A proteção dos animais em 1938
Para a elaboração deste texto recorri apenas ao jornal Correio dos Açores que pesquisei com o objetivo de conhecer melhor o labor de Alice Moderno em defesa dos animais.
Para além de textos de temática diversa, em 1938, Alice Moderno publicou, no Correio dos Açores, onze “Notas Zoófilas”, nas quais foram abordados, entre outros, os seguintes temas: o reconhecimento a cidadãos amigos dos animais, como os senhores António de Sousa Manteiga, Manuel Albano Botelho e José Caetano de Sousa; o elogio às qualidades de cães e gatos; o tratamento de animais nos Zoos em vários países; os gatos na literatura; a assistência veterinária aos animais e outros animais de companhia.
No mês de Maio, numa pequena nota, o Correio dos Açores dá a conhecer que na montra do estabelecimento comercial do sr. Manuel Machado Botelho, secretário da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, encontram-se em exposição “dezenas de aguilhões, arma com que os condutores de carroças costumam estimular o zelo dos infelizes quadrúpedes que lhes granjeiam arduamente o pão nosso de cada dia, e recebem em recompensa magras rações e abundantes maus tratos”. Os mencionados aguilhões eram por ele “apreendidos aos selvagens carroceiros” durante as suas várias e contínuas digressões no campo”.
Também em Maio, o jornal divulgou um texto, possivelmente de Alice Moderno, onde é denunciado o envenenamento de um cão nas Furnas, “que foi sair a estrebuchar em frente ao Hotel Terra Nostra!”, chamando a atenção para o ato de crueldade e para “ as consequências que pode ter para o futuro turístico” de São Miguel.
No mês de Junho do ano mencionado, o senhor Martim Faria e Maia, da Lagoa, publicou “uma nota zoófila interessante”, onde relatou o caso de uma cadela sua “A Francesa” que amamentou dois gatinhos, um dos quais passou a ser “seu inseparável companheiro”.
A história da “Francesa” acaba com a sua morte por velhice e doença. Segundo Martim Faria e Maia, após o ocorrido, “o gato miou durante dias à procura da mãe adotiva e quinze dias passados morreu também.
Ainda, em Junho, o jornal divulgou que em resultado das queixas apresentadas às autoridades pela SMPA:
- um indivíduo das Calhetas que maltratou um cão foi remetido para a cadeia da Comarca da Ribeira Grande;
- havia sido preso um cidadão dos Fenai da Luz que atirou uma cabra do alto de uma rocha;
- estava a decorrer uma investigação para apurar quem, na Bretanha, havia cortado a cauda a três novilhos.
No mesmo texto é divulgada a colaboração entre o Posto Zootécnico e a SMPA – Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Assim, a SMPA havia fornecido ao referido posto, para tratamento de animais, vomitivos, clorofórmio e algodão.
No mês de Setembro, o jornal volta a referir-se ao assunto dos animais de tiro, vítimas das aguilhadas, elogiando o senhor José de Medeiros Mota, residente no Ramalho, que por ser “alto e de empenado, consegue submetê-los e corta-lhes a extremidade da aguilhada, que é, como quem diz, do instrumento de tortura”.
No mesmo mês, a propósito do envenenamento de peixes do tanque do Campo de São Francisco, a Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa mandou dois ofícios, um dirigido ao Governador Civil e o outro à Presidente da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.
No ofício dirigido à SMPA, transcrito na íntegra pelo Correio dos Açores, a dado passo, pode ler-se:
“Há muito terreno inculto a desbravar e muita consciência a imbuir nas máximas divinas de Cristo. E é para isso que trabalhamos – nós, os zoofilistas – sem descanso sem um momento de fadiga, para que Portugal possa ser visto e encarado lá fora como Nação próspera e grandiosa sob o ponto de vista humanitário”.
O leitor faça um paralelo entre a situação atual e a de 1938 e tire a suas conclusões.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30428, 3 de Setembro de 2014, p.14)
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
O Correio dos Açores, Alice Moderno e os ouriços-cacheiros
Quem viaja pelas estradas da ilha de São Miguel não raras as vezes encontra ouriços-cacheiros que foram atropelados pelos veículos motorizados. Nalguns casos, involuntariamente e noutros por pura maldade humana.
Sabe-se que nos Açores existe apenas um mamífero endémico, o morcego (Nyctalus azoreum), tendo os restantes sido introduzidos intencionalmente ou não pelo homem. No caso do ouriço-cacheiro, segundo o jornal Correio dos Açores de 21 de Julho de 1939, a sua introdução na ilha de São Miguel foi voluntária, a sua disseminação pela ilha é que não, pois apesar de “inofensivos e tímidos, pouco dados a afoutezas românticas” aquela só aconteceu depois de “meia dúzia” deles se terem escapado “do Relvão há cerca de 15 anos”, portanto por volta de 1914.
Se hoje há um profundo desrespeito pelos animais, o que não é de admirar já que nem os humanos se respeitam entre si, os ouriços-cacheiros nunca tiveram uma vida fácil nesta ilha do Arcanjo. Com efeito, as tolices que sobre ele ainda hoje se dizem, como por exemplo que trepam às laranjeiras para comer as laranjas, levaram que alguns agricultores os perseguissem e a rapaziada sempre que apanhava um dava-lhe morte certa.
A situação atual não é muito diferente da vivida há 75 anos, como se pode depreender deste extrato publicado no jornal mencionado: “ Nesta mansa e santa terra, onde os animais ferozes e de rapina se limitam ao bichano arisco- a que o menino puxa pela cauda- e ao milhafre – que faz uma roda por se lhe prometer uma galinha – para quem apenas está habituado a ver os representantes do grande reino animal no cinema ou nas leituras maravilhosas o aparecimento de qualquer pequeno bicharoco, de focinho desconhecido e feição estranha, é saudado com foro de sensacional ou requintes de barbaridade”.
No artigo que vimos citando e que não deixa de ser atual escrevia-se que “quási todos os micaelenses ignoram a sua existência e o benefício que representam para a agricultura” em virtude de ser “ insetívoro, pois come especialmente os bichos da terra, grilos, gafanhotos, baratas, caracóis, besouros e toda a casta de bicharada prejudicial à agricultura”.
A 18 de Outubro de 1939, o Correio dos Açores volta a abordar o assunto, mencionando que os ouriços-cacheiros continuavam “a levar uma vida amargurada” e apelava para que as pessoas deixassem “os poucos ouriços-cacheiros que se criam nos nossos campos, viver em paz, porque eles, com toda a sua fealdade e com todos os seus espinhos, na luta pela vida só nos prestam grandes serviços”.
Alice Moderno, que não se interessou apenas pelos cães, pelos gatos, pelos animais de tiro, pelos animais de produção e pelos touros e cavalos forçados a participar em espetáculos degradantes, como o eram e são as touradas, também se manifestou em defesa dos ouriços-cacheiros.
Alice Moderno, numa das suas “Notas Zoófilas”, publicadas durante vários anos no Correio dos Açores, que viu a luz do dia a 8 de Setembro de 1940, voltou a corroborar o afirmado nos textos anteriormente citados e relatou a solução que encontrou para evitar que os ouriços fossem trucidados a golpe de foice e que consistiu em fazer publicar um anúncio, no mesmo jornal, “em letras gordas”, onde mostrava o seu interesse em “ser compradora do perseguido mamífero”.
O anúncio não caiu em saco roto e pouco tempo depois apareceu-lhe em casa um indivíduo com dois ouriços-cacheiros pequenos que ela colocou no jardim da sua residência, tendo confirmado que os mesmos não comiam a fruta que ela disponibilizava mas que davam cabo das baratas que por lá apareciam.
Na nota publicada a 15 de Setembro de 1940, Alice Moderno dá conta de que três pessoas amigas estavam interessadas em possuir ouriços e se eles vinham comer à mão. A resposta foi a de que os seus dois ouriços ainda não se haviam reproduzido, que só perto da meia-noite é que subiam ao balcão para comer num prato, mas que não vinham comer à mão e que a melhor forma de os adquirir seria através da colocação de um anúncio num jornal ou importar “do continente, de onde vieram os ancestrais dos poucos que nesta ilha existem e não têm aumentado devido à guerra encarniçada que durante algum tempo lhes fizeram”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30422, 27 de Agosto de 2014)
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Férias cá dentro
Este ano, por razões várias, a que não são alheios os cortes de que foram vítimas todos os funcionários públicos, as minhas férias estão a ser gozadas na ilha de São Miguel. Assim, aproveitei a minha primeira semana para revisitar alguns lugares que normalmente só o faço quando tenho por companhia estrangeiros ou emigrantes de regresso à sua terra ou à dos seus pais.
Foi na semana passada que visitei, pela primeira vez, depois das entradas pagas, a Caldeira Velha. O local estava limpo, as edificações existentes no interior não me chocaram, apenas como nota negativa tenho o apontar o desrespeito pelas árvores que se nota através do uso de uma delas que foi escavacada para adaptá-la a um suporte de proteção.
Espero que tal ação tenha sido isolada, fruto da arte de desenrascar que por vezes impera entre a nossa gente, e não o cumprimento de uma ordem superior de quem mandou a educação ambiental às urtigas e só tem em mente o objetivo de fazer dinheiro à custa do nosso património ambiental.
Valeu a pena a luta de alguns poucos cidadãos contra as mentes tacanhas que queriam fazer do local uma mera zona balnear, em que os visitantes chegariam à água diretamente a partir das portas dos seus automóveis.
O segundo lugar de visita obrigatória é o Parque Terra Nostra, mais pelo jardim do que pela piscina.
Embora tenha reparado, os meus acompanhantes chamaram-me a atenção para o facto de poucas pessoas estarem a visitar o jardim quando comparado com o número de visitantes que chegavam para usufruir do banho na piscina.
Ainda está longe a divulgação dos nossos jardins e a aposta no turismo de jardins que já é uma realidade na ilha da Madeira.
Os responsáveis regionais e locais têm de se empenhar mais para tornar os jardins, como o Terra Nostra, o António Borges, o de Santana e o José do Canto, em polos de atração turística.
No caso das Furnas a sua autarquia, tem de repensar os apoios às festividades tradicionais, pois é uma aberração sem nexo a realização de uma tourada à corda na localidade, associada a um império do Espírito Santo. Que raio de caridade ou solidariedade é esta?
Por último, uma referência a uma visita ao mais formoso ilhéu que há nas ilhas, no dizer de Gaspar Frutuoso, o ilhéu de Vila Franca do Campo.
A primeira surpresa ocorreu ainda em terra e está relacionada com o custo das deslocações. Com efeito, dadas as dificuldades por que passam muitas pessoas, o custo de cinco euros pode ser considerado elevado de modo que, segundo um dos residentes que lá estava em trabalho, poucos vila-franquenses visitam o ilhéu.
Mas, para mim o maior espanto foi quando li que dos cinco euros, três euros e cinquenta cêntimos eram para o “Transporte”, um euro para a “Manutenção e preservação da reserva” e meio euro era para a SPEA-Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.
Embora a SPEA, quer se concorde ou não com a sua atuação, seja uma associação nacional respeitável não percebo por que razão recebe uma parte dos proventos advindos das viagens ao ilhéu.
Se é certo que é a SPEA que mantém um projeto de recuperação do ilhéu, não será menos verdade que o projeto tem financiamento europeu e regional e portanto a sua quota-parte já devia estar incluída na rubrica “Manutenção e preservação da reserva”. Estranho ou talvez não !?
Outra surpresa foi ter observado, pela primeira vez no ilhéu, alguns exemplares de vidália, uma bonita espécie endémica dos Açores que não existia no local. Para além de antes nunca a ter observado, não há, que eu saiba, nenhum registo da sua presença nas principais publicações sobre o local, de que destaco o livro “Ecologia Costeira dos Açores”, editado em 1998, da autoria de Brian Morton, Joseph Britton e António M. Frias Martins, e “ O Anel da Princesa”, editado em 2004, de António M. Frias Martins.
Por hoje, é tudo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30411, 13 de Agosto de 2014)
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