sábado, 6 de dezembro de 2014

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Exames


Exames

1- Estamos mal

É verdade que todos os “rankings” valem o que valem e ainda não se percebeu bem para que servem os elaborados anualmente com os resultados dos exames nacionais.

O seu objetivo é permitir o reconhecimento do trabalho das escolas que ficam bem posicionadas e fazer o ponto da situação para quem não está bem, estimulando a trabalhar melhor com vista a superar as dificuldades ou, pelo contrário, é apenas apontar o dedo e ostracizar quem está nos últimos lugares?
O que é certo, independentemente dos critérios usados, é que as escolas dos Açores uma vez mais ficaram muito mal posicionadas, obtendo as piores médias em diversos exames nacionais da maioria dos anos de escolaridade em que esses se realizam.
A título de exemplo, apresentam-se a seguir alguns dados relativos ao sexto e ao nono ano de escolaridade.
No nono ano de escolaridade, a ilha de São Miguel apresenta quatro escolas, entre as dez piores do país, posicionando-se a Escola Básica Integrada de Rabo de Peixe em penúltimo lugar e a Escola Básica Integrada de Água de Pau em último.
No sexto ano de escolaridade, a situação é semelhante, isto é, a ilha de São Miguel volta a estar, através de duas escolas, uma delas em penúltimo lugar, entre as dez piores do país.
Os resultados dos exames, nada bons para os Açores, que se vêm repetindo, com ligeiras alterações, ano após ano mereciam uma reflexão profunda e uma ação eficaz no sentido da melhoria de uma efetiva aprendizagem dos jovens açorianos.
Do nosso ponto de vista, procurar as causas apenas na escola, que é o que se tem feito até aqui, é um erro gravíssimo, já que esta não é mais do que o reflexo da sociedade onde está inserida.
Além disso, se não se altera nada, nem na escola nem, sobretudo, na sociedade, leva-nos a pensar que há gente interessada em que a pobreza cresça e a ignorância se generalize.
2- Sempre estivemos mal?

Em 1935, o Dr. Lúcio Miranda, professor de matemática do Liceu de Ponta Delgada, num texto intitulado “Malhando em ferro frio”, publicado no Correio dos Açores, a propósito do elevado número de reprovações em alunos que foram propostos a exame, reflete sobre o assunto e apresenta algumas razões para tal. A dado passo escreve ele “àparte as causas externas” que foram apresentadas noutro texto pelo Dr. Riley da Motta, “a culpa da catástrofe é bastante nossa: dos professores, dos alunos e das famílias”.

No que diz respeito aos professores, o Dr. Lúcio Miranda defende que o professor deve abandonar “toda a atitude de exagerada benevolência”, devendo colocar “primeiro o culto intransigente do dever; depois, se for possível, a conquista da popularidade”.

O aluno, por seu turno, deve dedicar-se à escola em “full-time” e acrescenta que “Infelizmente o nosso estudante português tem um sem número de distrações alheias à vida escolar, que dispensam a sua atenção, neutralizam os efeitos do estudo e entorpecem o vigor discente”. Se era assim em 1935, o que dizer da situação atual!

Quanto aos pais, o Dr. Lúcio Miranda escreve: “Todos os dias, com regularidade e desvelo, o pai zeloso deve cuidar das obrigações do filho. A tarefa é por vezes ingrata, mas é benéfica – e toda a rotina se torna suave, se tivemos bem presente que os fartotes de ciência, em vésperas de exame ou no último ano do curso, não compensam o “deficit” de anos sucessivos de cabulice, vencidos à custa de inconfessáveis malabarismos ou da criminosa tolerância dos mestres”.

Com a degradação social que vimos assistindo, nos últimos anos, quantos pais têm condições em termos de conhecimentos, de tempo ou motivação para acompanhar os filhos?
Por que se insiste, ainda hoje, no facilitismo que é o de deixar transitar de ano um aluno com várias classificações negativas no ensino básico?
Para adiar o problema ou para adornar as estatísticas?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30501, de 3 de Dezembro de 2014, p.14)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Alice Moderno e a educação


Alice Moderno, o ensino e a Revista Pedagógica

“85% de analfabetos numa região europeia! Chega a causar vertigens e calafrios, e nada mais seria preciso para que o regímen monárquico que mantinha no trono os Braganças fosse condenado à pena última por queles que, por acaso, sabem ler”
(Alice Moderno, Revista Pedagógica, nº 199, 14 de dezembro de 1911)
De 1909 a 1915, publicou-se, em Ponta Delgada, a “Revista Pedagógica que teve como proprietária e diretora a professora primária Maria Evelina de Sousa. Como redatores principais, entre outros, destacaram-se Alice Moderno, Aires Jácome Correia (Marquês de Jácome Correia), Luís Leitão, Fontana da Silveira e Ulisses Machado.
Alice Moderno, para além de ser a colaboradora mais assídua, também dirigiu a revista na ausência de Maria Evelina de Sousa, o que terá acontecido entre os números 108 e 112, publicados em 1909.
De entre a colaboração que Alice Moderno prestou à Revista Pedagógica, destacamos, pela duração no tempo, a tradução livre da rubrica “Usos Sociais” que era da autoria da Baronesa de Savernon.
A Revista Pedagógica manteve ao longo dos anos em que foi editada um espaço dedicado à poesia, intitulado “Guarda-joias”, onde foram publicados poemas de vários autores, como Antero de Quental, Maria Veleda, Mário Pacheco e Alice Moderno.
Na rubrica referida, Alice Moderno publicou, entre outros, os seguintes poemas: “Amor Supremo”, escrito para uma récita de uma grande gala realizada no Teatro Micaelense, “A Itália Vitaliani”, “Jogos Florais”, soneto dedicado ao Marquês de Jácome Correia, e “A João Melo Abreu”, poesia que foi impressa na fita de uma coroa deposta sobre o seu ataúde.
Sobre a temática do ensino propriamente dito, Alice Moderno escreveu vários textos onde teve a oportunidade de expor o seu pensamento.
De entre eles, destacamos “Palavras de um “toast”, escrito em Angra do Heroísmo, a 22 de outubro de 1911, dedicado aos professores primários (hoje designados de professores do 1º ciclo do ensino básico).
No seu texto, Alice Moderno saúda os professores primários, dizendo que eles são “os funcionários mártires da instrução” e acrescenta, citando Renan “que o futuro intelectual do indivíduo depende principalmente de quem lhe ensina a ler” e termina afirmando que “a leitura, inteligentemente assimilada em tenros anos, pode fazer sábios, como a rotina sabe fabricar cretinos”. Alice Moderno conclui o seu curto texto, saudando “entusiasticamente os membros conscientes, independentes e dignos da classe à qual o estado menos paga e da qual mais exige…”
Outro texto que merece referência foi o publicado a 9 de dezembro de 1909, intitulado “Médicos Escolares”, onde Alice Moderno solidariza-se com a opinião de Maria Evelina de Sousa que numa reunião realizada em Ponta Delgada defendeu a necessidade de médicos escolares que deveriam visitar as escolas quinzenalmente a fim de verificar se aquelas se encontravam em boas condições de higiene “e se as crianças que as frequentavam estão em boas condições que lhes permitam matricular-se num estabelecimento de instrução, a que concorrem muitas outras que têm direito a não serem contaminadas pela doença alheia”.
Alice Moderno, para além de professora particular, foi nomeada regente da Escola Móvel de Ponta Delgada, tendo, no dia 15 de outubro de 1913, proferido a alocução inaugural.
No seu discurso Alice Moderno elogiou o regime republicano por “procurar extinguir, no feracíssimo solo lusitano, as flores nefastas da ignorância e da superstição” que infelizmente continuam a proliferar nos nossos dias.
Pelo interesse que tem para melhor conhcermos o pensamento de Alice Moderno, para terminar esta minha colaboração de hoje, abaixo apresenta-se um extrato do discurso mencionado:
“ A verdade é que somos todos iguais.
Iguais no nascimento, pelo sofrimento, e perante a morte. O que desnivela os homens é unicamente, mas cumpre dizê-lo inexoravelmente, a diferença de educações.
Instruí-vos, educai-vos, e colocar-vos-eis a par dos primeiros entre os vossos semelhantes.”
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30495, 26 de novembro de 2014, p.15)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

1º de Maio


A Propósito do primeiro 1º de Maio em São Miguel
Com o objetivo de reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas de trabalho diário realizou-se, a 1 de Maio de 1886, em Chicago, nos Estados Unidos da América uma greve que contou com a participação de 350 mil trabalhadores. Na sequência de um confronto entre a polícia e os grevistas foi convocada uma manifestação para o dia 4, tendo no decorrer desta morrido um polícia, resultado de uma explosão, e sido assassinados 80 operários. Foram presos alguns dos líderes, dos quais, depois de encerrado o processo, em Outubro de 1887, quatro foram enforcados, cinco condenados à morte, três condenados a prisão perpétua e um foi morto, em circunstâncias estranhas, na prisão.
Três anos mais tarde, em 1889, em homenagem aos mortos de Chicago, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário.
Em Portugal, as comemorações do 1º de Maio terão começado em 1890 e até 1894 as manifestações limitaram-se às cidades do Porto e de Lisboa. Nesta cidade, o número de participantes cresceu de 3000, em 1894, para 30 000, em 1896.

Em 1897, pela primeira vez o 1º de Maio foi celebrado, na ilha de São Miguel (nos Açores?), por iniciativa de Alfredo da Câmara que perfilhava ideias socialistas e entre os seus objetivos estava a luta pelas 8 horas de trabalho, que só viriam a ser conquistadas no ano de 1919.

A 25 de Abril de 1897, o jornal “O Repórter” anuncia para o sábado seguinte, 1 de maio, a realização de uma marcha em Ponta Delgada “que percorrerá as ruas da cidade, levando à frente a filarmónica “União Fraternal”, que já aderiu a este pensamento”.

A 30 de Abril, foi publicado um suplemento d’ “O Repórter”, onde é feito um convite a “todos os artistas e operários” para participarem na marcha que, segundo os organizadores, não é mais do que uma “manifestação pacifica” que tem “unicamente por fim adherir ao grande movimento operário das 8 horas de trabalho, que se vae alastrando por todos os paizes cultos”.
No dia 1 de Maio algumas centenas de pessoas, a maioria operários, reuniram-se “num espaçoso granel na rua do Brum, cedido bizarramente pelo abastado industrial sr. José Maria Caetano de Matos”. A seguir, falaram, o organizador do evento, Alfredo da Câmara, “que pela primeira vez falou em público” e Manuel da Câmara, colaborador da “Actualidade”, que fez a apologia dos ideais socialistas.

Depois dos discursos, todos os presentes integraram uma marcha “aux flambeaux”, “abrilhantada” pela filarmónica “União Fraternal”, que percorreu as principais ruas de Ponta Delgada.

No mesmo dia saiu uma edição especial do jornal “O Repórter” que, para além de um texto da responsabilidade da redação, contou com a colaboração de Francisco Maria Supico, farmacêutico de formação e influente jornalista e político ligado ao Partido Regenerador, Read Cabral, A.S. Alvim e Victor Cabral.

No seu texto, a redação do jornal (Alfredo da Câmara?) aborda sobretudo a falta de instrução dos operários como a causa principal dos problemas que os afetam e apela a que os mesmos trabalhem “sem exaltação mas sem desânimo, pela redução das horas de trabalho” pois só assim “encontrarão tempo para o estudo”.

Francisco Maria Supico elogia os partidários do socialismo por não imporem a sua ideia pela força mas sim “exaltam-na e defendem-na no campo sereno do exame e da crítica, e nas desapaixonadas discussões scientificas, pelo seu real valor afirmado em diarias conquistas”.
Read Cabral, no seu diálogo entre um industrial e os operários da sua fábrica, defende a conciliação de interesses entre os intervenientes, terminando o texto com a seguinte frase: “mas lembrem-se rapazes, que o capital e o trabalho são factores que teem necessariamente de caminhar par-a-par”.
A.S. Alvim por seu lado, defende as oito horas de labor e faz o elogio do trabalho que segundo ele não pode ser excessivo pois “a fadiga bestifica o intelecto, achaca a matéria, e desalenta o espírito, fornecendo assim excellente repasto aos abutres da seita negra. Fugi d’isso.”
Por último, Victor Cabral, continuando a defender a necessidade da conciliação de interesses entre classes, escreve o seguinte: “Se ao patrão e ao proprietário fica a imposição de não abusar do trabalhador em seu proveito, e de rodeá-lo de condições de salubridade, ao operário cumpre o desempenho das obrigações que o seu contracto lhe estabelece”.
Teófilo de Braga
(Correio dos Açores, nº 30489, 19 de Novembro de 2014, p.15)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Aprendendo

Aprendendo com Alice Moderno


Muitos cidadãos, a título individual, e as associações animalistas desempenham um papel fundamental, sobretudo na recolha de animais domésticos abandonados e na procura de adotantes, na denúncia de maus tratos, na educação dos cidadãos e no salvamento de animais que são vítimas da política de abate que é prática na maioria dos canis.
Durante muitos anos, a proteção aos animais domésticos esteve, em São Miguel, a cargo da SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais que sob a direção de Alice Moderno e a colaboração de vários zoófilos micaelenses, de que destacamos a professora Maria Evelina de Sousa, o braço direito de Alice Moderno, Alfredo da Câmara, que sempre disponibilizou o salão dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada para a realização de diversas reuniões e Aires Jácome Correia (marquês de Jácome Correia) que foi presidente da Assembleia Geral, durante vários anos, e o mais generoso dos sócios contribuintes.
Apesar de grande parte da atividade da SMPA, sob a presidência de Alice Moderno, ter decorrido durante um regime não democrático, o Estado Novo, os dirigentes daquela associação tinham o cuidado de dar a conhecer publicamente as suas atividades, apelar à participação e divulgar as contas da mesma, através dos jornais.
Hoje, em regime democrático, pelo menos formalmente, com mais e melhores meios de comunicação, as associações parecem ignorar que a participação dos cidadãos seria maior se sentissem que os seus donativos estão a ser bem usados, se conhecessem melhor o que fazem as associações e que dificuldades enfrentam.
Para além do referido, parece que as associações (algumas ou a maioria?) vivem na semiclandestinidade, de tal modo que raramente ou nunca, nem mesmo a solicitação dos órgãos de soberania, emitem um parecer sobre assuntos que à defesa dos animais dizem respeito, raras vezes tomam a iniciativa de fazer denúncias publicamente, nunca (ou quase nunca) promoveram uma petição, não divulgam a composição dos seus órgãos sociais, não divulgam a realização das assembleias gerais ou não apresentam contas tal como está previsto nos estatutos de todas elas.
Outra batalha ganha pela SMPA foi a criação de um posto veterinário em Ponta Delgada que embora público funcionava com a colaboração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Hoje, apesar de uma recomendação da Assembleia Legislativa Regional e das declarações favoráveis por parte do secretário da tutela, parece que alguns interesses mais alto se levantam e nada se faz para que se concretize o sonho de Alice Moderno, isto é, que a ilha de São Miguel tenha um hospital veterinário público ou gerido em parceria ou totalmente por uma ou mais associações de proteção dos animais.
Não querendo intervir na vida interna das associações, esta devia ser uma luta contínua que devia figurar na agenda de todas elas. A concretização deste sonho, para além ser a verdadeira homenagem a Alice Moderno, poderia abrir o caminho a uma correta forma de tratar os animais, não como coisas mas como seres que sentem.
Pensamos que, muitas vezes, as pessoas que são passivas por natureza ou por deseducação, ainda se retraem mais quando se trata de defender os animais. Com efeito, para além de poderem ser alvo de chacota, muitas vezes são acusadas de darem mais valor aos animais ditos irracionais do que aos seus semelhantes.
A propósito do que está escrito no parágrafo anterior, Alice Moderno num texto publicado em 1935 cita o escritor Francis de Miomandre que escreveu: “Não há graduação na bondade. A pessoa que ama os animais não é cruel para com o seu semelhante. E, muito ao contrário, aquele que defende a sua sensibilidade contra as tentações da zoofilia, não passa de um ser egoísta e explorador da espécie humana”.
Estamos a ficar cansados de ouvir alguns (ir) responsáveis que, face às reaiis ou virtuais dificuldades por que estão a passar as instituições que gerem, lamentarem-se de não fazer nada pelos animais pois, dizem eles, primeiro estão as pessoas. Esquecem-se eles de dizer que há sempre dinheiro para aquilo que querem: para festas e roqueiras, para touradas e música pimba, para contratação de amigos ou correligionários, etc..
Por último, também fingem ignorar que, se há pessoas que estão a passar mal, tal é devido às políticas ruinosas que foram governando este país, a todos os níveis, e que eles também contribuíram para tal. Em suma eles criaram a pobreza e os pobres para agora poderem dar-lhes uma esmola, chame-se a esta rendimento social de inserção ou outra coisa qualquer.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30484 de 12 de Novembro de 2014)

sábado, 1 de novembro de 2014

Águas-vivas


Correio dos Açores, 15 de Agosto de 1937

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Invasoras



A propósito de espécies invasoras

Muitos açorianos continuam alheados das questões ambientais e continuam a dar pouca ou nenhuma importância à conservação da natureza.
Estamos longe do período áureo da educação ambiental promovida pelos serviços oficiais que era implementada pela rede regional de ecotecas, geridas por associações diversas, com atividades destinadas a jovens em idade escolar e não só e que culminava com a realização anual de um Encontro Regional de Educação Ambiental.
Hoje, a educação ambiental está quase e tão só restrita ao Programa Eco-escolas que cada vez mais mobiliza menos professores e cujas atividades quando existem atraem cada vez menos alunos. Além disso, pelo menos nos casos que conheço bem, caiu-se na rotina da participação nos desafios lançados a nível nacional, como concursos de árvores de natal, e os eventuais efeitos positivos do projeto não se estendem a toda a comunidade escolar.
As autarquias pouco fazem e quando o fazem é quase apenas para cumprir calendário. A título de exemplo, menciona-se os dias sem carros, em que como alternativa aos mesmos se apresentam póneis ou trotinetes, os dias da árvore, com plantações de endémicas em cima umas das outras, ou os dias do ambiente com a construção de ninhos para aves em zonas urbanas e que, na melhor das hipóteses não servirão para nada, e. na pior, irão ser muito úteis aos pardais que não são uma espécie que merece medidas especiais de proteção, antes pelo contrário.
Mas, para além do que está escrito acima, a grande falha de toda a tentativa de educação ambiental está no ignorar que os problemas ambientais são problemas sociais e que só podem ser resolvidos se houver alterações profundas nas sociedades atuais.
Não é de agora o fenómeno das espécies invasoras, que existe desde sempre mas que ter-se-á intensificado, a partir do século XV, com os descobrimentos. No caso dos Açores, desde o seu descobrimento têm sido introduzidas, voluntariamente ou não, várias espécies que cá se têm adaptado. Algumas têm sido de grande utilidade para quem cá vive, enquanto outras, pelo contrário, tornaram-se numa das principais ameaças à conservação da flora e fauna endémicas.
Nalguns meios, mais restritos, há quem esteja à procura de responsáveis pelas espécies introduzidas que se transformaram em invasoras e o nome mais apontado tem sido o de José do Canto, que como todos sabemos terá sido o açoriano que mais espécies vegetais, oriundas de várias regiões do planeta, terá introduzido e cultivado nas suas propriedades.
Não querendo alijar responsabilidades a ninguém, considero de algum modo injusta a procura de bodes expiatórios e sem sentido o culpabilizar quem viveu noutra época, onde as preocupações eram outras e não se tinham os conhecimentos que hoje se têm. Com efeito, José do Canto, ao introduzir muitas espécies, tinha objetivos bastante definidos que estavam relacionados com o aproveitamento das mesmas para a agricultura, a horticultura, a silvicultura e a ornamentação de jardins, tornando possível uma melhoria da qualidade de vida de quem cá vivia.
Também, embora não querendo crucificar ninguém, é importante ficar registado que, depois de se ter conhecimento de que algumas introduções causam desequilíbrios nos ecossistemas, podendo levar à perda da biodiversidade e à extinção de espécies nativas, é no mínimo negligente continuar com introduções de espécies que noutras regiões têm um comportamento invasor.
A título de exemplo de introduções negligentes, recordo-me a plantação de lantana nos “socalcos” do aeroporto de Ponta Delgada, importadas do continente, quando por cá já andavam a conspurcar alguns locais da ilha de São Miguel ou a tentativa de introdução de Ipil-ipil, para a produção de biomassa para alimentar uma futura central produtora de energia elétrica, que chegamos a ver nos viveiros dos Serviços Florestais nas Furnas.
Mais recentemente, regista-se o caso da plantação de erva-confeiteira nas Portas do Mar ou do penacho ao longo das estradas. Esta última planta, apesar de muito bonita, é invasora em várias zonas do mundo e já está a mostrar os seus dotes em terrenos incultos da ilha de São Miguel, destacando-se os situados na zona do Caldeirão.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30473, 29 de Outubro de 2014, p.10)