terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Einstein

Einstein


“Se se provar que a relatividade está certa, os alemães vão chamar-me alemão, os suíços vão chamar-me cidadão suíço e os franceses vão chamar-me grande cientista.
Se se provar que ela está errada, os Franceses vão chamar-me suíço, os suíços são chamar-me alemão e os alemães vão chamar-me judeu.” (Albert Einstein)

Penso que não cometerei nenhum erro se escrever que a grande maioria das pessoas que sabe quem foi Albert Einstein associa o seu nome à Teoria da Relatividade ou à invenção da bomba atómica, sendo por alguns considerado o “pai” da mesma.
O físico alemão que mais tarde foi viver para os Estados Unidos da América, também é muito conhecido pela famosa fórmula E= mc2, que relaciona a massa com a energia.
O que poucos saberão é que o famoso cientista, prémio Nobel da Física, em 1921, recebeu o prémio por ter apresentado uma explicação para o efeito fotelétrico.
Em termos escolares, o efeito fotelétrico é ensinado e aprendido, hoje, no décimo ano de escolaridade e consiste na “emissão de eletrões, especialmente por metais, sob a ação da luz (radiação) ” (Dantas e Ramalho, 2007).
A tecnologia do efeito fotoelétrico tem grande aplicação, através das células fotelétricas, no funcionamento de câmaras de televisão, portas automáticas, óculos de visão noturna, alarmes, etc….
A teoria da relatividade, por seu turno, embora faça parte do programa do 12º ano de escolaridade, acaba por nunca ser lecionada já que o Ministério da Educação, não me recordo se já sob o reinado do homem que o queria implodir, decidiu que os conteúdos que deviam ser lecionados em sete segmentos de quarenta e cinco minutos passassem a ser lecionados em apenas quatro. Face a esta incompreensível redução, a opção das várias escolas tem a sido a de eliminar o último capítulo, “Física Moderna”, que inclui os seguintes subcapítulos: “Teoria da Relatividade”, “Introdução à Física Quântica” e “Núcleos Atómicos e radioatividade”.

Todos os interessados em saber um pouco mais sobre Einstein e a teoria da relatividade têm à sua disposição vários livros de divulgação, dos quais destacamos os seguintes:
- “O que é a relatividade?”, da autoria de L. Landau e de Y. Rumer , dois físicos da então União Soviética, editado pela Portugália, em 1965;
- “Subtil é o senhor: vida e pensamento de Albert Einstein”, de A. Pais, que para além de físico conviveu com Einstein, editado pela Gradiva, em 1993;
- “Einstein para principiantes”, de Joseph Schwartz e Michael Mc-Guinness, editado pelas Publicações Dom Quixote, em 1980;
- “Einstein em 90 minutos”, de John e Mary Gribbin, editado pela Editorial Inquérito, em 1997.
De igual modo recomenda-se a leitura de um número especial da National Geographic intitulado “Einstein – A teoria da relatividade, o espaço é uma questão de tempo” da responsabilidade de David Blanco Laserna, físico e escritor, que contém os seguintes cinco capítulos: “A revolução eletromagnética”; “Todo o movimento é relativo”; “As deformações do espaço-tempo”; “As escalas do mundo” e “O exílio interior”.
Uma faceta menos conhecida de Einstein é o de divulgador científico. Com efeito, para além das inúmeras palestras que dava, é coautor com Leopold Infeld do livro “A Evolução da Física”, publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1938.
Em Portugal, há várias edições desta fabulosa obra que tem como finalidade principal dar a conhecer, aos leigos, as “ideias desde os primitivos conceitos até à Relatividade e aos Quanta”. Sobre o mesmo livro, na contracapa de uma edição da “Livros do Brasil- Lisboa”, não datada, podemos ler o seguinte:
“Este clássico da divulgação científica, divulgação que os “puristas” têm vindo, ao longo do tempo, a considerar como supérflua ou, até, impossível, foi, e continua a ser, um livro básico para a compreensão – a nível do grande público, evidentemente – da física moderna e, em particular, da teoria da relatividade”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30537, 21 de Janeiro de 2015, p.14)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sujam o Verde


Verde, mas sujo

Depois de um longo período em que o ambiente, ou melhor a natureza, era uma preocupação de uns poucos que eram apodados pelos donos disto tudo de lunáticos, alguns problemas ambientais, nomeadamente catástrofes, como as de Seveso, Bophal ou Chernobil, fizeram com que crescesse o número de pessoas que se envolveram em movimentos criados para lutar pela defesa do ambiente e consequentemente por uma melhor qualidade de vida para todos os seres que com os humanos partilham a vida na Terra.
Para os mais esquecidos ou para quem nunca teve conhecimento, abaixo apresenta-se uma síntese do que foi cada uma das catástrofes.
A 10 de Julho de 1976, na cidade de Seveso, na Itália, uma instalação industrial libertou alguns quilos de uma dioxina que para além de contaminar os solos causou a morte direta de cerca de 3000 animais e fez com que outros 70 000 tivessem de ser abatidos para evitar a contaminação das cadeias alimentares. Além disso, desconhece-se se houve vítimas mortais humanas, mas sabe-se que no ano seguinte a taxa de defeitos congénitos aumentou mais de quarenta por cento.
Considerado como o mais grave desastre industrial ocorrido até hoje, a catástrofe de Bophal ocorreu a 3 de Dezembro de 1984 quando uma fábrica de pesticidas da Union Carbide, em Bhopal, na Índia, libertou 40 toneladas do gás isocianato metílico. Não se conhece exatamente a dimensão dos danos económicos e ambientais e o número de vítimas, mas Edward Goldsmith e Nicholas Hildyard estimaram o seguinte: pessoas mortas, entre 2 352 e 10 000; incapacitadas, 17 000 a 20 000, expostas, 200 000, evacuadas, 70 000.
A empresa, como é quase tradição, procurou fugir com o rabo à seringa, mas, segundo um relatório, o ocorrido deveu-se a “uma combinação de erros de gerência, equipamento mal concebido e má manutenção”.
Contrariando a propaganda da segurança infinita das centrais nucleares propalada pelos cientistas e dirigentes do capitalismo de estado russo, ou melhor soviético, a 26 de Abril de 1986, relativamente perto de Kiev, na Ucrânia, ocorreu um acidente numa central nuclear.
Como é habitual nestes casos onde as tecnologias são seguríssimas, nunca se saberá o número exato de vítimas, havendo uma previsão do professor John Gofman, da Universidade da Califórnia, que fala em mais de um milhão de vítimas.
Entre nós, não querendo ser alarmista, em breve vamos ter em funcionamento uma tecnologia também extra segura, que é a queima de resíduos para produção de energia elétrica que, pelo menos em parte do dia é desnecessária. Além disso, tem a vantagem de ser renovável, dizem eles, e verde, se pintarem as instalações de tal cor.
Verde também é a taxa que foi criada, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, para penalizar o uso de sacos de plástico e que se traduzirá no saque de mais uns cobres a uma população que desinformada, deseducada, consumista e conformista irá pagar mais, em vez de mudar as suas atitudes e seus comportamentos. Se o que se pretende é reduzir até zero os sacos de plástico por que não se proíbe, de uma vez por todas ou gradualmente, o seu fabrico?
Verdes são também as taxas que vão inventando para sacar o máximo possível aos bolsos já depauperados de uma população que está exangue e exausta de tanto alimentar uma casta que se diz democrática, mas que não presta contas pela má gestão que levou o país à ruina.
Por que razão os nossos ambientalistas oficiais, defensores do aceite universalmente desenvolvimento sustentável que tanto gostam de louvar o princípio do poluidor- pagador, não alargam o conceito e criam o princípio do fazedor de dívida pública - pagador da mesma?
Se assim acontecesse, todos os políticos profissionais, ou afins, responsáveis por projetos megalómanos, inviáveis ou inúteis, todos os autarcas que derreteram as finanças das suas autarquias em obras de Santa Engrácia ou em aberrações de impossível manutenção, ficariam responsáveis, pessoalmente, pelo pagamento das dívidas que fizeram.
Só por si não era democracia a sério, mas era um bom começo.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30532, 14 de janeiro de 2015, p.17)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O metro



A propósito do anunciado desaparecimento do metro

No jornal Correio dos Açores, de 14 de Setembro de 1934, lemos um texto intitulado “O metro - unidade de comprimento - vai desaparecer”, onde o autor para além de se debruçar sobre a história daquela unidade de medida refere “que o sistema métrico não se generalizou no continente europeu até 1850”.
Antes de prosseguirmos, vamos tentar esclarecer o que se entende por sistema de unidades e por grandeza física.
De acordo com manuais escolares consultados, podemos denominar sistema de unidades “ao conjunto de unidades escolhidas para a totalidade das grandezas físicas”, sendo, por sua vez, grandeza física “toda a propriedade que é suscetível de ser medida e, portanto, de se lhe atribuir um valor numérico”. A título de exemplo, comprimento e massa são grandezas físicas, sendo unidades daquelas o metro e o quilograma.
De acordo com o Prof. Jorge Luiz Moretti de Souza, “a existência de um único sistema de unidades que internacionalmente permita um diálogo técnico uniforme onde se fale de dimensões sem recurso a conversões mais ou menos complexas, continua a ser um objetivo ainda não alcançado”.

O primeiro sistema de unidades surgiu no século XVIII, tendo após este surgido outros sempre tendo por critério a escolha para base dos mesmos “certas unidades que possam ser definidas sem necessidade de recorrer a quaisquer relações com outras unidades e que, tanto quanto possível, se possam concretizar em padrões”

Quando frequentamos as aulas de Física, na década de setenta do século passado, tanto no que hoje é denominado de terceiro ciclo como nos antigos sexto e sétimos anos (hoje, décimo e décimo primeiros anos do ensino secundário), ensinaram-nos que, entre outros, existiam dois sistemas de unidades o CGS (centímetro, grama e segundo) e o Sistema Internacional, que para a grandeza comprimento tem como unidade fundamental o metro (m), para a grandeza massa o quilograma (kg) e para a grandeza tempo o segundo (s).
Já há alguns anos, o sistema CGS deixou de merecer qualquer menção e o Sistema Internacional passou a ser o único a ser estudado, numa primeira fase de um modo sistemático, num capítulo denominado “Grandezas e Unidades Físicas” ou designado “Medições e Grandezas” e hoje as unidades são estudadas à medida que se vão ensinando conceitos e vão sendo abordadas as diferentes grandezas físicas.
No que diz respeito à unidade de comprimento, em 1791, a Assembleia Nacional de Franca decidiu que: “A fim de atingirmos a uniformidade de pesos e medidas, é necessário que estabeleçamos uma unidade natural e invariável de medida. O único meio de estendermos essa uniformidade para países estrangeiros e de comprometê-los com o uso de um novo sistema de medidas é escolher uma unidade que não tenha nada arbitrário ou peculiar à situação de uma pessoa no mundo. A Assembleia adota o comprimento de um quarto de um meridiano terrestre como a base para o novo sistema de medidas.”
O comprimento de um metro foi calculado com base nas medições do arco do meridiano que passa por Paris, realizadas entre Dunquerque e Barcelona, dividindo-se o comprimento do meridiano terrestre em quarenta milhões de partes iguais.
A partir da referida medição foi construído um protótipo com a forma de um X, feito de uma liga de platina e irídio que está depositado em Sevres, França, no Instituto Internacional de Pesos e Medidas.
Todos os países que aderiram à Convenção do Metro, em 1875, possuem cópias do padrão internacional, estando a portuguesa depositada no Instituto Geográfico e Cadastral de Lisboa.
Hoje, o metro não está relacionado com a medida do meridiano terrestre mas com “o comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299.792.458 s”.

Ao contrário do que previu o Correio dos Açores, embora ainda não haja um sistema de unidades único, o metro não desapareceu e o Sistema Internacional de Unidades, criado em 1960, pela 11ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, é usado, de acordo com o Prof. Jorge Luiz Moretti de Souza, na “maior parte de negócios e atividades técnicas em todo o mundo”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30526, 7 de Janeiro de 2015, p.14)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Alice Moderno, a SMPA e as touradas


Alice Moderno, a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e as touradas

A posição de Alice Moderno sobre as touradas é a de clara oposição às mesmas e foi manifestada publicamente por mais de uma vez, através dos seus escritos, de que são exemplos as suas Cartas das Ilhas, números XIX e XX.
Na “Cartas das Ilhas – XIX”, dedicada a Luís Leitão, publicada no jornal “A Folha”, de 8 de Março de 1912, Alice Moderno relata que contrariada foi assistir a uma tourada a convite de amigos terceirenses e confessa a sua compaixão pelo cavalo “esquelético”, um “pobre animal, ser incompleto, irmão nosso inferior” que “no fim da vida, é posto à margem e alugado a preço ínfimo, para ir servir de alvo às pontas de uma fera…”. A fera (o touro) por seu lado, “será barbaramente farpeada, até que, enfurecida, ensanguentada, ludibriada, injuriada, procurará vingar-se arremessando-se sobre o adversário que a desafia e fere”.
Na “Cartas das Ilhas – XX”, publicada no jornal “A Folha”, de 10 de Março de 1912, Alice Moderno confidencia que, para não ferir suscetibilidades, não fala no “tema perigosíssimo das toiradas”, nem comunica o que vai na sua alma aos terceirenses, que segundo ela são “ semi-espanhóis no capítulo de los toros, e não compreenderiam a minha excessiva sentimentalidade”.
No dia 23 de Abril de 1933, reuniu, na casa de Alice Moderno, a direção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para “deliberar sobre assuntos urgentes”. De acordo com o jornal Correio dos Açores, do dia 25 do mesmo mês, um dos assuntos a tratar eram as touradas com touros de morte. Na ocasião foi lido um ofício da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa a solicitar a colaboração da SMPA no sentido de pedir ao governo para que “não permita o estabelecimento neste país dos touros de morte. Ficou acordado enviar um telegrama “ao sr. Presidente do Ministério, manifestando a S. Exa o quanto magoaria a sensibilidade dos amigos dos animais a introdução de tão bárbaro divertimento, e quão deprimente seria para a civilização portuguesa o conhecimento do mesmo perante o mundo culto”.
A este propósito, convém recordar que os touros de morte haviam sido proibidos em Portugal, por decreto datado de 14 de abril de 1928, mas continuam, ainda hoje, legalmente, em Monsaraz e em Barrancos, o que não deixa de ser absurdo.
No relato de uma visita que fez a Espanha publicado no Correio dos Açores, de 2 de Fevereiro de 1935, Alice Moderno escreve “Barcelona seria um verdadeiro Éden “ se o autocarro “não tivesse parado em frente a um enorme edifício, de construção luxuosa, cujo fim o seu aspeto logo indicava, e deve ter custado à província alguns milhões de mal empregadas pesetas”.
O edifício em causa era a Praça de Touros Monumental, onde não há touradas desde Setembro de 2011, na sequência da proibição de touradas de praça, a partir de 1 de Janeiro de 2012, na Catalunha. A outra praça de touros, a Praça de Las Arenas, existente na mesma cidade foi transformada em centro comercial.
Ao estar frente à Praça de Touros, Alice Moderno lembrou-se dos “sofrimentos inauditos” de que eram vítimas os animais e acudiram à sua mente o que escreveu o escritor Victor Hugo:
“Em todas as corridas de touros aparecem três feras, que são o touro, o toureiro e o público. O grau de brutalidade de cada um destes brutos pode calcular-se pelo seguinte:
O touro é obrigado.
O toureiro obriga-se.
O público vai por um ato espontâneo da sua soberana vontade e, ainda por cima, dá dinheiro.
Observem bem esta graduação:
O touro, provocado, defende-se.
O toureiro, fiel ao seu compromisso, toureia.
O público diverte-se.
No touro há força e instinto.
No toureiro, valor e destreza.
No público não há senão brutalidade”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30522, de 31 de Dezembro de 2014)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo


Memórias do Natal na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo
Durante muitos anos, na década de sessenta do século passado, a ausência de meu pai emigrado no Canadá, fez com que vivesse em casa dos meus avós, Manuel Soares e Maria dos Santos Verdadeiro, na rua do Jogo, então local da freguesia de São Miguel.
Foi na casa dos meus avós que passei muitos natais da minha infância na sua companhia, bem como na de minha mãe, irmão e tias, Zélia e Rosa.
A aproximação ao dia de Natal, que para mim era sobretudo o da receção das prendas, fazia-se sentir através da participação de minhas tias na Novena de Natal que seguia a regra, mencionada pelo Padre Ernesto Ferreira, de se realizar “de madrugada, porque está no amago da tradição que deve ser de manhã, muito cedo”.
De igual modo, a aproximação era sentida pelos preparativos que se iniciavam com o colocar de molho o trigo e a ervilhaca, a que se seguia a sua deposição em vasos que eram colocados em sítio escuro para que crescessem branquinhos.
Mais próximo do dia, a casa era enfeitada, através da colocação de ramos com laranjas ou mandarinas e funcho da Madeira nas paredes.
Outra tradição, que quase sempre marcava presença, era a do presépio que terá sido ideia, de São Francisco de Assis, concretizada pela primeira vez em 1223, na comuna italiana de Greccio. Na altura, a árvore de Natal ainda não era muito generalizada, apesar de já em 1933 o Dr. Armando Cortes Rodrigues ter escrito o seguinte: “Hoje, a febre da desnacionalização anda erguendo árvores de Natal por todos os lares e até nas próprias igrejas é bom recordar que a tradição dos presépios e das lapinhas é profundamente cristã e latina e que não há necessidade de ir copiar aos países do norte um costume que nada tem que ver com o nosso fundo tradicional”.
O presépio feito em casa da minha avó não se distinguia de muitos outros já que tinha como figuras centrais o menino Jesus e os seus pais, colocados numa cabana construída de madeira coberta com palha. No interior da mesma, também, figurava um burro e uma vaca e, sobre ela, um galo.
Como não podia deixar de ser não faltavam os três reis magos que por vezes eram seis. Com efeito, existiam três reis magos muito pequeninos e muito antigos que montavam camelos e também existiam outros três muito maiores, mais modernos, que montavam cavalos e por vezes todos figuravam no mesmo presépio. Para não haver conflitos, eram colocados em posições distintas, os primeiros, próximos da cabana, dirigiam-se para essa, os outros, mais afastados, já tinham cumprido o seu dever de visitar o menino Jesus e caminhavam em sentido contrário.
No presépio, também, figuravam muitas ovelhas e vacas, o que era obrigatório, em casa de um lavrador, uma cafua de milho e todos os figurantes de uma matança de porco, tendo este fruto dos anos e dos trambolhões as pernas partidas.
As casas mais antigas eram de papel tendo sido desenhadas, recortadas e coladas pelos meus familiares mais velhos, as mais recentes, também de papel, já tinham origem em moldes comprados numa papelaria.
Durante a época de Natal, existiam sempre disponíveis figos passados, comprados em cestinhas ou ao peso, alfarrobas, massa sovada, vinho abafado e raramente licores caseiros.
A ceia de Natal pouco diferia das refeições de outros dias festivos, existindo normalmente carne de galinha caseira e carne de vaca, esta comprada num talho do mercado de Vila Franca do Campo, aquando das festividades religiosas.
Mas, o melhor das festas, para as crianças, eram as prendas que eram deixadas, pelo São Nicolau nos sapatos que colocávamos na cozinha, debaixo da chaminé, e que eram exibidas na rua no dia seguinte. Para as raparigas eram obrigatórias as bonecas e os utensílios usados em casa, sobretudo na cozinha, para os rapazes eram as navalhinhas ou os canivetes e as “flautas” (gaitas de beiços), a maioria muito baratinhas e eram, também, os carrinhos de folheta ou de plástico.
A época natalícia terminava com o tradicional cortejo dos reis magos, manifestação genuinamente popular, com texto do poeta camponês João Jacinto Januário, sendo figurantes pequenos criadores ou tratadores de gado e trabalhadores rurais com muito pouca escolaridade, mas como muito saber e cultura.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30517, 24 de dezembro de 2014, p. 16)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Facilidades para a tortura


Nos Açores há os baldios e há as baldas

Nos Açores existem baldios onde é criado gado bovino sob duas modalidades: arrendamento ou prestação de pastoreio, pela administração.

Em qualquer dos casos está previsto um pagamento pela ocupação dos espaços, sob a forma de renda anual ou por cabeça de gado colocada nos terrenos. As receitas obtidas são “distribuídas na proporção de 50% para as respetivas autarquias e 50% para os cofres da Região, contribuindo assim para um reforço das dotações disponíveis para investimentos que possam trazer benefícios para as populações”.

Também nos Açores, mais propriamente na ilha Terceira, há as baldas que são terrenos públicos que foram cedidos gratuitamente a ganadeiros para criarem animais usados nas anacrónicas touradas.

Embora tenhamos dúvidas sobre se a criação de gado é a melhor ocupação para algumas das áreas disponibilizadas, não é aceitável que os proprietários do “gado manso” sejam obrigados a desembolsar, enquanto os donos do “gado bravo” estejam isentos de qualquer pagamento.

A não ser que as afirmações de que os touros da Terceira em contato telepático com um ou mais “cientistas” da Universidade dos Açores tenham aprendido a distinguir plantas invasores e plantas endémicas e sejam um dos principais pilares na preservação da flora açórica.

Embora ainda longe de ser provada a hipótese levantada por um dos académicos, que considera que os adeptos das touradas são mais ambientalistas, sabe-se que numa recente visita à ilha Terceira um destacado opositor à tauromaquia deslocou-se a uma das áreas na Rede Natura onde foi colocado “gado bravo” e verificou com algum espanto que um dos touros estava, qual humano, sentado e possuía entre as unhas uma chave dicotómica para identificação de espécies.

Deixando de parte a nota de humor, achamos vergonhosa a descriminação de que são vítimas alguns açorianos.
Os adeptos da tortura são os filhos, os outros são os enteados.

Algures nos Açores, 23 de Dezembro de 2014
Manuel Oliveira

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Resistência


Memórias da Resistência à Ditadura Militar e ao Estado Novo

Da autoria de António Ventura, Professor Catedrático de nomeação definitiva do Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa, a Câmara Municipal de Lisboa, presidida por João Soares, através do Museu da República e da Resistência editou, em 2001, o livro “Memórias da Resistência. Literatura Autobiográfica da Resistência ao Estado Novo”.

Para quem quer conhecer um pouco mais o que foi o nosso país, entre 28 de Maio de 1926 e 25 de abril de 1974, sugere-se a leitura do livro mencionado, onde o seu autor a par de apresentar uma breve biografia de alguns dos portugueses que, em condições muito difíceis, foram protagonistas do movimento de oposição à ditadura, dá a conhecer extratos de algumas das suas obras de carácter autobiográfico.
Dos resistentes ao Estado Novo mencionados neste livro dois são naturais dos Açores, Manuel Francisco Tavares Barbosa e Luís Cesariny Calafate.

Manuel Barbosa, natural de Ponta Delgada, na Ribeira Grande dirigiu durante muitos anos o Externato Ribeiragrandense, foi candidato pela oposição nas eleições de 1969 e participou no Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973.
No livro que vimos referindo, é publicado um extrato da sua obra “Luta pela Democracia nos Açores”, onde Manuel Barbosa dá a conhecer um pouco do que foi a cooperativa livreira Sextante.

Luís Calafate, natural da Horta, na sequência da sua participação na Revolta da Sé esteve asilado na Embaixada da Venezuela, tendo depois continuado a sua luta pela democracia no exílio. Em 1975, publicou o livro “A liberdade tem um preço”, publicado na Póvoa de Varzim, em 1975.

Para além dos dois resistentes já mencionados, o livro contém “depoimentos” de vários opositores ao Estado Novo que estiveram na condição de deportados nos Açores, a maioria dos quais presos no Forte Militar de Angra do Heroísmo.

No Forte Militar, as condições onde estavam eram tão desumanas que, em Março de 1936, um grupo de “presos políticos e sociais de Angra do Heroísmo” denunciou publicamente a situação, tendo referido como exemplo o “Calejão”, antiga cavalariça que fora considerada, por veterinários, imprópria para o gado e a “Poterna”, gruta escavada na rocha e localizada a seis metros de profundidade, onde a humidade era só por si torturante.

Pelos Açores, passaram o anarco-sindicalista Acácio Tomás de Aquino, os militantes comunistas, Bento Gonçalves, José Gilberto de Oliveira, Joaquim Pires Jorge, José da Silva e Manuel da Silva, os militares Francisco Horta Catarino e João Varela Gomes, o monárquico José Hipólito Vaz Raposo e uma destacada personalidade da Primeira República, Francisco Pinto da Cunha Leal.

Acácio Tomás de Aquino, que esteve preso antes de ir para o Campo da Morte Lenta, o Tarrafal, em Cabo Verde, escreveu “O Segredo das Prisões Atlânticas”, onde relata a sua experiência de prisioneiro tanto em Angra do Heroísmo como no Tarrafal.

Bento Gonçalves, que foi Secretário-geral do PCP, entre 1929 e 1942, esteve preso no Forte Militar de Angra do Heroísmo e foi condenado pelo Tribunal Militar de Angra do Heroísmo a seis anos de desterro. Foi enviado para o Tarrafal, tendo acabado por morrer vítima de uma biliose.

Francisco Pinto da Cunha Leal, que foi presidente do Ministério (primeiro-ministro) de um dos governos da Primeira República, contestou a política colonial do Estado Novo, tendo sido preso em maio de 1930 e deportado para Ponta Delgada.

O monárquico José Hipólito Raposo foi detido e deportado para os Açores na sequência da publicação, em 1940, do seu livro “Amar e Servir”.
João Varela Gomes, militar que esteve envolvido no assalto ao Quartel de Beja, em 1962, esteve desterrado nos Açores durante seis meses.
Para quem se interessa em conhecer melhor o passado, o livro de António Ventura termina com a indicação ou sugestão de outras obras e autores que poderiam ter feito parte da coletânea que serviu de inspiração a este texto.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30511, 17 de Dezembro de 2014, p.18)