quarta-feira, 15 de abril de 2015
Vinha e vinho
Vinhas e vinhos
1- Algumas notas
As videiras foram trazidas pelos primeiros povoadores do arquipélago dos Açores, tendo o seu cultivo sido mencionado por Gaspar Frutuoso (1522-1591), por diversas vezes, nas Saudades da Terra. Referindo-se à Lagoa, o mencionado cronista escreveu: “Tem por granjearia esta vila trigo e pastel e vinhos, que são muitos e, depois dos da Povoação Velha, comummente os melhores de toda a ilha, de que se recolhem, uns anos por outros, mais de seiscentas pipas, em cada ano”.
O historiador açoriano, natural de Vila Franca do Campo, Urbano de Mendonça Dias (1878-1951), numa comunicação apresentada, no Primeiro Congresso Açoriano, que ocorreu em Lisboa de 8 a 15 de Maio de 1938, depois de se referir à antiguidade da cultura da vinha nos Açores e de mencionar que a mesma passou por diversas vicissitudes, recordou que a mesma era sempre “uma cultura remuneradora” e acrescentou que, na ilha de São Miguel, a área cultivada era de 1 389 hectares, e a sua produção era calculada em 7 milhões de litros.
Uma das vicissitudes por que terá passado a cultura da vinha foi a destruição das primeiras vinhas (Vitis vinífera), que terão sido introduzidas por volta de 1500, pelo oídio e pela filoxera, segundo o Arquiteto José Marques Moreira, em 1853. Para fazer face à devastação ocorrida, a vinha primitiva foi substituída por outra espécie, a vinha americana (Vitis labrusca), também conhecida por uva-de-cheiro ou uva-isabel.
Na sua obra “Agricultura Açoreana um caminho para a Europa”, o Engenheiro Fernando Monteiro da Câmara Pereira, estimava a produção de vinho, em São Miguel, em 1980, em 8,68 milhões de litros.
Hoje, o vinho de cheiro está a desaparecer devagarinho, de tal modo que cada vez é menor a área de vinha cultivada, chegando-se ao cúmulo, dizem, de se fazer vinho a partir de uvas vindas do exterior.
A área cultivada com novas castas na ilha de São Miguel, tanto quanto nos é dado conhecer, é quase residual, estando muito longe de igualar a que é abandonada pelos cultivadores da uva- de-cheiro.
2- Trabalhadores rurais com ração de vinho obrigatória
Desde que me lembro era hábito os trabalhadores rurais da minha terra, a Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, no fim de um dia de trabalho beberem um copo de vinho que lhes era oferecido pelo patrão, quer fossem trabalhadores ao dia quer fossem permanentes.
Na altura, o vinho de cheiro era a principal bebida alcoólica consumida tanto pelas famílias nas suas casas como nas tabernas da localidade e a oferta de um copo de vinho devia ser um hábito antigo que era respeitado por todos, salvo raras exceções por parte de quem não ingeria bebidas alcoólicas, sendo neste caso o seu consumo substituído pelo da laranjada.
O que ignorava por completo era que durante algum tempo, que também desconheço, por lei, todos os trabalhadores rurais tinham direito, por lei, a uma ração de vinho diária.
Assim, num decreto do Ministério da Agricultura, publicado em 1932, era afirmado o seguinte: “todos os proprietários rurais, rendeiros, seareiros, empresas ou indivíduos, que contratem ou empreguem, de qualquer forma, para serviços de exploração agrícola, trabalhadores rurais, por jornal, salário ou qualquer outra espécie de remuneração, ficam obrigados a fornecer aos mesmos trabalhadores, quando maiores de 18 anos, e de qualquer dos sexos, uma ração diária de 0,3 de vinho de consumo”.
Como penalização para o não cumprimento do disposto na lei, esta previa o pagamento de uma multa de 50 centavos para cada ração não distribuída, quantia que seria agravada para 1 escudo na segunda vez e nas seguintes.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30606, 15 de abril de 2015, p.16)
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Santa Casa nem sempre é casa santa
Misericórdia (s)
Hoje, não vou escrever sobre a etimologia da palavra, nem sobre o conceito de misericórdia e muito menos sobre o papel que as Santas Casas da Misericórdia desempenharam ao longo da história e ainda hoje desempenham em prol das comunidades onde estão inseridas.
Infelizmente, não vou escrever sobre o que de melhor se faz nas Santas Casas, num mundo em que as desigualdades não param de crescer e onde a justiça social teima a não ser prioridade, pelo contrário vou aproveitar o espaço que me é concedido semanalmente para dar a conhecer alguns episódios ocorridos que mostram alguns interesses obscuros que por vezes andam associados ao que devia ser o trabalho desinteressado em prol dos outros, sobretudo dos menos bafejados pela sorte ou dos mais injustiçados pela sociedade.
Através da consulta feita a várias páginas da internet e através de várias notícias publicadas em diversos jornais, ao longo de alguns anos, não foi difícil constatar que tal como sindicatos, clubes desportivos, associações dos mais diversos tipos, etc., as Santas Casas da Misericórdia são também palco de lutas partidárias, são alvo de autênticos assaltos pelas forças políticas ou servem de ponto de passagem ou lugar de promoção de alguns indivíduos ou de trampolim para outros cargos, geralmente de cariz político, com destaque para os proporcionados pelas diversas autarquias.
Para não ofender ninguém, não vamos fazer referência a casos dos nossos dias, embora eles estejam à vista de quem ainda usa os olhos para ver e o cérebro para pensar. Assim, como primeiro exemplo, referiremos uma caça ao voto feita em Vila Franca do Campo no final do século XIX.
O jornal vila-franquense “O Sul”, de 11 de dezembro de 1897 ao relatar o processo eleitoral para os órgãos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo escreveu o seguinte:
“Repugnou-nos a forma com que um sábio, o absoluto Pácha, a symphathica “ave de arribação”, o presidente do panamá da Ponte Torta, o engajador de recrutas, o intitulado governador de Villa Franca, procedeu tão vil e indignamente, mendigando votos, porteiramente, para esta eleição com o fim único de ver fora do hospital o mais zeloso administrador da Santa Casa da Misericórdia”.
Sobre o assunto, o colaborador de “O Sul”, José Picareta, escreveu uma gazetilha de que se transcreve um excerto:
“Da Santa Casa a partida
Perdeu o doutor Cabral,
Que o homem cheque levou…
Esforços fez ele muitos,
Não lhe faltaram caniços
Também as iscas, enguiços,
Mas peixe não apanhou!”
Já quase a terminar a primeira república, quinze anos depois da implantação desta, em Vila Franca do Campo os monárquicos encontravam-se agarrados ao poder na Santa Casa da Misericórdia de tal modo que as suas tropelias, para não dizer aldrabices, para se perpetuarem no poleiro chegaram, ao parlamento nacional, pela voz do “ilustre senador”, Dr. António de Medeiros Franco.
O Correio dos Açores do dia 28 de janeiro de 1925 transcreve um resumo da intervenção do Dr. António Franco na sessão do dia 16 do referido mês e ano que dado o interesse abaixo se reproduz:
“Sr. Medeiros Franco – Chama a atenção do Sr. ministro do Trabalho para uma eleição que há pouco tempo se realizou da mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo. Classifica de simulacro de eleição o que ali se fez. Não se cumpriram as disposições estatutárias, fizeram-se descargas a esmo, e tudo no propósito de excluir os republicanos da administração daquela casa de assistência. Protesta contra o facto que considera lesivo dos direitos dos republicanos locaes e pede um rigoroso inquérito ao que ali se passou.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30600, 8 de abril de 2015, p.16)
terça-feira, 31 de março de 2015
Vegetariano sofre
Vegetariano sofre
Há poucos dias participei, com muito gosto, num jantar solidário e vegetariano promovido Núcleo de São Miguel da Associação Animais de Rua, organização que trabalha em prol da esterilização de animais abandonados e na procura de adotantes para todos os animais dóceis.
A esmagadora maioria dos participantes com quem falei, independentemente das suas opções em termos alimentares, acharam que o evento foi muito bem organizado e que os pratos apresentados estavam muito bem confecionados e apetitosos.
Mas, como não há bela sem senão, um ou dois dos participantes, que também corroboraram com os outros no que diz respeito à organização e à ementa oferecida, passaram a noite a afirmar que não eram fundamentalistas e que também comiam carne ou, num caso, que os pratos estavam maravilhosos mas para servirem de acompanhamento à carne que estava em falta.
Atendendo a que os mesmos não tinham sido enganados, isto é, sabiam ao que iam, não se compreende a insistência na abordagem dos regimes alimentares e a intolerância face a quem optou ou opta por não usar a carne na sua alimentação.
Escrevi intolerância já que fundamentalistas são sempre os outros, nomeadamente aqueles que por razões de saúde, por imperativos da sua consciência, relacionados com os animais e/ou a proteção do ambiente, ou por quaisquer outras razões, decidiram divergir, em termos alimentares, da ditadura da maioria ou das imposições da indústria alimentar.
Sobre este assunto várias personalidades têm-se pronunciado a favor de um ou outro regime alimentar, por vezes em termos violentos e intolerantes, o que em nada contribui para a promoção dos seus ideais. Por outro lado, há outras que têm posições mais sensatas e respeitadoras do outro, como é o caso do filósofo Agostinho da Silva que afirmou: “deve escolher-se a fonte de proteína que seja ao mesmo tempo a mais barata e a mais adequada a cada Povo, insistindo-se, porém, sempre, no consumo da proteína vegetal equiparável: animal está no mundo para ser nosso companheiro, não nosso escravo e vítima”.
Hoje, nos Açores, ser vegetariano não deve ser tarefa fácil tanto são os preconceitos existentes e é raro que quem o é não seja motivo de chacota por parte da maioria que se julga sábia, de que são exemplo, as “bocas” como, “só come alfaces” ou “basta o acompanhamento”, etc.
A prova de que apesar de a Terra já ter dado cerca de noventa voltas ao Sol, ainda hoje se pensa como se pensava em 1928, quando Ponta Delgada recebeu Mascarenhas Araújo que percorreu o país “em propaganda vegetariana e antialcoólica”. Assim, no mesmo número do Correio dos Açores em que aquele foi entrevistado e talvez para contrabalançar ou ridicularizar as suas opiniões, o jornal apresentou uma nota de humor do seu habitual “colaborador” Jack.
Com o título “A apoteose da hortaliça”, o “humorista” Jack, depois de caraterizar Mascarenhas Araújo como “figura apostólica de doutrinador descarapuçado e de sandálias”, termina o seu texto nos seguintes termos:
“Simplesmente, o que posso afirmar é que, seduzidos com a promessa de rara longevidade, há já aí muito patrício nosso que vai cultivando a hortaliça em regímen de abstinência de viandas.
E ainda ontem o meu vizinho X despediu furibundo o homem do talho.
- Não quero mais esse veneno, clamou. Isso que você vende está cheio de toxinas, dizia X, ante o espanto do carniceiro obnóxio.
E como o homem resmungasse qualquer coisa, X rematou eloquente e convicto:
- Pois fique sabendo que ainda o que pode salvar a raça:- sabe o que é?
É o repolho, sim, meu amigo, o repolho!...”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30595, 1 de abril de 2015, p. 14)
Há poucos dias participei, com muito gosto, num jantar solidário e vegetariano promovido Núcleo de São Miguel da Associação Animais de Rua, organização que trabalha em prol da esterilização de animais abandonados e na procura de adotantes para todos os animais dóceis.
A esmagadora maioria dos participantes com quem falei, independentemente das suas opções em termos alimentares, acharam que o evento foi muito bem organizado e que os pratos apresentados estavam muito bem confecionados e apetitosos.
Mas, como não há bela sem senão, um ou dois dos participantes, que também corroboraram com os outros no que diz respeito à organização e à ementa oferecida, passaram a noite a afirmar que não eram fundamentalistas e que também comiam carne ou, num caso, que os pratos estavam maravilhosos mas para servirem de acompanhamento à carne que estava em falta.
Atendendo a que os mesmos não tinham sido enganados, isto é, sabiam ao que iam, não se compreende a insistência na abordagem dos regimes alimentares e a intolerância face a quem optou ou opta por não usar a carne na sua alimentação.
Escrevi intolerância já que fundamentalistas são sempre os outros, nomeadamente aqueles que por razões de saúde, por imperativos da sua consciência, relacionados com os animais e/ou a proteção do ambiente, ou por quaisquer outras razões, decidiram divergir, em termos alimentares, da ditadura da maioria ou das imposições da indústria alimentar.
Sobre este assunto várias personalidades têm-se pronunciado a favor de um ou outro regime alimentar, por vezes em termos violentos e intolerantes, o que em nada contribui para a promoção dos seus ideais. Por outro lado, há outras que têm posições mais sensatas e respeitadoras do outro, como é o caso do filósofo Agostinho da Silva que afirmou: “deve escolher-se a fonte de proteína que seja ao mesmo tempo a mais barata e a mais adequada a cada Povo, insistindo-se, porém, sempre, no consumo da proteína vegetal equiparável: animal está no mundo para ser nosso companheiro, não nosso escravo e vítima”.
Hoje, nos Açores, ser vegetariano não deve ser tarefa fácil tanto são os preconceitos existentes e é raro que quem o é não seja motivo de chacota por parte da maioria que se julga sábia, de que são exemplo, as “bocas” como, “só come alfaces” ou “basta o acompanhamento”, etc.
A prova de que apesar de a Terra já ter dado cerca de noventa voltas ao Sol, ainda hoje se pensa como se pensava em 1928, quando Ponta Delgada recebeu Mascarenhas Araújo que percorreu o país “em propaganda vegetariana e antialcoólica”. Assim, no mesmo número do Correio dos Açores em que aquele foi entrevistado e talvez para contrabalançar ou ridicularizar as suas opiniões, o jornal apresentou uma nota de humor do seu habitual “colaborador” Jack.
Com o título “A apoteose da hortaliça”, o “humorista” Jack, depois de caraterizar Mascarenhas Araújo como “figura apostólica de doutrinador descarapuçado e de sandálias”, termina o seu texto nos seguintes termos:
“Simplesmente, o que posso afirmar é que, seduzidos com a promessa de rara longevidade, há já aí muito patrício nosso que vai cultivando a hortaliça em regímen de abstinência de viandas.
E ainda ontem o meu vizinho X despediu furibundo o homem do talho.
- Não quero mais esse veneno, clamou. Isso que você vende está cheio de toxinas, dizia X, ante o espanto do carniceiro obnóxio.
E como o homem resmungasse qualquer coisa, X rematou eloquente e convicto:
- Pois fique sabendo que ainda o que pode salvar a raça:- sabe o que é?
É o repolho, sim, meu amigo, o repolho!...”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30595, 1 de abril de 2015, p. 14)
quarta-feira, 25 de março de 2015
Maria Evelina de Sousa
A Pátria, 12 de novembro de 1923
Maria Evelina de Sousa condenada ao esquecimento?
Desconhecemos a razão do desprezo a que sido votada, por parte das mais diversas entidades, Maria Evelina de Sousa (1 de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) que foi uma distinta professora primária e jornalista micaelense. Com efeito, não conhecemos nenhuma rua com o seu nome e não recebeu qualquer “condecoração”, nem mesmo a título póstumo.
Nasceu em Ponta Delgada, cidade onde frequentou a Escola Distrital de Habilitação ao Magistério, tendo concluído o curso em 1900 (?) com a classificação de 17 valores.
A partir de 1904 começou a lecionar na Escola de Santa Clara, tendo, quatro anos mais tarde, em 1908, sido responsável pela criação da primeira biblioteca escolar do círculo, iniciativa muito comentada na sociedade micaelense e na comunicação social da altura.
No âmbito do ensino, Maria Evelina de Sousa, procurou introduzir inovações nos Açores, tendo aprendido o método de leitura e escrita, Método Legográfico-Luazes, com a sua autora, a professora, pedagoga e escritora Maria Amália Luazes, que foi a fundadora do Instituto do Professorado Primário Oficial Português, em 1916. Assim, Maria Evelina de Sousa ofereceu-se para explicar, a título gratuito, o método a todos os professores que o quisessem aprender. Foi, também, por sua iniciativa que se realizou em Ponta Delgada uma conferência de propagando do método de João de Deus.
Em matéria de ensino, ainda durante a monarquia, Maria Evelina de Sousa defendeu que nos estabelecimentos escolares não devia ser permitido o ensino de matéria religiosa, o que veio a acontecer com a implantação da República.
Pouco depois da implantação da República, Maria Evelina de Sousa escreveu uma carta aberta ao Dr. Francisco d’Ataíde Machado de Faria e Maia, presidente da Comissão Administrativa Republicana, onde apresentou um plano de remodelação do ensino primário oficial para a cidade de Ponta Delgada, tendo entre outras medidas defendido a criação de quatro escolas centrais e a criação de uma rede de escolas que deveria incluir “as diferentes associações que, trabalhando isoladamente, têm o mesmo objetivo” e que eram a Associação Século XX, as Comissões de Beneficiência e Ensino e a Associação das Filhas de Maria.
Como jornalista é de destacar a sua colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação e direção e redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo sido distribuída a nível nacional. Para além de colaborar no jornal “A Folha”, fundado em 1922 pela sua amiga Alice Moderno, foi, a partir de 12 de maio de 1915, secretária de redação daquele jornal e colaboradora do jornal “Correio dos Açores”, onde publicou alguns artigos de opinião e poesia diversa.
Fez parte da comissão organizadora da Escola Industrial de Rendas de Bilros que funcionou em Ponta Delgada sob a regência da professora D. Hortense de Morais.
No âmbito da defesa dos Animais, foi com Alice Moderna uma das principais dinamizadoras da criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, em 1911, tendo sido ela a responsável pela redação dos estatutos e mais tarde, criada a associação, assumido vários cargos nos órgãos sociais da mesma.
Foi militante de várias associações defensoras da causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo sido homenageada por esta instituição em Agosto de 1912, a Associação de Propaganda Feminista, fundada, em 12 de Maio de 1911, por Ana de Castro Osório, e a Associação Feminina de Propaganda Democrática, criada em 1915 e dissolvida em Junho de 1916, que se identificava com o Partido Democrático e apoiava a ação política de Afonso Costa.
Aposentou-se a 13 de Julho de 1940, após trinta e seis anos de bom e efetivo serviço sendo, na altura, professora da Escola Agostinho Machado Bicudo Correia, localizada na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30589, 25 de março de 2015, p.16)
terça-feira, 24 de março de 2015
Ginco
Ginco
Esta
árvore sagrada do Oriente que pode viver mais de mil anos é hoje cultivada, com
fins ornamentais, em quase todo o mundo, havendo também registos que mostram o
seu uso como medicinal desde 2600 a.C.
O
ginco é considerado um fóssil vivo, pois já existia no tempo dos dinossauros e
é conhecido por árvore de Hiroshima, em virtude de alguns exemplares terem sobrevivido à bomba atómica lançada, pelos
americanos, sobre a cidade japonesa de Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945.
Família- Ginkgoaceae
Nome científico- Ginkgo
biloba L.
Outros nomes – Nogueira do Japão (Brasil)
Distribuição
Geográfica – Originária
da China
Identificação-
Esta árvore que pode atingir 35 m de altura é muito fácil de identificar
através da forma em leque das suas folhas que primeiro são verdes tornando-se,
depois amarelas.
Utilização-
Não é conhecida a sua utilização na medicina popular açoriana, mas segundo o
livro “Plantas e Produtos Vegetais em Fitoterapia”, editado pela Fundação
Calouste Gulbenkian, as suas folhas são usadas com as seguintes indicações:
“Nos sintomas ligados à insuficiência vascular cerebral ou periférica.
Vertigens, acufenos, perturbações da memória, claudicação intermitente”.
Esta planta é muito usada como
ornamental, existindo em vários jardins públicos e privados. É possível
encontrar bonitos exemplares na Escola Secundária das Laranjeiras, na Mata
Jardim José do Canto, nas margens da Lagoa das Furnas e no Parque Terra Nostra,
sendo digna de visita a maravilhosa Alameda dos Gincos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30588 de 24 de
março de 2015, p.14)
quarta-feira, 18 de março de 2015
Os assassinatos do Simba e do cão da louca
Os assassinatos do Simba e do cão da louca
O meu
texto de hoje é sobre dois assassinatos de animais distanciados no tempo
aproximadamente noventa e dois anos. O caso mais recente diz respeito ao Simba,
assim se chamava o cão, que foi morto a tiro por parte de um vizinho da família
que dele cuidava e o mais antigo é relativo à morte por envenenamento de um cão
pertencente a uma mendiga que viveu em Ponta Delgada, em 1923.
A morte
do Simba, para além de ter sido noticiada em toda a comunicação social nacional,
tem sido muito comentada nas redes sociais, tendo suscitado um debate onde de
um lado estão os defensores dos animais e do outro os que acham que há um
exagero nos protestos daqueles.
Muito
comentada é uma publicação no “facebook” onde o autor põe em confronto duas
petições, uma de apoio às vítimas de violência doméstica com muito poucas
assinaturas e a que pede justiça pela morte do Simba com mais de 50 mil
assinaturas.
Do meu
ponto de vista não devemos condenar quem clama para que seja feita justiça
perante crimes cometidos contra animais irracionais, o que está mal é que quem
critica os defensores dos animais, quando não é confesso ou encoberto adepto da
tortura daqueles, não faça o mínimo esforço para fazer ouvir a sua voz perante
as injustiças cometidas sobre os humanos mais fracos e indefesos. Considero que
o que existem são causas e não há causas mais nobres do que outras, além disso
qualquer ser humano compassivo pode muito bem abraçar mais do que uma delas.
Quem está
envolvido na luta para que seja feita justiça no caso da morte do Simba está,
não temos dúvidas, a pensar na família que o acolhia que está a sofrer, como
podemos ver pelo depoimento que a seguir se transcreve:
“Ontem perdi o meu melhor amigo nesta vida,
perdi um vizinho que ate permitia que me tirasse água de um poço e que por duas
vezes o esvaziou porque se esquecia da rega ligada, perdi parte da minha mulher
que não consigo consolar, perdi a minha fé no homem, ganhei um novo folego como
crente em Deus porque só Ele me apertou e tranquilizou ontem enquanto soluçava
a enterrar o meu cão rodeado dos meus cavalos que lhe vieram prestar uma ultima
homenagem e do meu irmão também ele destroçado por ver o seu caçula em tamanha
aflição.”
A 25 de
março de 1923, quem passou na baixa de Ponta Delgada teve a oportunidade de
assistir ao seguinte: uma “desgraçada louca” que vendo o seu cão perdigueiro,
que fora envenenado, a contorcer-se em agonias pareceu “ter readquirido toda a
lucidez de espírito, acarinhava-o em extremos de afecto, falava-lhe,
friccionava-o, lavava-lhe a boca, limpava-lhe a língua chorando, chorando,
angustiada por não o poder salvar”.
Depois de
tentar, em vão, arranjar a salvação nas várias farmácias o animal, a única
pessoa da sua família, como costumava dizer, acabou por morrer no cais da
Alfândega e ela perante quem o queria tirar “defendeu-se furiosamente,
ameaçando com dentadas. – E chorava interminavelmente, desoladamente, sobre o
cadáver do seu único amigo no mundo”.
O redator
do Correio dos Açores terminou o seu texto publicado, a 28 de março de 1923, com
uma frase que ainda hoje faz todo o sentido: “Lembrando-nos da forma como tanta
gente trata os animais, perguntamos se aquela desgraçada será realmente louca…”
Uma
leitora do Correio dos Açores lembrou-se de sugerir ao jornal uma recolha de
fundos com o objetivo de “comprar um cãozinho para ser oferecido à desditosa
louca, que assim continuará a ser protegida e querida por um novo amigo, como o
era pelo seu velho companheiro, já que pelos homens é tão abandonada”.
Alice
Moderno foi uma de entre as várias pessoas que deram o seu contributo
monetário, tendo em carta dirigida ao diretor do jornal que vimos citando
sugerido não ser necessário a compra de um cão pois “há tantos que aí andam
abandonados, coitaditos, quase mortos de fome e frio, revolvendo todas as
manhãs, em busca de um osso ou de uma côdea de pão, os caixões de lixo, onde
não raramente encontram a morte”.
Alice Moderno na sua carta, escreveu que
a causa da proteção dos animais continuava a ser tão mal compreendida pela
maior parte da população, acrescento que hoje também o é pela generalidade dos políticos até perceberem
que a causa também lhes poderá dar ou tirar votos, o que não tardará muito.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30563, 18
de março de 2015, p.14)
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animais de companhia,
direitos dos animais
quarta-feira, 11 de março de 2015
Contra as touradas
Sobre a oposição às touradas na ilha de São Miguel, no século XIX
É antiga, não há qualquer dúvida, a prática de maltratar animais, tal como àquela sempre esteve associada a oposição aos maus tratos. O caso dos maus tratos na tauromaquia não foge à regra, havendo ao longo dos tempos várias vozes que se opuseram à mesma em todos os países do mundo onde aquela existe ou já existiu.
No século XIX, a oposição à tauromaquia, na ilha de São Miguel, também foi feita através das páginas dos jornais “O Repórter” e “O Sul”.
“O Repórter”, dirigido por Alfredo da Câmara, um dos fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, no dia 11 de Abril de 1897, num texto intitulado “Guerra de Morte às touradas” para além de criticar a tauromaquia, faz ironia com as reportagens tauromáquicas e satiriza os jornais que a promovem.
Sobre os jornais podemos ler o seguinte:
“Assim, vai dedicando à santa missão da educação do povo, extensos artigos em que relata até às últimas minudências as peripécias selváticas acontecidas nas touradas, soltando ao mesmo tempo profundos e dolorosos gemidos porque os touros perderam a ferocidade que apresentavam noutro tempo.
Estas lamentações fazem-nos crer que o touro é menos refratário à civilização do que o próprio homem, pois que vai diminuindo de ferocidade, enquanto o homem aumenta.”
Sobre os repórteres, o extrato seguinte diz-nos tudo sobre o pensamento do autor do texto:
“…Segue-se àquela interessantíssima narração uma outra em telegrama de Valência referindo que “os touros de Saltillo saíram muito bons”.
Se cá os houvesse assim, pagava-se com certeza o deficit.
“Morreram 14 cavalos”, diz ainda o telegrama.
Não pode haver espetáculo mais comovente e que melhor satisfaça um coração bem formado do que ver morrer 14 cavalos, em agonia prolongadíssima com o corpo transformado num crivo, deixando passar pelos buracos os intestinos, arrastando-os pela arena e pisando-os muitas vezes com as próprias patas!
O selvagem do correspondente do “Século” devia exultar de satisfação todas as vezes que via desaparecer as armas do touro no corpo de um misero cavalo, que recebia assim o pagamento dos serviços que prestou ao homem durante toda a vida trabalhando para ele!
Termina o selvagem a sua notícia dizendo que “foi uma corrida magnífica”!...
Por seu lado, o jornal semanal “O Sul”, que se publicou em Vila Franca do Campo, em Julho de 1898, ridicularizou os espanhóis aficionados das touradas, através de um texto magistral que, com as devidas alterações e atualizações se aplica ao que está a acontecer hoje na ilha Terceira, onde perante uma situação que poderá ser dramática para a mesma, em termos de aumento de desemprego, com a saída de militares norte-americanos da Base das Lajes, as “elites” quase só pensam em tornar as touradas ainda mais sangrentas. Para memória futura e porque é mais esclarecedor do que uma síntese, aqui fica um excerto do texto mencionado:
“Viva los Toros
Ao passo que em Cuba e nas Filipinas os soldados espanhóis caem varados pelas balas dos insurgentes, a população de Madrid entrega-se levianamente ao seu espetáculo favorito, como se o estado do país fosse o mais próspero possível.
Há dias houve ali uma bezerrada, em que tomaram parte atores, jornalistas, etc.
Entretanto a pátria gemia..,.
Pois não gema!
A nacionalidade vai-se perdendo…
Pois não se perca!
E as derrotas têm sido formidáveis…
Que se amanhem!
….”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30577, 11 de março de 2015, p.18)
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