quinta-feira, 28 de maio de 2015

Notas sobre o terceirense Dr. António Sousa Júnior


Notas sobre o terceirense Dr. António Sousa Júnior


António Joaquim de Sousa Júnior era natural da Praia da Vitória, Ilha Terceira, tendo nascido a 16 de Dezembro de 1871. Aposentou-se, por motivos de saúde, em 1928 e faleceu 10 anos mais tarde, a 7 de Junho de 1938.
Fez os seus estudou no Seminário e Liceu de Angra e, no Porto, frequentou a Academia Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica, tendo obtido o grau de bacharel, em 1898, e o de doutor em Medicina em 1900.
Em 1913, o Dr. António Sousa Júnior foi nomeado Ministro da Instrução, sendo então, segundo o jornal “A Folha”, o nono terceirense a ascender ao cargo de ministro.

De acordo com o texto referido, publicado no mencionado jornal, no dia 20 de julho de 1913, “o Dr. Sousa Júnior pertence ao número dos raros que devem ao esforço próprio a proeminência da sua situação”. O seu mérito era tal que, apesar de ser republicano, a monarquia o investiu “na direção do hospital de Bonfim e numa cátedra da escola médico-cirúrgica do Porto”.

O texto do jornal que vimos citando, quase de certeza escrito por Alice Moderno, termina do seguinte modo: “Regozijando-nos com o país pela acertada escolha do primeiro ministro da instrução em Portugal, enviamos ao Dr. Sousa Júnior os nossos cumprimentos muito cordiais”.
Na sua qualidade de ministro foi um dos principais responsáveis pela criação da primeira "Escola da Arte de Representar" em Portugal.
Em 1923, o Dr. António Joaquim de Sousa Júnior, lente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, era presidente da Câmara Municipal do Porto e da Junta Autónoma do porto de Leixões, quando foi assinado o contrato para a construção daquele porto, adequando-o às necessidades e aspirações de todos os portuenses.

A nível universitário desempenhou os cargos de vice reitor da Universidade do Porto e Reitor da Universidade de Coimbra, tendo escrito muitos artigos científicos na "Gazeta Médica do Porto", no "Porto Médico" e na "Gazeta dos Hospitais".

O Dr. Sousa Júnior notabilizou-se tanto no estudo como no combate ao agente transmissor da peste pneumónica, tendo quando a mesma se manifestou na ilha Terceira, em 1908, voltado à sua terra natal onde dirigiu os necessários trabalhos de saneamento. Na altura esteve de visita à ilha de São Miguel, onde realizou algumas conferências sobre o assunto e conheceu Alice Moderno que mais tarde o visitou no Porto.

Defensor da participação de Portugal na Iª Guerra Mundial não se ficou pelas palavras. Segundo Alice Moderno, “nele a ação acompanha sempre a ideia. Assim, não só se alistou como voluntário, mas autorizou o seu filho primogénito a alistar-se também, sendo este o mais novo de todos os voluntários portugueses”.

No final da sua vida isolou-se na sua terra natal, mas de acordo com o capitão António Correia que com ele conversou algumas vezes “Não maldizia os homens de que se afastara enojado; e a República, que bem servira, continuava a ter no seu coração amor e saudade…”

Os inimigos políticos do Dr. Sousa Júnior não o perdoaram e em vez de reconhecerem a sua dedicação e profissionalismo, como canalhas que eram, chamavam-lhe de “doutor Sousa das Ratas”. Este facto prova que a ingratidão não é de hoje, antes pelo contrário parece que é endémica de uma região que teima em não evoluir, pelo menos moralmente.

Pelo contrário, várias pessoas de carácter, como o Dr. Luís Ribeiro souberam reconhecer a sua dedicação à causa pública e não tiveram qualquer coibição em fazer rasgados elogios ao homem e à sua obra. A título de exemplo cita-se aqui a parte final de um texto seu publicado no Correio dos Açores em Junho de 1938:
“…mas nunca deixou de ser para toda essa gente [do Porto Martins] o médico gratuito, caritativo e esmoler, que lhe dava o melhor da sua ciência e, muitas vezes, o remédio e o pão.
Com o Dr. Sousa Júnior desaparece uma grande figura da medicina nacional, um homem de rara inteligência e fecunda atividade, mas desaparece também um belo e magnânimo coração”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30640, 28 de maio de 2015, p.16)


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Com o nome de Alice Moderno


Com o nome de Alice Moderno

No passado dia 6 de Maio, o diretor Regional da Agricultura, Fernando Sousa apresentou, na Escola Básica Integrada dos Arrifes, o projeto “Alice Moderno” que tem por objetivo a luta “contra o abandono e maus tratos a animais”.

De acordo com as notícias publicadas o projeto limita-se à “colocação de 'outdoors' nas ruas, distribuição de cartazes e folhetos informativos nas escolas e postos da RIAC”. Não percebi se no âmbito do mesmo será instalado no chamado Hospital Alice Moderno o tão reclamado, pelos ecologistas, Centro de Recuperação de Aves Selvagens do Grupo Oriental.

Em primeiro lugar queria felicitar todos os que, a nível oficial, contribuíram para que este primeiro passo tenha sido dado, mas não queria que passasse despercebido que para se chegar aqui houve o empenho de muitos cidadãos, através de petições à ALRA, artigos de opinião e de muito trabalho, no dia-a-dia, em defesa de uma sociedade melhor para todos, humanos e não humanos.

A notícia oficial da apresentação do projeto refere “a presença de cães da Associação Animais de Rua” que é uma entidade que me merece todo o respeito pelo notável trabalho que está a fazer na ilha de São Miguel em prol dos cães e sobretudo dos gatos maltratados e abandonados por seres que se dizem humanos. Contudo, estranhei a referência aos cães e nenhuma menção às pessoas que são quem implementa as atividades, bem como a não alusão às demais associações de proteção das animais sedeadas na ilha de São Miguel e que, na medida das suas possibilidades, trabalham para a mesma causa. Será que foi apenas esquecimento do redator da notícia ou a APA- Associação de Proteção dos Animais dos Açores, a Cantinho dos Animais dos Açores e a AVIPAA- Associação Vilafranquense de Proteção dos Animais e do Ambiente foram esquecidas?

Um projeto como o que vimos referindo não terá o sucesso que é exigido se se ficar pelos cartazes e “outdoors” e pelos gabinetes do RIAC e ignorar os principais agentes da defesa animal que são os cidadãos sensíveis e as diversas associações existentes, bem como os educadores e professores que trabalham nas escolas açorianas.

A propósito do parágrafo anterior, já que se está a invocar o nome de Alice Moderno, é importante não esquecer que, logo que assumiu a presidência da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, em 1914, uma das primeiras medidas por ela tomada foi o envio de uma comunicação aos professores “pedindo-lhes para que, mensalmente, façam uma prelecção aos seus alunos, incutindo no espírito dos mesmos a bondade para com os animais, que não é mais do que um coeficiente da bondade universal”.

Outra iniciativa no âmbito do referido projeto é a criação, em parceria com a Delegação dos Açores da Ordem dos Médicos Veterinários, do “Voucher Alice Moderno” que não sabemos se será a adaptação de uma iniciativa que já existe a nível nacional ou se se trata de algo novo. Sobre este, pouco temos a dizer, mas tudo o que vier por bem é bem-vindo.

Por último, é preciso não esquecer que, em 2012, os subscritores da petição “ Por uma nova política para com os animais de companhia” reivindicavam mais, muito mais, do que foi agora anunciado.

Para que não caia no esquecimento aqui vai o pretendido:

“Solicitamos que a Região Autónoma dos Açores tome as devidas medidas legislativas no sentido da promoção, por um lado, da esterilização dos animais errantes, como método eficaz do controlo das populações, e, por outro lado, do incentivo à adoção responsável.

Solicitamos ainda que, seja respeitada a memória de Alice Moderno, pioneira da proteção dos animais nos Açores, transformando o atual Hospital Veterinário Alice Moderno, em São Miguel, em hospital público, onde os animais temporariamente a cargo de associações de proteção ou de detentores com dificuldade ou incapacidade económica possam ter acesso a tratamentos a preços simbólicos. Nas restantes ilhas, a função do Hospital Alice Moderno poderia ficar a cargo de um Centro de Recolha Oficial.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30634, 20 de maio de 2015, p.14)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Espírito Santo: evolução ou retrocesso?

Espírito Santo: evolução ou retrocesso?
Ao contrário do que pretendem alguns, as tradições nem sempre são estáticas, evoluindo algumas, felizmente, até desaparecerem por completo, enquanto outras são criadas, normalmente impingidas por fanáticos ou por interesses económicos.
Infelizmente, uma tradição que desapareceu por completo foi a da batalha das flores que se realizava em Ponta Delgada pelo Carnaval, sendo substituída por outra, a das limas e agora, sobretudo, a dos sacos de plástico, muita controversa mesmo entre os micaelenses.
Uma tradição, a das touradas, que estava restrita a uma ilha, foi imposta, por interesses económicos e mais recentemente político-partidários a outras, conspurcando o programa de algumas festas religiosas, com a conivência de uma parte da hierarquia igreja católica e o silêncio cúmplice dos principais responsáveis da Igreja na região.
Depois desta introdução, vamo-nos cingir às festividades em honra do Divino Espírito Santo que, têm sofrido alterações ao longo dos tempos, nem sempre rumo a uma direção que, respeitando as crenças de cada um, também respeite os valores da tolerância e da solidariedade para com os mais desfavorecidos.
Se até há alguns anos as festas eram promovidas por cidadãos a título individual ou por grupos informais, hoje caminha-se a passos largos para a institucionalização das mesmas, através da constituição de associações devidamente legalizadas para não se furtarem aos impostos que alimentam um estado que nem sempre sabe fazer bom uso dos mesmos.
Uma atividade que, para além da componente recreativa, tinha por principal missão a solidariedade social, agora, é também alvo dos cobradores de impostos e afins, vendo uma parte das receitas desviada para pagar taxas e impostos, como é o IMI - Imposto Municipal sobre Imóveis, por vezes de valores exorbitantes, como acontece em Vila Franca do Campo.
Mas, como há sempre caminhos para contornar as imposições legais, com a devida autorização da Igreja, algumas das Irmandades constituíram-se como associações de direito canónico, podendo assim beneficiar de algumas regalias em termos fiscais.
Mas, como tivemos a oportunidade de ouvir por parte de uma pessoa ligada à hierarquia da Igreja Católica, há algum oportunismo por parte de algumas pessoas ligadas a Irmandades já que, por um lado, as organizações são beneficiadas pela sua ligação à igreja, por outro fazem o que lhes dá na real gana, sem qualquer respeito pela componente religiosa das festas.
A este propósito, recordo que se hoje são as irmandades a aproximar-se da Igreja, antes era a Igreja a fazer imposições às irmandades. A título de exemplo, na ilha Terceira, em Junho de 1961, as filarmónicas União Católica e Recreio dos Lavradores, da Ribeirinha, Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral e Recreio dos Artistas, da cidade de Angra do Heroísmo, Recreio de Belém, da Terra Chã, e Filarmónica dos Altares foram excomungadas pela Câmara Eclesiástica por terem participado em coroações “ a que o Prelado negou carácter religioso por não serem realizadas de acordo com um regulamento cujos termos têm apaixonado a opinião pública”.
Se antes eram as comunidades que contribuíam para as festas, agora já há subsídios para algumas das irmandades e há quem defenda que deverá ser instituído um apoio fixo anual para todas elas, independentemente dos saldos existentes, que por vezes são avultados.
Antes não se faziam festas sem as filarmónicas, hoje estas, praticamente, foram arredadas dos arraiais, sendo a cultura popular substituída por grupos musicais, por vezes exógenos aos Açores e de qualidade nem sempre abonatória para os organizadores, que cantam ou gritam letras cujo conteúdo por certo, fará corar o Espírito Santo e as restantes pessoas da Santíssima Trindade.
Se se analisar os orçamentos de algumas irmandades, por vezes movimentando valores superiores a 50 mil euros, verifica-se que a solidariedade é responsável por uma parte ínfima das despesas. A título de exemplo, numa delas apenas 3,5 % das despesas destinaram-se a refeições destinadas à população, 7,3 % para bandas musicais e som - a banda de música apenas foi responsável por 1,8 % das despesas- e 6, 4 % foi destinado ao fogo-de-artifício. No que diz respeito às receitas, a venda de gado é responsável por cerca de 40 % das mesmas, enquanto os donativos contribuem com aproximadamente 30 %.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, nem sempre para melhor!
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30629, 14 de maio de 2015, p.9)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Insígnias, Panteão e Antero de Quental


Insígnias, Panteão e Antero de Quental

Tem surgido na comunicação social e nas redes sociais alguma controvérsia sobre alguns dos nomes indicados para serem distinguidos pela Assembleia Legislativa Regional. Dizem uns que determinadas personalidades tiveram um papel na história recente dos Açores que, independentemente das ideologias ou ideias defendidas, deviam ver o seu mérito ser reconhecido, argumentam outros que há feridas na sociedade açoriana que ainda não estão saradas pelo que alguns nomes deverão aguardar por outros tempos.

Pensamos que o facto de uma determinada personalidade ou instituição não ter sido escolhida pelo parlamento açoriano pouco significado tem, atendendo a que aquela “obrigação” anual já se banalizou de tal modo que muito haveria a dizer sobre os ou alguns dos escolhidos.

Por outro lado, que importância tem determinada pessoa, normalmente a título póstumo, ou instituição estar entre os eleitos pelo consenso dos deputados quando o que ela sempre defendeu em vida é espezinhado diariamente pela maioria daqueles?

Sobre os reconhecimentos feitos pelas mais diversas instituições, oficiais ou outras, a seguinte frase de Mark Twain não precisa de mais comentários: “É melhor merecer honrarias e não recebê-las do que recebê-las sem as merecer.”

A nível nacional, a situação não difere da que acontece nos Açores, aliás alguns açorianos são bons a copiar o que de mal feito se faz noutras paragens, de tal modo que muitos são os escolhidos e muitos mais são os ignorados pelos detentores do poder que sobretudo não perdoam a quem tem uma vida independente, não se curvando perante os diversos grupos de pressão e interesses instalados.

Em Portugal continental, há a acrescentar a moda das idas dos restos mortais para o Panteão Nacional que a mim pouco diz.
O mais recente caso, que levantou alguma, pouca, polémica foi o do futebolista Eusébio da Silva Ferreira, cuja ida para o Panteão foi aprovada por unanimidade na Assembleia da República. Quanto a mim, embora preferisse que Eusébio estivesse ainda entre nós, mas ninguém pode contrariar a lei da vida, o seu verdadeiro panteão é o Estádio da Luz e todos os estádios, campos, ruas, canadas, etc., onde esteja alguém a praticar futebol.

No que respeita a Antero de Quental, em 1921, o jornal Correio dos Açores deu voz a várias personalidades que se manifestaram contra a trasladação das cinzas de Antero de Quental para o panteão.

Humberto de Bettencourt, no dia 20 de fevereiro de 1921, depois de referir a existência de uma comissão para tratar da “trasladação solene das cinzas d’Antero de Quental para o Panteon dos Jerónimos, a realizar em abril próximo, na data aniversaria do nascimento do Poeta”, a dado passo do seu artigo pede à referida comissão para desistir do seu intento e termina-o com as seguintes palavras: “As cinzas do grande Poeta são um inestimável tesouro para nós. Queremol-as aqui sempre connosco, como objecto d’enternecida veneração e acendrado culto, e não sairão d’esta Ilha sem o meu mais veemente protesto”.

Sobre o mesmo assunto, Luís Ribeiro, a 1 de Maio do mencionado ano, escreveu o seguinte: “mas não me sofre o ânimo vê-lo assim levar para longe de nós, para o confuso turbilhão da capital, em obediência ao prurido centralistas de riquezas e glórias, que encerra na prisão dourada das Janelas Verdes os nossos melhores tesouros artísticos, espalhados por toda a parte, nas poeirentas gavetas da Torre do Tombo os documentos históricos das mais distantes localidades, ou na nave sumptuosa dos Jerónimos as carcaças dos nossos homens”.

Numa carta dirigida a Aristides da Mota, publicada no Correio dos Açores a 19 de Junho do mesmo ano, o Dr. Luis de Magalhães escreveu o seguinte: “Não Micaelenses, não deixeis que vos despojem disso que é legitimamente vosso, d’esses restos que foram um legado da grande alma que outrora os animou. Defendei a última vontade do vosso ilustre patrício. Está onde queria estar”.

Venerado na Primeira República, idolatrada pelo menos uma parte da sua obra no Estado Novo, Antero de Quental quase caia no esquecimento não fosse a recente exposição "Antero- para além dos sonetos", louvável iniciativa da Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira da Lagoa.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30623, 6 de maio de 2015, p.19)

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os maios


EM LOUVOR DOS QUE MANTÊM AS BOAS TRADIÇÕES

OS MAIOS

Como todos sabemos, o modo de vida das nossas gentes tem-se alterado muito ao longo dos tempos, deixando cair no esquecimento muitos dos ensinamentos e tradições que eram característicos dos nossos antepassados.
Já no início do século passado, o padre Ernesto Ferreira referia-se aos Maios como uma “simples manifestação da poesia com que a alma popular celebra a sua comunhão com o renovamento da natureza” e manifestava o seu desejo de que os mesmos não desaparecessem “da rica mina dos costumes micaelenses”.
Graças à dedicação de alguns particulares, contando ou não com incentivos das mais diversas entidades, a tradição dos Maios ainda perdura no nosso concelho de tal modo que este ano foi possível vê-los em diversas freguesias.
Para potencializar e divulgar a tradição no concelho e fora dele, sugiro que, independentemente das iniciativas a serem tomadas pelas diversas juntas de freguesia, o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, em cada ano, quer promova ou não um concurso, faça a divulgação prévia de todas as casas do concelho que participam na iniciativa, indicando rua e número de porta.
Aproveito para saudar, nas pessoas dos senhores Jaime Manuel Arruda Feitor e João de Brito Fanfa Ponte, moradores na Ribeira Seca, todas os vila-franquenses mantiveram este ano a tradição bem viva.

Vila Franca do Campo, 26 de Junho de 2014

Teófilo José Soares de Braga

terça-feira, 28 de abril de 2015

Antero de Quental e o primeiro de Maio em São Miguel



Antero de Quental e o primeiro de Maio em São Miguel

Como tive a oportunidade de escrever num número anterior do Correio dos Açores, a primeira comemoração do dia do trabalhador, na ilha de São Miguel, terá ocorrido no ano de 1897, por iniciativa de Alfredo da Câmara.

No ano seguinte, voltou a comemorar-se a data, constando do vasto programa um cortejo para visita aos túmulos de Antero de Quental e de José Pereira Botelho, “grandes propagadores das ideias socialistas”, o qual não se realizou devido ao mau tempo.

As comemorações do 1º de Maio realizadas entre 1897 e 1904, promovidas pelo jornal O Repórter e por Alfredo da Câmara, foram alvo de dura critica por parte dos responsáveis do jornal “Vida Nova que as classificaram como “pseudas e irrisórias festas do trabalho” e o seu organizador alvo de censura por ser “um ferrenho influente eleitoral do partido regenerador” que “não podia continuar à frente deste movimento com o pseudónimo sempre falso de socialista, defendendo as 8 horas de trabalho que ele próprio não compreendia nem podia falar sobre tal assunto”.

Em 1905, Francisco Soares Silva e os restantes colaboradores do Vida Nova, organizaram um primeiro de Maio semelhante ao que então se fazia em Lisboa com alguns carros alegóricos devidamente ornamentados. A iniciativa não se repetiu em anos posteriores porque era muito dispendioso contratar filarmónicas de fora de Ponta Delgada pois “as da cidade, compostas dos nossos camaradas não queriam acompanhar-nos”.

Em 1908, Os responsáveis do Vida Nova cientes de que não eram com festas que se resolviam os problemas sociais optaram, por um lado, por apelar aos operários micaelenses para se unirem, “criando as suas associações sindicais, abrindo escolas para se educarem, e então, unidos em um só pensamento e firmes numa só ideia, conquistarem uma Vida Nova e uma Sociedade Nova onde não se cometam infâmias e crimes como os de Chicago, em 11 de novembro de 1887” e, por outro lado, não esquecer a data, organizando uma romagem ao túmulo de Antero de Quental e uma conferência.

Assim, no dia mencionado realizou-se uma marcha que se iniciou na rua do Gaspar até ao cemitério, onde foi depositada uma “coroa de flores sobre o túmulo do primeiro filósofo português, do poeta dos sonetos, do socialista imaculado e do livre-pensador Antero de Quental”.

Na ocasião, Francisco Soares Silva, junto ao túmulo de Antero, pronunciou um discurso, onde depois de mencionar alguns aspetos da vida do escritor, como o de ter trabalhado como operário e de afirmar que, por isso, “Antero conhecia como nenhum outro escritor a vida desgraçada do operariado” terminou dizendo o seguinte: “Antero viveu com o povo e morreu com o povo. Por isso os homens que defendem com tanto amor e lealdade as vítimas do trabalho, só têm jus às nossas sinceras homenagens e a que lhes desfolhemos flores sobre as suas campas”.

À noite, houve uma muito concorrida conferência na escola União dos Operários a que se seguiu um momento musical que contou com a colaboração de Gabriel de Sousa que tocou bandolim e Mariano Medeiros que tocou violão.

Na conferência falou Francisco Soares Silva que pediu a união de todos os operários e apelou a “que frequentassem aquela escola a fim de se instruírem e serem operários, agradecendo a todos os que cooperaram para o bom êxito da manifestação”.

No ano seguinte, Francisco Soares Silva, em texto publicado no Vida Nova , volta a lembrar que “no 1º de maio nenhum operário deve trabalhar”, sendo um dia de “recordações e de luta”. Insiste que no referido dia “nada de festas, nada de músicas, isso só serve para distrair e para nos iludir”. No mesmo texto, dá a conhecer que “ao meio dia partiremos silenciosamente para o cemitério a desfolhar sobre a campa de Antero de Quental, o poeta dos sonetos, o orador eloquente das conferências do casino de Lisboa, o espírito revolucionário e finalmente o operário tipógrafo” e que “haverá duas pequenas alusões relativas a Antero e ao dia primeiro de maio”.

O discurso sobre Antero foi proferido por João H. Anglin, então “uma criança que apenas conta 14 anos de idade” que “está no segundo ano do liceu e no pouco tempo que lhe resta das suas obrigações, estuda a “grande questão social”, no que convictamente vai abraçando de dia para dia com mais amor e crença o sublime ideal libertário”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30618, 29 de abril de 2015, p.14)

terça-feira, 21 de abril de 2015

A República

Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa e a República
Alice Moderno, que nasceu em 1867, teve a oportunidade de viver e assistir à queda da monarquia, saudar o advento da República e “aderir de alma e coração ao partido republicano”, segundo Maria da Conceição Vilhena, e passar os últimos anos da sua vida, primeiro sob a Ditadura Militar e depois sob o Estado Novo.
Até ao momento, não encontramos qualquer informação sobre a participação de Alice Moderno na vida interna de qualquer partido, o que é conhecida é a sua defesa do regime republicano no seu jornal “A Folha”, mesmo após algumas deceções que lhe causaram algumas medidas tomadas pelos republicanos no poder.
Entre Junho de 1918 e Maio de 1925 publicou-se em Ponta Delgada o semanário republicano “A Pátria” que, entre outros, teve como diretores José da Mota Vieira e António Medeiros Franco. De entre os colaboradores do jornal contaram-se Alice Moderno e a sua amiga, a professora Maria Evelina de Sousa, também republicana convicta.
Através dos números do jornal a que tivemos acesso, desde o primeiro até ao publicado a 16 de junho de 1924, concluímos que o contributo de Alice Moderno foi bastante modesto, tendo-se limitado à publicação de dois poemas, “4 de Julho”, no número 6, datado de 11 de julho de 1918 e “Resposta de Roosevelt”, no número 10, datado de 8 de agosto de 1918, que abaixo se transcreve:
Quando foram dizer ao grande ex-presidente
Que o seu filho mais novo, ainda adolescente,
Tenente-aviador do exército da América,
Recebera no front a morte heroica e épica
Que consagra os heróis, no solo o mais sagrado,
Lutando em prol do Ideal, agora espezinhado
Pelo militarismo, a contrapor afeito
O direito da força à força do Direito,
Roosevelt respondeu, com voz que não tremia:
“Minha mulher e eu sentimos alegria
Ao ver que o nosso filho, única e simplesmente,
Cumprindo o seu dever, honrou a pátria ausente!”

Sem comentário algum, dobremos o joelho,
E ó pais de Portugal, vede-vos neste espelho!

Para além do mencionado, Alice Moderno foi autora de uma carta aos diretores do jornal, publicada a 3 de dezembro de 1923 onde considerou deplorável o uso de “carroças puxadas por animais das espécies lanígera e caprina”, o qual contrariava uma postura municipal que nos primeiros tempos foi cumprida para depois cair no esquecimento da própria polícia de Ponta Delgada.
A colaboração de Maria Evelina de Sousa para o jornal “A Pátria” foi maior, tendo para além do poema Aspiração, publicado a 10 de março de 1924, sido autora de vários textos, a maioria dos quais relacionados com a educação/ensino.
Num dos textos, publicado a 19 de novembro de 1923, Maria Evelina de Sousa saúda a decisão das juntas republicanas das paróquias de Lisboa de criar cantinas escolares, fazendo votos para que “o exemplo frutifique e em breve o possamos ver também na cidade de Ponta Delgada”. Como argumento a favor, a autora aponta o facto de o fornecimento de uma refeição diária nas escolas levar a que as famílias matriculem os seus filhos “de melhor vontade”, resultando “uma dupla alimentação: física e intelectual”.
Outro texto interessante é o que foi publicado no número que veio a público a 26 de novembro de 1923, onde Maria Evelina de Sousa sugere a alteração da lei eleitoral para que o voto seja efetivamente livre, propondo que só pudesse “votar quem, sabendo ler e escrever, possua a mais completa liberdade de ação”.
Para acabar com a “força política dos detentores da propriedade, dos donos das terras”, Maria Evelina de Sousa propõe que sejam eliminados dos cadernos eleitorais todos os rendeiros “porque em geral da renda faz parte o voto de que o senhorio dispõe a seu talante, por vezes servindo-se dele para ver se entrava a marcha evolutiva dos princípios liberais”.
Hoje, a situação está profundamente alterada, mas se se eliminassem dos cadernos eleitorais todos os que, mesmo tendo frequentado a escola, não sabem ler ou não são capazes de compreender um texto de três linhas e todos os frequentadores das adulteradas sessões de esclarecimento, cujo principal atrativo é o porco no espeto, talvez as eleições fossem um pouco mais livres.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30612, 22 de abril de 2015, p.14)
Foto: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=1016228