Touradas: as primeiras investidas, em São Miguel, no século XX
Em 1924, o jornal Correio dos Açores noticiou “para muito breve, algumas corridas de touros” em Ponta Delgada, esperando-se a chegada do toureiro Angelo Herren que vinha escolher o local onde iriam ser “lidados bravos touros do importante lavrador Corvelo, da Terceira”.
De acordo com o Correio dos Açores, viviam na Terceira dois irmãos Corvelo, o Manuel e o Cândido, que eram os maiores criadores de gado manso e bravo dos Açores.
Ainda de acordo com a notícia que vimos citando, apesar da sua riqueza, “nunca se calçaram e descalços tomavam parte em sessões da Junta Geral, no exercício do mandato de Procuradores, sendo sempre a sua voz escutada com respeito”.
Por último, através do mesmo texto ficamos a saber que, para além de grandes lavradores e proprietários, eram também “dois grandes corações e dois perfeitos homens de bem” que gostavam de bem receber quem os visitava. Tal aconteceu aquando de uma ida à Terceira de um grupo de micaelenses, em 1919, que foram muito bem acolhidos “durante uma ferra de gado organizada em sua honra, a que compareceram alguns milhares de pessoas”.
Em janeiro de 1942, o Correio dos Açores noticiou a vinda de um ganadeiro da ilha Terceira com o objetivo de estudar a possibilidade de introduzir em São Miguel touradas de praça e à corda.
Na mesma notícia, o redator referiu que era “de esperar que sejam satisfatórios os planos de estudo a realizar, devendo já para a próxima época ser corridos em Ponta Delgada touros em praça e à corda nas várias regiões desta ilha”.
Para além das investidas na ilha de São Miguel, alguns terceirenses sempre que acolhiam pessoas de outras paragens com segundas intenções ou não, tudo faziam para que os mesmos assistissem a atividades relacionadas com a tauromaquia. A título de exemplo, menciona-se que, em 1960, aquando da visita à Terceira de um grupo de estudantes micaelenses em que participaram o então aluno João Bosco da Mota Amaral e o vice-reitor Dr. José de Almeida Pavão Jr., logo no primeiro dia, a seguir ao almoço, foram levados para uma tenta que, para Cristóvão de Aguiar, outro dos participantes, é “uma espécie de tourada de praça com novilhos”
Desconhecemos se chegou a haver espetáculos tauromáquicos resultantes destas duas tentativas da indústria tauromáquica, mas a 25 de março de 1961, o Correio dos Açores, num texto intitulado “Touradas em São Miguel” informa que “há muitos anos para os lados da Vitória, houve uma “experiência” tauromáquica em São Miguel, que malogrou”.
Em 1961, de acordo com o referido jornal a indústria tauromáquica voltou a investir no mercado micaelense através da juventude liceal de Angra que se deslocou a Ponta Delgada trazendo consigo touradas de praça e de corda.
No referido ano, a tortura andou à solta, em Ponta Delgada, tendo ocorrido várias touradas que mancharam algumas festas religiosas a que não escapou as realizadas durante as festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
No ano mencionado, “o domingo de Páscoa, assinalado na vida lisboeta, como o da abertura oficial do Campo Pequeno, foi escolhido para ser entre nós o da “moderna” tentativa de uma tourada de praça, a qual terá lugar no recinto do Cine Solar, pelas 16 horas, em que farão a sua aparição dois espadas, três bandarilheiros e um grupo de sete forcados capitaneados por Carlos Alcáçova”.
A publicidade do evento foi entregue à SPAL e o diretor da tourada de praça foi o Dr. Rafael Valadão dos Santos, sendo o empresário Marcelo Pamplona que tinha a pretensão de, se o espetáculo vingasse, passar a exercer a sua atividade em duas ilhas.
No dia seguinte, também pelas 16 horas, realizou-se uma tourada à corda na Avenida Príncipe do Mónaco.
Logo que possível espero voltar ao assunto.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30661, 24 de junho de 2015, p.17)
quinta-feira, 25 de junho de 2015
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Vila Franca do Campo e o pedestrianismo
Vila Franca do Campo e o pedestrianismo
No passado sábado participei numa ação de formação sobre pedestrianismo e percursos pedestres, realizada na freguesia de Ponta Garça, que teve como promotores a AVIPAA- Associação Vilafranquense de Proteção dos Animais e do Ambiente e a Junta de Freguesia de Ponta Garça.
Infelizmente, não foi uma iniciativa que contou com muita adesão por parte dos habitantes da localidade, mas mesmo assim valeu a pena a sua realização e posso dizer que foi um sucesso dado o interesse pelo tema manifestado pelos participantes e o entusiasmo que manifestaram em melhor conhecer o nosso património natural e, no caso da Junta de Freguesia e dos seus colaboradores, em dotar a freguesia de mais percursos pedestres devidamente balizados e sinalizados para oferecer aos locais e aos turistas.
Aproveito a oportunidade para elogiar o que está a ser feito pela Junta de Freguesia de Ponta Garça no caminho de acesso à Praia da Amora (do Simas) e para dar os parabéns à Junta de Freguesia da Maia pelo notável trabalho feito no percurso que liga o porto daquela freguesia à Praia da Viola, onde a par da limpeza e recuperação do trilho não foi esquecida a plantação de espécies da flora açoriana.
De momento não sei se mais alguma Junta de Freguesia de Vila Franca do Campo está a trabalhar nesta área, mas se não o estiver é uma pena pois o nosso concelho é um dos que mais potencialidades têm na ilha de São Miguel.
Mas, como os meios das juntas de freguesia são limitados, só através de uma parceria com a Câmara Municipal de Vila Franca do Campo é possível ir mais longe e colocar a nossa vila em lugar de destaque no contexto regional. Neste caso não se pode alegar falta de meios, pois em termos de custos o investimento é ridículo quando comparado com outros e por via dos vários programas regionais a mão-de-obra é abundante.
Com a chegada de muitos mais visitantes através da redução dos custos dos transportes, Vila Franca do Campo não pode deixar de aproveitar a oportunidade para atraí-los para o concelho e, para além do que já existe, há que apostar num espaço que está completamente desaproveitado, para não dizer ao abandono, que é a Lagoa do Congro, que poderia ser transformado em Jardim Botânico e integrado numa rede de Jardins de São Miguel e na recuperação de alguns trilhos pedestres, integrando-os na rede de trilhos pedestres recomendados da Região Autónoma dos Açores.
A minha participação em Ponta Garça na mencionada formação fez-me recordar que há dez anos, numa sessão realizada na Povoação, no âmbito do projeto comunitário TURMAC, apresentei uma comunicação intitulada “A prática do pedestrianismo na Região Autónoma dos Açores” onde fiz um balanço aos primeiros anos da atividade nos Açores, que oficialmente terá dado os primeiros passos com a publicação a 14 de Abril de 2004, do Decreto Legislativo Regional nº 16/2004/A que criou o regime jurídico dos percursos pedestres classificados da RAA.
Na mesma comunicação, também, fiz o ponto de situação relativamente ao número de trilhos recomendados que era o seguinte: Nos Açores existiam 36 percursos recomendados, 12 dos quais na ilha de São Miguel, seguindo-se as ilhas Terceira, São Jorge, Pico e Flores com 4, Santa Maria e Faial com 3 e, por último Graciosa com 2.
Hoje, a situação alterou-se, na maioria das ilhas aumentou o número de percursos recomendados, tendo em São Miguel o seu número quase duplicado. No que diz respeito a Vila Franca do Campo, apenas se mantém o trilho “Praia Lagoa do Fogo”, já que o “Monte Escuro- Vila Franca do Campo” encontra-se fechado (informação recolhida a 14 de junho na página http://trilhos.visitazores.com/pt-pt/trilhos-dos-acores/sao-miguel/monte-escuro-vila-franca-do-campo) e o “Ponta Garça- Ribeira Quente” foi eliminado da lista.
No caso deste último trilho não se percebe a sua eliminação, pois o mesmo não necessita de passar pela Praia da Ribeira da Amora ou dos Moinhos, bastando para isso, pelo menos enquanto não estiver transitável o percurso junto à costa, voltar a ser feito a partir da Gaiteira, mais propriamente da zona dos Tufos, o que corresponde ao primitivo percurso pedestre sinalizado pela Direção Regional de Turismo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30655, 17 de junho de 2015, p.19)
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quarta-feira, 10 de junho de 2015
A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno
A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno
Na Primeira República a divulgação das ideias socialistas, na ilha de São Miguel, foi feita por três jornais ligados ao Partido Socialista Português: “O Proletário”, órgão da Federação Operária e do Operariado em geral, “O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental” e “O Protesto do Povo”, bimensário socialista que teve como redator principal, editor e proprietário Manuel Augusto César, cujo nome também está associado aos outros dois jornais mencionados, como administrador e diretor, respetivamente.
O Proletário, que começou a ser composto e impresso na tipografia de Ruy Moraes, a partir do número 13 passou a ser feito na Tipografia Alice Moderno, localizada na rua da Fonte Velha, 34 e 36, no seu número 23, relativo ao dia 11 de Outubro de 1913, anuncia a abertura, em Ponta Delgada, de “um curso nocturno, regido pela srª D. Alice Moderno, nossa ilustre colega d’A Folha”. Na mesma nota, o jornal chama a atenção dos operários micaelenses para a vantagem do referido curso ocorrer em horário noturno que é o mais adequado para quem trabalha todo o dia já que só à noite aqueles poderão dedicar-se a aprender as primeiras letras.
No seu número 27, de 7 de dezembro de 1913, O Proletário agradece a Alice Moderno a oferta do seu livro “Na Véspera da Incursão”, peça em um ato, dedicada pela autora ao “Senhor Doutor António Joaquim de Sousa Júnior, Sumidade cientifica consagrada nos centros mundiais, açoriano dos que mais alto levantam, no continente da República, o nome do Arquipélago, 1º Ministro da Instrução Pública”. Sobre aquela obra de Alice Moderno o autor do texto, de forma delicada, escusa-se a opinar, limitando-se a escrever o seguinte: “A nossa falta de competência inibe-nos de falar no seu conteúdo, restando-nos apenas dizer o seguinte:- lemos e gostamos.”
A 31 de Agosto de 1918, assinado por FARPA, o Protesto publica um texto onde é exposta a situação dos cães em Ponta Delgada. Segundo o autor do mesmo, “os quadros lastimosos de verdadeira selvageria e crime moral por parte de quem compete olhar pelos animais…irracionais, compreenda-se, são os de inúmeros cães, verdadeiras matilhas sem coleira e sem dono, passearem pelas ruas mais centrais e frequentadas da nossa cidade, caindo aqui e ali com os ataques próprios da tal doença «Esgana» ou então, tossindo n’uma tosse arrepiadora e cavernosa que lhes desconjunta todo o corpo esquelético, sujo e repelente”.
No mesmo texto, o autor junta-se a todas as vozes que em vários locais do país e também em São Miguel têm levantado a sua voz e mostrado a sua indignação face ao bárbaro tratamento dado aos animais de tiro. Segundo ele, também, é “lastimoso e impróprio de nós, gente civilizada, e vem a ser o de fazerem puxar carroças, carros, carrinhos e os carrões que fazem o transporte diário entre algumas vilas e aldeias desta ilha, animais chagados e mal alimentados, com o agravo de lhes porem em cima nos arreios que não são arreios nem são coisa que com arreios se pareçam, antes são instrumentos inquisitoriais, bárbaros e primitivos, que martirizam, inutilizam e chagam todo o corpo d’esses pobres animais que têm a infelicidade de cair na mãos d’uns brutos mais bestas do que as próprias bestas que os acarretam”.
Por último o autor apela, não só ao “coração de mulher” de Alice Moderno mas também pela posição de destaque na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, para que intervenha e “que as autoridades sanitárias, administrativas e policiais, fiquem no descanso eterno de não vale a pena ralar! Para vergonha d’elas e vergonha nossa”.
A 30 de setembro de 1918, O Protesto, através de um curto texto intitulado “Os Aguilhões”, depois de recordar que numa carta publicada no Diário dos Açores alguém pediu que fossem tomadas medidas contra o uso de aguilhões que, apesar de proibidos, eram usados “quotidianamente na inglória, brutal e selvática tarefa de espicaçar os pobres animais, que a maior parte das vezes, estão mortos de cansaço e de fome e que por tal motivo não podem trabalhar, nem exceder as suas forças”, mostra a sua repulsa escrevendo: “Quando presenciamos estes casos diários, dá-nos a gana de desatrelar os animais, e pespegar com o condutor nos varais, arreia-lo e espicaça-lo também, por nossa vez, até que ele gritasse e provasse o atroz sofrimento que dá aos animais. Talvez, então servisse de emenda a todos os tratantes, seus émulos e imitadores”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30650, 10 de junho de 2015, p.2015)
quinta-feira, 4 de junho de 2015
A culpa é das cabras?
A culpa é das cabras?
Quem pretende fazer plantações para os mais diversos fins, nomeadamente de pomares, enfrenta hoje em dia, tal como no passado, muitas dificuldades relacionadas sobretudo com os amigos do alheio que habituados a nada fazer, especializaram-se em colher o que não cultivam e a furtar o que não é seu para vender a gente sem escrúpulos.
A situação, em 1928, era muito semelhante à atual, de tal modo que uma reclamação publicada no Correio dos Açores, no dia 4 de janeiro, podia ter sido escrita hoje, como se poderá comprovar através dos extratos que a seguir divulgamos:
“Com uma inaudita audácia, os cabreiros a tudo chamam seu, destruindo os tapumes, fazendo comer as ervas e as arvorezinhas, ameaçando aqueles que pretendem velar pelo que lhes pertence, exercendo represálias sobre quanto respeite àqueles que promoveram o justo castigo…
Os castigos aplicados, mercê da brandura das nossas leis e, mais ainda, dos nossos costumes, são pequeníssimos e, por esse motivo, absolutamente ineficazes. É indispensável criar em toda a parte posturas draconianas e aplica-las com todo o rigor, para o bem geral.
Melhor ainda seria a proibição da existência de cabras, ao menos em certas regiões, só sendo permitida noutras a indivíduos que se mostrassem proprietários ou rendeiros de terrenos suficientes para a alimentação dos seus gados. Não o sendo, os cabreiros vivem sistematicamente de roubos feitos aos que trabalham, prejudicando não só pelo que consomem as cabras mas, talvez ainda mais, pelo que elas estragam”.
Mas o problema vinha de trás, de tal modo que António Tavares Torres (1856-1936), ilustre intelectual autodidata nascido em Rabo de Peixe que foi presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, numa sessão ordinária daquela autarquia, realizada a 30 de outubro de 1902 propôs uma “postura municipal” destinada a evitar que o número de cabreiros no concelho aumentasse.
De acordo com a referida postura só era permitida a criação de gado caprino e lanígero se o criador provasse ser domo ou rendeiro de uma área mínima por cada animal, sendo o mesmo obrigado a prestar uma fiança para garantir o eventual pagamento de alguma multa e dos prejuízos que o rebanho causasse. Além disso, dentro das localidades só era permitido um máximo de dois indivíduos de cada uma das referidas “espécies”.
Mas, como é habitual nesta região de brandos costumes e de muita tolerância para os gatunos e afins, a postura de pouco mais serviu do que preencher espaço em papel, de tal como que o seu autor, no Correio dos Açores de 10 de fevereiro de 1928, escreveu que era “realmente extraordinária a audácia com que os cabreiros praticam tantas malfeitorias, sem temor das leis nem respeito pelas propriedades alheias” e acrescentou que “parece que os cabreiros, vivendo a vida errante dos gados, se tornam tão selvagens como os próprios animais com que convivem, tornando-se bravios, grosseiros, intratáveis e sem mais noções sociais do que as que o instinto lhes sugere”.
Não podemos dizer que todos os cabreiros são desonestos e ladrões pois acreditamos que tal como noutras profissões haverá trigo e joio, mas se percorrêssemos hoje as nossas freguesias e se interrogássemos as pessoas acerca do comportamento dos cabreiros residentes as respostas não iriam ser muito divergentes, havendo quase unanimidade nos problemas que os mesmos causam às pessoas de bem: é a erva que os animais comem, são as pequenas plantas cujas cascas são roídas e que acabam por morrer, são os atos de vandalismo provocados pelos cabreiros nas divisórias e portões das propriedades, são os animais, as baterias, as rações e as silagens que são roubadas ou vandalizadas, são os cães que estão a proteger as propriedades que são barbaramente mortos, etc., etc…
Para além do mencionado, há um risco para a saúde pública pelo facto de, sobretudo nos períodos de festas, os animais serem abatidos sem qualquer vistoria por parte de um veterinário e por continuar o comércio clandestino de queijo de cabra produzido a partir de animais que não são alvo de qualquer controlo sanitário.
Até quando continuará a impunidade?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30644, 3 de junho de 2015,p.14)
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Notas sobre o terceirense Dr. António Sousa Júnior
Notas sobre o terceirense Dr. António Sousa Júnior
António Joaquim de Sousa Júnior era natural da Praia da Vitória, Ilha Terceira, tendo nascido a 16 de Dezembro de 1871. Aposentou-se, por motivos de saúde, em 1928 e faleceu 10 anos mais tarde, a 7 de Junho de 1938.
Fez os seus estudou no Seminário e Liceu de Angra e, no Porto, frequentou a Academia Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica, tendo obtido o grau de bacharel, em 1898, e o de doutor em Medicina em 1900.
Em 1913, o Dr. António Sousa Júnior foi nomeado Ministro da Instrução, sendo então, segundo o jornal “A Folha”, o nono terceirense a ascender ao cargo de ministro.
De acordo com o texto referido, publicado no mencionado jornal, no dia 20 de julho de 1913, “o Dr. Sousa Júnior pertence ao número dos raros que devem ao esforço próprio a proeminência da sua situação”. O seu mérito era tal que, apesar de ser republicano, a monarquia o investiu “na direção do hospital de Bonfim e numa cátedra da escola médico-cirúrgica do Porto”.
O texto do jornal que vimos citando, quase de certeza escrito por Alice Moderno, termina do seguinte modo: “Regozijando-nos com o país pela acertada escolha do primeiro ministro da instrução em Portugal, enviamos ao Dr. Sousa Júnior os nossos cumprimentos muito cordiais”.
Na sua qualidade de ministro foi um dos principais responsáveis pela criação da primeira "Escola da Arte de Representar" em Portugal.
Em 1923, o Dr. António Joaquim de Sousa Júnior, lente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, era presidente da Câmara Municipal do Porto e da Junta Autónoma do porto de Leixões, quando foi assinado o contrato para a construção daquele porto, adequando-o às necessidades e aspirações de todos os portuenses.
A nível universitário desempenhou os cargos de vice reitor da Universidade do Porto e Reitor da Universidade de Coimbra, tendo escrito muitos artigos científicos na "Gazeta Médica do Porto", no "Porto Médico" e na "Gazeta dos Hospitais".
O Dr. Sousa Júnior notabilizou-se tanto no estudo como no combate ao agente transmissor da peste pneumónica, tendo quando a mesma se manifestou na ilha Terceira, em 1908, voltado à sua terra natal onde dirigiu os necessários trabalhos de saneamento. Na altura esteve de visita à ilha de São Miguel, onde realizou algumas conferências sobre o assunto e conheceu Alice Moderno que mais tarde o visitou no Porto.
Defensor da participação de Portugal na Iª Guerra Mundial não se ficou pelas palavras. Segundo Alice Moderno, “nele a ação acompanha sempre a ideia. Assim, não só se alistou como voluntário, mas autorizou o seu filho primogénito a alistar-se também, sendo este o mais novo de todos os voluntários portugueses”.
No final da sua vida isolou-se na sua terra natal, mas de acordo com o capitão António Correia que com ele conversou algumas vezes “Não maldizia os homens de que se afastara enojado; e a República, que bem servira, continuava a ter no seu coração amor e saudade…”
Os inimigos políticos do Dr. Sousa Júnior não o perdoaram e em vez de reconhecerem a sua dedicação e profissionalismo, como canalhas que eram, chamavam-lhe de “doutor Sousa das Ratas”. Este facto prova que a ingratidão não é de hoje, antes pelo contrário parece que é endémica de uma região que teima em não evoluir, pelo menos moralmente.
Pelo contrário, várias pessoas de carácter, como o Dr. Luís Ribeiro souberam reconhecer a sua dedicação à causa pública e não tiveram qualquer coibição em fazer rasgados elogios ao homem e à sua obra. A título de exemplo cita-se aqui a parte final de um texto seu publicado no Correio dos Açores em Junho de 1938:
“…mas nunca deixou de ser para toda essa gente [do Porto Martins] o médico gratuito, caritativo e esmoler, que lhe dava o melhor da sua ciência e, muitas vezes, o remédio e o pão.
Com o Dr. Sousa Júnior desaparece uma grande figura da medicina nacional, um homem de rara inteligência e fecunda atividade, mas desaparece também um belo e magnânimo coração”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30640, 28 de maio de 2015, p.16)
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Com o nome de Alice Moderno
Com o nome de Alice Moderno
No passado dia 6 de Maio, o diretor Regional da Agricultura, Fernando Sousa apresentou, na Escola Básica Integrada dos Arrifes, o projeto “Alice Moderno” que tem por objetivo a luta “contra o abandono e maus tratos a animais”.
De acordo com as notícias publicadas o projeto limita-se à “colocação de 'outdoors' nas ruas, distribuição de cartazes e folhetos informativos nas escolas e postos da RIAC”. Não percebi se no âmbito do mesmo será instalado no chamado Hospital Alice Moderno o tão reclamado, pelos ecologistas, Centro de Recuperação de Aves Selvagens do Grupo Oriental.
Em primeiro lugar queria felicitar todos os que, a nível oficial, contribuíram para que este primeiro passo tenha sido dado, mas não queria que passasse despercebido que para se chegar aqui houve o empenho de muitos cidadãos, através de petições à ALRA, artigos de opinião e de muito trabalho, no dia-a-dia, em defesa de uma sociedade melhor para todos, humanos e não humanos.
A notícia oficial da apresentação do projeto refere “a presença de cães da Associação Animais de Rua” que é uma entidade que me merece todo o respeito pelo notável trabalho que está a fazer na ilha de São Miguel em prol dos cães e sobretudo dos gatos maltratados e abandonados por seres que se dizem humanos. Contudo, estranhei a referência aos cães e nenhuma menção às pessoas que são quem implementa as atividades, bem como a não alusão às demais associações de proteção das animais sedeadas na ilha de São Miguel e que, na medida das suas possibilidades, trabalham para a mesma causa. Será que foi apenas esquecimento do redator da notícia ou a APA- Associação de Proteção dos Animais dos Açores, a Cantinho dos Animais dos Açores e a AVIPAA- Associação Vilafranquense de Proteção dos Animais e do Ambiente foram esquecidas?
Um projeto como o que vimos referindo não terá o sucesso que é exigido se se ficar pelos cartazes e “outdoors” e pelos gabinetes do RIAC e ignorar os principais agentes da defesa animal que são os cidadãos sensíveis e as diversas associações existentes, bem como os educadores e professores que trabalham nas escolas açorianas.
A propósito do parágrafo anterior, já que se está a invocar o nome de Alice Moderno, é importante não esquecer que, logo que assumiu a presidência da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, em 1914, uma das primeiras medidas por ela tomada foi o envio de uma comunicação aos professores “pedindo-lhes para que, mensalmente, façam uma prelecção aos seus alunos, incutindo no espírito dos mesmos a bondade para com os animais, que não é mais do que um coeficiente da bondade universal”.
Outra iniciativa no âmbito do referido projeto é a criação, em parceria com a Delegação dos Açores da Ordem dos Médicos Veterinários, do “Voucher Alice Moderno” que não sabemos se será a adaptação de uma iniciativa que já existe a nível nacional ou se se trata de algo novo. Sobre este, pouco temos a dizer, mas tudo o que vier por bem é bem-vindo.
Por último, é preciso não esquecer que, em 2012, os subscritores da petição “ Por uma nova política para com os animais de companhia” reivindicavam mais, muito mais, do que foi agora anunciado.
Para que não caia no esquecimento aqui vai o pretendido:
“Solicitamos que a Região Autónoma dos Açores tome as devidas medidas legislativas no sentido da promoção, por um lado, da esterilização dos animais errantes, como método eficaz do controlo das populações, e, por outro lado, do incentivo à adoção responsável.
Solicitamos ainda que, seja respeitada a memória de Alice Moderno, pioneira da proteção dos animais nos Açores, transformando o atual Hospital Veterinário Alice Moderno, em São Miguel, em hospital público, onde os animais temporariamente a cargo de associações de proteção ou de detentores com dificuldade ou incapacidade económica possam ter acesso a tratamentos a preços simbólicos. Nas restantes ilhas, a função do Hospital Alice Moderno poderia ficar a cargo de um Centro de Recolha Oficial.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30634, 20 de maio de 2015, p.14)
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Espírito Santo: evolução ou retrocesso?
Espírito Santo: evolução ou retrocesso?
Ao contrário do que pretendem alguns, as tradições nem sempre são estáticas, evoluindo algumas, felizmente, até desaparecerem por completo, enquanto outras são criadas, normalmente impingidas por fanáticos ou por interesses económicos.
Infelizmente, uma tradição que desapareceu por completo foi a da batalha das flores que se realizava em Ponta Delgada pelo Carnaval, sendo substituída por outra, a das limas e agora, sobretudo, a dos sacos de plástico, muita controversa mesmo entre os micaelenses.
Uma tradição, a das touradas, que estava restrita a uma ilha, foi imposta, por interesses económicos e mais recentemente político-partidários a outras, conspurcando o programa de algumas festas religiosas, com a conivência de uma parte da hierarquia igreja católica e o silêncio cúmplice dos principais responsáveis da Igreja na região.
Depois desta introdução, vamo-nos cingir às festividades em honra do Divino Espírito Santo que, têm sofrido alterações ao longo dos tempos, nem sempre rumo a uma direção que, respeitando as crenças de cada um, também respeite os valores da tolerância e da solidariedade para com os mais desfavorecidos.
Se até há alguns anos as festas eram promovidas por cidadãos a título individual ou por grupos informais, hoje caminha-se a passos largos para a institucionalização das mesmas, através da constituição de associações devidamente legalizadas para não se furtarem aos impostos que alimentam um estado que nem sempre sabe fazer bom uso dos mesmos.
Uma atividade que, para além da componente recreativa, tinha por principal missão a solidariedade social, agora, é também alvo dos cobradores de impostos e afins, vendo uma parte das receitas desviada para pagar taxas e impostos, como é o IMI - Imposto Municipal sobre Imóveis, por vezes de valores exorbitantes, como acontece em Vila Franca do Campo.
Mas, como há sempre caminhos para contornar as imposições legais, com a devida autorização da Igreja, algumas das Irmandades constituíram-se como associações de direito canónico, podendo assim beneficiar de algumas regalias em termos fiscais.
Mas, como tivemos a oportunidade de ouvir por parte de uma pessoa ligada à hierarquia da Igreja Católica, há algum oportunismo por parte de algumas pessoas ligadas a Irmandades já que, por um lado, as organizações são beneficiadas pela sua ligação à igreja, por outro fazem o que lhes dá na real gana, sem qualquer respeito pela componente religiosa das festas.
A este propósito, recordo que se hoje são as irmandades a aproximar-se da Igreja, antes era a Igreja a fazer imposições às irmandades. A título de exemplo, na ilha Terceira, em Junho de 1961, as filarmónicas União Católica e Recreio dos Lavradores, da Ribeirinha, Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral e Recreio dos Artistas, da cidade de Angra do Heroísmo, Recreio de Belém, da Terra Chã, e Filarmónica dos Altares foram excomungadas pela Câmara Eclesiástica por terem participado em coroações “ a que o Prelado negou carácter religioso por não serem realizadas de acordo com um regulamento cujos termos têm apaixonado a opinião pública”.
Se antes eram as comunidades que contribuíam para as festas, agora já há subsídios para algumas das irmandades e há quem defenda que deverá ser instituído um apoio fixo anual para todas elas, independentemente dos saldos existentes, que por vezes são avultados.
Antes não se faziam festas sem as filarmónicas, hoje estas, praticamente, foram arredadas dos arraiais, sendo a cultura popular substituída por grupos musicais, por vezes exógenos aos Açores e de qualidade nem sempre abonatória para os organizadores, que cantam ou gritam letras cujo conteúdo por certo, fará corar o Espírito Santo e as restantes pessoas da Santíssima Trindade.
Se se analisar os orçamentos de algumas irmandades, por vezes movimentando valores superiores a 50 mil euros, verifica-se que a solidariedade é responsável por uma parte ínfima das despesas. A título de exemplo, numa delas apenas 3,5 % das despesas destinaram-se a refeições destinadas à população, 7,3 % para bandas musicais e som - a banda de música apenas foi responsável por 1,8 % das despesas- e 6, 4 % foi destinado ao fogo-de-artifício. No que diz respeito às receitas, a venda de gado é responsável por cerca de 40 % das mesmas, enquanto os donativos contribuem com aproximadamente 30 %.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, nem sempre para melhor!
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30629, 14 de maio de 2015, p.9)
Ao contrário do que pretendem alguns, as tradições nem sempre são estáticas, evoluindo algumas, felizmente, até desaparecerem por completo, enquanto outras são criadas, normalmente impingidas por fanáticos ou por interesses económicos.
Infelizmente, uma tradição que desapareceu por completo foi a da batalha das flores que se realizava em Ponta Delgada pelo Carnaval, sendo substituída por outra, a das limas e agora, sobretudo, a dos sacos de plástico, muita controversa mesmo entre os micaelenses.
Uma tradição, a das touradas, que estava restrita a uma ilha, foi imposta, por interesses económicos e mais recentemente político-partidários a outras, conspurcando o programa de algumas festas religiosas, com a conivência de uma parte da hierarquia igreja católica e o silêncio cúmplice dos principais responsáveis da Igreja na região.
Depois desta introdução, vamo-nos cingir às festividades em honra do Divino Espírito Santo que, têm sofrido alterações ao longo dos tempos, nem sempre rumo a uma direção que, respeitando as crenças de cada um, também respeite os valores da tolerância e da solidariedade para com os mais desfavorecidos.
Se até há alguns anos as festas eram promovidas por cidadãos a título individual ou por grupos informais, hoje caminha-se a passos largos para a institucionalização das mesmas, através da constituição de associações devidamente legalizadas para não se furtarem aos impostos que alimentam um estado que nem sempre sabe fazer bom uso dos mesmos.
Uma atividade que, para além da componente recreativa, tinha por principal missão a solidariedade social, agora, é também alvo dos cobradores de impostos e afins, vendo uma parte das receitas desviada para pagar taxas e impostos, como é o IMI - Imposto Municipal sobre Imóveis, por vezes de valores exorbitantes, como acontece em Vila Franca do Campo.
Mas, como há sempre caminhos para contornar as imposições legais, com a devida autorização da Igreja, algumas das Irmandades constituíram-se como associações de direito canónico, podendo assim beneficiar de algumas regalias em termos fiscais.
Mas, como tivemos a oportunidade de ouvir por parte de uma pessoa ligada à hierarquia da Igreja Católica, há algum oportunismo por parte de algumas pessoas ligadas a Irmandades já que, por um lado, as organizações são beneficiadas pela sua ligação à igreja, por outro fazem o que lhes dá na real gana, sem qualquer respeito pela componente religiosa das festas.
A este propósito, recordo que se hoje são as irmandades a aproximar-se da Igreja, antes era a Igreja a fazer imposições às irmandades. A título de exemplo, na ilha Terceira, em Junho de 1961, as filarmónicas União Católica e Recreio dos Lavradores, da Ribeirinha, Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral e Recreio dos Artistas, da cidade de Angra do Heroísmo, Recreio de Belém, da Terra Chã, e Filarmónica dos Altares foram excomungadas pela Câmara Eclesiástica por terem participado em coroações “ a que o Prelado negou carácter religioso por não serem realizadas de acordo com um regulamento cujos termos têm apaixonado a opinião pública”.
Se antes eram as comunidades que contribuíam para as festas, agora já há subsídios para algumas das irmandades e há quem defenda que deverá ser instituído um apoio fixo anual para todas elas, independentemente dos saldos existentes, que por vezes são avultados.
Antes não se faziam festas sem as filarmónicas, hoje estas, praticamente, foram arredadas dos arraiais, sendo a cultura popular substituída por grupos musicais, por vezes exógenos aos Açores e de qualidade nem sempre abonatória para os organizadores, que cantam ou gritam letras cujo conteúdo por certo, fará corar o Espírito Santo e as restantes pessoas da Santíssima Trindade.
Se se analisar os orçamentos de algumas irmandades, por vezes movimentando valores superiores a 50 mil euros, verifica-se que a solidariedade é responsável por uma parte ínfima das despesas. A título de exemplo, numa delas apenas 3,5 % das despesas destinaram-se a refeições destinadas à população, 7,3 % para bandas musicais e som - a banda de música apenas foi responsável por 1,8 % das despesas- e 6, 4 % foi destinado ao fogo-de-artifício. No que diz respeito às receitas, a venda de gado é responsável por cerca de 40 % das mesmas, enquanto os donativos contribuem com aproximadamente 30 %.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, nem sempre para melhor!
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30629, 14 de maio de 2015, p.9)
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