quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Autonomistas e separatistas
Autonomistas e separatistas ao longo dos tempos
Nas minhas pesquisas, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, relacionadas essencialmente com a temática da defesa dos animais, por vezes divago e tomo notas sobre outros assuntos de que destaco tudo o que se relaciona com Vila Franca do Campo, com Antero de Quental e com outras personalidades que no passado elevaram bem alto o nome dos Açores.
Um dos temas que me tem chamado a atenção é o dos movimentos autonomistas e ou separatistas que têm surgido nos Açores ao longo dos tempos.
Nesta minha colaboração de hoje, farei referência a uma carta de Antero de Quental e a alguns textos publicados no Correio dos Açores, durante a primeira República e nos primeiros tempos da ditadura militar que se lhe seguiu.
Antero de Quental (1842-1891) numa carta enviada ao Dr. Francisco Machado Faria e Maia (1815-1890), publicada no Correio dos Açores, no dia 12 de setembro de 1926, por ocasião do trigésimo quinto aniversário da morte do poeta, refere que através dos jornais havia tomado conhecimento da realização em Ponta Delgada de “meetings separatistas” e a propósito acrescenta: “ Que se agitam as opiniões e que se quer arvorar a bandeira estrelada dos Estados Unidos! Será certo? Não posso crê-lo, por que conheço o ânimo brando e sofredor dos meus patrícios. Coisas do Supico, é o que se me afigura: uma agitação passada entre a botica do Campo de São Francisco e a botica dos arcos do Cais”.
“O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental”, em 1917, num texto intitulado “Os Açores para os Açorianos”, lamentou o abandono a que era votado o nosso arquipélago, escrevendo que “…o caso do submarino veio por em destaque a pouca atenção que os Açores merecem a este governo, como mereceram a todos os governos da extinta Monarquia e da atual República, desde que ultrapassem os seus deveres de darem dinheiro, mais dinheiro, muito dinheiro para a metrópole”.
Segundo o mesmo jornal, para os políticos que governam Portugal a sua única preocupação é manterem-se no poder, o resto para nada conta. Face a esta situação, a resposta dos açorianos tem de ser deixar de apoiar “unionistas”, “democráticos” ou “almeidistas” e criar um grande partido regional que “roubará os Açores à exploração da metrópole, que os libertará deste pesadelo constante que os deprime e definha, que os não deixa progredir”.
Na sequência de algumas informações prestadas pelo cidadão José Lourenço da Silva a dois jornais diários de Lisboa, A Capital e A Manhã, classificadas pelo presidente da Comissão Administrativa da Junta Geral de Angra do Heroísmo, como fazendo parte de “uma infame e malvada campanha contra o brio, dignidade e patriotismo dos açorianos”, a referida comissão condenou as “falsas, falsíssimas informações dadas pelo mencionado José da Silva e entendeu, por bem, prestar alguns esclarecimentos ao senhor Ministro do Interior a todo o Governo da República.
No texto da responsabilidade da referida Comissão, publicado no jornal Diário dos Açores, de 6 de maio de 1919, entre outros pontos, é dado destaque ao seguinte:
“Não se tem distribuído jornal algum neste distrito, que haja apresentado ou seja capaz de apresentar ou advogar a ideia separatista dos Açores! O que os açorianos pretendem, apenas, é uma autonomia mais ampla, dentro da sua querida Nacionalidade, para que possam ser devidamente aproveitados os valiosíssimos recursos de que dispomos”.
No final de 1927 correu por Lisboa o boato de que os Açores haviam declarado a Independência, tendo sido criada, na ilha Terceira, uma Junta Governativa. Sobre este caso o Delegado Especial do Governo nos Açores escreveu o seguinte: “Afirmo a V. Exª e a todo o Governo que a ordem é absoluta em todo o arquipélago, mantendo-se a atitude simpática e apoio da população açoriana à ação do Governo da Ditadura”.
Sobre as “blagues” que uma vez por outra surgiam no continente acerca da independência dos Açores o Dr. José Bruno Tavares Carreiro (1880-1957) numa conferência proferida na Sociedade de Geografia escreveu o seguinte: “Os Açores querem que os não tratem como um menor, eternamente menor, exercendo sobre eles uma tutela, que, além de ser violenta, é estúpida. As suas especialíssimas condições geográficas dão-lhes direito a reclamar uma ação administrativa larga, não indo até à independência, mas que seja uma bem entendida autonomia”.
Hoje, apesar da autonomia, somos uma região, de mentes dependentes e submissas, comandada por colonizadores, alguns deles nados e criados nestas ilhas.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30697, 5 de agosto de 2015, p.14)
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Notas Zoófilas 1
Uma explicação prévia
Na passada semana, terminei uma série de cem textos sobre plantas com referências ao seu uso atual e no passado, nomeadamente na medicina popular dos Açores.
Hoje, começo uma nova série, no Correio dos Açores, dedicada à promoção do bem-estar animal e à defesa dos direitos dos animais, não esquecendo todos os que a título individual ou integrados em associações formais ou informais dedicam parte do seu tempo livre e alguns recursos a defender todos os seres vivos que connosco partilham a vida na Terra.
Não seria difícil escolher um título original para esta coluna semanal, mas optei, como forma de homenagear aquela que terá sido a pessoa que, nos Açores, mais se dedicou à causa animalista, Alice Moderno, retomar o que ela usou neste mesmo jornal, entre 23 de junho de 1935 e 18 de novembro de 1943.
O trabalho de Alice Moderno e dos principais colaboradores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, instituição criada em 1911, como Maria Evelina de Sousa e o Marquês de Jácome Correia insere-se no movimento que, segundo alguns autores surgiu na transição do século XIX para o século XX e que segundo Alexandra Amaro e Margarida Louro Felgueiras “desafiou a visão hegemónica antropocêntrica, obteve a criação das primeiras áreas protegidas e organizou-se em associações de cidadãos, inquietos com o sofrimento animal, orientadas para a proteção, prestação de assistência e defesa dos animais não humanos, procurando melhorar as condições em que eram mantidos, pela implementação de várias medidas: aprovar leis de proteção animal, desenvolver projetos para educar a população em geral e sensibilizar as crianças, ajudar a suprimir os maus tratos e promover a adoção de boas práticas na relação quotidiana com os referidos seres vivos.”
Para terminar esta pequena nota introdutória, transcrevo o conceito de maus tratos para Sociedade Protetora dos Animais do Porto, segundo os seus estatutos de 1911:
“a privação de limpeza, alimentos, ar, luz e movimento em relação às leis naturais e sociais da saúde pecuária; o trabalho excessivo sem descanso ou transporte de cargas excessivas; o obrigar a levantar os animais que caíam com chicotadas; a exposição ao calor ou ao frio excessivo; a aplicação de instrumentos que causassem feridas; a utilização no trabalho de animais feridos ou famintos; o transporte de animais para alimentação em condições geradoras de sofrimento; a manutenção de animais fechados sem que possam respirar ou movimentar-se, sem comida ou água; o depenar e esfolar animais vivos ou o seu abate através de métodos que provoquem sofrimento; a engorda mecânica de aves; o atiçar de animais uns contra os outros ou contra pessoas; a exibição de animais magros em sítios públicos; o abandono na via pública de animais domésticos feridos ou cansados; a destruição de ninhos; o cegar de aves canoras; o atar aos animais objetos que os enfureçam ou causem sofrimento; o queimar com água ou materiais inflamáveis; o lançamento em casas de espetáculos de pombas ou outras aves; a prática de diversões que causem ferimentos ou morte e ainda, a implementação de qualquer ação violenta que conduza a sofrimento por diversão ou maldade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30696, 4 de agosto de 2015, p.12)
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Apontamentos sobre a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais (1)
Apontamentos sobre a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais (1)
De acordo com o jornal “A Folha”, a 26 de Novembro de 1908, a convite da redação do mesmo, realizou-se uma reunião com a participação de representantes do Diário dos Açores e da Revista Pedagógica. Na reunião, os presentes decidiram elaborar os estatutos de uma Sociedade Protetora de Animais e após a aprovação destes fazer o convite a todos os interessados para adesão à associação. Na mesma reunião, Alice Moderno sugeriu que fosse cunhada “uma medalha que servisse de distintivo aos sócios, tendo verso e anverso, e apresentando num a cabeça de um cão da Terra Nova, e no outro a de um boi, com as seguintes legendas, num dos lados: Sociedade Protetora dos Animais Micaelense, 1908, e no outro: Pelos nossos irmãos inferiores…”
Um texto, da autoria de João Anglin, publicado no Jornal Vida Nova, em 15 de agosto de 1910, que foi transcrito por Alice Moderno no seu jornal A Folha, fez despertar as consciências para retomar os trabalhos de construção do que viria a ser a SMPA-Sociedade Micaelense Protectora dos Animais.
Maria Evelina de Sousa, na Revista Pedagógica, de 6 de outubro de 1910, dá a conhecer o facto de membros da imprensa local estarem a preparar a fundação de uma sociedade protetora dos animais por ser “uma inadiável necessidade humanitária e social”. No mesmo texto, acrescenta: “Pela nossa parte já alguns trabalhos encetamos, os quais tivemos de suspender, por falta de coadjuvação da parte dos restantes membros da comissão”.
A 27 de Abril de 1911, a Revista Pedagógica informa a criação para breve da SMPA, tendo já sido elaborados os estatutos, por Maria Evelina de Sousa, diretora daquela Revista, que tiveram como modelo os da Sociedade Protectora dos Animais de Lisboa. “O Sr. Henrique Xavier de Sousa, que é um calígrafo muito hábil” ficou incumbido “de os copiar em conformidade com a lei”.
Na primeira reunião, realizada a 23 de Maio de 1911, na sede dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada, assistiram um representante de cada uma das seguintes publicações: Diário dos Açores, O Correio Micaelense, Revista Pedagógica, A Persuasão e A Folha, bem como Amâncio Rocha, Fernando de Alcântara, Henrique Xavier de Sousa e Manuel Botelho de Sousa.
Legalizada a SMPA, a 13 de Setembro de 1911, foram seus fundadores: Caetano Moniz de Vasconcelos (governador civil), Alfredo da Câmara, Amâncio Rocha, Augusto da Silva Moreira, Fernando de Alcântara, Francisco Soares Silva (diretor do jornal anarquista Vida Nova), José Inácio de Sousa, Joviano Lopes, Manuel Botelho de Sousa, Manuel Resende Carreiro, Marquês de Jácome Correia, Miguel de Sousa Alvim, Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa. De entre estes, destacaram-se pelo seu empenho na criação da sociedade, Maria Evelina de Sousa que se responsabilizou por toda a parte burocrática e Augusto da Silva Moreira que adiantou a verba necessária para o arranque.
A 4 de Setembro de 1911, a Revista Pedagógica dá a conhecer, publicamente, a aprovação dos estatutos da SMPA, “por alvará do Exmo. Senhor Caetano Moniz de Vasconcelos, ilustre Governador Civil de Ponta Delgada”.
A 5 de outubro de 1911, a Revista Pedagógica publica o seguinte anúncio da SMPA a solicitar propostas para a impressão dos estatutos: “Os membros desta associação recebem propostas para a impressão de 500 exemplares dos seus estatutos. Deverão estes ser em 8º de papel almaço, tendo cada exemplar 20 páginas e capas em papel de cor. As propostas deverão ser enviadas até 31 de outubro em carta fechada à delegada da Comissão Fundadora. Maria Evelina de Sousa.
A 18 de Abril de 1912, a Revista Pedagógica publicava uma lista de pessoas que já haviam aderido à SMPA bem como pago as suas quotas. Foram elas: D. Adelaide Serpa Afonso, Alexandre de Sousa Alvim, D. Alice Moderno, Armando Raposo d’Oliveira, Caetano Moniz de Vasconcelos, Carlos Augusto Faria, Evaristo António Afonso, Francisco António Raposo de Medeiros, Francisco do Rego Silva Pontes, D. Honorina A. Pacheco Raposo, Jacinto Botelho Moniz, João Amaral, João Cândido Borges, João Inácio Pacheco Leal, João Martins Botelho, João Soares Figueiredo, José Augusto Correia e Silva, José Domingues, José Inácio de Sousa, Manuel Pacheco da Costa Cabral, Manuel Pereira Cabral, D. Maria da Conceição Vasconcelos Borges de Andrade, D. Maria Emília Borges de Medeiros, Maria Evelina de Sousa, D. Maria Isabel Botelho da Câmara, Dr.ª Maria Joana Pereira, D. Maria Margarida Pereira da Ponte Silva, D. Maria Romana da Horta Vieira, D. Palmira Noronha de Ornelas Bruges, Tibúrcio Carreiro da Câmara.
(continua)
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30691, 29 de junho de 2015)
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Alguns apontamentos a propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza
Alguns apontamentos a propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza
“Ainda pensamos em termos de conquista. Ainda não amadurecemos o suficiente para pensar em nós como uma ínfima parte de um vasto e incrível universo. Mas o homem é parte da natureza e a sua guerra contra a natureza é inevitavelmente uma guerra contra si próprio”(Rachel Carson)
O dia Nacional da Conservação da Natureza foi instituído, em 1998, através de uma Resolução do Conselho de Ministros, sendo primeiro-ministro António Manuel de Oliveira Guterres.
Com a instituição do dia, pretendeu-se, por um lado, sensibilizar a sociedade civil para as questões ambientais, através da criação de “um momento anual de especial reflexão sobre os problemas da conservação da natureza em Portugal e no mundo” e, por outro, “homenagear o movimento associativo de defesa do ambiente através de uma das suas mais prestigiadas instituições”, a LPN- Liga para a Proteção da Natureza que havia sido fundada a 28 de Julho de 1948, por iniciativa do Prof. Carlos Baeta Neves na sequência de um apelo do poeta Sebastião da Gama, surgido por ocasião da destruição de uma mata na Arrábida.
O meritório trabalho da LPN infelizmente não teve repercussões nos Açores pois, para além de alguns associados dispersos, nunca foi criado um núcleo daquela associação na região. Apenas se regista uma ténue ligação à LPN por parte do Centro de Jovens Naturalistas de Santa Maria criado e dinamizado pelo senhor Dalberto Pombo que infelizmente não teve ninguém que desse continuidade ao seu trabalho voluntário em prol do património natural dos Açores, como a sua memória impunha.
No que concerne à Conservação da Natureza, alguns passos foram dados, nos Açores, desde a criação das primeiras áreas protegidas, nos últimos meses do Estado Novo. Já sob o chamado regime autonómico, criou-se uma Rede Regional de Áreas Protegidas, criou-se uma Rede Regional de Ecotecas, deram-se alguns tímidos passos no combate às espécies invasoras, sobretudo nas Áreas Protegidas e elaboraram-se alguns documentos importantes como “Perspectivas para a sustentabilidade na Região Autónoma dos Açores”, prefaciado pelo Presidente do Governo Carlos Manuel do Vale César e com apresentação da Secretária Regional do Ambiente e do Mar, Ana Paula Pereira Marques.
Não podemos escrever que antes da tomada de posse do atual governo dos Açores estava tudo perfeito, nem que com o tempo se caminharia para lá, pois acreditamos que só são possíveis mudanças profundas se se optar por outro modelo de produção e de consumo. De qualquer modo, não pondo em causa os fundamentos da sociedade em que vivemos, sempre há a possibilidade da opção por um capitalismo mais ou menos “amigo do ambiente” e o que nos parece que está a acontecer é que se está a regredir de tal modo que já nem o discurso do desenvolvimento sustentável, que não põe em causa o modo de vida atual, é hoje uma bandeira dos atuais detentores do poder político. Com efeito, em vez das três vertentes, a ambiental, a económica e a social, parece que para eles só existe a económica e esta com os (maus) resultados que estão à vista de todos.
Com a junção da pasta do ambiente à da agricultura esta não terá sido beneficiada e o ambiente de certeza perdeu. Com efeito, passados treze anos continua uma miragem o reforço do “valor da componente ambiental na economia regional” defendido pelo presidente do governo regional dos Açores na I Reunião do Conselho Regional da Água, em 2003, e a conservação da natureza parece que deixou de ser prioridade, sendo dada primazia a atividades económicas que só subsistem porque são fortemente subsidiadas.
A conservação da natureza e da biodiversidade só serão possíveis se existir uma aposta séria na educação ambiental e esta ao longo dos anos tem sido relegada para um plano muito secundário.
Uma das principais causas da perda da biodiversidade é a expansão de espécies invasoras, nomeadamente nas Áreas Protegidas. É preocupante a situação atual que se carateriza pelo abandono das ações de erradicação que chegaram a ser implementadas, nomeadamente na Reserva da Lagoa do Fogo, na ilha de São Miguel.
Outro indicador que mostra algum retrocesso foi a aprovação de um Plano Estratégico de Combate às Pragas nos Açores, onde se confunde pragas com espécies endémicas.
Se a situação continuar a involuir como tem acontecido nos últimos anos, está-se a recuar para a época onde se entendia que a conservação da natureza era um empecilho ao progresso. Ou será que sempre se pensou assim e os discursos ambientalistas oficiais nunca passaram disso mesmo?
Teófilo Braga
(Atlântico Express 27 de julho de 2015., p.3)
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Dia Nacional da Conservação da Natureza
terça-feira, 21 de julho de 2015
DEVASSA
Devassa
No último passado sábado, dia 18 de julho, um grupo de pedestrianistas efetuou o percurso pedestre da Serra Devassa, numa iniciativa da AVIPAA- Associação Vila-franquense de Proteção dos Animais e do Ambiente que contra ventos e marés vai persistindo na luta por um melhor ambiente para Vila Franca do Campo e por uns Açores melhores para todos.
O dia não era o ideal para a prática do pedestrianismo, o desporto dos que andam a pé, pois aliado a muito nevoeiro soprava algum vento que terá levado a que o grupo não fosse mais numeroso e a que outras iniciativas programadas para o mesmo local não se tivessem realizado.
Conhecemos a Serra Devassa há cerca de 30 anos e quase anualmente fazemos caminhadas naquela zona da ilha de São Miguel também denominada Maciço das Lagoas, por aí se localizar o maior número de lagoas da ilha de São Miguel, onde se destacam as seguintes: Canário, Carvão, Rasa, Pau Pique, Caldeirão Grande, Éguas Norte, Éguas Sul, Empadadas Norte e Empadadas Sul.
Um roteiro de um percurso pedestre na Serra Devassa muito semelhante ao que hoje é oficialmente recomendado foi editado pelos Amigos dos Açores- Associação Ecológica, em 1994, e já foi editado por diversas vezes, estando hoje esgotado e à espera de reedição.
Não terá sido por acaso, já que é um dos trilhos mais conhecidos e procurado por quem nos visita, que a 23 de Setembro do ano 2000, na Serra Devassa, foi realizada a abertura simbólica do primeiro percurso pedestre sinalizado dos Açores, que contou com a presença do Secretário Regional da Economia, Prof. Doutor Duarte Ponte.
Ao longo do percurso foi possível observarmos algumas espécies da nossa flora, com destaque para o feto-real, o queiró, a urze, a malfurada, o tomilho, o azevinho e o conchelo do mato, uma das orquídeas endémicas dos Açores. Também foi possível observarmos as quase sempre presentes criptomérias, azáleas e hortênsias, sobretudo nas margens das Lagoas Rasa e Empadadas.
As quase sempre presentes aves, naquele dia tinham procurado outras paragens mais abrigadas. Assim, não foi possível a observação, entre outras, das seguintes espécies mais habituais: touto ou toutinegra, tentilhão, alvéola, melro-negro, milhafre e garça-real.
No percurso, sobretudo junto há Lagoa Rasa continua a expandir-se o gigante, uma das plantas invasoras dos Açores, sem que ninguém faça o que deve ser feito, isto é, a sua erradicação.
Apesar das condições atmosféricas não serem as ideais ao longo do percurso fomos encontrando três grupos de caminheiros, um de nacionalidade portuguesa e dois de estrangeiros.
O primeiro grupo terá regressado mais cedo a casa, pois na impossibilidade de subir ao Pico das Éguas, o trilho alternativo não estava em condições de ser percorrido por falta de manutenção e os dois outros grupos encontravam-se perdidos, pois tendo deixado os carros junto à Lagoa do Canário não conseguiam encontrar o caminho de regresso, devido à falta de sinalização adequada do mesmo.
A situação em que se encontra este trilho, bem como a de muitos outros na ilha de São Miguel, são a prova de que não há uma política coerente de fomento da prática do pedestrianismo nos Açores e de que o que foi feito parece ter sido apenas pontual e devido ao impulso momentâneo de quem ocupou a cadeira do poder.
Numa altura em que cresce o número de turistas na ilha de São Miguel, onde é importante oferecer alternativas aos miradouros e a outros locais de “romaria” habituais, é imprescindível o alargamento da rede de percursos pedestres e garantir a manutenção dos trilhos existentes, incluindo aqui a sua adequada sinalização e o arranjo dos pisos para garantir que as pessoas os façam em segurança.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30685, 22 de julho de 2015, p. 14)
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Ainda a Propósito do Caldeirão
Ainda a propósito do Caldeirão
No último número do Correio dos Açores, recordámos que muito próximo da Estrada da Ribeira Grande existiu uma das bocas que permitia o acesso ao Caldeirão para onde alguns desumanos atiravam animais que acabavam por morrer de fome.
No mesmo texto, mencionámos a posição de Manuel Inácio de Melo que defendia que a abertura do Caldeirão devia ser entulhada para evitar a morte lenta de animais e relembrámos uma descida efetuada pelos bombeiros de Ponta Delgada de que resultou o salvamento de alguns cães.
Neste texto, vamos continuar a abordar o mesmo tema, dando a conhecer outras posições sobre a manutenção ou não do acesso ao Caldeirão, começando pela opinião do comandante dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada, Roberto Zagalo Cardoso
Em declarações ao Correio dos Açores, publicadas a 1 de fevereiro de 1963, o comandante Zagalo Cardoso defendeu a dinamitação da boca do Caldeirão “para provocar um desabamento de terras, que parcialmente faria desaparecer aquele abismo misterioso”, fazendo com que aquele deixasse de “continuar a ser prisão de animais e até escoadouro para crimes”.
Dinis da Silva, no dia 8 de fevereiro de 1963, escreveu sobre “Os perigos do caldeirão” que classificou como “lugar sinistro” que não só era feio como “também perigosíssimo, pois nenhum outro lugar, nesta ilha, melhor se ajeita para ocultar qualquer crime, em especial o do assassinato”.
Dinis da Silva, que foi chefe da Polícia de Segurança Pública, também descreveu uma descida anterior, realizada no tempo em que o comando dos bombeiros era da responsabilidade de Alfredo da Câmara, com o objetivo de investigar “dois crimes, que se presumiram de morte – e cujos cadáveres não apareciam: um homem e uma mulher, ele da Fajã de Cima e ela da Fajã de Baixo, na suspeita de que para ali tivessem sido atiradas as vítimas”.
Na referida descida, não foi encontrado nenhum esqueleto humano mas sim “animais das raças cavalar e asinina, cães, ainda em intensa decomposição o que tornava o ar pestilento e, consequentemente, irrespirável. Viram-se, ainda, esqueletos de animais, montes de ossos e, no meio daquele quadro tétrico, cães com vida, já nascidos naquela caverna!”
Dinis da Silva considerou pouco viável a proposta de Manuel Inácio de Melo de atulhar o Caldeirão já que seria muito dispendiosa dada a profundidade “daquela fossa”, “pois seriam precisas muitas toneladas de cascalho para o fazer” e recomendou que o assunto fosse abordado pelos técnicos e propôs que, enquanto não se encontrasse uma solução definitiva, fosse feita uma vedação que impedisse ou dificultasse tudo o que ali se fazia de anormal e perigoso”.
O Caldeirão que foi mencionado por diversos visitantes da ilha de São Miguel, entre os quais Webester, professor de Mineralogia da Universidade de Harvard, no seu livro “A description of the Island of St. Michael”(1820) e W. Halliday, espeleólogo norte-americano, na sua obra “Caves of the Azores. Na initial reconnaissance”(1981), terá sido tapado no final de 1972 ou nos primeiros dias de 1973, pois de acordo com um texto de Manuel Inácio de Melo publicado no jornal “Açores”. a 23 de janeiro de 1973, aquele colaborador escreveu o seguinte: “Tudo falhou e nada se fez! Mas agora, quem lá for, verá em lugar da cratera, um piso raso e direito, que foi cheio de entulho e enormes pedras, isto é, já não há Caldeirão”.
Todo em conta o que sabemos hoje, isto é, o sucesso em termos de utilização turística e como recurso de educação ambiental da Gruta do Carvão, a melhor solução para o Caldeirão teria sido a manutenção do seu acesso como defendeu, no jornal Açores, em texto publicado no dia 10 de fevereiro de 1973, o Padre Castelo Branco, nos seguintes termos:
“Convém conservar o “Caldeirão” no seu estado anterior, vedá-lo com gradeamento, até que seja dotado de escadaria, pela exigência do mais simples bom senso, para torná-lo acessível, em consequência do nosso grau de instrução. É que o turismo não vive exclusivamente de aviões, hotéis, pesca, etc., mas é dotado duma alma espiritual, que tem exigências artísticas”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30679, 15 de julho de 2015, p.14)
quarta-feira, 8 de julho de 2015
A propósito do Caldeirão
A propósito do Caldeirão
Desde 1981, ano em que estava a trabalhar na ilha Terceira e entrei em contato com a associação Os Montanheiros, que tenho interesse por tudo o que diz respeito à espeleologia, entendida quer como “ramo da ciência que se dedica ao estudo de cavidades subterrâneas” quer como atividade de exploração de grutas e algares.
Tentando seguir as pisadas daquela associação terceirense, primeiro a título individual, em conjunto com alguns amigos e familiares, e depois integrado na associação Amigos dos Açores, tentei fazer um redescobrimento das cavidades vulcânicas da ilha de São Miguel que culminou com um trabalho de campo exaustivo, no primeiro semestre de 1988, o qual deu origem a um relatório/comunicação que foi enviado ao “5th International Symposium on Vulcanospeleology” que se realizou no Japão.
No referido relatório, cheio de lacunas, pois tanto os autores como os demais colaboradores possuíam poucos meios e falta de conhecimentos, foi feita referência a 15 grutas visitadas, até então na ilha de São Miguel, e a outras 6, referidas na biografia existente ou mencionadas por diversas pessoas, entre as quais o Caldeirão.
Sobre este, no mencionado relatório da minha autoria e da do Dr. George Hayes, sobre aquela cavidade vulcânica apenas era mencionado o seguinte: “No Caldeirão, a nordeste de Ponta Delgada existe uma gruta que possuía três aberturas, hoje tapadas. Pela descrição que possuímos de uma pessoa que a visitou deveria possuir mais de um quilómetro de extensão”
Hoje, pouco mais se sabe pois foram poucas as pessoas que lá estiveram e todas as tentativas que foram feitas para encontrar uma possível abertura até ao momento têm sido infrutíferas.
A seguir, aproveito a oportunidade para relembrar algumas opiniões que ao longo dos tempos foram dadas sobre o Caldeirão, umas no sentido da sua destruição e outras da sua manutenção com vista ao seu aproveitamento turístico, bem como dar a conhecer um resgate de animais que lá foi feito pelos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada.
A 26 de janeiro de 1963, Manuel Inácio de Melo, que conhecia o Caldeirão, mais ou menos, desde, 1905 escreveu no Correio dos Açores que havia visitado aquela “cratera extinta” onde “ali saiu fogo, por ali respirava um vulcão que atormentou os nossos antepassados”.
Segundo ele, que estava acompanhado por um luso-americano que não o conhecia, para ver a profundidade do Caldeirão deixou cair uma pedra que “produziu um som cavernoso” e “começaram a ouvir, um certo número de cães, a uivar, certamente de fome” e prosseguiu informando que mesmo na estrada “ainda se ouviam os gritos angustiosos daqueles pobres animais que, com certeza, ali vão morrendo de fome”.
Para concluir o seu texto, Manuel Inácio de Melo apela a quem de direito para encher o Caldeirão de cascalho, permitindo assim acabar com “uma sepultura de animais perdidos para a vida ou consumo” e terminar com “aquela má nota e má impressão que nos causa ao ouvir cães a uivar com fome”.
Através de uma reportagem publicada, a 1 de fevereiro de 1963, no Correio dos Açores intitulada “A cinquenta metros de profundidade foram desvendados os mistérios do Caldeirão pelo Comandante dos Bombeiros Voluntários Roberto Zagalo Cardoso”, os leitores ficaram a saber que o apelo de Manuel Inácio de Melo não caiu em saco roto e que o referido comandante acompanhado pelos bombeiros Gilberto Soares Pereira e Teófilo Joaquim Vicente desceram àquela “cova misteriosa onde tudo entra para não mais sair”.
Para além da descrição daquela cavidade, o comandante Zagalo Cardoso disse que os únicos animais ferozes que encontrou foram “os mosquitos e as pulgas” e que os oito cães que trouxeram “entregaram-se docilmente, ganindo à sua volta como a pedir socorro, outros, nem forças tiveram para qualquer reação, tendo sido içados por quatro vezes dentro de sacos”.
Na mesma reportagem o comandante dos bombeiros de Ponta Delgada recordou que para além do apelo de Manuel Inácio de Melo, aquela descida para resgate de animais deveu-se “à recordação de uma antiga vizinha deste Quartel- D. Alice Moderno – cuja campanha zoófila recordo ainda com enternecimento, pois fiz parte da antiga Associação Protetora dos Animais, infelizmente, julgo que extinta”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30673, 8 de julho de 2016, p.16)
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