terça-feira, 8 de março de 2016

A Festa da Árvore no Jardim José do Canto


A Festa da Árvore no Jardim José do Canto

“ O processo de aprendizagem com a terra, os animais e a “natureza” não pode ser frio e “científico”, tem de incluir o amor, a substância mágica do Universo” (Jack D. Forbes)

Este ano a Fundação do Jardim José do Canto, na sequência de outras iniciativas já desenvolvidas em matéria de educação ambiental, vai promover no próximo dia 14 de março uma Festa da Árvore que tem como objetivo geral dar a conhecer aos jovens micaelenses as árvores notáveis existentes no jardim.

Para além da plantação de espécies indígenas da Flora dos Açores e de espécies exóticas, haverá uma visita guiada “Roteiro das Árvores Notáveis do Jardim Botânico José do Canto”, para alunos do 2º e 3º ano do curso de Técnico de Recursos Florestais e Ambientais, da EPROSEC (Escola Profissional do Sindicato de Escritório e Comércio da Região Autónoma dos Açores, uma visita guiada “A importância das árvores notáveis do Jardim Botânico José do Canto para a afirmação de São Miguel no Turismo de Jardins”, para técnicos de turismo e outros interessados e um Peddy Paper “ As Árvores Notáveis do Jardim Botânico José do Canto e o Ensino da Física e da Química”, com alunos do 10º ano de escolaridade da Escola Secundária das Laranjeiras.

A atividade proposta pela Fundação do Jardim José do Canto, vai ao encontro do objetivo de “aumentar o conhecimento e a consciência ambiental e informar as pessoas a respeito da necessidade urgente de conservar as plantas “referido por Julia Willison na publicação “Educação Ambiental em Jardins Botânicos: Diretrizes para Desenvolvimento de Estratégias Individuais”.

De acordo com a publicação referida a existência de coleções de plantas vivas fazem com que todos os jardins botânicos, e o jardim José do Canto não foge à regra, sejam locais ideaias para o ensino “da incrível diversidade do Reino Vegetal; das relações complexas que as plantas desenvolvem com o meio ambiente; da importância das plantas em nossas vidas, em termos económicos, culturais e estéticos; das ligações entre as plantas e a população local e nativa; do meio ambiente local e seu contexto global; das principais ameaças que a flora mundial enfrenta e das consequências da extinção das plantas “.

No dia 14 de março as plantações far-se-ão sob a orientação do Doutor Raimundo Quintal e do Engenheiro Manuel Moniz da Ponte e os alunos serão acompanhados pelos seus professores/formadores, Engª. Lucília Agrela e Dra. Cátia Cardoso e por mim, no caso dos alunos da Escola Secundária das Laranjeiras.

No que aos alunos da Escola Secundária das Laranjeiras diz respeito, antes da visita terão acesso a uma curta biografia de José do Canto, cuja relação com a natureza, segundo Carlos Riley, se caracterizou ”sempre por interesses bastante mais científicos e racionalistas: explorar os campos segundo os princípios da emergente agronomia e ordenar, qual demiurgo do novo século, a natureza em parques e jardins ao gosto de uma sensibilidade estética caracteristicamente romântica”, bem como a um mapa do jardim com a localização das árvores notáveis que irão ser alvo das várias questões constantes do Peddy Paper.

Para responderem ao questionário do Peddy Paper e a duas questões suplementares os alunos terão de colher informação constante das placas identificativas de diversas plantas, ter lido a biografia de José do Canto, previamente entregue, possuir alguns conhecimentos básicos da flora e da fauna dos Açores e aplicar conhecimentos adquiridos nas aulas de Química, nomeadamente as noções de átomo, molécula e mole e de Física, como energia cinética, energia potencial, trabalho de uma força, forças conservativas e conservação da energia mecânica.

Para além do referido, será lançado o desafio que consistirá na medição da altura de uma árvore utilizando para tal um clinómetro rudimentar e uma fita métrica. Nesta tarefa os alunos terão de recorrer a conhecimentos básicos de trigonometria, como as noções de seno, de cosseno e de tangente de um ângulo.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30880 de 9 de março de 2016 p.14)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Relheiras e animais de tiro



Relheiras e animais de tiro

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovou, em 29 de outubro de 2015, uma resolução apresentada pelo Grupo Parlamentar do CDS-PP que recomenda que o Governo Regional dos Açores inventarie as relheiras existentes na Região, que considere a sua promoção como elemento turístico e que elabore, no prazo de 200 dias, um relatório que inclua, entre outros itens, uma inventariação e um plano de proteção.

As relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, existem em várias ilhas. Na ilha de São Miguel há nos Fenais da Luz e são o testemunho do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.

Quem fizer uma leitura dos jornais até à década de 70 do século passado verá que as denúncias sobre maus tratos aos animais eram relativos aos animais de companhia, sobretudo cães que eram abandonados, e aos animais de tiro, com destaque para os bois que percorriam grandes distâncias, como, por exemplo, entre a Maia e a fábrica do açúcar em Ponta Delgada no transporte de beterraba e que não só não eram bem alimentados como eram vítimas das aguilhadas.

Mas, não se pense que os maus tratos a que eram sujeitos os bois se devia apenas à ganância ou ignorância dos seus donos, pois maus exemplos eram também dados pela Câmara Municipal de Ponta Delgada. Com efeito, em 1925, o “lastimoso estado de magreza” dos bois camarários era tal que o Correio dos Açores publicou o seguinte apelo dirigido à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais:

“O estado esquelético em que os pobres bois municipais quotidianamente andam pelas encovadas ruas desta cidade, puxando carroças de lixo, não é um motivo de compaixão.

Indagando a causa de tanta magreza, viemos a saber factos espantosos que se dão com a alimentação destes animais. Como, porém, somos suspeitos ante as pessoas que devem fiscalizar estes serviços, chamamos, humanamente, a atenção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para este caso que também envergonha o nosso meio social”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30879, 8 de março de 2016, p.11)

quarta-feira, 2 de março de 2016

A Festa da Árvore em 1923


A Festa da Árvore em 1923

“Plantar árvores é não só amar a natureza. Mas ainda ser previdente quanto ao futuro, e generoso para com as gerações vindouras. Cortá-las ou arrancá-las a esmo, sem um motivo justo, é praticar um acto de selvajaria” (Alice Moderno, A Folha, 16/2/1913).
Através da leitura do discurso, do Dr. Jacinto Gusmão de Vasconcelos Franco, proferido na Festa da Árvore realizada na Escola Normal Primária de Ponta Delgada, publicado no jornal Correio dos Açores, no dia 20 de maio de 1923, tomei conhecimento de que a primeira festa da árvore ocorreu em Portugal, na primeira quinzena de março de 1908, por iniciativa da Liga da Instrução Pública.

Através de pesquisas efetuadas cheguei à conclusão de que o nome correto da organização promotora da Festa da Árvore foi a LNI-Liga Nacional da Instrução, instituição fundada em maio de 1906, por proposta de Trindade Coelho, que tinha como objetivos, segundo Sara Pereira, a promoção da educação nacional, e em particular da escola primária, o combate ao analfabetismo e a promoção da educação cívica, através da divulgação da Festa da Árvore.

De acordo com Sara Pereira e Inês Queirós, a primeira Festa da Árvore, iniciativa da LNI não se realizou em 1908 mas sim a 26 de maio de 1907, no Seixal. Depois, foi o jornal O Século Agrícola a impulsionar as Festas da Árvore realizadas entre 1912 e 1915.

A Festa da Árvore realizada, em 1923, em Ponta Delgada, deve a sua existência, segundo uma nota publicada no Correio dos Açores de 3 de maio de 1923, a uma portaria governamental que estabeleceu “que se realizasse em todos os estabelecimentos de ensino do país a Festa da Árvore, dentro do mês de abril, em dia escolhido pelas direções dos referidos estabelecimentos”.

Na festa realizada naquele ano na escola oficial de São José, depois de um discurso proferido pela professora Maria Evelina de Sousa, os alunos recitaram poesias e em seguida dirigiram-se à Praça 5 de outubro onde “brincaram alegremente em volta das árvores que ensombram aquele aprazível local”.

Maria Evelina de Sousa, militante republicana convicta, depois de elogiar o facto da realização da festa se dever ao “carinho generoso” que merece a educação popular por parte do “Governo da nossa Pátria”, passou a enumerar alguns benefícios das árvores para a Humanidade.

Segundo ela, há os seguintes benefícios “utilitários”:

“Purificadoras da atmosfera, dando aos animais o oxigénio de que necessitam os seus pulmões, absorvem ainda o carbono que tão prejudicial é à espécie humana.

São elas, as boas árvores, que defendem os povoados das avalanches produzidas pela acumulação da neve e dos gelos; são elas que diminuem e quebram a velocidade dos ventos e a impetuosidade dos ciclones; são elas que distribuem e atraem as águas tão úteis à agricultura; elas ainda que obstam à invasão das dunas e constituem os mais primitivos para-raios”.

Maria Evelina de Sousa não se ficou por estes papéis “utilitários”, também referiu no seu discurso à sua beleza, tendo mencionado que não se pode ignorar o facto de as árvores constituírem um dos maiores encantos da Natureza.

Passados tantos anos, tantas comemorações do Dia da Floresta, tantas aulas de ciências da natureza e de biologia, tantas sessões de plantação de árvores nas escolas e não só, não se percebe por que razão continua a árvore a ser tão maltratada, quer pelo cidadão comum, quer por responsáveis autárquicos ou governamentais.

Será que nos Açores, tal como acontece com outras maleitas, há muita gente a sofrer de dendrofobia?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30874, 2 de março de 2016, p. 13)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Ainda sobre o colóquio...


Ainda sobre o colóquio promovido pela Câmara Municipal de Ponta Delgada

No passado dia 26 de fevereiro, estive presente no Centro Cívico de Santa Clara a assistir às várias comunicações apresentadas no colóquio “As parceiras como modelo de atuação para a implementação de canis de acolhimento” promovido pela Câmara Municipal de Ponta Delgada.

Tal como esperava nenhum dos oradores convidados me defraudou, isto é todas as comunicações cativaram o público, tanto as que apresentaram as experiências e as situações locais como as que apresentaram pistas para onde se deve caminhar em São Miguel.

Não vou, por razões de tempo e de espaço, fazer referência a todas as comunicações apresentadas já que correria o risco de repetir a nota de imprensa da Câmara Municipal de Ponta delgada que sintetiza muito bem o que lá se passou. Assim, neste texto limitar-me-ei a apresentar alguns aspetos que considero relevantes, quer porque se referem a alterações em relação ao passado, quer por terem suscitado algumas dúvidas e que importa serem abordados pelas várias entidades.

Vou começar pela intervenção do Diretor Regional da Agricultura que mencionou e muito bem que o abate compulsivo de animais errantes não era solução e falou no Projeto Alice Moderno e no concurso “os animais também sentem”.

Estava à espera de mais, já que normalmente os políticos aproveitam estas ocasiões para apresentarem os projetos que têm para o futuro. Assim, através do seu silêncio fiquei com a sensação ou quase certeza de que nada está programado e de que o Projeto Alice Moderno foi pontual e muito limitado que nem parceria teve com quem está no terreno, as associações animalistas e os voluntários a título individual. Quanto ao futuro do Hospital Alice Moderno nem uma referência mereceu.

Uma intervenção que me surpreendeu pela positiva, pois antes tinha a sensação de que a Ordem dos Médicos Veterinários era, como dizem os políticos, uma força de bloqueio à implementação de uma nova política para os animais der companhia, foi a do recém-eleito bastonário que falou no conceito de uma só saúde e na possibilidade da existência de uma bolsa de horas dos médicos veterinários para esterilizações, onde apenas seriam cobrados os custos materiais e não os honorários.

Termino com uma questão que voltou a ser debatida, a de um canil intermunicipal. Sobre este assunto, não tenho, de momento, uma opinião formada. Com efeito, havendo uma aposta séria na diminuição dos abandonos, através de um canil intermunicipal, bem gerido, será possível rentabilizar recursos humanos e não só. Por outro lado, devendo todas as autarquias possuir um veterinário-municipal, a existência de canis municipais, permitirá o envolvimento da sociedade na sua gestão ou apoio em termos de voluntariado, poderá fomentar a participação cívica através do associativismo animalista, facilitará as adoções e poderá ser um contributo para a criação de postos de trabalho.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30873, 1 de março de 2016, p.13)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A tourada dos estudantes já não é o que era


A tourada dos estudantes já não é o que era

Por muito que alguns conservadores do que não interessa conservar queiram, as touradas já não são o que eram, estando cada vez mais próximo o seu fim. A sua sobrevivência nos dias de hoje só acontece devido ao forte investimento que desde sempre existiu na habituação dos mais novos e aos apoios públicos que tem recebido dos governos, autarcas e da hipócrita Comunidade Europeia.

Este ano, para desgosto de alguns, a tourada dos estudantes, realizada anualmente em Angra do Heroísmo, não existiu ou foi uma pequeníssima mostra do que foi no seu auge.

Os grandes defensores da aberração em defesa da sua dama alegam a sua antiguidade, a sua sobrevivência ao Estado Novo e a sua necessidade como escola de captação de aficionados/ toureiros.

Começando pelo fim, o saudável desinteresse manifestado pela maioria dos estudantes é sinal de que os tempos são outros e que a tortura de animais para divertimento já teve melhores dias. Além disso, demonstra que o investimento feito anualmente em eventos tauromáquicos para crianças deixou de surtir os efeitos que eles pretendiam, isto é tornar cada criança um adepto da tortura animal.

O argumento de que a tourada dos estudantes se sobreviveu ao Estado Novo também terá de continuar em regime de democracia representativa não faz qualquer sentido.

Não faz sentido, em primeiro lugar porque torturar animais é uma barbaridade que com o aumento do conhecimento que se tem sobre os animais já devia ter sido banida há muito tempo e em segundo lugar porque na tourada dos estudantes nunca ninguém levantou a sua voz contra os ditadores que governaram Portugal durante 48 anos.

A este propósito convém recordar que foi durante o Estado Novo, que a tourada dos estudantes atingiu o ponto máximo da tortura animal, tendo nos primeiros anos revestido a capa da solidariedade social, a favor da Caixa Escolar do Liceu de Angra, em 1933 e 1936 ou do Dispensário Antituberculoso, em 1935.

Ainda sobre a balela da tourada poder eventualmente incomodar o Estado Novo, pouco há a dizer já que não seriam os filhos dos “fidalgos pobres” e afins, serventuários do regime, que iriam contestar alguma coisa. Além disso, o Estado Novo servia-se da tauromaquia para divertimento dos seus seguidores e do povo em geral e para colmatar as suas falhas em termos de apoio social. A título de exemplo, cita-se a realização de uma tourada, em 1946, com a presença do Ministro da Guerra Fernando Santos Costa e das autoridades civis e militares da ilha, a realização de touradas a favor da Legião Portuguesa (em 1939), da Mocidade Portuguesa (em 1941) e a favor ou promovida pelo Movimento Nacional Feminino (em 1971, 1972 e 1973).

Sobre a tourada dos estudantes propriamente dita, começou por ser semelhante a todas as outras, com os animais a serem torturados sem apelo nem agravo, passando mais tarde a ser mais “brincadeira de rapazes e de algumas raparigas”, onde já não eram cravados ferros, como acontecia nos primeiros anos da década de 80 do século passado, onde o cortejo constituía o principal da festa.

Hoje, quando em todo o mundo se caminha para a abolição de uma prática retrógrada e bárbara, não faz qualquer sentido o regresso aos primeiros anos, de tortura extrema, nem mesmo aos tempos em que a tortura física foi mais atenuada.

Para quem viveu assistiu ou mesmo participou numa tourada dos estudantes, mas que fruto das leituras e da reflexão pessoal chegou à conclusão de que o uso de animais para divertimento não faz qualquer sentido, apenas fica alguma mágoa pela não realização do desfile, pelas ruas de Angra do Heroísmo.

Os jovens de hoje e os do futuro, estamos certos, encontrarão outras formas e meios de exteriorizar o seu humor e a sua irreverência.

Parabéns à juventude terceirense que já não participa em touradas.

J.A.

(recebido por e-mail)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Açores e Açorianos n' A IDEIA


AÇORES E AÇORIANOS N’A IDEIA

“A Ideia” é uma revista de cultura libertária portuguesa cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1974, em Paris. Ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, “A ideia” que passou por várias fases, estando durante algum tempo suspensa, define-se como “uma revista que faz da cultura o seu campo de ação. Através da criação poética e plástica, da expressão filosófica, da pesquisa social, da investigação histórica, da abertura a uma ciência humanizada, desligada de interesses lucrativos do dispositivo industrial/militar”, tendo por fim a criação das “bases dum espírito livre, criativo, gratuito e solidário, contributo efectivo para a realização plena de todos os seres vivos”.

Não tendo, por ora, acesso a todos os números publicados, neste texto, apenas, farei referência aos últimos três números dirigidos por António Cândido Franco, professor da universidade de Évora, que é autor de uma monumental biografia de Agostinho da Silva intitulada “O Estranhíssimo Colosso”, resultado de 10 anos de investigação.

No número duplo, 71/72, publicado em 2013, tal como no do ano seguinte, há referências ao Café Gelo, situado no Rossio, que foi um antigo botequim surgido no século XIX, onde se reuniam “anarquistas ligados à carbonária” e onde terá sido planeado o atentado contra a família real, em 1908. Mais tarde, no Café Gelo reuniram-se vários poetas surrealistas, ente os quais o açoriano José Sebag (1936-1989).

Sobre este açoriano quase desconhecido, também para mim que apenas me lembro dele como locutor da RDP, a revista “A Ideia” escreve: “Publicou em vida um único livro, O Planeta Precário (Açores, 1959), que foi atirado às águas do mar salgado pelo autor na viagem de regresso a Lisboa, salvando-se apenas o exemplar antes enviado por correio a João Gaspar Simões…José Carlos González, depois da morte do amigo, recolheu a sua criação poética em livro, Cão até Setembro (1991) ”.

Depois da leitura da Revista procurei mais informações sobre José Sebag e tive a oportunidade de ler algumas crónicas da sua autoria publicadas no jornal “Açores” no chamado Verão Quente.

Numa delas, a propósito da relação entre escritores e militares, José Sebag escreve: “Ou será que os escritores (e os intelectuais, por extensão) estão minados por um intimo ressentimento face aos militares, por estes lhes terem arrebatado a oportunidade e a hora de abater o fascismo? ... Ou será ainda que os escritores portugueses estiveram estes anos todos falando e defendendo uma abstração e agora que é possível e necessário falar do (e com) o povo real, não sabem como, não sabem quando, não sabem de quê?”

No número duplo, 73/74, publicado em 2014, que dá grande destaque ao “Surrealismo e Café Gelo”, pode ser lido um texto de Cristina Dias, doutoranda na Universidade de Évora, intitulado “A Revolução poética postulada no ensaio de Natália Correia: Poesia de arte de realismo poético”.

No último número editado, 75/76, relativo ao ano de 2015, é publicado o “Memorando Jaime Brasil”, ilustre jornalista e escritor terceirense, amigo íntimo de Vitorino Nemésio, que segundo Luís Amaro teve uma vida “nobremente acidentada – conheceu, como tantos de igual craveira cívica, a prisão, a mordaça, o exílio; talvez, em certos períodos até anteriormente ao Estado Novo, a fome…”

Neste número, também pode ser lida uma recensão crítica de Jaime Brasil ao livro de Nemésio “Mau tempo canal”, publicada em primeira mão no jornal “O Primeiro de Janeiro”.

Ainda neste número, não foi esquecida Natália Correia, através do texto de Miguel Real “Natália Correia e o Surrealismo”. Segundo o autor referido, Natália Correia cuja ligação ao surrealismo é frágil, “possui um espírito, uma vida e uma obra verdadeiramente heterodoxas e libertárias”.

Por último, Rui Machado, terceirense que entre outros trabalhos escreveu textos para Katia Guereiro e para os “Madredeus”, publica um poema intitulado “Plano à maneira de Carl Th. Dreyer”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30868 de 24 de fevereiro de 2016, p.14)

O último número d’A Ideia pode ser lida aqui: https://issuu.com/a.directa/docs/a_ideia_2015_n_75-76_web?e=6449204/32877278

Colóquio



COLÓQUIO


Na próxima sexta-feira, dia 26 de fevereiro, a Câmara Municipal de Ponta Delgada vai promover o colóquio “As parceiras como modelo de atuação para a implementação de canis de acolhimento” que contará com a presença de oradores com uma visão diferente dos que defendem a atual política de controlo populacional de animais errantes e não só com recurso ao abate.
Atualmente, nos Açores, a situação é semelhante há que ocorria há cem anos, que muito bem foi denunciada nos jornais locais, e que terá levado à criação das primeiras associações de proteção dos animais, em 1911, na ilha Terceira e em São Miguel. Contudo, duas diferenças existem, resultado da evolução tecnológica e não das mentalidades que continuam tão tacanhas como as de então: a primeira é que no século passado muitos animais, sobretudo os cães, eram mortos em plena rua com recurso à estricnina e hoje faz-se o mesmo, embora com outros meios, mas nos canis; a segunda, relaciona-se com o transporte para os locais de abate, se antes os animais que não morriam nas ruas eram transportados em carroças puxadas por bois, hoje há autarquias que disponibilizam recolha domiciliária, evidentemente usando veículos motorizados.
Atualmente, a situação nos Açores envergonha todos os açorianos sensíveis e de bom coração pois os abandonos não param de crescer e os canis, legalizados ou não, têm sido autênticos corredores da morte, bastando para confirmar a afirmação comparar o número de animais que dão entrada com o dos animais que conseguem ser adotados.
Em 2011, na sequência das respostas das várias autarquias ao Deputado da Assembleia da República eleito pelo CDS/PP, João Rebelo, fica-se a saber que as taxas de abates eram muito elevadas: na Lagoa, entre os 85% e os 90%, na Ribeira Grande, 82% e em Ponta Delgada era de cerca de 70%. A Câmara Municipal de Vila Franca respondeu que não tinha canil, mas sabe-se que abatia tudo ou quase tudo o que lá entrava.
Tal como está a situação é vergonhosa e insustentável e até agora ninguém foi capaz de agarrar o touro pelos cornos, isto é tomar medidas de fundo no sentido de alterar o atual estado de coisas, envolvendo toda a sociedade.
A iniciativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada de promover o mencionado colóquio, que surge na sequência de duas campanhas de esterilização de cadelas, em parceria com associações de proteção dos animais nacionais e regionais, poderá ser o ponto de partida para o fim do flagelo do abandono e da morte certa de animais nos canis, nos Açores, e para a reabilitação da imagem do concelho e da região a nível nacional e até internacional.
Se nada houver pelo contrário, conto lá estar e aconselho a todos os amigos dos animais que tenham disponibilidade para fazerem o mesmo. Tenho a certeza que todos sairemos mais enriquecidos e motivados para continuarmos a nossa luta por uma Terra melhor para todos os seus habitantes.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30867, 23 de fevereiro de 2016, p.13)