terça-feira, 5 de abril de 2016

Júlio Quintino um algarvio que se apaixonou pelos Açores



Júlio Quintino um algarvio que se apaixonou pelos Açores

Júlio Quintino foi meteorologista e geofísico do Observatório “Afonso Chaves” entre 1957 e 1975, que muito deu aos Açores, quer no que diz respeito ao desenvolvimento da ciência, quer como exemplo de participação cívica e política em condições bastante adversas.

Neste texto não mencionaremos a primeira dimensão, a científica, recomendando aos interessados a leitura do livro “Estudos de Geotermia e Geofísica e outros Escritos”, editado pela Sociedade Afonso Chaves. Sem pretender esgotar o assunto, vamo-nos limitar a fazer uma breve referência à participação de Júlio Quintino na construção de uma sociedade melhor.

Segundo a sua filha Joana Quintino, em texto publicado na “Açoreana”, revista da Sociedade Afonso Chaves, datada de Dezembro de 2001, Júlio Quintino “esteve próximo do MUD enquanto estudante, manteve-se atento a todas as manifestações e publicações que protagonizavam uma mudança: Seara Nova, O Tempo e o Modo, A República, o Comércio do Funchal …”

Mas, Júlio Quintino não se limitou a assistir passivamente aos acontecimentos, pelo contrário e apesar das suas limitações de saúde teve uma participação ativa, quer durante a ditadura, quer depois da chamada Revolução dos Cravos. Assim, ele foi um dos poucos que nos Açores se bateram pelo derrubamento do Estado Novo e, a seguir ao 25 de Abril de 1974, esteve com o Movimento Democrático de Ponta Delgada.

Nas eleições de 1969, foram candidatos pela oposição democrática Manuel Barbosa, João Silvestre e António Borges Coutinho. Júlio Quintino, que esteve para ser um dos candidatos, tendo sido proibido de o ser pelo Ministério das Comunicações, desempenhou um papel ativo. Com efeito, ele foi uma das pessoas que fez parte de um grupo de trabalho criado em Dezembro do ano anterior para preparar as eleições e que no mês de janeiro apresentou a Declaração de Ponta Delgada, algumas reuniões realizaram-se em sua casa que esteve sob vigilância da PIDE e foi um dos membros da mesa de uma sessão realizada, durante a campanha eleitoral, no Coliseu Micaelense, a qual segundo Manuel Barbosa contou com a presença de mais de 3000 pessoas.

Em 1970, Júlio Quintino foi um dos subscritores de uma carta aos deputados pelo Círculo de Ponta Delgada à Assembleia Nacional, Teodoro de Sousa Pedro, Deodato Magalhães de Sousa e João Bosco da Mota Amaral, a solicitar as suas diligências com vista à libertação de Jaime Gama que se encontrava preso em Caxias por ter participado num congresso da IUSY- International Union of Socialist Youth.

A 28 de Abril de 1974 realizou-se uma reunião onde foi eleita a Comissão Democrática Provisória de Ponta Delgada que se propunha, entre outras medidas, “promover a consciencialização das populações deste distrito, com vista a uma participação politica de que até agora têm estado afastadas”. Júlio Quintino foi um dos eleitos, os restantes foram: Álvaro Soares de Melo, engenheiro agrónomo, António da Silva Melo, licenciado em direito, Eduardo Pontes, empregado de escritório, Humberto Pereira, comerciante, Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, engenheiro químico e Manuel Barbosa, professor.

Terminamos com um excerto de um texto intitulado “Contra os Profissionais do Oportunismo”, da autoria de Júlio Quintino, publicado no dia 1 de maio de 1974, no jornal “A Ilha”:

“Quarenta e oito anos na vida da Nação – tempo suficiente e tempo demasiado. Suficiente para institucionalizar o medo; demasiado para a vida dos opressores e dos oprimidos, demasiado ainda para a cupidez dos oportunistas e a saudade dos exilados.

A reconciliação, o diálogo aberto, a compreensão, o respeito mútuo, têm de ser as novas tónicas da vida nacional. Ninguém tem sede de sangue, mas de justiça; ninguém quer transformar o novo país num Chile esmagado pelas botas da soldadesca embrutecida”.

Será que estamos a construir hoje uma sociedade verdadeiramente democrática, onde os medos não têm razão de existir? Será que estamos a construir a sociedade mais justa por que lutou o Dr. Júlio Quintino e muitos outros antes e depois de abril?

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 30903, 6 de abril de 2016,p.11)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Luís Leitão



Luís Leitão e o Correio dos Açores

Desde sempre o jornal Correio dos Açores teve entre os seus colaboradores pessoas que deram o seu contributo à causa da proteção dos animais.

De entre os colaboradores, de que se destacou Alice Moderno, um deles foi Luís Leitão que também colaborou com aquela no jornal “A Folha” e com Maria Evelina de Sousa, na “Revista Pedagógica”, no “Autonómico”, de Vila Franca do Campo e no “Correio Micaelense”.

Luís Albino da Silva Leitão (1866-1940) foi um escritor e jornalista que colaborou com centenas de jornais e revistas em todo o território nacional e no Brasil, tendo dirigido a “Revista do Bem”.

De entre os temas que mais abordava destacam-se a luta contra a guerra, o alcoolismo, o tabagismo e a caça e a defesa dos direitos da criança, dos animais e do vegetarianismo, tendo nesse sentido colaborado com a revista “O Vegetariano”, órgão da Sociedade Vegetariana de Portugal.

No que diz respeito à defesa dos animais Luís Leitão foi membro da direção da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa e sócio benemérito de várias outras.

Através das pesquisas efetuadas até ao momento no Correio dos Açores, apenas temos conhecimento de um texto da sua autoria intitulado Sagacidade Canina, publicado em outubro de 1934.

Numa nota da responsabilidade da redação do jornal, Luís Leitão é apresentado como “o autor cuja obra tão volumosa quanto notável, representa uma verdadeira cruzada em prol dos animais, tem sido por diferentes vezes galardoado pelo seu aturado esforço em favor do aperfeiçoamento moral da raça”.

No seu texto, Luís Leitão faz a referência a dois cães, um que salvou o seu dono de ser assassinado e o outro que denunciou o matador do seu dono.

Sobre o segundo caso podemos ler o seguinte:

“Viajando Pirro, que foi rei do Epiro, encontrou um dia certo cão faminto junto ao cadáver do dono.
Acariciou-o, fez enterrar o morto, e ordenou por último que se levasse o animal para o palácio, onde o sustentariam. Um dia, passando o monarca revista às suas tropas, o cão, que parecia dormitar, lançou-se a um soldado que pretendeu morder. O monarca, admirado, mandou abrir um inquérito e verificou-se que o soldado fora o assassino do antigo dono do animal.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30902, 5 de abril de 2016, p.11)

sábado, 2 de abril de 2016

Apontamentos sobre a tauromaquia em São Jorge




Apontamentos sobre a tauromaquia em São Jorge

Como é sabido a Ilha Terceira tem sido ao longo dos tempos o bastião da vil prática de torturar bovinos e o centro irradiador da tauromaquia para outras ilhas do arquipélago, com destaque para as ilhas da Graciosa e São Jorge.

De acordo com o historiador Pedro de Merelim, a primeira tourada à corda, em São Jorge, realizou-se a 7 de setembro de 1934, durante as festas de São Mateus da Calheta. Segundo o autor citado: “Os rapazes de S. Jorge apesar de a tal, não estarem habituados, demonstraram arrojo e entusiasmo. José Veríssimo, o Prosa, natural da ilha Terceira, dirigiu a corrida. Gente das freguesias circunvizinhas acorreu, dando ao acontecimento esfusiante alegria. Outras touradas a corda se perspetivaram, para a mesma vila e freguesia da Urzelina”.

Com touros vindos da ilha Terceira, em São Jorge começou a prática de desrespeitar animais, de assocair as touradas às festas religiosas, sem que a igreja se manifestasse contra aquela prática viciante e que, inclusive, desvia dinheiro dos paroquianos que poderiam reverter para a própria paróquia para os bolsos dos ganadeiros.

Depois da introdução da chamada tauromaquia popular, a indústria tauromáquica, que é insaciável em sangue e em dinheiro sem esforço, partiu para a introdução das touradas mais sangrentas para os animais, as de praça. Assim, de acordo com o autor citado, em 1948, “Alfredo Ovelha deslocou-se a S. Jorge, onde foi estudar, sem êxito, a possibilidade de realizar naquela ilha uma tourada de praça.”

Mais tarde, em 2005, o Governo Regional dos Açores, presidido por Carlos César, deu uma ajudinha à prática da tortura, através da “cedência, a título definitivo e oneroso, à Tertúlia Tauromáquica Jorgense – Amigos da Festa Brava Jorgense, de dois prédios rústicos sitos ao Pico da Caldeira de São Jorge, freguesia e concelho de Velas, inscritos na matriz predial rústica sob os artigos 2432.º e 1458.º e descritos na competente Conservatória do Registo Predial, respetivamente sob os n.ºs 804 e 608/Velas, ao abrigo do artigo 1.º do Decreto-Lei n.º 97/70, de 13 de Março, conjugado com o n.º 3 do artigo 5.º do Decreto Legislativo Regional n.º 3/2004/A, de 28 de Janeiro”

De acordo com a Resolução do Conselho do Governo n.º 74/2005 de 19 de Maio de 2005, os terrenos que custaram a quantia irrisória de 6 000 euros e destinavam-se à” construção de uma Escola de Equitação e parque de estacionamento de apoio à Praça de Touros”. Ainda de acordo com a mesma resolução “, os terrenos ora cedidos regressam ao património da Região Autónoma dos Açores se lhes for dado fim diferente do assinalado ou em caso de incumprimento das condições da cedência”.

A justificação para a cedência dos terrenos é uma autêntica afronta a todas as pessoas que têm e usam o cérebro para pensar. Com efeito, entre as diversas cabeças existentes no Governo Regional dos Açores de então, ninguém viu que era um disparate o seguinte:

“Considerando que a Câmara Municipal das Velas classifica a Tertúlia Tauromáquica Jorgense como uma instituição de grande valor no concelho, quer do ponto de vista turístico quer cultural, e que a construção de uma Escola de Equitação se apresenta como um projeto de grande importância.”

Quando é que uma instituição que fomenta os maus tratos a animais tem valor cultural? Que turistas vão a São Jorge para assistir à tortura de um animal numa praça de touros? Onde anda a Escola de Equitação? Porque não exige o Governo a devolução dos terrenos ao património da região?

O ano de 2014 foi um ano negro para São Jorge, que se traduziu na morte, perfeitamente evitável, do senhor Horácio Borges numa tourada à corda e num número de feridos que nunca entra nas estatísticas porque há hospitais e centros de saúde e corporações de bombeiros que os escondem.

Foi, também, em 2014 que, depois de um interregno, regressaram as touradas de praça, com o ferimento de pelo menos um forcado. Para além do referido, regista-se a falta de vergonha por parte da Tertúlia Tauromáquica Jorgense que pediu o apoio no valor de 35 000 (trinta e cinco mil euros) para a realização de uma tourada de praça no âmbito da Semana Cultural (?) das Velas. Vergonhosa foi, também, a ação da Câmara Municipal das Velas que atribuiu 3500 € à referida Tertúlia contra a cedência de 50 bilhetes para a tourada a distribuir por Instituições de Solidariedade Social do Concelho.


José Ormonde
2 de abril de 2016

quarta-feira, 30 de março de 2016

Alice Moderno e a Festa da Árvore


Alice Moderno e Festa da Árvore em 1914


Em texto anterior recordei o início das comemorações da Festa da Árvore em Portugal, em 1907, por iniciativa da Liga Nacional da Instrução, e divulguei o contributo da professora primária Maria Evelina de Sousa para a Festa da Árvore realizada na Escola de São José, em 1923, em Ponta Delgada.

Em 1914, em Ponta Delgada, as comemorações da Festa da Árvore contaram com o envolvimento das autoridades locais, como o governador civil que se interessou pela mesma, tendo nelas participado ativamente e a comissão administrativa de Ponta Delgada que as custeou.

Do programa das comemorações, constou uma reunião no palácio do Governador Civil, onde depois do discurso do governador, Dr. João Francisco de Sousa, houve uma preleção pelo Dr. Júlio Soromenho Romão dirigida às crianças sobre o significado da festa.

A seguir realizou-se um cortejo cívico por várias ruas de Ponta Delgada, onde foram plantadas árvores por alunos de várias escolas.

Para ficarmos com uma ideia da dimensão que terá tido o cortejo, a seguir indica-se algumas das entidades participantes: um piquete dos bombeiros voluntários, escolas do sexo feminino de São Roque, Arrifes, Relva, Fajã de Baixo, Fajã de Cima, Bom Despacho, duas escolas do sexo feminino da associação “O Século XX”, escolas do sexo masculino de São José, de São Roque, Fajã de Baixo, Arrifes, escola da Associação das Filhas de Maria, colégio Antero de Quental, colégio Lomelino, colégio Insulano, Escola Minerva, Colégio Manuel José de Medeiros, Escola Móvel, Escola de Desenho Industrial, Academia da Federação Operária, Associação dos Empregados do Comércio e Industrias, Filarmónica Lira de São Roque, Filarmónica Lira do Oriente, da Fajã de Baixo, Filarmónica Lira da Oliveira, da Fajã de Cima, Filarmónica Rival Outeirense, dos Arrifes, Filarmónica Rival das Musas e Filarmónica Lira Açoreana

Na Vila da Lagoa, a Festa constou de uma concentração das escolas da vila e das freguesias no Jardim da Câmara, seguida de cortejo cívico, plantação de uma árvore e discurso do professor José Furtado Leite, da escola masculina do Rosário

Alice Moderno para além de noticiar estas iniciativas e publicar uma reportagem no seu jornal “A Folha”, escreveu um texto intitulado “A Festa de Hoje”, que dedicou ao governador civil, Dr. João Francisco de Sousa, publicado no referido jornal, no dia 15 de março.

Depois de mencionar que a Festa da Árvore é celebrada em diversos países, Alice Moderno escreve que a mesma “tem muito principalmente razão de ser nos essencialmente agrícolas, como este, cujo solo privilegiado dá asilo a uma das floras mais completas de toda a Europa” e acrescenta “seja em que campo for que a exploremos, a terra portuguesa produz sempre, recompensa sempre ao agricultor os afetos com que a cultiva, enriquece e ornamenta”.

Sobre as virtudes da árvore, Alice Moderno apresenta um vasto conjunto de exemplos de que destacamos as seguintes:
“A árvore é a essência medicamentosa que fornecerá o alívio aos tormentosos males que cruciam a precária humanidade.
A árvore é a confidente discreta dos namorados e a desvelada protetora dos pássaros – esses poetas do ar.
A árvore é a maior riqueza da gleba, o maior tesouro dos campos e o maior encanto da paisagem!
A árvore é um dos fatores primos de várias indústrias, é o sustento da lareira, é o calor no inverno, como é a frescura no verão.

A árvore é a regularizadora da saúde, a mantedora da higiene, a fertilizadora dos campos, a amiga máxima do lavrador.

E quantas vezes é a árvore, o arbusto, a planta, a terra, enfim a alma mater, a amante fidelíssima, o refúgio supremo, a suprema consolação?!”

Palavras que ainda hoje não perderam a atualidade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30897, 30 de março de 2016, p.13)

terça-feira, 29 de março de 2016

A tourada na Escola


A Tourada na Escola

Tomámos conhecimento, através do programa da XIV Semana da Ciência, promovida pelo Departamento de Ciências da EBI de Angra do Heroísmo, da integração da conferência “A importância da festa Brava na ilha Terceira”, no programa da XIV Semana da Ciência, promovida pelo Departamento de Ciências da referida escola.

Aquele facto merece da minha parte dois reparos, o primeiro foi muito bem descrito por um texto que circula nas redes sociais e que questiona a ligação entre ciência e tauromaquia. De acordo com o autor(a) ou autores(as) do mesmo: “Não é compreensível que na promoção da ciência - uma área que leva à importância de questionar, de comprovar, da experenciação, da reflexão - tenha sido subtilmente aproveitada para incutir a prática da tauromaquia, em crianças, pré adolescentes e adolescentes”. O segundo reparo relaciona-se com a finalidade da escola e da educação. Assim, segundo o conhecido pedagogo francês Freinet, o principal fim da educação “é o crescimento pessoal e social do indivíduo, elevar a criança a um máximo de humanidade preparando-a a não apenas para a sociedade atual, mas para uma sociedade melhor, fazendo-a avançar o mais possível em conhecimento num constante desabrochar”.

Podemos não concordar com as ideias e com a pedagogia de Freinet, mas achamos que qualquer pessoa de bom senso pode rever-se no fim enunciado. Assim sendo, gostaríamos que os promotores da conferência refletissem sobre que contributo poderá dar a mesma para o conhecimento científico das crianças, como pode a divulgação e banalização da tortura mais ou menos suave contribuir para a formação pessoal de uma criança e, por último, como pode a mencionada conferencia contribuir para a formação de pessoas mais humanas numa sociedade futura que queremos melhor, isto é onde haja respeito por todos os seres vivos que com os humanos partilham a vida na terra.

Termino, transcrevendo um poema da autoria de José Batista, publicado em Abril 1915 na Revista Pedagógica, dirigida por Maria Evelina de Sousa onde de modo muito subtil é abordada a questão da violência na tauromaquia.

NA TOURADA
Entra na arena o touro, furioso,
Arremetendo contra o cavaleiro
Que, impávido, lhe crava, bem certeiro,
Um ferro no cachaço musculoso.

Solta a fera um rugido doloroso,
A que responde o redondel inteiro~
Numa salva de palmas ao toureiro,
Vitoriando o feito valoroso.

D’um camarote chovem frescas flores,
Arremessadas pela nívea mão
De donzelinhas lindas como amores!...

Tão lindas, sim, mas parecendo feias…
Porque se apaga o brilho da paixão
Em quem jubila com dores alheias.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30896, 29 de março de 2016, p.8)
Imagem: http://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Baa150c43/16520103_niELl.jpeg

quinta-feira, 24 de março de 2016

Carta à presidente da Escola Básica Integrada de Angra do Heroísmo


Exma. Senhora

Dr.ª Nélia Rebelo
Presidente do Conselho Executivo
da Escola Básica Integrada de Angra do Heroísmo

c/c à senhora Diretora Regional da Educação, ao senhor Secretário Regional da Educação e Cultura e ao senhor Presidente do Governo Regional dos Açores

Recebi na minha caixa de correio um apelo para que enviasse, a V. Exª, um e-mail a contestar a integração de uma conferência intitulada a “A importância da festa Brava na ilha Terceira” no programa da XIV Semana da Ciência, promovida pelo Departamento de Ciências da EBI de Angra do Heroísmo.

Embora esteja convencido de que se tratará de uma perda de tempo da minha parte já que a mesma terá tido a concordância do Conselho Pedagógico da Escola e da prórpia Secretaria Regional da Educação que era uma das entidades que terá estado presente na sessão de abertura da referida semana, venho manifestar a minha estranheza e indignação pela presença de uma conhecida ganadeira que como todos sabemos aluga e vende touros para touradas à corda e de praça.

O conhecido pedagogo francês Freinet, sobre a educação escreveu que o principal fim “é o crescimento pessoal e social do indivíduo, elevar a criança a um máximo de humanidade preparando-a a não apenas para a sociedade atual, mas para uma sociedade melhor, fazendo-a avançar o mais possível em conhecimento num constante desabrochar”.

Pode Vossa excelência não concordar com as ideias e com a pedagogia de Freinet, mas acho que qualquer pessoa de bom senso pode rever-se no fim enunciado. Assim sendo, gostaria que Vossa Exª refletisse sobre que contributo poderá dar a referida conferência para o conhecimento científico das crianças, como pode a divulgação e banalização da tortura mais ou menos suave contribuir para a formação pessoal de uma criança e, por último, como pode a mesma contribuir para a formação de pessoas mais humanas numa sociedade futura que queremos melhor, isto é onde haja respeito por todos os seres vivos que com os humanos partilham a vida na terra.
Com os melhores cumprimentos

Teófilo José Soares de Braga

quarta-feira, 23 de março de 2016

À Procura do Movimento da Escola Moderna


À Procura do Movimento da Escola Moderna

Nos primeiros anos após a minha profissionalização como professor de Física e de Química, que ocorreu, em 1979, com a conclusão do meu estágio pedagógico na Escola Secundária Domingos Rebelo, procurei sempre atualizar-me no que diz respeito à componente científica da profissão, bem como ler tudo o que se publicava sobre as diferentes correntes da pedagogia.

Para além da leitura de textos de vários pedagogos, procurei saber que movimentos pedagógicos existiam em Portugal, o que faziam e se havia alguma delegação ou alguém nos Açores integrado nalgum deles.

A minha tentativa de contatar com alguém do (MEM) Movimento da Escola Moderna só se concretizou trinta anos depois, com a chegada a São Miguel de um “braço” do Núcleo Regional dos Açores, que tem promovido sessões de formação sobre a pedagogia do MEM, aberta a todos os docentes interessados, na Escola Secundária das Laranjeiras.

Para além de participar nas diversas sessões de formação, estou a reler toda a bibliografia que tinha sobre o MEM, nomeadamente sobre as suas origens tanto em França e como noutros países, bem como em Portugal, onde já identifiquei uma colega que fez parte do movimento ainda durante a ditadura do Estado Novo.

Neste texto, procurarei dar a conhecer um pouco sobre o fundador do Movimento, o educador francês Célestin Freinet (1896-1966) que, segundo Roger Gilbert, foi “um homem livre que, em presença duma situação social que não aprova, a tudo recorre para a transformar”.

Célestin Freinet teve uma vida muito atribulada. Com efeito, antes de cursar o magistério foi pastor, combateu na primeira guerra mundial, tendo os seus pulmões sido afetados para o resto da vida, foi preso aquando da segunda guerra mundial e enviado para um campo de concentração alemão, depois de libertado juntou-se à resistência francesa e combateu o nazismo.

Em 1925 filiou-se no Partido Comunista Francês, tendo-se desligado do mesmo na década de 1950 após ter sido acusado por quele de “pensador burguês” por ter colaborado com o governo após o fim da segunda guerra mundial.

No que diz respeito ao ensino, em 1920, foi colocado como professor adjunto numa aldeia onde começou a “ensinar por meios diferentes da lição tradicional”, mais tarde em 1927, fundou a Cooperativa do Ensino Laico que tinha por principal objetivo “fabricar e editar material que seja útil à nossa escolha pedagógica” pois as editoras não se interessavam por editar materiais provenientes de um “pequeno professor primário” que fazia “afirmações inquietantes e pretende regenerar a escola e os educadores”

Em 1933, estando a lecionar em Saint-Paul de Vence, a comunidade local conservadora não aceitou as inovações por ele introduzidas tendo conseguido que fosse exonerado. Freinet não baixou os braços e dois anos depois criou a sua própria escola

Em 1956, liderou uma campanha, que acabou por sair vitoriosa, a exigir o número máximo de 25 alunos por turma.

Em Portugal, resultado da correspondência trocada entre Freinet e Álvaro Viana de Lemos, este no final da década de 20 do século passado introduziu algumas técnicas Freinet na Escola Normal de Coimbra.

Mais tarde, em 1965, surgiu o MEM, a partir de um grupo de trabalho criado no Sindicato Nacional dos Professores que com todas as cautelas, por causa da ditadura, decidiu aderir à FINEM- Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna, organização criada em 1957.

Ainda sobre os primeiros tempos do MEM em Portugal, no livro “A Pedagogia de Freinet por aqueles que a praticam”, editado em 1976, pela Moraes Editores, pode ler-se uma entrevista a uma das dinamizadoras de uma escola Freinet, situada nos arredores de Lisboa, que funcionou antes de 1974 quase na semiclandestinidade e onde “por ocasião das inspeções era preciso esconder os jornais escolares e fechar à chave o compartimento onde se encontravam as imprensas escolares”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30892, 23 de março de 2016, p.13)

Imagem: http://4.bp.blogspot.com/-R5WwPNGt8Ro/UXGCYM1VRpI/AAAAAAAAAME/zUuESSscRvg/s1600/Imagem1+freinet+2.png