quarta-feira, 17 de agosto de 2016
A senhora Lysette Figueiredo e o Caldeirão
A senhora Lysette Figueiredo e o Caldeirão
Já, por mais de uma vez, fiz referência ao famoso Caldeirão, situado na Estrada da Ribeira Grande, que era impropriamente usado para sepultura de animais que para lá eram atirados vivos e que por falta de alimento e de água acabavam por morrer.
Neste texto, vou recordar o trabalho meritório da senhora Lysette da Cunha Augusto de Figueiredo que, em 1973, era a presidente da SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, tendo sucedido a Fédora Serpa de Miranda, que por sua vez foi eleita presidente após o falecimento da sua fundadora, Alice Moderno.
Infelizmente tenho, até ao momento, muito pouca informação sobre a atividade da Senhora Lysette Figueiredo e da própria SMPA durante a sua presidência, mas das parcas informações recolhidas facilmente se chega à conclusão de que se tratava de uma cidadã muito dedicada à causa dos animais.
Em Janeiro de 1973, o jornal “Açores” elogiou “a dinâmica” presidente da SMPA que por várias vezes desceu ao Caldeirão com o objetivo de “salvar as criaturas vivas que lá se encontravam”.
A 3 de Fevereiro de 1973, o jornal “Açores” publicou um comunicado da SMPA onde aquela associação esclareceu que para o Caldeirão não eram atirados apenas animais mortos, velhos ou doentes. Com efeito, a presidente da SMPA encontrou lá animais “vivos, e outros com saúde relativa, mas todos cheios de fome e sede”, tendo retirado “razoável número de cães, todos eles válidos, cães de gado, como aqui se chamam, e até bons cães de guarda”.
Hoje, já não existindo o Caldeirão, as pessoas continuam a abandonar, impunemente, cães e gatos, não muito longe do local onde se situava o Caldeirão, no Canil Municipal de Ponta Delgada (Centro de Recolha Oficial (CRO) de Animais de Companhia de Ponta Delgada), bem como um pouco por todo o lado, inclusive nos ecopontos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31012, 17 de agosto de 2016, p.16)
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Francisco de Amaral Borges e o vegetarianismo
Francisco de Amaral Borges e o vegetarianismo
Depois da fase do incentivo ao consumo de carne e de outros produtos extraídos dos animais, nos últimos tempos tem crescido o número de pessoas que, por razões de saúde, por motivações ambientais ou por preocupações com o tratamento e abate de animais, tem alterado os seus hábitos alimentares, quer reduzindo, quer eliminando todos os alimentos de origem animal.
O vegetarianismo que começou por ser condenado pelas entidades oficiais, passou a ser olhado de outra maneira a partir do momento em que a Direção-Geral de Saúde editou o manual “Linhas de Orientação para uma Alimentação Vegetariana Saudável”, isto é em julho de 2015.
O surgimento de uma associação vegana em São Miguel é fruto da divulgação entre nós das várias correntes do vegetarianismo e da procura de um novo estilo de vida e não tem qualquer relação com as pessoas que no passado optaram por viver e alimentar-se fugindo ao que era mais comum.
De entre as pessoas que temos conhecimento e que de algum modo foram precursoras do que hoje está a acontecer destaco o Dr. Francisco Amaral Borges que foi professor de inglês na Escola Secundária Antero de Quental.
Em 1972, o “Circulo de Amigos da Lagoa” promoveu uma palestra intitulada “O naturismo como ideal ao serviço da saúde” que foi proferida pelo Dr. Francisco Amaral Borges e transcrita na íntegra em dois números do jornal “Açores”.
Através da leitura do texto da palestra, a primeira conclusão que se tira é a de que uma das motivações para a prática do naturismo é a saúde, como se pode ver através do seguinte extrato:
“Se uma nação só é verdadeiramente rica quando possui cérebros lúcidos e geniais capazes de tornarem uma sociedade feliz em todos os domínios, somos levados a concluir que a profilaxia das doenças crónicas e a prática de uma alimentação racional só poderão fazer-se ensinando a vier com saúde”
O que era para o Dr. Francisco Borges viver com saúde?
Viver com saúde é viver tendo em conta os perigos das bebidas alcoólicas, do tabaco, da poluição, dos erros de dietética e da vida sedentária, entre outros.
No que diz respeito à alimentação, o palestrante defendeu que o naturismo “ensina a respeitar a existência de todos os seres e como tal condena a alimentação cárnea, considerando-a criminosa pelo atentado que isso representa contra a vida dos animais, que, pertencendo, como nós, à mesma escala de evolução, lhes assiste também o direito de um lugar devido”.
Depois de passar grande parte da palestra a demonstrar os malefícios da carne e a desmontar a ideia de que a proteína animal era superior à vegetal, o Dr. Francisco Amaral Borges socorreu-se da espiritualidade/religião para apoiar as suas ideias, afirmando que Cristo “pertencia à seita dos Essénios, que eram estritamente vegetarianos”.
Homem de convicções fortes, o Dr. Francisco Amaral Borges terminou a sua palestra demonstrando uma confiança inabalável num futuro diferente, como se pode ler pelo seguinte extrato:
“A defesa de uma causa - quando justa - é sempre difícil e demorada. E são sobretudo as causas que visam o interesse geral e coletivo as que mais dificuldades oferecem. Elas requerem, para serem sustentadas, muita persistência, tenacidade e confiança, durante muitos anos, tantos que uma existência, só, não basta para as impor à luz da razão. Mas a fé move montanhas, como sói dizer-se, opera prodígios, porque os que a possuem nunca desanimam e confiam ainda na natureza boa do Homem”.
A palestra não deverá ter deixado ninguém indiferente, o mesmo aconteceria se fosse proferida hoje. Também, considero que há pontos de convergência entre o pensamento do Dr., Francisco Amaral Borges e o dos vegetarianos de hoje, sendo o principal a fé na possibilidade de haver um mundo novo melhor para todas as criaturas.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31007, 10 de agosto de 2016, p.16)
Etiquetas:
2016,
Francisco Amaral Borges,
vegetarianismo
Lysette Figueiredo e a SMPA em 1971
Lysette Figueiredo e a SMPA em 1971
No presente texto, faço referência ao funcionamento da SMPA- Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e às dificuldades encontradas por quem se dedicava, em 1971, à causa animal.
Sobre o associativismo, tanto no tempo de Alice Moderno como sob a presidência da senhora Lysette Figueiredo, a SMPA teve um funcionamento que é exemplo para as associações atuais. Com efeito, sempre houve a comunicação aos associados sobre o que faziam. A título de exemplo, refere-se que nos dias 13 e 27 de novembro de 1971 realizou-se uma assembleia geral onde, de acordo com o jornal “Açores”, de 27 de novembro, naquele dia “a senhora D. Lysette da Cunha Augusto de Figueiredo, que tem com a maior proficiência presidido à Direção, comunicará aos sócios a feliz consecução de alguns dos desideratos da Sociedade”.
Sobre as dificuldades encontradas por quem se dedicava à proteção dos animais, a senhora Lysette Figueiredo, numa carta aberta dirigida ao diretor do jornal Açores mencionu, entre outras, as seguintes:
- Os riscos que “correram aqueles que uma vintena de vezes desceram ao Caldeirão”;
- Os vexames sofridos porque passou ao “chamar a atenção do Fiscal dum recinto público para as condições de alojamento de animais;
- Ser mordida por um cão, de uma senhora que “tem vinte e um cãezinhos dentro de casa”;
- A recusa em ceder terreno para instalar “um recinto para recolha de animais chamados vadios”;
- As coisas bem desagradáveis que ouvia quando pessoalmente ia cobrar as quotas para “economizar a verba dum cobrador”.
Termino com a apresentação de um caso caricato que ocorreu quando um cidadão quis resgatar um animal que tinha sido apanhado na rede. Segundo a senhora Lysette Figueiredo, a pessoa em questão “dirigiu-se ao departamento municipal competente para tirar a licença, e qual não foi o seu espanto ao exigirem-lhe a importância de 200$00 de multa. Mas porquê? Esse senhor não era dono do cão. Portanto difícil de entender a multa que pagou […]. Teve mesmo de pagar, se quis ter a íntima alegria, ditada pela consciência de tomar conta do cãozinho que ia ser abatido”.
Este caso faz-me recordar o que se passa hoje, onde se paga para adotar e não por abandonar. Assim, abandonar um animal num canil é um ato tão banal como atirar um papel de rebuçado para um caixote do lixo. Até quando?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31006 de 9 de agosto de 2016, p.16)
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
MARCONI, O CIENTISTA QUE VISITOU O FAIAL
MARCONI, O CIENTISTA QUE VISITOU O FAIAL
Na minha qualidade de professor de Física e Química, sempre que lecionava a disciplina de Física ao 12º ano de Escolaridade organizava visitas de estudo às instalações da Companhia Portuguesa Rádio Marconi.
As visitas tinham sempre dois objetivos principais: fazer com que os alunos entrassem em contacto com engenheiros eletrotécnicos e mecânicos, ficando a conhecer uma das possíveis saídas profissionais e contatar aplicações práticas de conteúdos lecionados nas aulas, nomeadamente os relacionados com lançamento de satélites, o movimento destes e as comunicações à distância.
Fruto da evolução científica e tecnológica, a funções desempenhadas pela referida empresa deixaram de ter importância em termos de comunicações e as instalações foram sendo progressivamente desativadas. Por tal motivo, penso que uma das últimas visitas que fiz foi em 2002 com alunos da Escola Secundária da Ribeira Grande.
Mas, quem foi Marconi e que contributo deu para a ciência?
Guglielmo Marconi foi um físico e inventor italiano que nasceu em Bolonha a 25 de abril de 1874 e faleceu, subitamente, em Roma a 20 de junho de 1937.
Depois de o seu trabalho ter sido contestado nos Estados Unidos da América, nomeadamente por não ter descoberto nenhum aparelho, o seu mérito acabou por ser reconhecido, tendo, em 1909, recebido o Prémio Nobel da Física, juntamente com o físico alemão Karl Ferdinand Braun que descobriu os semicondutores e a quem se deve o aperfeiçoamento dos transmissores de Marconi.
O que fez então Marconi para ver reconhecida a sua obra científica?
Utilizando e aperfeiçoando instrumentos criados por outros cientistas e fazendo recurso de conhecimentos de outros, nomeadamente de Heinrich Hertz, físico alemão, que produziu pela primeira vez ondas eletromagnéticas em laboratório, Marconi realizou um conjunto de experiências que tornaram possível o estabelecimento de comunicações entre dois pontos distantes não ligados entre si por fios condutores.
Assim, em 1895, Marconi conseguiu estabelecer comunicações entre dois pontos distantes de 3 km, em1897, estabeleceu a comunicação entre La Spezia e um navio de guerra italiana que estava a 18 km de distância, em 1899 fez a transmissão entre a França e Inglaterra, distanciadas entre si de cerca de 50 km, em 1901, estabeleceu a primeira comunicação intercontinental, entre a Inglaterra e o Canadá e, em 1924, conseguiu a transmissão “da palavra humana” entre a Inglaterra e a Austrália.
Viajando no seu iate, Marconi, em 1922, esteve na ilha do Faial. No dia antes da largada daquela ilha, a Câmara Municipal da Horta prestou-lhe uma grande homenagem, tendo-o proclamado como cidadão honorário.
Teófilo Braga
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
O Dr. Teófilo Braga e os animais
O Dr. Teófilo Braga e os animais
Em texto anterior escrevi sobre a profunda amizade existente entre Teófilo Braga (1843 - 1924), um dos maiores vultos da cultura portuguesa e um dos açorianos que pela sua obra literária, intervenção cívica e política mais alto elevaram o nome dos Açores, e a acérrima defensora dos direitos dos animais Alice Moderno.
Como prova do bom relacionamento entre Teófilo Braga e o movimento de defesa dos animais, é possível encontrar na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada um cartão enviado, a 28 de maio de 1909, pela Sociedade Protetora dos Animais do Porto, àquele, então “Presidente da Academia das Ciências de Portugal”, onde se pode ler o seguinte:
“A Direção da Sociedade Protetora dos Animais esperando ser honrada por V. Exª com duas linhas de apreciação sobre o livro “Um golpe na rotina”, já enviado a V. Exª., saúda-o e associa-se à justa homenagem de consagração que a Academia das Ciências de Portugal vem de prestar a V. Exª.”
O livro “Um golpe na rotina” constava de um parecer, da Sociedade Protetora dos Animais do Porto, sobre o limite de cargas apresentado à Exma. Câmara Municipal do Porto com a colaboração de ilustres professores, engenheiros e médicos veterinários, um dos grandes problemas com que se debatiam as associações na altura em todo o país, não constituindo os Açores uma exceção. Com efeito, a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, surgida dois anos depois, também tinha como grandes objetivos proteger os animais de companhia dos abandonos e os de tiro dos maus tratos e dos excessos de cargas que eram obrigados a transportar.
A atitude de Teófilo Braga de sobre a tauromaquia pode ser conhecida através da publicação da feminista e republicana Vitória Pais Freire de Andrade “A ação dissolvente das touradas”.
De acordo com Vitória Andrade, Teófilo Braga “quando em 1889 foi demolida a célebre praça do Campo de Sant’Ana, e nesse mesmo ano foi apresentada à Câmara Municipal uma proposta para ela conceder terreno no Campo Pequeno, a fim de ali se fazer uma praça de touros, protestou com toda a energia para que tal concessão se não fizesse, atentos os fins desmoralizadores a que se destinava. Como porém se encontrava desacompanhado na luta, muito embora defendendo a verdade e a razão, foi vencido…”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31000, 2 de agosto de 2016, p.16)
quarta-feira, 27 de julho de 2016
O vegetarianismo é uma moda?
O vegetarianismo é uma moda?
“Embora eu tenha sido impedido pelas circunstâncias exteriores de observar uma dieta estritamente vegetariana, eu tenho sido desde há muito um adepto da causa, em princípio. Além de concordar com os objetivos do vegetarianismo por motivos estéticos e morais, é a minha opinião de que uma forma de vida vegetariana, pelo seu efeito puramente físico no temperamento humano, seria mais benéfica influência no destino da humanidade. (Albert Einstein)
Neste texto tento explicar o que é o vegetarianismo e depois procuro demonstrar que tenho fortes razões para pensar que a opção por aquele regime alimentar não é uma moda dos tempos atuais.
De acordo com o Centro Vegetariano, associação cujo fim é a “divulgação e promoção do vegetarianismo e veganismo, nas suas vertentes éticas, de saúde, ecológicas e económicas” um vegetariano é uma pessoa “que se alimenta basicamente de grãos, sementes, vegetais, cereais e frutas, com ou sem o uso de lacticínios e ovos. Os vegetarianos excluem o uso de todas as carnes animais, incluindo peixe”.
Entre os vegetarianos existem várias subcategorias, como os ovo-lacto-vegetarianos, os lacto-vegetarianos, os ovo-vegetarianos, os vegetarianos puros, os veganos, os frugívoros e os crudívoros.
Como através da designação da maioria das diversas categorias é fácil identificarmos os alimentos que são “autorizados” para os seus seguidores, apresentamos, a seguir, apenas a diferença entre vegetarianos puros e veganos. Assim, enquanto os vegetarianos puros apenas excluem da sua alimentação todos os produtos de origem animal, os adeptos do veganismo seguem um filosofia e estilo de vida que busca excluir todas as formas de exploração e crueldade contra animais não só na alimentação, mas também no vestuário, etc. Alem do referido, também não usam produtos testados em animais e condenam todos os espetáculos onde os animais são explorados (torturados) para divertimento (circos, touradas, delfinários, etc.)
Relativamente ao facto da opção por uma dieta vegetariana ser uma moda e como tal passageira, recorda-se que, segundo alguns autores, o vegetarianismo surgiu há cerca de 5 milhões de anos atrás e ao longo da história tem sido seguido por muitas pessoas.
Tal como acontecia em Portugal continental onde, segundo Sílvia Ferreira e Nuno Metello, num texto intitulado “O vegetarianismo ao longo da história da humanidade”, os habitantes das aldeias continuavam a ser principalmente vegetarianos, consumindo produtos de origem animal apenas ocasionalmente (geralmente em ocasiões especiais), entre nós tal também acontecia pelo menos até meados do século passado, onde por exemplo a carne de vaca só era comida aos domingos ou por ocasião das festas religiosas.
Como movimento cívico organizado, em Portugal, o vegetarianismo teve alguma divulgação através da Sociedade Vegetariana de Portugal, fundada em 1911, que tinha sede na cidade do Porto. A sua revista mensal, de excelente qualidade para a época, intitulada “O vegetariano”, chegava aos Açores onde viviam meia dúzia de assinantes em várias ilhas.
Alguns autores referem que não há, a nível mundial, estatísticas confiáveis que permitam afirmar com alguma segurança quantos vegetarianos existem. No nosso país apenas conhecemos os resultados de um estudo encomendado pelo Centro Vegetariano que apontava para a existência, em 2007, de 30 000 vegetarianos.
Não havendo dados atualizados, acreditamos que o número de pessoas que optam pelo vegetarianismo/veganismo está a aumentar pois têm vindo a crescer o número de estabelecimentos comerciais que se dedicam a vender produtos para vegetarianos/veganos, há cada vez mais restaurantes com pelo menos uma opção vegetariana nos seus menus, a comunicação social anunciou recentemente a intenção de uma empresa de refeições veganas, dos EUA, de instalar em Santa Maria da Feira uma unidade industrial que criará 600 postos de trabalho, onde haverá um investimento de 60 milhões de euros.
Para além do referido, entre nós, já está legalizada e em fase de instalação uma associação vegana, a Vegaçores – Associação Vegana dos Açores, que no passado dia 9 de julho conseguiu a proeza de juntar num jantar, em São Miguel, 80 pessoas.
Face ao exposto, penso que, sendo uma moda “uma maneira ou costume mais predominante em um determinado grupo em um determinado momento”, quando se fala em vegetarianismo/veganismo está-se a falar num regime alimentar/filosofia de vida em expansão.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30995, 27 de julho de 2016, p.12)
terça-feira, 26 de julho de 2016
Vitória Pais Freire de Andrade e a oposição às touradas
Vitória Pais Freire de Andrade e a oposição às touradas
Tenho lido alguma bibliografia sobre touradas, quer de adeptos, quer de defensores da abolição das mesmas, mas até recentemente não havia encontrado nenhuma publicação escrita por uma mulher.
No texto de hoje, farei uma breve referência a Vitória Pais Freire de Andrade (1883 - 1930), professora, natural de Ponte de Sor, e ao texto da sua autoria “A acção dissolvente das touradas”, que foi apresentado numa conferência proferida, a 29 de março de 1925, na Associação de Classe de Empregados de Escritório e editado por várias entidades, entre as quais a associação mencionada, a Associação de Professores de Portugal, a CGT-Confederação Geral do Trabalho, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a Universidade Livre e a Universidade Popular.
Vitória Pais Freire de Andrade ao longo da sua vida abraçou várias causas, entre elas a do associativismo dos professores e o feminismo, tendo militado em várias associações, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de Propaganda Feminista e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Foi, também uma militante no combate à prostituição e liderou o movimento pela abolição das touradas.
A dado passo da sua conferência, Vitória Freire de Andrade, depois de classificar as touradas como “essa vergonhosa tradição que o passado nos legou […], mas que a ciência histórica de hoje nos diz ser, por vezes, bem pouco dignificante como herança moral” manifestou a sua oposição às mesmas já que era “por natureza e por educação” contrária a todas as violências.
Nada suave nas suas palavras, Vitória Freire de Andrade, que considerou as touradas como “a arte dos brutos” defendeu que enquanto aquelas não acabassem se devia pelo menos proibir “que criancinhas ainda inocentes, ainda livre do contágio dos sentimentos grosseiros, se conspurquem em tal ambiente”.
Sobre as chamadas touradas de caridade, a companheira de Alice Moderno na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas disse:
“E àqueles que nos disserem que as touradas são precisas, porque são uma bela fonte de receita para obras de beneficência, dir-lhe-emos simplesmente o seguinte: que infelizmente, ainda transigimos com o facto de se organizarem festas para delas se tirar recursos para os mais necessitados […] mas que ao menos se junte o útil ao agradável. Que essas festas produzam o pão indispensável para o estômago e a não menos indispensável luz para os espíritos. Que nem uma só ideia reservada presida à sua orientação, sob pena de serem imediatamente desmascarados os seus falsos organizadores. Que uma única divisa se admite: fazer o bem pelo bem.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30994, 26 de julho de 2016, p. 16)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



