segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
José Silvestre Ribeiro e a Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa
José Silvestre Ribeiro e a Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa
Quando se fizer a história do movimento associativo animalista nos Açores, não pode ficar esquecida a existência na ilha de São Miguel, no início da década de noventa do século passado, de uma delegação da SPA-Sociedade Protetora dos Animais, de Lisboa, fundada a 28 de novembro de 1875.
A Sociedade Protetora dos Animais, criada pelo conselheiro José Silvestre Ribeiro (1807-1891), é uma instituição privada de utilidade pública, sem fins lucrativos que tem por objetivo a “missão civilizadora e benemérita de melhorar por todas as formas ao seu alcance, as condições de vida dos animais”
José Silvestre Ribeiro, tal como a esmagadora maioria das pessoas que se dedicam à causa animal, para além da sua participação política e o seu trabalho de relevo como historiador, dedicou-se a várias causas, tendo uma atividade cívica digna de registo. A título de exemplo, destacamos a fundação do Montepio Geral e ter sido responsável pela edição da revista da Associação dos Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses.
José Silvestre Ribeiro foi, também, sócio honorário da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, associação fundada em Ponta Delgada com o objetivo de promover a agricultura e que editou o jornal “O Agricultor Micaelense”.
Aquando da segunda Caída da Praia, crise sísmica “de origem tectónica, devida ao afundamento do graben das Lajes”, em 1841, José Silvestre Ribeiro destacou-se na ajuda às vítimas e no processo de reconstrução da Praia da Vitória, tendo, na qualidade de Governador Civil, organizado uma Comissão de Socorros.
José Silvestre Ribeiro também se destacou, em 1846 e 1847, no combate à fome que assolou a Madeira, causada por uma praga agrícola que afetou os batatais. Por sua iniciativa, como Governador Civil do Funchal, criou a 10 de março de 1847, “o então denominado Asilo de Mendicidade do Funchal, com o objetivo de recolher todos os indivíduos (homens, mulheres e crianças) encontrados a mendigar pelas ruas”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 3115, 14 de fevereiro de 2017, p.14)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Silvestre_Ribeiro
Etiquetas:
2017,
José Silvestre Ribeiro,
Sociedade Protetora dos Animais
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
A República e a SMPA
Os primeiros passos da SMPA e “A República”
De acordo com algumas fontes foram sócios fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais as seguintes pessoas: Caetano Moniz de Vasconcelos (governador civil), Alfredo da Câmara, Amâncio Rocha, Augusto da Silva Moreira, Fernando de Alcântara, Francisco Soares Silva, José Inácio de Sousa, Joviano Lopes, Manuel Botelho de Sousa, Manuel Resende Carreiro, Marquês de Jácome Correia, Miguel de Sousa Alvim, Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.
Algumas das pessoas mencionadas estiveram ligadas ao jornalismo, destacando-se Manuel Resende Carreio que foi diretor do Diário dos Açores, Alice Moderno que foi diretora do jornal “A Folha”, Maria Evelina de Sousa que foi diretora da “Revista Pedagógica”, Miguel Soares Silva que foi diretor do jornal “Vida Nova”, Alfredo da Câmara que foi administrador do jornal “O Repórter” e Miguel de Sousa Alvim que para além de ter fundado o semanário “Interesse Público”, foi redator do Diário dos Açores e d’ “A República”.
“A República” foi um dos órgãos da comunicação social micaelense que se regozijou com a criação da SMPA – Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, tendo-se disponibilizado para colaborar, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para que a iniciativa do jornal “A Folha”, da “Revista Pedagógica” e do “Diário dos Açores” fosse bem-sucedida.
De acordo com um texto publicado no seu nº 13, de 19 de abril de 1911, sobre o assunto pode-se ler o seguinte:
“Demais Ponta Delgada devia já ter, entre as suas instituições, uma [associação] com esta índole. Tem sido um descuido a bem dizer imperdoável, porque não há razões que se oponham à sua realização.
Muito ao contrário d’isto, cada vez se torna mais necessária a criação de uma Sociedade Protetora de Animais nesta cidade, porque os seus esforços, de mãos dadas com a ação policial, podem atuar poderosamente sobre a índole, por vezes pouco humana, de uma grande parte do nosso público no seu trato com os animais”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31149, 7 de fevereiro de 2017, p.14)
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
O naturismo e o anarquismo em Ângelo Jorge (2)
O naturismo e o anarquismo em Ângelo Jorge (2)
No texto de hoje, vamos continuar a dar o conhecer o pensamento de Ângelo Jorge, recorrendo aos seus escritos no jornal “Vida Nova” e na “Barréla”, que apresenta o subtítulo “Panfleto de crítica higiénica contra a podridão nacional”, onde o autor zurze, sem dó nem piedade, nos chamados anarquistas ortodoxos.
No jornal micaelense “Vida Nova”, encontrámos dois textos de Ângelo Jorge, o primeiro, publicado a 30 de junho de 1910, intitulado “A opinião dos outros” e o segundo com o título “A propriedade”, publicado no dia 31 de janeiro de 1911.
Por retratar melhor o pensamento de Ângelo Jorge que aliava as preocupações sociais com as questões da saúde, apenas vamos transcrever algumas passagens do segundo texto.
Sobre o anarquismo, Ângelo Jorge, escreve que só por falta de educação existente em Portugal aquela corrente de pensamento é considerada como sinónimo de “Bomba, Caos, Desordem, Pilhagem” e acrescenta que persiste a falsa ideia de que as pretensões dos anarquistas são o roubo e a “destruição de quanto existe: a Família, o Estado, a Propriedade”.
O autor concorda com a frase de Proudhon “A propriedade é um roubo” dizendo que a mesma “é ainda hoje duma justeza sem igual” e acrescenta “Ladrão é todo aquele que possui o supérfluo em detrimento dos que nem o necessário têm, o que não quer dizer, de forma alguma, que ele os houvesse roubado, no sentido restrito e legal em que este termo geralmente é entendido, mas sim que a posse do supérfluo em que ele se acha investido é ilegítima e iníqua em face da verdadeira razão que proclamam para todos o mesmo direito à vida”.
Ângelo Jorge termina o seu texto imaginando uma sociedade onde, como escreveu Vitor Hugo “a propriedade, esse grande direito humano, essa suprema liberdade, essa elevação do espírito sobre a matéria, essa soberania do homem interdita ao irracional, longe de ser suprimida, será democratizada e universalizada”.
O extrato que se apresenta, a seguir, ilustra bem a utopia que guiou a vida do autor:
“Pomares magníficos onde as frutas mais odoríferas loirejam; hortas esplendidas onde vicejam as mais belas plantas leguminosas; jardins ideais onde as flores mais raras e mimosas se elevam; florestas impenetráveis onde vivem a sua vida silenciosa as árvores as mais vetustas; terras as mais férteis e as mais ricas onde o trigo cresce sob o olhar acariciante do sol - tudo, tudo será a pertença ilimitada e natural de todos, a todos oferecereis o pão e o repouso, a vida do coração, e todos terão o direito imprescritível de vos revolver as entranhas, de vos fecundar com o esforço hercúleo do seu braço! Livre será a terra, como livre é o mar, como livre é o ar, como livre é a água e livre será sobre a terra livre o Homem, a obra mais perfeita da Natureza pelo pensamento e pelo sentimento, pela inteligência e pela razão, pelo amor e pela dor”.
Sobre o anarquismo e combatendo o pensamento único, Ângelo Jorge escreveu no primeiro número de “ Barréla” o seguinte:
“Em Portugal, tudo se falsifica: eis a dolorosa verdade. Caracteres e géneros alimentícios, ideias e consciências, tudo neste delicioso país de laranjeiras em flor e de burros enfatuados sofre a ação fundamentalmente nefasta dos adulteradores de má morte. (…)
O anarquismo, esse mesmo, não pode escapar à infausta sina.
O anarquismo, em Portugal, está, como tudo o mais, falsificado”.
“Em nome da inviolável e da imprescritível liberdade humana”, Ângelo Jorge escreve:
“Abaixo as coleiras, que o homem não é cão!
…
Abaixo as celas, as prisões, as gargalheiras, quer elas ostentem o distinto negro da Opressão, quer nos mostrem o rótulo doirado da Anarquia!”
(Correio dos Açores, 31144, 1 de fevereiro de 2017 p.16)
“A República”, um jornal micaelense defensor dos animais
“A República”, um jornal micaelense defensor dos animais
A 14 de abril de 1911 começou a ser publicado, em Ponta Delgada, o jornal “A República” que teve, entre outros como redator principal Miguel Sousa Alvim. O seu último número foi publicado no dia 4 de Abril de 1920.
Pelas suas páginas passaram vários temas, como o combate à monarquia e ao clericalismo, a defesa dos ideais republicanos e da educação, descurada pelo regímen anterior. “A República”, também, não se esqueceu da defesa dos animais, tendo desempenhado um papel ativo na criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.
No que diz respeito à proteção animal, “A República” no dia 5 de novembro de 1911, publicou, entre outos, um texto intitulado “Justiça para os animais”, onde foram transcritas dez regras divulgadas pela Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa, que se podem sintetizar em duas: “Não faças a outrem o que não desejarias que te fizessem em igualdade de circunstâncias; e não procures alicerce para a tua superioridade nas injustiças contra quem quer que seja, porque a verdadeira justiça não diferença nem exclui”.
Dada a atualidade de algumas das regras, quase cento e seis anos depois, abaixo transcrevo três:
- “O animal sustenta-se como tu, ele sofre a fome, a sede e o frio, sendo também como tu sensível à dor e à fadiga, como ao prazer e à alegria. Evita-lhe todo o sofrimento, pois, como o procuras evitar a ti próprio.
- Foge dos espetáculos onde se pratiquem barbaridades contra os animais; e trabalha para a sua supressão, por qualquer meio ao teu alcance, na certeza de que assim prestas um bom serviço ao teu país, que tanto mais se há-de impor ao respeito estranho, quanto mais civilizado se patentear.
- Procura e promove o bem-estar de todos os seres da criação, lembrando-te de que o homem não deve ser o tirano dos seus iguais nem o algoz dos inferiores, mas o seu dirigente, o seu protetor.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31143, 31 de janeiro de 2017, p. 16)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
O naturismo e o anarquismo em Ângelo Jorge (1)
O naturismo e o anarquismo em Ângelo Jorge (1)
A palavra naturismo, tal como muitas outras, é usada em vários contextos e apresenta significados diferentes. Assim, através de uma consulta rápida na internet encontramos duas definições: uma mais restrita que considera o naturismo como “uma forma de viver em harmonia com a Natureza caraterizada pela prática da nudez coletiva, com o propósito de favorecer a autoestima, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente” e outra mais abrangente que define naturismo como “um conjunto de princípios éticos e comportamentais que preconizam um modo de vida baseado no retorno à natureza como a melhor maneira de viver e defendendo a vida ao ar livre, o consumo de alimentos naturais e a prática do nudismo, entre outras atitudes”.
O sociólogo João Freire num texto, adaptado da sua tese de doutoramento, publicado no jornal A Batalha, escreve que as práticas do naturismo, sendo muito variadas, podem ser enquadradas nas seguintes três categorias:
a. Alimentação – repúdio pela alimentação carnívora e preferência por regimes vegetarianos ou mesmo frugívoros;
b. A saúde – preferência por métodos naturais de tratamento e repúdio pela medicina e farmacopeia tradicionais;
c. A oposição ao desporto visto como competição e a preferência pelo exercício físico e pela ginástica.
Em Portugal, de entre as pessoas que praticaram o naturismo, destacaram-se alguns militantes anarquistas. Um deles, Manuel Rodrigues, escreveu que “Naturismo e Anarquismo são conceções filosóficas que quase se confundem e de cuja realização na prática depende, sem dúvida, o bem-estar da Humanidade”.
Com uma ténue ligação aos Açores, podemos referir o alentejano Gonçalves Correia e o portuense Ângelo Jorge. Gonçalves Correia, considerado anarquista tolstoiano, esteve em São Miguel em 1910, de passagem, e conversou com Francisco Soares Silva, diretor do jornal “Vida Nova”, tendo este publicado em quatro números daquela publicação quinzenal os seguintes artigos: “A caminho do ideal”, “Nós e os camponeses” e “Amor Livre”. Ângelo Jorge, um dos principais impulsionadores da Associação Vegetariana de Portugal, também escreveu para o jornal micaelense “Vida Nova” pelo menos dois textos: “A opinião dos outros” e “A propriedade”.
José Eduardo Reis, divide a vida de Ângelo Jorge em três fases. Na primeira fase, entre 1901 e 1910, Ângelo Jorge procura “difundir o ideal libertário” e “proclama a sua profética esperança no triunfo da revolução operária”. Na segunda fase, entre 1910 e 1913, Ângelo Jorge defende nos seus escritos a “adesão aos princípios terapeutas naturistas” e “as regras dietéticas ordenadoras de um regime alimentar frugívoro e vegetariano”. A última fase, entre 1914 e 1918, é caracterizada por uma abertura da consciência de Ângelo Jorge “ao sentido unitário e religioso do mundo”.
Por ainda não termos investigado com a profundidade desejada a vida e a obra de Ângelo Jorge, daremos a conhecer um pouco do seu pensamento, nas duas primeiras fases da sua vida.
Através da leitura de vários textos, nomeadamente da sua novela naturista “Irmânia”, constatamos que Ãngelo Jorge defendia que havia um “só princípio curativo na Natureza: a própria Natureza” e sustentava que todos os males da humanidade poderiam ser curados através de uma alimentação racional, “sem recurso ao sacrifício inútil cruel e sistemático de seres animais, tendo por base a fruta”.
Sobre a questão da saúde, em 1911, Ângelo Jorge que, segundo Guadalupe Subtil, acreditava que era possível “num Mundo inteiro uma só Pátria, sem fronteiras como sem despotismos, sem doenças como sem dores”, escreveu:
“A Saúde é a condição básica, sine qua non, da existência humana à flor da terra, é ela o que constitui a harmonia vital.
Cada um dos nossos órgãos, com o seu modo particular de funcionamento é uma nota na harmonia formada pelo movimento incessante do organismo.
Se essa harmonia se quebra é porque o Homem infringiu as regras omniscientes da Harmonia Cósmica.
É erro grande, crime grande até, é supor-se que a doença seja um mal necessário e natural: como acreditar que a Natureza, sendo um todo harmónico e uno, tenha erros: tenha dissonâncias?
Não honram quanto devem o Criador os que tão grande ofensa à Obra do Criador fazem.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31138, 25 de janeiro de 2017, p.8)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



