quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ainda sobre Ilídio Sardoeira



Ainda sobre Ilídio Sardoeira

Publiquei, recentemente, neste jornal dois textos sobre o Dr. Ilídio Sardoeira e continuo a pesquisar informações acerca da sua vida e obra, nomeadamente nos jornais de Ponta Delgada, durante o período em que ele viveu em Ponta Delgada e lecionou na Escola Secundária Antero de Quental.

Hoje, darei a conhecer um episódio ocorrido no funeral do prestigiado matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e algumas informações colhidas em edições antigas do Correio dos Açores.

Em junho de 1948, faleceu Bento de Jesus Caraça, grande vulto da ciência e cultura de Portugal que foi um destacado dirigente da oposição ao Estado Novo.

O seu funeral, realizado a 1 de julho, foi uma grande de manifestação de pesar pelo seu falecimento e de oposição ao governo do Dr. Oliveira Salazar, que nem depois de morto o deixou em paz. Naquele participou o Dr. Ilídio Sardoeira que ficou com a responsabilidade de fazer o seu elogio fúnebre.

A polícia política, que se infiltrou no meio de todos os antifascistas e amigos que quiseram prestar uma última homenagem a Bento de Jesus Caraças, impediu que o Dr. Ilídio Sardoeira usasse da palavra, acabando o texto do elogio fúnebre sido depositado na urna com o corpo.

Numa consulta aos jornais publicados em São Miguel, descobrimos que o Dr. Ilídio Sardoeira teve uma colaboração muito reduzida nos mesmos, que eram porta-vozes do regime salazarista como se poderá comprovar pelos artigos de opinião publicados e pela parcialidade com que foi tratada a campanha eleitoral para a presidência da república que colocou, em 1958, frente a frente os candidatos Américo Tomás e Humberto Delgado.

No ano referido, no Correio dos Açores, apenas encontramos um poema intitulado “Vale das Furnas”, dedicado à memória de Afonso Duarte, que abaixo se transcreve:

Um côncavo jardim de ramos nascentes
Com píncaros de assombro vigiando;
Um coração de fogo nas raízes
Primaveras de cor aos olhos dando.

Líquida maravilha de água e pedra
É uma concha, à noite, de levar …
Alto, o silêncio alegre das estrelas
Casa-se ao canto triste que é de mar.

Em 1989, a Escola Secundária Antero de Quental editou o conto “A Princesa, o Pastor e o Rei”, que havia sido publicado no jornal “Comércio do Porto, em 1969, onde Ilídio Sardoeira apresenta uma versão sobre a Lenda das Sete Cidades.

Como se pode ler na brochura, a iniciativa daquela escola foi uma “singela e justa HOMENAGEM da Escola Secundária Antero de Quental, onde foi PROFESSOR e fez discípulos, onde foi “SEMEADOR E SEMENTE”, semente que floriu pela força da amizade”.

A sessão de lançamento do livro ocorreu no dia 15 de novembro, na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, tendo a obra sida apresentada pelo Prof. Doutor José de Almeida Pavão que também foi docente daquele estabelecimento de ensino e amigo e admirador de Ilídio Sardoeira.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31242, 31 de maio de 2017, p. 16)

terça-feira, 30 de maio de 2017

A Revista Pedagógica e os animais


A Revista Pedagógica e os animais

Como escrevi no último texto desta série, no próximo dia 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.

O seu trabalho, em prol de uma sociedade açoriana melhor, até hoje não foi reconhecido e a sua obra ainda não mereceu o necessário estudo e a devida divulgação.

De entre o que ela fez, destaco a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que, entre 1909 e 1915, para além de estar ao serviço da educação e dos professores, prestou um grande contributo à cultura, à moral, à igualdade de género e à causa animal.

No seu combate pelo respeito aos animais, Maria Evelina de Sousa contou com diversas colaborações, algumas das quais de figuras prestigiadas a nível nacional, como Luís Leitão, que foi um grande defensor dos direitos da criança e dos animais, e José Fontana da Silveira, notável jornalista e escritor autor de inúmeros livros para crianças.

A Revista Pedagógica não se limitou à defesa dos animais ditos de companhia, publicou textos contra a caça, em defesa das aves e contra práticas cruéis, como as touradas.

Sobre este assunto, transcrevo o poema “Na tourada”, da autoria de José Batista, publicado em abril de 1915.

Entra na arena o touro, furioso,
Arremetendo contra o cavaleiro.
Que, impávido, lhe crava, bem certeiro,
Um ferro no cachaço musculoso.

Solta a fera um rígido doloroso,
A que responde o redondel inteiro.
N’uma salva de palmas ao toureiro,
Vitoriando o feito valoroso.

D’um camarote chovem frescas flores,
Arremessadas pela nívea mão
De donzelas lindas como amores!...

Tão lindas, sim, mas parecendo feias…
Porque se apaga o brilho da paixão
Em quem jubila com dores alheias.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31241, 30 de maio de 2017, p.14)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa



A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa

“Leitor! Queres ter saúde? Entrega-te à Natureza, cumpre as suas leis, não a ofendas. E serás outro homem, amarás a Verdade e o Bem e a Moral” (Amílcar de Sousa, O Vegetariano, Janeiro de 1914)

A 17 de abril deste ano, a Assembleia da República aprovou a Lei nº11/2017 que estabelece a obrigatoriedade da existência de uma opção vegetariana nas ementas das cantinas e refeitórios públicos.

De acordo com a referida lei, a obrigatoriedade depende de haver procura e em caso desta ser pequena “as entidades gestoras das cantinas podem estabelecer um regime de inscrição prévio de consumidores da opção vegetariana”.

A lei é também clara quando define opção vegetariana como “a que assenta em refeições que não contenham quaisquer produtos de origem animal”. Trata-se, portando, da opção alimentar que é conhecida como vegetarianismo estrito que, segundo a Associação Vegetariana Portuguesa, “para além da carne, exclui todos os alimentos de origem animal, como laticínios, os ovos e o mel”.

O caminho para chegar à situação atual foi muito longo, milenar. Com efeito, se várias pessoas ao longo dos tempos fizeram a sua alimentação excluindo quaisquer produtos de origem animal, as organizações vegetarianas são mais recentes, tendo a primeira surgido em 1847, em Manchester. Em Portugal, só em 1908 (ou 1911?), surgiu a SVP - Sociedade Vegetariana de Portugal, e nos Açores, em 2016, foi criada a Associação Vegana dos Açores.

Se há dúvidas quanto à data de fundação da SVP, há consenso quanto ao pioneiro do vegetarianismo em Portugal, apontando todos os autores o nome do médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, que nasceu em Cheires, Alijó, em 1876, e faleceu, em 1940, no Porto.

Formado em medicina pela Universidade de Coimbra, Amílcar de Sousa fundou e dirigiu a revista mensal “O Vegetariano” e foi responsável pela criação da Sociedade Vegetariana de Portugal, tendo sido o seu primeiro presidente.

Para além da sua dedicação à divulgação do vegetarianismo, Amílcar de Sousa escreveu vários livros sobre saúde, alimentação, o vegetarianismo e a paz, tendo escrito uma novela intitulada “Redenção”.

Amílcar de Sousa foi, também, um grande adepto do pedestrianismo. Com efeito, caminhava dezenas de quilómetros a pé, descalço, sem apresentar sinais de cansaço, tendo uma vez percorrido mais de 160 km, de Lisboa a Sines.

Amílcar de Sousa era conhecido nos Açores, quer através da revista “O vegetariano”, que tinha alguns assinantes no arquipélago, quer através dos jornais. Um deles, o jornal “A República”, em 1915, publicou uma reportagem sobre “A religião do naturismo” que inclui uma entrevista com aquele médico.

Embora não esteja correto classificar o naturismo como uma religião, pela leitura das respostas de Amílcar de Sousa ficamos a saber que também não é uma mera questão de alimentação, como se poderá constatar através do extrato seguinte:

“As cadeias estão cheias de criminosos, e foi principalmente o uso do álcool que os levou ao crime. Os hospitais estão a abarrotar de doentes, devido às complicações da culinária. A vida é cada vez mais onerosa, pelas exigências do estomago. Ora, com o naturismo, dispensando todas as bebidas, e por consequência o álcool, não se cria criminosos; não precisando da cozinha, evita a maior parte das doenças; limitando aos frutos a alimentação, estabelece o equilíbrio da economia doméstica”.

Perguntado se com o naturismo as doenças desapareceriam, respondeu, citando um “escritor inglês: Se todos os homens fossem naturistas, os médicos passariam a cultivadores de frutos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31237, 25 de maio de 2017, p.14)

terça-feira, 23 de maio de 2017

Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada


Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada

Embora não dê grande importância as distinções conferidas a personalidades e instituições pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, pois, a par de pessoas que pela sua ação foram e constituem exemplo para os demais, há outras que pouco fizeram desinteressadamente para a sociedade onde vivem ou viveram.

De entre as pessoas já distinguidas, destaco a figura de Alice Moderno, que foi exemplo em várias áreas da atividade humana, com destaque para o movimento feminista e de defesa dos animais.

Com uma vida que se cruzou com a de Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa (1 de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) foi uma distinta professora primária que foi pioneira na criação de uma biblioteca escolar, na Escola de Santa Clara e na introdução de novos métodos de ensino, como o Legográfico-Luazes e o de João de Deus.

Como jornalista, destaca-se a sua colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo uma distribuição a nível nacional.

Lutadora contra a desigualdade, Maria Evelina de Sousa, foi militante de várias associações defensoras da causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de Propaganda Feminista e a Associação Feminina de Propaganda Democrática.

No que diz respeito à defesa dos animais, para além da sua intervenção na imprensa, onde condenou os maus tratos, foi, ao longo da sua vida, com Alice Moderna uma das principais dinamizadoras e dirigentes da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, fundada em 1911.

A 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31236 de 24 de maio de 2017, p. 14)

Em defesa do sossego nas Sete Cidades

domingo, 21 de maio de 2017

Forcados incultos


Forcados incultos
A 18 de julho de 2007, um grupinho de meninos educados na ilha Terceira na arte de bem torturar animais decidiram criar uma associação que tem por objeto principal “a pega na garraiada da queima das fitas”. Quando não há animais para importunar a associação, também, pretende “a união e agregação de açorianos estudantes em Coimbra, pois não existe nenhuma outra "organização" em Coimbra que os represente ou que os possa agregar.”

A denominada “Associação Grupo de Forcados Açoreano Tremores de Terra” é, segundo os seus responsáveis, “o mais antigo grupo de forcados existente na região de Coimbra” que “tem contado com a colaboração do Grupo de Forcados da Escola Agrária de Coimbra”.

Este ano, como a tortura de animais já passou de moda, decidiram organizar um Encontro de Estudantes Açorianos que contou com a colaboração do Governo Regional, que comparticipou com cinco mil euros, e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que atribuiu um apoio financeiro no valor de mil euros.

Do que conhecemos do programa do encontro não constou nenhuma prática de tortura animal, mas não deixa de ser estranho um encontro de estudantes que pretendeu discutir, entre outros assuntos “a Autonomia dos Açores, as potencialidades da Região para o regresso dos estudantes que se encontram no exterior” seja organizado por uma associação que tem por objetivo principal atormentar e maltratar bovinos.

J. Ormonde

quarta-feira, 17 de maio de 2017

SOCIALISMO E GAVETAS


SOCIALISMO E GAVETAS

Terá sido na sequência de uma decisão da Primeira Internacional (AIT) que foi constituído em Portugal o Partido Socialista que contou com o contributo de, entre outros, Azedo Gneco, operário gravador na Casa da Moeda e com um pensamento muito próximo das ideias de Karl Marx, José Fontana, de nacionalidade suíça, encadernador, depois caixeiro e sócio-gerente da Livraria Bertrand e um grande adepto do cooperativismo, Nobre França, tipógrafo que foi o primeiro secretário da Secção Portuguesa da AIT e redator do primeiro programa daquele partido e Antero de Quental, que dispensa qualquer apresentação.

A participação do partido socialista, quer durante a monarquia, quer na Primeira Rrepública, traduziu-se num fracasso já esperado, pois os potenciais votantes, os trabalhadores, não podiam votar por serem na sua esmagadora maioria analfabetos. Sobre as eleições, Antero de Quental, que foi convidado para ser candidato a deputado afirmou: “ Não pretendo ser deputado. Sei, porém, que não é também isso que o P.S. tem em vista, mas propriamente marcar e definir, com um voto, a sua posição no tereno político. A candidatura neste caso é mais um pretexto, uma ocasião”.

Na Primeira República, alguns ideais do Partido Socialista foram esquecidos, surgiram divergências várias entre os que socialistas favoráveis à participação de Portugal na Guerra Mundial e os que se opunham e a participação de socialistas nos governos levaram ao afastamento de muitos militantes. Para além do declínio da organização, os socialistas que chegaram a ter muita influência nos sindicatos e a controlar o movimento cooperativo perderam terreno para os sindicalistas revolucionários.

A atuação dos socialistas foi criticada, por Bento Gonçalves, que foi secretário-geral do Partido Comunista Português, fundado a 16 de março de 1921, nos seguintes termos:
“Fora o Partido Socialista um partido revolucionário e o proletariado português teria, em 1910, decidido as suas reivindicações dessa época e firmaria melhor as suas posições. Mas quem tinha a palavra era um partido oportunista, um partido que desviava a classe operária do seu justo caminho, colocando-a à mercê dos interesses da burguesia republicana”.

Já durante o Estado Novo, António Sérgio, que esteve refugiado em França, tentou uma aproximação ao que restava do Partido Socialista, tendo, segundo José Hipólito dos Santos, num jantar do 1º de Maio realizado em 1947, apresentado uma proposta de construção do socialismo baseado no cooperativismo, tal como preconizava José Fontana, quando escreveu: “Queremos a emancipação económica do proletariado pelas sociedades cooperativas de produção e de consumo, organizadas de modo que os produtos sejam dos produtores – o que vale o mesmo que dizer: acabe-se a exploração do homem pelo homem.” De acordo com José Hipólito dos Santos, as propostas de António Sérgio “foram recebidas com as maiores reservas- ele era considerado como um intelectual desligado das realidades nacionais, um homem que gostava de falar e de falar bem, mas o socialismo não se coaduna com utopias…”

Em 1973, aquando da sua fundação, o Partido Socialista, na sua Declaração de Princípios, declarava que tinha “por objetivo a edificação de uma sociedade sem classes, em que os trabalhadores serão produtores associados, o poder, expressão da vontade popular e a cultura, obra da capacidade de todos” e repudiava “o caminho daqueles movimentos que, dizendo-se social-democratas ou até socialistas acabam por conservar deliberadamente ou de facto as estruturas do capitalismo e servir os interesses do imperialismo”.

Hoje, não sei se haverá algum militante socialista que se reveja na Declaração de Princípios mencionada.

Na declaração que está em vigor, aprovada no congresso realizado em 2002, a linguagem está mais suavizada e os objetivos são tão vagos que poderiam ser subscritos por pessoas dos mais diversos quadrantes político-partidários, como se pode constatar pelo seguinte extrato, onde é preconizada: “ uma sociedade mais livre, mais justa, mais solidária, mais pacífica, através do aperfeiçoamento constante e do desenvolvimento harmonioso da democracia”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31231, 17 de maio de 2017, p.18)