terça-feira, 6 de junho de 2017

Maria Evelina de Sousa e a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais


Maria Evelina de Sousa e a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais

Penso não estar errado ao afirmar que embora Maria Evelina de Sousa tenha abraçado várias causas a que terá tido mais importância em termos sociais foi a da educação, quer através da sua profissão de professora, quer através da direção da Revista Pedagógica.

A outra grande causa a que ela se dedicou foi a da proteção animal, através dos textos que publicou em vários periódicos, como a Revista Pedagógica ou o Correio dos Açores, e através do seu trabalho na SMPA- Sociedade Micaelense Protetora dos Animais de que foi uma das fundadoras, em 1911.

Maria Evelina de Sousa foi a autora dos estatutos da SMPA, tendo para a sua elaboração usado como “modelo os estatutos da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa”. Sobre as diligências para a criação da SMPA, Maria Evelina de Sousa lamentou, na Revista Pedagógica de 6 de outubro de 1910, o facto de ter suspendido os trabalhos para a sua concretização “por falta de coadjuvação da parte dos restantes membros da comissão”.

Depois de um período de alguma inatividade da SMPA, foi criada, em 1931, uma comissão que teve por missão a sua reorganização. Maria Evelina de Sousa foi um dos membros da comissão que desenvolveu esforços para a eleição de uma nova direção e para o estudo dos meios a usar para intensificar a proteção aos animais.

Para além de ter sido o braço direito (e o esquerdo) de Alice Moderno, em muitas ocasiões foi Maria Evelina de Sousa a porta-voz da SMPA, tendo também feito parte dos seus órgãos sociais. A título de exemplo, mencionamos a sua eleição para suplente da Presidente da Direção, nos anos de 1934 e 1935, e para tesoureira, no ano de 1936.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31247, 7 de junho de 2017, p.13)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Touradas à corda e festas (religiosas)


Touradas à corda e festas (religiosas)


Todos os anos a bola de neve cresce, isto é a lista de touradas tradicionais vai aumentando o que prova que nas ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge, a indústria tauromáquica tem sido bem-sucedida no seu intento de ganhar dinheiro à custa do desrespeito pelos direitos dos animais e da deseducação das pessoas que desde a mais tenra idade são obrigadas a assistir a touradas, acabando por a elas se habituar.

O sucesso do negócio não seria possível sem o apoio hipócrita dos fundos europeus e dos governantes e autarcas da região que apoiam ganadarias e touradas associadas a festas, religiosas ou não.

Como se não bastassem os apoios monetários há legislação nacional e regional que regula a tortura tauromáquica. No caso das touradas à corda, há legislação que define o que é uma tourada tradicional, que é a que “realizando-se na mesma data, na mesma área territorial, estando ligada a uma festividade da freguesia onde se realiza e sendo organizada exclusivamente por entidades cujo eventual fim lucrativo contribui, do modo direto, para essa mesma festividade”.

Atendendo a que a maioria das festas realizadas nos Açores são religiosas não é difícil associar as touradas à corda àquelas festas, sobretudo na ilha Terceira que é onde a indústria tauromáquica tem maior implantação.

O que não se pode afirmar é que haja uma associação perfeita entre touradas e religião e que sobretudo é uma característica açoriana a realização de touradas à corda associadas às irmandades do Espírito Santo. Com efeito, tal quase só acontece na ilha Terceira que é um verdadeiro inferno para os bovinos e na Graciosa e São Jorge, ilhas onde os tentáculos da indústria tauromáquica são maiores.

A provar o que afirmámos, basta os leitores consultarem o jornal “Angrense” que se publicou entre Setembro de 1836 a Setembro de 1910, para constatarem que nem todas as festas do Espírito Santo, que se realizavam na ilha Terceira, eram acompanhadas por touradas à corda, havendo noutras touradas de praça para angariação de fundos.

A leitura de um texto publicado no jornal, angrense, “Primeiro de Maio”, no dia 6 de setembro de 1902, desmascara todas as patranhas que são hoje divulgadas pelos defensores das touradas à corda.

No início do século passado o número de touradas era muito menor do que o atual como se pode ler no seguinte extrato:

“No meu tempo, eram consideradas clássicas três touradas: São João de Deus, Serreta e Terra Chã.

Depois a pretexto d’isto e daquilo, anunciava-se uma tourada à corda; mais tarde a política tanto esticou a corda, que esta trouxe o bravo até ao centro da cidade.”

Sobre a ligação entre as festividades religiosas e as touradas o autor, depois de afirmar que touros só havia na festa da Serreta acrescenta:

“Depois veio a festa da Senhora de Lourdes, nos Altares, …etc. etc. de modo a que cada Senhora arranjou a sua festa e o bom povo da localidade, como complemento e suplemento, a iluminação da véspera, a respetiva ladainha, e, na segunda-feira a competente tourada.

E assim ficou subentendido que à festa religiosa se devia aliar …a dos touros, e o povo que pagava as primeiras, impôs-se, e as segundas vieram, como parte obrigatória, a despeito de muitos ralhos de algum prior refratário à inovação de se misturar o sagrado com o profano.”

Depois, os políticos populistas viram nas touradas uma oportunidade para caçar votos e passaram a oferecê-las aos eleitores, previamente deseducados, como terá acontecido no passado na Ilha Terceira e mais recentemente na ilha de São Miguel pela mão de dois ex- presidentes de Câmara e por um candidato a tal que acabou por ser eleito.

O autor citado, relativamente à ilha Terceira, sobre o assunto escreveu: “Depois as lutas eleitorais, os melhoramentos iniciados em qualquer freguesia começaram também a pedir a parte obrigada de touros à corda.”

Algures nos Açores, 4 de junho de 2017
J. Ormonde

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ainda sobre Ilídio Sardoeira



Ainda sobre Ilídio Sardoeira

Publiquei, recentemente, neste jornal dois textos sobre o Dr. Ilídio Sardoeira e continuo a pesquisar informações acerca da sua vida e obra, nomeadamente nos jornais de Ponta Delgada, durante o período em que ele viveu em Ponta Delgada e lecionou na Escola Secundária Antero de Quental.

Hoje, darei a conhecer um episódio ocorrido no funeral do prestigiado matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e algumas informações colhidas em edições antigas do Correio dos Açores.

Em junho de 1948, faleceu Bento de Jesus Caraça, grande vulto da ciência e cultura de Portugal que foi um destacado dirigente da oposição ao Estado Novo.

O seu funeral, realizado a 1 de julho, foi uma grande de manifestação de pesar pelo seu falecimento e de oposição ao governo do Dr. Oliveira Salazar, que nem depois de morto o deixou em paz. Naquele participou o Dr. Ilídio Sardoeira que ficou com a responsabilidade de fazer o seu elogio fúnebre.

A polícia política, que se infiltrou no meio de todos os antifascistas e amigos que quiseram prestar uma última homenagem a Bento de Jesus Caraças, impediu que o Dr. Ilídio Sardoeira usasse da palavra, acabando o texto do elogio fúnebre sido depositado na urna com o corpo.

Numa consulta aos jornais publicados em São Miguel, descobrimos que o Dr. Ilídio Sardoeira teve uma colaboração muito reduzida nos mesmos, que eram porta-vozes do regime salazarista como se poderá comprovar pelos artigos de opinião publicados e pela parcialidade com que foi tratada a campanha eleitoral para a presidência da república que colocou, em 1958, frente a frente os candidatos Américo Tomás e Humberto Delgado.

No ano referido, no Correio dos Açores, apenas encontramos um poema intitulado “Vale das Furnas”, dedicado à memória de Afonso Duarte, que abaixo se transcreve:

Um côncavo jardim de ramos nascentes
Com píncaros de assombro vigiando;
Um coração de fogo nas raízes
Primaveras de cor aos olhos dando.

Líquida maravilha de água e pedra
É uma concha, à noite, de levar …
Alto, o silêncio alegre das estrelas
Casa-se ao canto triste que é de mar.

Em 1989, a Escola Secundária Antero de Quental editou o conto “A Princesa, o Pastor e o Rei”, que havia sido publicado no jornal “Comércio do Porto, em 1969, onde Ilídio Sardoeira apresenta uma versão sobre a Lenda das Sete Cidades.

Como se pode ler na brochura, a iniciativa daquela escola foi uma “singela e justa HOMENAGEM da Escola Secundária Antero de Quental, onde foi PROFESSOR e fez discípulos, onde foi “SEMEADOR E SEMENTE”, semente que floriu pela força da amizade”.

A sessão de lançamento do livro ocorreu no dia 15 de novembro, na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, tendo a obra sida apresentada pelo Prof. Doutor José de Almeida Pavão que também foi docente daquele estabelecimento de ensino e amigo e admirador de Ilídio Sardoeira.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31242, 31 de maio de 2017, p. 16)

terça-feira, 30 de maio de 2017

A Revista Pedagógica e os animais


A Revista Pedagógica e os animais

Como escrevi no último texto desta série, no próximo dia 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.

O seu trabalho, em prol de uma sociedade açoriana melhor, até hoje não foi reconhecido e a sua obra ainda não mereceu o necessário estudo e a devida divulgação.

De entre o que ela fez, destaco a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que, entre 1909 e 1915, para além de estar ao serviço da educação e dos professores, prestou um grande contributo à cultura, à moral, à igualdade de género e à causa animal.

No seu combate pelo respeito aos animais, Maria Evelina de Sousa contou com diversas colaborações, algumas das quais de figuras prestigiadas a nível nacional, como Luís Leitão, que foi um grande defensor dos direitos da criança e dos animais, e José Fontana da Silveira, notável jornalista e escritor autor de inúmeros livros para crianças.

A Revista Pedagógica não se limitou à defesa dos animais ditos de companhia, publicou textos contra a caça, em defesa das aves e contra práticas cruéis, como as touradas.

Sobre este assunto, transcrevo o poema “Na tourada”, da autoria de José Batista, publicado em abril de 1915.

Entra na arena o touro, furioso,
Arremetendo contra o cavaleiro.
Que, impávido, lhe crava, bem certeiro,
Um ferro no cachaço musculoso.

Solta a fera um rígido doloroso,
A que responde o redondel inteiro.
N’uma salva de palmas ao toureiro,
Vitoriando o feito valoroso.

D’um camarote chovem frescas flores,
Arremessadas pela nívea mão
De donzelas lindas como amores!...

Tão lindas, sim, mas parecendo feias…
Porque se apaga o brilho da paixão
Em quem jubila com dores alheias.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31241, 30 de maio de 2017, p.14)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa



A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa

“Leitor! Queres ter saúde? Entrega-te à Natureza, cumpre as suas leis, não a ofendas. E serás outro homem, amarás a Verdade e o Bem e a Moral” (Amílcar de Sousa, O Vegetariano, Janeiro de 1914)

A 17 de abril deste ano, a Assembleia da República aprovou a Lei nº11/2017 que estabelece a obrigatoriedade da existência de uma opção vegetariana nas ementas das cantinas e refeitórios públicos.

De acordo com a referida lei, a obrigatoriedade depende de haver procura e em caso desta ser pequena “as entidades gestoras das cantinas podem estabelecer um regime de inscrição prévio de consumidores da opção vegetariana”.

A lei é também clara quando define opção vegetariana como “a que assenta em refeições que não contenham quaisquer produtos de origem animal”. Trata-se, portando, da opção alimentar que é conhecida como vegetarianismo estrito que, segundo a Associação Vegetariana Portuguesa, “para além da carne, exclui todos os alimentos de origem animal, como laticínios, os ovos e o mel”.

O caminho para chegar à situação atual foi muito longo, milenar. Com efeito, se várias pessoas ao longo dos tempos fizeram a sua alimentação excluindo quaisquer produtos de origem animal, as organizações vegetarianas são mais recentes, tendo a primeira surgido em 1847, em Manchester. Em Portugal, só em 1908 (ou 1911?), surgiu a SVP - Sociedade Vegetariana de Portugal, e nos Açores, em 2016, foi criada a Associação Vegana dos Açores.

Se há dúvidas quanto à data de fundação da SVP, há consenso quanto ao pioneiro do vegetarianismo em Portugal, apontando todos os autores o nome do médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, que nasceu em Cheires, Alijó, em 1876, e faleceu, em 1940, no Porto.

Formado em medicina pela Universidade de Coimbra, Amílcar de Sousa fundou e dirigiu a revista mensal “O Vegetariano” e foi responsável pela criação da Sociedade Vegetariana de Portugal, tendo sido o seu primeiro presidente.

Para além da sua dedicação à divulgação do vegetarianismo, Amílcar de Sousa escreveu vários livros sobre saúde, alimentação, o vegetarianismo e a paz, tendo escrito uma novela intitulada “Redenção”.

Amílcar de Sousa foi, também, um grande adepto do pedestrianismo. Com efeito, caminhava dezenas de quilómetros a pé, descalço, sem apresentar sinais de cansaço, tendo uma vez percorrido mais de 160 km, de Lisboa a Sines.

Amílcar de Sousa era conhecido nos Açores, quer através da revista “O vegetariano”, que tinha alguns assinantes no arquipélago, quer através dos jornais. Um deles, o jornal “A República”, em 1915, publicou uma reportagem sobre “A religião do naturismo” que inclui uma entrevista com aquele médico.

Embora não esteja correto classificar o naturismo como uma religião, pela leitura das respostas de Amílcar de Sousa ficamos a saber que também não é uma mera questão de alimentação, como se poderá constatar através do extrato seguinte:

“As cadeias estão cheias de criminosos, e foi principalmente o uso do álcool que os levou ao crime. Os hospitais estão a abarrotar de doentes, devido às complicações da culinária. A vida é cada vez mais onerosa, pelas exigências do estomago. Ora, com o naturismo, dispensando todas as bebidas, e por consequência o álcool, não se cria criminosos; não precisando da cozinha, evita a maior parte das doenças; limitando aos frutos a alimentação, estabelece o equilíbrio da economia doméstica”.

Perguntado se com o naturismo as doenças desapareceriam, respondeu, citando um “escritor inglês: Se todos os homens fossem naturistas, os médicos passariam a cultivadores de frutos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31237, 25 de maio de 2017, p.14)

terça-feira, 23 de maio de 2017

Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada


Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada

Embora não dê grande importância as distinções conferidas a personalidades e instituições pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, pois, a par de pessoas que pela sua ação foram e constituem exemplo para os demais, há outras que pouco fizeram desinteressadamente para a sociedade onde vivem ou viveram.

De entre as pessoas já distinguidas, destaco a figura de Alice Moderno, que foi exemplo em várias áreas da atividade humana, com destaque para o movimento feminista e de defesa dos animais.

Com uma vida que se cruzou com a de Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa (1 de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) foi uma distinta professora primária que foi pioneira na criação de uma biblioteca escolar, na Escola de Santa Clara e na introdução de novos métodos de ensino, como o Legográfico-Luazes e o de João de Deus.

Como jornalista, destaca-se a sua colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo uma distribuição a nível nacional.

Lutadora contra a desigualdade, Maria Evelina de Sousa, foi militante de várias associações defensoras da causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de Propaganda Feminista e a Associação Feminina de Propaganda Democrática.

No que diz respeito à defesa dos animais, para além da sua intervenção na imprensa, onde condenou os maus tratos, foi, ao longo da sua vida, com Alice Moderna uma das principais dinamizadoras e dirigentes da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, fundada em 1911.

A 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31236 de 24 de maio de 2017, p. 14)

Em defesa do sossego nas Sete Cidades