segunda-feira, 19 de junho de 2017

Luís Leitão, Pestalozzi e os animais


Luís Leitão, Pestalozzi e os animais

No texto de hoje, volto a recorrer à Revista Pedagógica, criada e dirigida por Maria Evelina de Sousa, no século passado, e a um dos colaboradores daquela publicação, Luís Leitão que no nº 241, de 28 de novembro de 1912, deu a conhecer aos leitores o texto “Animais e Crianças”.

No seu texto, Luís Leitão, depois de referir que em Siracusa um mestre-escola havia defendido que a melhor forma de “adoçar o caracter das crianças duras e grosseiras “ seria através do “despertar nelas o apreço pelos animais”, afirmou o seguinte: “Que beleza não era para todos nós se cada professor primário destinasse uma hora de cada semana para falar com os seus discípulos em assuntos que os prendessem com os animais em geral”.

Esta sugestão de solicitar aos professores alguns minutos semanais para uma sensibilização para a defesa dos direitos dos animais foi uma das primeiras medidas da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais de Alice Moderno e de Maria Evelina de Sousa.

No texto que vimos referindo, Luis Leitão menciona o nome de Johann Heinrich Pestalozzi (1746 - 1827), um pedagogo e educador nascido na Suíça, que segundo alguns autores antecipou algumas conceções que surgiram mais tarde, no final do século XIX e inicio do século XX, com o Movimento da Escola Nova.

Pestalozzi, que era “o mais alto espírito de quantos se têm dedicado a estudar a alma das crianças”, segundo Luís Leitão, defendeu “que era preciso desenvolver nas crianças, desde a idade mais tenra a bondade e a compaixão para com os animais, porque é com eles que a criança está mais em contato. Tornado adulto, acrescenta o grande pedagogo, exercerá para com os seus semelhantes os mesmos sentimentos que tiver cultivado para com os seres inferiores”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31257, 20 de junho de 2017, p. 11)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Trabalho de projeto no ensino da Química



Trabalho de projeto no ensino da Química

Se não me falha a memória, a primeira vez que ouvi falar em trabalho de projeto foi através da leitura do texto “Projeto é projétil”, publicado na revista Raiz e Utopia, nº 9/10, relativa à Primavera-Verão de 1979, que adquiri na Horta, durante a semana do mar de 1984.

O texto em questão, da autoria de Luísa Cortesão, Manuela Malpique, Maria Amélia Torres e Maria de Jesus Lima, membros de uma equipa de formação de formadores, relata uma experiência implementada em 1977, apresentando as várias etapas de um trabalho daquele tipo.

Para as autoras, o trabalho de projeto “consiste fundamentalmente numa atividade a desenvolver em equipa, durante a qual se procura tratar um problema – que tenha real interesse para o grupo e que, sendo embora relacionado com a profissão, tenha as suas raízes na envolvente social”.

Embora seja uma proposta pedagógica antiga, o trabalho de projeto tem sido pouco usado nas escolas, podendo segundo Bernardino Lopes (2004) ser aplicado a qualquer nível de ensino. O autor mencionado corrobora a afirmação das autoras citadas anteriormente no que diz respeito ao facto de um trabalho de projeto partir de um problema e acrescenta que para o mesmo “se pretende obter uma resposta (sob a forma de produto, serviço, etc.) com relevância científica e/ou tecnológica e/ou social e destinada a um público-alvo”.

O Movimento da Escola Moderna, que na ilha de São Miguel vem, desde o ano letivo passado, organizando Sábados Pedagógicos abertos a todos os profissionais de educação, possui um modelo pedagógico assente em vários postulados de que destaco os seguintes:

1- O conhecimento constrói-se pela consciência do percurso da sua própria construção: os alunos caminham dos processos de produção integrados nos projetos de estudo, de investigação ou de intervenção, para a compreensão dos conceitos e das suas relações;

2- Os alunos partem do estudo, da experiência e da ação nos projetos em que se envolvem, para a sua comunicação. A necessidade de comunicar o processo e os resultados de um projeto de trabalho dá sentido social imediato às aprendizagens e confere-lhes uma tensão organizadora que ajuda a estruturar o conhecimento.

O trabalho de projeto é uma das técnicas ou melhor estratégias, segundo Pedro Gonzalez (2003), usadas pelo MEM para materializar as suas propostas pedagógicas.

Como tenho participado nas ações de formação do MEM, decidi implementar o trabalho de projeto, numa turma do 7º ano de escolaridade da Escola Secundária das Laranjeiras, com o objetivo de abordar o seguinte conteúdo: Separação das substâncias de uma mistura.

Os alunos tiveram liberdade de escolher com quem trabalhar, tendo-se formado vários grupos de dois elementos e um grupo com três. A cada grupo foi colocada uma questão inicial/problema a resolver, como por exemplo, como separar uma mistura de água e azeite ou como separar uma mistura de areia e sal.

Depois de uma resposta inicial com recurso aos conhecimentos que já possuíam, tiveram que fazer uma pesquisa bibliográfica e depois desta realizaram o trabalho experimental necessário para resolver o problema.

Depois de concluírem o trabalho de laboratório, elaboraram um relatório final, onde registaram a técnica usada, o material utilizado e o procedimento experimental.

Por último, apresentaram oralmente o seu trabalho aos restantes membros da turma e fizeram a sua auto e heteroavaliação.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31253,14 de junho de 2017,p.19)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Reclus e os animais



Reclus e os animais

O meu interesse em conhecer melhor as várias correntes da pedagogia e as várias publicações que ao longo dos tempos as divulgaram fez com que esteja a ler a “Revista Pedagógica”, criada e dirigida por Maria Evelina de Sousa, que se publicou no início do século passado.

Através de um texto, de Luís Leitão, intitulado “Nós perante os animais”, publicado no número 298, de 24 de setembro de 1915, tomei conhecimento de alguns pensamentos do famoso geógrafo anarquista francês Jean Jacques Élisée Reclus (1830-1905) sobre os animais e o seu relacionamento com os humanos.

De acordo com Luís Leitão, Reclus terá afirmado que “o homem recebeu da ave essa prenda inestimável que é a noção da beleza e mais ainda a da criação poética” e acrescentado: “ Como poderia ele esquecer a calhandra que se lança no espaço infinito soltando gritos de júbilo ou o rouxinol que durante as noites silenciosas enche o bosque com as modulações ardentes ou melancólicas do seu canto?”

A leitura de um texto de Reclus intitulado “A grande família” merece uma reflexão, pois apesar dos progressos materiais alcançados pelas sociedades modernas, se queremos ser mais humanos devemos aprender com os bons exemplos do passado e das culturas que muitas vezes consideramos inferiores. Sobre este assunto Reclus escreveu: “Enquanto em relação aos animais, nós falamos hoje em dia de educação ou domesticação no sentido de escravidão, o primitivo pensava fraternalmente na associação. Ele viu nestes seres companheiros, e não servos, e de facto as criaturas – cães, pássaros, serpentes –, vinham de encontro a ele em caso de perigo comum, especialmente em tempos de tempestade ou inundação.”

Reclus, no texto referido, também se debruça sobre a domesticação dos animais, escrevendo que aquela “atesta também em muitos aspetos uma genuína deterioração moral, pois, longe de melhorar os animais, nós os enfeiamos, vilipendiamos e corrompemos “ e acrescenta o seguinte: “Mesmo quando domesticaram os animais sob as melhores condições, eles diminuíram sua força de resistência à doença, sua capacidade de adaptação a novos meios, fazendo deles seres artificiais, incapazes de viver espontaneamente na natureza livre.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31252, 13 de junho de 2017, p.12)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

“A República” e Ferrer Y Guardia




“A República” e Ferrer Y Guardia

“O verdadeiro educador é aquele que, às vezes até mesmo contra as suas próprias ideias e vontades, apoia a criança e o desenvolvimento de suas energias.” (Ferrer y Guardia)

Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909) foi um pedagogo libertário espanhol criador da Escola Moderna que foi fuzilado em 12 de outubro de 1909, acusado, injustamente, de ter instigado uma insurreição operária em Barcelona, em julho daquele ano.

O assassinato de Ferrer y Guardia foi condenado em todo o mundo, não só pelas pessoas e organizações que possuíam a mesma ideologia, mas também por todos os que defendiam ideias humanistas e progressistas.

Em texto anterior, publicado neste jornal no dia 22 de outubro de 2014, mencionei algumas reações à sua morte publicadas nos seguintes jornais de São Miguel: “Vida Nova”, de Francisco Soares Silva, “A Folha”, de Alice Moderno e “O Repórter”, de Alfredo Câmara. Hoje, darei a conhecer o conteúdo de alguns textos publicados no jornal “A República” que tal como os anteriores se publicou em Ponta Delgada.

Em novembro de 1911, “A República” noticiou a inauguração de um monumento de homenagem ao “mártir da liberdade de pensamento”, Francisco Ferrer, na Praça de Santa Catarina na cidade de Bruxelas.

Em março de 1912, numa pequena nota intitulada “A reação protestou” o autor, a propósito da entrega dos livros de Ferrer aos seus legítimos herdeiros escreveu o seguinte:

“Olha a novidade! Pois o que havia de fazer se não protestar?

O que ela queria, era que os livros fossem queimados, e que a luz que d’eles possam receber os que os lerem, fosse apagada para não mais brilhar.

Mas que importa que a reação proteste, se o facho da Verdade e da Liberdade vai iluminando quase todo o mundo?

Para crime bem bastou a morte de um homem; ainda lhe queriam matar a obra.”

Em junho de 1913, o jornal publica um extrato de um discurso do “pai do socialismo” em Espanha, Pablo Iglésias (1850-1925), onde este depois de afirmar que ainda que Ferrer fosse responsável pela Semana Trágica de Barcelona seria “politicamente inábil matá-lo porque representava e simbolizava grandes elementos de opinião”. No mesmo discurso Iglésias afirmou o seguinte:

“Mas o mais monstruoso é que o mataram, como sendo o caudilho d’uma revolução, caudilho que de facto não foi. Não puderam nunca demonstrá-lo. Dizeis que se cumpriu a lei; pois se se tratou de um assassinato e se este se fez em nome da lei, essa lei é monstruosa”.

No mesmo mês, o jornal noticiava a morte de Paz Ferrer, filha do “imortal mártir de Montjuich” que sofreu muito com a morte do seu pai de tal modo que o autor do texto escreveu : “…Depois da morte de seu pai, o desespero tornou-a ainda maior, e na idade em que só há sorrisos e flores ela conheceu as inenarráveis amarguras da Dor. Esse seu desespero matou-a. Pobre Paz Ferrer! Foi vítima do crime que matou o pai!”

Hoje, com a escola a atravessar uma grande crise, com os governantes a tentar implementar reformas atrás de reformas, projetos atrás de projetos importa estudar todas as experiências educativas, nunca esquecendo que não se consegue sucesso na escola numa sociedade de sucesso para muito poucos.

O projeto pedagógico de Ferrer y Guardia, que teve a primeira concretização em 1901 com a criação da primeira escola moderna, numa altura em que em Espanha a taxa de analfabetismo era superior a 50%, é um dos que deve merecer a atenção por parte de quem se preocupa em deixar uma melhor sociedade para os vindouros.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31248, 8 de junho de 2017, p.15)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Maria Evelina de Sousa e a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais


Maria Evelina de Sousa e a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais

Penso não estar errado ao afirmar que embora Maria Evelina de Sousa tenha abraçado várias causas a que terá tido mais importância em termos sociais foi a da educação, quer através da sua profissão de professora, quer através da direção da Revista Pedagógica.

A outra grande causa a que ela se dedicou foi a da proteção animal, através dos textos que publicou em vários periódicos, como a Revista Pedagógica ou o Correio dos Açores, e através do seu trabalho na SMPA- Sociedade Micaelense Protetora dos Animais de que foi uma das fundadoras, em 1911.

Maria Evelina de Sousa foi a autora dos estatutos da SMPA, tendo para a sua elaboração usado como “modelo os estatutos da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa”. Sobre as diligências para a criação da SMPA, Maria Evelina de Sousa lamentou, na Revista Pedagógica de 6 de outubro de 1910, o facto de ter suspendido os trabalhos para a sua concretização “por falta de coadjuvação da parte dos restantes membros da comissão”.

Depois de um período de alguma inatividade da SMPA, foi criada, em 1931, uma comissão que teve por missão a sua reorganização. Maria Evelina de Sousa foi um dos membros da comissão que desenvolveu esforços para a eleição de uma nova direção e para o estudo dos meios a usar para intensificar a proteção aos animais.

Para além de ter sido o braço direito (e o esquerdo) de Alice Moderno, em muitas ocasiões foi Maria Evelina de Sousa a porta-voz da SMPA, tendo também feito parte dos seus órgãos sociais. A título de exemplo, mencionamos a sua eleição para suplente da Presidente da Direção, nos anos de 1934 e 1935, e para tesoureira, no ano de 1936.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31247, 7 de junho de 2017, p.13)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Touradas à corda e festas (religiosas)


Touradas à corda e festas (religiosas)


Todos os anos a bola de neve cresce, isto é a lista de touradas tradicionais vai aumentando o que prova que nas ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge, a indústria tauromáquica tem sido bem-sucedida no seu intento de ganhar dinheiro à custa do desrespeito pelos direitos dos animais e da deseducação das pessoas que desde a mais tenra idade são obrigadas a assistir a touradas, acabando por a elas se habituar.

O sucesso do negócio não seria possível sem o apoio hipócrita dos fundos europeus e dos governantes e autarcas da região que apoiam ganadarias e touradas associadas a festas, religiosas ou não.

Como se não bastassem os apoios monetários há legislação nacional e regional que regula a tortura tauromáquica. No caso das touradas à corda, há legislação que define o que é uma tourada tradicional, que é a que “realizando-se na mesma data, na mesma área territorial, estando ligada a uma festividade da freguesia onde se realiza e sendo organizada exclusivamente por entidades cujo eventual fim lucrativo contribui, do modo direto, para essa mesma festividade”.

Atendendo a que a maioria das festas realizadas nos Açores são religiosas não é difícil associar as touradas à corda àquelas festas, sobretudo na ilha Terceira que é onde a indústria tauromáquica tem maior implantação.

O que não se pode afirmar é que haja uma associação perfeita entre touradas e religião e que sobretudo é uma característica açoriana a realização de touradas à corda associadas às irmandades do Espírito Santo. Com efeito, tal quase só acontece na ilha Terceira que é um verdadeiro inferno para os bovinos e na Graciosa e São Jorge, ilhas onde os tentáculos da indústria tauromáquica são maiores.

A provar o que afirmámos, basta os leitores consultarem o jornal “Angrense” que se publicou entre Setembro de 1836 a Setembro de 1910, para constatarem que nem todas as festas do Espírito Santo, que se realizavam na ilha Terceira, eram acompanhadas por touradas à corda, havendo noutras touradas de praça para angariação de fundos.

A leitura de um texto publicado no jornal, angrense, “Primeiro de Maio”, no dia 6 de setembro de 1902, desmascara todas as patranhas que são hoje divulgadas pelos defensores das touradas à corda.

No início do século passado o número de touradas era muito menor do que o atual como se pode ler no seguinte extrato:

“No meu tempo, eram consideradas clássicas três touradas: São João de Deus, Serreta e Terra Chã.

Depois a pretexto d’isto e daquilo, anunciava-se uma tourada à corda; mais tarde a política tanto esticou a corda, que esta trouxe o bravo até ao centro da cidade.”

Sobre a ligação entre as festividades religiosas e as touradas o autor, depois de afirmar que touros só havia na festa da Serreta acrescenta:

“Depois veio a festa da Senhora de Lourdes, nos Altares, …etc. etc. de modo a que cada Senhora arranjou a sua festa e o bom povo da localidade, como complemento e suplemento, a iluminação da véspera, a respetiva ladainha, e, na segunda-feira a competente tourada.

E assim ficou subentendido que à festa religiosa se devia aliar …a dos touros, e o povo que pagava as primeiras, impôs-se, e as segundas vieram, como parte obrigatória, a despeito de muitos ralhos de algum prior refratário à inovação de se misturar o sagrado com o profano.”

Depois, os políticos populistas viram nas touradas uma oportunidade para caçar votos e passaram a oferecê-las aos eleitores, previamente deseducados, como terá acontecido no passado na Ilha Terceira e mais recentemente na ilha de São Miguel pela mão de dois ex- presidentes de Câmara e por um candidato a tal que acabou por ser eleito.

O autor citado, relativamente à ilha Terceira, sobre o assunto escreveu: “Depois as lutas eleitorais, os melhoramentos iniciados em qualquer freguesia começaram também a pedir a parte obrigada de touros à corda.”

Algures nos Açores, 4 de junho de 2017
J. Ormonde

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ainda sobre Ilídio Sardoeira



Ainda sobre Ilídio Sardoeira

Publiquei, recentemente, neste jornal dois textos sobre o Dr. Ilídio Sardoeira e continuo a pesquisar informações acerca da sua vida e obra, nomeadamente nos jornais de Ponta Delgada, durante o período em que ele viveu em Ponta Delgada e lecionou na Escola Secundária Antero de Quental.

Hoje, darei a conhecer um episódio ocorrido no funeral do prestigiado matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e algumas informações colhidas em edições antigas do Correio dos Açores.

Em junho de 1948, faleceu Bento de Jesus Caraça, grande vulto da ciência e cultura de Portugal que foi um destacado dirigente da oposição ao Estado Novo.

O seu funeral, realizado a 1 de julho, foi uma grande de manifestação de pesar pelo seu falecimento e de oposição ao governo do Dr. Oliveira Salazar, que nem depois de morto o deixou em paz. Naquele participou o Dr. Ilídio Sardoeira que ficou com a responsabilidade de fazer o seu elogio fúnebre.

A polícia política, que se infiltrou no meio de todos os antifascistas e amigos que quiseram prestar uma última homenagem a Bento de Jesus Caraças, impediu que o Dr. Ilídio Sardoeira usasse da palavra, acabando o texto do elogio fúnebre sido depositado na urna com o corpo.

Numa consulta aos jornais publicados em São Miguel, descobrimos que o Dr. Ilídio Sardoeira teve uma colaboração muito reduzida nos mesmos, que eram porta-vozes do regime salazarista como se poderá comprovar pelos artigos de opinião publicados e pela parcialidade com que foi tratada a campanha eleitoral para a presidência da república que colocou, em 1958, frente a frente os candidatos Américo Tomás e Humberto Delgado.

No ano referido, no Correio dos Açores, apenas encontramos um poema intitulado “Vale das Furnas”, dedicado à memória de Afonso Duarte, que abaixo se transcreve:

Um côncavo jardim de ramos nascentes
Com píncaros de assombro vigiando;
Um coração de fogo nas raízes
Primaveras de cor aos olhos dando.

Líquida maravilha de água e pedra
É uma concha, à noite, de levar …
Alto, o silêncio alegre das estrelas
Casa-se ao canto triste que é de mar.

Em 1989, a Escola Secundária Antero de Quental editou o conto “A Princesa, o Pastor e o Rei”, que havia sido publicado no jornal “Comércio do Porto, em 1969, onde Ilídio Sardoeira apresenta uma versão sobre a Lenda das Sete Cidades.

Como se pode ler na brochura, a iniciativa daquela escola foi uma “singela e justa HOMENAGEM da Escola Secundária Antero de Quental, onde foi PROFESSOR e fez discípulos, onde foi “SEMEADOR E SEMENTE”, semente que floriu pela força da amizade”.

A sessão de lançamento do livro ocorreu no dia 15 de novembro, na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, tendo a obra sida apresentada pelo Prof. Doutor José de Almeida Pavão que também foi docente daquele estabelecimento de ensino e amigo e admirador de Ilídio Sardoeira.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31242, 31 de maio de 2017, p. 16)