terça-feira, 31 de outubro de 2017

Educar de outra maneira: O MEM e a Escola da Ponte


Educar de outra maneira: O MEM e a Escola da Ponte

“…Isso prova que o homem mais bem dotado pela natureza só recebe faculdades, mas essas faculdades permanecem mortas se não forem fertilizadas pela ação benfazeja e poderosa da coletividade. Diremos mais. Quanto mais o homem é beneficiado pela natureza, mais ele apreende da coletividade; disso resulta que mais ele deverá devolver-lhe, com toda justiça.” (Mikhail Bakunin)
Um texto intitulado “Sempre a aprender”, publicado na revista “Máxima”, de setembro de 2017, leva o leitor a fazer um rápido percurso por diversas “escolas que ensinam diferente”, como as Escolas João de Deus, que tem como modelo de ensino a Cartilha Maternal, a Escola da Ponte, que possui um modelo criado por José Pacheco, a Voz do Operário, que recorre às teorias socioconstrutivistas, Os Aprendizes, inspirada na metodologia High Scope, na pedagogia Waldorf, etc.

Entre nós, nos últimos anos, um grupo ainda não muito grande de professores e educadores, dos poucos que ainda estão vivos nas escolas, tem frequentado ações de formação relacionadas com o projeto pedagógico da Escola da Ponte e com o Movimento da Escola Moderna, o mais importante movimento pedagógico português, segundo António Nóvoa.

A Escola da Ponte é uma escola pública criada por José Pacheco em 1976, infelizmente mais conhecida no estrangeiro do que em Portugal, e o Movimento da Escola Moderna surgido “a partir da atividade de seis professores que se constituíram, em fevereiro de 1965, num Grupo de Trabalho de Promoção Pedagógica impulsionado pelos cursos de aperfeiçoamento profissional de professores que Rui Grácio promoveu e dirigiu no Sindicato Nacional de Professores”, tem como principal mentor o pedagogo Sérgio Niza.

Na ilha de São Miguel há um grupo de professores que de algum modo tem ligação com a Escola da Ponte, estando a desenvolver esforços para a criação de uma escola inspirada naquela e há outro grupo que está a fazer a sua autoformação cooperada no Movimento da Escola Moderna que organiza mensalmente “sábados pedagógicos”, abertos a todos os professores e educadores interessados.

Talvez por haver pessoas que estão envolvidas em ambas as iniciativas, há por vezes alguma confusão entre a experiência pedagógica portuguesa mais conhecida, a Escola da Ponte e o Movimento da Escola Moderna. A título de exemplo, refiro a pergunta que me foi feita recentemente: a escola não abre, então por que razão continua a formação que vocês não param de fazer?

Outra questão que tem surgido é se o Movimento da Escola Moderna é uma organização que se limita a usar as técnicas do pedagogo francês Célestin Freinet?

Começando por responder a esta última questão, Sérgio Niza, em 1997, numa entrevista à revista Noésis, afirmou o seguinte: “Não partimos como Freinet da ideia de construir um modelo escolar, mas sim de nos formarmos como professores e dessa forma irmos fazendo avançar as nossas práticas. […] Isso não impede que ainda hoje utilizemos algumas técnicas Freinet, porque, em boa verdade, as técnicas Freinet não eram dele. Foram técnicas que estavam disponíveis e a que deu novo sentido”.

Em relação às diferenças entre o MEM e a Escola da Ponte, Sérgio Niza, numa entrevista concedida a Júlio Aquino, da Universidade de São Paulo, publicada, em 2013, na revista “Educação e Pesquisa”, disse que “a Escola da Ponte manteve-se numa aproximação a muitas coisas que são da Escola Nova, mesmo na sua estrutura, nas grandes assembleias de alunos, uma grande individualização do trabalho dos alunos, quase mesmo uma aprendizagem individual.”

Ainda sobre a Escola da Ponte e sobre as diferenças em relação ao MEM, Sérgio Niza afirmou: “Se aprofundassem o modelo de trabalho deles, iriam descobrir que se mantinham ligados a uma espécie de pedocentrismo centrado nos planos curriculares individuais das crianças, o que conflitua com uma forte dimensão cooperada de entreajuda que funda as nossas práticas de comunidades de aprendizagem”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31370, 1 de novembro de 2017, p.8)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Autonómico e os animais


O Autonómico e os animais

O semanário “O Autonómico”, que se publicou em Vila Franca do Campo entre 1989 e 1943 e que teve como primeiro redator J. Castro de Lemos e editor António Rodrigues Carroça Júnior, ao longo da sua existência foi porta-voz dos defensores dos animais.

De entre os textos publicados, no dia 28 de junho de 1919, o jornal “O Autonómico”, na sua primeira página, publicou um longo artigo intitulado “Proteção aos irracionais” que apesar de ter quase um século de existência ainda mantém alguma atualidade, o que prova que a evolução científica e tecnológica não foi acompanhada pelo aperfeiçoamento moral.

Depois de referir o reconhecimento pelos animais constante no “Oriente pagão”, no “código moral dos hebreus” ou no cristianismo, o autor considera que é “pobre de sensibilidade moral” quem pensa que o animal é “uma simples coisa que, como tal, é destituída de sensibilidade.”

O autor considera que “o animal não é mero autómato, nem obedece apenas a funções mecânicas”, acrescenta que “os animais têm uma vida própria, cujos principais atributos são a sensibilidade, motricidade e certo grau de inteligência, relacionando-se uns com os outros” e interroga-se: “A amizade, gratidão e dedicação que em levantado grau muitos animais nos consagram; a nostalgia, a fidelidade e o sentimento da saudade, que não raro os faz morrer, não serão fenómenos afetivos que excluem toda a ideia de simples automatismo?”.

Tal como denunciou o autor do artigo que vimos citando, apesar das leis que foram surgindo ao longo dos tempos, a sua fiscalização ou não existe ou é insuficiente e a situação dos animais continua a envergonhar todos os humanos de bom coração.

Uma via para contribuir para melhorar a vida dos animais será através de “ensinamentos de piedade e amor fraterno para com os nossos semelhantes”. Segundo o autor “essa doce missão d’amor, carinho e sadia moral incumbe …aos padres, aos mestres, aos pais, às mães que cônscios dos seus deveres possuem o segredo infalível de bem formar os corações das crianças”.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31369, 31 de outubro de 2017, p. 16)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A desilusão com o Mundo de António Augusto Riley da Mota



A desilusão com o Mundo de António Augusto Riley da Mota


“Creio que o que há de mais essencial no ensino é despertar o interesse do estudante, e isso é relativamente fácil em ciências naturais e físicas – basta tornar o ensino objetivo com observação e experiência” (A.A, Riley da Mota)

Antes de fazermos referência ao episódio que terá estado na origem da demissão do Dr. António Augusto Riley da Mota de Diretor Geral do Ensino Secundário, logo seguida da sua aposentação, a seu pedido, fazemos uma breve apresentação de um homem que em alguns aspetos, esteve e talvez estaria hoje, se fosse vivo, muito à frente do seu tempo.

O Dr. António Augusto Riley da Mota, filho do Eng. Dinis Moreira da Mota, natural do Pico da Pedra, nasceu em Ponta Delgada em 1893 e faleceu, com 74 anos de idade, na mesma cidade no dia 17 de abril de 1967.

Frequentou o liceu de Ponta Delgada entre 1905 e 1910, tendo terminado o curso liceal com a classificação de vinte valores. Em 1917, terminou o curso de Físico- Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra com a nota final de 19 valores e com idêntica classificação fez o Exame de Estado, no ano seguinte, na Escola Normal Superior.

Antes de chegar ao Ministério da Educação, foi professor efetivo, durante um ano, no Liceu de Angra do Heroísmo, tendo no ano seguinte ocupado uma vaga no Liceu de Ponta Delgada, onde chegou ao cargo de reitor, em janeiro de 1936.

António Augusto Riley da Mota, em 1940 rumou a Lisboa onde a convite do Ministro da Educação foi nomeado Diretor Geral do Ensino Liceal, cargo que assumiu até 1946, ano em que, segundo Áurea Adão e Maria José Remédios autoras de um artigo intitulado “Memória para a frente, e…o resto é lotaria dos exames. A reforma do ensino liceal em 1947”, publicado na Revista Lusófona de Educação, em 2008, a 16 de março meteu uma licença por doença de 60 dias e passou “à inactividade a partir de 11 de Maio desse mesmo ano, “data em que foi julgado incapaz pela Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações””.

No âmbito das suas funções como Diretor Geral do Ensino Liceal, ao serviço do Estado Novo, o Dr. António Augusto Riley da Mota deu cumprimento à decisão do Ministro da Educação, António Faria de Carneiro Pacheco, que ordenou a colocação obrigatória de crucifixos nos liceus, ação que, segundo Paula Borges Santos, “inscrevia-se no âmbito da refor¬ma do ensino liceal, que permitira aí introduzir o ensino da moral cristã”, através do envio de circulares aos reitores. De acordo com a autora referida, a circular detalhava o que devia ser feito, como a realização da “cerimónia «na sala da reitoria, pelo menos na presença de todos os professores e de todos os chefes de turma»; quando não fosse possível usar a reitoria, utilizar outra sala, «devendo, porém, ficar depois colocada na reitoria o crucifixo»”.

Mas, enquanto o Dr. A.A, Riley da Mota se limitou a fazer cumprir decisões dos seus superiores para o regime estava tudo bem. Contudo, ele foi um eterno descontente com a falta de condições dos estabelecimentos de ensino, com os “excessos dos programas” e com o imobilismo reinante, pelo que a sua passagem pela Direção Geral do Ensino Liceal, segundo o Doutor José de Almeida Pavão, constituiu “uma das suas tarefas mais tormentosas”.

Ainda segundo o Doutor Almeida Pavão, o pedido de aposentação do Dr. Riley Mota deveu-se a “um desentendimento com o Ministro, por uma questão ridícula, em face da visão manifestamente retrógrada do responsável da respetiva pasta, acrescida de melindres de competências”.

Qual terá sido a “questão ridícula” e os “melindres de competências” referidos pelo Doutor Pavão?

A 11 de outubro de 1944 foi nomeada uma Comissão de Reforma do Ensino Liceal (CREL), presidida pelo Dr. António Augusto Riley da Motta que no final do ano seguinte endereçou um inquérito a todos os reitores onde questionava se deveria haver um plano de estudos diferentes para rapazes e raparigas, se devia existir ou não coeducação e sobre a formação dos professores e das professoras e sobre os seus vencimentos.

A discussão daquelas questões veio para a praça pública, nomeadamente para os jornais e o Ministério da Educação acabou por esclarecer que não pretendia alterar nada relativamente à “coeducação dos sexos” e, ainda segundo Áurea Adão e Maria José Remédios, o ministro afirmou que não havia autorizado “a realização de qualquer inquérito sobre este assunto” e informou que “se alguém com maior ou menor responsabilidades oficiais se quis sobrepor à competência do ministro da Educação Nacional, não temos dúvidas de que lhe serão tomadas contas”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31364, 25 de outubro de 2017, p.17)

Louise Michel e os animais


Louise Michel e os animais

Em Janeiro de 2016, neste jornal, publiquei um texto sobre a revolucionária francesa Louise Michel (1830-905) que foi professora, poetisa e escritora e uma das principais militantes da Comuna de Paris.

Mulher corajosa, durante o movimento que levou ao poder os proletários franceses fez um pouco de tudo, desde enfermeira e condutora de ambulâncias até comandante de um batalhão feminino. A propósito da participação das mulheres nos combates escreveu: “Os nossos amigos homens são mais atreitos a desfalecimentos de coragem que nós, as mulheres. Durante a Semana Sangrenta, foram as mulheres que levantaram e defenderam a barricada da Place Blanche e mantiveram-na até à morte”.

Louise Michel foi uma mulher que abraçou a causa da luta por melhores condições de vida para todos os humanos, sendo capaz de se despojar dos seus bens para dar aos mais necessitados e que “amava a revolução com entusiasmo, como fanatismo cego, não por amor de si, mas dos operários e da paz do universo”.

Ao contrário do que por vezes se diz, a dedicação a determinada causa, por exemplo à defesa dos animais, não implica não estar de braços abertos para abraçar outras como a defesa dos humanos menos protegidos ou marginalizados pela sociedade injusta em que vivemos.

Louise Michel foi um exemplo de quem se dedicou ao próximo não esquecendo os animais. Sobre o assunto escreveu: …Os meus gatos estão em todo o lado: junto à lareira, na minha cama, no meu estojo de costura, deitados nas teclas do meu velho piano de nogueira. Não cheiram lá muito bem, eu sei, e disso se queixam os meus amigos. Tanto mais que também tenho um cão que nem sempre tenho tempo de levar a passear. É mais forte que eu, a vontade de recolher esses pobres bichos que alguém queria afogar…”


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31363, 24 de outubro de 2017, p. 16)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito


Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito

Ler para mim é uma obrigação profissional mas também é um prazer, sobretudo quando leio para ocupar o meu tempo livre ou quando leio para conhecer mais o mundo que me rodeia.
Se é verdade que leio de tudo um pouco, não é menos verdade que tenho uma predileção especial por ler biografias e memórias não só de chamadas personalidades que de algum modo se distinguiram a nível nacional ou internacional, mas também do denominado cidadão comum.
Neste momento estou a ler uma biografia de Marie Sklodowska Curie, a primeira mulher a receber um prémio Nobel e a primeira pessoa a ser galardoada com dois prémios Nobel e li há pouco tempo o livro “Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito” da autoria de Jorge M. Colaço, um colaborador d’ “A Batalha”, antigo órgão da Confederação Geral do Trabalho, jornal onde colaboraram vários açorianos, como Adriano Botelho, Jaime Brasil, Vitorino Nemésio e Aurélio Quintanilha e cofundador da Cooperativa Editora "Sementeira", em 1977, e membro da Direção/Administração da mesma entre 1988 e 1991.
Jorge Colaço, que tive o prazer de conversar no passado mês de agosto, era um nome que me era familiar pois foi diretor da revista Singularidades, uma publicação que assinei e que enquanto foi publicada deu uma “atenção crítica aos horrores da guerra, ao urbanismo desumano, às perseguições de todo o tipo, à desinformação massificada e alienante, à droga e seus negócios, às injustiças, às discriminações”. Para além do mencionado a revista apostou, também, “na divulgação de formas de vida e de modos de pensar alternativos e inconformistas; da política à poesia, da arquitetura às tecnologias alternativas, do cinema ao circo, da música à religião”.
O livro “Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito”, que daremos a conhecer, em parte, ao leitor, é o primeiro de Jorge M. Colaço, que segundo um texto publicado no jornal “A Batalha”, de Março/Abril de 2017, “trilhou um caminho muito próprio no anarquismo português: da participação activa na FARP-FAI a um libertarismo de cariz não-violento” que tem como referência principal Barthélémy De Ligt (1883-1938), pacifista antimilitarista libertário holandês que primeiro foi um pacifista cristão, tendo evoluído para o socialismo libertário”.
O autor que fez na vida um pouco de (quase) tudo, desde vindimador, escriturário, servente de copa, medidor orçamentista, moço de recados, empregado de mesa num restaurante, distribuidor de publicidade em caixas de correio, estagiário numa quinta de agricultura biológica, etc., no seu livro retrata uma variedade de situações não só relacionadas com a sua atividade profissional mas também com a sua militância cívica e política.
De leitura muito agradável para quem como eu devora biografias e memórias, o livro é também recomendado para quem aprecia poesia, pois no mesmo também há espaço para ela. Segundo o autor, a veia poética é uma herança de seu pai, a quem dedica o primeiro poema, de que deixamos aqui um pequeno extrato:
De ti, mal ou bem
herdei teus poemas
herdei o teu ritmo
herdei a tua mansidão
herdei a tua propensão para a paz

No livro, entre outros assuntos, Jorge M. Colaço recorda um jogo de futebol onde não havia adversários, o trabalho duro nas vindimas, em França, a detenção pela polícia política espanhola, que supôs que o autor e os seus companheiros de viagem andavam a espalhar propaganda contra o franquismo, a sua participação numa plantação de pinheiros e castanheiros em condições climatéricas bastante adversas, um discurso que fez no sétimo aniversário da “Modos de Ser – Associação Livre”, onde recordou que nela “não há politiquices, isto é, não há políticos profissionais mas, felizmente, há ideais, e o mais evidente de todos é o de defender e lutar pelo avanço da Liberdade, pela Justiça, pelo Pão, pela Fraternidade, pela Igualdade, pela Paz” e a homenagem que foi feita ao seu amigo José de Sousa Ramos, Professor Associado do Instituto Superior Técnico que contou com a presença do terceirense e amigo comum, Dimas Simas Lopes, médico, pintor, escultor e escritor, que para além de orador na cerimónia foi o autor da escultura inaugurada naquele dia.
Termino, referindo que Jorge M. Colaço também menciona no seu livro que foi bolseiro do projeto “Movimento Social Crítico e Alternativo: Memória e Referências” cujo objetivo foi a criação de um Portal na Internet baseado no “Arquivo Histórico – Social”, depositado na Biblioteca Nacional, que reúne espólios de antigos militantes sindicalistas e libertários, bem como das suas organizações específicas, sindicais e culturais.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31358, 18 de outubro de 2017, p. 16)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Paula Cabral e os animais



Paula Cabral e os animais

A picopedrense Paula Cabral, professora de Língua Portuguesa na Escola Secundária Antero de Quental, publicou recentemente um livrinho intitulado “Crónicas da minha terra” que merece a máxima divulgação, não só pela sua qualidade literária, que é reconhecida pelos entendidos, mas também pela sensibilidade demonstrada pela autora perante os problemas das sociedades atuais.

De entre os vários textos publicados, chamou-me a atenção o intitulado “Versos que ficaram por dizer”, onde a autora relata a história do senhor José Duarte que aos 80 anos fugiu do Lar de Vila Franca para ir para a sua terra natal. Ao ler o texto referido lembrei-me de meu avô Manuel Soares que durante alguns anos ia da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, com vacas, passar o inverno para o Pico da Pedra. Segundo ele, no Pico da Pedra tudo era melhor, as melancias eram mais doces e até as vacas pesavam mais.

Embora não tenha ficado surpreendido com o teor do texto “A mais genuína forma de afeição”, pois já vimos a autora tomar publicamente posição contra algumas formas de agravamento da tortura animal que alguns queriam legalizar nos Açores, aconselho a sua leitura que devia ser obrigatória para quem, miúdos ou graúdos, anda a precisar de aulas de educação cívica.

Não podia terminar este texto sem antes citar algumas passagens do texto referido:

“…Um animal em casa é como ter uma lareira que aconchega, é uma vida que lhe dá calor e que a preenche. Ser dono de um animal é uma condição, uma marca de idiossincrasia, julgando-se o carácter da pessoa pela generosidade que põe nesta relação altruísta, sem os jogos de interesses que minam as relações humanas.”

“…Sempre que lhes dispensarmos atenção e carinho, os mais pesados sentimentos do quotidiano dissipam-se nesta visita à mais pueril forma de afeição. Talvez a forma mais próxima da busca de tranquilidade espiritual que se pode experimentar quotidianamente.

Amar um animal é mesmo uma forma de depurar a nossa humanidade.”

O livrinho, que só o é pelo tamanho e número de páginas, é uma grande obra que li de um só folego e recomendo. Os meus parabéns à autora.


Teófilo Braga

Correio dos Açores, 31357, 17 de outubro de 2017, p. 10

domingo, 15 de outubro de 2017