sábado, 6 de janeiro de 2018
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Capitão Manuel Cordeiro: de canada a rua, depois do sonho de ser avenida
Capitão Manuel Cordeiro: de canada a rua, depois do sonho de ser avenida
Quando cheguei ao Pico da Pedra, nos primeiros anos da década de 80 do século passado, o alargamento e abertura da canada da Sabina já era um anseio dos habitantes da freguesia.
Mais ou menos por esta altura uma Junta de Freguesia, penso que presidida por Armindo Botelho, conseguiu obter um projeto para que o sonho fosse concretizado. Como no Pico da Pedra não há exceção para uma doença que é endémica de quase todas as terras, outra junta de freguesia de coloração diferente não achou que tal fosse prioridade e o projeto foi engavetado.
Muitos anos depois, com um novo projeto, o sonho concretizou-se e hoje estamos todos mais bem servidos. Mas, como não há bela sem senão, aqui vão alguns aspetos que consideramos menos positivos e que, nalguns casos, poderiam ser solucionados sem grandes custos.
Começamos pelo caso mais complicado que é a existência de uma longa lomba, junto à saída do campo de futebol, que constitui um perigo para a vida, sobretudo das crianças que frequentam aquela infraestrutura desportiva. Se na altura das obras a solução era muito fácil e não encarecia o projeto, hoje os custos são elevados e nunca uma junta de freguesia poderá arcar com os mesmos.
A segunda situação de facílima solução está relacionada com o pequeno espaço “ajardinado” que se localiza em frente ao campo de futebol.
Se felicitamos os promotores pela tentativa de arborizar com espécies nativas ou endémicas, não podemos nos calar face à ignorância ou descuido com que são tratadas as plantas, nomeadamente as faias e os paus-brancos.
A inexistência de caldeiras ou de qualquer proteção à volta das plantas fazem com que os fios da roçadoras mutilem os seus caules o que leva, mais cedo ou mais tarde à morte das mesmas, como já aconteceu com algumas e vai acontecer em breve com outras. A solução para o problema é muito fácil e passa pela criação de caldeiras ou pela proteção dos caules.
Relacionado ainda com a arborização da rua, verificamos que as plantas usadas na mesma, apesar de estarem plantadas há alguns anos não se têm desenvolvido como seria de esperar. Com sinceridade não sabemos o que está a falhar, bem como o que deverá ser feito para alterar a situação, a não ser esperar para ver o que acontece, mas não eternamente. Na altura da construção abordamos o encarregado das obras e chamamos a atenção para o facto de nos parecer que as caldeiras serem pequenas, a resposta que tivemos foi se forem pequenas mais tarde alguém vai mandar fazer maiores e é mais trabalho para a empresa.
Por último, uma referência ao ecoponto talvez mais utilizado do Pico da Pedra. Embora não tenhamos dados para tal afirmar, uma coisa é certa vemos pessoas de quase todas as ruas da freguesia a utilizá-lo, bem como trabalhadores de empresas, de outas localidades, que lá depositam sobretudo embalagens.
Para além da formação cívica da população que deve ser contínua, devia ser estudada a possibilidade de existir mais um contentor de lixo indiferenciado, pois o existente rapidamente enche, o que faz com que as pessoas passem a colocar resíduos no chão ou, pior do que isso, a depositá-lo nos outros contentores destinados a resíduos específicos, como o vidro, etc.
Pico da Pedra, 5 de janeiro de 2018
Teófilo Braga
Quando cheguei ao Pico da Pedra, nos primeiros anos da década de 80 do século passado, o alargamento e abertura da canada da Sabina já era um anseio dos habitantes da freguesia.
Mais ou menos por esta altura uma Junta de Freguesia, penso que presidida por Armindo Botelho, conseguiu obter um projeto para que o sonho fosse concretizado. Como no Pico da Pedra não há exceção para uma doença que é endémica de quase todas as terras, outra junta de freguesia de coloração diferente não achou que tal fosse prioridade e o projeto foi engavetado.
Muitos anos depois, com um novo projeto, o sonho concretizou-se e hoje estamos todos mais bem servidos. Mas, como não há bela sem senão, aqui vão alguns aspetos que consideramos menos positivos e que, nalguns casos, poderiam ser solucionados sem grandes custos.
Começamos pelo caso mais complicado que é a existência de uma longa lomba, junto à saída do campo de futebol, que constitui um perigo para a vida, sobretudo das crianças que frequentam aquela infraestrutura desportiva. Se na altura das obras a solução era muito fácil e não encarecia o projeto, hoje os custos são elevados e nunca uma junta de freguesia poderá arcar com os mesmos.
A segunda situação de facílima solução está relacionada com o pequeno espaço “ajardinado” que se localiza em frente ao campo de futebol.
Se felicitamos os promotores pela tentativa de arborizar com espécies nativas ou endémicas, não podemos nos calar face à ignorância ou descuido com que são tratadas as plantas, nomeadamente as faias e os paus-brancos.
A inexistência de caldeiras ou de qualquer proteção à volta das plantas fazem com que os fios da roçadoras mutilem os seus caules o que leva, mais cedo ou mais tarde à morte das mesmas, como já aconteceu com algumas e vai acontecer em breve com outras. A solução para o problema é muito fácil e passa pela criação de caldeiras ou pela proteção dos caules.
Relacionado ainda com a arborização da rua, verificamos que as plantas usadas na mesma, apesar de estarem plantadas há alguns anos não se têm desenvolvido como seria de esperar. Com sinceridade não sabemos o que está a falhar, bem como o que deverá ser feito para alterar a situação, a não ser esperar para ver o que acontece, mas não eternamente. Na altura da construção abordamos o encarregado das obras e chamamos a atenção para o facto de nos parecer que as caldeiras serem pequenas, a resposta que tivemos foi se forem pequenas mais tarde alguém vai mandar fazer maiores e é mais trabalho para a empresa.
Por último, uma referência ao ecoponto talvez mais utilizado do Pico da Pedra. Embora não tenhamos dados para tal afirmar, uma coisa é certa vemos pessoas de quase todas as ruas da freguesia a utilizá-lo, bem como trabalhadores de empresas, de outas localidades, que lá depositam sobretudo embalagens.
Para além da formação cívica da população que deve ser contínua, devia ser estudada a possibilidade de existir mais um contentor de lixo indiferenciado, pois o existente rapidamente enche, o que faz com que as pessoas passem a colocar resíduos no chão ou, pior do que isso, a depositá-lo nos outros contentores destinados a resíduos específicos, como o vidro, etc.
Pico da Pedra, 5 de janeiro de 2018
Teófilo Braga
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Para que serve a escola?
Para que serve a escola?
No passado dia 29 de novembro, pelas 8 horas e trinta minutos, por decisão do Conselho Executivo da minha escola, fui obrigado a substituir uma colega que faltou naquele dia. Aulas de substituição são, do meu ponto de vista, quase sempre um disparate que felizmente já desapareceu nalgumas escolas, mas que persiste noutras, embora os responsáveis tenham conhecimento de que nas aulas em que o professor que é substituído não deixa trabalhos para os alunos fazerem, o papel do professor substituto pouco se diferencia do de “babysitter”.
Como a colega lecionava a disciplina de Português e eu sou professor de Física e Química, como a turma era do 7º ano de escolaridade e como não conhecia os alunos e não me foi dada nenhuma indicação sobre o que fazer, limitei-me a tomar conta das crianças que disseram que nada tinham para estudar, pois estudar é coisa rara nos dias que correm.
Na altura, como é difícil manter numa sala de aula alunos que nela não querem estar, que gostam muita da escola, mas apenas dos corredores e dos recreios, decidi que aqueles poderiam aprender algo se fizessem uma visita guiada ao exterior, onde seria possível identificar algumas plantas e falar sobre a sua importância para a vida humana.
Querendo saber até que ponto ia o seu conhecimento sobre o mundo que os rodeava, aproximei-me de uma das plantas e perguntei-lhes qual era o seu nome. A resposta não se fez esperar: “é uma árvore ou arbusto”. Como a resposta que pretendia não chegava, acrescentei: “Então, como se chamam as árvores que existem, talvez em maior número, nas bermas das estradas?”
Como ninguém foi capaz de identificar um plátano, dirigi-me para outra planta e voltei a fazer a mesma pergunta. A resposta foi: “é um arbusto”. Mas qual o seu nome? Como as bocas se calaram fiquei a saber que ninguém conhecia uma camélia.
Não me dando por vencido, cinco minutos depois, já com a metade dos alunos sentados, pois alegaram cansaço depois de caminharem menos de 50 metros, voltei a perguntar o nome de outra planta. Como ninguém identificou uma azálea, fiquei a saber que os alunos não ligavam patavina ao meio onde se encontram ou nunca ninguém teve o cuidado de lhes dar a conhecer a realidade que os rodeia.
Não querendo atribuir culpas a ninguém, acho muito estranho a ignorância absoluta manifestada pelos jovens, a qual revela que não aprenderam nada em casa, nem nos seis anos de escolaridade que já frequentaram, muitas vezes em escolas que ostentam bandeiras verdes.
Para além do referido, a minha estranheza advém, também, do facto de, para além da ausência de conhecimentos, a sua falta de interesse por quase tudo ser enorme.
Depois de cerca de 40 anos de muita canseira, muitas alegrias e muitas mais desilusões, hoje tudo, para alguns, parece perfeitamente normal. Para outros, não sei se a maioria, o que mais interessa são as atividades de fachada, são as bandeiras azuis e verdes, são os sucessos fictícios, são as melhorias estatísticas que ficam bonitas nos papéis, mas que na realidade escondem o facilitismo que se fomenta.
Na escola que, infelizmente, temos é o elitismo e o apartheid que é promovido ao premiar quem já tem todas as condições materiais e outras para atingir bons resultados. Sobre o assunto Everett Reimer escreveu: “A definição de mérito dada pelas escolas é, principalmente, a vantagem de se ter pais eruditos, biblioteca em casa, oportunidade de viajar, etc. O mérito é uma cortina de fumaça para encobrir a perpetuação do privilégio”.
Além do mencionado, continua-se a tentar tapar o Sol com uma peneira, tentando que a escola resolva os problemas criados fora dela. Como muitos já disseram, e para quem acredita que a escola poderá ter um papel positivo na evolução da sociedade, esta não se muda através da escola, muda-se com a escola.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31420, 5 de janeiro de 2018, p. 18)
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Contributos para a história da tauromaquia e da oposição à mesma na ilha de São Miguel (Açores): Séculos XIX e XX
Introdução
Quer se goste ou não, a verdade é que as touradas são uma anacrónica tradição da ilha Terceira que persiste até hoje com o apoio descarado das entidades governamentais e com a hipócrita ajuda da Comunidade europeia que não ignora que os apoios comunitários também servem para o fomento da criação de gado bravo.
Não podemos ignorar que alguns terceirenses, sobretudo os que lucram com a exploração animal, mais do que preocupados em manter a tradição tudo fazem para expandir o negócio, o que tem acontecido com mais ou menos sucesso nas outras ilhas, como é o caso da ilha Graciosa, onde numa primeira fase as touradas foram repudiadas.
Na ilha de São Miguel, com apoio de governantes, tudo têm feito para que os maus tratos a bovinos para divertimento se generalizam.
Neste texto, sintetiza-se o ocorrido nesta ilha antes do presente século e dá-se a conhecer algumas posições contra as touradas.
Não está fora do nosso propósito, num futuro que não queremos muito longínquo, descrever o que aconteceu no presente século e denunciar as pessoas individuais e coletivas envolvidas na promoção de touradas e outros tristes espetáculos com bovinos.
São Miguel, 2 de janeiro de 2018
José Soares
Contributos para a história da tauromaquia e da oposição à mesma na ilha de São Miguel (Açores): Séculos XIX e XX
É antiga, não há dúvidas, a prática de maltratar animais, tal como àquela sempre esteve associada a oposição aos maus tratos. O caso da tauromaquia não foge à regra, havendo ao longo dos tempos várias vozes que se opuseram à mesma em todos os países do mundo onde aquela existe ou já existiu.
No século XIX, a oposição à tauromaquia na ilha de São Miguel fez-se através das páginas dos jornais “O Repórter” e “O Sul”.
“O Repórter” dirigido por Alfredo da Câmara, um dos fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, no dia 11 de abril de 1897, num texto intitulado “Guerra de Morte às touradas” para além de criticar a tauromaquia, faz ironiza com as reportagens tauromáquicas e satiriza os jornais que a promovem.
Sobre os jornais podemos ler o seguinte: “
“Assim, vai dedicando à santa missão da educação do povo, extensos artigos em que relata até às últimas minudências as peripécias selváticas acontecidas nas touradas, soltando ao mesmo tempo profundos e dolorosos gemidos porque os touros perderam a ferocidade que apresentavam noutro tempo.
Estas lamentações fazem-nos crer que o touro é menos refratário à civilização do que o próprio homem, pois que vai diminuindo de ferocidade, enquanto o homem aumenta.”
Sobre os repórteres, o extrato seguinte diz-nos tudo sobre o pensamento do autor do texto:
“…Segue-se àquela interessantíssima narração uma outra em telegrama de Valência referindo que “os touros de Saltillo saíram muito bons”.
Se cá os houvesse assim, pagava-se com certeza o deficit.
“Morreram 14 cavalos”, diz ainda o telegrama.
Não pode haver espetáculo mais comovente e que melhor satisfaça um coração bem formado do que ver morrer 14 cavalos, em agonia prolongadíssima com o corpo transformado num crivo, deixando passar pelos buracos os intestinos, arrastando-os pela arena e pisando-os muitas vezes com as próprias patas!
O selvagem do correspondente do “Século” devia exultar de satisfação todas as vezes que via desaparecer as armas do touro no corpo de um misero cavalo, que recebia assim o pagamento dos serviços que prestou ao homem durante toda a vida trabalhando para ele!
Termina o selvagem a sua notícia dizendo que “foi uma corrida magnífica”!...
O jornal semanal “O Sul” , que se publicou em Vila Franca do Campo, em Julho de 1898, ridicularizou os espanhóis aficionados das touradas, através de um texto magistral que com as devidas alterações e atualizações se aplica ao que está a acontecer hoje na ilha Terceira, onde perante uma situação que poderá ser dramática para a mesma, em termos de aumento de desemprego, com a saída de militares norte-americanos da Base das Lajes, as elites quase só pensam em touradas. Para memória futura e porque é mais esclarecedor do que um resumo, aqui fica um excerto do texto mencionado:
“Viva los Toros
Ao passo que em Cuba e nas Filipinas os soldados espanhóis caem varados pelas balas dos insurgentes, a população de Madrid entrega-se levianamente ao seu espetáculo favorito, como se o estado do país fosse o mais próspero possível.
Há dias houve ali uma bezerrada, em que tomaram parte atores, jornalistas, etc.
Entretanto a pátria gemia..,.
Pois não gema!
A nacionalidade vai-se perdendo…
Pois não se perca!
E as derrotas têm sido formidáveis…
Que se amanhem!
….”
A 26 de outubro de 1920, o Diário dos Açores publicou um aviso, assinado pelo Barão da Fonte Bela, onde se pode ler que em reunião foi decidido, por unanimidade, passar o capitão subscrito da Empresa Tauromáquica para a “nova industria açoriana de fiação e tecidos”. Na mesma reunião foi indicada a comissão encarregada de elaborar os estatutos da nova empresa cuja constituição é a seguinte: Conselheiro Dr. Luís Bettencourt de Medeiros e Câmara, Frederico Carlos Santos Ferreira, Filigénio Pimentel, António Taveira do Canto Brum e Horácio Teves.
Em 1924, o jornal Correio dos Açores noticiou “para muito breve, algumas corridas de touros” em Ponta Delgada, esperando-se a chegada do toureiro Angelo Herren que vinha escolher o local onde iriam ser “lidados bravos touros do importante lavrador Corvelo, da Terceira”.
De acordo com o Correio dos Açores, de 16 de Julho de 1922 , viviam na Terceira dois irmãos Corvelo, o Manuel e o Cândido, que eram os maiores criadores de gado manso e bravo dos Açores.
Fonte: Correio dos Açores, de 16 de Julho de 1922
Ainda de acordo com a notícia que vimos citando, apesar da sua riqueza, “nunca se calçaram e descalços tomavam parte em sessões da Junta Geral, no exercício do mandato de Procuradores, sendo sempre a sua voz escutada com respeito”.
Por último, através do mesmo texto ficamos a saber que, para além de grandes lavradores e proprietários, eram também “dois grandes corações e dois perfeitos homens de bem” que gostavam de bem receber quem os visitava. Tal aconteceu aquando de uma ida à Terceira de um grupo de micaelenses, em 1919, que foram muito bem acolhidos “durante uma ferra de gado organizada em sua honra, a que compareceram alguns milhares de pessoas”.
Em 1933, a revista Insula, nº 17, de maio daquele ano publicitava a realização de uma tourada integrada num “Festival na Lagoa das Furnas”
Em janeiro de 1942, o Correio dos Açores noticiou a vinda de um ganadeiro da ilha Terceira com o objetivo de estudar a possibilidade de introduzir em São Miguel touradas de praça e à corda.
Na mesma notícia, o redator referiu que era “de esperar que sejam satisfatórios os planos de estudo a realizar, devendo já para a próxima época ser corridos em Ponta Delgada touros em praça e à corda nas várias regiões desta ilha”.
Para além das investidas na ilha de São Miguel, alguns terceirenses sempre que acolhiam pessoas de outras paragens com segundas intenções ou não, tudo fazem para que os mesmos assistam a atividades relacionadas com a tauromaquia. A título de exemplo, menciona-se que, em 1960, aquando da visita à Terceira de um grupo de estudantes micaelenses em que participaram o então aluno João Bosco da Mota Amaral e o vice-reitor Dr. José de Almeida Pavão Jr.., logo no primeiro dia, a seguir ao almoço, foram levados para uma tenta que, para Cristóvão de Aguiar , outro dos participantes, é “uma espécie de tourada de praça com novilhos”
Desconhecemos se chegou a haver espetáculos tauromáquicos resultantes destas duas tentativas da indústria tauromáquica, mas a 25 de março de 1961, o Correio dos Açores , num texto intitulado “Touradas em São Miguel” informa que “há muitos anos para os lados da Vitória, houve uma “experiência” tauromáquica em São Miguel, que malogrou”.
Em 1961, de acordo com o referido jornal a indústria tauromáquica voltou a investir no mercado micaelense através da juventude liceal de Angra que se deslocou a Ponta Delgada trazendo consigo touradas de praça e de corda.
No referido ano, a tortura andou à solta, em Ponta Delgada, tendo ocorrido várias touradas que mancharam algumas festas religiosas a que não escapou a realizada em homenagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
No ano mencionado, “o domingo de Páscoa, assinalado na vida lisboeta, como o da abertura oficial do Campo Pequeno, foi escolhido para ser entre nós o da moderna tentativa de uma tourada de praça, a qual terá lugar no recinto do Cine Solar, pelas 16 horas, em que farão a sua aparição dois espadas, três bandarilheiros e um grupo de sete forcados capitaneados por Carlos Alcáçova”.
A publicidade do evento foi entregue à SPAL e o diretor da tourada de praça foi o Dr. Rafael Valadão dos Santos, sendo o empresário Marcelo Pamplona o qual tinha a pretensão de, se o espetáculo vingasse, passar a exercer a sua atividade em duas ilhas.
No dia seguinte, também pelas 16 horas, realizou-se uma tourada à corda na Avenida Príncipe do Mónaco.
Em 1961, as festas da cidade de Ponta Delgada, as maiores festas religiosas dos Açores, realizadas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres foram manchadas pelo derramamento de sangue de animais (touros) para pura diversão de alguns sádicos que se dizem humanos. Com efeito, a Agência de Publicidade SPAL voltou a colaborar com um grupo de terceirenses na organização de dois festivais tauromáquicos que se realizaram nos dias 8 e 11 de maio, respetivamente segunda-feira e quinta-feira do Santo Cristo.
Nesta segunda investida da indústria tauromáquica terceirense, em 1961, recorde-se que a primeira ocorreu pela Páscoa, para além de touros das ganadarias de José de Castro Parreira e José Diniz Fernandes, vieram da ilha Terceira os amadores Henrique Parreira e Amadeu Simões e o grupo de forcados chefiados pelo cabo Osvaldo Simões que na sua estreia terá feito uma pega de costas. Para as duas touradas de praça, veio “expressamente de Madrid” o famoso matador espanhol Luís Lucena.
Na segunda tourada realizada o cabo dos forcados foi levado pelo touro de um extremo ao outro da praça até embater num muro. Levado ao hospital pela ambulância dos bombeiros voluntários foi-lhe diagnosticada “uma simples comoção sem fracturas” .
Para além das duas touradas, realizou-se uma garraiada onde atuaram oito “neófitos micaelenses”.
De acordo com o jornal Correio dos Açores os três novilhos foram lidados por António Manuel da Câmara Cymbron, Luís Ricardo Vaz Monteiro de Vasconcelos Franco e Henrique Machado Soares e como forcados atuaram Victor Manuel Rebelo Borges de Castro, Luís Fernando da Câmara Cymbron e João de Sousa Duarte com o auxílio de Luís Manuel Athayde Mota e António Manuel Rebelo Borges de Castro.
Na altura, o entusiasmo pelas touradas era tanto que era muito falada a construção de uma Praça de Touros em Ponta Delgada, tendo sido aventados um terreno pertencente à Câmara Municipal de Ponta Delgada na rua da Mãe de Deus, em frente ao Foral da Misericórdia, e um outro pertencente a particulares localizado em São Gonçalo.
A adesão de alguns micaelenses às touradas em 1961 causou algum pânico na ilha Terceira como se poderá confirmar através de alguns textos publicados nos jornais daquela ilha.
Assim, a 20 de Abril de 1961, a ANI transcreveu uma notícia do Diário Insular onde se afirmava que uma subscrição para a construção de uma praça de touros em São Miguel já havia recolhido cerca de 2000 contos. Na mesma notícia ainda se pode ler o seguinte: E a piada reside exactamente, desde que se confirme a notícia da tal subscrição, no facto de S. Miguel ameaçar desviar da Terceira o centro tauromáquico do arquipélago com a construção de uma praça que, naturalmente, destronaria a velha Praça de S. João” e continua: “Podem não achar-lhe qualquer piada os aficionados terceirenses, mas a verdade é que o facto não deixa de a ter. Ou não terá?”
De igual modo, o Jornal A União, citado pelo Correio dos Açores, de 4 de Maio de 1961, também publicou um texto intitulado “Virou-se o feitiço…” onde a dado passo pode ler-se:
“Por bem fazer…mal haver. A embaixada académica (Liceu) que foi a S. Miguel e quis levar até aos nossos irmãos micaelenses um pouco daquela descuidada alegria que as Touradas emprestam à mocidade terceirense, deve estar agora convencida de que, indo “por bem”, o seu esforço redundou num péssimo serviço prestado à ilha Terceira. Lançando em Ponta Delgada o “vírus” da Festa Brava, mudaram possivelmente o “eixo” desse atractivo até há pouco “exclusivamente terceirense” em terras Açorianas, criando-se mais uma situação “subsidiária” de que não será fácil furtar-nos dentro de pouco tempo”.
Ainda a atestar o interesse pelas touradas, o Correio dos Açores noticiou a organização de uma excursão de micaelenses à Terceira para assistirem a uma tourada de gala que se realizou a 3 de julho de 1961 e que contou com a participação do toureiro português António dos Santos e do “matador” espanhol Orteguita, onde foram corridos touros vindos do continente português.
Em 1962, o jornal “A União”, de 8 de março, publicou um artigo assinado por Estirau, onde este se refere à criação, em São Miguel, de um Clube Taurino que já possuía uma sede “com livros, revistas e jornais da especialidade” e acrescenta que os promotores da iniciativa já possuíam 2000 contos para a construção de uma praça de touros.
Sobre o futuro das touradas em São Miguel, o autor mencionado previa, com alguma tristeza, que seriam um sucesso, nos seguintes termos: “depois de se acostumarem a tal divertimento não querem outro, e nós, terceirenses, ficamos em 2º lugar”.
sábado, 30 de dezembro de 2017
Pelo Pico da Pedra
Pelo Pico da Pedra
Ontem, depois de muitos anos de ausência, devido às notícias saídas na comunicação social sobre eventuais ou reais irregularidades cometidas pela anterior Junta de Freguesia, decidi assistir à reunião ordinária da Assembleia de Freguesia do Pico da Pedra. Tal como eu, outras pessoas decidiram fazer o mesmo e não deram o seu tempo por desperdiçado.
Através das intervenções dos membros da Junta de Freguesia e do Presidente da Assembleia de Freguesia, ficamos a saber que o anterior executivo, aqui não podemos culpar apenas o seu presidente, pessoa com quem simpatizamos, cometeu um conjunto de falhas ou erros imperdoáveis para quem gere dinheiros e património que é de todos.
De entre as falhas ou irregularidades, não dizemos crimes pois caberá à justiça, se for feita, ajuizar, foi dado a conhecer que o saldo da conta de gerência não correspondia à realidade, que a contabilidade omitia e branqueava a real situação financeira, que não havia qualquer inventário do património, que existiam despesas não cabimentadas pelos orçamentos e dívidas por pagar que a atual junta não tem meios para o fazer pelo menos nos próximos tempos.
De entre as várias despesas por pagar, realço a devida a uma tipografia, a que imprimiu o boletim que foi distribuído pela freguesia em final de mandato que não foi mais do que propaganda eleitoral disfarçada.
Para além do referido, foi exposto, também, o caso de um acidente ocorrido com um trabalhador da Junta de Freguesia que não tinha seguro, ou melhor que a junta havia pago a apólice já com atraso, mas nem este pagamento chegou à seguradora. Agora, o sinistrado tem direito a uma indemnização e a Junta legalmente não o pode fazer até à conclusão do processo que vai ser reaberto.
Da reunião, fiquei com a sensação de que o atual executivo está a trabalhar bem, partilhando tudo entre os seus componentes, e que algumas pessoas com responsabilidades em executivos anteriores estão a tratar os assuntos como se fossem “virgens” em termos de participação autárquica. A título de exemplo, refiro o caso do rigor que pretendem que a atual Junta receba as rendas quando anteriormente nada ou pouco fizeram para que tal acontecesse ou quando abordam alguns assuntos como se deles não tivessem conhecimento, tentando empurrar a culpa para uma pessoa só, sabendo-se que as decisões tomadas por um Junta de Freguesia são sempre assumidas por todo o executivo.
Não pretendendo julgar ninguém, apenas quero que tudo se esclareça, para bem da população da freguesia e para que o bom nome de ninguém fique manchado. Por último, se houver culpados que a culpa não morra solteira.
Teófilo Braga
Pico da Pedra, 30 de dezembro de 2017
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
A pré-história da defesa do ambiente nos Açores
A pré-história da defesa do ambiente nos Açores
Desde os primeiros tempos do povoamento dos Açores existiram pessoas que se preocuparam com a destruição da natureza, mas aquela preocupação passou a ser mais generalizada a partir de 1972, em plena Primavera marcelista.
A nível nacional, o primeiro-ministro Marcelo Caetano criou, em 1971, a Comissão Nacional do Ambiente que preparou a participação de Portugal na Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972 e que, entre outros assuntos, discutiu as políticas de desenvolvimento humano e de conservação dos recursos naturais.
Nos Açores, foi no ano de 1972 que a comunicação social começou a abordar as questões ambientais de forma mais regular, quer através de textos da responsabilidade das redações dos jornais, quer de alguns colaboradores.
Neste texto, recordamos três textos publicados no jornal “Correio dos Açores” naquele ano.
No dia 23 de março, o Dr. Júlio Quintino, depois de reconhecer que a única vantagem de se viver “numa região economicamente subdesenvolvida” é o facto de estarmos “integrados num ambiente de quase pureza original”, acrescentou que seria importante a constituição de um grupo de trabalho “com a dupla missão da defesa do meio ambiente e da orientação criteriosa da exploração dos recursos naturais”.
No dia 25 do mesmo mês, num texto não assinado, o jornal Correio dos Açores apela à classificação da Lagoa do Fogo como “reserva integral” para defender a “sua beleza primitiva à volta de um conjunto panorâmico que importa salvar integralmente enquanto é tempo”.
O terceiro texto, “Em defesa do Meio Ambiente”, do Engº Agrónomo e Silvicultor Orlando de Azevedo, publicado no Correio dos Açores, no dia 2 de agosto de 1972, tal como o anterior é rico em lições para quem hoje vive e sobretudo ocupa cargos públicos nos Açores.
No seu texto, o autor menciona algumas medidas tomadas por várias entidades, como o Congresso dos EUA, o governo francês que instituiu o Ministério pra a Proteção da Natureza e do Ambiente, o governo português e faz referência à “magna Conferência para a Defesa do Ambiente Humano”.
Sobre a realidade regional, Orlando de Azevedo escreveu sobre “o conjunto magnífico das Sete Cidades, cujo progressivo arroteamento das vertentes maculou a beleza original da famosa cratera, além do que concorreu para aumentar o volume dos carrejos que ameaçam entulhar as magníficas lagoas”. Em relação ao aeroporto das Lajes o autor escreveu: “Profanou-se, assim, a paisagem portentosa e inutilizou-se para sempre centenas de alqueires de solos dos mais produtivos do Arquipélago, diríamos dos mais férteis do mundo”.
O autor, também, esclarece no seu texto que não é contra o progresso, referindo que “A técnica e a economia regional têm que ser condicionadas pela ecologia, não somente para defesa do equilíbrio do meio ambiente, mas também para que pela sua própria destruição não sejam inutilizados, ou precários, os resultados económicos que se pretendem atingir pela própria técnica”.
Terminámos com mais uma citação plena de atualidade: “Há bem poucos anos, aqueles que falavam da defesa da paisagem, dos perigos que ameaçavam os recursos naturais- minerais, animais ou florísticos – eram considerados sonhadores ou idealistas- “poetas” no sentido irónico da palavra”.
Hoje, fala mais alto a destruição do património em nome do desenvolvimento que dizem sustentável. Hoje, fruto de pressões da sociedade, a autocensura é rainha. Senhores que estão no poder, deixem-nos continuar a ser poetas, pois como muito bem escreveu Sebastião da Gama “pelo sonho é que vamos”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31413, 27 de dezembro de 2017, p. 12)
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