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domingo, 28 de julho de 2019

SOS LAGOA DAS FURNAS



SOS LAGOA DAS FURNAS

A cor amarelada das águas da Lagoa das Furnas fez com que voltasse à baila a necessidade de se fazer algo para a salvar. Assim, aproveitando as potencialidades que oferece a internet e as redes sociais foi criado um evento público que é intitulado “A Lagoa das minhas Furnas está a morrer e ninguém faz nada”.
O apelo à presença de todos na Lagoa das Furnas no dia 11 de Setembro que é feito, mais com o coração do que com a razão, por parte de Miguel Bettencourt, “cidadão das Furnas” que “não é de esquerda, nem de direita”, até ao momento em que escrevo este texto, não reivindica nada, não propõe quaisquer medidas, nem aponta o dedo aos eventuais culpados pela não resolução de um problema que já foi detectado há décadas.
Tentando fazer o paralelismo com o movimento surgido há mais de duas décadas, verifico que na altura o movimento estava (ou parecia) mais organizado, pois era constituído por duas associações ambientalistas, os Amigos dos Açores e mais tarde a Quercus e por uma organização não formal o SOS LAGOAS e possuía uma forte componente “bairrista” (não uso o termo em sentido depreciativo) e emocional como se pode comprovar através da leitura deste extracto de um texto, de 1992, de José Manuel Oliveira Melo: “…que colocaram o signatário mergulhado numa dor de profunda tristeza, pelo estado da sua querida Lagoa das Furnas, que momentos antes tinha observado como sendo o maior espectáculo que a natureza privilegiou, a humanidade em especial os nascidos na sala de visita dos Açores”. Hoje, parece-nos que apenas está presente a segunda componente.
Reflectindo um pouco sobre todo o processo, creio que, ou os especialistas pensaram, pelo menos numa primeira fase, que conseguiam fazer reverter a situação com pequenas medidas na envolvente da lagoa, sem por em causa a principal ocupação dos solos, a agropecuária, ou então limitaram-se a fazer (má) política, isto é, a ajudar os governantes a empurrar o problema para o mandato seguinte.
Pico da Pedra, 5 de Setembro de 2011
Teófilo José Soares de Braga
Terra Nostra, 9 de Setembro de 2011

sábado, 27 de julho de 2019

A propósito da energia nuclear


A propósito da energia nuclear

No passado dia 11, um sismo e o tsunami a ele associado, ocorridos no Japão, fizeram voltar à ordem do dia a questão do uso da energia nuclear de fissão para fins pacíficos, isto é para a produção de electricidade.
Não faremos, neste texto, qualquer menção ao seu uso para fins militares pois pensamos ser consensual a sua condenação por parte de todos, embora exista quem se preocupe com o facto de alguns países possuírem armas nucleares e não verem qualquer inconveniente em outros as terem. Isto independentemente de se tratar de democracias ou ditaduras, pois como temos constatado, nos últimos tempos, os ditadores, enquanto não caem em desgraça, são equiparados a democratas desde que sejam “nossos” amigos.
Apresentada como solução para o nosso país fortemente dependente dos derivados do petróleo, quer para os transportes quer para a produção de electricidade, e como o melhor processo de combater o agravamento do efeito de estufa, a nível mundial, pois segundo os seus defensores seria a verdadeira alternativa aos combustíveis fósseis, a energia nuclear apresenta problemas que são escondidos pelo discurso dos tecnocratas.
Segundo aqueles, o desenvolvimento científico e tecnológico já havia feito com que os riscos associados às centras nucleares se tornassem quase nulos e mesmo assim perfeitamente controláveis. Como nos mostra o recente acidente ocorrido nas duas centrais nucleares japonesas, as referidas afirmações não correspondem à verdade nem foi apresentada, até hoje, uma solução segura para o depósito final dos resíduos nucleares.
Face ao exposto, não podemos continuar a apostar na energia nuclear de fissão, vulnerável a catástrofes naturais e a ataques terroristas, para produzir electricidade, mas sim optar por formas mais limpas e seguras, como o são as energias renováveis e, antes disso, apostar na sua utilização racional, pois a energia mais limpa é a que não se produz/consome.
Nos Açores, não podemos ficar satisfeitos e muito menos atirar “roqueiras” com o aumento que se tem verificado na produção de energia eléctrica através das fontes renováveis. É importante, também, saber se esta produção está aberta a todos os interessados ou se é beneficiado, apenas, algum grupo económico e se o aumento do consumo se traduz em melhor qualidade de vida ou em produção de riqueza.
Por último, deixamos aqui uma questão: Será que a ilha de São Miguel precisa da energia eléctrica que pretendem produzir com a queima dos resíduos sólidos urbanos? Ou, em nome do desenvolvimento sustentável, vai ser fomentada, mais do que até aqui, a irresponsabilidade e o desperdício?
Pico da Pedra, 13 de Março de 2011
Teófilo Braga

sexta-feira, 26 de julho de 2019

“Charcos com Vida” uma campanha com potencialidades


“Charcos com Vida” uma campanha com potencialidades

Com já escrevi em textos anteriores, a educação ambiental deixou de ser prioridade nos Açores, pelo menos a nível oficial, primeiro com as dificuldades criadas à participação dos professores nos encontros anuais de educação ambiental, depois com o desaparecimento destes e mais recentemente com o desmantelamento da Rede Regional de Ecotecas.
Por parte das associações de ambiente a situação não é melhor, com efeito, tendo apenas em conta as informações que nos chegam através da comunicação social ou as constantes nas suas páginas internet ou blogues, a maioria das associações tem uma actividade muito reduzida, concentrando a sua actividade na campanha SOS Cagarro, ou está mesmo inactiva. Para as mais interventivas, o grosso das actividades está relacionado com o lazer, como são os percursos pedestres organizados pelo que penso serem as maiores associações dos Açores, os Amigos dos Açores e os Montanheiros ou com a prestação e serviços.
Vem esta introdução a propósito do desaparecimento (?), pelo menos em São Miguel, da campanha “Coastwatch Europe”, que durante algum tempo envolveu algumas escolas, alguns professores, muitos alunos e um número razoável de voluntários e cujo objectivo era “alertar para os principais problemas do litoral, através da sua observação directa, nomeadamente aqueles que resultam da ocupação humana ao longo de várias gerações”, e do surgimento da campanha “Charcos com Vida”.
A Campanha “Charcos com Vida”, iniciativa do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, unidade de Investigação e Desenvolvimento “que desenvolve investigação básica e aplicada em todas as componentes da biodiversidade: genes, espécies e ecossistemas”, pretende, através da realização de um conjunto variado de actividades, descobrir, valorizar e investigar os charcos e a sua biodiversidade.
Dadas as potencialidades da Campanha “Charcos com Vida”, tanto em termos da promoção da curiosidade científica, como pelo facto de ser um meio de implementar a educação ambiental, seria uma pena que a mesma não se estendesse a todo o território nacional, designadamente ao arquipélago dos Açores.
Assim, em virtude da campanha referida ser direccionada para todas as escolas do ensino básico e secundário e estar aberta à participação de outros interessados, como autarquias, centros de educação ambiental e associações, deixamos aqui o desafio, nomeadamente às associações escutistas e às associações de defesa do ambiente, para que adiram à mesma.
De igual modo, o desafio é extensivo a todas as Eco-escolas dos Açores. A sua participação na Campanha “Charcos com Vida”, para além de não sobrecarregar muito mais o trabalho voluntário que já é realizado pelos docentes, poderá constituir um valioso complemento às actividades já realizadas quando o tema em estudo é o da água.

Pico da Pedra, 9 de Janeiro de 2011
Teófilo Braga
(Publicado no jornal Terra Nostra, nº 493, p.22, 21 de Janeiro de 2011)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

terça-feira, 19 de julho de 2016

REFLEXÃO SOBRE A CAÇA NOS AÇORES


REFLEXÃO SOBRE A CAÇA NOS AÇORES

A caça nos Açores começou com o povoamento das ilhas. Com efeito, tal foi possível, no que diz respeito aos mamíferos, após a introdução do coelho bravo que foi intencionalmente introduzido em todas as ilhas, com excepção do Corvo. É precisamente o coelho a espécie cinegética mais caçada nos Açores e a que mobiliza mais caçadores.
A caça se para os mais urbanos e com mais posses foi (é) uma actividade “desportiva”, para os homens do campo, sobretudo os das classes sociais mais baixas, mais do que uma actividade de ocupação dos seus tempos livres era um complemento aos seus fracos rendimentos. Com efeito, lembro-me muito bem que no meio rural de São Miguel, na década de sessenta e início da de setenta do século passado, a carne, sobretudo a de vaca, só chegava ao prato de muitas famílias nas épocas festivas e a de porco um pouco mais de vezes para as famílias que tinham a possibilidade de os criar. Assim, caçar coelhos era também uma forma de enriquecer a dieta alimentar e conseguir algum dinheiro para complementar os magros salários com a venda de algumas peças de caça.
Era precisamente a situação de penúria em que viviam muitos agregados familiares, sobretudo de pequenos camponeses e camponeses sem terra que fazia com que eram poucas as licenças de caça existentes nos meios rurais e eram muitos os caçadores furtivos, alguns deles utilizando “técnicas” de caça ao coelho proibidas por lei e criticadas pelos restantes habitantes das diversas localidades, como era o uso do laço.
Ainda nos primeiros anos da década de oitenta, devido à situação social descrita, na localidade onde vivia eram poucas as licenças de caça e havia apenas uma ou duas espingardas, caçando a maioria dos caçadores apenas com recurso a cães e a furão. A deslocação para as zonas de caça, Sanguinal, Monte Escuro, Lagoa da São Brás, etc., era feita a pé ou, com alguma sorte, apanhando boleia nas carrinhas de alguns lavradores. Era revoltante ter de percorrer vários quilómetros a pé, e o regresso era mais duro porque para além da distância a percorrer havia o peso dos coelhos a vencer, enquanto os caçadores da “cidade” ou os “senhores” caçadores passavam nas suas viaturas.
Mais tarde, o Estado, sempre ao serviço dos que mais têm e dos apetites de uns poucos, decidiu investir em repovoamentos de espécies com o único objectivo de serem caçadas. Em 2008, o Secretário Regional da Agricultura e Florestas estimava em 4500 o número de exemplares criados em cativeiro, esquecendo-se de mencionar os custos envolvidos.
A situação referida no parágrafo anterior demonstra que estamos perante uma política de desvios de dinheiros públicos e comunitários que poderiam ser usados em benefício de toda a população dos Açores e que acabam por beneficiar uma minoria dentro da minoria que são os caçadores de algumas aves, pois como já vimos a esmagadora maioria caça apenas coelhos. Com efeito, podemos dizer, mesmo, minoria absoluta pois, segundo informações que consideramos fidedignas e tendo em conta o ano de 2009, nos Açores existiam 3 714 caçadores com carta válida o que correspondia a cerca de 1,5 % da população.
É importante referir que a situação actual, de beneficiar os que mais podem e têm, é muito pior do que a existente em plena ditadura fascista como se pode comprovar através da leitura do jornal “A caça” que se publicou em Ponta Delgada em 1936 e 1937. Com efeito, segundo o referido jornal eram os próprios caçadores, ao contrário do que actualmente ocorre, quem tomava a iniciativa e suportava os repovoamentos com perdizes através de subscrições públicas.
Hoje, são pouco válidos os argumentos dos defensores da caça pretensamente desportiva sobretudo quando aplicados a uma região “pobre” do ponto de vista faunístico como são os Açores quando comparados com outras paragens. Com efeito, caído por terra o argumento da tradição face aos avanços sofridos pela sociedade, hoje o principal argumento, que é também o de alguns “passarinheiros” e de alguns ambientalistas acéfalos suportes do status quo, é o de que com a caça valoriza-se os espaços e recursos florestais e mantém-se as populações de várias espécies controladas.
Se este último argumento poderá ser aplicado às populações de coelhos, gostaríamos que nos explicassem o seu uso quando estão em causa algumas aves residentes cuja população é reduzida e espécies migratórias, cuja ocorrência em alguns casos é diminuta.
Tendo conhecimento de um apelo lançado com vista a evitar que espécies migratórias e outras de ocorrência diminuta sejam excluídas da lista de espécies cinegéticas, não estranhamos que o mesmo tenha sido deturpado por parte de alguns devotos de Santo Huberto, para arrebanhar adeptos à sua causa junto de outros caçadores sensíveis e que concordam com o mesmo, bem como as pressões que têm sido exercidas sobre alguns dos primeiros subscritores.
Para terminar, apresentamos uma citação de um texto publicado, em 1926, no Suplemento Literário Ilustrado de “A Batalha”:
“Conhecemos alguns desses furiosos “desportistas” que aliam à sua qualidade de caçadores a qualidade de membros da Sociedade Protectora de Animais. Não compreendemos como se possam conjugar essas duas funções: a de matar e a de proteger seres vivos”.
Ribeira Grande, 21 de Janeiro de 2011
J.S.