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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Ainda sobre livrarias e livros


Ainda sobre livrarias e livros

Em texto anterior, escrevi sobre algumas livrarias que sempre que posso costumo visitar e adquirir as novidades que muitas vezes não chegam aos Açores. Hoje, faço referência a outra, à Feira da Ladra e a alguns livros adquiridos este ano.
Uma livraria que vale a pena visitar é a Fonte das Letras, localizada em Évora. Com 15 anos de existência, a livraria que é generalista dedica uma atenção especial às pequenas editoras e possui um programa cultural ao longo do ano.
De entre as aquisições que fiz, destaco o boletim “O Gorgulho”, boletim informativo sobre biodiversidade agrícola da associação Colher para Semear, a separata nº 1 do Gorgulho, intitulada “Pierre Rabhi em Nome da Terra”, com uma seleção de textos de Pierre Rabhi, um agricultor francês que é “um dos pioneiros da agroecologia”, sendo um dos “grandes vultos que têm vindo a desbravar o terreno conducente a uma agricultura respeitadora dos princípios vitais de existência na Terra”.
Um livro, necessariamente polémico, que adquiri foi “Fátima, SA”; A beatice, contra a Fé de Jesus; O Dinheiro, contra Deus Abba-Mãe; A mítica deusa, contra Maria, a mãe de Jesus”, da autoria do controverso presbítero e jornalista Mário de Oliveira. O autor do livro é o conhecido e polémico Padre Mário da Macieira da Lixa que durante o Estado Novo foi duas vezes preso pela Pide, tendo sido acusado de subversão pelo Tribunal Plenário do Porto.
Outro livro que mais do que leitura deve ser de consulta obrigatória é o Dicionário no Feminino (séculos XIX e XX), com 900 páginas e 3000 entradas, editado pela Livros Horizonte, sob a coordenação de António Ferreira de Sousa, Ilda Soares de Abreu e Maria Emília Stone.
Como no melhor pano cai a nódoa, o historiador José Pacheco Pereira considera que o mesmo foi uma oportunidade perdida, tendo notado várias ausências injustificadas. Sobre esse assunto, transcreve-se abaixo um excerto de um texto da sua autoria:

“Na área que conheço melhor, a da política oposicionista, o “Dicionário” é pouco útil apesar do seu título genérico e enganador, e a intenção expressa de retratar o “emergir das mulheres na vida da sociedade”. Lá vem uma lista detalhada de entradas sobre congregações religiosas, organizações republicanas e maçónicas mas muito pouco sobre organizações políticas de mulheres depois de 1926. Onde está o Movimento Democrático das Mulheres e os seus percursores? Onde está a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, cujas listas são usadas, mas que não tem entrada autónoma como organização? Onde está a Obra das Mães para a Educação Nacional, ou o Movimento Nacional Feminino?
Um local onde se pode adquirir livros em segunda mão a bom preço é a Feira de Ladra, a mais antiga feira da cidade de Lisboa, que se realiza à terça-feira e ao sábado.
Este ano, comprei o Dicionário de Mulheres Rebeldes, editado, em outubro de 2006, pela Ela por Ela, a primeira editora feminista portuguesa, fundada e dirigida por Ana Barradas que é também a autora do livro.
No mencionado livro há referência a quatro mulheres açorianas ou com ligações aos Açores: Alice Moderno, Ana Sara Brito, Clarisse Canha e Fátima Sequeira Dias.
Sobre Alice Moderno o livro refere que foi uma “senhora de uma grande cultura geral… notada pelos seus conhecimentos de mitologia grega, a Bíblia, a história de Portugal e a história da Rússia”. Também refere que “manteve correspondência com Tolstoi, foi professora, jornalista, escritora e diretora de um jornal local, A Folha”.
Em relação a Ana Sara Brito que foi enfermeira e professora de enfermagem o livro menciona que “entre 1963 e 1965 esteve na direção do Programa de Proteção Materno-Infantil dos Açores”.
Acerca de Clarisse Canha, Ana Barradas escreve que foi militante católica antes do 25 de abril de 1974 e que “é membro da direção nacional da UMAR e da delegação nos Açores”.
Sobre Fátima Sequeira Dias, através da leitura do livro fica-se a saber que era professora universitária, foi membro da UMAR e colaborava na Revista Açorianíssima com artigos sobre a condição feminina.
Tal como a própria autora escreve no prefácio, a seleção apresenta “lacunas evidentes” e no caso dos Açores, nota-se a ausência da professora Maria Evelina de Sousa, de Ponta Delgada, e de Ana Augusta de Castilho, natural de Angra do Heroísmo.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30751, 7 de outubro de 2015, p.17)

domingo, 4 de outubro de 2015

Alice Moderno no Dia do Animal


Correio dos Açores 4 de outubro de 2015

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Alice Moderno em Exposição


Notas Zoófilas (9)

Alice Moderno em exposição

“ Dos seus sentimentos de bondade fala eloquentemente a sua ação não só dentro da benemérita Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, mas também na imprensa, onde frequentemente a pena elegante da srª D. Alice Moderno firmava artigos na defesa vigorosa e inteligente daqueles seres, amigos e companheiros do homem que este, na sua ignorância e ingratidão, tantas vezes maltrata” (João Anglin)

No passado dia 25 de setembro, na sala de exposições da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, foi inaugurada a exposição Alice Moderno (1867-1946): cidadania e intervenção.

A exposição, que surgiu na sequência de uma sugestão do Coletivo Alice Moderno, é uma iniciativa da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta, tendo sido realizada por Ana Cristina Pereira, Iva Matos e Rute Gregório, sendo esta última também responsável pela sua coordenação.

Conhecida pela sua dedicação à causa da defesa animal, Alice Moderno foi uma das fundadoras, em 1911, da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e sua presidente e principal dinamizadora, desde 1914 até à data da sua morte, em 1946.

No seu labor em defesa dos animais, Alice Moderno não fazia distinções. Com efeito, para além de solicitar às autoridades a criação de legislação que proibisse determinadas práticas que causavam sofrimento e que cuidassem ou modificassem o piso das ruas para facilitar o trabalho dos animais de tiro, denunciou o uso e abuso de aguilhadas, a sobrecarga que vitimava principalmente bois e cavalos, o uso de cabras e ovelhas para puxar carroças, que acabou por ser proibido por lei, a venda por farmácias de estricnina que era usada para matar os cães abandonados, os maus tratos que sofriam os bovinos nas festas do Espírito Santo, o sofrimento dos touros e dos cavalos nas touradas, que ela abominava, e a morte à paulada dos ouriços-cacheiros por parte sobretudo dos rapazes mas também por adultos nas freguesias rurais que ela para os salvar comprava para depois soltar no quintal.

Mas, Alice Moderno não se dedicou apenas à causa animal. Ela, que para sobreviver teve de trabalhar arduamente, pois não herdou nenhuma fortuna, também abraçou outras causas, que estão mencionadas nos vários painéis que integram a exposição, a saber: a instrução/educação, as letras, onde se inclui a poesia, o teatro e o romance, o jornalismo, de que se destaca a fundação, direção e redação do jornal “A Folha”, onde ela dá voz a diversas correntes de pensamento inovadoras e progressistas, o feminismo, onde, para além da luta pela emancipação da mulher, defende a participação cívica da mesma na vida social, a participação política que a desencantou já que muitas das promessas da República não passaram disso mesmo e, por último, o apoio aos mais carenciados que ela, contrária à “caridadezinha”, sempre o fez.

A exposição, que merece a visita de todos os interessados em conhecer a vida e a obra de uma mulher que lutou incansavelmente por uns Açores melhores para todos os seus habitantes, humanos ou não, estará aberta ao público até ao dia 16 de abril de 2016.

Teófilo Braga

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Notas Zoófilas 2


A PROPÓSITO DOS 148 ANOS DO NASCIMENTO DE ALICE MODERNO


A 11 de agosto de 1867, há cento e quarenta e oito anos, nasceu, em Paris, Alice Augusta Pereira de Melo Maulaz Moderno, uma das fundadoras da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e sua presidente entre 1914 e 1946, ano do seu falecimento, em Ponta Delgada.

Esquecida durante muito tempo, nos últimos anos o seu nome voltou a ser falado quando algumas pessoas voltaram a interessar-se pela sua vida e obra e começaram a estudá-la e a divulgar a sua obra.

De entre as suas facetas, a que mais tem despertado o interesse é a de defensora dos animais. Assim, como forma de a homenagear surgiu, um coletivo, que se propõe “refletir para apresentar propostas de um ponto de vista científico, ético, social e político no que respeita à relação da sociedade com os animais, através da dinamização de atividades essencialmente no concelho da Ribeira Grande e de apoio e divulgação de ações de movimentos a nível local, regional, nacional e internacional, que tenham em foco o fomento do respeito e proteção animal”.

Depois de uns primeiros tempos com alguma atividade, com destaque para sensibilização em escolas, devido, essencialmente, à dispersão dos seus membros a atividade do Coletivo Alice Moderno reduziu-se, estando inativo há algum tempo.

No passado dia 6 de Maio, o Governo Regional dos Açores lançou o denominado “Projeto Alice Moderno” que parece não passar “de uma campanha regional de sensibilização contra o abandono e maus tratos a animais de companhia”, o qual até agora não foi além da colocação de alguns “outdoors” e na distribuição de cartazes por algumas entidades que estiveram expostos durante muito pouco tempo ou que viram ser colocada outra informação por cima dos mesmos ao fim de poucos dias.

Se o projeto não passar disso, sabe a muito pouco e não corresponde ao aspirado por Alice Moderno: a criação de um hospital para tratamento de animais de companhia e outros animais..

A menção a outros animais surge neste texto para relembrar, a alguns governantes e não só, que Alice Moderno não fazia discriminação de animais, já que para além de se preocupar com cães e gatos, também comprou ouriços-cacheiros para os libertar, livrando-os da morte certa, e odiava touradas pois também sentia compaixão pelos touros torturados e, sobretudo, pelos cavalos.

Por último, tendo em conta que têm de ser os cidadãos a pressionar os senhores que temporariamente exercem o poder para que sejam implementadas políticas corretas com vista a um tratamento humanitário dos animais, a notícia que mais gostava de receber era a da reativação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30702, 11 de agosto de 2015, p.12)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A propósito do Caldeirão


A propósito do Caldeirão

Desde 1981, ano em que estava a trabalhar na ilha Terceira e entrei em contato com a associação Os Montanheiros, que tenho interesse por tudo o que diz respeito à espeleologia, entendida quer como “ramo da ciência que se dedica ao estudo de cavidades subterrâneas” quer como atividade de exploração de grutas e algares.
Tentando seguir as pisadas daquela associação terceirense, primeiro a título individual, em conjunto com alguns amigos e familiares, e depois integrado na associação Amigos dos Açores, tentei fazer um redescobrimento das cavidades vulcânicas da ilha de São Miguel que culminou com um trabalho de campo exaustivo, no primeiro semestre de 1988, o qual deu origem a um relatório/comunicação que foi enviado ao “5th International Symposium on Vulcanospeleology” que se realizou no Japão.
No referido relatório, cheio de lacunas, pois tanto os autores como os demais colaboradores possuíam poucos meios e falta de conhecimentos, foi feita referência a 15 grutas visitadas, até então na ilha de São Miguel, e a outras 6, referidas na biografia existente ou mencionadas por diversas pessoas, entre as quais o Caldeirão.
Sobre este, no mencionado relatório da minha autoria e da do Dr. George Hayes, sobre aquela cavidade vulcânica apenas era mencionado o seguinte: “No Caldeirão, a nordeste de Ponta Delgada existe uma gruta que possuía três aberturas, hoje tapadas. Pela descrição que possuímos de uma pessoa que a visitou deveria possuir mais de um quilómetro de extensão”
Hoje, pouco mais se sabe pois foram poucas as pessoas que lá estiveram e todas as tentativas que foram feitas para encontrar uma possível abertura até ao momento têm sido infrutíferas.
A seguir, aproveito a oportunidade para relembrar algumas opiniões que ao longo dos tempos foram dadas sobre o Caldeirão, umas no sentido da sua destruição e outras da sua manutenção com vista ao seu aproveitamento turístico, bem como dar a conhecer um resgate de animais que lá foi feito pelos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada.
A 26 de janeiro de 1963, Manuel Inácio de Melo, que conhecia o Caldeirão, mais ou menos, desde, 1905 escreveu no Correio dos Açores que havia visitado aquela “cratera extinta” onde “ali saiu fogo, por ali respirava um vulcão que atormentou os nossos antepassados”.
Segundo ele, que estava acompanhado por um luso-americano que não o conhecia, para ver a profundidade do Caldeirão deixou cair uma pedra que “produziu um som cavernoso” e “começaram a ouvir, um certo número de cães, a uivar, certamente de fome” e prosseguiu informando que mesmo na estrada “ainda se ouviam os gritos angustiosos daqueles pobres animais que, com certeza, ali vão morrendo de fome”.
Para concluir o seu texto, Manuel Inácio de Melo apela a quem de direito para encher o Caldeirão de cascalho, permitindo assim acabar com “uma sepultura de animais perdidos para a vida ou consumo” e terminar com “aquela má nota e má impressão que nos causa ao ouvir cães a uivar com fome”.
Através de uma reportagem publicada, a 1 de fevereiro de 1963, no Correio dos Açores intitulada “A cinquenta metros de profundidade foram desvendados os mistérios do Caldeirão pelo Comandante dos Bombeiros Voluntários Roberto Zagalo Cardoso”, os leitores ficaram a saber que o apelo de Manuel Inácio de Melo não caiu em saco roto e que o referido comandante acompanhado pelos bombeiros Gilberto Soares Pereira e Teófilo Joaquim Vicente desceram àquela “cova misteriosa onde tudo entra para não mais sair”.
Para além da descrição daquela cavidade, o comandante Zagalo Cardoso disse que os únicos animais ferozes que encontrou foram “os mosquitos e as pulgas” e que os oito cães que trouxeram “entregaram-se docilmente, ganindo à sua volta como a pedir socorro, outros, nem forças tiveram para qualquer reação, tendo sido içados por quatro vezes dentro de sacos”.
Na mesma reportagem o comandante dos bombeiros de Ponta Delgada recordou que para além do apelo de Manuel Inácio de Melo, aquela descida para resgate de animais deveu-se “à recordação de uma antiga vizinha deste Quartel- D. Alice Moderno – cuja campanha zoófila recordo ainda com enternecimento, pois fiz parte da antiga Associação Protetora dos Animais, infelizmente, julgo que extinta”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30673, 8 de julho de 2016, p.16)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno


A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno


Na Primeira República a divulgação das ideias socialistas, na ilha de São Miguel, foi feita por três jornais ligados ao Partido Socialista Português: “O Proletário”, órgão da Federação Operária e do Operariado em geral, “O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental” e “O Protesto do Povo”, bimensário socialista que teve como redator principal, editor e proprietário Manuel Augusto César, cujo nome também está associado aos outros dois jornais mencionados, como administrador e diretor, respetivamente.

O Proletário, que começou a ser composto e impresso na tipografia de Ruy Moraes, a partir do número 13 passou a ser feito na Tipografia Alice Moderno, localizada na rua da Fonte Velha, 34 e 36, no seu número 23, relativo ao dia 11 de Outubro de 1913, anuncia a abertura, em Ponta Delgada, de “um curso nocturno, regido pela srª D. Alice Moderno, nossa ilustre colega d’A Folha”. Na mesma nota, o jornal chama a atenção dos operários micaelenses para a vantagem do referido curso ocorrer em horário noturno que é o mais adequado para quem trabalha todo o dia já que só à noite aqueles poderão dedicar-se a aprender as primeiras letras.

No seu número 27, de 7 de dezembro de 1913, O Proletário agradece a Alice Moderno a oferta do seu livro “Na Véspera da Incursão”, peça em um ato, dedicada pela autora ao “Senhor Doutor António Joaquim de Sousa Júnior, Sumidade cientifica consagrada nos centros mundiais, açoriano dos que mais alto levantam, no continente da República, o nome do Arquipélago, 1º Ministro da Instrução Pública”. Sobre aquela obra de Alice Moderno o autor do texto, de forma delicada, escusa-se a opinar, limitando-se a escrever o seguinte: “A nossa falta de competência inibe-nos de falar no seu conteúdo, restando-nos apenas dizer o seguinte:- lemos e gostamos.”

A 31 de Agosto de 1918, assinado por FARPA, o Protesto publica um texto onde é exposta a situação dos cães em Ponta Delgada. Segundo o autor do mesmo, “os quadros lastimosos de verdadeira selvageria e crime moral por parte de quem compete olhar pelos animais…irracionais, compreenda-se, são os de inúmeros cães, verdadeiras matilhas sem coleira e sem dono, passearem pelas ruas mais centrais e frequentadas da nossa cidade, caindo aqui e ali com os ataques próprios da tal doença «Esgana» ou então, tossindo n’uma tosse arrepiadora e cavernosa que lhes desconjunta todo o corpo esquelético, sujo e repelente”.

No mesmo texto, o autor junta-se a todas as vozes que em vários locais do país e também em São Miguel têm levantado a sua voz e mostrado a sua indignação face ao bárbaro tratamento dado aos animais de tiro. Segundo ele, também, é “lastimoso e impróprio de nós, gente civilizada, e vem a ser o de fazerem puxar carroças, carros, carrinhos e os carrões que fazem o transporte diário entre algumas vilas e aldeias desta ilha, animais chagados e mal alimentados, com o agravo de lhes porem em cima nos arreios que não são arreios nem são coisa que com arreios se pareçam, antes são instrumentos inquisitoriais, bárbaros e primitivos, que martirizam, inutilizam e chagam todo o corpo d’esses pobres animais que têm a infelicidade de cair na mãos d’uns brutos mais bestas do que as próprias bestas que os acarretam”.

Por último o autor apela, não só ao “coração de mulher” de Alice Moderno mas também pela posição de destaque na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, para que intervenha e “que as autoridades sanitárias, administrativas e policiais, fiquem no descanso eterno de não vale a pena ralar! Para vergonha d’elas e vergonha nossa”.

A 30 de setembro de 1918, O Protesto, através de um curto texto intitulado “Os Aguilhões”, depois de recordar que numa carta publicada no Diário dos Açores alguém pediu que fossem tomadas medidas contra o uso de aguilhões que, apesar de proibidos, eram usados “quotidianamente na inglória, brutal e selvática tarefa de espicaçar os pobres animais, que a maior parte das vezes, estão mortos de cansaço e de fome e que por tal motivo não podem trabalhar, nem exceder as suas forças”, mostra a sua repulsa escrevendo: “Quando presenciamos estes casos diários, dá-nos a gana de desatrelar os animais, e pespegar com o condutor nos varais, arreia-lo e espicaça-lo também, por nossa vez, até que ele gritasse e provasse o atroz sofrimento que dá aos animais. Talvez, então servisse de emenda a todos os tratantes, seus émulos e imitadores”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30650, 10 de junho de 2015, p.2015)

terça-feira, 21 de abril de 2015

A República

Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa e a República
Alice Moderno, que nasceu em 1867, teve a oportunidade de viver e assistir à queda da monarquia, saudar o advento da República e “aderir de alma e coração ao partido republicano”, segundo Maria da Conceição Vilhena, e passar os últimos anos da sua vida, primeiro sob a Ditadura Militar e depois sob o Estado Novo.
Até ao momento, não encontramos qualquer informação sobre a participação de Alice Moderno na vida interna de qualquer partido, o que é conhecida é a sua defesa do regime republicano no seu jornal “A Folha”, mesmo após algumas deceções que lhe causaram algumas medidas tomadas pelos republicanos no poder.
Entre Junho de 1918 e Maio de 1925 publicou-se em Ponta Delgada o semanário republicano “A Pátria” que, entre outros, teve como diretores José da Mota Vieira e António Medeiros Franco. De entre os colaboradores do jornal contaram-se Alice Moderno e a sua amiga, a professora Maria Evelina de Sousa, também republicana convicta.
Através dos números do jornal a que tivemos acesso, desde o primeiro até ao publicado a 16 de junho de 1924, concluímos que o contributo de Alice Moderno foi bastante modesto, tendo-se limitado à publicação de dois poemas, “4 de Julho”, no número 6, datado de 11 de julho de 1918 e “Resposta de Roosevelt”, no número 10, datado de 8 de agosto de 1918, que abaixo se transcreve:
Quando foram dizer ao grande ex-presidente
Que o seu filho mais novo, ainda adolescente,
Tenente-aviador do exército da América,
Recebera no front a morte heroica e épica
Que consagra os heróis, no solo o mais sagrado,
Lutando em prol do Ideal, agora espezinhado
Pelo militarismo, a contrapor afeito
O direito da força à força do Direito,
Roosevelt respondeu, com voz que não tremia:
“Minha mulher e eu sentimos alegria
Ao ver que o nosso filho, única e simplesmente,
Cumprindo o seu dever, honrou a pátria ausente!”

Sem comentário algum, dobremos o joelho,
E ó pais de Portugal, vede-vos neste espelho!

Para além do mencionado, Alice Moderno foi autora de uma carta aos diretores do jornal, publicada a 3 de dezembro de 1923 onde considerou deplorável o uso de “carroças puxadas por animais das espécies lanígera e caprina”, o qual contrariava uma postura municipal que nos primeiros tempos foi cumprida para depois cair no esquecimento da própria polícia de Ponta Delgada.
A colaboração de Maria Evelina de Sousa para o jornal “A Pátria” foi maior, tendo para além do poema Aspiração, publicado a 10 de março de 1924, sido autora de vários textos, a maioria dos quais relacionados com a educação/ensino.
Num dos textos, publicado a 19 de novembro de 1923, Maria Evelina de Sousa saúda a decisão das juntas republicanas das paróquias de Lisboa de criar cantinas escolares, fazendo votos para que “o exemplo frutifique e em breve o possamos ver também na cidade de Ponta Delgada”. Como argumento a favor, a autora aponta o facto de o fornecimento de uma refeição diária nas escolas levar a que as famílias matriculem os seus filhos “de melhor vontade”, resultando “uma dupla alimentação: física e intelectual”.
Outro texto interessante é o que foi publicado no número que veio a público a 26 de novembro de 1923, onde Maria Evelina de Sousa sugere a alteração da lei eleitoral para que o voto seja efetivamente livre, propondo que só pudesse “votar quem, sabendo ler e escrever, possua a mais completa liberdade de ação”.
Para acabar com a “força política dos detentores da propriedade, dos donos das terras”, Maria Evelina de Sousa propõe que sejam eliminados dos cadernos eleitorais todos os rendeiros “porque em geral da renda faz parte o voto de que o senhorio dispõe a seu talante, por vezes servindo-se dele para ver se entrava a marcha evolutiva dos princípios liberais”.
Hoje, a situação está profundamente alterada, mas se se eliminassem dos cadernos eleitorais todos os que, mesmo tendo frequentado a escola, não sabem ler ou não são capazes de compreender um texto de três linhas e todos os frequentadores das adulteradas sessões de esclarecimento, cujo principal atrativo é o porco no espeto, talvez as eleições fossem um pouco mais livres.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30612, 22 de abril de 2015, p.14)
Foto: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=1016228

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Recreio das Salas


Alice Moderno e “O Recreio das Salas”


Por iniciativa de Alice Moderno, em novembro de 1888, viu a luz do dia pela primeira vez, em Ponta Delgada, uma nova publicação intitulada “O Recreio das Salas”. Dirigida por Alice Moderno, o primeiro número anunciava como colaboradores “alguns dos principais talentos que adornam a literatura Portuguesa”. Entre eles, destacam-se os nomes de Antero de Quental, Ernesto Rebelo, Francisco Maria Supico, Júlio Pereira Carvalho e Costa, Maria Amália Vaz de Carvalho, Moniz Ferreira e Xavier da Cunha.

O jornal mensal, como Alice Moderno o intitulava, estava dividido em várias seções: a noticiosa, a científica, a histórica e biográfica, a literária, a bibliográfica e por último a charadística, enigmática e recreativa.

Segundo Alice Moderno, o jornal que pretendia ser “decente, respeitador do lar, das cans e bom conselheiro da mocidade” tinha como maior ambição instruir, moralizar e recriar.

Em todos os números do jornal, Alice Moderno contribuiu com poemas até então inéditos ou que haviam sido lidos em vários eventos, de que são exemplos “1º de Dezembro” que havia sido recitado por um aluno numa “palestra académica” que ocorreu a 1 de dezembro de 1888, “Monólogo” que foi recitado numa “festa artística” realizada no Teatro Micaelense em 19 de Janeiro de 1889 e “Um Leão Reformado”, declamado numa récita de beneficência a favor do ator Afonso dos Reis Taveira, no dia 7 de Fevereiro de 1889.

Na secção histórica ou biográfica, Alice Moderno escreveu um texto sobre a vida e a obra de Charles Darwin.

Sobre a personalidade de Darwin, autor de, entre outros, “A origem das espécies”, Alice Moderno escreveu: “Disseram de Litré que havia sido um santo secular, o mesmo podemos dizer de Darwin se considerarmos a bondade, paciência, delicadeza e probidade de que era dotado e de que deu durante a sua existência as mais constantes provas”.

Sobre o darwinismo, Alice Moderno, escreveu que se podia sintetizar no seguinte: “Todas as espécies animais e vegetais, passadas e atuais, descendem de três ou quatro tipos originais e provavelmente d’um único tipo primitivo, cujas transformações se tem ido operando sucessivamente”.

Em 1889, o jornal O Arauto, da ilha Terceira” contestou o facto de Alice Moderno ter escrito, que a matrícula de uma aluna no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo ser “mais um passo dado a bem da instrução, do progresso e da civilização”. Numa crónica publicada no nº 3 d’ “O Recreio das Salas”, Alice Moderno responde ao autor da crítica nos seguintes termos: “não é lógico, filosófico, nem humanitário que o homem faça da instrução secundária ou mesmo superior uma propriedade exclusivamente sua”.

Na mesma crónica Alice Moderno refuta o argumento de “que a mulher não deve reinar onde estiver o homem”, com o seguinte afirmação: “Concordo em como não deve reinar! Neste caso sou apologista da república universal… não reine nem um nem outro ou antes, reine aquele, homem ou mulher, que se distinguir pela sua inteligência e pela sua erudição”.

A propósito de uma publicação intitulada “Escritoras espanholas contemporâneas” que lhe foi oferecida, Alice Moderno transcreveu, sem comentar, no jornal que vimos referindo, o prefácio. No mesmo, o autor referindo-se ao facto de uma mulher ter uma ocupação fora do lar escreve:
“Haverá algum marido, haverá filhos, que a façam esquecer os esplendores do passado pelas regalias do presente?
Existe o marido que ame a sua mulher a ponto de compensar-lhe o sacrifício, existem os filhos dignos de abnegação sublime, existe a mulher capaz de renunciar à glória entrevista, pela tranquila alegria familiar, existem cremo-lo, queremos crê-lo, mas esse marido, mas esses filhos, e sobretudo, essa esposa, essa mãe, essa mulher, essa artista, constituem uma excepção”

Vinte anos depois, em 1909, Alice Moderno, no seu jornal “A Folha” era bem clara sobre o direito da mulher ao trabalho, quando apela aos pais para que, em vez de estarem preocupados com dotes para a filha, lhe darem “educação que a habilite a bastar-se a si própria, uma profissão que a ponha ao abrigo da miséria, com todas as suas tentações, e da dependência, com todas as suas revoltantes baixezas”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30505, 10 de Dezembro de 2014, p. 12)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Alice Moderno e a educação


Alice Moderno, o ensino e a Revista Pedagógica

“85% de analfabetos numa região europeia! Chega a causar vertigens e calafrios, e nada mais seria preciso para que o regímen monárquico que mantinha no trono os Braganças fosse condenado à pena última por queles que, por acaso, sabem ler”
(Alice Moderno, Revista Pedagógica, nº 199, 14 de dezembro de 1911)
De 1909 a 1915, publicou-se, em Ponta Delgada, a “Revista Pedagógica que teve como proprietária e diretora a professora primária Maria Evelina de Sousa. Como redatores principais, entre outros, destacaram-se Alice Moderno, Aires Jácome Correia (Marquês de Jácome Correia), Luís Leitão, Fontana da Silveira e Ulisses Machado.
Alice Moderno, para além de ser a colaboradora mais assídua, também dirigiu a revista na ausência de Maria Evelina de Sousa, o que terá acontecido entre os números 108 e 112, publicados em 1909.
De entre a colaboração que Alice Moderno prestou à Revista Pedagógica, destacamos, pela duração no tempo, a tradução livre da rubrica “Usos Sociais” que era da autoria da Baronesa de Savernon.
A Revista Pedagógica manteve ao longo dos anos em que foi editada um espaço dedicado à poesia, intitulado “Guarda-joias”, onde foram publicados poemas de vários autores, como Antero de Quental, Maria Veleda, Mário Pacheco e Alice Moderno.
Na rubrica referida, Alice Moderno publicou, entre outros, os seguintes poemas: “Amor Supremo”, escrito para uma récita de uma grande gala realizada no Teatro Micaelense, “A Itália Vitaliani”, “Jogos Florais”, soneto dedicado ao Marquês de Jácome Correia, e “A João Melo Abreu”, poesia que foi impressa na fita de uma coroa deposta sobre o seu ataúde.
Sobre a temática do ensino propriamente dito, Alice Moderno escreveu vários textos onde teve a oportunidade de expor o seu pensamento.
De entre eles, destacamos “Palavras de um “toast”, escrito em Angra do Heroísmo, a 22 de outubro de 1911, dedicado aos professores primários (hoje designados de professores do 1º ciclo do ensino básico).
No seu texto, Alice Moderno saúda os professores primários, dizendo que eles são “os funcionários mártires da instrução” e acrescenta, citando Renan “que o futuro intelectual do indivíduo depende principalmente de quem lhe ensina a ler” e termina afirmando que “a leitura, inteligentemente assimilada em tenros anos, pode fazer sábios, como a rotina sabe fabricar cretinos”. Alice Moderno conclui o seu curto texto, saudando “entusiasticamente os membros conscientes, independentes e dignos da classe à qual o estado menos paga e da qual mais exige…”
Outro texto que merece referência foi o publicado a 9 de dezembro de 1909, intitulado “Médicos Escolares”, onde Alice Moderno solidariza-se com a opinião de Maria Evelina de Sousa que numa reunião realizada em Ponta Delgada defendeu a necessidade de médicos escolares que deveriam visitar as escolas quinzenalmente a fim de verificar se aquelas se encontravam em boas condições de higiene “e se as crianças que as frequentavam estão em boas condições que lhes permitam matricular-se num estabelecimento de instrução, a que concorrem muitas outras que têm direito a não serem contaminadas pela doença alheia”.
Alice Moderno, para além de professora particular, foi nomeada regente da Escola Móvel de Ponta Delgada, tendo, no dia 15 de outubro de 1913, proferido a alocução inaugural.
No seu discurso Alice Moderno elogiou o regime republicano por “procurar extinguir, no feracíssimo solo lusitano, as flores nefastas da ignorância e da superstição” que infelizmente continuam a proliferar nos nossos dias.
Pelo interesse que tem para melhor conhcermos o pensamento de Alice Moderno, para terminar esta minha colaboração de hoje, abaixo apresenta-se um extrato do discurso mencionado:
“ A verdade é que somos todos iguais.
Iguais no nascimento, pelo sofrimento, e perante a morte. O que desnivela os homens é unicamente, mas cumpre dizê-lo inexoravelmente, a diferença de educações.
Instruí-vos, educai-vos, e colocar-vos-eis a par dos primeiros entre os vossos semelhantes.”
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30495, 26 de novembro de 2014, p.15)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Aprendendo

Aprendendo com Alice Moderno


Muitos cidadãos, a título individual, e as associações animalistas desempenham um papel fundamental, sobretudo na recolha de animais domésticos abandonados e na procura de adotantes, na denúncia de maus tratos, na educação dos cidadãos e no salvamento de animais que são vítimas da política de abate que é prática na maioria dos canis.
Durante muitos anos, a proteção aos animais domésticos esteve, em São Miguel, a cargo da SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais que sob a direção de Alice Moderno e a colaboração de vários zoófilos micaelenses, de que destacamos a professora Maria Evelina de Sousa, o braço direito de Alice Moderno, Alfredo da Câmara, que sempre disponibilizou o salão dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada para a realização de diversas reuniões e Aires Jácome Correia (marquês de Jácome Correia) que foi presidente da Assembleia Geral, durante vários anos, e o mais generoso dos sócios contribuintes.
Apesar de grande parte da atividade da SMPA, sob a presidência de Alice Moderno, ter decorrido durante um regime não democrático, o Estado Novo, os dirigentes daquela associação tinham o cuidado de dar a conhecer publicamente as suas atividades, apelar à participação e divulgar as contas da mesma, através dos jornais.
Hoje, em regime democrático, pelo menos formalmente, com mais e melhores meios de comunicação, as associações parecem ignorar que a participação dos cidadãos seria maior se sentissem que os seus donativos estão a ser bem usados, se conhecessem melhor o que fazem as associações e que dificuldades enfrentam.
Para além do referido, parece que as associações (algumas ou a maioria?) vivem na semiclandestinidade, de tal modo que raramente ou nunca, nem mesmo a solicitação dos órgãos de soberania, emitem um parecer sobre assuntos que à defesa dos animais dizem respeito, raras vezes tomam a iniciativa de fazer denúncias publicamente, nunca (ou quase nunca) promoveram uma petição, não divulgam a composição dos seus órgãos sociais, não divulgam a realização das assembleias gerais ou não apresentam contas tal como está previsto nos estatutos de todas elas.
Outra batalha ganha pela SMPA foi a criação de um posto veterinário em Ponta Delgada que embora público funcionava com a colaboração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Hoje, apesar de uma recomendação da Assembleia Legislativa Regional e das declarações favoráveis por parte do secretário da tutela, parece que alguns interesses mais alto se levantam e nada se faz para que se concretize o sonho de Alice Moderno, isto é, que a ilha de São Miguel tenha um hospital veterinário público ou gerido em parceria ou totalmente por uma ou mais associações de proteção dos animais.
Não querendo intervir na vida interna das associações, esta devia ser uma luta contínua que devia figurar na agenda de todas elas. A concretização deste sonho, para além ser a verdadeira homenagem a Alice Moderno, poderia abrir o caminho a uma correta forma de tratar os animais, não como coisas mas como seres que sentem.
Pensamos que, muitas vezes, as pessoas que são passivas por natureza ou por deseducação, ainda se retraem mais quando se trata de defender os animais. Com efeito, para além de poderem ser alvo de chacota, muitas vezes são acusadas de darem mais valor aos animais ditos irracionais do que aos seus semelhantes.
A propósito do que está escrito no parágrafo anterior, Alice Moderno num texto publicado em 1935 cita o escritor Francis de Miomandre que escreveu: “Não há graduação na bondade. A pessoa que ama os animais não é cruel para com o seu semelhante. E, muito ao contrário, aquele que defende a sua sensibilidade contra as tentações da zoofilia, não passa de um ser egoísta e explorador da espécie humana”.
Estamos a ficar cansados de ouvir alguns (ir) responsáveis que, face às reaiis ou virtuais dificuldades por que estão a passar as instituições que gerem, lamentarem-se de não fazer nada pelos animais pois, dizem eles, primeiro estão as pessoas. Esquecem-se eles de dizer que há sempre dinheiro para aquilo que querem: para festas e roqueiras, para touradas e música pimba, para contratação de amigos ou correligionários, etc..
Por último, também fingem ignorar que, se há pessoas que estão a passar mal, tal é devido às políticas ruinosas que foram governando este país, a todos os níveis, e que eles também contribuíram para tal. Em suma eles criaram a pobreza e os pobres para agora poderem dar-lhes uma esmola, chame-se a esta rendimento social de inserção ou outra coisa qualquer.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30484 de 12 de Novembro de 2014)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A proteção dos animais em 1938


A proteção dos animais em 1938

Para a elaboração deste texto recorri apenas ao jornal Correio dos Açores que pesquisei com o objetivo de conhecer melhor o labor de Alice Moderno em defesa dos animais.
Para além de textos de temática diversa, em 1938, Alice Moderno publicou, no Correio dos Açores, onze “Notas Zoófilas”, nas quais foram abordados, entre outros, os seguintes temas: o reconhecimento a cidadãos amigos dos animais, como os senhores António de Sousa Manteiga, Manuel Albano Botelho e José Caetano de Sousa; o elogio às qualidades de cães e gatos; o tratamento de animais nos Zoos em vários países; os gatos na literatura; a assistência veterinária aos animais e outros animais de companhia.
No mês de Maio, numa pequena nota, o Correio dos Açores dá a conhecer que na montra do estabelecimento comercial do sr. Manuel Machado Botelho, secretário da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, encontram-se em exposição “dezenas de aguilhões, arma com que os condutores de carroças costumam estimular o zelo dos infelizes quadrúpedes que lhes granjeiam arduamente o pão nosso de cada dia, e recebem em recompensa magras rações e abundantes maus tratos”. Os mencionados aguilhões eram por ele “apreendidos aos selvagens carroceiros” durante as suas várias e contínuas digressões no campo”.
Também em Maio, o jornal divulgou um texto, possivelmente de Alice Moderno, onde é denunciado o envenenamento de um cão nas Furnas, “que foi sair a estrebuchar em frente ao Hotel Terra Nostra!”, chamando a atenção para o ato de crueldade e para “ as consequências que pode ter para o futuro turístico” de São Miguel.
No mês de Junho do ano mencionado, o senhor Martim Faria e Maia, da Lagoa, publicou “uma nota zoófila interessante”, onde relatou o caso de uma cadela sua “A Francesa” que amamentou dois gatinhos, um dos quais passou a ser “seu inseparável companheiro”.
A história da “Francesa” acaba com a sua morte por velhice e doença. Segundo Martim Faria e Maia, após o ocorrido, “o gato miou durante dias à procura da mãe adotiva e quinze dias passados morreu também.
Ainda, em Junho, o jornal divulgou que em resultado das queixas apresentadas às autoridades pela SMPA:
- um indivíduo das Calhetas que maltratou um cão foi remetido para a cadeia da Comarca da Ribeira Grande;
- havia sido preso um cidadão dos Fenai da Luz que atirou uma cabra do alto de uma rocha;
- estava a decorrer uma investigação para apurar quem, na Bretanha, havia cortado a cauda a três novilhos.
No mesmo texto é divulgada a colaboração entre o Posto Zootécnico e a SMPA – Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Assim, a SMPA havia fornecido ao referido posto, para tratamento de animais, vomitivos, clorofórmio e algodão.
No mês de Setembro, o jornal volta a referir-se ao assunto dos animais de tiro, vítimas das aguilhadas, elogiando o senhor José de Medeiros Mota, residente no Ramalho, que por ser “alto e de empenado, consegue submetê-los e corta-lhes a extremidade da aguilhada, que é, como quem diz, do instrumento de tortura”.
No mesmo mês, a propósito do envenenamento de peixes do tanque do Campo de São Francisco, a Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa mandou dois ofícios, um dirigido ao Governador Civil e o outro à Presidente da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.
No ofício dirigido à SMPA, transcrito na íntegra pelo Correio dos Açores, a dado passo, pode ler-se:
“Há muito terreno inculto a desbravar e muita consciência a imbuir nas máximas divinas de Cristo. E é para isso que trabalhamos – nós, os zoofilistas – sem descanso sem um momento de fadiga, para que Portugal possa ser visto e encarado lá fora como Nação próspera e grandiosa sob o ponto de vista humanitário”.
O leitor faça um paralelo entre a situação atual e a de 1938 e tire a suas conclusões.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30428, 3 de Setembro de 2014, p.14)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014



O Correio dos Açores, Alice Moderno e os ouriços-cacheiros

Quem viaja pelas estradas da ilha de São Miguel não raras as vezes encontra ouriços-cacheiros que foram atropelados pelos veículos motorizados. Nalguns casos, involuntariamente e noutros por pura maldade humana.
Sabe-se que nos Açores existe apenas um mamífero endémico, o morcego (Nyctalus azoreum), tendo os restantes sido introduzidos intencionalmente ou não pelo homem. No caso do ouriço-cacheiro, segundo o jornal Correio dos Açores de 21 de Julho de 1939, a sua introdução na ilha de São Miguel foi voluntária, a sua disseminação pela ilha é que não, pois apesar de “inofensivos e tímidos, pouco dados a afoutezas românticas” aquela só aconteceu depois de “meia dúzia” deles se terem escapado “do Relvão há cerca de 15 anos”, portanto por volta de 1914.
Se hoje há um profundo desrespeito pelos animais, o que não é de admirar já que nem os humanos se respeitam entre si, os ouriços-cacheiros nunca tiveram uma vida fácil nesta ilha do Arcanjo. Com efeito, as tolices que sobre ele ainda hoje se dizem, como por exemplo que trepam às laranjeiras para comer as laranjas, levaram que alguns agricultores os perseguissem e a rapaziada sempre que apanhava um dava-lhe morte certa.
A situação atual não é muito diferente da vivida há 75 anos, como se pode depreender deste extrato publicado no jornal mencionado: “ Nesta mansa e santa terra, onde os animais ferozes e de rapina se limitam ao bichano arisco- a que o menino puxa pela cauda- e ao milhafre – que faz uma roda por se lhe prometer uma galinha – para quem apenas está habituado a ver os representantes do grande reino animal no cinema ou nas leituras maravilhosas o aparecimento de qualquer pequeno bicharoco, de focinho desconhecido e feição estranha, é saudado com foro de sensacional ou requintes de barbaridade”.
No artigo que vimos citando e que não deixa de ser atual escrevia-se que “quási todos os micaelenses ignoram a sua existência e o benefício que representam para a agricultura” em virtude de ser “ insetívoro, pois come especialmente os bichos da terra, grilos, gafanhotos, baratas, caracóis, besouros e toda a casta de bicharada prejudicial à agricultura”.
A 18 de Outubro de 1939, o Correio dos Açores volta a abordar o assunto, mencionando que os ouriços-cacheiros continuavam “a levar uma vida amargurada” e apelava para que as pessoas deixassem “os poucos ouriços-cacheiros que se criam nos nossos campos, viver em paz, porque eles, com toda a sua fealdade e com todos os seus espinhos, na luta pela vida só nos prestam grandes serviços”.
Alice Moderno, que não se interessou apenas pelos cães, pelos gatos, pelos animais de tiro, pelos animais de produção e pelos touros e cavalos forçados a participar em espetáculos degradantes, como o eram e são as touradas, também se manifestou em defesa dos ouriços-cacheiros.
Alice Moderno, numa das suas “Notas Zoófilas”, publicadas durante vários anos no Correio dos Açores, que viu a luz do dia a 8 de Setembro de 1940, voltou a corroborar o afirmado nos textos anteriormente citados e relatou a solução que encontrou para evitar que os ouriços fossem trucidados a golpe de foice e que consistiu em fazer publicar um anúncio, no mesmo jornal, “em letras gordas”, onde mostrava o seu interesse em “ser compradora do perseguido mamífero”.
O anúncio não caiu em saco roto e pouco tempo depois apareceu-lhe em casa um indivíduo com dois ouriços-cacheiros pequenos que ela colocou no jardim da sua residência, tendo confirmado que os mesmos não comiam a fruta que ela disponibilizava mas que davam cabo das baratas que por lá apareciam.
Na nota publicada a 15 de Setembro de 1940, Alice Moderno dá conta de que três pessoas amigas estavam interessadas em possuir ouriços e se eles vinham comer à mão. A resposta foi a de que os seus dois ouriços ainda não se haviam reproduzido, que só perto da meia-noite é que subiam ao balcão para comer num prato, mas que não vinham comer à mão e que a melhor forma de os adquirir seria através da colocação de um anúncio num jornal ou importar “do continente, de onde vieram os ancestrais dos poucos que nesta ilha existem e não têm aumentado devido à guerra encarniçada que durante algum tempo lhes fizeram”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30422, 27 de Agosto de 2014)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Roteiro

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Alice Moderno e a ALRA



Alice Moderno e a ALRA

Muito pouco se tem escrito sobre Alice Moderno e quando se escreve, algumas vezes esconde-se partes da sua vida e obra, outras vezes repetem-se falsas informações sem ter o cuidado de ir às fontes primárias ou mesmo ir além das simples pesquisas na internet.

Não sei que fonte ou fontes consultou a ALRA- Assembleia Legislativa Regional dos Açores para elaborar a nota biográfica de Alice Moderno (http://base.alra.pt:82/Doc_Noticias/NI6520.pdf), mas tenho, num caso, muitas dúvidas acerca do rigor de algumas das afirmações e, no outro, tenho a certeza de que se trata de um engano ou erro, espero que não voluntário.

Vejamos a primeira afirmação: “Republicana, depois de 1910, com a implantação da República Portuguesa, passou a participar ativamente na vida social e política de Ponta Delgada, designadamente na campanha a favor da aprovação da lei do divórcio.”

Escrever que Alice Moderno passou a tomar parte na vida social apenas depois de 1910 é ignorar que desde que começou a sua “vida literária”, em 1883, até à implantação da República, a “mulher piorneira” publicou “Aspirações”, “O Dr. Sandoval”, “Os mártires do Amor”, “No Adro”, “Açores: Pessoas e Coisas”, “Os Mártires” e “Mater Dolorosa”. É, também, passar uma esponja sobre a sua atividade jornalística, como fundadora do jornal “Recreio das Salas”, colabora ativa do “Diário de Anúncios” e fundadora do jornal “A Folha”.

Tanto quanto é do meu conhecimento, o divórcio foi legalizado em Portugal através de um decreto publicado a 3 de Novembro de 1910, portanto menos de um mês após a implantação da República, pelo que tenho muitas dúvidas acerca da ocorrência de uma campanha realizada entre 5 de Outubro de 1910 e 3 de Novembro do mesmo ano.

Aproveito, a oportunidade, para divulgar o que Alice Moderno escreveu sobre o assunto. No jornal “A Folha” de 16 de Outubro de 1910, pode ler-se:
“Informam telegraficamente que em dezembro próximo será decretada a lei do divórcio. Assim devia ser, e semelhante medida está perfeitamente de acordo com a perfeita orientação do governo provisório da República Portuguesa. O divórcio é permitido em todos os países em evidência pela sua supremacia intelectual, e, muito longe de contribuir para a dissolução da família, é, pelo contrário, um incentivo para a perfeita constituição da mesma”.

A 13 de Novembro, do mesmo ano, na rubrica “URBI ET ORBI”, no mesmo jornal, o assunto do divórcio é referido do seguinte modo:

“ Como noticiáramos no nosso último número, já foi decretada a lei do divórcio…Um telegrama para um nosso colega diário diz ter essa lei dado origem a muitos protestos. Suporão os protestantes que o divórcio é obrigatório, como o serviço militar?!”

A segunda afirmação “Legou os seus bens a diversas causas de beneficência e adquiriu o imóvel das Capelas destinado à Casa do Gaiato”, não faz qualquer sentido como se poderá verificar através da apresentação de alguns dados.

No dia 31 de Janeiro de 1946, Alice Moderno faz um testamento deixando como herdeira proprietária dos seus bens a Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, ficando esta obrigada a criar um hospital para animais no prazo de dois anos após a sua morte.

Alice Moderno morre em Fevereiro de 1946 e menos de dois anos depois começou a funcionar um espaço na Rua Coronel Chaves que mais parecia um canil do que um hospital, passando depois para novas instalações que, segundo a prof. Conceição Vilhena, “afirma-se, não tem aquelas dimensões desejadas pela sua fundadora”.

Depois da morte do seu irmão, Vítor Rodrigues Moderno, em 1953, que era o usufrutuário dos bens de Alice Moderno, a Junta Geral, em reunião realizada em 1954, decidiu vender todos os bens e comprar uma casa e propriedade para a instalação da Casa do Gaiato.

Como se poderá concluir Alice Moderno não comprou a Casa do Gaiato, nem deixou em seu testamento nenhuma indicação nesse sentido, tendo a aquisição sido da única responsabilidade da Junta Geral.

Se estiver errado darei a mão à palmatória.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30393, 23 de Julho de 2014)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Roteiro de Alice Moderno na Cidade de Ponta Delgada (2)


Roteiro de Alice Moderno na Cidade de Ponta Delgada (2)
Neste número do jornal Correio dos Açores dou seguimento ao texto publicado neste jornal no passado dia 2 de Julho, continuando a apresentar alguns locais relacionados com Alice Moderno.
5 – Rua do Valverde
Numa casa que pertenceu ao Sr. João Luís da Câmara viveu o advogado, Dr. Henrique de Paula Medeiros, que segundo Alice Moderno terá sido quem pela primeira vez falou na necessidade da criação de uma sociedade protetora de animais.
Alice Moderno, que frequentava a casa, escreveu que o Dr. Henrique Medeiros, era um “extremoso defensor” dos cães, possuindo “alguns felizardos” e que o quintal da casa “ era um verdadeiro asilo para os felinos, que lá cresciam e se multiplicavam, conforme o preceito evangélico”.

6 – Rua Pedro Homem
Fundada em 1911, a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais manteve-se quase inativa até 1914, ano em que Alice Moderno assumiu a presidência da mesma.
Foi sob a sua presidência que a SMPA foi dotada de uma sede que se situou na rua Pedro Homem, nº 15, rés-do-chão.
Para além da sede foi adquirido mobiliário e foram tomadas medidas conducentes a acabar com os maus tratos de que eram alvo os animais usados no transporte de cargas diversas, nomeadamente os que transportavam beterraba para a fábrica do açúcar, e para a educação dos mais novos, através do envio de uma comunicação aos professores “pedindo-lhes para que, mensalmente, façam uma preleção aos seus alunos, incutindo no espírito dos mesmos a bondade para com os animais, que não é mais do que um coeficiente da bondade universal”.
7 – Rua Coronel Chaves
No dia 31 de Janeiro de 1946, vinte dias antes de falecer Alice Moderno, em testamento, deixou alguns bens, à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, com a condição desta, no prazo de dois anos, criar um hospital para animais.
Um arremedo de hospital, começou a funcionar, em Janeiro de 1948, num pequeno pavilhão pouco espaçoso no canto norte da rua Coronel Chaves, onde até há alguns anos funcionou o CATE.

As suas minúsculas dimensões e por se assemelhar mais a um canil do que a um hospital fizeram com que o intendente de pecuária, Dr. Vítor Machado de Faria e Maia, não o tenha considerado digno de ser oficialmente inaugurado.

8 – Serviços de Desenvolvimento Agrário
Alguns anos mais tarde, a Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada construiu um edifício na Estação Agrária, em São Gonçalo, com um pouco mais de espaço. O mesmo foi dotado do material e da aparelhagem necessária, tendo a sua manutenção ficado a cargo dos rendimentos obtidos através do legado da benemérita Alice Moderno.

Nos primeiros anos, sob a administração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, presidida pela Dona Fedora Serpa Miranda, com a colaboração da Junta Geral, foi assegurada a enfermagem permanente aos pequenos animais e a consulta diária a animais de todas as espécies, através do veterinário municipal de Ponta Delgada.

9 – Cemitério de São Joaquim
Alice Moderno faleceu a 20 de Fevereiro de 1946 e está sepultada no Cemitério de S. Joaquim de Ponta Delgada, num jazigo por ela mandado construir  ainda em vida.
No mesmo jazigo encontra-se sepultada Maria Evelina de Sousa, outra mulher que teve um papel de destaque na criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.
Maria Evelina de Sousa foi a professora do primeiro ciclo, diretora da “Revista Pedagógica”, redatora dos estatutos da SMPA e membro da direção daquela associação.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30381, 9 de Julho de 2014, p. 11)

terça-feira, 1 de julho de 2014



Roteiro de Alice Moderno na Cidade de Ponta Delgada (1)
No passado dia 9 de Junho, Alice Moderno foi distinguida, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, a título póstumo, com a insígnia Autonómica de Mérito Cívico, numa cerimónia realizada na Vila de Nordeste.
No dia anterior, 8 de Junho, dois membros do Coletivo Alice Moderno, sediado na Ribeira Grande, acompanharam o primo de Alice Moderno, que esteve presente na cerimónia mencionada, numa pequena visita por diversos locais de Ponta Delgada de algum modo ligados à vida e obra da escritora, professora, benemérita e mulher de negócios e de causas, Alice Moderno.
Neste número do jornal Correio dos Açores dou a conhecer alguns dos locais de Ponta Delgada associados a Alice Moderno.

1- Rua Manuel da Ponte
No edifício cujas portas possuem os números 34 e 36 situado na rua Manuel da Ponte, antiga rua da Fonte Velha, viveu e faleceu, em 1946, Alice Moderno.
Neste mesmo edifício funcionou a redação e a administração do jornal “A Folha”, bem como a tipografia “Alice Moderno”. 
Foi nesta tipografia que foram impressas algumas obras de Alice Moderno, como a peça de teatro, em prosa, “Na véspera da Incursão”, dedicada ao Doutor António Joaquim de Sousa Júnior, o primeiro ministro da Instrução Pública após a implantação da República, em 1910, e a peça de teatro, em verso, “A Voz do Dever”, dedicada ao Dr. Afonso Costa, um dos políticos mais influentes da Primeira República.
2- Rua do Castilho
No número 1 da rua do Castilho, funcionou, antes de se mudar para a rua da Fonte Velha, a redação e a administração do jornal “A Folha” e a tipografia “Alice Moderno”. Foi aqui que foram impressos o monólogo “Mater Dolorosa”, dedicado “à grande atriz Lucinda do Carmo”, e “A Apotheose”, peça de teatro escrita, por Alice Moderno, para homenagear João de Melo Abreu.
Nesta tipografia da Rua do Castilho foram compostos e impressos os primeiros números do jornal anarquista micaelense “Vida Nova”, de periodicidade quinzenal, que se apresentava como “Órgão do Operariado Micaelense” e que viu a luz do dia entre 1 de Maio de 1908 e 30 de Setembro de 1912. O “Vida Nova” teve como proprietário e diretor Francisco Soares Silva que foi um dos fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.
3 – Largo de Camões
Em dependências do Convento da Graça, concluído em 1680, o Governador Civil de Ponta Delgada, Dr. Félix Borges de Medeiros, por edital de 21 de fevereiro de 1852, mandou instalar o Liceu de Ponta Delgada (o Liceu da Graça).
Frequentado apenas por rapazes, só em 1887, surgiu a primeira estudante, Alice Moderno, que “escândalo dos escândalos” usava cabelo cortado.
4- Rua da Mãe de Deus
Alice Moderno viveu numa época em que havia fome e miséria nos Açores (hoje apenas se modernizaram) e achava que a solução deveria partir dos órgãos do governo, mas nunca excluiu a prática da caridade.
Ao longo da sua vida, através do seu jornal procurava sensibilizar a comunidade e colaborava quer monetariamente quer compondo poesias expressamente para serem recitadas em festas de beneficência.
Na esquina da rua da Mãe de Deus com a Rua Padre César Augusto Ferreira Cabido existiu o “Asilo da Infância Desvalida”, fundado em 15 de dezembro de 1855, que já foi “Internato Feminino da Mãe de Deus” e hoje designa-se “Mãe de Deus, Associação de Solidariedade Social”
Alice Moderno, no seu testamento, deixou ao “Asilo da Infância Desvalida” uma cruz de brilhantes com o objetivo de que com o valor da sua venda fosse instituído um “prémio anual, a atribuir à aluna que mais se distinguisse pelas suas qualidades de inteligência e trabalho”.
(Continua)

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30375, 2 de Julho de 2014, p.14)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Alice Moderno



A propósito do aniversário da morte de Alice Moderno

No próximo dia 20, do corrente mês de fevereiro, fará 68 anos que faleceu Alice Moderno, personagem ímpar que marcou a sua época e que continua a inspirar todos os que lutam por uma sociedade melhor, nomeadamente para quem se bate para que o bem-estar animal e os direitos dos animais sejam reconhecidos na prática e não passem de meras palavras para embelezar discursos de circunstância.
Um trabalho importante, talvez o de maior envergadura até ao momento, para a perpetuação da memória de Alice Moderno foi feito pela professora Doutora Maria da Conceição Vilhena que, para além de vários textos, foi autora dos livros Alice Modernoa mulher e a obra”, editado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais e “Uma Mulher Pioneira” editado pelas Edições Salamandra.
Nos nossos tempos livres, temos procurado pesquisar e compilar, nos jornais de Ponta Delgada onde ela colaborou ou chegou a dirigir, como o “Correio dos Açores”, onde manteve durante muitos anos a seção “Notas Zoófilas” “A Folha”, “O Recreio das Salas”, o “Diário dos Açores” e o Académico”, os seus escritos relativos à questão animal, com vista a conhecer melhor a sua vultuosa obra, a aprender com os erros do passado e a divulgar, sobretudo junto das pessoas que hoje, nos Açores, estão a prosseguir a luta por ela abraçada durante uma parte significativa da sua vida.
Conhecendo relativamente bem a sua personalidade, tal como já esperávamos, temos encontrado textos de Alice Moderno que com ligeiras adaptações mantêm-se perfeitamente atuais. De entre os exemplos possíveis, destacamos “Animais nossos amigos…”, texto de um discurso proferido por Alice Moderno numa reunião da SMPA - Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, que foi publicado, no Correio dos Açores, a 30 de Janeiro de 1934.
No referido texto, Alice Moderno depois de mencionar que “em todos os países cultos, a proteção e assistência aos animais constitui um dever cívico, a que ninguém se exime, e pelo cumprimento do qual as leis olham cuidadosamente, rigorosamente, mesmo”, lamenta que, “em São Miguel, com sincera mágoa” pouco havia sido feito.
Sabendo-se que a SMPA foi fundada em 1911 e que uma vintena de anos depois a situação, segundo ela, estava muito longe de ser a ideal interessa-nos saber a razão?
As autoridades não colaboravam com a SMPA, as propostas da SMPA eram muito avançadas para a época, em que as dificuldades económicas de uma parte significativa da população eram enormes, ou os próprios dirigentes da sociedade pela sua apatia não foram capazes de implementar as suas ideias/propostas?
Hoje, em que uma parte crescente dos cidadãos se empenha em movimentos de solidariedade, não só para com humanos que vivem em regiões com poucos recursos naturais ou são governados por dirigentes corruptos, mas também para com quem na nossa terra foi espoliado do seu direito a ter um trabalho digno e uma remuneração justa, e onde a causa animal ganha, dia a dia, cada vez mais seguidores, é indispensável conhecer a vida e a obra de uma mulher que despendeu muitas das suas energias em várias causas humanitárias, como é a proteção dos animais, que segundo ela “sofrem muitas vezes estoicamente, sem um queixume, os maus tratos que a crueldade humana lhes inflige”.
Desafiamos as entidades oficiais a organizar um ou mais eventos que contribuam para dar a conhecer a obra de Alice Moderno, na literatura, no ensino, na luta pelos direitos das mulheres, na defesa dos animais e das plantas, às gerações que hoje a ignoram por completo.
Se nenhuma entidade oficial se mostrar disponível para tal, as associações de proteção dos animais deviam juntar esforços para o fazer, pelo menos no que diz respeito à causa que abraçaram.
Outro grande passo para perpetuar a sua memória será a luta pela concretização do grande sonho da SMPA e de Alice Moderno que era “estabelecer um Lazareto para tratamento dos animais achados quando abandonados pelo dono” e que hoje deve ser o de “criar” um moderno Hospital Veterinário “Alice Moderno”.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 3023, 19 de Fevereiro de 2014, p.11)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A VONTADE DE ALICE MODERNO VAI SER RESPEITADA?



A VONTADE DE ALICE MODERNO VAI SER RESPEITADA?

1-   O bem-estar animal e o controlo das populações de animais errantes

Foi com muita satisfação que recebi a notícia da aprovação, por maioria, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, no passado dia 10 de Dezembro, de uma resolução que visa a promoção do bem-estar animal e o controlo das populações de animais errantes.

Se estão de parabéns todos os deputados que aprovaram a resolução, bem como todas as entidades que emitiram os seus pareceres favoráveis, como o Clube dos Amigos e Defensores do Património Cultural e Natural de Santa Maria e a APA- Associação Açoriana de Proteção dos Animais, lamenta-se o silêncio, embora possa haver justificações fortes para tal, de outras associações de proteção dos animais.

Embora respeitável, já que todos têm direito à sua opinião, considero lastimável o parecer da Delegação dos Açores da Ordem dos Médicos Veterinários, pois emite opiniões sobre um texto treslido.

Não deixando de ser extremamente positiva a aprovação da resolução, tenho sérias dúvidas acerca da sua implementação já que há sempre alguém apostado em puxar para trás, em tentar impedir a evolução das sociedades.

Não vou aqui rebater os vários argumentos contra a resolução, apenas mencionei o dos custos da implementação de uma política de não abate que é recomendada por várias organizações internacionais.

Por acaso, já alguém apresentou algum estudo com os custos do abate sistemático e da incineração dos milhares de animais mortos nos canis, licenciados ou não, nas diferentes ilhas dos Açores e que nunca pararão já que sem esterilizações os animais continuarão a procriar-se?

Temos dúvidas se o farão, pois o que é chique é fomentar o consumo, o usar e deitar fora e, no caso em apreço, é comprar e oferecer animais pelas festas ou aniversários para os abandonar à primeira oportunidade.

2-   Por que razão aderi à causa animal?

Há algum tempo, estou em crer que em jeito de brincadeira, alguém escreveu numa conhecida rede social que não podia contar comigo pois eu era amigo dos animais e não dos humanos.
Como não tenho que dar provas de nada e como cada um tem a liberdade de escrever o que lhe vai na alma, apenas aproveito para enumerar algumas razões que me motivam a lutar pelos direitos dos animais e que são, em síntese, as seguintes:
1-      Porque ninguém sensível poderá ficar indiferente, no caso dos animais de companhia, à barbaridade que consiste no abate, anualmente, de 100 mil animais em Portugal nos canis municipais, resultado de compras irrefletidas, de adoções irresponsáveis, de falta de compaixão e de políticas erradas;

2-      Porque não é incompatível o envolvimento na causa animal com a adesão a todas as outras. Quem contribui com o seu trabalho voluntário ou monetariamente para a proteção dos animais não está impedido de o fazer para outras causas, como o combate à fome no mundo ou na nossa terra, o apoio aos idosos ou aos sem-abrigo, etc..

3-      Porque, como muito bem escreveu Alice Moderno, “Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes”.

4-      Finalmente, porque, como muito bem escreveu Álvaro Múnera, antigo toureiro colombiano que, arrependido, passou a dedicar-se à defesa animal: “os animais vivem um absoluto inferno por culpa do beneficiário de noventa e nove por cento das causas existentes, o ser humano”.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2992, 9 de Janeiro de 2014, p.13)