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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Um perigoso leitor de jornais


Um perigoso leitor de jornais

Ontem, 14 de fevereiro, pela primeira vez, depois de ter lido “os Subterrâneos da Liberdade”, de Jorge Amado, li o romance “Um perigoso leitor de jornais”, de Carlos Tomé, de um só folego, isto é, li-o numa tarde, sem fazer qualquer pausa.

Embora se trate de um romance, o livro de Carlos Tomé, editado pela Artes e Letras, de Ponta Delgada, relata a vida durante a ditadura do Estado Novo, liderada pelo sinistro António de Oliveira Salazar e implementada pelos seus capangas em todo o país.

Carlos Tomé, no seu muito bem conseguido escrito relata a vida humilde de um seu familiar, dá a conhecer a inexistência de liberdade de expressão, o medo em que se vivia, a prepotência da polícia política, a parcialidade dos tribunais, a arbitrariedade dos chefes e do pessoal menor nas prisões políticas e a malvadez do regime que também castigava injustamente as crianças inocentes, filhas dos prisioneiros.

Não querendo desvendar a história, apenas menciono que no romance há a referência a um vila-franquense que foi preso por ter feito “a apologia das democracias, mostrando-se desafeto à Situação Política Actual” e por ter “feito intercâmbio de jornais de doutrina subversiva”.

Recomenda-se a leitura.

15 de fevereiro de 2018
Teófilo Braga

terça-feira, 19 de abril de 2016

Algumas histórias pouco conhecidas da PIDE


Algumas histórias pouco conhecidas da PIDE

De acordo com o livro “PIDE, a história da repressão”, editado pela Jornal do Fundão, Editora, em junho de 1974, um dos grandes suportes do Estado Novo foi a polícia política que assumiu, ao longo dos tempos, os seguintes nomes: Polícia Especial, Policia Internacional Portuguesa, Polícia de Defesa Política e Social, Polícia de Vigilância e Defesa do estado, Policia Internacional e de Defesa do Estado e Direção-geral de Segurança.

De acordo com a mesma fonte, desde que aquela organização foi criada, para manter o regime ditatorial, mais de 200 mil pessoas colaboraram com as suas atividades, desde os inspetores, passando pelos simples funcionários administrativos e acabando nos informadores.

Para além da feroz perseguição às pessoas que tinham alguma intervenção cívica e política com ligações à oposição, a polícia política também chegou a ameaçar e a prender pessoas que de algum modo estavam ligadas ao regime em todo o território nacional.

Neste texto, apresentarei alguns exemplos ocorridos nos Açores ou com açorianos que demonstram a arbitrariedade da atuação da polícia política que perseguia, sem atender a idades e a opções políticas. Nalguns casos, omitirei os nomes, só referindo os mesmos quando os factos, de alguma forma, já tenham tido divulgação, quer na comunicação social, quer em livros.

Um jovem açoriano, com idade de 17 ou 18 anos, da ilha Terceira, que se envolveu no movimento associativo estudantil e em organizações oposicionistas viu a sua correspondência com os seus familiares ser violada e apreendida pela polícia política. Só teve conhecimento do facto, depois do 25 de abril, quando pediu para consultar o seu processo na PIDE/DGS.

Muitos outros poderão estar na mesma situação, mas para o saberem terão de solicitar autorização para consultar os seus processos.

Num concelho da ilha de São Miguel, um membro do partido que apoiava a ditadura, a ANP- Ação Nacional Popular, organização que sucedeu à União Nacional, acusou, não sabemos se com fundamento ou não, o presidente da Câmara Municipal de utilizar trabalhadores camarários na construção da sua casa. Foi obrigado a comparecer na PIDE por diversas vezes, onde foi alvo de vários interrogatórios.

Um dos poucos oposicionistas ao Estado Novo, nos Açores, foi o senhor António Guilherme Francisco, que foi cabo de mar e depois comerciante e industrial em Vila Franca do Campo.Tal como aconteceu com outros oposicionistas também foi perseguido pelo Estado Novo, nem sempre por razões políticas. O que lhe aconteceu, numa das vezes, está bem descrito no seguinte extrato publicado no livro “História dos Açores 1935-1974”, do Dr. Carlos Melo Bento:

“António Guilherme Francisco foi vítima de denúncias feitas por encomenda de rivais comerciais e sem mais nem menos a PIDE foi, um dia, algures em 1939, busca-lo a casa remetendo-o para o Forte de Angra do Heroísmo, onde um tribunal militar sumariamente o condenou a alguns anos de prisão. Mercê dos seus contactos junto da Seara Nova e da República, conseguiu que o seu caso fosse revisto e posteriormente considerado sem fundamento, pelo que o libertaram após uma detenção de 15 a 18 meses.”

Termino, apresentando o caso da prisão, pela PIDE, do Dr. Luís Bernardo Leite Ataíde e do filho, pertencentes a “uma família inquestionavelmente conservadora”, tão bem descrita, pelo Dr. Augusto de Ataíde, no livro “Percurso Solitário”.

De acordo com o autor referido, a prisão do pai e do avô deveu-se a um artigo publicado no Correio dos Açores “com criticas mal disfarçadas a prepotências das autoridades” e a outro tão bem exposto no extrato seguinte:

“ O Governador Civil tinha uma amante cuja família explorava um negócio ao qual o Correio dos Açores, na mesma linha desbocada, teceu críticas duras e, aparentemente, fundadas. Foi demais. A amante em fúria e prantos exigiu desforra! Acusados, pai e filho, da prática de delito antieconómico numa venda de chá, foram presos, sem mais conversas e com base num telegrama em que o segundo dizia ao primeiro que parecia possível negociar um bom preço junto de um comprador lisboeta... Foi o que bastou ao Governador, amante ofendido e dedicado: a referência a um «bom preço» era inquestionável prova de especulação...”

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 30915, 20 de abril de 2016, p.15)
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Homenagem



António Guilherme Francisco: oposicionista ao salazarismo

O movimento das forças armadas que a 25 de abril de 1974 instituiu um regime de democracia pluralista foi recebido, em Vila Franca do Campo, com algum receio por parte dos apoiantes do regime deposto e com indiferença, ou mesmo desconfiança, por parte da maioria da população.
Como terá acontecido um pouco por todo o lado, foram os jovens recém-licenciados ou os que ainda estavam a completar estudos nas universidades no continente, os principais apoiantes do novo regime, pois em Vila Franca do Campo não existia, ao que sabemos, qualquer núcleo da chamada oposição democrática. 
Também, como sucede sempre que há mudanças bruscas, os adeptos da ordem vigente optam por resistir às mudanças, sobretudo quando avaliam que as mesmas poderão ser revertidas a curto prazo, refugiam-se na inação à espera de melhores dias ou convertem-se aos novos regimes, tirando daí o máximo de dividendos possíveis.
Vila Franca do Campo não fugiu à regra, tendo acontecido um pouco de tudo. Desde, pelo menos um membro da ANP, na prática o partido único existente durante o Estado Novo que resultou na alteração da União Nacional, que passou a colaborar com o MDP-CDE até à inclusão de vários apoiantes do marcelismo nos diversos partidos que surgiram com o 25 de Abril.
Também, tal como acontece um pouco por todo o lado, as pessoas que podiam beneficiar com a ocupação de lugares nas diversas instituições, nomeadamente nas autarquias, aderiram aos partidos que estão ou têm maior possibilidade de chegar ao poder. O primeiro partido beneficiado foi o PSD - Partido Social Democrata e posteriormente o Partido Socialista, que ao longo dos anos se foi descaracterizando, não só com a viragem à direita que é comum a todas as forças partidárias, mas também com a adesão de membros do PSD, que foram perdendo eleições internas, e simultaneamente com a inclusão de membros ou simpatizantes de partidos situados à sua esquerda.
Mas, se quisermos falar em quem efetivamente se opôs à ditadura, o número de vilafranquenses foi bastante reduzido.
De entre eles, destaca-se o nome de António Guilherme Francisco, natural de Mogadouro, que foi membro da maçonaria, tendo feito parte da Loja Antero de Quental que foi criada, em Vila Franca do Campo, a 13 de Agosto de 1932.
No ano seguinte, na sequência de interrogatórios que ocorreram após a prisão de vários membros da maçonaria, chegou-se a acusar António Guilherme Francisco, então cabo de mar, de colaborar na introdução de armas em São Miguel, através do veleiro Celestina Duarte. Tal acusação caiu por terra, pois segundo se apurou o barco havia descarregado sal e não armas.
De acordo com o Dr. Carlos Melo Bento, António Guilherme Francisco chegou a ser preso pela PIDE que o foi buscar a casa e remetido para “o Forte de Angra do Heroísmo, onde um tribunal militar sumariamente o condenou a alguns anos de prisão” que felizmente não teve de cumprir. Ainda segundo o mesmo autor, António Guilherme Francisco havia sido “vítima de denúncias feitas por encomenda de rivais comerciais”.
Para além de contribuir com apoio financeiro para a oposição, António Guilherme Francisco foi, também, um dos subscritores da “Declaração de Ponta Delgada”, “plataforma eleitoral com vista às eleições de 1969”, em cujas conclusões pode ler-se o seguinte:
“O nosso primeiro objetivo é exatamente sacudir o torpor da gente açoriana, libertá-la do bloqueio moral, mais do que geográfico, em que tem vivido e levá-la a compreender que o seu primeiro dever, enquanto cidadãos, é a intervenção na vida pública para a defesa dos seus próprios interesses, para a edificação de uma sociedade mais justa e humana, a começar precisamente por aquela em que vive”.
Quem vive ou acompanha de perto a vida social em Vila Franca do Campo facilmente se apercebe das dificuldades com que vivem muitas famílias, da apatia de grande parte dos cidadãos face à participação na vida social e política, do medo em contribuir com as suas sugestões ou críticas, mesmo que construtivas, da clivagem em que a sociedade está dividida (alguém me dizia que existiam duas tribos cujo combate nunca terá tréguas). Assim, enquanto a democracia for apenas uma formalidade, o 25 de Abril do Povo continuará por se fazer.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30322, 16 de Abril de 2014, p.14)