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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
A Lanterna, um jornal anarquista da ilha Terceira
A Lanterna, um jornal anarquista da ilha Terceira
Em 1915, publicou-se na ilha Terceira um jornal de expressão anarquista, intitulado “A Lanterna., tendo como redator principal Aurélio Quintanilha e como editor João Ávila. O jornal que era propriedade do Grupo Editor de A Lanterna, foi impresso em Ponta Delgada, na Rua da Fonte Velha 34 e 36 e a redação e administração sediada na rua Visconde de Bruges, em Angra do Heroísmo.
O jornal apresentava como lema iluminar “corajosa e serenamente, uma nesga dessa estrada que há de conduzir à emancipação as multidões sedentas de justiça e liberdade”
Os responsáveis pelo jornal logo no primeiro número, publicado a 10 de julho de 1915, não tiveram ilusões quanto às dificuldades que o mesmo iria encontrar no meio terceirense, tendo a propósito escrito o seguinte: “… mas não se imagine que temos qualquer espécie de ilusões quanto à sua vida e situação. Um jornal desta natureza deve desagradar a muita gente que procurará sem dúvida fazê-lo desaparecer” e acrescentaram “A Lanterna publicar-se-á enquanto puder. Uma vez, porém, que não possa publicar-se com a orientação delineada preferimos suspendê-la, ou suprimi-la mesmo, a acomodarmo-nos ao meio.” Tal como previram, as dificuldades surgiram e apenas mais um número foi publicado, a 25 de julho de 1915.
Os responsáveis pelo jornal tentaram, em vão, que o mesmo fosse impresso na ilha Terceira, mas nenhuma das três tentativas teve êxito, havendo até o caso de um dos proprietários das tipografias ter recebido ameaças de perdas de fregueses e de ver a sua casa destruída por uma bomba de dinamite. A referida carta anónima também denunciava Aurélio Quintanilha nos seguintes termos: “um dos redatores do jornal é o Aurélio que foi expulso do país como anarquista”.
Se relativamente à expulsão de Aurélio Quintanilha a afirmação não é verdadeira, no que diz respeito à sua militância em organizações revolucionárias não há qualquer dúvida. Com efeito, em 1915, Aurélio Quintanilha estava a estudar em Lisboa, primeiro na Faculdade de Medicina e depois na Faculdade de Ciências de Lisboa, tendo representado as Juventudes Sindicalistas num congresso internacional contra a guerra realizado em Ferrol, onde no dia 30 de abril terá sido detido e conduzido à fronteira com os restantes portugueses presentes.
Embora não haja referência explícita, sabemos que na rua da Fonte Velha, 34 e 36 localizava-se a residência e a Tipografia de Alice Moderno, ativista do movimento de defesa dos direitos das mulheres e dos direitos dos animais, tendo sido uma das fundadoras e principal dirigente da SMPA- Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Assim sendo, os dois números do jornal só foram possíveis devido ao espírito de abertura e tolerância de Alice Moderno.
No primeiro número, destacamos, para além de uma crónica internacional, uma seção literária, uma rubrica intitulada Lira Revolucionária, onde é transcrito o poema “O Pão” de João de Barros, outra denominada Feixes de Luz, que dá a conhecer várias citações e um apelo do grupo editor de “A Sementeira” e uma Revista de Jornais..
Assinado por AC (Aurélio Quintanilha?) há um pequeno texto sobre o Esperanto que é apresentado como uma língua que é um dos “meios de propaganda para conseguir o aniquilamento das fronteiras e a consequente fraternidade dos povos”.
Como textos principais, destacamos um, assinado por um caixeiro, intitulado “Os caixeiros e a regulamentação das horas de trabalho”, outro da responsabilidade do Comandante Peary sobre “Os esquimós do Polo Norte” e “A criança de mama”, da responsabilidade de Michel Petit.
No texto sobre a duração do horário de trabalho, depois da apresentação de vários argumentos a defender a sua redução sob o ponto de vista moral, intelectual e de saúde, o articulista denunciou a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo por não ter regulamentado a legislação nacional, o que fazia com que os caixeiros estivessem a ser “roubados em duas horas de trabalho por dia”. O artigo termina com um apelo à união da classe dos caixeiros nos seguintes termos: “Temos pelo nosso lado a Razão e a lei. Mas isto como se vê não basta. É necessária pois, que nos unamos para termos também a força”.
No texto sobre os esquimós, o autor descreve uma sociedade que poderia ser modelo para as ditas civilizadas. Sobre o assunto, podemos ler o seguinte: “são selvagens, mas não são brutos; não têm nenhuma forma de governo, e no entanto, não são desordenados, nem licenciosos, se se julgarmos pela nossa maneira de entender a educação, não são educados, mas são dotados d’uma inteligência desenvolvida em alto grau ….Sem religião, e sem a menor ideia de um Deus, repartem a sua comida com qualquer faminto. Considera-se, entre eles, uma coisa natural, o auxílio aos desvalidos e aos anciãos”.
Por fim, no texto sobre as crianças, são abordados temas como os maus tratos às que são indesejadas, a alimentação e a mortalidade infantil.
O segundo, que também foi o último, número do jornal, apresenta como temas principais, o parlamentarismo, o ensino, a regulamentação do trabalho no comércio e a guerra/paz.
A questão do parlamentarismo foi abordada por Aurélio Quintanilha que denunciou as guerras partidárias, a farsa das eleições e a incompetência dos parlamentares e apontou como caminho a aposta nas associações de classe.
Sobre a (in)competência dos parlamentares, Aurélio Quintanilha escreveu: “Assim é que, sobre qualquer medida apresentada no parlamento, votam, conscientemente, uma meia dúzia de deputados, apenas os que têm conhecimentos específicos sobre esse ramo da atividade humana. De facto, quem resolve, quem aprova ou reprova é sempre – e será sempre enquanto houver parlamento – uma maioria esmagadora de incompetentes. Verdade à primeira vista paradoxal, mas perfeitamente demonstrada, teórica … e praticamente.
Por cima de tudo isso há ainda a acrescentar que, na prática, a representação da soberania popular é uma comédia. A maioria é sempre do governo, e os deputados em vez de representarem a vontade do povo, representam, mas é a vontade dos chefes dos partidos ou das comissões políticas que os fizeram eleger.”
Sobre o estafado argumento de que é preciso votar, não deixando a decisão nas mãos dos outros Aurélio Quintanilha escreveu:
“Se se entende por coisa pública a maior ou menor probabilidade que cada um tem de se alimentar, segundo as suas necessidades, de habitar uma casa higiénica, de poder educar e dar uma profissão aos seus filhos, então estamos de acordo - ninguém se deve alhear da coisa pública.
No que discordamos com certeza é quanto à maneira porque cada um se deve interessar pela coisa pública, ao passo que eles entendem que é votando neste ou naquele cavalheiro, que depois ainda se ri dos parvos que o elegeram, eu sou de parecer que esse interesse deve manifestar-se por intermédio das associações de classe, organizadas para a luta pelo bem estar moral e material dos seus associados, para a criação de consciências retas e vontades firmes, que possam ir desde já abrindo caminho a uma organização social mais justa, mais humana e igualitária.”
Sobre a questão do horário de trabalho dos caixeiros, o autor do texto lamentou que a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo não tenha feito nada, continuando os trabalhadores do comércio a serem prejudicados em relação aos seus colegas de outras localidades. Sobre o assunto podemos ler:
“Quando qualquer pobre diabo rouba um pão, para matar a fome, vai para a cadeia; mas os snrs. do município de Angra continuam à solta depois de terem roubado à nossa classe centenas de horas de trabalho – e trabalho é dinheiro.”
Relativamente ao ensino, o jornal contrapõe ao ensino neutro estabelecido pelo República em 1911, o ensino racionalista proposto por Ferrer, “que tem como meio a razão, e como guia a ciência”.
O texto sobre a guerra é um Manifesto da Conferência Internacional das Mulheres Socialistas que denuncia quem ganhava com a guerra, como os fabricantes de armamento, alertando para o facto de com ela os trabalhadores nada terem a ganhar, arriscando-se “a perder tudo o que lhes era querido.
O texto referido termina com um apelo às mulheres nos seguintes termos:
“Toda a humanidade tem os olhos em vós, trabalhadoras dos países em guerra. Deveis ser vós as heroínas, as libertadoras.
Uni-vos numa só vontade, numa só ação!
Proclamai incessantemente: Os trabalhadores de todos os países são um povo de irmãos. Só a vontade unida desse povo pode por termo à guerra. Só o socialismo poderá trazer à humanidade uma paz duradoira!”
Teófilo Braga
(A Batalha, VI Série- Ano XLV- n~282, Nov/Dez 2018)
terça-feira, 15 de maio de 2018
Aurélio Quintanilha e a Educação
Aurélio Quintanilha e a Educação
Aurélio Pereira da Silva Quintanilha nasceu, em Angra do Heroísmo, em 1892 e faleceu, em Lisboa, em 1987.
Aurélio Quintanilha, depois de ter passado por Ponta Delgada, onde concluiu o liceu, por Lisboa, onde chegou a frequentar Medicina e concluiu o Curso de Ciências Histórico-Naturais, por Coimbra, onde foi assistente de Botânica da Faculdade de Ciências e se doutorou, foi forçado a ir para França, depois de, em 1935, ter sido demitido e reformado compulsivamente por razões ideológicas. Sem condições para permanecer em França após a 2ª Guerra Mundial, regressou a Portugal tendo ido para Lourenço Marques, onde dirigiu o Centro de Investigação Científica Algodoeira e foi investigador na Universidade local. Depois do 25 de abril de 1974, pediu a reintegração na Universidade de Coimbra, tendo aí proferido a última lição: “Quatro Gerações de Cientistas na História do Instituto Botânico de Coimbra”.
A sua carreira científica reconhecida internacionalmente e a sua participação cívica em prol de um mundo mais justo e pacífico fez com que tenha sido agraciado, em 1983, com o Grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade e, em 1987, com o Grau Oficial da Ordem de Santiago da Espada.
Para além do referido, Aurélio Quintanilha foi alvo de outras homenagens de que se destaca a atribuição do seu nome a uma rua em Lisboa e no Seixal. No Museu Nacional de História Natural existe, também, uma instalação com o seu nome, o Anfiteatro de Botânica Prof. Aurélio Quintanilha. Nos Açores, apenas temos conhecimento da atribuição do seu nome a uma rua na ilha Terceira.
Embora Aurélio Quintanilha seja mais conhecido pela sua faceta de investigador na área da Botânica, não pode ser ignorada a sua atividade como professor e o seu pensamento pedagógico que, segundo Amélia Gomes, autora de uma dissertação de mestrado intitulada “A educação libertária segundo Aurélio Quintanilha” (2005), foi influenciado por “Pestalozzi, Tosltoi, Kropoktine, Jean Grave, Malato, Dewey, Kerschensteiner e António Sérgio, entre outros.”
Professor por vocação, não foi bem aceite por alguns, os mais conservadores, o seu convívio com os estudantes, sabendo-se que com eles jogava futebol e basquetebol.
A sua dissertação para o Exame de Estado da Escola Normal Superior, intitulada “Educação de Hoje, Educação de Amanhã”, foi considerada, por um dos professores que a avaliou, como imoral, pois Aurélio Quintanilha defendia a educação sexual nas escolas a cargo dos professores de Biologia.
Sobre a sua motivação para o ensino, no prefácio à dissertação mencionada podemos ler o seguinte:
“No meio deste século de um sórdido materialismo, acotovelado pelos que disputam, numa luta feroz, o pão de cada dia, uma só ambição me consome. Ser professor. Nem as vãs glórias do mando, nem o poderio do oiro me fascinaram ainda. E sinto que nenhuma outra atividade social poderia dar-me uma parcela sequer daquele sagrado entusiasmo, daquela alegria infinita que se apodera de mim quando vejo diante um curso, suspenso das minhas palavras, e me é dado assistir, naqueles olhos fitos nos meus, ao desabrochar da Ideia.”
Sobre a necessidade da educação/cultura não se cingir à escola, no seu discurso pronunciado na sessão inaugural da Universidade Livre de Coimbra, em 1925, Aurélio Quintanilha escreveu:
“A escola não basta como fonte de cultura, mesmo nos países onde são outros os seus ideais educativos e mui diversos os seus métodos de trabalho.
Por toda a parte se sente a necessidade de uma educação complementar, extraescolar e pós-escolar.”
Terminámos este texto, citando a dissertação de mestrado atrás referida: Quintanilha fala de uma “Escola de Trabalho” …não numa escola de meros trabalhos manuais, nem numa escola de produção, mas uma escola onde cada um aprenda por experiência com o seu próprio trabalho, tomando como ponto de partida a sua experiência vivida e os problemas por ela suscitados, autocontrolando os seus resultados e pondo-os ao serviço da formação da sua personalidade integrada numa comunidade escolar”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31521, 15 de maio de 2018, p.16)
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