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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

DES(EDUCAÇÃO)



1- O encerramento das escolas

Um dia destes, tomei conhecimento de que a Directora Regional de Educação e Formação do Governo Regional dos Açores havia sido vaiada no final de uma reunião com os pais e encarregados de educação de uma escola da ilha do Faial.
Se não fosse um pacato e pacífico cidadão diria que os familiares das crianças que vão ser transferidas, para além de (eventualmente) terem razão, deveriam ter ido um pouco mais longe. Por exemplo, não deviam ter deixado a senhora abrir a boca, o que seria desagradável e do meu ponto de vista desaconselhável, ou deviam ter boicotado a sessão não comparecendo à mesma.
Nada tenho contra a senhora em questão, nem estou a pôr em causa o fecho daquela ou de outras escolas, o que não aceito é que se transforme a democracia e a participação numa farsa. Com efeito, não faz sentido nenhum negociar, se foi esta a intenção, ou explicar as medidas depois de já estarem tomadas.
Supondo que o protesto não foi manipulado por questiúnculas partidárias, o que por vezes acontece, e que as pessoas não perceberam as vantagens das crianças irem para outra escola, uma coisa é certa, fingir que se dialoga contribui para aumentar o descrédito nas instituições políticas e nos políticos, que se traduz em desânimo, desinteresse pela participação na vida social e política da Região que é bastante visível na dificuldade por que passa o associativismo, no aumento da abstenção nos actos eleitorais, etc.
É necessário acabar com os arremedos de participação e alterar toda a nossa vida em sociedade que faz com que sejamos “obrigados a viver”, como muito bem escreveu John Gray, “como se fossemos livres”.

2- Indisciplina nas escolas

Com mais de 30 anos de serviço docente prestado em diversas escolas do ensino regular e do ensino profissional dos Açores, sinto que muito se tem alterado nas escolas da nossa Região e nem sempre para melhor.
É verdade que o problema da indisciplina não é uma questão de hoje, o que é “novo” é a entrada nas escolas, sobretudo nos últimos anos, de um número cada vez maior de pseudo alunos, isto é, de crianças/jovens que gostam muito da escola, sobretudo dos recreios e dos corredores, e que detestam as salas de aula, não suportam os professores e que de casa vêm munidos de muita falta de educação e de muitos maus exemplos. Por vezes ouço, sobretudo aos meus colegas que são directores de turma, quando se referem a determinados alunos: são uns santos quando comparados com os pais que têm.
Como a sociedade no seu todo não é capaz de se envolver num projecto de responsabilização colectiva pela educação/instrução das gerações mais novas, a escola é “o caixote do lixo” onde diariamente são despejados os mais novos. É à escola que são atribuídas todas as responsabilidades que deviam ser de todos e aos professores, que têm formação especializada para ministrar conteúdos de uma parte bem limitada do saber, exige-se que sejam um pouco de tudo.
Como consolo para estes, de vez em quando, acena-se com a cenoura do reforço do seu poder através da criação de legislação para o efeito. Se tivéssemos começado a trabalhar recentemente ainda acreditaríamos que o próximo Estatuto do Aluno iria resolver, pelo menos, alguns dos problemas.
A propósito de problemas, terminarei relatando um caso que se passou numa escola de uma das ilhas dos Açores.
Um grupo de alunos, menores, cortou três pneus do veículo de um professor e este apresentou queixa na polícia, tendo anexado os recibos das despesas efectuadas cujo valor rondou os 600 euros.
Algum tempo depois, recebeu em sua casa uma carta do “Tribunal de Menores” a comunicar que os menores tinham prestado declarações, que se mostraram arrependidos, que haviam sido suspensos pela escola, que um havia feito um “powerpoint” sobre a violência e a indisciplina e que se tratou de um acto isolado pelo que o processo foi arquivado.
Nem uma única palavra sobre o pagamento das despesas. Assim se des (educa), assim se dá poder aos professores!?

Autor: Teófilo Braga

Fonte: Correio dos Açores, 3 de Agosto de 2011

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Carta à Directora Regional da Educação

Ponta Delgada, 10 de Novembro de 2008


Exma Sra Directora Regional da Educação

(Com conhecimento aos professores, alunos, pais e encarregados de educação)

Fui, juntamente com outros docentes, convocado por VªExcia para uma “Acção de Formação”, hoje, todo o dia, sobre a “Avaliação do Desempenho do Pessoal Docente”. Vou lá, vou informar-me mais o melhor que possa.
Mas, para já, não deixo de ficar surpreendido pelo tão cínico quanto ingénuo atrevimento da administração regional e nacional de levarem por diante a “avaliação docente” que propugnam e não menos fico surpreso com a impunidade com que a si próprios os responsáveis por esta fraude se figuram.
Acredita VªExcia que aquilo que se ensina e que se aprende nas escolas têm tão irrisória natureza que podem mudar-se por simples decreto a belo prazer não se sabe bem de quem nem porquê? As leis internas dos fenómenos e a ordem intrínseca a qualquer discurso são folhos e rendas a entreterem ócios, engodo e isco para desprevenidos, meros artifícios para acumularem alguns aquilo que alguns dizem que faz cantar o ceguinho?
Então acha V.Excia que um docente pode ser bem avaliado num processo sumário instaurado por entidades formalmente administrativas, procedendo administrativamente, administrativamente compelidas ao arbítrio duma não menos administrativa hierarquia?
Acha que são métodos e critérios desse teor justificação capaz para se fazer tábua rasa de cinco, dez, vinte ou trinta anos de trabalho documentado de profissão, e, ao invés, é com 90 ou 45 minutos de uma ou duas pseudo aulas assistidas, preenchimento dos formulários normalizados, uma entrevista, e a incisiva ou displicente, mas sempre decisiva, benevolência ou hostilidade do presidente do executivo e ou do coordenador de departamento, que se avalia – VªExcia acredita? - toda uma vida profissional ou mesmo um ano de trabalho?
Então V.Excia superintende currículos e programas científicos, obrigando, para efeitos de ingresso na carreira, e aliás muito bem, a formação pedagógica, e depois impõe aos professores actuações contrárias, aberrantes, atentatórias da qualificação intelectual, da idoneidade científica, da ética e da deontologia profissionais? E acha que um sinistro, obscuro e aleatório “perfil” consagrado num não menos obscuro e sinistro “Estatuto da Carreira Docente” pode fazer apagar o que atrás afirmo? Julga que as águas bentas sindicais são passaporte garantido para absolvição de quantos abusos nesse “Estatuto” se licenciam? Acredita que lá porque “Deus escreve direito por linhas tortas” que o melhor é abraçar as “linhas tortas” para que tudo fique direito?
Não é por acaso que esta avaliação docente está a ser objecto de tanta atenção e tanta luta em todo o país. Não sou só eu que estou contra ela, assim como não sou eu só a estar contra o ECD que a enforma e informa.
É que não são só valores de democracia, de bom senso e de bom gosto, de lisura, de honestidade e de partilha, é também a esperança de vida que a vossa avaliação e o vosso ECD afrontam!
De vida ou de morte por isso esta luta.
VªExcia pode não saber, mas eu sei por que é que quem lhe paga o mercenato a obriga a tão abjectos actos contra natura e contra cultura. É que o figurino actual da assalariatura que tantos aplaudem ignaramente e tantos babosamente sustentam, precisa, por paradoxal que pareça, de cada vez menos qualificados e de cada vez mais desqualificados - cada vez mais transpirantes (e ou excluídos, acrescento) e cada vez menos pensantes, para usar a expressiva frase de um Colega meu. A uns cada vez mais poucos tudo se dá e tudo se investe, aos cada vez mais outros tira-se-lhes quanto se lhes pode – pudera! pois se a sua função económica e social é estrita e exactamente a de enriquecer quem aposta no negócio da compra e da venda da força de trabalho!
É imprescindível para o cada vez mais brutal modo de produção e de distribuição vigentes a máxima alienação e a rápida desqualificação da massa da população. É por isso que na análise de risco tudo aponta exactamente para a classe docente, pois esta está tradicionalmente habituada a ter como valores a educação, a instrução e a qualificação. É por isso ainda que se identifica os professores como os pontos críticos a controlar, a monitorizar, a fichar, a envolver, a expulsar ou a neles intervir correcionalmente.

O professor,

Pedro Albergaria Leite Pacheco