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quinta-feira, 22 de agosto de 2019
EM MEMÓRIA DE IVAN ILLICH
EM MEMÓRIA DE IVAN ILLICH
No passado dia 2 de Dezembro, com a idade de 76 anos, faleceu, na Alemanha, Ivan Illich, um dos mais notáveis pensadores do século XX. Natural de Viena, Áustria, Illich, que nasceu a 4 de Setembro de 1926 e estudou naquela cidade, em Salzsburgo e em Roma, foi ordenado padre católico, tendo mais tarde abandonado o sacerdócio, líderou uma comunidade próxima de Cuernavaca, no México, e foi professor e investigador universitário.
Na década de 70 do século passado, Ilhich apresentou uma das críticas mais radicais e contundentes à sociedade industrial, apresentando sempre propostas de solução dos problemas criados por essa civilização. Destaque especial nas suas críticas, mereceu a medicina que tendo sido criada para proteger a saúde estava a provocar a doença, o sistema de transportes que em vez de facilitar a mobilidade estava a produzir engarrafamentos e a escola que tendo sido criada para educar estava deseducando.
Hoje, com o sistema educativo em permanente reforma e com o consumismo a ser fomentado por alguns estabelecimentos de ensino, como é o caso da venda de lixo alimentar em algumas escolas, chegando-se ao cúmulo de se publicitar uma bebida dentro de algumas salas de aula, substituindo-se o cruxifixo, dos meus tempos de infância, pela carica de um sumo artificial, as seguintes palavras de Illich não perderam actualidade:
“Nós não podemos iniciar nenhuma reforma educativa se não tivermos compreendido que nem a aprendizagem individual, nem a igualdade social, podem ser melhoradas através do ritual escolar. Não podemos livrar-nos da sociedade de consumo sem termos compreendido antes que a escola oficial obrigatória reproduz exactamente essa sociedade de forma inevitável, seja o que for que se ensine nessa escola”
Da sua vasta obra, recomendamos a leitura dos livros, publicados em Portugal, “Libertar o Futuro” e “ A convivencialidade”. As ideias de Illich, referência ímpar para todos os ecologistas, não morreram a 2 de Dezembro, pelo contrário continuam vivas e actuais.
(Publicado no Açoriano Oriental, 23 de Dezembro de 2002)
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segunda-feira, 19 de agosto de 2019
A ESCOLA EM DEFESA DO LITORAL
A ESCOLA EM DEFESA DO LITORAL
A nível mundial, as zonas costeiras, fruto do crescimento demográfico e económico, têm vindo a degradar-se, sobretudo devido à construção de grandes empreendimentos turísticos. Outro problema preocupante é o cada vez maior enriquecimento das águas do mar em nitratos e fosfatos, sobretudo em mares fechados, como o Mar Morto e Negro e nos Mares do Norte e Mediterrâneo. Nos Açores, embora muitas vezes se viva de costas voltadas para o mar, as zonas costeiras também têm vindo a sofrer alguma degradação.
Tendo como objectivos principais, fornecer aos órgãos de decisão local e nacional e internacional elementos que contribuam para a gestão sustentada do litoral, para a recuperação de zonas degradadas e para a preservação das áreas sensíveis e alertar a população para os problemas ambientais da zona costeira e para a urgência da sua protecção, existe um projecto, de âmbito europeu, intitulado Coastwatch.
No âmbito deste projecto, que é coordenado a nível nacional pelo Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) e em São Miguel, pelos Amigos dos Açores, vários membros da associação, de Clubes Naúticos ou Navais, de Clubes Desportivos Escolares, de Clubes de Ambiente e professores e alunos de algumas das nossas escolas, estarão até ao próximo dia 31 de Dezembro a percorrer o litoral da ilha com vista à recolha de dados que permitam a caracterização ambiental da faixa costeira.
Para além da participação activa dos cidadãos na defesa de um bem que é de todos nós, o nosso património natural, pretende-se entender as causas que estão por trás da degradação do litoral e fazer com que os mais novos estejam atentos e mais sensíveis aos problemas que os rodeiam. Além disso, pelas características interdisciplinares do projecto, outros objectivos poderão ser alcançados com a sua implementação, desde os de carácter cognitivo, até outros no âmbito da afectividade e da psicomotricidade.
Pela experiência que temos, através da implementação do projecto, com algumas turmas da Escola Básica 3/S da Ribeira Grande, consideramos que o mesmo deveria ser adoptado por outros estabelecimentos de ensino de modo a ser executado, quer no âmbito da Área- Escola, quer na Área de Projecto.
Terminamos, apresentando a nossa profunda discordância com todos os que tudo fazem para que o ensino dos alunos das nossas escolas se faça (?) só dentro das quatro paredes da sala de aula, impondo restrições a outras actividades de carácter educativo, como visitas de estudo, intercâmbios, etc.. Como muito bem escreveu José de Almeida Fernandes: “...importa lançar mãos ao trabalho, abrir as portas da Escola e deixar entrar livremente e a jorros a luz e o ar puro”.
(Publicado no Açoriano Oriental, 14 de Novembro de 2002
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018
A Escola de Ferrer, a de hoje e Agostinho da Silva
A Escola de Ferrer, a de hoje e Agostinho da Silva
Antes de dar a conhecer algumas ideias do pedagogo catalão Ferrer y Guardia (1859-1909) criador da Escola Moderna, tendo por base um livro que ele escreveu enquanto esteve preso na fortaleza de Montjuïc, esclareço que entre nós existe um Movimento da Escola Moderna, que não tem qualquer ligação com Ferrer, mas que foi inspirado no francês Célestin Freinet (1896-1966).
De acordo com Sílvio Gallo, Ferrer acreditava que se aprendia pelo afeto, isto é embora a aprendizagem “seja um ato mental, racional, nada se aprende se antes não passar pelo coração, se não mobilizar o desejo”.
Na Escola Moderna, seguia-se a “pedagogia racional” a qual segundo Sílvio Gallo é “um processo educativo que eduque pela razão, para que cada ser humano seja capaz de raciocinar por si mesmo, conhecer o mundo e emitir seus próprios juízos de valor, sem seguir nenhum mestre, nenhum guia”.
Começando pelas instalações escolares, Ferrer não aceitava uma escola fechada entre quatro paredes de modo que na sua Escola Moderna a par de salas bem decoradas, havia pátios destinados à realização de atividades ao ar livre. Além disso, toda a atividade escolar era complementada com visitas a fábricas e passeios diversos.
Num passado recente, nos Açores era fomentada a existência de clubes escolares e incentivava-se a realização de atividades extraescolares. Relativamente aos clubes, a Direção Regional da Educação chegou a editar um boletim intitulado “Clubismo” que no seu número oito, de dezembro de 1995, mencionava a existência nos Açores de trinta e um clubes. Hoje, restam muito poucos clubes que por vezes estão a funcionar com meia dúzia de alunos.
No que diz respeito a atividades extracurriculares, a recomendação é para a sua redução, com vista a não roubar tempo às aulas. Enfim, continua-se a privilegiar a transmissão de conhecimentos nas salas de aula, desligando a escola do meio onde se insere.
Sobre este assunto, Agostinho da Silva foi bem claro quando escreveu que “na escola aprendemos pouco e na vida aprendemos muito” e acrescentou: “só é viva a escola que estabelece com o ambiente uma série de trocas, que se deixa penetrar por ele amplamente e por sua vez o penetra e modifica”.
Embora não discutindo a utilidade de provas em alguma circunstância, o que é certo é que na Escola Moderna de Ferrer “não havia prémios nem castigos, nem provas em que houvessem alunos ensoberbecidos com nota dez, medianias que se conformassem com a vulgaríssima nota de aprovados nem infelizes que sofressem o opróbrio de se verem depreciados como incapazes”.
Ainda sobre a não existência de provas, Ferrer escreveu o seguinte: “os elementos morais que este ato imoral qualificado de prova inicia na consciência da criança são: a vaidade enlouquecedora dos altamente premiados; a inveja roedora e a humilhação, obstáculo de iniciativas saudáveis, aos que falharam; e em uns e outros, e em todos, os alvores da maioria dos sentimentos que formam os matizes do egoísmo”.
Agostinho da Silva, depois de referir que na escola tradicional são fomentados o isolamento e uma competição doentia, o que leva a que, ainda hoje, haja muitos alunos que não queiram trabalhar em grupo, escreveu que “a escola é uma carreira em que o aluno procura ultrapassar os camaradas e em que se sente sobretudo satisfeito quando for o primeiro da classe”.
Para Ferrer o “valor da educação reside no respeito à vontade física, intelectual e moral da criança”, assim o bom educador seria todo aquele que “contra as suas próprias ideias e suas vontades pode defender a criança, apelando em maior grau às energias próprias da própria criança”.
Agostinho da Silva que acreditava que “toda a educação verdadeira e sólida é uma autoeducação”, é mais claro quando se refere ao papel do professor que deve deixar de ser um mero transmissor de conhecimentos para ser um orientador dos alunos. Vejamos o que escreveu a este propósito sobre a Faculdade de Letras do Porto que foi extinta pelo governo: “…os mestres, mais do que ensinar, estimulavam a aprender e onde ninguém tinha de se pautar pelas receitas habituais, mas de escolher os seus próprios caminhos, certos ou errados”.
Teófilo Braga
Correio dos Açores, 31643, 9 de outubro de 2018, p. 16)
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quinta-feira, 24 de maio de 2018
Sobre o ensino profissional
Fotografia de Raimundo Quintal
Sobre o ensino profissional
De vez em quando, surgem vozes a chorar pela medida tomada depois de 25 de abril de 1974 que levou ao fim das escolas profissionais. Como principais argumentos apresentam dois: nem todos têm cabeça nem podem ser doutores e a sociedade precisa de profissionais das mais diversas áreas, como carpinteiros, pedreiros, eletricistas, etc.
No Estado Novo, na década de 1950, a par do ensino liceal, frequentado pelos alunos provenientes dos extratos médios e altos da sociedade e destinado essencialmente a preparar para a universidade, existia o ensino industrial e comercial frequentado pelos alunos pertencentes às famílias com mais posses de entre os mais desfavorecidos da sociedade e destinava-se a preparar para uma profissão.
Mais tarde, na década de 60 do mesmo século o regime, já com Marcelo Caetano, fez uma tentativa de aproximar os dois ensinos, na tentativa de acabar com a estigmatização dos alunos que frequentavam o ensino profissional., como se poderá concluir da leitura da Lei 5/73 que apresenta, entre outros, os seguintes argumentos: evitar “a discriminação de classes sociais” e dar “a todos os alunos igualdade de oportunidades e possibilidades”.
A unificação dos dois ensinos só se concretizou em 1975, devido à ação de Rui Grácio, pedagogo que foi investigador do Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian e Secretário de Estado da Orientação Pedagógica nos II, III e IV Governos Provisórios, entre 17 de julho de 1974 e 8 de setembro de 1975.
António Teodoro, Professor Catedrático da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, antigo secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (FENPROF), no seu livro “Política Educativa em Portugal. Educação, desenvolvimento e participação política dos professores”, editado em 1994, cita as razões de Rui Grácio para a criação do ensino secundário unificado que abaixo se transcreve:
“Primeira: adiar para os quinze anos a escolha do rumo escolar que no sistema antecedente teria de fazer-se aos doze, permitindo aos rapazes e raparigas autodeterminarem-se com menor probabilidade de erro e adiando, com vantagem, a incidência dos factores financeiros e culturais de ordem familiar na opção do rumo escolar ou profissional do jovem;
Segunda: romper com a dualidade ensino liceal- ensino técnico, dualidade que no contexto político-social vigente exprime, ao mesmo tempo que reforça, não apenas a dualidade trabalho intelectual-trabalho manual, mas também, correlativamente, a dualidade dominante-dominado;
Terceira: romper com a dualidade escola-comunidade, educação formal-educação não formal, dualidade que empobrece os dois termos do binário.”
Hoje, depois de criadas as escolas profissionais e de criados cursos profissionais nas escolas oficiais, além do conflito existente entre aquelas devido à diminuição do número de alunos, verifica-se que alguns alunos, em número que não deixa de ser significativo, não apresenta qualquer motivação para o estudo pelas mais diversas razões, sendo uma delas a desvalorização da escola como meio de promoção social ou o facto de que o que é ensinado nas escolas nada dizer aos alunos ou mesmo às suas famílias, pois limita-se à transmissão de conhecimentos cuja utilidade para a vida diária é por vezes duvidosa.
Uma proposta para alterar o referido, que é um problema que não é de agora, foi apresentada pelo cientista açoriano Aurélio Quintanilha que achava que todas as escolas deviam ser “Escolas do Trabalho”.
Sobre aquela ideia de Aurélio Quintanilha, Amélia Gomes, autora de uma dissertação de mestrado sobre o seu pensamento em relação à educação, escreveu o seguinte:
“Nesta linha de pensamento, Quintanilha advertiu que o liceu não podia ser uma escola profissional com o objetivo de criar técnicos, no entanto, o ensino profissional devia ser parte integrante da educação em geral, sendo a base da educação do espírito e da educação do corpo”.
De acordo com a autora citada, “a proposta de Quintanilha era transformar o liceu do seu tempo numa “Escola do Trabalho”, contrariando a alienação da divisão do trabalho em manual e intelectual.”
Será que a sugestão de Aurélio Quintanilha, ainda hoje, faz sentido?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31528, 24 de maio de 2018, p.12)
quinta-feira, 15 de março de 2018
O Professor Mário de Oliveira e a Escola Única
O Professor Mário de Oliveira e a Escola Única
Nas minhas pesquisas sobre o tema da educação, depois de ter tomado conhecimento de algumas ideias defendidas pelo pedagogo Adolfo Lima que esteve ligado à Voz do Operário, instituição com sede em Lisboa que ainda disponibiliza serviços que vão do berçário ao 2º ciclo, e de ter visitado recentemente a sua sede, deparei-me com o nome de Mário de Oliveira, professor do ensino primário, hoje designado por primeiro ciclo do ensino básico.
Mário Augusto de Oliveira e Sousa (1892-1970) nasceu em São Paio, Gouveia, foi um militante libertário que esteve ligado ao movimento sindical, tendo sido delegado dos funcionários públicos ao Congresso Operário de 1922. Neste congresso foi aprovada por esmagadora maioria a adesão dos sindicatos portugueses à Associação Internacional dos Trabalhadores, de orientação anarcossindicalista, em detrimento da adesão à Internacional Sindical Vermelha, de orientação comunista.
No que diz respeito à sua atividade profissional, Mário de Oliveira lecionou na Guarda na Associação 1º de Maio e na Voz do Operário, tendo sido colaborador pedagógico do Dr. Adolfo Lima.
O professor Mário de Oliveira foi também muito ativo no movimento associativo de professores, tendo sido um dos animadores da Associação dos Professores de Portugal, da União dos Professores de Portugal e da Liga de Ação Educativa.
Mário Oliveira foi editor da revista “Educação” e foi autor da brochura “A Escola Única-uma nova ideia pedagógico-social”, editada em Lisboa, no mês de outubro de 1933.
Segundo Joaquim Pintassilgo e Maria João Mogarro, num texto, não datado, intitulado “A ideia de escola para todos no pensamento pedagógico português”, para além de Mário de Oliveira e Adolfo Lima, também defenderam a escola única, entre outros, Bento de Jesus Caraça e Álvaro Sampaio.
Antes de darmos a conhecer alguns extratos da publicação referida de Mário de Oliveira, esclarecemos o que se entende por escola única, recorrendo aos autores citados no parágrafo anterior. Assim, segundo eles:
“A Escola Única representa, em geral (e abstraindo-nos das interpretações diversas de que é alvo) uma forma de organização da escola de modo a que ela seja acessível a todos os seus membros em igualdade de condições, segundo as suas aptidões e competências e não segundo a sua situação económica e social. A Escola Única implica a unificação do sistema de ensino até uma idade considerada adequada para o aparecimento de quaisquer especializações, designadamente as de natureza profissional.”
Por não conhecermos o texto completo da brochura do professor Mário de Oliveira, as citações seguintes só foram possíveis através de um extrato do mesmo, publicado na revista “Letra a Letra”, nº 5, de setembro de 2016, editada pela Modos de Ser-Associação Livre”.
Sobre o estado da educação em Portugal, Mário de Oliveira escreveu o seguinte: “Só um patriotismo fanático, doente, pode negar os nossos 65% de analfabetos, a par dum sem número de factos que mostram claramente o atraso, a pobreza de todos os nossos recursos coletivos e fontes de valorização social”.
Sobre a Escola Única, depois de afirmar que a mesma “não atende a privilégios, a preconceitos ou favoritismos e aproveita-se das competências onde elas estiverem”, não se perdendo “valores”, nem elevando “nulidades”, Mário de Oliveira acrescenta o seguinte:
“A Escola Única nivela a todos perante a educação e organiza o ensino sob o ponto de vista da humanidade, do bem comum, dos interesses do indivíduo e da colectividade, sem prejuízo mútuo, e pretende elevar à máxima valia as aptidões técnicas e os sentimentos de fraternidade e de solidariedade humanas”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31478 de 15 de março de 2018, p.13)
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Para que serve a escola?
Para que serve a escola?
No passado dia 29 de novembro, pelas 8 horas e trinta minutos, por decisão do Conselho Executivo da minha escola, fui obrigado a substituir uma colega que faltou naquele dia. Aulas de substituição são, do meu ponto de vista, quase sempre um disparate que felizmente já desapareceu nalgumas escolas, mas que persiste noutras, embora os responsáveis tenham conhecimento de que nas aulas em que o professor que é substituído não deixa trabalhos para os alunos fazerem, o papel do professor substituto pouco se diferencia do de “babysitter”.
Como a colega lecionava a disciplina de Português e eu sou professor de Física e Química, como a turma era do 7º ano de escolaridade e como não conhecia os alunos e não me foi dada nenhuma indicação sobre o que fazer, limitei-me a tomar conta das crianças que disseram que nada tinham para estudar, pois estudar é coisa rara nos dias que correm.
Na altura, como é difícil manter numa sala de aula alunos que nela não querem estar, que gostam muita da escola, mas apenas dos corredores e dos recreios, decidi que aqueles poderiam aprender algo se fizessem uma visita guiada ao exterior, onde seria possível identificar algumas plantas e falar sobre a sua importância para a vida humana.
Querendo saber até que ponto ia o seu conhecimento sobre o mundo que os rodeava, aproximei-me de uma das plantas e perguntei-lhes qual era o seu nome. A resposta não se fez esperar: “é uma árvore ou arbusto”. Como a resposta que pretendia não chegava, acrescentei: “Então, como se chamam as árvores que existem, talvez em maior número, nas bermas das estradas?”
Como ninguém foi capaz de identificar um plátano, dirigi-me para outra planta e voltei a fazer a mesma pergunta. A resposta foi: “é um arbusto”. Mas qual o seu nome? Como as bocas se calaram fiquei a saber que ninguém conhecia uma camélia.
Não me dando por vencido, cinco minutos depois, já com a metade dos alunos sentados, pois alegaram cansaço depois de caminharem menos de 50 metros, voltei a perguntar o nome de outra planta. Como ninguém identificou uma azálea, fiquei a saber que os alunos não ligavam patavina ao meio onde se encontram ou nunca ninguém teve o cuidado de lhes dar a conhecer a realidade que os rodeia.
Não querendo atribuir culpas a ninguém, acho muito estranho a ignorância absoluta manifestada pelos jovens, a qual revela que não aprenderam nada em casa, nem nos seis anos de escolaridade que já frequentaram, muitas vezes em escolas que ostentam bandeiras verdes.
Para além do referido, a minha estranheza advém, também, do facto de, para além da ausência de conhecimentos, a sua falta de interesse por quase tudo ser enorme.
Depois de cerca de 40 anos de muita canseira, muitas alegrias e muitas mais desilusões, hoje tudo, para alguns, parece perfeitamente normal. Para outros, não sei se a maioria, o que mais interessa são as atividades de fachada, são as bandeiras azuis e verdes, são os sucessos fictícios, são as melhorias estatísticas que ficam bonitas nos papéis, mas que na realidade escondem o facilitismo que se fomenta.
Na escola que, infelizmente, temos é o elitismo e o apartheid que é promovido ao premiar quem já tem todas as condições materiais e outras para atingir bons resultados. Sobre o assunto Everett Reimer escreveu: “A definição de mérito dada pelas escolas é, principalmente, a vantagem de se ter pais eruditos, biblioteca em casa, oportunidade de viajar, etc. O mérito é uma cortina de fumaça para encobrir a perpetuação do privilégio”.
Além do mencionado, continua-se a tentar tapar o Sol com uma peneira, tentando que a escola resolva os problemas criados fora dela. Como muitos já disseram, e para quem acredita que a escola poderá ter um papel positivo na evolução da sociedade, esta não se muda através da escola, muda-se com a escola.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31420, 5 de janeiro de 2018, p. 18)
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Exames
Exames
1- Estamos mal
É verdade que todos os “rankings” valem o que valem e ainda não se percebeu bem para que servem os elaborados anualmente com os resultados dos exames nacionais.
O seu objetivo é permitir o reconhecimento do trabalho das escolas que ficam bem posicionadas e fazer o ponto da situação para quem não está bem, estimulando a trabalhar melhor com vista a superar as dificuldades ou, pelo contrário, é apenas apontar o dedo e ostracizar quem está nos últimos lugares?
O que é certo, independentemente dos critérios usados, é que as escolas dos Açores uma vez mais ficaram muito mal posicionadas, obtendo as piores médias em diversos exames nacionais da maioria dos anos de escolaridade em que esses se realizam.
A título de exemplo, apresentam-se a seguir alguns dados relativos ao sexto e ao nono ano de escolaridade.
No nono ano de escolaridade, a ilha de São Miguel apresenta quatro escolas, entre as dez piores do país, posicionando-se a Escola Básica Integrada de Rabo de Peixe em penúltimo lugar e a Escola Básica Integrada de Água de Pau em último.
No sexto ano de escolaridade, a situação é semelhante, isto é, a ilha de São Miguel volta a estar, através de duas escolas, uma delas em penúltimo lugar, entre as dez piores do país.
Os resultados dos exames, nada bons para os Açores, que se vêm repetindo, com ligeiras alterações, ano após ano mereciam uma reflexão profunda e uma ação eficaz no sentido da melhoria de uma efetiva aprendizagem dos jovens açorianos.
Do nosso ponto de vista, procurar as causas apenas na escola, que é o que se tem feito até aqui, é um erro gravíssimo, já que esta não é mais do que o reflexo da sociedade onde está inserida.
Além disso, se não se altera nada, nem na escola nem, sobretudo, na sociedade, leva-nos a pensar que há gente interessada em que a pobreza cresça e a ignorância se generalize.
2- Sempre estivemos mal?
Em 1935, o Dr. Lúcio Miranda, professor de matemática do Liceu de Ponta Delgada, num texto intitulado “Malhando em ferro frio”, publicado no Correio dos Açores, a propósito do elevado número de reprovações em alunos que foram propostos a exame, reflete sobre o assunto e apresenta algumas razões para tal. A dado passo escreve ele “àparte as causas externas” que foram apresentadas noutro texto pelo Dr. Riley da Motta, “a culpa da catástrofe é bastante nossa: dos professores, dos alunos e das famílias”.
No que diz respeito aos professores, o Dr. Lúcio Miranda defende que o professor deve abandonar “toda a atitude de exagerada benevolência”, devendo colocar “primeiro o culto intransigente do dever; depois, se for possível, a conquista da popularidade”.
O aluno, por seu turno, deve dedicar-se à escola em “full-time” e acrescenta que “Infelizmente o nosso estudante português tem um sem número de distrações alheias à vida escolar, que dispensam a sua atenção, neutralizam os efeitos do estudo e entorpecem o vigor discente”. Se era assim em 1935, o que dizer da situação atual!
Quanto aos pais, o Dr. Lúcio Miranda escreve: “Todos os dias, com regularidade e desvelo, o pai zeloso deve cuidar das obrigações do filho. A tarefa é por vezes ingrata, mas é benéfica – e toda a rotina se torna suave, se tivemos bem presente que os fartotes de ciência, em vésperas de exame ou no último ano do curso, não compensam o “deficit” de anos sucessivos de cabulice, vencidos à custa de inconfessáveis malabarismos ou da criminosa tolerância dos mestres”.
Com a degradação social que vimos assistindo, nos últimos anos, quantos pais têm condições em termos de conhecimentos, de tempo ou motivação para acompanhar os filhos?
Por que se insiste, ainda hoje, no facilitismo que é o de deixar transitar de ano um aluno com várias classificações negativas no ensino básico?
Para adiar o problema ou para adornar as estatísticas?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30501, de 3 de Dezembro de 2014, p.14)
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
A Propósito de Homenagens
Um
pouco por todo o lado, como forma de homenagear pessoas dá-se o seu nome a
ruas, ruelas, canadas e becos. Também se usa escolher algumas pessoas que se
tenham distinguido no campo da pintura, da ciência, da pedagogia, etc. para
figurarem como patronos das escolas.
No
caso das ruas, por vezes substituem uns nomes por outros ao sabor das vontades
de quem governa, dos regimes políticos, neste caso para eliminar personalidades
que serviram o apeado e substituí-las por outras. Também acontece atribuírem
nomes de familiares ou recuperar nomes que se tivessem caído no esquecimento
não viria mal ao mundo.
Há
muitos casos caricatos, mas o que me vem à memória é o do presidente de uma
Junta de Freguesia da ilha de São Miguel que propôs o seu nome para uma rua da
sua terra. Felizmente o bom senso imperou e a brilhante intenção não passou
disso.
Não
sei como se processa a atribuição do nome das ruas em Vila Franca do Campo, mas
nunca ouvi falar na existência de uma Comissão Municipal de Toponímia e caso
exista desconheço a sua constituição.
De
qualquer modo, com ou sem comissão, refiro a minha discordância para com a
ânsia de atribuir nomes, a determinadas artérias do concelho, de
“personalidades” que pouco ou nada fizeram para o merecer e que praticamente
nada fizeram em prol do bem comum. O mencionado também se estende à atribuição
de medalhas por ocasião do São João da Vila já que ao querer fazê-lo anualmente
corre-se o risco de banalizar o ato e a certeza de distinguir quem nada fez
para o merecer.
Estejam
descansados porque não vou aproveitar o espaço disponível para apresentar os
nomes das pessoas que já foram homenageadas e que, do meu ponto de vista, não o
deviam ter sido. Não vou manchar a folha do jornal nem perder o meu tempo com
isso.
Neste
texto, vou retomar uma causa que já abracei há muitos anos e que não mereceu a
devida atenção por parte do Secretário Regional da Educação e Cultura. Com efeito,
em 1994, fui o primeiro subscritor de um abaixo-assinado que apelava para que
fosse revista a decisão de atribuir o nome de Teotónio Machado de Andrade, que
já havia sido homenageado e que já possuía uma rua com o seu nome, à Escola do
Primeiro Ciclo da Ribeira Seca.
Não
vou expor argumentos contra a opção que foi tomada, mas gostaria de perguntar
se a simples passagem de um professor por uma escola é suficiente para que seja
atribuído o seu nome à mesma?
Penso
que está na altura de dar o seu a seu dono, pelo que a Escola Básica Escola
Básica e Secundária de Vila Franca do Campo, a Câmara Municipal e a Junta de
Freguesia da Ribeira Seca deviam estudar seriamente o assunto e atribuir o nome
da escola a quem efetivamente foi pioneiro na dinamização de uma comunidade.
No
mencionado abaixo-assinado os subscritores solicitavam que à escola fosse
atribuído o nome do professor Eduardo Calisto Amaral, que “pelo seu trabalho e
dedicação marcou profundamente não só os seus alunos e as várias gerações que
por aquele estabelecimento passaram mas também a comunidade local que tão bem
soube servir”.
Como
o apelo caiu em saco roto e como não sou pessoa de desistir à primeira, volto
outra vez ao assunto esperando que desta vez tenha mais sorte.
Passados
quase vinte anos mantenho a proposta, mas com uma preocupação que tenho
partilhado com uma colega minha, a de não ser injusto para com os restantes
professores que tornaram possível que a Escola da Ribeira Seca tenha sido
pioneira na tão falada, mas cada vez mais esquecida, ligação escola-meio.
Embora
possa estar a cometer um erro que espero corrigir, fizeram parte da equipa do
professor Eduardo Calisto Amaral, os seguintes docentes:
-
D. Adelaide da Conceição Soares
-
D. Ilda Cesarina Borges
-
D. Ildebranda Matias
-
Valter Soares Ferreira
-
D. Zulmira Teixeira
Por
último, deixo uma menção especial ao professor Valter Soares Ferreira que foi
meu professor nos últimos dois anos da então denominada escola primária e que muita
matemática me ensinou. O que sou hoje, também, a ele o devo.
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, nº 2930, 23 de Outubro de 2013, p.16)
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Quem corre por gosto não cansa?
Quem corre por gosto não cansa?

Com 55 anos de idade, depois de mais de 30 anos dedicados ao ensino oficial e com algumas incursões pelo ensino profissional, sinto que o ponto alto da minha carreira já foi ultrapassado e que neste momento o esforço que estou a fazer por vezes ultrapassa a minha capacidade física.
Embora tenha um número reduzido de turmas e de alunos, o desgaste provocado pela vida na escola e algumas mazelas a nível da saúde, dizem alguns que próprias da idade, fazem com que, quase todos os dias, chegue a casa esgotado e sem vontade de trabalhar. Digo trabalhar, pois trabalho mais em casa para a escola do que no tempo que estou obrigado a permanecer no edifício escolar.
Como os leitores não fazem ideia do que antes escrevi, vou tentar explicar, com algum pormenor, o que se passa comigo na escola.
Tenho duas turmas do 10º ano de escolaridade que graças (infelizmente) ao facto da Escola das Laranjeiras estar em franco processo de "desertificação", onde o ensino regular caminha para ser minoritário, possuem na sua totalidade, neste momento, menos de 30 alunos.
Por semana passo, com estas duas turmas, 14 segmentos de 45 minutos (430 min) o que do meu ponto de vista corresponde ao único tempo verdadeiramente útil e o único em que sinto prazer em estar na escola.
Semanalmente, sou também obrigado a estar 4 segmentos de 45 minutos na sala de estudo, onde desde o início do ano aguardo que me surjam alunos com dúvidas nas disciplinas da minha área para lhas poder tirar.
Como ainda não aprendi a ser um profissional e de vez em quando penso que sou missionário, solicitei autorização ao Conselho Executivo para, embora estragando o meu horário semanal e implicando gastos em transportes que ninguém os paga, trocar um dos segmentos em que estava na sala de estudo às 10 horas da manhã por outro às 16 horas (depois de ter saído da escola pelas 13h 30 min) para ter a possibilidade de dar apoio, gratuito como não podia deixar de ser, a alguns alunos das minhas turmas.
Para além do referido, tenho também no meu horário 90 minutos dedicados à substituição de colegas, em caso de necessidade. Se para a tutela esta parece ser uma aposta ganha, para quem vive o dia-a-dia numa escola sabe que nalguns casos a substituição feita em turmas onde não se conhece os alunos é uma verdadeira afronta à dignidade dos professores, pois estes não são bem recebidos quando não são mal tratados, quer verbalmente, quer, nalguns casos, fisicamente. Conheço colegas que se recusaram a ir para determinadas turmas, colegas que “apressaram” a sua aposentação, depois de terem saído de aulas de substituição a chorar por não saberem como lidar com gente sem princípios ou por não estarem preparados para enfrentar determinadas turmas com necessidades educativas especiais.
Por último, tenho também 270 minutos de componente não letiva de estabelecimento. Este tempo, bem como o tempo que passo na sala de estudo sem alunos ou em que não vou fazer substituições podia ser aproveitado na preparação de aulas, elaboração de fichas de trabalho ou de avaliação, ou a criação de materiais didáticos de apoio às aulas. Escrevi, podia, pois apenas uma pequena parte do que mencionei poderá ser feito já que nem sempre tenho condições para o fazer. Com efeito, nem sempre tenho um computador disponível, pois na sala de estudo os poucos computadores em funcionamento são muito procurados pelos alunos, na sala de professores quase sempre os mesmos estão ocupados e no departamento o único computador existente, se não é do tempo da “guerra de catorze” deverá andar por lá perto tem andado avariado. Além disso, se quiser incluir qualquer figura numa ficha de trabalho ou de avaliação também não posso pois desconheço a existência de qualquer “scanner” acessível aos docentes.
Enfim, depois de passar todo o tempo a que legalmente sou obrigado a estar na escola, fora das aulas, muitas vezes com a única possibilidade de ler os manuais ou outros documentos, tendo de suportar um ruído de fundo que se não mata incomoda, tenho que passar grande parte das minhas tardes e noites a trabalhar, muito mais horas, para além das que, por lei, sou obrigado a fazer.
Se grande parte da minha vida corri por gosto, hoje, cansado, corro por necessidade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2764, 3 de Abril de 2013)

Com 55 anos de idade, depois de mais de 30 anos dedicados ao ensino oficial e com algumas incursões pelo ensino profissional, sinto que o ponto alto da minha carreira já foi ultrapassado e que neste momento o esforço que estou a fazer por vezes ultrapassa a minha capacidade física.
Embora tenha um número reduzido de turmas e de alunos, o desgaste provocado pela vida na escola e algumas mazelas a nível da saúde, dizem alguns que próprias da idade, fazem com que, quase todos os dias, chegue a casa esgotado e sem vontade de trabalhar. Digo trabalhar, pois trabalho mais em casa para a escola do que no tempo que estou obrigado a permanecer no edifício escolar.
Como os leitores não fazem ideia do que antes escrevi, vou tentar explicar, com algum pormenor, o que se passa comigo na escola.
Tenho duas turmas do 10º ano de escolaridade que graças (infelizmente) ao facto da Escola das Laranjeiras estar em franco processo de "desertificação", onde o ensino regular caminha para ser minoritário, possuem na sua totalidade, neste momento, menos de 30 alunos.
Por semana passo, com estas duas turmas, 14 segmentos de 45 minutos (430 min) o que do meu ponto de vista corresponde ao único tempo verdadeiramente útil e o único em que sinto prazer em estar na escola.
Semanalmente, sou também obrigado a estar 4 segmentos de 45 minutos na sala de estudo, onde desde o início do ano aguardo que me surjam alunos com dúvidas nas disciplinas da minha área para lhas poder tirar.
Como ainda não aprendi a ser um profissional e de vez em quando penso que sou missionário, solicitei autorização ao Conselho Executivo para, embora estragando o meu horário semanal e implicando gastos em transportes que ninguém os paga, trocar um dos segmentos em que estava na sala de estudo às 10 horas da manhã por outro às 16 horas (depois de ter saído da escola pelas 13h 30 min) para ter a possibilidade de dar apoio, gratuito como não podia deixar de ser, a alguns alunos das minhas turmas.
Para além do referido, tenho também no meu horário 90 minutos dedicados à substituição de colegas, em caso de necessidade. Se para a tutela esta parece ser uma aposta ganha, para quem vive o dia-a-dia numa escola sabe que nalguns casos a substituição feita em turmas onde não se conhece os alunos é uma verdadeira afronta à dignidade dos professores, pois estes não são bem recebidos quando não são mal tratados, quer verbalmente, quer, nalguns casos, fisicamente. Conheço colegas que se recusaram a ir para determinadas turmas, colegas que “apressaram” a sua aposentação, depois de terem saído de aulas de substituição a chorar por não saberem como lidar com gente sem princípios ou por não estarem preparados para enfrentar determinadas turmas com necessidades educativas especiais.
Por último, tenho também 270 minutos de componente não letiva de estabelecimento. Este tempo, bem como o tempo que passo na sala de estudo sem alunos ou em que não vou fazer substituições podia ser aproveitado na preparação de aulas, elaboração de fichas de trabalho ou de avaliação, ou a criação de materiais didáticos de apoio às aulas. Escrevi, podia, pois apenas uma pequena parte do que mencionei poderá ser feito já que nem sempre tenho condições para o fazer. Com efeito, nem sempre tenho um computador disponível, pois na sala de estudo os poucos computadores em funcionamento são muito procurados pelos alunos, na sala de professores quase sempre os mesmos estão ocupados e no departamento o único computador existente, se não é do tempo da “guerra de catorze” deverá andar por lá perto tem andado avariado. Além disso, se quiser incluir qualquer figura numa ficha de trabalho ou de avaliação também não posso pois desconheço a existência de qualquer “scanner” acessível aos docentes.
Enfim, depois de passar todo o tempo a que legalmente sou obrigado a estar na escola, fora das aulas, muitas vezes com a única possibilidade de ler os manuais ou outros documentos, tendo de suportar um ruído de fundo que se não mata incomoda, tenho que passar grande parte das minhas tardes e noites a trabalhar, muito mais horas, para além das que, por lei, sou obrigado a fazer.
Se grande parte da minha vida corri por gosto, hoje, cansado, corro por necessidade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2764, 3 de Abril de 2013)
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
A escola devagar, devagarinho, a caminho do abismo

A Escola devagar, devagarinho, a caminho do abismo
Não é novidade nenhuma dizer que, por mais voltas que já tenham sido dadas, a escola, tal como toda a sociedade em que vivemos vai caminhando lenta mas firmemente para o abismo. É, talvez pelo facto do processo não ser abrupto e por não atingir todos ao mesmo tempo que a sociedade se vai adaptando às dificuldades e não reage.
O grosso dos participantes nas manifestações de descontentamento não é composto por quem está a passar por mais dificuldades, entre elas, nalguns casos fome, mas por quem ainda está a trabalhar e a ver os seus salários e direitos sociais a serem reduzidos ou mesmo anulados.
No caso das escolas, a reação aos sucessivos cortes nos salários dos docentes são sempre recebidos com uma resignação de quem estava à espera de que fosse pior, no caso dos que estão em escalões mais altos na carreira docente, e de “paciência” pelos mais novos, pois para eles já é muito bom estarem a trabalhar.
Com as escolas com muitos frequentadores e com poucos alunos dignos desse nome, os docentes não têm outro remédio senão serem de tudo um pouco, desde pais, mães, psicólogos, confessores, etc., restando pouco tempo, em algumas aulas para transmitirem conhecimentos, que deveria ser a sua principal missão, já que a educação devia vir do berço.
A grande inovação do chamado currículo regional é assunto que não merece ser debatida, pelo menos nos intervalos entre as aulas, pois se para uns foi uma ideia peregrina, para todo o professor digno deste nome, nascido nos Açores ou que tenha adotado esta região para viver, os recursos e as vivências da nossa terra nunca foram olvidados.
Com os alunos a serem sujeitos a provas de avaliação nacionais, depois da esperteza saloia de experimentarem provas regionais que foram um fiasco nalguns casos, apesar de serem supervisionadas por nomes sonantes, não sabemos para que serve o arremedo de currículo regional se não houver a coragem de exigir uma “janela” em termos de horas a ele dedicadas.
Não é integrados num todo nacional, com autonomistas serôdios ou que vivem de joelhos ou de mão estendida, que se poderá reivindicar um espaço para a nossa história e para as nossas especificidades culturais.
Mas, se a formação das gerações mais novas está comprometida porque alguns desvalorizam a escola de tal modo que nada querem aprender, também passou a estar comprometida a chamada formação contínua dos docentes.
Depois de alguns anos em que, obrigatoriamente, todos os docentes tiveram que frequentar ações de formação para poderem “subir” na suas carreiras, a malfadada crise veio dar uma machadada final na formação contínua dos docentes. Com efeito, circula nos corredores a notícia da extinção dos Centros de Formação das Associações de Escolas, as principais entidades formadoras dos educadores e dos professores do ensino básico e secundário.
Se é verdade que algumas, muito poucas penso eu, das formações promovidas pelos Centros não satisfaziam os docentes, sobretudo por não serem específicas das disciplinas ou dos grupos disciplinares dos mesmos, não é menos verdade que se tal ocorreu deveu-se essencialmente à falta de disponibilidades de formadores e à exiguidade dos orçamentos com que os mesmos eram dotados.
Para além da “brilhante” medida, que está a ser tomada já há algum tempo, de considerar como formação a presença dos docentes em conferências, colóquios, jornadas ou outros eventos afins, não consigo descortinar que solução encontrará a tutela para disponibilizar formação aos professores.
Com a afirmação anterior não quero dizer que não se aprende nada naquele tipo de eventos, mas se até agora era difícil conseguir formação específica, a partir deste momento, para alguns grupos disciplinares vai ser quase impossível.
Não gastando muito mais palavras, vai passar-se dos oito para os oitenta. A estupidez dos testes que eram exigidos por alguns formadores ou entidades formadoras vai dar lugar ao facilitismo de, para se ter um certificado, bastar assinar um boletim, acompanhado ou não de uma taxa de inscrição, e nalguns casos à assinatura de uma folha de presenças. Certificados de presença, sem que os seus detentores ponham os pés nos eventos, também não irão faltar.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 27359, 20 de Fevereiro de 2013, p.13)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Cenas da Vida Escolar Marciana
Mia
No dia 8 de Dezembro de 2012 pelas dez horas e quinze minutos dirigi-me, em sonhos, ao anfiteatro de uma escola secundária marciana para assistir a uma ação de sensibilização sobre proteção dos animais, promovida pela lista W candidata às eleições para a Associação de Estudantes da referida escola.
Foi com muita satisfação que me desloquei à referida sessão pois normalmente, pelo menos nos últimos anos, as candidaturas aos órgãos sociais da referida associação de positivo nada fazem para a formação dos jovens estudantes.
Foi com muita atenção que comecei a assistir à apresentação de um PowerPoint por uma representante da APAM - Associação de Proteção dos Animais de Marte que se fez acompanhar pela Mia, uma simpática cadelinha que por ela havia sido adotada.
Embora soubesse que na sala estavam algumas turmas consideradas difíceis, nunca esperei assistir ao episódio que deve envergonhar todo o corpo docente e os órgãos de gestão da mencionada escola. Com efeito, enquanto a oradora convidada estava a fazer a sua apresentação foi interrompida três vezes pelo mesmo aluno que, ora fez uma pergunta provocatória, ora fez afirmações que tiveram por único fim boicotar a sessão.
Depois de ter sido informado de que as intervenções da assistência seriam feitas no fim, logo no início da apresentação surgiu a seguinte pergunta: “senhora, aquela cadela tem pulgas?”. Um pouco depois, veio uma afirmação provocatória: senhora, aquele ali já matou um cão”. Não satisfeito com as tolices pronunciadas, voltou à carga, tendo afirmado que outro colega havia colocado piripiri na “coisa” de uma gata.
Não consegui assistir a tantos disparates ou melhor a tanta malcriação e com muita pena minha, pois a apresentação estava a ser bastante interessante, saí da sala. Não sei se o aluno foi devidamente repreendido ou não, mas tudo leva a crer que tal não aconteceu. Com efeito se a um aluno que ameaçou uma docente com uma faca (também existem em Marte) a repreensão limita-se a um dia de suspensão (“férias” para ele), para o aluno mencionado neste texto possivelmente terá sido suficiente uma simples repreensão verbal ou então um elogio pelo facto de ele ter sido comedido nas suas intervenções.
Tenho fortes razões para acreditar que nada terá acontecido, pois noutra escola do hemisfério sul do referido planeta, segundo me disseram, os castigos são semelhantes. Assim, a um aluno que cortou os pneus a um robot de um professor o castigo foi uns dias de suspensão e a realização de um PowerPoint sobre a violência na escola.
Tudo doido varrido
Não sei o que se passa naquele planeta, mas um extraterrestre contou-me que, para além de estarem a nascer menos crianças, as que nascem, em número que parece que está a crescer exponencialmente, apresentam graves problemas do foro psicológico ou psiquiátrico ou outro qualquer, que não foi capaz de especificar pois não tinha conhecimentos suficientes para os identificar.
Embora seja grave, o meu amigo considerou que as referidas maleitas, também, já estavam a atacar os pais dos alunos. A título de exemplo, mencionou casos de alguns pais que não valorizam a escola e dão cobertura a tudo o que os filhos fazem, desculpando os seus maus comportamentos e não se interessando pelos seus resultados, de tal modo que a sua única preocupação, transmitida aos professores e a alguns diretores de turma, é a de que eles estejam dentro do recinto das escolas, nos horários escolares.
Face a esta situação muitos professores marcianos que receberam formação específica para transmitirem conhecimentos de determinadas disciplinas/conteúdos estão a trabalhar em áreas distintas das suas, como a educação especial, ou estão, pura e simplesmente, a guardar os alunos em aulas de substituição, que nunca funcionaram bem em Marte mas que, segundo parece, são exemplares na Terra, ou nas salas de encaminhamento disciplinar ou mesmo nas próprias aulas pois há turmas onde a grande maioria não quer aprender.
Por último, o meu amigo também se referiu aos cursos profissionais que, sem alunos dignos deste nome, são uma grande fraude. A propósito destes, disse-me ele que alguns alunos, numa determinada turma, de uma escola da capital de um próspero país daquele planeta, quando chamados à atenção por um docente para o facto de ser necessário fazer uma determinada tarefa mandavam o professor para muito longe, para um “lugar” que por pudor não sou capaz de reproduzir aqui.
Felizmente na Terra nada disso acontece e se houver, neste relato, algo de semelhante ao que por cá ocorre não passa de mera coincidência.
T. Braga
(Correio dos Açores, nº 27335, 23 de Janeiro de 2013, p. 13)
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Gestão Democrática ou Democracia Real nas Escolas?
Há alguns dias li num jornal de São Miguel que um sindicato de docentes considerava como prioritária a salvaguarda da gestão democrática das escolas. O mesmo sindicato, de acordo com o texto consultado, rejeitava qualquer sistema que “centraliza o poder todo em alguém que é o único que presta declarações à administração e que serve de correia de transmissão”. No texto que vimos referindo, também, era mencionado que “a democracia também se aprende na escola”.
A gestão democrática das escolas públicas ter-se-á iniciado com o 25 de Abril de 1974, tendo sido regulamentada, pela primeira vez, através do Decreto-Lei nº 769-A/76, de 23 de Outubro.
Ao longo dos anos, de acordo com Formosinho “cresceram bastante os normativos centrais sobre a escola, ou seja, a quantidade de normativos que regulamentavam a vida da escola cresceu, sendo isso dificilmente conciliável com a gestão democrática”.
Não me oponho à eleição de todos os órgãos de gestão e administração das escolas e acho inaceitável, em termos de democracia, que os mesmos sejam nomeados pelos detentores do poder político com base em critérios de fidelidade partidária ou ideológica. De igual modo, também, defendo que as escolas deverão gozar da máxima autonomia pedagógica, científica, cultural e administrativa.~
Concordo com o referido sindicato quando afirma que a “democracia também se aprende na escola” e corroboro a afirmação de Sérgio Niza, do Movimento Escola Moderna: “se não formos capazes de praticar a democracia na Escola, mais tarde ou mais cedo perdemos a própria democracia”.
Pratica-se a democracia na escola? Que modalidade de democracia é praticada?
Se em democracia se exige participação, nas escolas, no que diz respeito ao órgão executivo, esta limita-se quase e tão só em votar de três em três anos, em muitos casos em listas únicas que se perpetuam, nalguns casos, ao longo de vários anos.
Quando algum docente ou grupo de docentes toma a iniciativa de intervir, utilizando de instrumentos que visem a manifestação de interesses, como petições, as suas iniciativas/propostas não são bem acolhidas ou são vistas com desconfiança e acabam no fundo das gavetas ou no caixote do lixo.
Em alguns casos são, mesmo, as deliberações do Conselho Pedagógico que não são levadas à prática pelo órgão executivo, sem que àquele seja dada qualquer explicação sobre a sua não implementação.
Não é aceite, com tolerância e abertura, o aparecimento de mais do que uma lista concorrente ao órgão executivo e quando tal acontece não tem levado, que seja do meu conhecimento, a um debate franco e aberto das propostas. Pelo contrário, por vezes assiste-se a algo de semelhante ao que de pior se passa nas campanhas eleitorais em que os protagonistas são os partidos políticos, como a avaliação das capacidades dos concorrentes, desvalorizando-as ou a “calúnias” sobre estes e os seus familiares, etc.
A presença de alunos e de outros membros da comunidade educativa no conselho pedagógico das escolas, órgão de coordenação e orientação educativa, nomeadamente nos domínios pedagógico-didáctico, da orientação e acompanhamento dos alunos e da formação inicial e contínua do pessoal docente e não docente, é uma pura ilusão de democracia, pois na maior parte dos casos são discutidos assuntos que pela sua natureza requerem uma formação adequada. Assim sendo, a valorização no discurso e no papel que é feita à presença dos alunos, dos pais e encarregados de educação ou dos funcionários naquele órgão é na realidade inversamente proporcional à sua efectiva participação. Façam a leitura das atas daquele órgão, em várias escolas, e facilmente chegarão à mesma conclusão.
Por último, uma breve referência à assembleia de escola.
Como se pode admitir que sendo esta “o órgão responsável pela definição das linhas orientadoras da actividade da unidade orgânica, com respeito pelos princípios consagrados no presente regime jurídico e na lei”, mesmo em democracia representativa, não preste contas a ninguém?
Tal como não se fazem omeletes sem ovos, não há democracia sem participação efectiva e muito menos sem democratas.
Autor: Teófilo Braga
sábado, 18 de agosto de 2012
Ainda a Escola do passado: ordenados e crucifixos
Continuando
a minha consulta aos documentos que pertenceram à professora do primeiro ciclo
do ensino básico, Maria Ana Carreiro, encontrei dois cadernos onde ela
registava as suas despesas e receitas: um relativo ao ano letivo de 1944-1945 e
outro respeitante ao ano de 1946-1947.
Através
de uma análise aos dois cadernos, verifica-se que, no primeiro ano letivo
referido, o ordenado era de 766$30 e no segundo 869$30, no mês de outubro,
tendo sido aumentado para 1008$50, no mês de Novembro de 1946. Tendo o cuidado
de, com pormenor, analisar as despesas e as receitas, facilmente se chegará à
conclusão que naquela época os professores não tinham uma vida desafogada. Com
efeito, se a professora Maria Ana Carreiro não desse explicações, ela chamava
lições, nomeadamente ao 1º, 2º e 3º anos e de admissão ao liceu, o seu ordenado
mal daria para cobrir as suas despesas em alguns meses e noutros ficaria muito
aquém daquelas.
Hoje,
se continuarem os cortes salariais, incluo o não pagamento do subsídio de
férias e do de Natal, a situação de muitos professores, que já não é boa, irá
degradar-se tanto que muitos terão de recorrer a outras fontes de receitas,
para equilibrar os seus frágeis orçamentos familiares.
O
segundo aspeto que queria divulgar, hoje, está relacionado com a presença ou
não de crucifixos nas escolas.
Antes
de prosseguir, queria registar o facto de, para mim, ser indiferente a sua
presença ou não. Considero que as crenças ou a fé, para além de não se
encontrarem em qualquer parede, não se medem pelo
número de crucifixos nas paredes de qualquer edifício. Contudo, também acho que
sendo a escola pública laica e sendo o estado português laico não faz qualquer
sentido a presença de cruxifixos e outras imagens religiosas nas escolas
públicas, por isso aceito perfeitamente a afirmação do sociólogo Moisés
Espírito Santo quando considera “sinal de civismo e
maturidade” a sua não presença em escolas não cristãs.
Na
década de quarenta do século passado, as circunstâncias eram outras e a
polémica acerca dos crucifixos não se colocava. Pelo contrário, terá sido uma
conquista para a professora Maria Ana Carreiro ter conseguido adquirir um para
a escola do isolado local das Gramas, na Ribeirinha, o que só foi possível com
a colaboração do “bom povo” da localidade.
No
seu discurso proferido perante algumas autoridades, colegas e alunos, a
professora Maria Ana Carreiro, depois de manifestar o seu embaraço por usar da
palavra, justificou por que o fazia, dizendo que era grande a alegria por ver
na sua escola alçada a Cruz de Cristo.
Para
ela, “sendo a criança a mais carinhosa promessa da humanidade e a sua mais
ridente esperança” era necessário envidar “todos os esforços na sua preparação
para a vida” e acrescentou:
“Mas, nós, os
professores primários, prepará-la-emos convenientemente, não só instruindo-a,
porque a instrução só por si não basta. É até capaz de produzir monstros. É
necessário aliar à instrução a educação, mas a educação cristã e tradicional do
nosso querido Portugal.”
Depois
de se referir a vários episódios da história de Portugal, sempre “à sombra da
Cruz”, como a batalha de Ourique, os descobrimentos que tiveram um “duplo fim:-
propagar a fé e dilatar o império”, a oradora ter-se-á referido à primeira
república nos seguintes termos: “no entanto, durante algum tempo uma rajada de
indiferentismo obscureceu o céu límpido da nossa Pátria e arrancou a tradição
gloriosa de tantos séculos de existência cristã” e lembrou o que se estava a
passar na Rússia e em Espanha.
Quase
a terminar o seu discurso, como era costume na altura, a professora Maria Ana
Carreiro falou na obra de António de Oliveira Salazar que foi Presidente do Conselho de Ministros,
entre 1932
e 1968,
nos seguintes termos:
“Foi por isso que o
governo português sob a direção do grande estadista Dr. Oliveira Salazar, que
muito se preocupa (com a preparação da juventude) com a educação das crianças,
futuros homens, determinou que se colocasse a imagem de Jesus Cristo na escola,
para lhes servir de modelo pela vida adiante, daquele Jesus que foi o maior
pedagogo e só praticou o bem”.
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, 15 de Agosto de 2012)
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