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terça-feira, 3 de setembro de 2019

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Ulmeiro e os Açores


A Ulmeiro e os Açores

Tal com tem acontecido ultimamente, sempre que por algum motivo me desloco a Lisboa, visito a Livraria Espaço Ulmeiro que foi fundada em 1969.

Desta vez, para além da aquisição de revistas, que nunca tiveram circulação nos Açores ou que chegaram cá apenas para meia dúzia de interessados, e de livros de autores açorianos ou sobre a nossa terra que se encontram esgotados, procurava informações sobre o conceito de Escola Comunitária que terá sido implementado em Portugal na década de 60 do século passado.

Der acordo com informação colhida até ao momento, nos Açores, terão funcionado algumas Escolas Comunitárias no Faial, em São Jorge, na Terceira, em São Miguel e em Santa Maria. Do grupo central “dirigente” das Escolas Comunitárias fez parte a faialense Yolanda Corsépius e como colaborador figurava José Antunes Ribeiro então ligado à ITAU e hoje editor e livreiro da Livraria Espaço Ulmeiro.

No que diz respeito à ligação entre a Ulmeiro e os Açores tomei conhecimento de que a mesma editou, entre outras, algumas obras de Antero de Quental, como “O que é a internacional (1980), “Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX” (1982) e “Causas da decadência dos povos peninsulares” (1987), de Teófilo Braga editou “História do Romantismo em Portugal” (1984), de Álamo de Oliveira editou “Triste Vida Leva a Garça”(1984) e de Ivone Chinita editou “Peste Malina” (1983).

Durante a minha visita à Livraria descobri a revista “Pensamento” que, em 1932, no terceiro ano da sua publicação se apresentava como órgão do Instituto de Cultura Socialista, sendo propriedade do Grupo Editor “Pensamento” e mais tarde, em 1938, se anunciava como “revista quinzenal de divulgação social e científica, arte e literatura”, sendo seu proprietário António Martins., embora mantivesse a mesma linha editorial.

O número 27 da revista trazia, entre outros artigos, um extrato das Conferências do Casino, de Antero de Quental, e o número cento e quatro um texto de Júlio de Almeida Carrapato intitulado “Em torno da arte social de Antero”.

Neste texto, o autor escreve que, segundo Antero de Quental, “não é de Poesia que a humanidade precisa: é de ideias” e cita “Afinal, aquilo de que o mundo mais precisa, nesta fase de extraordinário obscurecimento da alma humana, é de ideias, é de filosofia”…”e a Poesia, voltando a adormecer nos recessos mais misteriosos do coração do homem, tem de ficar à espera até que o novo símbolo se desvende e novas Ideias lhe forneçam um novo alimento, lhe insuflem nova vida… e então voltará a cantar.”

Em Antero há quem queira destacar o santo. O autor referido escreve, citando o próprio Antero, que o grande homem vale mais do que o santo” e também refere: “Para a mocidade, creio-o profundamente, a faceta de mais interesse na complexa personalidade de Antero não é a do schopenhauriano pessimista mas outrossim a do revolucionário e herói altruísta e profundo”.

Nesta minha visita, que é quase uma peregrinação periódica, também fiquei a saber que a Ulmeiro manteve relações com a cooperativa Sextante. Esta foi fundada em 1970 por Eduardo Pontes, Jorge Lopes e Manuel Barbosa e foi extinta em 1971, segundo a historiadora Irene Pimentel, por decisão do Conselho Superior de Segurança Publica, por proposta da Direção Geral de Segurança, acusada, tal como as restantes que também foram obrigadas a fechar a porta, de “instigação a desobediência coletiva às leis”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31049, 28 de setembro de 2016, p.18)

terça-feira, 31 de maio de 2016

ULMEIRO


ULMEIRO

A meados do passado mês de maio, estive em Lisboa e como é habitual voltei a fazer o meu roteiro por algumas livrarias da capital à procura de livros que não chegam cá, por serem provenientes de pequenas editoras, de livros que já não se encontram à venda, porque há muito se esgotaram e só é possível encontrar em alfarrabistas, e de livros que pela sua temática não são vendidos pelas grandes distribuidoras comerciais.

Ao contrário do que tem acontecido em anos anteriores em que as primeiras livrarias visitadas são as que se situam na Baixa de Lisboa, na zona do Chiado, este ano a minha primeira visita foi à Livraria Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, onde tive a oportunidade de trocar breves palavras com o seu dono e onde passei algum tempo à procura de publicações sobre os Açores, sobre o Estado Novo e sobre os primeiros anos a seguir ao 25 de abril de 1974.

Através da internet, a Livraria Ulmeiro costuma fazer leilões de livros e aproveitei a visita para pagar e levantar alguns dos livros que havia adquirido anteriormente através deste processo de venda.

Um dos livros adquiridos foi “Açores: Do 25 de abril até aos nossos dias”, da autoria de um grupo de estudantes açorianos, alunos do Instituto Superior de Economia de Lisboa, editado, em 1977, pela Cooperativa Livreira Editorial e Cultural Arma Crítica.

Hoje, o livro que pretendia “transmitir o máximo de informações que permitam perceber com rigor e uma visão de conjunto os problemas que hoje se põem quanto ao futuro do Arquipélago” e que ambicionava preencher uma lacuna já que segundo os autores, há alguns anos não se publicava “um livro de fundo sobre o Arquipélago dos Açores”, está completamente desatualizado mas continua a ser de consulta obrigatória para quem quiser conhecer um pouco mais alguns dados estatísticos e as movimentações políticas que ocorreram no período conturbado que se seguiu ao 25 de abril de 1974.

Outro livro que adquiri foi “Katafaraum é uma nação” da autoria de José Martins Garcia, picoense que foi biógrafo de Vitorino Nemésio e que, segundo Beja Santos, dominou “diferentes modos e géneros discursivos: romance, conto, poesia, dramaturgia, ensaio e crítica”, editado, em 1974, pela Assírio e Alvim.

Este livro, ainda segundo Beja Santos, “foi encarado como um ajuste de contas com professores universitários, ousadia que lhe terá custado a carreira universitária em Lisboa. Segundo ele escreve em 28 de Abril de 1974, katafaraum ocorreu-lhe depois de ter assistido ao I Encontros dos Professores de Língua e Literatura Portuguesa onde, segundo ele, foram apresentadas algumas das mais ridículas bacoradas que algum mortal pôde escutar”.

Este livro não perdeu atualidade apesar do tempo decorrido desde a sua publicação. Se a guerra colonial já pertence ao passado, mas não pode cair no esquecimento, as formações de professores continuam e com menos interesse do que no passado recente, quando existiam os Centros de Formação de Escolas.

Para aguçar o apetite, a docentes e não só, abaixo transcreve-se um excerto da crónica

“Katafaraum ou o método da docência”.
“Eis algumas regras docentes:
1- O docente é filho da docência e não deve pugnar contra natura.
2- O saber ocupa lugar e o docente não deve ter a casa a abarrotar.
3- A felicidade é o equilíbrio entre o ter e o não dar.
4- Uma casa bem imaginada vale por duas construídas.
5- O método cura as dores estomacais.
6- O método só irrita os mal nascidos.
7- O método nunca sai sem chapéu.

A minha visita não terminou sem uma festinha ao gato mais fotografado de Lisboa, o Salvador. que é também a mascote da livraria.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30947, 1 de junho de 2016, p.12)