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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A propósito das pragas no século XIX

A propósito das pragas no século XIX

Há diferentes definições para o vocábulo praga. Caroline Faria na página brasileira InfoEscola escreve que “Praga biológica é um termo que pode ser utilizado para designar organismos que, quando se proliferam de forma desordenada ou fora de seu ambiente natural, podem causar algum tipo de dano ao ambiente, às pessoas ou à economia”.

Entre nós, no século XIX, o termo praga, segundo Francisco Maria Supico era usado para designar “as aves daninhas à agricultura”. Francisco Supico no jornal “Persuasão”, publicado no dia 4 de setembro de 1895, refere que a Câmara Municipal de Ponta Delgada, em 1839, “premiava com razoável quantia quem lhe apresentasse cada dúzia de bicos daquelas aves, que se inutilizavam cuidadosamente para evitar burlas”. Ainda de acordo com a mesma notícia, em 1895, a praga já não eram as aves mas os ratos.

Através da “Persuasão”, de 8 de julho de 1896, fica-se a saber que a perseguição às aves já se fazia no século XVIII, existindo uma postura em cuja certidão, passada a 13 de maio de 1792, obrigava a “que todos os lavradores hortelões, ou quaisquer outras pessoas sem exceção que cultivarem terras, quintas, vinhas ou matas, ou sejam próprias ou por arrendamento, tragam à Câmara duas cabeças de pássaros por cada um alqueire de propriedade que assim lavrarem ou cultivarem, até ao fim do mês de junho de cada um ano, com pena de pagarem 10 reis por cada uma das cabeças com que faltarem até à quantidade de dois moios de terra, ou de qualquer outra propriedade que tiverem por sua conta”.

Muitas posturas se seguiram até ao último ano em que a Câmara de Ponta Delgada cobrou o imposto de praga. De acordo com Supico, tal ocorreu no ano de 1875-1876, sendo o valor recebido de 296554 reis.

Mas, que aves eram incluídas na categoria de praga?

Ainda de acordo com a mesma fonte, no século XVIII todas as aves “eram condenadas ao extermínio”, na postura de 1824 não eram abrangidas “as codornizes, galinholas e perdizes, “para caça da mocidade que devesse dar-se a esse entretenimento nobre”” e na última, a de 1842, eram perseguidos o canário, o melro-negro e o tentilhão.

Em relação ao número de aves mortas, em Ponta Delgada, o Açoriano Oriental estimava que “para mais de 40 000 cabeças de praga daninha foram entregues às chamas”, em 1851. Em 1854, foram queimados, em Ponta Delgada mais de 100 000 “bicos de praga daninha” e no ano seguinte só entre 1 de janeiro e 23 de fevereiro foram queimados 39 067 bicos.

Mas os massacres não ocorreram só em Ponta Delgada, por exemplo em Vila Franca do Campo no ano de 1834 foram mortas 32 968 aves, em 1835, 18 109, e em 1836, 39 247.

Francisco Maria Supico, na Persuasão do dia 14 de setembro de 1898, menciona o “brutal e perigoso emprego de veneno”, arsénico, para ajudar no combate às aves durante alguns anos. Segundo ele “a selvajaria do emprego do arsénico para matar pássaros, não continuou. Desde logo se lhe reconheceriam os grandes perigos”.

A perseguição às aves não mereceu a unanimidade da sociedade micaelense, não tendo merecido a aceitação por parte do Padre João José do Amaral e de Tomaz Hickling.

A propósito da contestação ao combate à praga, Francisco Maria Supico escreveu:

“Tantos anos decorreram e tantas gerações se sucederam a praticar estes dois males: matar inocentes e cercear interesses agrícolas.

Porque afinal veio a conhecer-se que é menor o mal causado pelos pássaros do que o benefício que eles produzem nutrindo-se da bicharada que se desenvolve nos terrenos”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31037 de 14 de setembro de 2016, p. 16)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A propósito de bananas


A propósito de bananas

“Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem.”

Nos Açores cultivam-se várias espécies de bananeiras. O arquiteto-paisagista José Marques Moreira num livro cuja leitura se recomenda “Alguns aspectos de intervenção humana na evolução da paisagem da Ilha de S. Miguel (Açores)”, editado, em 1987, pelo Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, menciona a Musa paradisíaca L. e a Musa ensete Gmel.

Em 1925, de acordo com um texto publicado no Correio dos Açores, os Açores ainda não possuíam bananas “para vendê-las ao freguês exótico; mas como aos açorenses {…] não lhes sofre o ânimo deixarem de cultivar tudo quanto aos outros agricultores de qualquer parte do globo cultivam, brevemente produzirão bananas todos os dias para o consumo continental”. Através do mesmo texto, fica-se a saber que estava empenhada na concretização daquele objetivo a “Sociedade Corretora Limitada”.

Através de outro livro interessante, “Agricultura Açoriana…um caminho para a Europa. Os handicaps açorianos na directiva 75/268/CEE”, do Eng. Fernando Monteiro da Câmara Pereira, fica-se a saber que as plantações de bananeiras ocupavam, nos Açores, no indício da década de 60 do século passado, 950 hectares e que a produção estimada para 1980 era de 5000 toneladas.

Em 2007, nos Açores, a área cultivada com bananeiras era de 324 hectares e a produção foi de 5800 toneladas, o que representou 21% da produção total nacional. Em 2011, a área de cultivo de bananeira era de 297 hectares e a produção atingiu o total de 5 108 toneladas. Dois anos depois, em 2013, verificou-se um ligeiro decréscimo, tanto na área ocupada como na produção. Assim, nesse ano a área cultivada passou a ser de 290 hectares e a produção foi de 5030 toneladas.

Não temos dados estatísticos para Vila Franca do Campo, mas temos a sensação, pela observação da ocupação dos terrenos, que deverá ter havido um ligeiro aumento da área ocupada com bananeiras nos últimos anos.

Se por acaso estivermos errados no que diz respeito à afirmação anterior, não faltaremos à verdade se afirmarmos que cresceu a confiança dos produtores na cooperativa, desde que sangue novo, competente, honesto e dedicado chegou à sua direção.

Um problema com que alguns produtores se debatem e que não é de agora é o do furto de bananas, o qual infelizmente não é para matar a fome, mas para o comércio fortemente lucrativo, já que os comerciantes ladrões não arcam com os custos de produção.

Temos conhecimento de pelo menos meia dúzia de produtores da freguesia da Ribeira Seca que, ao longo dos anos, têm sido vítimas dos amigos do alheio.

Um deles, depois de quantias avultadas de bananas furtadas e desconfiando de um produtor/comerciante que colocava bananas num determinado espaço comercial, decidiu fazer umas pinturas dificilmente visíveis nos cachos e passou a seguir os passos do amigo do alheio. Ao fim de algum tempo, a sua desconfiança deixou de o ser, tendo apanhado o gatuno.

Apesar de ter ficado a saber quem lhe furtava, as burocracias com as várias entidades com vista ao merecido castigo de quem gostava de viver à custa do trabalho alheio foram tantas que, desgostoso, acabou por vender a sua propriedade.

Os outros dois, desesperados com os furtos de quantias avultadas de bananas roubadas, num dos casos cerca de 500 kg em três meses, para evitar que aqueles continuassem decidiram pintar as bananas, perdendo estas todo o seu valor comercial.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30831, 13 de janeiro de 2016, p.14)