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terça-feira, 13 de setembro de 2016

A Tração animal no século XIX


A Tração animal no século XIX

Durante séculos, algumas pessoas e associações lutaram contra o abuso de que eram vítimas os animais usados para puxar carroças, muitas vezes famintos e doentes.

Entre nós, a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais fundada, entre outros, por Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa, dedicou os primeiros anos da sua existência a procurar melhores condições para sobretudo bois e cavalos, quer alertando as autoridades para os maus tratos de que eram vítimas, quer combatendo o uso da aguilhada, quer propondo a melhoria dos caminhos por onde passavam os veículos de tração animal.

Hoje, apesar da evolução dos meios de transporte, os animais continuam a ser usados para transporte de cargas, muitas vezes superiores às suas forças, pelo que algumas organizações continuam o combate pela sua libertação da exploração e maus-tratos.

Outras entidades, entendem que os animais não-humanos não devem ser objeto de posse nem de propriedade pelo que, por princípio, recusam o seu uso para qualquer fim, como é o caso da tração animal, circos, touradas, etc.

No século XIX, a situação era um pouco diferente. Assim, se lermos “O Agricultor Micaelense”, de 1844, concluiremos que para além da questão dos caminhos também se defendia a construção de carros mais adequados. Assim, enquanto uns diziam que “carros d’outra qualidade…não podem resistir a caminhos tão maus; nem os bois tinham forças par os puxar por uns pisos tão descompostos e bravios”, outros argumentavam “que é um errado pressuposto o cuidar-se, que não se haveriam melhor com os caminhos ruins os carros bons do que os maus”.

A terminar, o autor do texto defende “que antes e primeiro de tudo, nós nos devemos arremessar aos carros e obriga-los por todo os modos, pela persuasão e pela força, a transformar-se e civilizar-se para interesse comum dos viandantes e transportes; e até para benefício dos bois, de seus condutores e de seus donos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31036, 13 de setembro de 2016, p.16)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Relheiras e animais de tiro



Relheiras e animais de tiro

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovou, em 29 de outubro de 2015, uma resolução apresentada pelo Grupo Parlamentar do CDS-PP que recomenda que o Governo Regional dos Açores inventarie as relheiras existentes na Região, que considere a sua promoção como elemento turístico e que elabore, no prazo de 200 dias, um relatório que inclua, entre outros itens, uma inventariação e um plano de proteção.

As relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, existem em várias ilhas. Na ilha de São Miguel há nos Fenais da Luz e são o testemunho do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.

Quem fizer uma leitura dos jornais até à década de 70 do século passado verá que as denúncias sobre maus tratos aos animais eram relativos aos animais de companhia, sobretudo cães que eram abandonados, e aos animais de tiro, com destaque para os bois que percorriam grandes distâncias, como, por exemplo, entre a Maia e a fábrica do açúcar em Ponta Delgada no transporte de beterraba e que não só não eram bem alimentados como eram vítimas das aguilhadas.

Mas, não se pense que os maus tratos a que eram sujeitos os bois se devia apenas à ganância ou ignorância dos seus donos, pois maus exemplos eram também dados pela Câmara Municipal de Ponta Delgada. Com efeito, em 1925, o “lastimoso estado de magreza” dos bois camarários era tal que o Correio dos Açores publicou o seguinte apelo dirigido à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais:

“O estado esquelético em que os pobres bois municipais quotidianamente andam pelas encovadas ruas desta cidade, puxando carroças de lixo, não é um motivo de compaixão.

Indagando a causa de tanta magreza, viemos a saber factos espantosos que se dão com a alimentação destes animais. Como, porém, somos suspeitos ante as pessoas que devem fiscalizar estes serviços, chamamos, humanamente, a atenção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para este caso que também envergonha o nosso meio social”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30879, 8 de março de 2016, p.11)