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terça-feira, 11 de julho de 2017

segunda-feira, 14 de abril de 2014

João Afonso e a Baleação

João Afonso e a baleação
Nos últimos tempos, alguns órgãos de comunicação social têm dedicado algum do seu tempo e ou espaço ao tema da baleação, sobretudo à destruição do património associado àquela atividade e à necessidade da sua recuperação e valorização, na ilha de São Miguel.
O assunto em questão interessa-me desde há alguns anos de tal modo que sobre o mesmo troquei correspondência com alguns estudiosos, entre os quais destaco o senhor João Afonso (1923-2014), natural de Angra do Heroísmo. João Afonso foi um jornalista e escritor terceirense de grande mérito. Foi, também, diretor da Biblioteca Municipal de Angra do Heroísmo e, depois, funcionário superior da Biblioteca Pública e Arquivo da mesma cidade. No que diz respeito à baleação, ele que terá sido um dos maiores estudiosos da mesma, nos Açores, foi o principal organizador do Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico.
Em 1985, na sequência de um texto de opinião da minha autoria publicado no quinzenário angrense “Directo”, a propósito do Museu dos Baleeiros, recebi uma carta sua onde ele refere o facto de já se dedicar ao estudo da baleação há 25 anos e mostra a sua preocupação relativamente à pressa com que muitas vezes se pretende tratar determinados assuntos. Segundo ele, os assuntos baleeiros deverão ser assumidos “por uma consciência coletiva culturalmente muito viva porém suficientemente calma e como fruto de estudos”.
No que se refere ao Museu dos Baleeiros, mas que se poderia aplicar a qualquer outro, João Afonso escreveu:
“Não me parece que, em projetos idênticos a um museu daqueles se deva avançar com precipitações. Vivia-se envolto em lendas, em estórias, em mitos de baleação. E fazer mergulhar, todos nós, em livros tornou-se absolutamente necessário. Era a necessidade do estudo e dos estudos, das pesquisas múltiplas, do internamento nos e dos porquês. Não é que não tenhamos de admirar os produtos de literatura chamados contos. Não é que não se tenha de prestar homenagem a monografias criteriosas e tantas vezes sapientes. A questão – volto a significar – é a da consciência coletiva. Para durar.”
Na mesma carta, depois de contar o que observou na Califórnia em várias instituições museológicas, João Afonso confidência que “a fase museográfica do nosso pequeno museu está estimada em 18 000 contos”, e recomenda que me limite a estudos relativos a São Miguel, os quais segundo ele “será muito”. Por último, convida-me para o acompanhar numa futura visita a São Miguel onde iria visitar as Capelas e os Poços de São Vicente.
Noutra sua carta, datada de 22 de Outubro de 1984, João Afonso sugere que numa revisão de uns dados históricos sobre a baleação a nível mundial, que publiquei em vários jornais, acrescente a data do início da exploração do petróleo que segundo ele teria “muito a ver com o declínio da baleação americana”. Outras duas sugestões foram no sentido de mencionar o facto de as “primeiras estações sedentárias de baleação nos Açores serem das Flores” e “a coincidência das armações da Terceira e de São Miguel terem datas próximas – meses de diferença”. Ainda nesta carta, João Afonso recomenda a consulta de um livro de Myriam Ellis para a história baleeira no Brasil.
Depois dos conselhos que me deu, João Afonso relata as últimas novidades relativas ao Museu dos Baleeiros e informa que ia ser editado o livro “Memórias de um baleeiro”, que recomendo a quem ainda não o leu, e que havia a possibilidade de um doutorando de uma universidade estrangeira vir para os Açores durante seis meses fazer investigação.
Por último, escreveu o seguinte: “Dirá o amigo que estou a ir longe demais, dizendo coisas que têm carácter pessoal. Mas faço-o como que em família … e acho que para a família – como a outros amigos…baleeiros (ecologistas ou não) – tenho de transmitir motivos destes. Não serão estimulantes? Se nestes 20 anos dos meus estudos não tivera quem me contasse coisas, já me teria perdido. Olhe: Não tenha pressas”.
Passados todos estes anos, não consigo lembrar-me por que razão não o acompanhei na sua visita aos referidos locais, o que fez com que nunca o tenha conhecido pessoalmente.
Tendo perdido muito do que ele me poderia ter ensinado, sem pressas e com a mesma avidez em aprender aqui estou!
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30316, 9 de Abril de 2014, p.16)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A fábrica dos Poços


A fábrica dos Poços e a baleação em São Miguel
Neste texto faremos referência aos últimos tempos da baleação em São Miguel e nos Açores e a uma proposta de recuperação da fábrica dos Poços que caiu em saco roto.
De acordo com notícia publicada no jornal Açoriano Oriental, em Outubro de 1984, a Sociedade Corretora tinha a intensão de retomar a caça à baleia “com base em São Miguel para serem transformadas na velha fábrica dos Poços de São Vicente que será remodelada para o efeito”. Ainda ma mesma nota pode ler-se que a referida empresa estava a “reparar, no porto de Ponta Delgada, seis das nove canoas baleeiras que possui, quatro encontravam-se em Santa Maria e duas em São Vicente.
No dia 3 de Novembro, a associação Amigos da Terra (hoje, denominada Amigos dos Açores) num comunicado publicado no Correio dos Açores, mostra-se espantada com a intensão da Sociedade Corretora e aponta que a atividade não é rentável sem a “atribuição do subsídio de 6 escudos por kg de óleo, que este ano permitiu a exportação”.
A 30 de Setembro de 1995, num artigo publicado no jornal Directo, escrevemos o seguinte: “Quanto a nós, não havendo razões económicas nem financeiras para que a atividade prossiga, escasseando mesmo quem esteja disposto a dar continuidade àquele tipo de aventura tradicional (veja-se a idade da maioria dos corajosos baleeiros), resta aproveitar o máximo possível todo o património das empresas baleeiras e aprofundar o estudo da atividade que foi, e ainda é, fonte de inspiração para as mais diversas manifestações de carácter artístico, cultural e até religioso”. E concluímos o texto alertando para que: “Em São Miguel, sobretudo nas Capelas e em S. Vicente, urge meter mãos à obra e iniciar o estudo da baleação e preservar o que ainda for possível. As juntas de freguesia daquelas localidades deverão ter uma palavra a dizer…”
Em 1987, a Corretora reafirma a intensão de retomar a baleação tendo, segundo o jornal Açoriano Oriental, de 13 de Agosto de 1987, já “despendido neste empreendimento várias centenas de contos, desde a recuperação das canoas existentes em S. Miguel, até ao desenvolvimento de contatos nacionais e internacionais para a colocação dos produtos da baleia, óleo incluído.”
Esta pretensão da Corretora, que surgiu depois de no Pico terem manifestado a intensão de voltar a arpoar baleias, foi contestada na altura pelos Amigos da Terra que anunciaram que iriam fazer diligências para que fosse lançado um boicote turístico internacional aos Açores.
Contra a caça à baleia manifestou-se também o deputado europeu açoriano, prof. Vasco Garcia que referiu que “a agitação à volta deste assunto tem certamente motivações que visam colocar em situação difícil os Açores quer no plano nacional quer internacional”.
Em data que não consegui identificar, duas biólogas micaelenses, Judite Fernandes e Manuela Macedo, elaboraram um projeto para a Fábrica da Baleia dos Poços que para além da recuperação de um elemento valioso do património histórico-cultural da zona de S. Vicente/Capelas e, obviamente, da Região pretendia a “sua reconversão num complexo que visa a dinamização da atividade turística, na sua componente de turismo cultural e de ecoturismo”.
De acordo com o projeto a que tivemos acesso, na altura, estavam previstas duas fases: a primeira, a recuperação e reconversão da Fábrica e, a segunda, a recuperação do restante património existente na zona, como o Calhau Miúdo, as Casas dos Baleeiros e as vigias da Baleia da Quinta do Navio e da Ponta do Cintrão.

Nas instalações da fábrica, as autoras sugeriam a criação de um complexo que incluía: um museu da caça à baleia, um museu da pesca artesanal, uma sala de exposições, uma biblioteca, um aquário recriando fauna e flora locais, um aquário recriando lagoas, uma sala de seminários e um pequeno laboratório.

Não sei a que portas bateram, desconheço eventuais justificações para as sugestões não terem sido tomadas em consideração, o que se sei é que, pelas fotografias que constam nos anexos ao projeto as instalações ainda estavam de pé, sendo relativamente fácil a sua recuperação.

O que se constata é que depois quase tudo deitado abaixo, com exceção para a chaminé, o governo regional dos Açores decidiu recentemente que “ vai avançar para a classificação do espaço onde funcionou a fábrica da baleia de São Vicente Ferreira, na ilha de São Miguel, propriedade atual da banca.”

Antes tarde do que nunca!

Teófilo Braga


(Correio dos Açores, nº 30312, 2 de Abril de 2014, p.14)