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quinta-feira, 22 de agosto de 2019
EM MEMÓRIA DE IVAN ILLICH
EM MEMÓRIA DE IVAN ILLICH
No passado dia 2 de Dezembro, com a idade de 76 anos, faleceu, na Alemanha, Ivan Illich, um dos mais notáveis pensadores do século XX. Natural de Viena, Áustria, Illich, que nasceu a 4 de Setembro de 1926 e estudou naquela cidade, em Salzsburgo e em Roma, foi ordenado padre católico, tendo mais tarde abandonado o sacerdócio, líderou uma comunidade próxima de Cuernavaca, no México, e foi professor e investigador universitário.
Na década de 70 do século passado, Ilhich apresentou uma das críticas mais radicais e contundentes à sociedade industrial, apresentando sempre propostas de solução dos problemas criados por essa civilização. Destaque especial nas suas críticas, mereceu a medicina que tendo sido criada para proteger a saúde estava a provocar a doença, o sistema de transportes que em vez de facilitar a mobilidade estava a produzir engarrafamentos e a escola que tendo sido criada para educar estava deseducando.
Hoje, com o sistema educativo em permanente reforma e com o consumismo a ser fomentado por alguns estabelecimentos de ensino, como é o caso da venda de lixo alimentar em algumas escolas, chegando-se ao cúmulo de se publicitar uma bebida dentro de algumas salas de aula, substituindo-se o cruxifixo, dos meus tempos de infância, pela carica de um sumo artificial, as seguintes palavras de Illich não perderam actualidade:
“Nós não podemos iniciar nenhuma reforma educativa se não tivermos compreendido que nem a aprendizagem individual, nem a igualdade social, podem ser melhoradas através do ritual escolar. Não podemos livrar-nos da sociedade de consumo sem termos compreendido antes que a escola oficial obrigatória reproduz exactamente essa sociedade de forma inevitável, seja o que for que se ensine nessa escola”
Da sua vasta obra, recomendamos a leitura dos livros, publicados em Portugal, “Libertar o Futuro” e “ A convivencialidade”. As ideias de Illich, referência ímpar para todos os ecologistas, não morreram a 2 de Dezembro, pelo contrário continuam vivas e actuais.
(Publicado no Açoriano Oriental, 23 de Dezembro de 2002)
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quinta-feira, 25 de julho de 2019
A propósito (ou não) de um Congresso sobre Educação
A propósito (ou não) de um Congresso sobre Educação
Na semana passada, entre os dias 18 e 20 de julho, realizou-se no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o 41º Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM), uma associação pedagógica de professores e de outros profissionais da educação com dois núcleos nos Açores, um na ilha Terceira e outro em São Miguel.
No texto de hoje, para além de algumas impressões sobre o evento, apresentarei algumas preocupações relativas ao ano escolar que se avizinha, onde pela primeira vez se vai generalizar a todas as turmas de início de ciclo novas matrizes curriculares para o ensino básico.
Relativamente ao número de participantes no congresso, é impressionante que, depois de um ano letivo de muito trabalho e cansaço, mais de quinhentos professores e educadores se disponibilizaram para estar presentes e alguns (mais de 80) para partilhar as suas práticas durante três longos dias.
Digna de registo é a idade da grande maioria dos participantes que, sendo baixa, revela que há razões para se ter esperança no futuro da educação no que diz respeito ao empenhamento e alteração de práticas nas salas de aula, onde os meios pedagógicos passem a vincular os fins democráticos da educação e o professor deixe de ser o único detentor da “verdade” e passe a ser o organizador das aprendizagens.
Outra informação que colhemos e que é preocupante é a inadmissível ingerência de alguns dirigentes de escolas sobretudo particulares e dos pais nas salas de aula, obrigando os professores a não usar estratégias inovadoras e fazendo-os a regressar às aulas expositivas. Para além disso, numa altura em que se apela à participação e à cooperação é uma aberração inqualificável alguns pais impedirem que os seus educandos ajudem colegas com mais dificuldades.
Para além do referido, o contato com alguns colegas de várias regiões do país leva-me a concluir que há um forte desejo de mudança, mas que uma das principais causas de não avançarem é o seu isolamento. Não estando o movimento implantado em muitas localidades, a solução só pode passar pelo recurso às novas tecnologias de informação e comunicação, através da criação de grupos cooperativos com membros de vários núcleos regionais ou da partilha de informações, materiais pedagógicos ou instrumentos de pilotagem.
Nas conversas mantidas com outros colegas, também, fiquei a saber que em alguns locais há quem frequente os Sábados Pedagógicos com o objetivo único de replicar ou adaptar as estratégias ou os instrumentos de pilotagem usados no MEM para uso em contextos onde se pretende apenas obter bons resultados em termos de aquisição de conhecimentos e não a formação integral dos alunos.
Embora considere que ninguém é obrigado a seguir o modelo pedagógico daquele movimento e saiba que há outros modelos e correntes pedagógicas que com toda a legitimidade possam ser seguidos pelos meus colegas, recordo o que sobre o assunto escreveu Maria Gutierrez: “Nem os instrumentos nem as técnicas têm sentido em si mesmos, pois pode-se muito bem conhecer e aplicar uma técnica e continuar a utilizá-la num contexto tradicional baseado na passividade do aluno”.
Não podendo comentar todas as sessões a que assisti, optei por fazer uma referência ao painel “Educação, sustentabilidade e economia circular” onde destaco um conjunto de informações importantes acerca dos desperdícios de recursos nas nossas sociedades e a experiência da construção de uma horta numa escola.
Não vou debruçar-me sobre o conceito de economia circular, mas parece-me que será ou poderá ser outro chavão a juntar ao de desenvolvimento sustentável usado pelos nossos políticos para continuarem a destruir o nosso planeta.
Por último, um aviso à navegação. A escola sozinha não muda a sociedade e a educação nunca é neutra. Como muito bem escreveu Paulo Freire, a atividade dos educadores “desenvolve-se ou para a libertação dos homens - a sua humanização -, ou para a sua domesticação - o domínio sobre eles”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31885, 25 de agosto de 2019, p.16)
quinta-feira, 14 de março de 2019
Peso e massa
O desafio do ensino/aprendizagem dos conceitos de massa e de peso
Uma das aprendizagens essenciais do 7º ano de escolaridade da Disciplina de Físico-Química é “distinguir peso e massa de um corpo, relacionando-os a partir de uma atividade experimental, na qual constrói tabelas e gráficos”.
Embora pareça tarefa simples diferenciar peso de massa, o trabalho do professor esbarra com algumas dificuldades, sendo a primeira o quase não uso do conceito físico de massa em detrimento do de peso, que é usado, erroneamente, na linguagem do dia-a-dia.
Antes de fazermos referência à segunda dificuldade que é o ensino errado que é feito no 1º ciclo do ensino básico, induzido pelo programa oficial, por alguns manuais escolares e por alguns formadores dos docentes daquele nível de ensino, apresentamos os dois conceitos tal como são expostos no Projeto Desafios de Ciências Físico-Químicas destinado ao 7º ano de escolaridade, editado pela Santillana-Constância, em 2012.
De acordo com as autoras, a massa é uma grandeza física que caracteriza a quantidade de matéria que um corpo possui, não depende do local onde se encontra, tem como unidade no Sistema Internacional o quilograma (kg) e pode ser determinada utilizando uma balança. O peso, por seu lado, “corresponde à força de atração gravitacional da Terra sobre o corpo, depende do local onde o corpo se encontra, tem como unidade no Sistema Internacional o newton (N) e pode ser medido com dinamómetros”.
Face ao exposto não se compreende a razão pelo facto da massa ser, com muita frequência confundida com o peso e a gravidade de tal ato é maior quando tal confusão surge em documentos oficiais ou em manuais usados nas nossas escolas, como se pode confirmar através dos seguintes exemplos:
1- “A meloa pesa …quilograma (kg).” (documento distribuído aos professores do primeiro ciclo da RAA)
Como vimos o quilograma é unidade de massa, portanto não devia ser usado naquela situação.
2- “Nestes cestos, as bolas grandes pesam 9 kg e as bolas pequenas pesam 3 kg.” (Fichas de avaliação do 3º ano)
Erro semelhante ao anterior.
3- “Para medires a massa (peso) deves utilizar uma balança.” (ficha de um Caderno de Fim de Semana para o 3º ano)
Neste caso, o autor (ou autores?) une os dois conceitos num só o que não é correto.
Já vimos que peso e massa são grandezas diferentes, mas será que há alguma relação entre elas?
Num manual escolar para o 1º ano do Curso Complementar do ensino secundário (atual 10º ano de escolaridade) os seus autores, entre os quais se encontra o inesquecível Rómulo de Carvalho/António Gedeão, o peso era definido como “a força que determina a aceleração com que o corpo cai para a Terra”.
A sua equação de definição da sua intensidade, - não esquecer que o peso é uma grandeza vetorial e como tal para além daquela caraterística também apresenta uma direção, um sentido e um ponto de aplicação –, é:
P = mg
A letra m é a nassa do corpo e a g representa a aceleração da gravidade.
Sabendo-se que o valor da aceleração da gravidade é, em média, 9,8 m/s2, torna-se muito fácil estabelecer a relação entre o peso de um corpo e a sua massa. Assim, se um corpo qualquer tiver a massa de 1 kg, o seu peso será 9,8 N (newton):
P = 1 x 9,8= 9,8 N
No passado, também se usava como unidade de força o quilograma-força, cujo símbolo era kgf e equivalia ao peso de um corpo com a massa de um quilograma sujeito à ação da gravidade. Não sei se o seu uso não seria útil para ajudar a esclarecer que peso e massa são duas grandezas bem distintas. Assim, quando a massa fosse 1 kg o seu peso seria 1 kgf.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31777, 14 de março de 2019, p.12)
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Os limites da autonomia dos professores nas escolas
Com os pés na terra (394)
Os limites da autonomia dos professores nas escolas
De acordo com a Lei de Bases do Sistema Educativo “é da especial responsabilidade do Estado promover a democratização do ensino, garantindo o direito a uma justa e efectiva igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares”.
Segundo a mesma lei o sistema educativo está organizado de modo a “Contribuir para desenvolver o espírito e a prática democráticos, através da adopção de estruturas e processos participativos na definição da política educativa, na administração e gestão do sistema escolar e na experiência pedagógica quotidiana, em que se integram todos os intervenientes no processo educativo, em especial os alunos, os docentes e as famílias.
Se analisarmos os resultados escolares facilmente se concluirá que não basta alargar a escolaridade obrigatória para garantir que todos ou pelo menos a grande maioria dos alunos que frequenta a escola tem índices de aproveitamento elevados. Em sumo, se o acesso está democratizado, a igualdade de oportunidades no sucesso ainda é uma miragem.
Relativamente à democracia nas escolas, podemos afirmar que é apenas formal. A título de exemplo, menciono o caso dos pais que estão representados no Conselho Pedagógico, onde, como é obvio, se tratam ou deviam tratar de assuntos de natureza pedagógica, não tendo para tal, salvo raras exceções, formação para o efeito e não estão representados no concelho executivo, onde deviam estar, pois a razão de existência da escola é haver alunos.
Ainda em relação à democracia, numa escola, tal como devia acontecer na sociedade, só faz sentido uma democracia participada e o mais direta possível, para não excluir ninguém.
Relativamente à participação e autonomia dos docentes, o Estatuto da Carreira Docente dos Açores (ECDRAA) define que o “direito de participação exerce -se no âmbito do sistema educativo regional, da escola, da aula e da relação entre a escola e a comunidade que ela serve” e compreende, entre outros, “o direito à autonomia técnica e científica através da liberdade de iniciativa, no âmbito da orientação pedagógica, a exercer no quadro das orientações curriculares e planos de estudo aprovados e dos projetos educativos das escolas, na escolha dos métodos de ensino, das tecnologias e técnicas de educação e dos tipos de meios auxiliares de ensino mais adequados” e “o direito de participar em experiências pedagógicas, bem como nos respetivos processos de avaliação”.
No que diz respeito aos deveres dos professores para com os alunos, o ECDRAA, entre outros destaca a promoção do desenvolvimento do rendimento escolar dos alunos e a qualidade das aprendizagens, de acordo com as respetivas orientações curriculares e atendendo à diversidade dos seus conhecimentos e aptidões e organizar e gerir o processo de ensino e aprendizagem, adotando estratégias de diferenciação pedagógica suscetíveis de responder às necessidades individuais dos alunos”.
O regime jurídico da criação, autonomia e gestão das unidades orgânicas do sistema educativo (Decreto Legislativo Regional nº 13/2013/A de 30 de agosto) por sua vez estabelece que compete à unidade orgânica “proceder à aferição dos critérios de avaliação dos alunos, garantindo a sua coerência e equidade e desenvolver métodos específicos de avaliação dos alunos, sem prejuízo da aplicação dos normativos gerais”.
Desconheço o entendimento que a tutela da Educação dá a “aferição dos critérios de avaliação”, mas parece-me que nas escolas tal é entendido como uma mesma grelha de excell usada na avaliação dos alunos para todas as turmas, pelo menos para cada um dos departamentos curriculares.
A opção por uma única grelha de avaliação para todos os alunos para mim é tão absurda como o é a planificação anual ou periódica igual para toda a escola quando as turmas são completamente diferentes.
Teófilo Braga
Pico da Pedra, 27 de novembro de 2018
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
A Educação Integral de Bakunine
A Educação Integral de Bakunine
“Para ser perfeita, a educação deveria ser muito mais individualizada do que é hoje, individualizada no sentido da liberdade e unicamente pelo respeito à liberdade, mesmo entre as crianças” (Bakunine, 1869)
Nas minhas leituras sobre as questões do ensino deparei-me com um autor que nunca havia lido, o russo Mikhail Bakunine (1814-1876), e com o livro “Educação, Ciência e Revolução”, editado no Brasil, em 2016, pela Intermezzo Editorial, que reúne seis ensaios, entre os quais figura “A Instrução Integral”, no qual o autor apresenta as suas ideias sobre a educação.
Antes de me referir ao pensamento de Bakunine sobre a educação, refiro que o mesmo, de ascendência nobre, foi um anarquista que depois de passar pelo exército e estudar filosofia esteve envolvido em diversos movimentos revoltosos, tendo sido preso várias vezes e condenado à morte por duas vezes.
Bakunine reconhecia a importância da educação na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, por isso defendia que as massas operárias só podiam emancipar-se completamente se recebessem uma instrução que não fosse inferior à recebida pelos burgueses.
Apesar desta preocupação, a educação não era tarefa prioritária para Bakunine. Com efeito, segundo ele, a questão que deveria ser solucionada em primeiro lugar era a da “emancipação económica, que engendra necessariamente, logo e ao mesmo tempo, a sua emancipação política, e logo a seguir a sua emancipação intelectual e moral”. Numa outra passagem do texto “A instrução integral” que vimos citando o autor explica melhor o seu ponto de vista:
“Para que os homens sejam morais, isto é, homens completos no pleno sentido desse termo, são necessárias três coisas: um nascimento higiénico, uma instrução racional e integral acompanhada de uma educação fundada no respeito pelo trabalho, pela razão, pela igualdade e pela liberdade, e um meio social onde cada indivíduo humano, desfrutando de sua plena liberdade, seria realmente, de direito e de facto, igual a todos os outros.”
No que diz respeito à educação, Bakunine defendia que devia ser igual para ambos os sexos e constituida por uma componente teórica e uma prática. Para além do referido, também devia existir “o ensino prático, ou melhor, uma série sucessiva de experiências da moral, não divina, mas humana”. Segundo ele, a moral humana “não se funda senão no desprezo pela autoridade e no respeito à liberdade e à humanidade” e “só concede direitos àqueles que vivem de seu trabalho. Ela reconhece que só pelo trabalho o homem torna-se homem”.
Sobre os professores, que deviam ser os principais agentes das mudanças para uma sociedade nova que todos dizem pretender, em 1871, Bakunine escreveu o seguinte:
“Os professores da escola moderna, divinamente inspirados e titulados pelo Estado, tornar-se-ão necessariamente, uns sem sabê-lo, outros em pleno conhecimento de causa, os mestres da doutrina do sacrifício popular para o poder do Estado e para o benefício das classes privilegiadas.”
Hoje, sabemos que, quando os entraves não vêm de cima, as dificuldades postas às inovações, são colocadas pelos docentes que, por desmotivação, algumas vezes justificadas, ou por inércia, não se empenham ou deturpam as diretivas que deviam aplicar. Como exemplo, já quase esquecido, recordo a introdução da área escola e da área de projeto, que acabaram por ser um tremendo fracasso. Mais recente é a atual implementação do projeto de autonomia e flexibilidade curricular que segundo me dizem está a correr muito bem, mas apenas no papel.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31448, 7 de fevereiro de 2018, p. 17)
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Ainda a propósito do trabalho de projeto no ensino da Química
Ainda a propósito do trabalho de projeto no ensino da Química
Em texto anterior, comecei por abordar uma tentativa de ensinar alguns conceitos do programa de Física e Química do 7º ano de escolaridade, com recurso ao trabalho de projeto. Embora o tema seja de interesse para os docentes da disciplina, pode ter também interesse para professores de outras disciplinas, bem como para as demais pessoas interessadas com o que se passa nas escolas.
Antes de prosseguir, vou aproveitar para demonstrar publicamente a minha indignação pelo facto dos nossos alunos serem discriminados em relação aos seus colegas do continente português. Com efeito, os conteúdos a lecionar são os mesmos a nível nacional, mas, nos Açores, os alunos têm menos um terço de tempos letivos que os não residentes na região.
A situação descrita já foi denunciada por várias vezes e os políticos que nos governam, desde secretários a diretores regionais, passando pelos deputados, estão ao corrente da situação, mas não mexem uma palha para que a situação se altere. Desconheço a razão da sua apatia, mas as causas poderão estar relacionadas com o não entendimento da gravidade da situação, com a incapacidade para a implementar medidas de fundo, pois a apregoada autonomia dos Açores é muito curta ou com a sua forte aposta na implementação de medidas de mera mitigação, como o ProSucesso.
Ainda sobre o assunto, quero afirmar que os professores também são vítimas da situação mencionada, pois vêm-se aflitos para cumprirem os programas, por vezes, demasiado extensos e não têm outro remédio senão passar por alguns conteúdos como gatos sobre brasas.
Retomando o fio à meada, a opção que fiz pela implementação do trabalho de projeto para o estudo de um conteúdo do programa deveu-se essencialmente ao facto de considerar que as atividades laboratoriais devem ser feitas pelos alunos, respeitando todas as regras de segurança nos laboratórios, sempre com a supervisão do professor.
Mas, tão ou mais importante do que o ensino experimental é o colocar os alunos a participar na organização das tarefas a realizar e a trabalhar em cooperação com os colegas. Não se pode exigir que uma organização ou região seja autónoma quando os cidadãos que a constituem ou nela vivem não aprenderam a usar a liberdade para pensarem pela sua cabeça e as agir por si próprios.
Se há quem tenha muitas dúvidas sobre a implementação do trabalho de projeto, nomeadamente porque possa implicar não seguir a ordem dos conteúdos inscritos nos programas ou por pensar que os alunos não são capazes de fazer pesquisas bibliográficas, por mais simples que sejam, a maior interrogação é a relacionada com a pretensa incapacidade ou imparcialidade por parte dos alunos para avaliarem o trabalho desenvolvido.
Para comprovar que aqueles são capazes de ser autónomos e de avaliar, com justiça o seu trabalho, apresento, abaixo, alguns extratos de uma ficha de autoavaliação.
Sobre como havia decorrido o trabalho, uma das alunas, de 12 anos, sobre a atividade laboratorial escreveu o seguinte: “Inicialmente correu mal, pois tínhamos feito a experiência mal, mas depois repetimos de novo e a experiência foi bem-sucedida”. Relativamente ao trabalho em equipa, a mesma aluna escreveu: “cada uma fez um pouco e depois o meu outro par foi buscar todo o material e conseguimos trabalhar bem”. Em relação à realização da apresentação final, a avaliação da aluna foi: “O trabalho correu bem, mas atrapalhámo-nos um pouco … conseguimos trabalhar bem pois aceitamos todas as ideias que propomos”. Por último, a mesma aluna, analisando a apresentação final, escreveu: “a apresentação correu bem, soubemos planear o que cada uma ia dizer e usamos um vocabulário claro e correto” e acrescentou: “ Acho que em vez de fazermos numa folha de papel, podíamos inovar mais fazendo um vídeo a explicar o procedimento da experiência”
Apesar do cansaço de quase 40 anos de lecionação, de muito desânimo, de muita revolta pelo modo como os sucessivos governos têm tratados os docentes e outras classes profissionais, há momentos em que ainda acreditamos que é possível uma melhor escola inserida num mundo melhor.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31264, 28 de junho de 2017, p, 16)
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Sobre os trabalhos de casa
Sobre os trabalhos de casa
Há quem ache que todas as crianças a frequentar uma escola devem fazer trabalhos de casa, pois estes complementam o que aprendem na escola, e há quem ache que não, pois são uma sobrecarga para as mesmas que já têm um horário muito sobrecarregado durante o dia e que devem ter tempo livre para as suas brincadeiras.
Sobre este assunto têm tomado posição alguns conselhos pedagógicos das escolas, alguns dos quais caindo no erro de deliberar sobre tudo, mesmo sobre assuntos que não são de natureza pedagógica, e, pior do que isso, pretendendo uniformizar tudo, quando o mais sensato seria dar autonomia aos docentes, pois são eles que estão em contato direto com os alunos que são todos diferentes uns dos outros.
Há países que chegam ao extremo de possuir legislação sobre os trabalhos de casa, como a Bélgica. Segundo uma notícia do jornal público, de 2001, as crianças belgas do 1º e 2º ano, entre os seis e os oitos anos, estão proibidas de fazer trabalhos de casa, os do 3º e 4º anos poderão despender no máximo 20 minutos por dia, os do 5º e 6º anos, meia hora e para os restantes “os TPC devem ter uma "cadência razoável" que permita aos estudantes gerir o seu tempo de maneira a que se possam envolver em atividades desportivas e culturais, ou simplesmente, divertir-se”.
Considero que legislar sobre os trabalhos de casa é um exagero que deveria ter sido evitado, pois, para além de ser um sinal de desconfiança nos docentes, trata-se de menosprezar o profissionalismo dos daqueles que são quem conhece as necessidades dos alunos e o que deverá ser feito para ultrapassá-las.
A legislação belga referida, também, determina que os trabalhos de casa não contam para a avaliação dos alunos, evitando-se assim “qualquer tipo de discriminação daqueles que não podem ser ajudados em casa”. Sobre este assunto uma colega minha costuma dizer que embora nada tenha contra os apoios que os pais arranjam para os filhos fora da escola, não é avaliadora destes, de explicadores particulares, nem de centros de explicações.
Em Espanha, muito recentemente realizou-se uma campanha intitulada “Fins de semana sem trabalhos de casa” e penso que ainda está a recolher assinaturas uma petição sobre trabalhos de casa.
Embora não seja radicalmente contra a realização de trabalhos de casa, acho que a maioria dos alunos já tem uma sobrecarga letiva pelo que não podem ser massacrados com trabalhos de casa muitas vezes repetitivos e que só os poderão levar a perder o gosto pelas aprendizagens.
Apesar do referido, considero que os alunos, nos primeiros anos de escolaridade, poderão fazer pontualmente alguns trabalhos de casa de duração muito reduzida e deverão fazer pequenos trabalhos de pesquisa para complementar o que aprenderam nas aulas. Os alunos do ensino secundário, atendendo às exigências do mesmo, não podem descurar o estudo em casa e mesmo sem serem obrigados pelos professores devem fazer exercícios de aplicação dos conhecimentos adquiridos e aprofundar alguns temas abordados nas aulas.
O que não pode acontecer é continuar a situação atual, onde muitas vezes as aulas são demasiadamente expositivas e onde não há espaço para que os alunos realizem trabalho autónomo, sempre sob a orientação do professor, e aprendam a responsabilizar-se pelos trabalhos que devem fazer para serem bem-sucedidos nos seus estudos.
A petição referida, entre outros pontos, menciona que os trabalhos de casa repetitivos e abusivos não contribuem para melhorar o rendimento escolar e afetam de forma negativa a felicidade das crianças e a qualidade de vida das famílias e pede para que os trabalhos de casa sejam racionalizados, de modo a que os mesmos sejam feitos num tempo razoável e de acordo com as idades dos estudantes.
A petição também sugere que os trabalhos de casa devem ser “acordados” entre os diferentes professores de modo a que, conhecedores do tempo de cada um, não se traduzam numa carga excessiva para cada aluno.
Em síntese, estamos perante um conjunto de questões que se resolveriam com bom senso, sem qualquer necessidade de recorrer a petições e legislações, numa escola verdadeiramente do século XXI.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31096, 7 de dezembro de 2016, p. 16)
terça-feira, 8 de novembro de 2016
António Sérgio e a Educação
António Sérgio e a Educação
António Sérgio considerava-se um “pegagogista” que pretendia agir na mentalidade “dos que hão-de ensinar à nossa “arraia-miúda” a maneira pacífica de se libertar a si mesma, sem cair na dependência em relação a magnates, a politicões, a tribunos, que são simples instrumentos, mais ou menos conscientes, do bando de argentários que domina a Grei”
Embora a sociedade e a escola de hoje não são as do tempo em que viveu António Sérgio, pensamos que a primeira não deixou de ser “fortemente oligárquica” e a escola de hoje tal como a do passado “não dá cultura”. António Sérgio escreveu: “Falando em geral, o amor das ideias é bem raro aqui. A escola portuguesa não nos inspira esse amor. Muito pelo contrário: só pode incutir-nos o horror às ideias, à leitura, ao estudo”.
António Sérgio distinguia elites de oligarquias. Segundo ele, elite era uma “minoria dos melhores que estrutura uma nação, que a orienta e que a torna orgânica, que a inspira com o objetivo de se tornar dispensável, de preparar o povo para se governar por si próprio; que a norteia, em suma, não para o bem dessa minoria, mas para o benefício de todos nós, dando pois à sociedade muito mais do que dela recebe”. Por outro lado, oligarquia “é a minoria dos graúdos piores, a qual manda num país…para quê? Para sempre o sacrificar aos seus interesses.
Segundo António Sérgio, a Educação ao invés de formar elites estava a formar oligarquias, isto é “gente, pois, que recebe mais (muito mais) do que aquilo que dá”.
Hoje, quando algo corre mal na sociedade a solução encontrada é sempre sobrecarregar as escolas. A juventude toma drogas ilícitas, faz-se uma sensibilização, há muita gravidez na adolescência, toca a impingir educação sexual, há uma crise económica enfia-se um projeto sobre empreendedorismo, pretende-se pintar de verde algumas atividades governamentais e autárquicas, manda-se implementar o projeto eco-escolas, há poucos eleitores a votar, cria-se o orçamento participativo escolar, etc., etc.
Acreditam eles ou fingem acreditar que os males e a salvação estão na escola. Puro engano, que António Sérgio já havida denunciado ao falar na escola portuguesa nos seguintes termos: “A escola exprime a sociedade, dá o que lhe pedem; e ninguém lhe pede educação, mas diplomas – sendo certo, no entanto, que os que pedem diplomas para seus filhos, e só diplomas, foram educados no seu tempo pelas escolas portuguesas”.
A grande ilusão dos decisores é querer resolver os problemas através da escola quando há muita vida para além dela. António Sérgio sobre esta questão disse: “Quanto a mim parece-me que os males de que nos queixamos são fatalíssima consequência da estrutura da sociedade, - e que só portanto terão remédio se nos metermos firmemente a transformar essa estrutura, o que não é possível com pregações, nem com politica de autoritarismo, nem com reformas só pedagógicas, - mas com reformas sociais e pedagógicas concatenadas, entrelaçadas como fios de um tecido único, as quais preparem o nosso povo para o uso razoável da liberdade e para empreender por si mesmo a sua emancipação social-económica”.
Há quem ache que a educação deve servir para adaptar a criança à sociedade em que se vive. António Sérgio acha que não e escreve: “No seu papel de organizadora de atividades, a educação não tem por objeto manter a estrutura da sociedade de hoje; tem por objeto melhorá-la, revoluciona-la”.
Hoje, fala-se muito e pouco se faz em relação à autonomia da escola e dos alunos. António Sérgio também defendia “uma escola do trabalho e da autonomia, do labor profissional e da iniciativa – uma escola útil para a vida”. Segundo ele “Uma carneirada escolar dá uma carneirada administrativa, e um decorador de compêndios, um amanuense; mas se cada escola for uma cidade, um laboratório, uma oficina; se conseguirmos desloca-la do enciclopedismo para a criação – o aluno ao sair irá marcado, terá amoldado o seu espírito à iniciativa produtora e virá a ser para a sociedade uma fonte de progresso”.
Mas, para António Sérgio, a autonomia não podia ser só para e na escola. Com efeito, António Sérgio considerava que a mesma devia ser uma meta de toda a sociedade, como se pode concluir da leitura seguinte extrato: “Quanto a mim, actuo a favor do ideal democrático, é certo; mas repetindo mil vezes a afirmação do Proudhon: “democracia é demopedia, democracia é educação do povo”. É treino do operário para se governar a si mesmo através das cooperativas e dos sindicatos, da estrutura do município e da província (associação de municípios), sem necessidade de chefes ou de mandões…”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31076, 9 de novembro de 2016, p.11)
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
quarta-feira, 13 de julho de 2016
António Sérgio e a autonomia nas escolas
António Sérgio e a autonomia nas escolas
Um dos últimos textos publicados neste jornal foi dedicado ao pedagogo António Sérgio que tal como Álvaro Viana de Lemos, Adolfo Lima e Faria de Vasconcelos foi um dos pilares da Educação Nova no nosso país.
Neste texto, numa primeira parte faremos menção a algumas medidas tomadas por António Sérgio enquanto ministro e depois abordaremos, muito superficialmente, algumas das suas ideias sobre a escola e o ensino.
Apesar de algumas ideias geniais que, ainda hoje, com as devidas adaptações mantêm atualidade, foram integradas ou são seguidas por algumas correntes ou experiências pedagógicas, algumas medidas implementadas ou propostas por António Sérgio, na sua qualidade de ministro, foram fortemente contestadas pelos professores.
De entre as medidas que ele tomou, destacamos a extinção das escolas primárias superiores que sofreu forte contestação pelos professores daqueles estabelecimentos de ensino que se sentiram ofendidos e que o atacaram, usando, mesmo, argumentos que ponham em causa a sua pessoa. A exemplificar o referido, abaixo apresenta-se um extrato de um editorial do jornal “O Ensino do Povo”, transcrito por António Nóvoa, num texto publicado no número 3 da revista Portuguesa de Educação, editada, em 1988, pela Universidade do Minho:
“Até hoje, e já lá vai um ano e tanto, ainda o sr. Sérgio da Seara Nova se não lembrou de provar a acusação com que prendeu manchar uma classe inteira. Isto, quanto à competência científica. Quanto à competência moral, já ninguém ignora que, por ocasião do advento da República, sendo S. Exª oficial da marinha, pediu a demissão desse cargo para não servir o novo regímen. Contudo não lhe causou engulhos exercer, na mesma República, o cargo de ministro, alguns anos depois”.
Outra medida tentada por mais de uma vez durante a Primeira República foi a da descentralização do ensino. Tal como as tentativas anteriores, a de António Sérgio foi fortemente criticada, segundo António Nóvoa, porque os professores não queriam por um lado ser empregados camarários e por outro receavam “receber ordens de quem sabe menos”.
Hoje, qualquer tentativa de passar a gestão do pessoal docente para as autarquias seria fortemente repudiada pelos professores e quase de certeza pelos mesmos motivos.
António Sérgio distingue claramente instrução e educação, tendo afirmado que “ler, escrever e contar são instrumentos de cultura, mas não a própria cultura”. Segundo, Carlos Fino, num texto intitulado António Sérgio e o self government” publicado, em 1997, na revista “Arquipélago –Perspectivas e Debates”, para António Sérgio “educação consiste em formação, e firmeza crescente no saber fazer e no saber procurar”.
António Sérgio defendeu uma escola muito diferente das tradicionais, onde deveriam acabar os métodos passivos de ensinar e onde os alunos, à medida que fossem avançando na sua escolaridade, fossem assumindo cada vez maiores responsabilidades através da participação na direção da vida escolar.
Qual seria, então o papel do professor?
Para Sérgio “o professor ensinará pois os estudantes a governarem-se a si mesmos, criando leis justas e sensatas e sobretudo executando-as e fazendo-as executar”.
Segundo Carlos Fino, o papel do professor na escola idealizada por António Sérgio seria: “a) dirigir idoneamente as operações; b) elidir as suas falhas; c) consagrar tempo, atenção e interesse verdadeiro ao projeto educativo e d) assegurar que os alunos cidadãos tenham a maior responsabilidade possível para que tirem da autonomia que se lhes dá o maior valor educativo”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30983, 13 de julho de 2016, p. 13)
quarta-feira, 6 de julho de 2016
ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 2
ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 2
Na semana passada escrevemos sobre a atividade docente de Alice Moderno, neste texto fazemos referência a aspetos do seu pensamento sobre as questões do ensino e da educação.
Sobre a temática do ensino propriamente dito, Alice Moderno escreveu vários textos onde teve a oportunidade de expor as suas ideias.
De entre eles, destacamos “Palavras de um “toast”, escrito em Angra do Heroísmo, a 22 de outubro de 1911, dedicado aos professores primários (hoje professores do 1º ciclo do ensino básico).
No seu texto, Alice Moderno saúda os professores primários, dizendo que eles são “os funcionários mártires da instrução” e acrescenta, citando Renan “que o futuro intelectual do indivíduo depende principalmente de quem lhe ensina a ler” e termina afirmando que “a leitura, inteligentemente assimilada em tenros anos, pode fazer sábios, como a rotina sabe fabricar cretinos”. Alice Moderno conclui o seu curto texto, saudando “entusiasticamente os membros conscientes, independentes e dignos da classe à qual o estado menos paga e da qual mais exige…”
Outro texto que merece referência foi o publicado, a 9 de dezembro de 1909, na Revista Pedagógica, intitulado “Médicos Escolares”, onde Alice Moderno solidariza-se com a opinião de Maria Evelina de Sousa que numa reunião realizada em Ponta Delgada defendeu a necessidade de médicos escolares visitarem as escolas quinzenalmente a fim de verificar se aquelas se encontravam em boas condições de higiene “e se as crianças que as frequentavam estão em boas condições que lhes permitam matricular-se num estabelecimento de instrução, a que concorrem muitas outras que têm direito a não serem contaminadas pela doença alheia”.
Alice Moderno não apenas opinou sobre o que se passava nos Açores. Com efeito, também reagiu ao fuzilamento de Francisco Ferrer i Guàrdia.
Francisco Ferrer i Guàrdia (1859-1909) foi um pedagogo catalão que criou a Escola Moderna que funcionava tendo por base uma pedagogia libertária. As ideias anarquistas de Ferrer, sobretudo após a sua morte, influenciaram a abertura de outras escolas em diversos países, como a Voz do Operário, em Lisboa, e serviram de inspiração a diversos pedagogos, como o brasileiro Paulo Freire.
Ferrer foi condenado à morte e fuzilado, a 13 de Outubro de 1909, por ter sido, injustamente, acusado de ser o instigador da revolta popular da Semana Trágica, em Barcelona.
Em todo o mundo foram inúmeras as reações à sua morte. Na ilha de São Miguel, surgiram artigos a condenar o seu fuzilamento, nos jornais “Vida Nova”, “A Folha” e “O Repórter”.
A Revista Pedagógica, editada pela professora Maria Evelina de Sousa, de que Alice Moderno foi colaboradora, não só condenou o assassinato de Francisco Ferrer como divulgou as suas ideias em pelo menos quatro números.
Num texto não assinado publicado no Jornal A Folha nº 366, de 24 de Outubro de 1909, a dada altura o autor ou autora, que acreditamos ser Alice Moderno, escreveu o seguinte:
“Ferrer foi um brasseur d’idées, foi um desses indivíduos excecionais que, nesta época de egoísmo, em que se entrechocam os mais sórdidos e desmedidos interesses pessoais, sacrificou toda a sua fortuna particular, toda a segurança individual, toda a sua tranquilidade espiritual, por uma ideia - combatendo por ela até ao ponto de ver correr, pelos furos das balas reais, o seu sangue generoso”.
Embora possa parecer estranho o facto das republicanas Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa virem a público defender um pedagogo anarquista, tal não foge ao que acontecia a nível nacional onde, segundo António Candeias, nos centros culturais republicanos eram discutidos pensadores de várias filiações ideológicas como Ferrer, Vítor Hugo, Proudhon, Garibaldi, Antero de Quental, Zola e Réclus.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30977, 6 de julho de 2016, p.18)
quarta-feira, 29 de junho de 2016
ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 1
ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 1
“A verdade é que somos todos iguais. Iguais no nascimento, pelo sofrimento, e perante a morte. O que desnivela os homens é unicamente, mas cumpre dizê-lo inexoravelmente, a diferença de educações. Instruí-vos, educai-vos, e colocar-vos-eis a par dos primeiros entre os vossos semelhantes.”
Sendo o pai de Alice Moderno uma pessoa instável que nunca parava num local, decide, em 1987, sair de Ponta Delgada, primeiro para a Achada de Nordeste, depois para os Fenais da Ajuda e mais tarde para a Lagoa. Alice Moderno, que não se entendia com o pai, decide ficar em Ponta Delgada e para subsistir dá explicações
Segundo a Professora Maria da Conceição Vilhena, a atividade docente, nos primeiros anos, ocupava os dias de Alice Moderno, trabalhando esta de 8 a 14 horas diárias. A docência foi exercida por Alice Moderno durante muitos anos, tendo mais tarde sido substituída por outras, como o comércio, a tipografia, os seguros, etc.
Em 1892, Alice Moderno era um dos oito professores de instrução secundária inscritos na matriz da contribuição industrial de Ponta Delgada.
Em 1907, Alice Moderno dava explicações na Rua do Castilho nº1 como prova o seguinte anúncio publicado a 17 de fevereiro no jornal A Folha: “Alice Moderno leciona instrução primária e línguas portuguesa e francesa”. Sabe-se que também lecionou geografia.
Alice Moderno, para além de professora particular, foi nomeada regente da Escola Móvel de Ponta Delgada, tendo, no dia 15 de outubro de 1913, proferido a alocução inaugural. No seu discurso Alice Moderno elogiou o regime republicano por “procurar extinguir, no feracíssimo solo lusitano, as flores nefastas da ignorância e da superstição” que infelizmente continuam a proliferar nos nossos dias”.
Na ocasião, o jornal República denunciou várias irregularidades no funcionamento das escolas móveis, sendo uma delas o facto de alguns professores das mesmas não terem habilitações.
As escolas móveis que foram criadas pela República para combater o analfabetismo foram contestadas porque limitaram as aprendizagens à alfabetização e porque, segundo António da Nóvoa, davam prioridade nas contratações dos professores aos “amigos republicanos”.
Contra as escolas móveis ergueram a sua voz, a nível nacional, alguns pedagogos portugueses como Álvaro Viena de Lemos (1881-1972), divulgador em Portugal da obra do pedagogo francês Freinet, que escreveu o seguinte: “Vem o Estado republicano. Cria também umas escolas móveis. Mas sob o pretexto, que facilmente colhe na ocasião, da necessidade da propaganda republicana e defesa das instituições, a nomeação dos respetivos professores faz-se, com raras exceções, entre os compadres e bons republicanos com melhores serviços revolucionários”.
Por cá, Alice Moderno, no jornal A Folha, de 26 de outubro de 1913, desmontou as várias acusações de que era alvo nos seguintes termos:”…na parte que me diz respeito uma completa falsidade, atendendo a que sou professora diplomada e me encontro inscrita no Liceu de Ponta Delgada como professora de ensino secundário, existindo na secretaria do mesmo estabelecimento de instrução, numerosos documentos comprovativos não só das minhas habilitações oficiais, mas ainda do trabalho produzido como professora de instrução primária (admissão ao curso dos liceus) e materiais de ensino secundário, na qualidade de professora do mesmo ensino”.
Na próxima semana voltarei ao assunto.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30971, 29 de junho de 2016, p.18)
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
A Pedagogia Libertária de Tolstoi
A Pedagogia Libertária de Tolstoi
Penso que só a liberdade total, ou seja, a ausência de coerção, ou de vantagens tanto para os que são ensinados como para os que ensinam, libertaria as pessoas de um grande número de males que origina agora a instrução coercitiva e egoísta aceite em todo o lado… (Tolstoi)
Tendo como fim estimular a autonomia dos alunos e a participação de todos no processo educativo, a pedagogia libertária tem, de acordo com alguns autores, três princípios básicos: o antiautoritarismo, a educação integral e a autogestão pedagógica.
No que diz respeito ao antiautoritarismo, há correntes pedagógicas que excluem qualquer tipo de autoridade exercida sobre os educandos e há outras que consideram que os educadores, inevitavelmente, exercem sobe os educandos uma autoridade moral.
Em relação à educação integral, para além de estar associada à igualdade de oportunidades para todos, exige-se que o trabalho manual seja tão valorizado como o intelectual.
Por último, em relação à autogestão pedagógica, defende-se que os espaços educativos/escolas devem ser autónomos, sendo dirigidos pelas pessoas que deles fazem parte.
De entre os difusores das pedagogias libertárias estão pensadores como Proudhon, Freinet, Ferrer e Guardia, Tolstoi e Alexander Sutherland Neill.
Neste texto, apenas fazermos referência a algumas ideias defendidas por Tolstoi, um dos maiores escritores de todos os tempos, cuja obra no campo do ensino e da educação das crianças é quase desconhecida.
Tolstoi que nunca reivindicou a sua adesão ao anarquismo, pelo seu pensamento em relação à escola e não só, foi integrado por alguns autores na corrente libertária, tendo segundo outros sido “precursor do que se entende por anarquismo cristão”. Segundo Gustavo Ramus, “Os seguidores dessa vertente defendem o cristianismo primitivo e as primeiras comunidades cristãs, que viviam de forma alheia ao Estado romano, realizando o princípio da ajuda mútua. Avessos à constituição de propriedade, praticavam a divisão de bens e o alimento compartilhado”.
Tolstoi dedicou uma parte importante da sua vida ao ensino, tendo aos 19 anos criado uma escola para camponeses na sua aldeia natal que durou pouco tempo. Contudo, retomou a iniciativa em 1859, aos 31 anos, e prosseguiu a sua atividade pedagógica até ao fim da vida.
Tolstoi não acreditava na instrução proporcionada pelos governos. Segundo ele, “a força do governo repousa na ignorância do povo; o governo sabe disso; assim, ele será sempre um adversário da instrução” e acrescentou” nada de mais nocivo do que permitir ao governo simular disseminar a instrução, quando de facto, propaga a ignorância”.
De acordo com Lipiansky, Tolstoi não aceita a “instrução oficial por impor um modelo pré-estabelecido, por fundamentar-se sobre um saber absoluto que escapa a toda a crítica, por negligenciar totalmente as necessidades do povo e, em definitivo, por trabalhar “para as necessidades do governo e das classes superiores””.
Ainda segundo o mesmo autor, para Tolstoi o único critério da pedagogia é a liberdade e o único método é a experiência..
Por último, Tolstoi dava grande importância ao trabalho manual. Numa carta dirigida a Romain Rolland, escrita em outubro de 1887, sobre o assunto escreveu: “Na nossa sociedade viciada (na chamada sociedade civilizada) tem de se falar antes de tudo do trabalho manual, porque a falta principal da nossa sociedade foi e continua a ser hoje o desejo de se libertar do trabalho manual e de utilizar, sem o intercâmbio mútuo, o trabalho das classes pobres, ignorantes e deserdadas”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30856, 10 de fevereiro de 2016, p.13)
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Centrais Hidroeléctricas da Ribeira da Praia (São Miguel)
Vídeo produzido pela Escola Secundária das Laranjeiras
domingo, 31 de maio de 2009
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Para uma educação livre ou ministeriada?
Prometeu agrilhoado é uma imagem terrífica e espantosa para permanecer solidamente à entrada de uma Universidade. Trata-se da escultura que supervisiona o campus da U. do Minho, mas poderia estar em qualquer outro centro de ensino.
Mensagem insidiosa? Metáfora escultural da velha palmatória? Bicada-Punição ministerial? O que pode pensar o aluno do (deste) sistema de educação? A escola e a universidade estão pensadas hoje em dia para que o aluno se liberte do pesadelo prometeico?
Os professores do ensino básico e secundário enfrentam actualmente não o pesadelo, mas a realidade política de uma mentalidade preocupada não com o ensino, os alunos, as escolas, os professores, mas com os números, as estatísticas, os índices, a produtividade. Esta visão mercantilista da educação dificilmente pode ter como finalidade estimular a criatividade, a independência, a capacidade crítica e o desenvolvimento global dos alunos. Fazer da escola um comércio passa por cima da possibilidade de imaginar sujeitos livres, cidadãos autónomos, conscientes socialmente e capazes de ver além do estreito funil de tornar cada aluno um mero grão na engrenagem de um sistema de produção em série.
Perante a política educativa das últimas décadas que argumentos temos à vista para refutar que, na sua essência, ela está orientada de tal modo que à medida que o aluno avança do básico à universidade ele passa a ser uma mera mercadoria?
E, suprema ironia deste sistema de educação, à vista estão os factos: quantos alunos que cumpriram o seu percurso escolar vieram parar à linha de caixas do Jumbo? Ao call-center da PT? Ao fato-de-treino da Ikea? Aos subúrbios de Londres ou ao aeroporto de Barcelona? Ou, simplesmente, ao desemprego com canudo. E quem poderá avaliar esta concepção ministerial falhada da Educação?
Além das reivindicações conjunturais e da luta unida dos professores contra as decisões do governo actual, não devemos – professores, alunos, pais, cidadãos – reflectir sobre a orientação geral do sistema educativo? Se os professores não querem uma ministra a vigiar e punir o seu desempenho quotidiano, pode um aluno continuar com um prometeu agrilhoado no seu imaginário?
Debate - Para uma educação livre ou ministeriada?
Domingo, 30 de Novembro, 17h30
Convidados: António Magalhães (professor universitário/Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da U. do Porto)
António José Silva (professor do ensino secundário e autor do blogue Pimenta Negra)
Gato Vadio, rua do Rosário 281
Porto
Nota: o texto é apenas um ponto de vista para estimular a reflexão e vincula apenas os Vadios…
http://gatovadiolivraria.blogspot.com/
Mensagem insidiosa? Metáfora escultural da velha palmatória? Bicada-Punição ministerial? O que pode pensar o aluno do (deste) sistema de educação? A escola e a universidade estão pensadas hoje em dia para que o aluno se liberte do pesadelo prometeico?
Os professores do ensino básico e secundário enfrentam actualmente não o pesadelo, mas a realidade política de uma mentalidade preocupada não com o ensino, os alunos, as escolas, os professores, mas com os números, as estatísticas, os índices, a produtividade. Esta visão mercantilista da educação dificilmente pode ter como finalidade estimular a criatividade, a independência, a capacidade crítica e o desenvolvimento global dos alunos. Fazer da escola um comércio passa por cima da possibilidade de imaginar sujeitos livres, cidadãos autónomos, conscientes socialmente e capazes de ver além do estreito funil de tornar cada aluno um mero grão na engrenagem de um sistema de produção em série.
Perante a política educativa das últimas décadas que argumentos temos à vista para refutar que, na sua essência, ela está orientada de tal modo que à medida que o aluno avança do básico à universidade ele passa a ser uma mera mercadoria?
E, suprema ironia deste sistema de educação, à vista estão os factos: quantos alunos que cumpriram o seu percurso escolar vieram parar à linha de caixas do Jumbo? Ao call-center da PT? Ao fato-de-treino da Ikea? Aos subúrbios de Londres ou ao aeroporto de Barcelona? Ou, simplesmente, ao desemprego com canudo. E quem poderá avaliar esta concepção ministerial falhada da Educação?
Além das reivindicações conjunturais e da luta unida dos professores contra as decisões do governo actual, não devemos – professores, alunos, pais, cidadãos – reflectir sobre a orientação geral do sistema educativo? Se os professores não querem uma ministra a vigiar e punir o seu desempenho quotidiano, pode um aluno continuar com um prometeu agrilhoado no seu imaginário?
Debate - Para uma educação livre ou ministeriada?
Domingo, 30 de Novembro, 17h30
Convidados: António Magalhães (professor universitário/Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da U. do Porto)
António José Silva (professor do ensino secundário e autor do blogue Pimenta Negra)
Gato Vadio, rua do Rosário 281
Porto
Nota: o texto é apenas um ponto de vista para estimular a reflexão e vincula apenas os Vadios…
http://gatovadiolivraria.blogspot.com/
sábado, 26 de julho de 2008
Na Educação Nada de Novo
Tetrapi investe 13 ME na construção de escola
Regional | 2008-07-25 17:38
Dentro de dois anos Ponta Delgada vai dispor de uma nova escola privada, com capacidade para 725 alunos, um investimento de 13 milhões de euros que os promotores esperam transformar num “projecto educativo de excelência”.
O director do Centro de Actividades Educacionais - Tetrapi, responsável pelo investimento, adiantou que o novo estabelecimento de ensino funcionará num único edifício, mas com espaços diferenciados para albergar alunos do primeiro ao décimo segundo ano.
“Só assim será legítimo perspectivar um ensino produtivo com alunos francamente motivados e convenientemente preparados para um futuro incerto”, afirmou João Câmara, que falava na assinatura de um protocolo de cooperação com a Agência para a Promoção do Investimento dos Açores (APIA).
O edifício escolar de “arquitectura inovadora”, a construir na zona da São Gonçalo num terreno com 22 mil metros quadrados, contempla salas munidas com tecnologia de ponta, laboratórios, biblioteca, ludoteca, refeitório, ginásio, auditório e vários gabinetes.
Segundo João Câmara, em média as mensalidades por aluno vão rondar os 300 euros, o que inclui refeições e actividades extra, além das aulas.
Criada em 2002, a Tetrapi presta actualmente apoio científico e pedagógico a mais de 800 alunos do ensino básico e secundário, além de promover actividades de cariz social na área da prevenção da toxicodependência, alcoolismo e tabagismo.
Para o presidente da APIA, Álvaro Dâmaso, a construção de uma nova escola constitui um “projecto credível”, que denota um “espírito empreendedor” dos promotores numa altura de grandes constrangimentos ao nível da economia.
Além desse projecto de investimento referente ao sector da Educação, Álvaro Dâmaso reafirmou que a APIA conta com uma carteira de investimentos da ordem dos 500 milhões de euros, em áreas como o ambiente, turismo, saúde e comércio.
“A APIA tenta captar investidores em áreas da economia para a qual os açorianos não têm apetência ou não querem investir”, frisou Álvaro Dâmaso, acrescentando que os investidores nacionais e estrangeiros “apreciam muito o recato e a discrição” quando se fala em intenções de negócio.
O vice-presidente do Governo açoriano, Sérgio Ávila, disse que o projecto da nova escola privada vai de encontro às prioridades estratégicas delineadas pelo Executivo regional, que passam pela aposta na qualificação da população.
Sérgio Ávila adiantou que o novo estabelecimento de ensino, que vai empregar cerca de 60 pessoas, irá potenciar um volume de negócios na ordem dos 4,2 milhões de euros em 2013.
(extraído do Jornal Açoriano Oriental)
PS- O que trás de novo esta escola? Menos apoio à Escola Pública.
Regional | 2008-07-25 17:38
Dentro de dois anos Ponta Delgada vai dispor de uma nova escola privada, com capacidade para 725 alunos, um investimento de 13 milhões de euros que os promotores esperam transformar num “projecto educativo de excelência”.
O director do Centro de Actividades Educacionais - Tetrapi, responsável pelo investimento, adiantou que o novo estabelecimento de ensino funcionará num único edifício, mas com espaços diferenciados para albergar alunos do primeiro ao décimo segundo ano.
“Só assim será legítimo perspectivar um ensino produtivo com alunos francamente motivados e convenientemente preparados para um futuro incerto”, afirmou João Câmara, que falava na assinatura de um protocolo de cooperação com a Agência para a Promoção do Investimento dos Açores (APIA).
O edifício escolar de “arquitectura inovadora”, a construir na zona da São Gonçalo num terreno com 22 mil metros quadrados, contempla salas munidas com tecnologia de ponta, laboratórios, biblioteca, ludoteca, refeitório, ginásio, auditório e vários gabinetes.
Segundo João Câmara, em média as mensalidades por aluno vão rondar os 300 euros, o que inclui refeições e actividades extra, além das aulas.
Criada em 2002, a Tetrapi presta actualmente apoio científico e pedagógico a mais de 800 alunos do ensino básico e secundário, além de promover actividades de cariz social na área da prevenção da toxicodependência, alcoolismo e tabagismo.
Para o presidente da APIA, Álvaro Dâmaso, a construção de uma nova escola constitui um “projecto credível”, que denota um “espírito empreendedor” dos promotores numa altura de grandes constrangimentos ao nível da economia.
Além desse projecto de investimento referente ao sector da Educação, Álvaro Dâmaso reafirmou que a APIA conta com uma carteira de investimentos da ordem dos 500 milhões de euros, em áreas como o ambiente, turismo, saúde e comércio.
“A APIA tenta captar investidores em áreas da economia para a qual os açorianos não têm apetência ou não querem investir”, frisou Álvaro Dâmaso, acrescentando que os investidores nacionais e estrangeiros “apreciam muito o recato e a discrição” quando se fala em intenções de negócio.
O vice-presidente do Governo açoriano, Sérgio Ávila, disse que o projecto da nova escola privada vai de encontro às prioridades estratégicas delineadas pelo Executivo regional, que passam pela aposta na qualificação da população.
Sérgio Ávila adiantou que o novo estabelecimento de ensino, que vai empregar cerca de 60 pessoas, irá potenciar um volume de negócios na ordem dos 4,2 milhões de euros em 2013.
(extraído do Jornal Açoriano Oriental)
PS- O que trás de novo esta escola? Menos apoio à Escola Pública.
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