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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Férias cá dentro


Este ano, por razões várias, a que não são alheios os cortes de que foram vítimas todos os funcionários públicos, as minhas férias estão a ser gozadas na ilha de São Miguel. Assim, aproveitei a minha primeira semana para revisitar alguns lugares que normalmente só o faço quando tenho por companhia estrangeiros ou emigrantes de regresso à sua terra ou à dos seus pais.
Foi na semana passada que visitei, pela primeira vez, depois das entradas pagas, a Caldeira Velha. O local estava limpo, as edificações existentes no interior não me chocaram, apenas como nota negativa tenho o apontar o desrespeito pelas árvores que se nota através do uso de uma delas que foi escavacada para adaptá-la a um suporte de proteção.
Espero que tal ação tenha sido isolada, fruto da arte de desenrascar que por vezes impera entre a nossa gente, e não o cumprimento de uma ordem superior de quem mandou a educação ambiental às urtigas e só tem em mente o objetivo de fazer dinheiro à custa do nosso património ambiental.
Valeu a pena a luta de alguns poucos cidadãos contra as mentes tacanhas que queriam fazer do local uma mera zona balnear, em que os visitantes chegariam à água diretamente a partir das portas dos seus automóveis.
O segundo lugar de visita obrigatória é o Parque Terra Nostra, mais pelo jardim do que pela piscina.
Embora tenha reparado, os meus acompanhantes chamaram-me a atenção para o facto de poucas pessoas estarem a visitar o jardim quando comparado com o número de visitantes que chegavam para usufruir do banho na piscina.
Ainda está longe a divulgação dos nossos jardins e a aposta no turismo de jardins que já é uma realidade na ilha da Madeira.
Os responsáveis regionais e locais têm de se empenhar mais para tornar os jardins, como o Terra Nostra, o António Borges, o de Santana e o José do Canto, em polos de atração turística.
No caso das Furnas a sua autarquia, tem de repensar os apoios às festividades tradicionais, pois é uma aberração sem nexo a realização de uma tourada à corda na localidade, associada a um império do Espírito Santo. Que raio de caridade ou solidariedade é esta?
Por último, uma referência a uma visita ao mais formoso ilhéu que há nas ilhas, no dizer de Gaspar Frutuoso, o ilhéu de Vila Franca do Campo.
A primeira surpresa ocorreu ainda em terra e está relacionada com o custo das deslocações. Com efeito, dadas as dificuldades por que passam muitas pessoas, o custo de cinco euros pode ser considerado elevado de modo que, segundo um dos residentes que lá estava em trabalho, poucos vila-franquenses visitam o ilhéu.
Mas, para mim o maior espanto foi quando li que dos cinco euros, três euros e cinquenta cêntimos eram para o “Transporte”, um euro para a “Manutenção e preservação da reserva” e meio euro era para a SPEA-Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.
Embora a SPEA, quer se concorde ou não com a sua atuação, seja uma associação nacional respeitável não percebo por que razão recebe uma parte dos proventos advindos das viagens ao ilhéu.
Se é certo que é a SPEA que mantém um projeto de recuperação do ilhéu, não será menos verdade que o projeto tem financiamento europeu e regional e portanto a sua quota-parte já devia estar incluída na rubrica “Manutenção e preservação da reserva”. Estranho ou talvez não !?
Outra surpresa foi ter observado, pela primeira vez no ilhéu, alguns exemplares de vidália, uma bonita espécie endémica dos Açores que não existia no local. Para além de antes nunca a ter observado, não há, que eu saiba, nenhum registo da sua presença nas principais publicações sobre o local, de que destaco o livro “Ecologia Costeira dos Açores”, editado em 1998, da autoria de Brian Morton, Joseph Britton e António M. Frias Martins, e “ O Anel da Princesa”, editado em 2004, de António M. Frias Martins.
Por hoje, é tudo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30411, 13 de Agosto de 2014)

Ainda sobre as férias


Como estamos em Agosto, mês em que a maioria das pessoas gosta de gozar as suas férias, darei continuidade ao texto iniciado na semana passada que abordava visitas por mim efetuadas ao Parque Terra Nostra, à Caldeira Velha e ao ilhéu de Vila Franca do Campo.
O relato referente à visita ao ilhéu de Vila Franca do Campo mereceu um simpático esclarecimento por parte da SPEA- Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves que, entre outras questões, refere que as vidálias que foram lá plantadas tiveram como progenitoras duas plantas já existentes quando começou a intervenção em 2009.
A presença de vidálias no ilhéu, que nunca havia observado, foi confirmada por pessoa amiga que me enviou uma fotografia, de 2007, onde já se pode ver uma planta na época de floração. Esta constatação não deixa de suscitar a seguinte questão: estando, se não estou enganado, as mais próximas na costa do Faial da Terra, como chegaram as vidálias a Vila Franca do Campo?
Outro local por mim visitado, este mês, foi a Ferraria, local único para quem gosta de tomar o seu banho de mar.
Não me vou alongar em relatar as intervenções mal conseguidas feitas no local, pois muitas páginas de jornais têm sido ocupadas com o assunto, apenas queria lembrar que a classificação do local como área protegida surgiu na sequência de uma proposta apresentada pelos Amigos dos Açores- Associação Ecológica, em Outubro de 1988.
Aquando da apresentação da proposta, acreditava-se que “a preservação ambiental do Pico das Camarinhas e da Ponta da Ferraria em conjunto com a sua utilização racional para fins recreativos e turísticos, enquadrada pelo Farol da Ferraria e pelo Miradouro do Escalvado, poderá contribuir para a conservação da paisagem desta zona da ilha e para o desenvolvimento económico das freguesias limítrofes”.
Será que algum daqueles objetivos está a ser atingido?
Outro local que visito e onde levo sempre pessoas a visitar é a Gruta do Carvão, em Ponta Delgada, que conheço desde os primeiros anos da década de oitenta do século passado.

Hoje, parece que já ninguém duvida, a Gruta do Carvão é um caso de sucesso, quer em termos de polo turístico, quer como centro de divulgação de ciência e de educação ambiental.

Para chegar à situação atual foi percorrido um longo caminho, alguns voluntários muitas horas do seu merecido descanso despenderam, muitas barreiras e incompreensões tiveram de ser ultrapassadas, apesar de algumas promessas e projetos terem ficado por cumprir.

Não querendo perder muito tempo com as incompreensões, apenas relataria o que aconteceu quando a gruta foi afetada por obras realizadas na rua Pintor Domingos Rebelo.

Juntei algumas fotografias do seu interior de forma a mostrar as suas amplas dimensões e alguns pormenores, nomeadamente estalactites e bancadas laterais, e dirigi-me à Câmara Municipal de Ponta Delgada com o objetivo de sensibilizar o seu presidente para a necessidade de intervir o menos possível na gruta, pois a mesma apresentava um elevado potencial turístico e não só.

Não tive que esperar, não digo que fui mal recebido, mas a minha desilusão foi total. Ao ver as fotografias, o presidente apenas disse-me: “não sou coelho”. A seguir, mandou chamar o responsável pelas obras que, ao ver as fotografias, afirmou, referindo-se ao escoamento de águas das casas de banho da Escola do Carvão para a gruta, todo sorridente e pensando que tinha sido ele o responsável por uma grande ação: “Fui eu que mandei canalizar estes tubos para aí”.

Deles e de outros que nunca compreenderam a importância daquele monumento natural não guardo qualquer rancor, eram de outros tempos, tinham outros interesses, tiveram outra educação. Apenas, tenho pena de já não estarem entre nós para poderem ver, através de uma visita à gruta, como estavam enganados.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30416, 20 de Agosto de 2014, p.15)