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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Touradas à corda e festas (religiosas)


Touradas à corda e festas (religiosas)


Todos os anos a bola de neve cresce, isto é a lista de touradas tradicionais vai aumentando o que prova que nas ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge, a indústria tauromáquica tem sido bem-sucedida no seu intento de ganhar dinheiro à custa do desrespeito pelos direitos dos animais e da deseducação das pessoas que desde a mais tenra idade são obrigadas a assistir a touradas, acabando por a elas se habituar.

O sucesso do negócio não seria possível sem o apoio hipócrita dos fundos europeus e dos governantes e autarcas da região que apoiam ganadarias e touradas associadas a festas, religiosas ou não.

Como se não bastassem os apoios monetários há legislação nacional e regional que regula a tortura tauromáquica. No caso das touradas à corda, há legislação que define o que é uma tourada tradicional, que é a que “realizando-se na mesma data, na mesma área territorial, estando ligada a uma festividade da freguesia onde se realiza e sendo organizada exclusivamente por entidades cujo eventual fim lucrativo contribui, do modo direto, para essa mesma festividade”.

Atendendo a que a maioria das festas realizadas nos Açores são religiosas não é difícil associar as touradas à corda àquelas festas, sobretudo na ilha Terceira que é onde a indústria tauromáquica tem maior implantação.

O que não se pode afirmar é que haja uma associação perfeita entre touradas e religião e que sobretudo é uma característica açoriana a realização de touradas à corda associadas às irmandades do Espírito Santo. Com efeito, tal quase só acontece na ilha Terceira que é um verdadeiro inferno para os bovinos e na Graciosa e São Jorge, ilhas onde os tentáculos da indústria tauromáquica são maiores.

A provar o que afirmámos, basta os leitores consultarem o jornal “Angrense” que se publicou entre Setembro de 1836 a Setembro de 1910, para constatarem que nem todas as festas do Espírito Santo, que se realizavam na ilha Terceira, eram acompanhadas por touradas à corda, havendo noutras touradas de praça para angariação de fundos.

A leitura de um texto publicado no jornal, angrense, “Primeiro de Maio”, no dia 6 de setembro de 1902, desmascara todas as patranhas que são hoje divulgadas pelos defensores das touradas à corda.

No início do século passado o número de touradas era muito menor do que o atual como se pode ler no seguinte extrato:

“No meu tempo, eram consideradas clássicas três touradas: São João de Deus, Serreta e Terra Chã.

Depois a pretexto d’isto e daquilo, anunciava-se uma tourada à corda; mais tarde a política tanto esticou a corda, que esta trouxe o bravo até ao centro da cidade.”

Sobre a ligação entre as festividades religiosas e as touradas o autor, depois de afirmar que touros só havia na festa da Serreta acrescenta:

“Depois veio a festa da Senhora de Lourdes, nos Altares, …etc. etc. de modo a que cada Senhora arranjou a sua festa e o bom povo da localidade, como complemento e suplemento, a iluminação da véspera, a respetiva ladainha, e, na segunda-feira a competente tourada.

E assim ficou subentendido que à festa religiosa se devia aliar …a dos touros, e o povo que pagava as primeiras, impôs-se, e as segundas vieram, como parte obrigatória, a despeito de muitos ralhos de algum prior refratário à inovação de se misturar o sagrado com o profano.”

Depois, os políticos populistas viram nas touradas uma oportunidade para caçar votos e passaram a oferecê-las aos eleitores, previamente deseducados, como terá acontecido no passado na Ilha Terceira e mais recentemente na ilha de São Miguel pela mão de dois ex- presidentes de Câmara e por um candidato a tal que acabou por ser eleito.

O autor citado, relativamente à ilha Terceira, sobre o assunto escreveu: “Depois as lutas eleitorais, os melhoramentos iniciados em qualquer freguesia começaram também a pedir a parte obrigada de touros à corda.”

Algures nos Açores, 4 de junho de 2017
J. Ormonde

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Festas e Animais


Estamos em plena época de festas, sobretudo de carácter religioso, onde, ao contrário do que seria de esperar, o profano é rei e senhor.

Pela minha maneira de ser nunca fui assíduo frequentador de festas, religiosas ou não, tendo apenas participado em procissões enquanto criança e no início da minha juventude. Se não me falha a memória, só terei participado em algumas coroações do Divino Espírito Santo, na minha terra natal, e em procissões de São Miguel Arcanjo, que se realizam anualmente em Vila Franca do Campo, integrado nos acompanhantes de Santo Antão, o padroeiro dos lavradores e protetor dos animais, pois sou oriundo de uma família de camponeses e de lavradores da Ribeira Seca.

Estou convencido que na altura, década de 60 e 70 do século passado, mais do que agora, a maioria dos participantes o faziam por motivos religiosos, por acreditarem na ajuda divina, ou para manterem as tradições herdadas dos seus antepassados.

Hoje, embora alguma fé se mantenha, as procissões são também autênticos desfiles de moda, quando não são palcos onde se vai para ganhar visibilidade junto de futuros e potenciais eleitores. O que nunca me passou pela cabeça foi que, entre os participantes em procissões religiosas, havia gente que recebia ajudas de custo por estar presente.

De acordo com várias informações recebidas, mesmo nas coroações, onde há pouca ou nenhuma intervenção da hierarquia da igreja, houve, este ano, alterações em relação aos participantes. Se habitualmente eram apenas os habitantes das ruas, localidades ou freguesias e alguns convidados, sobretudo familiares dos mordomos, hoje, já se incorporam os eleitos locais e representantes políticos da posição e da oposição.

Associados aos impérios, têm-se realizado cortejos etnográficos com os tradicionais carros de bois, as carroças puxadas por cavalos, bois ou vacas e até, as mais pequenas, por cabras e ovelhas.

Até seria capaz de elogiar estas últimas iniciativas, pois fazem-me voltar à minha infância, se não tivesse assistido a um desfile promovido por um estabelecimento do primeiro ciclo do ensino básico. Com efeito, sempre que era necessário fazer parar ou por em movimento um determinado carro, a solução encontrada pelo “condutor” foi bater no focinho de dois bois com uma cana (bambu). Este procedimento para além de ser um ato deseducativo, fez-me lembrar a luta travada, por Alice Moderno e pela Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, há cem anos, em defesa dos animais de tiro, que na época eram as principais vítimas de maus tratos.

Mas infelizmente os maus exemplos não se ficam pelas procissões e cortejos etnográficos. Com efeito, influenciados por propaganda enganosa, ou querendo imitar o que de mau e bárbaro se faz noutras paragens, alguns mordomos e comissões de festas religiosas, decidiram manchar as suas festas, desviando os dinheiros, que deviam ser usados na propagada solidariedade e partilha de bens, sobretudo alimentares, com os mais carenciados, promovendo touradas à corda nesta ilha do arcanjo.

Num dos casos que me foi relatado, vieram os animais de outra ilha e acompanhá-los veio, também, uma avantajada comitiva que terá custado couro e cabelo. Perguntado sobre o esforço efetuado para pagar todas as despesas envolvidas para trazer aquele verdadeiro séquito real, a resposta obtida foi que não havia problema, como o saldo do império era muito alto e como não queriam continuar a fazer a festa, a melhor opção era gastar o dinheiro disponível.

Em pleno século XXI, quando, um pouco por todo o mundo, se apela à harmonia universal, não faz qualquer sentido introduzir numa ilha uma tradição que está a desaparecer em todo o mundo por anacrónica e bárbara e incoerente com os valores de respeito para com todos os seres sencientes.

Sobre a associação entre as festas do Espirito Santo e os animais, nunca é demais lembrar Alice Moderno, que, em 1914, escreveu:

“É certamente uma época alegre para o povo, mas quem paga a patente são os pobres bois, que são abatidos em grande número, depois de passeados pelas ruas com adornos de flores, o que faz lembrar a época do paganismo.”

Basta o sacrifício dos bois, na minha terra dizíamos gueixos, que são abatidos para a alimentação. Não é necessário torturar animais, com mais ou menos “suavidade” para divertimento de uns poucos que, ainda, segundo Alice Moderno, de homens só têm a forma.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 4 de Julho de 2012)