segunda-feira, 25 de maio de 2026

No Dia Nacional dos Jardins- O amor pelas plantas e jardins

 


No Dia Nacional dos Jardins- O amor pelas plantas e jardins

O cultivo de plantas ornamentais terá começado com os primeiros povoadores dos Açores, o que terá também ocorrido com a criação de jardins ou espaços ajardinados, como se prova pelas descrições do cronista Gaspar Frutuoso, nas “Saudades da Terra”.

 

No Livro IV, ao descrever a cidade de Ponta Delgada pode-se ler o seguinte: “… mas é tão populosa a cidade de gente tão rica que tudo pode, ainda que muita lhe custa, e a tem cercada ao redor de muitas quintas e pomares, afora os frescos jardins que dentro de si tem.”

 

No que diz respeito à cidade de Angra, no Livro VI, encontra-se, entre outos, o seguinte texto: “Afora a ribeira do Telhal, que corre pela parte do oriente, perto da freiguesia da Concepção, pelo meio desta cidade corre outra grossa ribeira de água, a qual vem ter ao porto, com que se regam muitos jardins que nela há…”

 

Na ilha de São Miguel, foram várias as pessoas que ao longo dos tempos manifestaram a sua paixão pelas plantas, nomeadamente as que criaram os grandes jardins, que ainda podem ser apreciados.

 

Em lugar de destaque, figura o nome de José do Canto (1820-1898), responsável pela criação do Jardim Botânico que, em Ponta Delgada, ostenta o seu nome, pela Mata-Jardim existente na margem da Lagoa das Furnas e pela Mata-Ajardinada da Lagoa do Congro. José do Canto terá introduzido cerca de 6 000 espécies.

 

António Borges da Câmara Medeiros (1812-1879) foi o criador do seu jardim em Ponta Delgada e do Jardim Pitoresco nas Sete Cidades.

 

José Jácome Correia (1816-1886), que tem o seu nome ligado ao Palácio de Santana e ao seu jardim, tal como seu primo José do Canto, foi responsável pela introdução em São Miguel de várias espécies vegetais.

 

Ernesto do Canto (1831-1900), em conjunto com José Jácome Correia, António Borges de Medeiros, José Maria Raposo d’Amaral e António Botelho de Sampaio Arruda, criou o Vale das Murtas, hoje conhecido como Parque Dona Beatriz, nas Furnas.

 

Guilherme João de Fraga Gomes (1875-1952), médico natural da Madeira, apaixonado por fetos criou na Maia, a Mata do Outeiro Redondo, hoje designada Mata do Dr. Fraga.

 

Tomaz Hickling (1745-1834) construiu o que é hoje o magnifico Parque Terra Nostra, nas Furnas. A este jardim também está associado, entre outros, António Borges de Medeiros da Câmara e Sousa (1829-1913), que nele introduziu significativos melhoramentos.

 

Por último, uma referência a João Carlos Scholtz (1741-1823) que numa quinta na Arquinha, em Ponta Delgada, e numa propriedade que possuía nas Socas, na freguesia do Livramento, aclimatou diversas espécies com destaque para a canforeira (Laurus camphora), cuja designação atual é Cinnamomum camphora, e o tulipeiro (Liriodendron tulipifera).

 

Na ilha do Faial, entre as pessoas apaixonadas por jardins, destacamos Manuel Inácio de Sousa, licenciado em Cânones em Coimbra e Mateus José de Sequeira, cônsul de Espanha, que criaram os primeiros jardins de regalo na ilha na segunda metade do século XVIII (Arruda, 2015).

 

Alguns dos membros da família Dabney, que se instalou no Faial em 1806, também se interessaram pelas plantas e consequentemente por jardins.

 

John Bass Dabney construiu junta da villa "Bagatelle" um jardim que segundo Arruda (2015) poderá ter sido “, o primeiro campo de experimentação de espécies botânicas a ser instalado nos Acores”. De acordo com o mesmo autor, naquele espaço existiam “mais de 90 espécies de árvores de fruto, árvores ornamentais, arbustos (fruto e ornamental), flores e plantas aromáticas, e hortícolas.”

 

Charles William Dabney, filho de John Bass Dabney, também se interessou pelas plantas, tendo de algum modo, dado continuidade à paixão do pai. Segundo, Ricardo Madruga da Costa, num texto datado de 2003, publicado na Enciclopédia Açoriana, acolheu “naturalistas, viajantes e jornalistas que na sua residência e nos jardins da Bagatelle “encontram sempre acolhimento e motivo de encanto. A literatura de viagens da época dedica ao Faial encomiásticas páginas a que o nome de Charles William Dabney, invariavelmente, está associado, sendo certo que os jardins da sua residência inspiraram algumas das referências mais elogiosas”.

 

Na ilha do Faial, para além dos pequenos jardins existentes na cidade da Horta, é digno de visita o Jardim Botânico do Faial, criado em 1986, na Quinta de São. Lourenço, que tem aproximadamente 5600 m2 de superfície.

 

Organizado por áreas, há um espaço preenchido com espécies botânicas nativas e endémicas, há um com plantas medicinais e aromáticas, outro com plantas ornamentais e também um espaço destinado à multiplicação de endémicas.

 

Em 1995, foi criado um polo do Jardim Botânico do Faial, o Jardim Botânico de Pedro Miguel vocacionado para a conservação de habitats e espécies características da Laurissilva, com cerca de 60 000 m2.

 

Na ilha Terceira merece lugar de destaque o belga François Joseph Gabriel (1835-1897) que foi o autor do projeto inicial do Jardim Duque da Terceira. Antes de se fixar na Terceira, esteve em São Miguel, onde colaborou com António Borges e José Jácome Correia, nos seus jardins.

 

Na ilha Terceira, para além de ter colaborado em vários jardins particulares, trabalhou na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, sendo o responsável pelo plantio das árvores na Praça Velha. Também foi da sua iniciativa a introdução e aclimatação de várias espécies, entre as quais o metrosídero [possivelmente Metrosideros excelsa], o eucalipto-limão [Corymbia citriodora] e a araucária [provavelmente Araucaria heterophylla].

 

Para além do Jardim Duque da Terceira existem na ilha Terceira, pequenos jardins particulares. No concelho de Angra do Heroísmo, segundo Bogas (2003), a Zona de São Carlos “por razões históricas e sociais [é] aquela onde o embelezamento das propriedades, recorrendo à implantação de jardins, é mais evidente e relevante”.

 

Na ilha do Pico destacou-se Francisco Inácio de Medeiros, que na sua Quinta das Rosas, com uma área de 3 hectares, colecionou várias espécies botânicas, com destaque para as roseiras.

 

 

Bibliografia

 

Arruda, L. (2015). Evolucionismo nos Açores e outros estudos. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura. 438 pp.

 

Bogas, T. (2003). Os jardins como expressão da organização do Mundo Rural na transoceanidade dos Açores (Angra do Heroísmo). Relatório de estágio da Licenciatura em Engenharia Agrícola. Angra do Heroísmo, Universidade dos Açores. 170 pp.

 

Costa, F. (1989). Etnologia dos Açores, Vol.1, Lagoa, Câmara Municipal da Lagoa. 420 pp.

 

Quintal, R., Braga, T. (Árvores dos Açores - Ilha de São Miguel. Ponta Delgada, Letras Lavadas.240 pp.

 

O Agricultor Michaelense, nº 48, abril de 1848.

 

O Agricultor Michaelense, nº 26, fevereiro de 1850.

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