A propósito da rua António Sérgio
A freguesia do Pico da Pedra prestou
uma merecida homenagem a António Sérgio ao atribuir o seu nome a uma rua
localizada na Picolar. A escolha do arruamento não foi casual nem poderia ter
sido mais adequada, pois integra uma cooperativa de habitação, evocando de
forma simbólica a obra e o pensamento daquele que é considerado o maior
impulsionador do cooperativismo em Portugal. Ensaísta, crítico, pedagogo,
jornalista, historiador, sociólogo, político, cooperativista e filósofo,
António Sérgio deixou uma marca profunda na defesa dos ideais cooperativos e na
modernização da sociedade portuguesa.
Para a VOZ POPULAR,
decidimos dar a conhecer um pouco melhor a figura e o legado de António Sérgio,
dedicando-lhe dois textos. Neste primeiro, abordamos o seu pensamento e a sua
visão sobre a educação; no próximo, centrar-nos-emos no seu contributo para o
cooperativismo.
António Sérgio de Sousa, seu nome completo, nasceu em
Damão, na Índia, a 3 de setembro de 1883, e faleceu em Lisboa, a 12 de
fevereiro de 1969. Filho de um oficial da Armada, que na época desempenhava as
funções de governador de Diu, cresceu num ambiente marcado pelo contacto com
diferentes realidades culturais e sociais, experiência que influenciaria o seu
pensamento.
Durante a Primeira República exerceu funções como ministro da
Instrução Pública no governo de Álvaro de Castro, embora por um curto período,
entre dezembro de 1923 e fevereiro de 1924.
Intelectual profundamente empenhado na renovação da sociedade
portuguesa, António Sérgio nunca aceitou a instauração da ditadura. Depois de
concluir que o regime de Salazar era incapaz de se liberalizar, passou a
defender a sua substituição através de um golpe militar.
A sua oposição ao Estado Novo teve elevados custos pessoais.
Viveu no exílio, foi preso em 1933, 1935, 1948 e 1958, viu várias das suas
obras apreendidas pela censura e foi alvo de sucessivas campanhas de difamação.
Faleceu em Lisboa, em 1969, deixando uma obra vasta e uma influência duradoura
nos domínios da educação, da cidadania e do cooperativismo.
No que respeita à educação, António Sérgio foi um dos mais
importantes pensadores portugueses do século XX. Sobre a escola do seu tempo,
no Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa,
encontramos a seguinte reflexão do próprio António Sérgio:
"A
escola, até hoje, tem sido um acervo de coisas maléficas, de tratos diabólicos,
de prescrições tirânicas: e já é importantíssima reforma a simples anulação das
coisas más. Grande programa: não fazer mal! A imobilidade nas aulas, os estudos
sem gosto, os rígidos programas, a apreensão passiva, as angústias dos exames,
etc., etc., produzem transtornos de muita espécie. Estabeleçamos a comparação:
em um dos pratos da balança – os muito contestáveis benefícios que tudo isso
pode trazer, no outro -, os danos sabidos que com certeza traz…, Ah, imenso
programa: liberdade ao aluno; não fazer mal."
Para António Sérgio, a escola do futuro deveria assentar em
dois princípios fundamentais: autonomia
e trabalho.
Segundo a mesma obra, "dois grandes objetivos incumbem à escola do futuro:
um deles, a anulação progressiva dos antagonismos sociais, e a instauração da
sociedade justa, pela Escola Única do Trabalho; o outro a realização da
Liberdade na vida da gente adulta, pela educação das crianças no regime da
Liberdade".
A autonomia ocupava, aliás, um lugar central no seu
pensamento. Considerava que tanto na sociedade como na escola ela não podia ser
concedida por decreto, mas antes conquistada pelos cidadãos através da sua
participação ativa. Como escreveu, "não pode ser-nos presenteada pelos
governantes; tem de ser conquistada pelos governados, pacientemente, todos os
dias".
Por fim, importa referir a sua conceção de Educação Cívica. O autor da
biografia que temos vindo a citar sublinha que, para António Sérgio, a defesa
da autonomia assenta na convicção de que "a autonomia e a educação cívica
aprendem-se praticando, e não através de um qualquer ensino ou
disciplina".
Uma ideia que continua a suscitar reflexão e que contrasta
com a forma como, frequentemente, a educação para a cidadania é hoje entendida
e organizada nas escolas.
Pico da Pedra, 10 de agosto de 2026
Teófilo Braga
