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terça-feira, 4 de junho de 2019

ÁREAS PROTEGIDAS DO NORDESTE



ÁREAS PROTEGIDAS DO NORDESTE


O concelho de Nordeste, com uma área de 101 km2, apresenta vastas áreas arborizadas, compostas por manchas de vegetação exótica, essencialmente criptoméria, e por zonas de vegetação primitiva de elevado valor.

Algumas destas áreas, de que são exemplos a Zona de Protecção Especial do Pico da Vara/ Ribeira do Guilherme, e as Reservas Florestais Naturais da Atalhada e dos Graminhais, encontram-se protegidas e classificadas.

A Zona de Protecção Especial do Pico da Vara/ Ribeira do Guilherme é de uma importância ecológica incalculável pois abriga a única população de aves endémicas dos Açores, o Priôlo, constante do Anexo I da Directiva 79/409/CEE (Aves).

A Reserva Florestal Natural da Atalhada, criada por abranger zonas de interesse geológico, riqueza botânica e paisagística, importância para o estudo da evolução das formações vegetais e elevado potencial turístico, é, de acordo com o Doutor Paulo Borges da Universidade dos Açores, uma das áreas mais prioritárias em termos de biodiversidade de artrópodes, situando-se em quarto lugar (em 19) com base no Valor de Importância de Conservação para a fauna do solo e em décimo ( em 19) com base no Valor de Importância de Conservação para a fauna da copa.

Não temos dúvida que a Rede Europeia Natura 2000 de que faz parte a Zona de Protecção Especial “Pico da Vara/Ribeira do Guilherme”, é um importante instrumento de conservação da natureza pois visa a gestão e a conservação in situ das espécies faunísticas e florísticas e dos habitats mais importantes na União Europeia.

Para as áreas protegidas do concelho de Nordeste, consideramos que a proposta de Pereira et al (1999) faz todo o sentido, isto é as áreas existentes deveriam ser integradas numa única, aumentando-se a zona de protecção integral a qual ficaria envolvida por uma zona de protecção parcial, com a possibilidade da criação de um jardim botânico na Atalhada e de um Centro de Educação Ambiental.

Além disso, é urgente a tomada de medidas no sentido de controlar as espécies invasoras, como a cletra, a conteira, o gigante e o incenso e proceder à replantação com espécies que sirvam de fonte de alimento para o priôlo e, por outro lado, disciplinar o acesso do cada vez maior número de visitantes às áreas protegidas.

BIBLIOGRAFIA

BORGES, P. , (ed), (2002), Reservas Florestais dos Açores : Cartografia e Inventariação dos Artrópodes endémicos dos Açores- Análise Final Global e Recomendações, Universidade dos Açores, Angra do Heroísmo.

PEREIRA, A., VERÍSSIMO, L., PEREIRA, M., “Plano de Gestão Preliminar Para a Reserva Florestal Natural do Pico da Vara e Centro de Educação Ambiental Integrado (S.Miguel-Açores)”, in BEJA, P., CATRY, P., OREIRA, F. (eds.), (1999), Actas do II Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, SPEA, Lisboa

Teófilo Braga

(Terra Nostra, 241, 10 de dezembro de 2004)

Gruta do Carvão


Gruta do Carvão

A Gruta do Carvão, o maior túnel lávico da Ilha de S. Miguel, está situada na zona poente da cidade de Ponta Delgada. Actualmente, é possível percorrer uma extensão de cerca de 1500 metros desta gruta, em dois troços separados. O troço mais a Sul estende-se ao longo de cerca de 600 metros, desde a Rua de Lisboa, junto aos antigos secadores da Fábrica de Tabaco Micaelense, até ao cruzamento da Rua Pintor Domingos Rebelo com a Avenida Antero de Quental. A parte mais a Norte desenvolve-se para Noroeste dos depósitos de água da Câmara Municipal de Ponta Delgada., situados na Rua do Paim, em direcção à Rua da Saúde, na freguesia dos Arrifes.

A riqueza da Gruta do Carvão reside, sobretudo, na grande variedade de aspectos geológicos, estruturas e fenómenos típicos do vulcanismo que aí se podem observar. É o caso das “bolhas de gás” que correspondem a sectores da parede da gruta que “rebentaram” sob acção de gases acumulados no seu interior, ou a presença de fendas nas paredes e tecto da gruta, resultantes do arrefecimento da escoada lávica.

Do tecto da gruta pendem inúmeras estalactites, quer primárias (lávicas e, em geral, de forma cónica e superfície lisa), que resultam da solidificação de pingos de lava, quer secundárias (predominantemente irregulares, de tonalidade esbranquiçada e muito frágeis), resultantes de fenómenos de alteração e deposição a partir das águas de escorrência que se infiltraram na gruta. Estas águas de escorrência são também responsáveis por fenómenos de oxidação das rochas basálticas que formam a Gruta do Carvão, conferindo-lhes, em muitos locais, tonalidades avermelhadas ou alaranjadas junto às fendas e outros locais de infiltração.

Tal como é possível observar em outras grutas dos Açores e da Ilha de S. Miguel, na Gruta do Carvão estão presentes longos troços de balcões (ou bancadas) nas suas paredes, testemunho de antigos níveis de lava fluida que percorreram o interior do túnel.

De uma forma geral, as potencialidades da Gruta do Carvão podem ser repartidas em aspectos científicos, didácticos e turísticos. É reconhecida a importância desta gruta na interpretação de fenómenos vulcânicos e como local privilegiado para uma abordagem da temática vulcanológica. Em termos didácticos poderá constituir um excelente cenário para a dinamização de visitas de estudo e de acções de educação ambiental. Atendendo ainda à sua localização, imponência das estruturas geológicas, esta gruta vulcânica assume, também, um inegável interesse turístico.

Com o intuito de proteger esta notável formação espeleológica, os Amigos dos Açores- Associação Ecológica, apresentou, em 1997, à Direcção Regional do Ambiente, uma proposta para a classificação jurídica desta gruta, como Monumento Natural Regional. Passados quase sete anos, não aceitamos, por mais argumentos que nos queiram impingir, que a Gruta do Carvão não faça, ainda, parte da Rede de Áreas Protegidas dos Açores.

Bibliografia

CONSTÂNCIA, J., NUNES, J., BRAGA, T., (1998), Património Espeleológico da Ilha de S. Miguel- Grutas, Algares e Vulcões, Amigos dos Açores, Ponta Delgada.

Teófilo Braga

(Terra Nostra, 247, 12 de novembro de 2004)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Serra Devassa


Serra Devassa

A zona da Serra Devassa também denominada Maciço das Lagoas é constituída por um importante conjunto de elevações que se desenvolvem para SE do Maciço das Sete Cidades. O seu ponto mais alto é o Pico das Éguas com 847 m e é precisamente neste pico, a uma cota aproximada dos 820 m, que se situa a Lagoa das Éguas, a que, na Ilha de São Miguel, se encontra a maior altitude.
É na Serra Devassa que se encontra a maior quantidade de lagoas de São Miguel, entre elas destacamos as seguintes: Caldeirão da Vaca Branca, Canário, Carvão, Éguas Norte, Éguas Sul, Empadadas Norte, Empadadas Sul, Pau Pique e Rasa.
Neste texto, apenas faremos referência, às Lagoas do Canário e Empadadas.
A Lagoa do Canário, situada a uma altitude de 745m, está implantada num anel pomítico, o qual é caracterizado por apresentar vertentes pouco acentuadas e uma larga cratera de paredes mal definidas.
Instalada no meio de uma mata de criptomérias (Cryptomeria japonica), nas suas margens podemos observar, em quase toda a volta, fetos reais (Osmunda regalis), queirós (Calluna vulgaris), algumas malfuradas (Hypericum foliosum) e hortênsias (Hydrangea macrophylla). Nas suas águas, outrora, captadas para alimentar fontanários públicos de Ponta Delgada, encontra-se a ruivaca (Rutilus macrolepidotus), peixe endémico de Portugal que vive, entre outros sítios, nos sectores terminais das bacias hidrográficas do Douro e Tejo, a rã (Rana perezi) e as seguintes plantas: Potamogeton polygonifolius, Litorella uniflora, Juncus effusus e Hypericum elodes, estas duas últimas palustres.
Vale a pena uma visita às captações de água e ao Miradouro da Grota do Inferno. Dele podemos observar o Pico da Cruz, com 856 metros, a elevação mais alta do Maciço das Sete Cidades, a imponente Grota do Inferno, a Lagoa Azul, o povoado e as Lagoa de Santiago e Rasa (Sete Cidades).
As Lagoas Empadadas estão implantadas a uma altitude aproximada de 740 m. A do Norte, com a forma de 8 (oito), tem uma orientação aproximada NS e a do Sul é sensivelmente circular.
As duas lagoas, outrora, comunicaram entre si e as suas águas eram elevadas por meio de um sifão de ferro e transportadas por um longo aqueduto até aos fontanários públicos de Ponta Delgada. Ainda hoje, quando se torna necessário, as suas águas são bombeadas e utilizadas para abastecimento das populações.
As encostas das crateras de explosão onde se instalaram as lagoas estão cobertas por criptomérias, o carreiro que as circunda está bordado de azáleas (Rhododendron indicum) e nas margens podemos observar algumas hortênsias (Hydrangea macrophylla), queirós (Calluna vulgaris) e fetos reais (Osmunda regalis). Nos sítios muito húmidos ou já nas águas existem juncos (Juncus effusus), Hypericum elodes, Potentilla erecta, Prunella vulgaris, Anthoxanthum odoratum, Scirpus fluitans, Potamogeton polygonifolius, etc.
Nas suas águas vivem rãs, o ruivo e o lúcio (Esox lucius), este último peixe introduzido pelos Serviços Florestais depois de 1978.
Nesta lagoa tal como nas outras é possível observarmos libelinhas (Anax sp.) e as seguintes aves: alvéolas (Motacilla cinerea), tentilhões (Fringilla coelebs moreletti), estrelinhas(Regulus regulus azoricus) e garças reais (Ardea cinerea).


Bibliografia:
CONSTÂNCIA, J., BRAGA, T., NUNES, J., MACHADO, E., SILVA, L., (2001), Lagoas e Lagoeiros da Ilha de São Miguel. Amigos dos Açores – Associação Ecológica, Ponta Delgada, 2ª edição.

Teófilo Braga
(Terra Nostra, nº 245, 15 de outubro de 2004)

Pinhal da Paz


Pinhal da Paz

O Pinhal da Paz, um autêntico jardim botânico, com uma área de 49 hectares e cerca de 15 km de caminhos, fica situado na freguesia da Fajã de Cima, a 6 km da cidade de Ponta Delgada. No início do século passado não passava de uma propriedade semi- abandonada, tornando-se, após a sua aquisição por António do Canto Brum, num local de visita obrigatório não só para os micaelenses mas também para os turistas.
Depois de adquirida a Mata das Criações, António do Canto Brum, ao longo de vários anos, fez um enorme esforço no sentido de transformar um local inóspito num parque maravilhoso. Assim, entre outras intervenções na propriedade, mandou construir uma moradia de veraneio, com jardim e próximo desta, fez erguer uma ermida em louvor de Nossa Senhora da Paz, de onde poderá ter surgido o nome do agora Pinhal da Paz. Finalmente, em 1958, após tanta dedicação ao Pinhal, decidiu inaugurá-lo e abri-lo ao público.
A generosidade e amor ao próximo de. António do Canto Brum, levou a que a receita das entradas que eram cobradas ao público revertesse a favor do Asilo de Mendicidade, do qual foi vice- presidente e, posteriormente, presidente desde 1948 até ao fim dos seus dias, que viria a ocorrer no dia 31 de Janeiro de 1963.
Após a morte do seu proprietário e posteriormente de sua esposa, o Pinhal ficou abandonado até que foi adquirido pelo Governo Regional do Açores e classificado, ao abrigo do Dec. Regional nº 12/82/A, publicado no Jornal Oficial de 1 de Julho de 1982, como Reserva de Recreio.
Desde aquela altura, até aos nossos dias foram realizados muitos trabalhos para recuperar e valorizar o Pinhal da Paz, com destaque para a reabilitação da vegetação existente e plantio de azáleas e camélias, a construção de um lago artificial e de um expositor de aves que alberga faisões, pavões e galinhas da Índia. A mais recente obra de beneficiação consistiu na criação do “Centro Informação Florestal do Pinhal da Paz”, que se situa na antiga casa do feitor, inaugurado a 19 de Março de 2004. Com esta infra-estrutura, o Pinhal ficou dotado de um espaço especialmente privilegiado para a formação/informação de todos quantos queiram conhecer mais profundamente aquele local.
Para além do recreio, todo os visitantes poderão contactar com as mais diversas espécies da fauna e flora existentes na nossa ilha.
A espécies vegetais existentes no Pinhal têm as mais diversas proveniências. Com efeito, podem ser encontradas espécies da flora primitiva dos Açores, como o azevinho (Ilex perado azorica), o loureiro (Laurus azorica), a faia da terra (Myrica faya), o tamujo (Myrsine africana) e o pau branco (Picconia azorica), espécies originárias da África do Sul, como a Clívia (Clívia miniata), o jarro (Zantedeschia aethiopica) e o agapanto ( Agapanthus orientalis), da Madeira, como o til (Ocotea foetens), da Austrália, como o feto arbóreo (Sphaeropteris cooperi) e a acácia (Acacia melanoxylon), do Brasil, como a pitanga (Eugenia uniflora), da China, como os lilases(Wisteria sinensis), etc.

Por outro lado, a avifauna do Pinhal é também bastante diversificada. Lá é possível encontrar, entre outras aves, o milhafre (Buteo buteo rothschidi), o melro negro (Turdus merula azorensis), o tentilhão (Fringilla coelebs moreletti), o canário da terra (Serinus canarius) e o pombo torcaz (Columba palumbus azorica).

Teófilo Braga
(Terra Nostra, 243, 17 de setembro de 2004)

domingo, 2 de junho de 2019

Caldeira das Sete Cidades


Caldeira das Sete Cidades

A caldeira das Sete Cidades, com um diâmetro médio de 5 quilómetro e uma profundidade máxima de 400 metros, nas proximidades do marco geodésico dos Remédios, foi formada por colapsos sucessivos do topo da montanha , o primeiro dos quais terá ocorrido há cerca de 21.000 anos. Após a sua formação, ocorreram numerosos erupção vulcânicas explosivas no seu interior, estando actualmente contabilizadas cerca de dezenas e meia de erupções.

Os bordos da caldeira das Sete Cidades apresentam-se quase sempre segundo vertentes muito inclinadas, sendo sobretudo nestas que é possível encontrarmos alguns vestígios da vegetação primitiva dos Açores. Outrora, revestida de matas de cedro, faias e louros etc., hoje, a caldeira das Sete Cidades está profundamente humanizada, desenvolvendo-se diversas actividades, com predomínio para a silvicultura e a agro-pecuária.

No interior da Caldeira, para além das Lagoas Azul e Verde existem mais duas lagoas: a Rasa e a de Santiago. Esta, ocupa uma cratera alongada, segundo a direcção Norte-Sul, com um comprimento máximo de cerca de 1150 m e uma largura máxima de cerca de 850 m. Outrora rodeada por vegetação primitiva, no interior da cratera onde está implantada a Lagoa de Santiago predominam espécies exóticas, com destaque para o incenso (Pittosporum undulatum), a criptoméria (Cryptomeria japonica) e a conteira (Hedychium gardneranum). Contudo, ainda podemos encontrar muitos elementos da vegetação natural como o louro, (Laurus azorica), o tamujo (Myrsine africana), a uva da serra (Vaccinium) cylindraceum), o azevinho (Ilex perado ssp. azorica), o cedro do mato (Juniperus brevifolia), a urze (Erica scoparia ssp. azorica) e o sanguinho (Frangula azorica).

As Lagoas Azul e Verde estão orientadas segundo uma direcção SW/NE. A lagoa Verde possui uma área de 0,82 Km2 e um perímetro de 4 Km, sendo a sua profundidade máxima 29,6m e a média 18,7m enquanto que a Azul possui uma área de 3,55 Km2 e um perímetro de 8,5 Km, sendo a sua profundidade máxima 33,5m e a média 17,81m.

A flora da zona litoral das duas lagoas apresenta diversas espécies, entre as quais se destacam: Potamogeton polygonifolius, Potamogeton lucens, Myriophyllum alterniflorum, Ceratophyllum demersum, Egeria densa, Eleocharis palustris, Nymphaea alba e Chara fragilis.

Relativamente à fauna ictiológica destacam-se, actualmente, entre as espécies existentes na lagoa, o Rutilus macrolepidotus (ruivaca), o Rutilus rutilus (ruivo), o Cyprinus rex (carpa espelho), o Cyprinus carpio (carpa comum), a Perca fluviatilis (perca) e o Esox lucius (lúcio).


O túnel com o canal de fixação do nível da água da lagoa das Sete Cidades que liga a lagoa à Grota do Alqueive que corre em direcção aos Mosteiros foi projectado pelo Eng. Francisco Xavier Vaz Pacheco de Castro e os trabalhos de perfuração iniciaram-se no dia 1 de Outubro de 1930, pelo lado da lagoa, no vale do Cabouco e, a 11 de Março de 1935, pelo lado Oeste na grota do Alqueive. O volume do material escavado foi de 539 m3, a céu aberto e 8 398 m3 em túnel, dos quais 4 415 m3 de rocha maciça. Uma curiosidade que importa registar é o facto de, à distância de 133 m da boca Leste, ter sido encontrado um galho de cedro, que a pedido da Secção de Geologia e Mineralogia do Museu Carlos Machado, foi enviado para o laboratório Geofísico da Mobil, em Dallas, Texas (E. U. A.) para datação. A idade atribuída por aquele laboratório, em 6 de Junho de 1965, foi de 4167 anos, sendo portanto contemporâneo das pirâmides do Egipto.

Bibliografia:
CONSTÂNCIA, J., BRAGA, T., NUNES, J., MACHADO, E., SILVA, L., (2001), Lagoas e Lagoeiros da Ilha de São Miguel. Amigos dos Açores – Associação Ecológica, Ponta Delgada, 2ª edição.

Teófilo Braga
(Terra Nostra, 241, 20 de agosto de 2004)

RESERVA NATURAL DA LAGOA DO FOGO


RESERVA NATURAL DA LAGOA DO FOGO

A Reserva Natural da Lagoa do Fogo, ocupa uma área de 1360 hectares, estando localizada nos concelhos de Vila Franca do Campo e Ribeira Grande.

Por ser um dos mais importantes biótopos da Ilha de São Miguel que, para além da sua notável beleza paisagística, tem um grande interesse geológico e encerra um importante património natural, a área referida foi classificada como a Reserva Natural, através do Decreto n.º 152/74, de 15 de Abril. Além disso, a Lagoa do Fogo, e terrenos adjacentes, faz parte da Rede Natura 2000, encontrando-se classificada pela Directiva Habitats como Sítio de Importância Comunitária.

A Lagoa do Fogo localiza-se no topo do Vulcão do Fogo (ou de Água de Pau), onde, há cerca de 15 000 anos, ter-se-á formado uma caldeira de colapso, de forma elíptica e com dimensões aproximadas de 3 x 2,5 km. A última erupção ocorrida neste vulcão data do ano de 1563. Gaspar Fructuoso, nas “Saudades da Terra, refere-se a esta erupção do seguinte modo: “...se pôz uma obscura nuvem em cima, no ar, que assombrou toda a vila, e começou, alêm da cinza e da chuva, a chover outra terra negra, feita em grão, à maneira de pólvora grossa, em grande quantidade e mui têsa (...) e logo obscureceu e eclipsou o sol mais de meia hora, em que estiveram todos em trevas, tremendo a terra espantosamente, quasi sem intervalo...”

A flora da Reserva Natural da Lagoa do Fogo, apesar de incluir diversas espécies introduzidas, mantém alguns elementos da flora indígena, destacando-se a presença do cedro do mato (Juniperus brivifolia), do louro (Lauris azorica), do trovisco macho (Euphorbia stygiana), da malfurada (Hypericum foliosum), do sanguinho (Frangula azorica), do patalugo menor (Leontodon filii), do bracel (Festuca jubata), da urze (Erica azorica), da uva da serra (Vaccinium cylindraceum), do folhado (Viburnum tinus ssp. subcordatum), do azevinho (Ilez perado ssp. azorica), da faia (Myrica faya), do feto cabelinho (Culcita macrocarpa) e do feto real (Osmunda regalis).

No que diz respeito à avifauna, são de mencionar as seguintes espécies: garajau comum (Sterna hirundo), canário da terra (Serinus canaria), toutinegra (Sylvia atricapila atlantis), alvéola (Motacilla cinerea), pombo torcaz (Columba palumbus azorica), melro negro (turdus merula azorensis), estrelinha (Regulus regulus azoricus), tentilhão (Fringilla coelebs moreletti), estorninhos (Sturnus vulgaris granti), milhafre (Buteo buteo rothschildi) e gaivota (Larus cachinnans atlantis).

Na Reserva poderão ser encontrados, entre outros, os seguintes mamíferos: morcego (Nyctalus azoricus), coelho (Oryctolagus cuniculus), doninha (Mustela nivalis) e o rato (Rattus rattus).

Foram muitas as introduções de peixes nas águas da Lagoa do Fogo, existindo actualmente diversas espécies, das quais se destacam a ruivaca (Rutilus macrolepidotus), a truta arco-íris (Salmo irideus) e a carpa (Cyprinos carpio). É igualmente de mencionar a presença do tritão de crista (Triturus cristatus) e da rã (Rana perezi). Da flora aquática existente na lagoa, regista-se a presença das seguintes espécies: Eleocharis multicaulis, Elatine hexandra, Myriophyllum alterniflorum e Potamogeton polygonifolius.

A legislação que classifica a Reserva Natural da Lagoa do Fogo prevê a proibição de diversas actividades na zona envolvente à lagoa, nomeadamente, a caça, a movimentação de terras, alterações do relevo e do coberto vegetal, a introdução de animais ou plantas exóticas e actividades que perturbem o equilíbrio natural da Reserva. Por outro lado, há actividades que ficam condicionadas à necessária autorização, como é o caso da construção de edifícios, a abertura de caminhos e a plantação de espécies da flora natural.

Bibliografia:
- CONSTÂNCIA, J., BRAGA, T., NUNES, J., MACHADO, E., SILVA, L., (2001), Lagoas e Lagoeiros da Ilha de São Miguel. Amigos dos Açores – Associação Ecológica, Ponta Delgada, 2ª edição.
Teófilo Braga

(Terra Nostra, nº 239, 23 de julho de 2004)

sábado, 1 de junho de 2019

Lagoas do Congro e Nenúfares- Monumento Natural


Lagoas do Congro e Nenúfares- Monumento Natural

Em Fevereiro de 2000, os Amigos dos Açores- Associação Ecológica elaborou e remeteu à Direcção Regional do Ambiente uma proposta de Classificação das Lagoas do Congro e dos Nenúfares como Área Protegida. Passados mais de quatro anos, é altura de voltar a insistir para que aquela proposta não caia no esquecimento e, ao mesmo tempo, reafirmar todo o interesse em que, tal como aconteceu recentemente com a Caldeira Velha, aquela zona seja classificada como Monumento Natural.

A Lagoa do Congro deve o seu nome ao facto de, em tempos, ter pertencido, tal como uma vasta área de mato nas suas imediações, a André Gonçalves de Sampaio, “ O Congro”, sendo este cognome explicado por Gaspar Frutuoso da seguinte forma: “por em seu tempo ser o mais rico homem da terra, como dizem ser o congro, entre os peixes que se comem, o maior peixe do mar”. Por seu turno, a Lagoa dos Nenúfares deve o seu nome ao facto de, grande parte da sua extensão, estar coberta por nenúfares (Nymphae alba).

As lagoas do Congro e dos Nenúfares localizam-se no extremo oriental do Complexo Vulcânico do Fogo, a NNE de Vila Franca do Campo.

Sob o ponto de vista geológico, a Lagoa do Congro ocupa uma cratera de explosão do tipo maar, com cerca de 500 m de diâmetro e paredes fortemente entalhadas em basaltos e traquitos. A Lagoa dos Nenúfares, situada a escassos metros a Sudeste da Lagoa do Congro, tem a sua génese associada ao maar da Lagoa do Congro.

Actualmente, em redor das Lagoas do Congro e dos Nenúfares, embora possam ser observadas espécies da vegetação natural dos Açores, tais como o louro (Laurus azorica) o cedro do mato (Juniperus brevfolía) a Lysimachia azorica, predominam as espécies exóticas, como a: criptoméria (Cryptomeria japonica), a hortência (Hydrangea macrophylla), a azálea (Azalia indica), o eucalipto (Eucalyptus globulus), o incenso (Pittosporum undulatum) e a conteira (Hedychium gardneranum).

As espécies vegetais aquáticas mais comuns, para além da Nimphaea alba que é claramente dominante na Lagoa dos Nenúfares, são o Potamogeton polygonifolius e o Scirpus fluitans, para além da presença de Hypericum elodes e do Junco (Juncus efusus).

Dado que esta zona é densamente florestada, é frequente observarem-se diversas espécies de aves, das quais se destacam: a estrelinha (Regulus regulus azoricus), o milhafre (Buteo buteo rothschi¬idi), a alvéola (Motacilla patriciae cinerea) e o pombo torcaz (Columba palumbus azorica), o touto (Sylvia atricapilla), o pato bravo (Anas querquebula) e a garça-real (Ardea cinerea).

Actualmente, na Lagoa do Congro estão referenciadas duas espécies ictiológicas - Cyprinus sp. e Perca fluviatilis (perca do rio) e a rã (Rana perezi). Por seu turno, na Lagoa dos Nenúfares podem encontrar-se peixes vermelhos (Carassius auratus) e duas espécies de anfíbios - o tritão de crista (Triturus cristatus carnifex) e a rã (Rana perezi).

Em virtude da sua localização, o Monumento Natural das Lagoas do Congro e dos Nenúfares poderá funcionar como pólo dinamizador de diversas actividades na área do turismo, com destaque para uma rede de percursos pedestres e/ou equestres que terão como destino as Cumeeiras da Lagoa do Fogo/Pico da Vela, a Lagoa de São Brás, o Castelo/Branco, o Pico da Dona Guiomar/ Lagoinha do Areeiro, etc.

BIBLIOGRAFIA

CONSTÂNCIA, J., BRAGA, T., NUNES, J., MACHADO, E., SILVA,L., (1997). Lagoas e Lagoeiros da Ilha de São Miguel, Amigos dos Açores. Ponta Delgada.
NUNES, J.,(1998). Paisagens Vulcânicas dos Açores, Amigos dos Açores, Ponta Delgada.

Teófilo Braga

(Terra Nostra, 25 de junho de 2004)

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Caldeira Velha- Monumento Natural


Caldeira Velha- Monumento Natural


Em Setembro de 1999, a Associação Amigos dos Açores apresentou à Direcção Regional do Ambiente uma proposta de classificação da Caldeira Velha, com o objectivo de impedir a degradação e descaracterização do local, e, permitir a optimização do seu uso para diversos fins, contrariando-se, assim, a tendência para intervenções avulsas e desarticuladas.

A proposta dos Amigos dos Açores concretizou-se este ano através do Decreto Legislativo Regional nº 3/2004 que classificou a Caldeira Velha como Monumento Natural Regional, tendo em conta, entre outros motivos, a “sua raridade, elevada importância científica, paisagística e social, bem como o inequívoco interesse turístico, recreativo e cultural”.

Desde sempre a Caldeira Velha foi muito procurada, tanto por visitantes nacionais como por estrangeiros, tendo a maioria deles deixado relatos da sua passagem pelo local. Entre os demais visitantes ilustres, destaca-se o médico inglês Joseph Bullar que, com o seu irmão Henry, visitou o local, em 1838, tendo deixado o testemunho da sua visita no livro “Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas”.

Ocupando uma área de 11,975 ha, a Caldeira Velha localiza-se na vertente Norte do Maciço Vulcânico do Fogo, na freguesia da Conceição, concelho da Ribeira Grande, numa importante fractura daquele maciço vulcânico.

A Caldeira Velha constitui um importante campo fumarólico localizado numa importante falha do complexo vulcânico do Fogo, numa zona de risco vulcânico médio- alto e de baixo risco sísmico.

As águas da Caldeira Velha são sulfatadas e alumínicas, com uma temperatura de 90º C e pH 3,13. Um pouco acima da cota da Caldeira (315m), a água da ribeira, na cota de 328 metros, é alcalina ferruginosa e com a temperatura de 25,2º C. (Zbyszewski,1961).

Em 1985, altura em que os proprietários dos terrenos procederam ao abate da vegetação luxuriante existente no local, alguma centenária, já a primitiva vegetação havia dado lugar a espécies introduzidas para os mais diversos fins, nomeadamente os industriais e ou ornamentais. Assim, entre as espécies de maior porte, encontravam-se, na Caldeira Velha, criptomérias (Cryptomeria japonica), incensos (Pittosporum undulatum), e plátanos (Platanus x hybrida).Depois do referido corte, a par das plantações efectuadas, houve uma recuperação do coberto vegetal por algumas espécies, com predomínio das invasoras, nomeadamente a acácia (Acacia melanoxylon) e a conteira (Hedychium gardneranum).

Para além das espécies referidas, hoje, ainda podem ser encontradas as seguintes: feto pente (Blechnum spicant), feto do botão (Woodwardia radicans), feto- arbóreo (Sphaeropteris cooperi), Leycesteria formosa, feto do cabelinho (Culcita macrocarpa), queiró (Calluna vulgaris), feto real (Osmunda regalis), Selaginella kraussiana e fona de porco (Solanum mauritianum).

No que diz respeito à avifauna, entre outras espécies, podem ser encontradas as seguintes: pombo torcaz (Columba palumbus azorica), tentilhão (Fringilla coelebs moreleti), canário (Serinus canaria), alvéola (Motacilla cinerea patriciae), estrelinha (Regulus regulus azoricus) e melro negro (Turdus merula azorensis).

Nas águas da ribeira da Caldeira Velha vive a rã (Rana perezi) e na zona envolvente à Caldeira Velha podemos encontrar os seguintes mamíferos: o coelho (Oryctolagus cuniculus), o furão (Mustela furo) e o morcego dos Açores (Nyctalus azoreum).

Teófilo de Braga
(Terra Nostra, 28 de maio de 2004)

PICO DAS CAMARINHAS E PONTA DA FERRARIA


PICO DAS CAMARINHAS E PONTA DA FERRARIA


Em Outubro de 1998, a Associação “Amigos dos Açores” elaborou e remeteu à Direcção Regional do Ambiente uma proposta para classificação do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria como Área Protegida. Passados quase seis anos, foi com satisfação que tomámos conhecimento que se encontra em discussão pública um projecto de Decreto Legislativo Regional que irá classificar aqueles locais como Monumento Natural.
O Pico das Camarinhas é um cone de escórias basálticas, localizado no extremo Oeste de São Miguel, sendo assim designado, segundo Gaspar Frutuoso (séc. XVI), nas Saudades da Terra, por “ter árvores desta fruta no seu cume”. Alguns séculos antes da descoberta dos Açores, por volta de 1140, o Pico das Camarinhas terá entrado em erupção, tendo a escoada lávica emitida fluido para Oeste, originando o delta lávico da Ponta da Ferraria.
Localizado junto ao caminho que liga os Balneários à nascente termal, pode-se encontrar um pequeno cone com uma cratera circular no seu topo que é designado por cone litoral ou pseudocratera. Aquele cone não possui uma conduta de alimentação profunda e ter-se-á formado na sequência de pequenas explosões resultantes do contacto da base da escoada lávica com a água do mar.
Para além do atrás mencionado, a região do Pico das Camarinhas e da Ponta da Ferraria apresenta outro aspecto de interesse geológico: a presença de rochas granulares ricas em olivina e piroxena, formadas em profundidade e trazidas à superfície no decurso de episódios vulcânicos posteriores.
No que diz respeito à nascente termal, em 1964, o Dr. Carlos Pavão de Medeiros, num artigo da revista Insulana a ela se refere do seguinte modo: “O seu caudal é abundante sendo a temperatura de 62,5º; mineralização de 20,9584 gramas por litro com teor de cloreto de sódio de 16,982 por litro. É uma água muito alcalina, cloretada, sulfatada, bicarbonatada, sódica, cálcica e magnésica”. De acordo com o mesmo autor, as águas da Ferraria eram utilizadas principalmente para o tratamento de reumatismos e nevrites.
Em termos florísticos, no Pico das Camarinhas existe uma das últimas formações de Myrica faya - Erica azorica existente na ilha e mesmo nos Açores e na fajã regista-se a presença de endemismos, como o bracel (Festuca petraea), planta outrora usada pelos caiadores para fabrico dos pincéis.
São várias as espécies de aves presentes no Pico das Camarinhas e na Ferraria. Entre elas destacamos o melro-negro (Turdus merula azorensis), a toutinegra (Sylvia atricapila), o canário-da-terra (Serinus canaria) e o tentilhão (Fringilla coelebs moreleti). Além das aves, merecem destaque alguns insectos endémicos associados à urze e à faia (Myrica faya), nomeadamente Ascotis fortunata azorica, Cyclophora azorensis, Argyresthia atlanticella e Cixius insularis.
A preservação ambiental do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria em conjunto com a sua utilização racional para fins recreativos e turísticos, enquadrada pelo Farol da Ferraria e pelo Miradouro do Escalvado, poderá contribuir para a conservação da paisagem desta zona da ilha e para o desenvolvimento económico das freguesias limítrofes.

Teófilo Braga

(Terra Nostra, nº 233, 30 de abril de 2004)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

ILHÉU DE VILA FRANCA - O MAS FORMOSO ILHÉU QUE HÁ NAS ILHAS


ILHÉU DE VILA FRANCA - O MAS FORMOSO ILHÉU QUE HÁ NAS ILHAS

O mais formoso ilhéu que há nas ilhas, no dizer de Gaspar Frutuoso, com uma área aproximada de 6,2 hectares, fica situado em frente a Vila Franca do Campo, a sensivelmente 480 m da Ponta de São Pedro e a 1200 m do cais do Tagarete. O Ilhéu de Vila Franca do Campo encontra-se dividido em duas partes bastantes distintas: o Ilhéu Grande, a Oeste, e o Ilhéu Pequenino, a Este. Entre os dois existe uma baía quase circular, que comunica com o mar através de um canal estreito - o Boquete.

O ilhéu de Vila Franca é um cone vulcânico, resultante de uma erupção submarina em águas pouco profundas, constituído por tufos basálticos de cor amarelada ou acastanhada. De acordo com Forjaz (l988), o ilhéu de Vila Franca ter-se-á formado há cerca de 3000 anos.

O ilhéu apresenta fendas, designadas por golas, a maioria das quais estabelece a ligação entre a baía e o mar exterior. Uma estrutura bastante curiosa é o Farilhão, rochedo situado a Sul do ilhéu, com 32,5 m de altura e que resultou do efeito abrasivo das vagas do mar.

A flora do ilhéu de Vila Franca apresenta varias espécies exóticas, sobretudo de origem africana e americana, com destaque para a cana (Arundo donax), o incenso (Pittosporum undulatum), a piteira (Agave americana), o metrosídero (Metrosidero tomentosa), a vinha (Vitis labrusca e Vitis vinifera) e a lantana (Lantana camara), mas, ainda, conserva algumas espécies endémicas, como a urze (Erica azorica), a erva-leiteira (Euphorbia azorica), a figueira- brava (Senecio malvifolius), o louro (Laurus azorica), e a Spergularia azorica.

O ilhéu do ponto de vista faunístico possui uma grande variedade de aves, entre as quais destacamos: o pombo-da-rocha (Columba livia), o milhafre (Buteo buteo rothcildi), o estorninho (Sturnus vulgaris granti), o melro-negro (Turdus merula azorensis), a gaivota (Larus argentatus atlantis), o garajau comum (Sterna hirundo), o garajau rosado (Sterna dougallii) e o cagarro (Calonectris diomedea borealis).

Dado o grande interesse natural e paisagístico e em virtude do seu fácil e indiscriminado acesso e uso, tornando-o muito vulnerável, foi considerado, por Decreto Legislativo Regional nº. 3/83/A, de 3 de Março, Reserva Natural.

Neste momento, está em curso o processo de reclassificação e aguarda-se, esperamos que para breve, a criação dos órgãos de gestão e a implementação do seu Plano de Ordenamento. Só assim será possível conciliar a protecção dos valores

Março de 2004

Teófilo Braga


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Contra a incineração


Diário dos Açores, 14 de janeiro de 2004