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terça-feira, 30 de julho de 2019
Conservação da Natureza, para quando?
Conservação da Natureza, para quando?
Preocupação muito antiga e inicialmente associada à defesa das espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção, a conservação da natureza só terá assumido carácter organizado com o movimento dos “naturalistas”, nos Estados Unidos, por volta de 1872, ano em que foi criado o Parque Nacional de Yellowstone.
Em Portugal, o primeiro movimento organizado, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), só surgiu em 1948 e desde então desempenha um papel fundamental na educação e sensibilização para a conservação da natureza, sendo esta, “entendida, hoje, como a gestão da Biosfera, de modo a que o homem utilize os seus recursos de forma perene, satisfazendo as suas necessidades sem degradar o património, natural e cultural, que é uma herança que não nos pertence, porque pertence às gerações do futuro”.
Para garantir um desenvolvimento sustentado é necessário que a política de conservação abranja todo o território e seja uma componente das várias políticas sectoriais, não sendo de descurar a criação de Áreas Protegidas. Nos Açores, as primeiras Áreas Protegidas, foram criadas em 1974 e, passados 25 anos, a esmagadora maioria continua sem planos de ordenamento, nunca teve Órgaõs de Gestão. Além disso, por força do estipulado no Decreto-Lei nº 19/93, de 23 de Janeiro, todas as áreas protegidas dos Açores aguardam a sua reclassificação.
Para além do referido, a região não possui uma Estratégia Regional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade que promova a conservação das várias componentes da biodiversidade e os elementos da geologia, geomorfologia e palentologia, a utilização de modo sustentável dos recursos da biodiversidade e a partilha de forma justa dos benefícios que advém da utilização daqueles recursos. Sabendo-se que já esteve em discussão uma proposta de Estratégia Nacional de Conservação da Natureza que pretendia estabelecer linhas estratégicas para aplicação no todo nacional, gostaríamos de conhecer qual foi a participação do Governo Regional na elaboração da proposta em causa e se foi solicitada a colaboração da Universidade dos Açores.
É do conhecimento público que a Associação Ecológica Amigos dos Açores apresentou ao longo dos últimos quatro anos quatro propostas de áreas que deverão fazer parte da Rede Regional de Áreas Protegidas, a saber:
1- Zona do Pico das Camarinhas - Ponta da Ferraria, tendo em consideração diversos aspectos, designadamente históricos, geográficos, geológicos, biofísicos, paisagísticos e sócio – económicos;
2- A Caldeira Velha, um local com aspectos únicos em toda a Região, possuindo interesse múltiplo: científico, paisagístico, turístico, recreativo e cultural, sendo, além disso detentora de motivos abundantes para o ensino da Geologia, Vulcanologia, História Natural, Botânica e Zoologia, que podem ser devidamente explorados e desenvolvidos.
3- Lagoas do Congro e Nenúfares, dado o valor paisagístico, a diversidade biológica e a singularidade da geologia do local que atribuem ao mesmo uma grande importância científica, pedagógica e de lazer e um acentuado potencial turístico.
4- Gruta do Carvão, o maior tubo lávico da Ilha de S. Miguel e um dos mais importantes do arquipélago como Monumento Natural Regional.
Atendendo a que os locais referidos estão perfeitamente enquadrados nos princípios gerais da legislação que a nível nacional regulamenta a classificação das áreas protegidas, não se percebe a razão pela qual ainda nada foi feito naquele sentido.
Aceitamos que tal não seja considerado prioritário em termos do programa do Governo Regional dos Açores, o que não podemos admitir é que se abandone as nossas Áreas Protegidas com a desculpa da necessidade de investir na Rede Europeia Natura 2000 que, não temos dúvida, é um importante instrumento de conservação da natureza pois visa a gestão e a conservação in situ das espécies faunísticas e florísticas e dos habitats mais importantes na União Europeia.
Teófilo Braga
(Açoriano Oriental, 12 de Fevereiro de 2001)
sexta-feira, 31 de maio de 2019
PICO DAS CAMARINHAS E PONTA DA FERRARIA
PICO DAS CAMARINHAS E PONTA DA FERRARIA
Em Outubro de 1998, a Associação “Amigos dos Açores” elaborou e remeteu à Direcção Regional do Ambiente uma proposta para classificação do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria como Área Protegida. Passados quase seis anos, foi com satisfação que tomámos conhecimento que se encontra em discussão pública um projecto de Decreto Legislativo Regional que irá classificar aqueles locais como Monumento Natural.
O Pico das Camarinhas é um cone de escórias basálticas, localizado no extremo Oeste de São Miguel, sendo assim designado, segundo Gaspar Frutuoso (séc. XVI), nas Saudades da Terra, por “ter árvores desta fruta no seu cume”. Alguns séculos antes da descoberta dos Açores, por volta de 1140, o Pico das Camarinhas terá entrado em erupção, tendo a escoada lávica emitida fluido para Oeste, originando o delta lávico da Ponta da Ferraria.
Localizado junto ao caminho que liga os Balneários à nascente termal, pode-se encontrar um pequeno cone com uma cratera circular no seu topo que é designado por cone litoral ou pseudocratera. Aquele cone não possui uma conduta de alimentação profunda e ter-se-á formado na sequência de pequenas explosões resultantes do contacto da base da escoada lávica com a água do mar.
Para além do atrás mencionado, a região do Pico das Camarinhas e da Ponta da Ferraria apresenta outro aspecto de interesse geológico: a presença de rochas granulares ricas em olivina e piroxena, formadas em profundidade e trazidas à superfície no decurso de episódios vulcânicos posteriores.
No que diz respeito à nascente termal, em 1964, o Dr. Carlos Pavão de Medeiros, num artigo da revista Insulana a ela se refere do seguinte modo: “O seu caudal é abundante sendo a temperatura de 62,5º; mineralização de 20,9584 gramas por litro com teor de cloreto de sódio de 16,982 por litro. É uma água muito alcalina, cloretada, sulfatada, bicarbonatada, sódica, cálcica e magnésica”. De acordo com o mesmo autor, as águas da Ferraria eram utilizadas principalmente para o tratamento de reumatismos e nevrites.
Em termos florísticos, no Pico das Camarinhas existe uma das últimas formações de Myrica faya - Erica azorica existente na ilha e mesmo nos Açores e na fajã regista-se a presença de endemismos, como o bracel (Festuca petraea), planta outrora usada pelos caiadores para fabrico dos pincéis.
São várias as espécies de aves presentes no Pico das Camarinhas e na Ferraria. Entre elas destacamos o melro-negro (Turdus merula azorensis), a toutinegra (Sylvia atricapila), o canário-da-terra (Serinus canaria) e o tentilhão (Fringilla coelebs moreleti). Além das aves, merecem destaque alguns insectos endémicos associados à urze e à faia (Myrica faya), nomeadamente Ascotis fortunata azorica, Cyclophora azorensis, Argyresthia atlanticella e Cixius insularis.
A preservação ambiental do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria em conjunto com a sua utilização racional para fins recreativos e turísticos, enquadrada pelo Farol da Ferraria e pelo Miradouro do Escalvado, poderá contribuir para a conservação da paisagem desta zona da ilha e para o desenvolvimento económico das freguesias limítrofes.
Teófilo Braga
(Terra Nostra, nº 233, 30 de abril de 2004)
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