No Dia Nacional dos Jardins- O amor pelas
plantas e jardins
O cultivo de plantas
ornamentais terá começado com os primeiros povoadores dos Açores, o que terá
também ocorrido com a criação de jardins ou espaços ajardinados, como se prova
pelas descrições do cronista Gaspar Frutuoso, nas “Saudades da Terra”.
No Livro IV, ao
descrever a cidade de Ponta Delgada pode-se ler o seguinte: “… mas é tão
populosa a cidade de gente tão rica que tudo pode, ainda que muita lhe custa, e
a tem cercada ao redor de muitas quintas e pomares, afora os frescos jardins
que dentro de si tem.”
No que diz respeito à cidade
de Angra, no Livro VI, encontra-se, entre outos, o seguinte texto: “Afora a ribeira do Telhal, que corre pela parte do
oriente, perto da freiguesia da Concepção, pelo meio desta cidade corre outra
grossa ribeira de água, a qual vem ter ao porto, com que se regam muitos
jardins que nela há…”
Na ilha de São Miguel, foram
várias as pessoas que ao longo dos tempos manifestaram a sua paixão pelas
plantas, nomeadamente as que criaram os grandes jardins, que ainda podem ser
apreciados.
Em lugar de destaque,
figura o nome de José do Canto (1820-1898), responsável pela criação do Jardim
Botânico que, em Ponta Delgada, ostenta o seu nome, pela Mata-Jardim existente
na margem da Lagoa das Furnas e pela Mata-Ajardinada da Lagoa do Congro. José
do Canto terá introduzido cerca de 6 000 espécies.
António Borges da
Câmara Medeiros (1812-1879) foi o criador do seu jardim em Ponta Delgada e do
Jardim Pitoresco nas Sete Cidades.
José Jácome Correia (1816-1886),
que tem o seu nome ligado ao Palácio de Santana e ao seu jardim, tal como seu
primo José do Canto, foi responsável pela introdução em São Miguel de várias
espécies vegetais.
Ernesto do Canto
(1831-1900), em conjunto com José Jácome Correia, António Borges de Medeiros,
José Maria Raposo d’Amaral e António Botelho de Sampaio Arruda, criou o Vale
das Murtas, hoje conhecido como Parque Dona Beatriz, nas Furnas.
Guilherme João de Fraga
Gomes (1875-1952), médico natural da Madeira, apaixonado por fetos criou na
Maia, a Mata do Outeiro Redondo, hoje designada Mata do Dr. Fraga.
Tomaz Hickling
(1745-1834) construiu o que é hoje o magnifico Parque Terra Nostra, nas Furnas.
A este jardim também está associado, entre outros, António Borges de Medeiros
da Câmara e Sousa (1829-1913), que nele introduziu significativos
melhoramentos.
Por último, uma
referência a João Carlos Scholtz (1741-1823) que numa quinta na Arquinha, em
Ponta Delgada, e numa propriedade que possuía nas Socas, na freguesia do
Livramento, aclimatou diversas espécies com destaque para a canforeira (Laurus
camphora), cuja designação atual é Cinnamomum camphora, e o
tulipeiro (Liriodendron tulipifera).
Na ilha do Faial, entre
as pessoas apaixonadas por jardins, destacamos Manuel Inácio de Sousa,
licenciado em Cânones em Coimbra e Mateus José de Sequeira, cônsul de Espanha,
que criaram os primeiros jardins de regalo na ilha na segunda metade do século
XVIII (Arruda, 2015).
Alguns dos membros da
família Dabney, que se instalou no Faial em 1806, também se interessaram pelas
plantas e consequentemente por jardins.
John Bass Dabney construiu junta da villa "Bagatelle" um jardim que segundo Arruda (2015) poderá ter sido
“, o primeiro campo de experimentação de espécies botânicas a ser instalado nos
Acores”. De acordo com o mesmo autor, naquele espaço existiam “mais de 90 espécies
de árvores de fruto, árvores ornamentais, arbustos (fruto e ornamental), flores
e plantas aromáticas, e hortícolas.”
Charles William
Dabney, filho de John Bass Dabney, também se interessou pelas plantas, tendo de
algum modo, dado continuidade à paixão do pai. Segundo, Ricardo Madruga da
Costa, num texto datado de 2003, publicado na Enciclopédia Açoriana, acolheu “naturalistas, viajantes e jornalistas que na sua
residência e nos jardins da Bagatelle “encontram sempre acolhimento e
motivo de encanto. A literatura de viagens da época dedica ao Faial
encomiásticas páginas a que o nome de Charles William Dabney, invariavelmente,
está associado, sendo certo que os jardins da sua residência inspiraram algumas
das referências mais elogiosas”.
Na ilha do Faial, para além dos
pequenos jardins existentes na cidade da Horta, é digno de visita o Jardim Botânico
do Faial, criado em 1986, na Quinta de São. Lourenço, que tem
aproximadamente 5600 m2 de superfície.
Organizado por áreas, há um
espaço preenchido com espécies botânicas nativas e endémicas, há um com plantas
medicinais e aromáticas, outro com plantas ornamentais e também um espaço
destinado à multiplicação de endémicas.
Em 1995, foi criado um polo do
Jardim Botânico do Faial, o Jardim Botânico de Pedro Miguel vocacionado para a
conservação de habitats e espécies características da Laurissilva, com cerca de
60 000 m2.
Na ilha Terceira merece lugar de
destaque o belga François Joseph Gabriel (1835-1897) que foi o autor do projeto
inicial do Jardim Duque da Terceira. Antes de se fixar na Terceira, esteve em
São Miguel, onde colaborou com António Borges e José Jácome Correia, nos seus
jardins.
Na ilha Terceira, para além de
ter colaborado em vários jardins particulares, trabalhou na Câmara Municipal de
Angra do Heroísmo, sendo o responsável pelo plantio das árvores na Praça Velha.
Também foi da sua iniciativa a introdução e aclimatação de várias espécies,
entre as quais o metrosídero [possivelmente Metrosideros excelsa], o
eucalipto-limão [Corymbia citriodora] e a araucária [provavelmente Araucaria
heterophylla].
Para além do Jardim Duque da
Terceira existem na ilha Terceira, pequenos jardins particulares. No concelho
de Angra do Heroísmo, segundo Bogas (2003), a Zona de São Carlos “por razões
históricas e sociais [é] aquela onde o embelezamento das propriedades,
recorrendo à implantação de jardins, é mais evidente e relevante”.
Na ilha do Pico destacou-se
Francisco Inácio de Medeiros, que na sua Quinta das Rosas, com uma área de 3
hectares, colecionou várias espécies botânicas, com destaque para as roseiras.
Bibliografia
Arruda, L. (2015). Evolucionismo
nos Açores e outros estudos. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura.
438 pp.
Bogas, T. (2003). Os jardins como
expressão da organização do Mundo Rural na transoceanidade dos Açores (Angra do
Heroísmo). Relatório de estágio da Licenciatura em Engenharia Agrícola. Angra
do Heroísmo, Universidade dos Açores. 170 pp.
Costa, F. (1989). Etnologia dos
Açores, Vol.1, Lagoa, Câmara Municipal da Lagoa. 420 pp.
Quintal, R., Braga, T. (Árvores
dos Açores - Ilha de São Miguel. Ponta Delgada, Letras Lavadas.240 pp.
O Agricultor Michaelense, nº 48, abril de 1848.
O Agricultor Michaelense, nº 26, fevereiro de 1850.