domingo, 29 de março de 2026

Virusaperiódico (169)

 





Virusaperiódico (169)

Diário — 23 a 28 de março de 2026

23 de março

Voltei a dedicar algumas horas ao livro sobre flores e avancei na leitura de mais algumas páginas do livro sobre Agostinho da Silva.

24 de março

De manhã, estive no Jardim Botânico José do Canto, onde é cada vez mais evidente a chegada da primavera, com muitas plantas já em floração. A guabiroba-de-folhas-crespas apresenta frutos particularmente saborosos nesta altura.

Durante a tarde, mantive-me ocupado com o estudo das plantas e flores, não tendo conseguido descansar nem regressar à leitura de Agostinho da Silva.

25 de março

Foi feita a entrega, na tipografia, de todos os ficheiros necessários para a produção do livro sobre flores.

Passei ainda pela Biblioteca Pública, onde consultei jornais relacionados com acontecimentos do ano de 1977.

26 de março

Dediquei o dia ao trabalho num livro sobre o Verão Quente nos Açores. Continuei também a leitura de textos sobre o filósofo Agostinho da Silva.

Organizei ficheiros de fotografias captadas no Jardim Botânico José do Canto.

27 de março

Visitei a Fábrica de Chá Porto Formoso, onde recolhi informações e fotografei um magnífico carvalho (Quercus robur).

Passei pela Mata do Dr. Fraga e constatei que permanece encerrada há mais de seis meses, o que é lamentável, sobretudo face ao aviso de abertura “brevemente”.

Estive em Vila Franca, onde procedi à limpeza de bananeiras e bananas, tendo a colheita sido bastante fraca.

28 de março

O dia foi dedicado ao ativismo ambiental. Estive presente, em Ponta Delgada, na sessão de escuta coletiva “…E TEMOS O POVO…”, onde ouvi todos os sons da primeira montagem radiofónica do 25 de Abril.

Foi uma experiência enriquecedora, embora não deixe de refletir que o 25 de Abril deveria ter conduzido a uma realidade melhor do que aquela em que atualmente vivemos.
Caminhamos, talvez, a passos largos para um “24 de abril”?...

Criei uma petição a solicitar a reabertura da Mata do Dr. Fraga, na Maia (https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT130424).

28 de março de 2026

sábado, 28 de março de 2026

Pela reabertura da Mata do Dr. Fraga, na Maia

 



Pela reabertura da Mata do Dr. Fraga, na Maia

 

A Mata do Dr. Fraga, situada na freguesia da Maia, continua inexplicavelmente encerrada ao público. Seis meses após uma primeira tentativa frustrada de visita, voltei ontem, dia 27 de março, a deparar-me com o portão fechado e com o mesmo aviso: “Caros cidadãos, a Mata do Dr. Fraga encontra-se encerrada devido a manutenções. Pedimos desculpa pelo incómodo. Abriremos brevemente…”

 

Tendo visitado este espaço ajardinado em diversas ocasiões — inclusive acompanhado por alunos da Escola Básica Integrada da Maia — reconheço que eram necessárias algumas intervenções, nomeadamente a substituição das madeiras das escadas. No entanto, nada que justificasse um encerramento tão prolongado, que começa a assemelhar-se mais a abandono do que a manutenção.

 

A ausência de uma intervenção célere por parte da Junta de Freguesia não só contribui para a progressiva degradação deste património, como também revela uma preocupante falta de respeito pela memória do seu criador, o Dr. Guilherme João de Fraga Gomes. Acresce ainda o desrespeito por todos aqueles que contribuíram para a sua requalificação e reabertura em 2008, bem como por quem tem promovido a riqueza florística deste espaço ao longo dos anos.

 

Importa recordar que esse esforço de valorização culminou, em 2022, com a publicação da obra “Mata do Dr. Fraga – Herança Viva de um Madeirense”, recentemente integrada no Plano Regional de Leitura dos Açores 2025-2026, na categoria de Outros Públicos — um reconhecimento que reforça a importância cultural e educativa deste local.

 

Perante esta situação, é urgente que a Junta de Freguesia da Maia assuma a responsabilidade que lhe compete e promova, com a maior brevidade possível, uma intervenção eficaz que permita a reabertura da Mata ao público. A população merece voltar a usufruir deste espaço, que é não só um património natural, mas também um legado histórico e educativo da freguesia.

 

28 de março de 2026

Teófilo Braga (membro da direção nacional da IRIS-Associação Nacional de Ambiente, coautor do livro “Mata do Dr. Fraga – Herança Viva de um Madeirense”)

segunda-feira, 23 de março de 2026

Virusaperiódico (168)

 


Virusaperiódico (168)

16 de março

Comecei o dia em Ponta Delgada, onde tratei de vários assuntos ligados à apicultura. Mais tarde, desloquei-me ao apiário em Vila Franca do Campo para dar continuidade ao trabalho. Passei ainda pela Courela, na Ribeira Seca, onde colhi algumas bananas — poucas, mas suficientes para manter o contacto com a terra. No Pico da Pedra, entreguei-me às memórias da minha terra natal, a Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, evocando vivências do início do século XX.

17 de março
Fiz uma visita rápida ao Jardim Botânico José do Canto. Aproveitei para fotografar algumas árvores notáveis, embora tenha ficado com dúvidas na identificação de uma delas — um pequeno mistério botânico que ficou por resolver.

18 de março
Dediquei o dia à reflexão sobre o passado da freguesia da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Continuei também a trabalhar sobre o chamado “Verão Quente” nos Açores, um período que se prolongou muito além do 25 de novembro de 1975.

19 de março
Entre tarefas domésticas, prossegui os trabalhos iniciados no dia anterior. Marquei presença nas assembleias gerais de duas associações ambientais: a APPAA e a IRIS – Associação Nacional de Ambiente, reforçando o compromisso com a defesa do património natural.

20 de março
Um dia quase inteiramente dedicado às flores e ao livro que está em preparação. Ainda assim, a minha ligação à Ribeira Seca manteve-se presente nos pensamentos.

21 de março
Voltei à Courela, onde limpei bananas e tratei das bananeiras. Na Ribeira Nova, cortei canas e inspecionei as colmeias. As abelhas deram um sinal claro: falta de espaço. Ou acrescento mais um andar às colmeias, ou correm o risco de partir — um ultimato inequívoco da natureza.

22 de março
Iniciei o dia a trabalhar sobre memórias de 1975 e no desenvolvimento do livro sobre as flores dos Açores, cuja publicação poderá acontecer em maio. Fui até Vila Franca do Campo para responder à exigência das abelhas, aumentando o espaço nas colmeias. Terminei o dia exausto, mas com a sensação de dever cumprido.

 

22 de março de 2026

sexta-feira, 20 de março de 2026

Dia Mundial da Floresta: associações açorianas apelam à valorização e proteção do arvoredo de interesse público

 



domingo, 15 de março de 2026

Virusaperiódico (167)

 


Virusaperiódico (167)

 

No dia 10 de março, depois de uma curta visita ao Jardim Botânico José do Canto, estive na Biblioteca Pública de Ponta Delgada a fazer pesquisas em jornais sobre o ano de 1975.

Em casa, após contactar uma pessoa que foi expulsa dos Açores em 1975, continuei a leitura de pequenos textos sobre Agostinho da Silva.

 

Soube também da morte, aos 83 anos, na ilha da Madeira, do engenheiro Melim Mendes, licenciado em Engenharia de Minas e doutorado em Energia Nuclear. Destacou-se pela contribuição para o desenvolvimento e modernização do setor energético da sua Região, nomeadamente através da introdução das energias renováveis.

 

No dia 11, voltei à Biblioteca Pública de Ponta Delgada para continuar as pesquisas em jornais sobre o ano de 1975 e sobre Simplício Gago da Câmara. De tarde, estive a trabalhar sobre plantas.

 

O dia 12 foi pouco produtivo: mais de metade das tarefas que constavam de uma lista ficaram por fazer. Li, no entanto, um magnífico texto do jornalista e escritor Fernando Dacosta sobre Agostinho da Silva. Retive uma frase deste último: “...o poder não passa de uma vaca. Devemos dar-lhe palmadas no rabo e tentar tirar-lhe o leite; é para isso que ele serve.” Ahahaha!

 

No dia 13, andei pela Ribeira Seca de Vila Franca, onde fui visitar as abelhas, que estão a deliciar-se com a grande quantidade de flores disponíveis, sobretudo as de incenso. Também estive a fazer algumas medições em árvores do Jardim Dr. António da Silva Cabral, na freguesia de São Pedro.

 

No dia 14, não saí do Pico da Pedra. Depois de fazer algumas sementeiras, sobretudo de limoeiro-galego, li mais alguns textos sobre Agostinho da Silva, nomeadamente um relatório que a PIDE escreveu sobre ele.

 

14 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026

As abelhas, Einstein, Agostinho da Silva e nós

 


As abelhas, Einstein, Agostinho da Silva e nós

Ao famoso físico Albert Einstein, criador da Teoria da Relatividade, publicada em 1915, e Prémio Nobel da Física, em 1921, por ter explicado o efeito fotoelétrico, são atribuídas várias frases, sendo algumas delas apenas imaginação dos seus autores.

 

Uma das frases mais difundidas é a de que “se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência”. Embora não se saiba se alguma vez Einstein fez aquela afirmação, o que é importante é que se trata de uma chamada de atenção para a importância das abelhas para a vida na Terra.

 

Embora possa parecer inesperada a referência a Agostinho da Silva, um dos mais influentes filósofos e humanistas portugueses do século XX, a verdade é que ele também se dedicou à entomologia — o estudo dos insetos —, incluindo a investigação sobre as abelhas.

 

De entre as suas publicações de carácter técnico e pedagógico, destacamos a intitulada “Apicultura”, datada de 1943, integrada nos seus “Cadernos de Informação Cultural”. Na publicação mencionada, para além de descrever os tipos de colmeias e de apresentar vários conselhos aos apicultores, Agostinho da Silva apresenta uma listagem de plantas que não são aconselhadas a estar próximas dos apiários, bem como de outras que são muito úteis para as abelhas, indicando os respetivos períodos de floração. Para além do referido, Agostinho da Silva recomenda a plantação de várias espécies melíferas, como o ligustro ou alfenheiro, nas estradas, caminhos e vedações de terrenos.

 

Tendo em conta que os polinizadores, como as moscas-das-flores, as borboletas e as abelhas, entre as quais a abelha-do-mel (Apis mellifera), desempenham um papel essencial nos ecossistemas, sendo fundamentais para a conservação da biodiversidade, a produção agrícola e o bem-estar humano, e que os mesmos enfrentam várias ameaças globais, incluindo alterações no uso do solo, invasões biológicas e mudanças climáticas, é fundamental que todos os cidadãos assumam um papel ativo e não fiquem à espera que apenas as entidades governamentais tomem medidas. Muitas vezes, as decisões políticas acabam por ser condicionadas pelas pressões de grandes grupos económicos, fazendo com que determinadas ações fiquem esquecidas ou se limitem a intervenções superficiais, sem impacto real.

 

No passado dia 1 de fevereiro, o Núcleo Regional dos Açores da IRIS – Associação Nacional de Ambiente, organização que visa “contribuir para a recuperação e valorização dos valores históricos, promover o restabelecimento do equilíbrio dos ecossistemas e assegurar que bens essenciais como o ar, a água ou as florestas sejam geridos de forma sustentável, sem comprometer o futuro”, divulgou um comunicado no qual apelava à participação ativa dos cidadãos na defesa das abelhas e dos restantes polinizadores.

 

Segue-se um excerto desse comunicado, onde são apontadas algumas ações de fácil execução:

 

- Plantar espécies nativas e diversificadas, especialmente plantas ricas em néctar e pólen, em jardins, varandas ou mesmo em vasos;

 

- Evitar o uso de pesticidas e herbicidas, sobretudo inseticidas, optando por métodos naturais de controlo de pragas;

 

 - Manter espaços verdes mais “naturais”, deixando algumas áreas com flores espontâneas e evitando cortes frequentes da relva;

 

- Apoiar a agricultura sustentável, escolhendo produtos biológicos e locais que promovem práticas mais amigas dos polinizadores;

 

- Valorizar e proteger habitats naturais, respeitando áreas verdes e apoiando iniciativas de conservação;

 

- Sensibilizar outras pessoas, partilhando informação e promovendo atitudes amigas dos polinizadores na comunidade.

 

Pico da Pedra, 17 de fevereiro de 2026


Teófilo Braga

quinta-feira, 12 de março de 2026

O Decreto Regulamentar Regional n.º 2/2026/A - uma oportunidade perdida de afirmar uma verdadeira política regional de valorização do património natural?

 


O Decreto Regulamentar Regional n.º 2/2026/A - uma oportunidade perdida de afirmar uma verdadeira política regional de valorização do património natural?

 

Na sequência de uma petição enviada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRA) no dia 5 de abril de 2019, onde se chamava à atenção para uma realidade preocupante: a legislação regional relativa à classificação de arvoredo de interesse público encontrava-se claramente desatualizada e a Lei n.º 53/2012, que estabelece a nível nacional o regime jurídico desta matéria, nunca tinha sido devidamente regulamentada na Região Autónoma dos Açores.

 

A situação era particularmente reveladora de um atraso significativo na proteção do património natural do arquipélago. A lista de árvores classificadas nos Açores incluía apenas 58 exemplares, dos quais 37 no Faial, 14 na Terceira e apenas 7 em São Miguel — números manifestamente insuficientes para um território que possui um património arbóreo de enorme valor histórico, paisagístico e científico.

 

Paradoxalmente, no âmbito da exposição “Plantas e Jardins: A paixão pela horticultura ornamental na ilha de São Miguel”, inaugurada a 22 de fevereiro de 2019, o Doutor Raimundo Quintal apresentou uma proposta de classificação que identificava, apenas para a ilha de São Miguel, 75 árvores isoladas e sete conjuntos arbóreos com valor suficiente para merecer proteção. Esta discrepância demonstrava de forma evidente o atraso e a insuficiência do enquadramento legal existente.

 

Perante esta realidade, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade o Decreto Legislativo Regional n.º 27/2022/A, de 28 de novembro, que estabelece o regime jurídico de classificação de arvoredo de interesse público na Região Autónoma dos Açores. Tratou-se de um passo importante e amplamente consensual, que reconhecia finalmente a necessidade de proteger de forma mais eficaz este património natural.

 

Contudo, o que se seguiu foi um exemplo claro de morosidade administrativa e falta de prioridade política. Apesar de a lei prever um prazo para a sua regulamentação, esta apenas veio a ser publicada mais de três anos depois, através do Decreto Regulamentar Regional n.º 2/2026/A.

 

Mais grave ainda é que, após esta longa espera, o resultado fica muito aquém do que seria expectável. Em vez de uma regulamentação que refletisse as especificidades ecológicas, históricas e paisagísticas de uma região insular e politicamente autónoma, o documento aprovado limita-se, na prática, a reproduzir o regulamento nacional com ligeiras adaptações terminológicas.

 

O seu anexo (valores de referência para os subparâmetros dendrométricos) é, de facto, uma cópia integral do anexo do regulamento nacional, sem qualquer esforço sério de adaptação à realidade açoriana. Não houve a preocupação de incluir espécies comuns nos Açores, de eliminar espécies praticamente inexistentes no arquipélago, nem sequer de atualizar alguns nomes científicos já desatualizados.

 

Este resultado fica além do esperado. A autonomia regional deveria permitir adaptar a legislação às características únicas do território, valorizando o conhecimento científico disponível e o património natural do arquipélago. Em vez disso, optou-se por uma solução burocrática e pouco ambiciosa, que ignora as especificidades dos Açores e reduz a autonomia legislativa a um mero exercício de transposição administrativa.

 

A proteção do arvoredo de interesse público não pode ser tratada como uma formalidade. Trata-se de preservar elementos vivos da história, da paisagem e da identidade dos Açores. Quando a legislação regional se limita a “copiar” regulamentos nacionais sem os adaptar à realidade local, perde-se não apenas eficácia normativa, mas também uma oportunidade de afirmar uma verdadeira política regional de valorização do património natural.

 

Açores, 12 de março de 2026

 

Teófilo Braga

 

(membro da direção da IRIS- Associação Nacional de Ambiente)