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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Dalberto Pombo, o naturalismo, os selos e a política



Dalberto Pombo, o naturalismo, os selos e a política

Com o objetivo de dar a conhecer o Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo e a vida e a obra do naturalista Dalberto Teixeira Pombo, natural de Almofala, Figueira de Castelo Rodrigo, está patente ao público, até ao final do mês de agosto, no Aeroporto de Santa Maria, uma exposição.

Conheci, muito bem, Dalberto Teixeira Pombo, com quem troquei correspondência e me encontrei algumas vezes. Nos encontros que tivemos, o tema da conversa sempre se centrou na proteção das espécies animais, nas campanhas que desenvolvia com o objetivo de descobrir novas espécies e no trabalho de sensibilização dos mais novos.

Da parte de Dalberto Pombo, nunca notei qualquer falta de entusiasmo, mas apenas alguma tristeza pelo facto das crianças mais entusiastas que participavam nas suas expedições, ao abandonarem a ilha para prosseguirem os seus estudos acabarem por desinteressar-se pelo estudo e conservação da natureza.

Outra coisa que o desgostava era o facto de não ter a participação de outros adultos. Sobre este assunto, costumava exemplificar com o caso de um seu conhecido que, num determinado dia, estando num café foi desafiado a acompanhá-lo num trabalho de campo e que lhe respondeu que, estava com muita pressa e já ia para casa. Qual não foi o seu espanto quando, ao regressar algumas horas depois, o tal amigo estava no mesmo lugar.

Se a faceta de naturalista é bastante conhecida, o que, penso ser (totalmente) desconhecido é o seu interesse pela política, assunto sobre o qual nunca falámos, e o facto de ter sido importunado pela PIDE por colecionar selos.

Começando pela política, assunto que muitas vezes se pretende omitir nas biografias para não estragar o “currículo”, o que discordo, pois o passado, desde que vivido com honestidade, nunca deve envergonhar ninguém, Dalberto Pombo, em 1973, fez parte da comissão de concelho da ANP- Ação Nacional Popular de Vila do Porto, que era presidida por outro interessado pela natureza e pela história dos Açores, Gualter Pereira Cordeiro.

Desconhecemos o seu grau de envolvimento na política, isto é, se acreditava nos ideais do Estado Novo ou se foi apenas um modo de não ser desagradável com o simpático e convincente presidente da Comissão de Distrito da ANP, Fernando Monteiro da Câmara Pereira.

No que diz respeito à filatelia, Dalberto Pombo colecionava selos de todo o mundo, não se preocupando com os regimes políticos existentes nos diversos países. Foi precisamente por receber selos da União Soviética que viu serem as suas cartas intercetadas pela PIDE e ser vigiado e denunciado por informadores daquela polícia política.

A 16 de outubro de 1957, um agente da PIDE do posto de Santa Maria comunicou superiormente, o seguinte: no posto dos correios do Aeroporto, foi entregue a Dalberto Pombo, uma carta “vinda da Rússia, ao que me parece, de Moscovo” e informou que “desconhecendo qual o fim de tal correspondência e sabendo que passado poucos minutos, por pessoa de toda a minha confiança que, no cinzeiro daquele havia uns papeis queimados…”

A 11 de novembro de 1957, o posto de Santa Maria recebeu, a seguinte informação: “… comunico que esta Polícia não vê inconveniente em que o referenciado troque correspondência, desde que a mesma tenha por fim expresso a troca de selos, no entanto poderá adverti-lo de que destes contatos com súbditos russos nada de útil lhe advirá”.

Para que não se esqueça os tentáculos e influência da PIDE na sociedade portuguesa, transcreve-se uma informação sobre Dalberto Pombo dada pelo Posto de Santa Maria, em 20 de outubro de 1953: “O referenciado reside neste aeroporto há menos de 1 ano, onde foi colocado como escriturário do Movimento. Foi proposto Tesoureiro da Fazenda Pública em Vimioso e depois S. João da Madeira. Pretende concorrer para o cargo de Tesoureiro. Quer moral quer politicamente nada consta em seu desabono”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31903,15 de agosto de 2019, p,14)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

DALBERTO POMBO E O CENTRO DE JOVENS NATURALISTAS DE SANTA MARIA


DALBERTO POMBO E O CENTRO DE JOVENS NATURALISTAS DE SANTA MARIA


Dalberto Teixeira Pombo, escriturário de profissão e naturalista por vocação, criou na ilha de Santa Maria o Centro de Jovens Naturalistas que teve uma actividade mais intensa nas décadas de 70 e 80 do século passado, altura em que editou o interessante “Boletim dos Jovens Naturalistas”.

O Centro de Jovens Naturalistas, organização que nunca se chegou a transformar numa associação formal, por falta de adultos interessados, teve como objectivo principal “iniciar os jovens nas colecções ou preparações com elementos diversos da História Natural, para melhor poderem apreciar, entender e resolver os problemas que se lhes apresentam hoje, como a poluição, defesa do património natural, ecologia, todos interdependentes afinal”.

De acordo com o prof. Paulo Borges, do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, um dos jovens que com ele trabalhou à cerca de trinta anos, o maior contributo para a ciência do Sr. Pombo foi “a exploração da fauna do Pico Alto de Santa Maria, um fragmento de vegetação natural pequeno mas de elevado valor em termos de riqueza de artrópodes e moluscos endémicos desta ilha e dos Açores”

Quanto a nós, que tivemos a oportunidade de o conhecer, destacamos o seu pioneirismo e exemplo em termos de contributos para a sensibilização para a conservação da natureza. Mas mais importante do que tudo, destacaria o seu trabalho voluntário e desinteressado em prol da formação dos mais jovens.

O sr. Pombo, embora indirectamente, foi também responsável pelo que é hoje a maior associação de defesa do ambiente do arquipélago, “Os Amigos dos Açores - Associação Ecológica” e por parte da minha formação como activista da causa ambiental e social.

Com o seu falecimento, em 11 de Dezembro de 2007, o Centro de Jovens Naturalistas terá terminado a sua nobre missão. Como melhor forma de o homenagear, todos os que o conheceram deverão empenhar-se cada vez mais, quer individualmente quer nas associações existentes ou noutras que venham a surgir, em actividades que conduzam à construção de uns Açores mais justos, limpos e pacíficos.
Por último deixava um alerta, não se deixem ludibriar por quem acha que as associações devem ser empurradas para “dentro do sistema” quando o que pretendem é que as mesmas sejam dóceis, colocadas ao serviço de interesses conjunturais de alguns governantes e percam a sua independência.

Teófilo Braga

(Publicado no Jornal Terra Nostra, nº 341, 22 de Fevereiro de 2008, p. 30)



sábado, 30 de junho de 2018