sábado, 16 de março de 2024
Banksia
Banksia
A banksia, cigarrilha ou cigarrilheira (Banksia integrifolia L.) é uma espécie australiana pertencente à família Proteaceae que se adaptou bem nos Açores, encontrando-se já naturalizada em algumas ilhas, exceto na Terceira, no Pico e no Corvo.
Nos Açores, para além de aparecer em sebes, a banksia pode ser vista sobretudo nas zonas costeiras geralmente até aos 400 m de altitude.
A banksia é uma árvore de folha persistente que pode atingir 25 metros de altura, apresenta folhas verde-escuras por cima e brancas por baixo e flores cilíndricas que pela sua forma terão dado origem ao nome comum cigarrilheira por que é, também, conhecida nos Açores. O seu período de floração é de junho a outubro.
Na Austrália, a banksia é muito utilizada como planta ornamental, sendo muito comum em jardins e ruas. Também usada na estabilização de dunas.
Nos Açores, foi muito utilizada em sebes vivas por associar às vantagens das suas folhas persistentes o seu crescimento rápido e a sua resistência aos ventos provenientes do mar. Sobre este assunto, o engenheiro agrónomo Arlindo Cabral, escreveu, em 1953, que na ilha de São Miguel, juntamente com o incenso e a faia a banksia era uma das plantas mais usadas no abrigo de pomares.
Em 1985, José Norberto Brandão de Oliveira, num texto intitulado “Espécies vegetais usadas nos Açores na formação de sebes”, considera a banksia como a segunda espécie mais importante, depois do incenso (Pittosporum undulatum Vent.) na formação de sebes altas de proteção de frutícolas, referindo que é uma “espécie bastante resistente e de crescimento bastante rápido.”
Relativamente à sua propagação, Arlindo Cabral (1953) mencionou o seguinte:
“Pega com certa dificuldade, se não forem dedicados cuidados especiais à sua propagação. Devem ser escolhidas pequenas hastes, as quais deverão, segundo uns, apanhar uma unha de inserção no ramo a que pertencia e, segundo outros, ser cortada ao nível de um nó, para melhor enraizamento. Os raminhos escolhidos devem estar meio atempados e o comprimento das estacas deve regular por 0,2 m. Estas, podem ser dispostas em viveiro ou em lugar definitivo. Há, porém, quem afirme que pega mal por transplantação e se atrasa e que um excesso de estrume também dificulta o pegamento.”
No passado, nos Açores, a banksia também foi muito apreciada como planta ornamental, tendo existido, entre outros, no Jardim de Sebastião do Canto em Vila Franca do Campo, no Jardim José do Canto (existiam em 1856 e em 1868, havia banksias para oferta e permuta) e no Jardim António Borges (existiam em 1865).
Várias espécies do género Banksia foram assunto de diversas cartas trocadas entre José do Canto e o seu primo e amigo José Jácome Correia. Assim, numa carta enviada de Paris, datada de 24 de agosto de 1853, José do Canto escreveu o seguinte:
“As banksias mesmo forão duplicadas, e triplicadas e quasi todas não classificadas, mas não se encontrava nada, ou caríssimo, e tu tinhas-me dado a entender que sendo plantas boas que te não importava a repetição.
…
Se quisessem dar aqui em Pariz mil francos por uma dúzia de Banksias não as havia. Eu querendo algumas, tenho-as mandado vir d’Hamburgo, e Vienna d´Áustria, por um preço superior ao de Londres.”
Hoje, é possível encontrar banksias no Jardim do Palácio de Santana, em Ponta Delgada, na Quinta da Torre, nas Capelas, e na Mata do Dr. Fraga, na Maia.
Teófilo Braga
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
Araucárias há muitas!
Araucárias
há muitas!
A
paixão que tenho pelas plantas vem desde criança, de tal modo que desde muito
novo me impressionaram duas árvores existentes na minha terra natal, a Ribeira
Seca de Vila Franca do Campo, existentes num prédio então pertencente ao senhor
Arcádio Teixeira: uma araucária e um carvalho, ambas de enorme porte.
No
texto desta semana, apenas vou fazer referência às araucárias, nomeadamente a
algumas das espécies existentes em São Miguel, a sua origem, onde poderão ser
encontradas e como terão cá chegado.
A
araucária da Ribeira Seca, tal como a esmagadora maioria das araucárias
existentes na ilha de São Miguel, é a Araucaria heterophylla, oriunda da
ilha de Norfolk, podendo ser encontrada em todas as ilhas dos Açores, exceto no
Corvo.
Outra
araucária, um pouco menos comum, é a denominada pinheiro-da-Nova Caledónia (Araucaria
columnaris), oriunda da Nova Caledónia e das Novas Hébridas (Vanuatu). Na
ilha de São Miguel pode ser encontrada no Jardim do Palácio de Santana, no
Jardim Botânico José do Canto, no Jardim da Universidade dos Açores, no Parque
Terra Nostra, na Praia do Pópulo e no Bairro Alcino-Alves, na Relva.
A
araucária-de-bidwill (Araucaria bidwillii), oriunda da Austrália pode ser
encontrada na nossa ilha, nomeadamente no Jardim do Palácio de Santana, no
Jardim Botânico José do Canto, no Parque Terra Nostra e no Parque Beatriz do
Canto.
No
Jardim do Palácio de Santana e no Parque Terra Nostra é possível encontrar
outra araucária, conhecida pelo nome de pinheiro-do-Paraná (Araucaria
angustifolia), originária do Brasil.
No
Jardim do Pico Salomão é possível encontrar a Araucaria rulei, da Nova
Caledónia.
A
araucária-do-Chile (Araucaria araucana), nativa do sul do Chile e do
sudoeste da Argentina é uma das cinco espécies presentes no Parque Terra
Nostra.
No
Jardim Botânico José do Canto e no Jardim do Palácio de Santana encontra-se a Araucaria
cunninghamii, nativa da Austrália e da Nova Guiné.
De
acordo com Carreiro da Costa os principais responsáveis pela introdução de
araucárias na ilha de São Miguel, no século XIX, foram José do Canto, António
Borges e Simplício Gago da Câmara. Enquanto os dois primeiros as adquiriram a
viveiristas europeus, o último trouxe-as da Austrália.
O
mesmo autor afirma também que através da consulta que fez ao “Agricultor
Micaelense” chegou à conclusão de “que as primeiras araucárias semeadas ou
plantadas em S. Miguel se deveram, realmente, ao construtor do Yankee Hall das
Furnas, ou seja, a Thomas Hickling, ou então a alguém da sua família”.
Embora
a madeira das araucárias possa ser usada para os mais diversos fins, entre nós
a planta é usada para fins ornamentais, quer em jardins públicos ou privados.
Raimundo
Quintal, no texto “Árvores monumentais nos jardins, parques e matas de São
Miguel-Proposta de classificação”, publicado em 2919, defende a classificação
das seguintes araucárias da ilha de São Miguel:
Araucaria
bidwillii- um exemplar no Jardim Botânico José do Canto, um no
Parque Beatriz do Canto e um no Parque Terra Nostra;
Araucaria
columnaris- Um exemplar no Jardim António Borges, um no Jardim
José do Canto, um no Jardim do Palácio de Santana, um no Jardim da Universidade
dos Açores e um no Parque Terra Nostra;
Araucaria
heterophylla- Um exemplar no Jardim António Borges, um
no Jardim José do Canto, um no Jardim do Palácio de Santana, um no Parque
Beatriz do Canto, um no Parque Terra Nostra e um no Centro de Monitorização e
Investigação das Furnas, na margem Sul da Lagoa das Furnas.
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, 17 de novembro de 2021, p.15)
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
A Madeira e as plantas dos Açores
A Madeira
e as plantas dos Açores
Desde
o descobrimento das ilhas houve intercâmbio de pessoas e de bens entre os
arquipélagos dos Açores e da Madeira.
No
que diz respeito à vegetação algumas plantas existentes na Madeira foram
trazidas para os Açores, acontecendo o mesmo em sentido contrário.
Lembro-me
de, há alguns anos, ter visitado na ilha da Madeira os magníficos Jardins da
Quinta do Palheiro e ter encontrado uma vidália (Azorina vidalii), espécie
endémica dos Açores que pode ser encontrada em algumas faixas do litoral de
todas as ilhas. Lembro-me de, na ocasião, ter perguntado ao jardineiro o nome
da planta, tendo ele respondido que não conhecia, mas sabia que a planta era
dos Açores.
Da
Madeira para os Açores, temos conhecimento de um pequeno número de plantas,
endémicas ou não daquela região, que foram trazidas para cá para serem usadas
com os mais diversos fins, desde os alimentares aos ornamentais.
Uma das primeiras
plantas trazidas da Madeira foi a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum),
no século XV. Oriunda da Ásia a cultura da cana-de-açúcar nos Açores nunca ocupou
a área nem atingiu a produção obtida naquele arquipélago. De acordo com
Carreiro da Costa, o cultivo da cana-de-açúcar deixou de ser praticado, entre
nós, na segunda metade do século XVII e as ilhas Graciosa, Pico, São Jorge e
Corvo não a conheceram como cultura industrial.
A caiota, chuchu
ou pimpinela (Sechium edule), oriunda da América Central, de acordo com
um texto publicado na revista, da SPAM- Sociedade Promotora da Agricultura
Micaelense, “O Agricultor Michaelense”, veio da Madeira, remetida pelo senhor
Camilo José de Gouveia. De acordo com a mesma fonte, daquele arquipélago, vieram
duas variedades, uma que produzia um fruto pequeno e outra cujo fruto tinha
tamanho duplo ou triplo do primeiro.
Outra planta vinda
do arquipélago da Madeira, mais propriamente do Porto Santo, foi a
malva-arbórea (Lavatera arborea). As sementes chegaram aos Açores, em
1845, por intermédio do Tenente-Coronel António Homem da Costa Noronha, tendo
sido semeadas em São Miguel em fevereiro de 1846 e na Terceira e no Faial, em
1848. De acordo com “O Agricultor
Michaelense”, a planta, que podia atingir a altura de 10 pés e a grossura de
duas a três polegadas, era usada para a extração de fios usados no fabrico de
cordas ou em “mimosos bordados”.
O til (Ocotea foetens), árvore
endémica da Madeira e das Canárias que hoje pode ser encontrado no Jardim
Botânico José do Canto, no Pinhal da Paz, na Mata da Lagoa do
Congro, no Jardim
do Palácio de Santana e no Parque Terra Nostra também terá vindo da Madeira.
José do Canto inclui o til, na lista das principais plantas existentes no seu
jardim de Santana em 1856.
Possivelmente de
introdução mais recente, a cletra ou verdenaz (Clethra arbórea),
endémica da Madeira e das Canárias, é hoje em São Miguel uma das invasoras mais
nocivas, podendo ser vista não só em alguns jardins, mas também na Tronqueira
ou nas Lombadas. Embora alguma bibliografia indique que se trata de uma
ornamental escapada de jardins, algumas fontes sugerem que a mesma foi
introduzida a partir da Madeira por um serviço oficial da Região Autónoma dos
Açores.
Cada vez mais
comum nos nossos jardins particulares é o massaroco (Echium candicans), espécie endémica da
Madeira. Cultivada como ornamental, em vários países de clima temperado, o
massaroco apresenta uma inflorescência alongada, que pode atingir 35 cm, com
flores de cor azul ou arroxeada.
Por último, apresento
outra espécie endémica da Madeira, mais rara entre nós, o gerânio da Madeira (Geranium
maderense) que tive a oportunidade de ver e fotografar no Pico da Pedra,
antes de ser destruído pelo fio de uma roçadeira. Podendo atingir até 1,5 m de
altura. sendo o maior dos gerânios, esta espécie tem um grande valor ornamental
dada a beleza das suas flores rosa magenta.
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores,32368, 24 de fevereiro de 2021, p. 11)
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
Apontamentos sobre a introdução de plantas exóticas em São Miguel
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
Conhecer as plantas do Paim é viajar pelo Mundo
Conhecer
as plantas do Paim é viajar pelo Mundo
Se a presença de árvores e outras plantas
em parques e jardins é geralmente apreciada, nas ruas nem sempre tal acontece,
sobretudo quando as mesmas são de folha caduca.
O que talvez algumas pessoas não saibam é
que, tanto em parques, jardins ou arruamentos, as árvores são fundamentais para
a melhoria da qualidade de vida dos habitantes das cidades.
De acordo com o prestigiado arquiteto
paisagista Gonçalo Ribeiro Teles são funções das árvores “garantir a presença
de vida silvestre, promover a mais conveniente circulação da água e do ar,
manter o equilíbrio dos ecossistemas, assegurar a fertilidade dos campos,
contrabalançar com a sua presença o artificialismo do meio urbano que tanto
afeta a saúde psicossomática das populações, e ainda a de valorizar a escala e
a proporção dos volumes edificados.”
Quem tiver a oportunidade de fazer uma
caminhada pelas ruas, praças e canadas do Bairro do Paim, vai surpreender-se
com a variedade de plantas existentes, provenientes dos quatro cantos do mundo.
Num passeio que fiz, sem o cuidado de tomar nota de tudo o que via, no passado
dia 19 de agosto, identifiquei cerca de 50 espécies diferentes, espontâneas ou
cultivadas. Destas últimas, destaco as ornamentais e algumas fruteiras.
Das espécies espontâneas, menciono apenas
duas: o funcho (Foeniculum vulgare) e a cenoura-brava ou salsa burra (Daucus
carota). Destas, o funcho é muito conhecido em virtude de ser utilizado na alimentação
e na medicina popular.
Nos arruamentos há pouca variedade,
existem essencialmente tílias (Tilia sp.), da Europa e da Ásia Menor e a
mais abundante é a mélia ou amargoseira (Melia azedarach), da Ásia e
Oceânia, de flores lilases, muito aromáticas, que é cultivada como ornamental
em quase todo o mundo.
Na Praça da Autonomia Constitucional, que
ficará linda quando as árvores que lá se encontram crescerem e florirem,
podemos encontrar, para além das mélias já referidas, entre outras,
árvores-do-fogo (Brachychiton
acerifolius), oriunda
da Austrália, magnólias-de-soulange (Magnolia x soulangeana), uma
hortícola, de flores muito bonitas e os cardeais ou hibiscos-da Síria (Hibiscus
syriacus), curiosamente provenientes da China, Coreia e Indochina.
Termino
esta curta nota com uma referência a
plantas que nunca esperei encontrar e que devem estar relacionadas com
uma possível ligação à terra de alguns moradores, algumas fruteiras que podem
ser encontradas à frente de algumas casas.
O
araçazeiro, também conhecido em alguns locais de São Miguel por goiaviera (Psidium
cattleyanum), que é originário da América tropical, é a fruteira mais
abundante. Para além daquela espécie, de entre outras, pode ser observada a papaeira
(Carica papaya), nativa do Sul do México, da América Central e norte da
América do Sul, o cafezeiro (Coffea
arabica), da África tropical - florestas montanhosas da Etiópia, a
nespereira, também conhecida por monequeira (Eriobotrya japónica), do Sudeste da China e a pitangueira (Eugenia uniflora) que veio do Brasil.
Como não há bela sem senão, numa área à
espera de ser utilizada para a construção de um qualquer edifício é possível
encontrar o penacho ou erva-das.pampas (Cortaderia
selloana), proveniente da América do
Sul e que apesar de muito bonita é, de
acordo com uma publicação do “Projeto LIFE+ Stop Cortaderia – Medidas
urgentes para controlar a propagação de erva-das-pampas no Arco Atlântico”, “considerada
uma das plantas invasoras mais nocivas no território do Arco Atlântico devido à
sua capacidade de transformar e degradar habitats naturais e humanizados, de provocar
problemas graves de saúde pública (alergias, etc.) e também a nível económico
(e.g. na gestão de faixas marginais a vias de comunicação e de outros espaços)”.
Pico da Pedra, 23 de agosto de 2020
(Nova Persuasão, nº2, setembro de 2020)
terça-feira, 21 de julho de 2020
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
sexta-feira, 8 de março de 2019
Plantas e Jardins em exposição
Plantas e Jardins em exposição
Até ao próximo dia 1 de maio estará aberta ao público, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, uma exposição, comissariada pela Professora Doutora Isabel Soares de Albergaria, intitulada “Plantas e Jardins: A paixão pela horticultura ornamental na ilha de São Miguel”.
Inaugurada no passado dia 22 de fevereiro, a exposição referida, pela informação disponibilizada, merece a visita de todos os amantes de plantas e jardins, bem como dos alunos dos estabelecimentos de ensino da ilha de São Miguel.
Uma leitura atenta merece o catálogo da exposição que “é constituído por duas partes, sendo a primeira votada a um conjunto de cinco estudos versando problemáticas diversas e incidindo sobre campos disciplinares distintos, tendo as plantas e os jardins de São Miguel como denominador comum. Na segunda parte apresentam-se os textos de enquadramento dos quatro núcleos que compõem a exposição, a saber: O Conhecimento das Plantas; Encomenda e Transporte; O Cultivo e Assimilação Cultural.”
Embora todos os textos mereçam ser lidos, destaco o da autoria de Rosalina Gabriel, intitulado “Não há rosas sem espinhos: O papel dos jardins na disseminação de espécies exóticas e invasoras – 13 plantas prioritárias para controlo ou erradicação nos Açores”, que chama a atenção para o perigo da introdução de espécies que se podem tornar invasoras. Se algumas delas foram introduzidas pelos criadores dos jardins históricos no século XIX, outras são de introdução mais recente, o que é inadmissível atendendo ao conhecimento que se possui atualmente sobre o comportamento invasor de algumas delas e por serem da responsabilidade de serviços oficiais.
Outro texto de leitura obrigatória é o da autoria do madeirense Raimundo Quintal, profundo conhecedor da flora e dos jardins dos Açores, intitulado “Árvores monumentais nos jardins, parques e matas de São Miguel – Proposta de Classificação”.
Antes de fazer referência ao texto mencionado, recordo que em 2016, no Correio dos Açores, levantei um conjunto de questões relacionadas com o desequilíbrio existente entre o número de árvores classificadas em São Miguel quando comparado com o de outras ilhas.
Na altura, fiz a seguinte pergunta que terá caído em saco roto: “Não haverá em São Miguel, mais nenhuma árvore que mereça ser classificada para além das sete (12% do número total) classificadas entre as 58 existentes, nos Açores?”
No texto referido, depois de ter considerado estranho o facto de na lista das árvores classificadas constarem plantas que já não existiam, recordei a minha não compreensão pelo facto do dragoeiro existente na Escola Secundária Antero de Quental, o qual, segundo o Eng.º Ernesto Goes, é o maior da ilha de São Miguel e terá sido plantado na altura do antigo Paço, iniciado em 1587, não se encontrar classificado.
Felizmente, Raimundo Quintal, inclui o dragoeiro referido na sua proposta de classificação que “abrange 75 árvores isoladas e sete conjuntos arbóreos, que representam 37 táxones (36 espécies e uma variedade).”
De entre as espécies propostas para serem classificadas, destaco duas endémicas dos Açores, o cedro-do-mato, do Campo de Golfe das Furnas, e o pau branco, do Jardim António Borges.
Originário dos arquipélagos da Madeira e das Canárias, é proposto para classificação o til existente no Jardim José do Canto e do Brasil e Argentina, a proposta inclui a sumaúma existente no Parque de Estacionamento da Rua São Francisco Xavier e um dos exemplares existentes no Viveiro dos Serviços Florestais, nas Furnas.
Vila Franca do Campo, também, entra na lista das localidades com árvores classificadas. Com efeito, para além da classificação do eucalipto-limão existente no Jardim do Palácio de Santana, também é proposto o existente no Jardim Dr. António da Silva Cabral, na freguesia de São Pedro.
Dos conjuntos arbóreos propostos para classificação, destaco a Alameda dos Plátanos na Povoação e a dos Gincos, no Parque Terra Nostra.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 7 de março de 2019)
quarta-feira, 16 de março de 2016
A árvore na revista “O Vegetariano”
A árvore na revista “O Vegetariano”
“O naturismo tem por base o culto da árvore” (Celso Xavier)
Na passada segunda-feira, a Fundação do Jardim José do Canto organizou uma Festa da Árvore e na próxima semana teremos um dia a ela dedicado, o Dia Mundial da Floresta.
No texto de hoje vou socorrer-me da revista “O Vegetariano”, publicada em 1914, por parte da Sociedade Vegetariana de Portugal, para dar a conhecer a importância da árvore para os seguidores daquele regime alimentar.
A revista “O Vegetariano”, dirigida pelo Dr. Amílcar de Sousa (1876-1940), médico especialista em doenças de nutrição, licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tinha como lema “Integrai-vos nas práticas salutares da Higiene Natural e gozareis cem anos de vida sã” e a Sociedade Vegetariana de Portugal tinha como fins “criar cursos de instrução popular e educação cívica, diurnos e noturnos, onde por meio de preleções se espalhem e vulgarizem os princípios da alimentação vegetal, suprimindo o morticínio antilógico e desnecessário de animais, favorecendo e enaltecendo a abnegação por amor da humanidade, da pátria, da família, do próximo e caridade para com os animais, combatendo o alcoolismo, o tabaco, os vícios e os erros, em geral, espelhando temperança nos hábitos e a morigeração dos costumes”.
Em janeiro, a revista “O Vegetariano”, através de um texto assinado por C. Brandão, saúda o surgimento, em Lisboa, da Associação do culto da árvore” que visava “tanto proteger a floresta como o pomar” e incita “ os naturistas a se inscreverem na associação, apresentando entre outros os seguintes argumentos: “É fora de dúvida que a árvore, pelas suas raízes, pela sua madeira, pelas suas folhas, exerce uma ação benéfica nas terras, nas indústrias, no clima. Porém, acima de tudo – para nós, naturistas- há o fruto que nos garante a saúde do corpo e da alma, a depuração do indivíduo e da raça.”
No mês de março, José Fontana da Silveira (1891-1974), escritor que se distinguiu pelos livros para crianças que publicou, traduziu um texto de André Fleuriet, onde este sobre a árvore escreveu o seguinte: “ Uma árvore bonita é um prazer para os olhos, e milhares de árvores constituem o bosque, manto de terra e riqueza dum país! Um país que não tem árvores é um país morto!...Quem planta uma árvore é um benfeitor da humanidade; quem as destrói inutilmente é um criminoso”.
No mês de outubro, a revista dedica um curto texto a elogiar o livro “O Culto da Árvore” da autoria de Manuel Vieira Natividade (1860-1918), historiador, arqueólogo, etnólogo e poeta de Alcobaça. Segundo o Dr. Amílcar de Sousa, o livro, “escrito para a festa das crianças da sua terra, é um dos mais perfeitos e úteis elogios à árvore que tenho lido”, onde o autor “esgotou o assunto sobre o valor comercial e cósmico, da árvore e do seu culto, felizmente posto em voga nos tempos de hoje como símbolo da alegria e fartura, de bondade e de bênçãos”.
Por último, no mês de novembro, o Dr., Amílcar de Sousa escreve um curioso texto intitulado “A única ginástica que convém aos homens é trepar às árvores”, onde confessa o seguinte: “Sei andar a pé, subir a árvores, encarrapitar-me nelas quando têm frutos e trepar cerros e penhascos abruptos. Sei qualquer coisa de ginástica natural e com ela tenho conseguido mais força e vigor que alguns sábios de afamados métodos.
Segundo o Dr. Amílcar de Sousa a “única ginástica valiosa e proveitosa é trepar ou subir às árvores” pois não fica nenhum músculo por ser exercitado, mas “para isso é preciso ter força e jeito, equilíbrio e mesmo ainda não ter perdido o feitio arborícola”.
Através do mesmo texto ficamos as saber que o autor não se ficava pelas palavras, como se pode confirmar através do texto seguinte: “Ainda ontem estive a comer figos numa figueira empoleirado. Que deliciosos eram…Com os pés sem sandálias, não escorregava dos ramos, com uma mão agarrava-me, com a outra levava os figos…à boca.”
Termino desejando boas plantações, a quem nunca o fez que experimente visitar um pomar e comer os frutos apanhados das árvores e, por último, que tenham muito cuidado com os trambolhões que poderão ocorrer com subidas às árvores.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30886, 16 de março de 2016, p. 12)
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
SOS eucalipto-limão de Vila Franca
A 18 de junho de 2014, num texto intitulado Jardins de Vila Franca do Campo, chamei a atenção para o estado de alguma degradação em que se encontravam os jardins Antero de Quental e Dr. António da Silva Cabral, que se traduzia, sobretudo, na existência de placas identificativas sem planta associada, a presença de plantas sem os azulejos com a identificação, a plantação de espécies em locais inapropriados e sinais de algumas podas mal executadas.
Hoje, apenas irei fazer referência ao Jardim Dr. António da Silva Cabral, localizado em frente à Igreja dos Frades que deve o seu nome ao presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo que “revolucionou” o concelho, tendo sido ele o responsável por muitos melhoramentos, com destaque para o traçado da entrada poente da Vila, com a Avenida da Liberdade e o Jardim, o mercado de peixe, o cemitério e a primeira instalação da luz elétrica pública nos Açores.
Das várias espécies presentes nesse jardim, distingue-se pelo seu porte monumental o eucalipto-limão (Corymbia citriodora) que infelizmente se encontra doente, precisando de ser devidamente tratado para que a incúria humana não seja responsável pelo seu desaparecimento prematuro.
Originário de regiões de clima temperado e subtropical do nordeste da Austrália, o eucalipto-limão encontra-se hoje espalhado pelas mais diversas regiões do mundo, estando presente em África, no Brasil, na China, na Índia, nos Estados Unidos e em Portugal, onde a sua presença é residual e quase circunscrita a jardins.
Não sabemos quem terá fornecido o eucalipto-limão à Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, nem temos dados suficientes para apontar o nome de José do Canto como o introdutor da espécie na ilha de São Miguel. Contudo, sabe-se que José do Canto plantou-o no seu jardim, em Ponta Delgada, em 1867, vindo de França.
O eucalipto-limão adaptou-se bem, em São Miguel, de modo que em 1868 já fazia parte de uma listagem de plantas existentes no Jardim José do Canto para doação ou permuta. Esta questão suscita-nos uma interrogação: por que razão hoje o eucalipto-limão quase desapareceu em São Miguel?
O eucalipto-limão também conhecido por eucalipto-cheiroso é uma árvore de médio a grande porte, podendo atingir, atendendo às condições dos solos e climas, 50 metros de altura e 1,2 m de diâmetro à altura do peito, apresentando uma folhagem rala, com folhas estreitas e com um forte aroma a limão, daí uma das suas designações comuns.
A sua madeira, dura mas fácil de trabalhar, é muito utilizada na construção civil, no fabrico de móveis, na arborização de caminhos e estradas em áreas rurais, como combustível e no fabrico de carvão. As suas flores são melíferas e o óleo essencial dele extraído tem muito interesse em virtude de possuir um teor elevado em citronedal que é utilizado, tanto em perfumaria como repelente de insetos.
Para além do tratamento adequado que merece o eucalipto-limão, consideramos que à semelhança de outros exemplares existentes na Região Autónoma dos Açores, é urgente a sua classificação em virtude do seu porte e raridade e por constituir um monumento vivo que enriquece o património natural e paisagístico de Vila Franca do Campo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30804, 10 de dezembro de 2015, p.15)

