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segunda-feira, 23 de julho de 2018

No SDPA

terça-feira, 23 de maio de 2017

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Alice Moderno, a SMPA e as touradas


Alice Moderno, a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e as touradas

A posição de Alice Moderno sobre as touradas é a de clara oposição às mesmas e foi manifestada publicamente por mais de uma vez, através dos seus escritos, de que são exemplos as suas Cartas das Ilhas, números XIX e XX.
Na “Cartas das Ilhas – XIX”, dedicada a Luís Leitão, publicada no jornal “A Folha”, de 8 de Março de 1912, Alice Moderno relata que contrariada foi assistir a uma tourada a convite de amigos terceirenses e confessa a sua compaixão pelo cavalo “esquelético”, um “pobre animal, ser incompleto, irmão nosso inferior” que “no fim da vida, é posto à margem e alugado a preço ínfimo, para ir servir de alvo às pontas de uma fera…”. A fera (o touro) por seu lado, “será barbaramente farpeada, até que, enfurecida, ensanguentada, ludibriada, injuriada, procurará vingar-se arremessando-se sobre o adversário que a desafia e fere”.
Na “Cartas das Ilhas – XX”, publicada no jornal “A Folha”, de 10 de Março de 1912, Alice Moderno confidencia que, para não ferir suscetibilidades, não fala no “tema perigosíssimo das toiradas”, nem comunica o que vai na sua alma aos terceirenses, que segundo ela são “ semi-espanhóis no capítulo de los toros, e não compreenderiam a minha excessiva sentimentalidade”.
No dia 23 de Abril de 1933, reuniu, na casa de Alice Moderno, a direção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para “deliberar sobre assuntos urgentes”. De acordo com o jornal Correio dos Açores, do dia 25 do mesmo mês, um dos assuntos a tratar eram as touradas com touros de morte. Na ocasião foi lido um ofício da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa a solicitar a colaboração da SMPA no sentido de pedir ao governo para que “não permita o estabelecimento neste país dos touros de morte. Ficou acordado enviar um telegrama “ao sr. Presidente do Ministério, manifestando a S. Exa o quanto magoaria a sensibilidade dos amigos dos animais a introdução de tão bárbaro divertimento, e quão deprimente seria para a civilização portuguesa o conhecimento do mesmo perante o mundo culto”.
A este propósito, convém recordar que os touros de morte haviam sido proibidos em Portugal, por decreto datado de 14 de abril de 1928, mas continuam, ainda hoje, legalmente, em Monsaraz e em Barrancos, o que não deixa de ser absurdo.
No relato de uma visita que fez a Espanha publicado no Correio dos Açores, de 2 de Fevereiro de 1935, Alice Moderno escreve “Barcelona seria um verdadeiro Éden “ se o autocarro “não tivesse parado em frente a um enorme edifício, de construção luxuosa, cujo fim o seu aspeto logo indicava, e deve ter custado à província alguns milhões de mal empregadas pesetas”.
O edifício em causa era a Praça de Touros Monumental, onde não há touradas desde Setembro de 2011, na sequência da proibição de touradas de praça, a partir de 1 de Janeiro de 2012, na Catalunha. A outra praça de touros, a Praça de Las Arenas, existente na mesma cidade foi transformada em centro comercial.
Ao estar frente à Praça de Touros, Alice Moderno lembrou-se dos “sofrimentos inauditos” de que eram vítimas os animais e acudiram à sua mente o que escreveu o escritor Victor Hugo:
“Em todas as corridas de touros aparecem três feras, que são o touro, o toureiro e o público. O grau de brutalidade de cada um destes brutos pode calcular-se pelo seguinte:
O touro é obrigado.
O toureiro obriga-se.
O público vai por um ato espontâneo da sua soberana vontade e, ainda por cima, dá dinheiro.
Observem bem esta graduação:
O touro, provocado, defende-se.
O toureiro, fiel ao seu compromisso, toureia.
O público diverte-se.
No touro há força e instinto.
No toureiro, valor e destreza.
No público não há senão brutalidade”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30522, de 31 de Dezembro de 2014)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo


Memórias do Natal na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo
Durante muitos anos, na década de sessenta do século passado, a ausência de meu pai emigrado no Canadá, fez com que vivesse em casa dos meus avós, Manuel Soares e Maria dos Santos Verdadeiro, na rua do Jogo, então local da freguesia de São Miguel.
Foi na casa dos meus avós que passei muitos natais da minha infância na sua companhia, bem como na de minha mãe, irmão e tias, Zélia e Rosa.
A aproximação ao dia de Natal, que para mim era sobretudo o da receção das prendas, fazia-se sentir através da participação de minhas tias na Novena de Natal que seguia a regra, mencionada pelo Padre Ernesto Ferreira, de se realizar “de madrugada, porque está no amago da tradição que deve ser de manhã, muito cedo”.
De igual modo, a aproximação era sentida pelos preparativos que se iniciavam com o colocar de molho o trigo e a ervilhaca, a que se seguia a sua deposição em vasos que eram colocados em sítio escuro para que crescessem branquinhos.
Mais próximo do dia, a casa era enfeitada, através da colocação de ramos com laranjas ou mandarinas e funcho da Madeira nas paredes.
Outra tradição, que quase sempre marcava presença, era a do presépio que terá sido ideia, de São Francisco de Assis, concretizada pela primeira vez em 1223, na comuna italiana de Greccio. Na altura, a árvore de Natal ainda não era muito generalizada, apesar de já em 1933 o Dr. Armando Cortes Rodrigues ter escrito o seguinte: “Hoje, a febre da desnacionalização anda erguendo árvores de Natal por todos os lares e até nas próprias igrejas é bom recordar que a tradição dos presépios e das lapinhas é profundamente cristã e latina e que não há necessidade de ir copiar aos países do norte um costume que nada tem que ver com o nosso fundo tradicional”.
O presépio feito em casa da minha avó não se distinguia de muitos outros já que tinha como figuras centrais o menino Jesus e os seus pais, colocados numa cabana construída de madeira coberta com palha. No interior da mesma, também, figurava um burro e uma vaca e, sobre ela, um galo.
Como não podia deixar de ser não faltavam os três reis magos que por vezes eram seis. Com efeito, existiam três reis magos muito pequeninos e muito antigos que montavam camelos e também existiam outros três muito maiores, mais modernos, que montavam cavalos e por vezes todos figuravam no mesmo presépio. Para não haver conflitos, eram colocados em posições distintas, os primeiros, próximos da cabana, dirigiam-se para essa, os outros, mais afastados, já tinham cumprido o seu dever de visitar o menino Jesus e caminhavam em sentido contrário.
No presépio, também, figuravam muitas ovelhas e vacas, o que era obrigatório, em casa de um lavrador, uma cafua de milho e todos os figurantes de uma matança de porco, tendo este fruto dos anos e dos trambolhões as pernas partidas.
As casas mais antigas eram de papel tendo sido desenhadas, recortadas e coladas pelos meus familiares mais velhos, as mais recentes, também de papel, já tinham origem em moldes comprados numa papelaria.
Durante a época de Natal, existiam sempre disponíveis figos passados, comprados em cestinhas ou ao peso, alfarrobas, massa sovada, vinho abafado e raramente licores caseiros.
A ceia de Natal pouco diferia das refeições de outros dias festivos, existindo normalmente carne de galinha caseira e carne de vaca, esta comprada num talho do mercado de Vila Franca do Campo, aquando das festividades religiosas.
Mas, o melhor das festas, para as crianças, eram as prendas que eram deixadas, pelo São Nicolau nos sapatos que colocávamos na cozinha, debaixo da chaminé, e que eram exibidas na rua no dia seguinte. Para as raparigas eram obrigatórias as bonecas e os utensílios usados em casa, sobretudo na cozinha, para os rapazes eram as navalhinhas ou os canivetes e as “flautas” (gaitas de beiços), a maioria muito baratinhas e eram, também, os carrinhos de folheta ou de plástico.
A época natalícia terminava com o tradicional cortejo dos reis magos, manifestação genuinamente popular, com texto do poeta camponês João Jacinto Januário, sendo figurantes pequenos criadores ou tratadores de gado e trabalhadores rurais com muito pouca escolaridade, mas como muito saber e cultura.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30517, 24 de dezembro de 2014, p. 16)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Facilidades para a tortura


Nos Açores há os baldios e há as baldas

Nos Açores existem baldios onde é criado gado bovino sob duas modalidades: arrendamento ou prestação de pastoreio, pela administração.

Em qualquer dos casos está previsto um pagamento pela ocupação dos espaços, sob a forma de renda anual ou por cabeça de gado colocada nos terrenos. As receitas obtidas são “distribuídas na proporção de 50% para as respetivas autarquias e 50% para os cofres da Região, contribuindo assim para um reforço das dotações disponíveis para investimentos que possam trazer benefícios para as populações”.

Também nos Açores, mais propriamente na ilha Terceira, há as baldas que são terrenos públicos que foram cedidos gratuitamente a ganadeiros para criarem animais usados nas anacrónicas touradas.

Embora tenhamos dúvidas sobre se a criação de gado é a melhor ocupação para algumas das áreas disponibilizadas, não é aceitável que os proprietários do “gado manso” sejam obrigados a desembolsar, enquanto os donos do “gado bravo” estejam isentos de qualquer pagamento.

A não ser que as afirmações de que os touros da Terceira em contato telepático com um ou mais “cientistas” da Universidade dos Açores tenham aprendido a distinguir plantas invasores e plantas endémicas e sejam um dos principais pilares na preservação da flora açórica.

Embora ainda longe de ser provada a hipótese levantada por um dos académicos, que considera que os adeptos das touradas são mais ambientalistas, sabe-se que numa recente visita à ilha Terceira um destacado opositor à tauromaquia deslocou-se a uma das áreas na Rede Natura onde foi colocado “gado bravo” e verificou com algum espanto que um dos touros estava, qual humano, sentado e possuía entre as unhas uma chave dicotómica para identificação de espécies.

Deixando de parte a nota de humor, achamos vergonhosa a descriminação de que são vítimas alguns açorianos.
Os adeptos da tortura são os filhos, os outros são os enteados.

Algures nos Açores, 23 de Dezembro de 2014
Manuel Oliveira

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Resistência


Memórias da Resistência à Ditadura Militar e ao Estado Novo

Da autoria de António Ventura, Professor Catedrático de nomeação definitiva do Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa, a Câmara Municipal de Lisboa, presidida por João Soares, através do Museu da República e da Resistência editou, em 2001, o livro “Memórias da Resistência. Literatura Autobiográfica da Resistência ao Estado Novo”.

Para quem quer conhecer um pouco mais o que foi o nosso país, entre 28 de Maio de 1926 e 25 de abril de 1974, sugere-se a leitura do livro mencionado, onde o seu autor a par de apresentar uma breve biografia de alguns dos portugueses que, em condições muito difíceis, foram protagonistas do movimento de oposição à ditadura, dá a conhecer extratos de algumas das suas obras de carácter autobiográfico.
Dos resistentes ao Estado Novo mencionados neste livro dois são naturais dos Açores, Manuel Francisco Tavares Barbosa e Luís Cesariny Calafate.

Manuel Barbosa, natural de Ponta Delgada, na Ribeira Grande dirigiu durante muitos anos o Externato Ribeiragrandense, foi candidato pela oposição nas eleições de 1969 e participou no Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973.
No livro que vimos referindo, é publicado um extrato da sua obra “Luta pela Democracia nos Açores”, onde Manuel Barbosa dá a conhecer um pouco do que foi a cooperativa livreira Sextante.

Luís Calafate, natural da Horta, na sequência da sua participação na Revolta da Sé esteve asilado na Embaixada da Venezuela, tendo depois continuado a sua luta pela democracia no exílio. Em 1975, publicou o livro “A liberdade tem um preço”, publicado na Póvoa de Varzim, em 1975.

Para além dos dois resistentes já mencionados, o livro contém “depoimentos” de vários opositores ao Estado Novo que estiveram na condição de deportados nos Açores, a maioria dos quais presos no Forte Militar de Angra do Heroísmo.

No Forte Militar, as condições onde estavam eram tão desumanas que, em Março de 1936, um grupo de “presos políticos e sociais de Angra do Heroísmo” denunciou publicamente a situação, tendo referido como exemplo o “Calejão”, antiga cavalariça que fora considerada, por veterinários, imprópria para o gado e a “Poterna”, gruta escavada na rocha e localizada a seis metros de profundidade, onde a humidade era só por si torturante.

Pelos Açores, passaram o anarco-sindicalista Acácio Tomás de Aquino, os militantes comunistas, Bento Gonçalves, José Gilberto de Oliveira, Joaquim Pires Jorge, José da Silva e Manuel da Silva, os militares Francisco Horta Catarino e João Varela Gomes, o monárquico José Hipólito Vaz Raposo e uma destacada personalidade da Primeira República, Francisco Pinto da Cunha Leal.

Acácio Tomás de Aquino, que esteve preso antes de ir para o Campo da Morte Lenta, o Tarrafal, em Cabo Verde, escreveu “O Segredo das Prisões Atlânticas”, onde relata a sua experiência de prisioneiro tanto em Angra do Heroísmo como no Tarrafal.

Bento Gonçalves, que foi Secretário-geral do PCP, entre 1929 e 1942, esteve preso no Forte Militar de Angra do Heroísmo e foi condenado pelo Tribunal Militar de Angra do Heroísmo a seis anos de desterro. Foi enviado para o Tarrafal, tendo acabado por morrer vítima de uma biliose.

Francisco Pinto da Cunha Leal, que foi presidente do Ministério (primeiro-ministro) de um dos governos da Primeira República, contestou a política colonial do Estado Novo, tendo sido preso em maio de 1930 e deportado para Ponta Delgada.

O monárquico José Hipólito Raposo foi detido e deportado para os Açores na sequência da publicação, em 1940, do seu livro “Amar e Servir”.
João Varela Gomes, militar que esteve envolvido no assalto ao Quartel de Beja, em 1962, esteve desterrado nos Açores durante seis meses.
Para quem se interessa em conhecer melhor o passado, o livro de António Ventura termina com a indicação ou sugestão de outras obras e autores que poderiam ter feito parte da coletânea que serviu de inspiração a este texto.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30511, 17 de Dezembro de 2014, p.18)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Recreio das Salas


Alice Moderno e “O Recreio das Salas”


Por iniciativa de Alice Moderno, em novembro de 1888, viu a luz do dia pela primeira vez, em Ponta Delgada, uma nova publicação intitulada “O Recreio das Salas”. Dirigida por Alice Moderno, o primeiro número anunciava como colaboradores “alguns dos principais talentos que adornam a literatura Portuguesa”. Entre eles, destacam-se os nomes de Antero de Quental, Ernesto Rebelo, Francisco Maria Supico, Júlio Pereira Carvalho e Costa, Maria Amália Vaz de Carvalho, Moniz Ferreira e Xavier da Cunha.

O jornal mensal, como Alice Moderno o intitulava, estava dividido em várias seções: a noticiosa, a científica, a histórica e biográfica, a literária, a bibliográfica e por último a charadística, enigmática e recreativa.

Segundo Alice Moderno, o jornal que pretendia ser “decente, respeitador do lar, das cans e bom conselheiro da mocidade” tinha como maior ambição instruir, moralizar e recriar.

Em todos os números do jornal, Alice Moderno contribuiu com poemas até então inéditos ou que haviam sido lidos em vários eventos, de que são exemplos “1º de Dezembro” que havia sido recitado por um aluno numa “palestra académica” que ocorreu a 1 de dezembro de 1888, “Monólogo” que foi recitado numa “festa artística” realizada no Teatro Micaelense em 19 de Janeiro de 1889 e “Um Leão Reformado”, declamado numa récita de beneficência a favor do ator Afonso dos Reis Taveira, no dia 7 de Fevereiro de 1889.

Na secção histórica ou biográfica, Alice Moderno escreveu um texto sobre a vida e a obra de Charles Darwin.

Sobre a personalidade de Darwin, autor de, entre outros, “A origem das espécies”, Alice Moderno escreveu: “Disseram de Litré que havia sido um santo secular, o mesmo podemos dizer de Darwin se considerarmos a bondade, paciência, delicadeza e probidade de que era dotado e de que deu durante a sua existência as mais constantes provas”.

Sobre o darwinismo, Alice Moderno, escreveu que se podia sintetizar no seguinte: “Todas as espécies animais e vegetais, passadas e atuais, descendem de três ou quatro tipos originais e provavelmente d’um único tipo primitivo, cujas transformações se tem ido operando sucessivamente”.

Em 1889, o jornal O Arauto, da ilha Terceira” contestou o facto de Alice Moderno ter escrito, que a matrícula de uma aluna no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo ser “mais um passo dado a bem da instrução, do progresso e da civilização”. Numa crónica publicada no nº 3 d’ “O Recreio das Salas”, Alice Moderno responde ao autor da crítica nos seguintes termos: “não é lógico, filosófico, nem humanitário que o homem faça da instrução secundária ou mesmo superior uma propriedade exclusivamente sua”.

Na mesma crónica Alice Moderno refuta o argumento de “que a mulher não deve reinar onde estiver o homem”, com o seguinte afirmação: “Concordo em como não deve reinar! Neste caso sou apologista da república universal… não reine nem um nem outro ou antes, reine aquele, homem ou mulher, que se distinguir pela sua inteligência e pela sua erudição”.

A propósito de uma publicação intitulada “Escritoras espanholas contemporâneas” que lhe foi oferecida, Alice Moderno transcreveu, sem comentar, no jornal que vimos referindo, o prefácio. No mesmo, o autor referindo-se ao facto de uma mulher ter uma ocupação fora do lar escreve:
“Haverá algum marido, haverá filhos, que a façam esquecer os esplendores do passado pelas regalias do presente?
Existe o marido que ame a sua mulher a ponto de compensar-lhe o sacrifício, existem os filhos dignos de abnegação sublime, existe a mulher capaz de renunciar à glória entrevista, pela tranquila alegria familiar, existem cremo-lo, queremos crê-lo, mas esse marido, mas esses filhos, e sobretudo, essa esposa, essa mãe, essa mulher, essa artista, constituem uma excepção”

Vinte anos depois, em 1909, Alice Moderno, no seu jornal “A Folha” era bem clara sobre o direito da mulher ao trabalho, quando apela aos pais para que, em vez de estarem preocupados com dotes para a filha, lhe darem “educação que a habilite a bastar-se a si própria, uma profissão que a ponha ao abrigo da miséria, com todas as suas tentações, e da dependência, com todas as suas revoltantes baixezas”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30505, 10 de Dezembro de 2014, p. 12)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Alice Moderno e a educação


Alice Moderno, o ensino e a Revista Pedagógica

“85% de analfabetos numa região europeia! Chega a causar vertigens e calafrios, e nada mais seria preciso para que o regímen monárquico que mantinha no trono os Braganças fosse condenado à pena última por queles que, por acaso, sabem ler”
(Alice Moderno, Revista Pedagógica, nº 199, 14 de dezembro de 1911)
De 1909 a 1915, publicou-se, em Ponta Delgada, a “Revista Pedagógica que teve como proprietária e diretora a professora primária Maria Evelina de Sousa. Como redatores principais, entre outros, destacaram-se Alice Moderno, Aires Jácome Correia (Marquês de Jácome Correia), Luís Leitão, Fontana da Silveira e Ulisses Machado.
Alice Moderno, para além de ser a colaboradora mais assídua, também dirigiu a revista na ausência de Maria Evelina de Sousa, o que terá acontecido entre os números 108 e 112, publicados em 1909.
De entre a colaboração que Alice Moderno prestou à Revista Pedagógica, destacamos, pela duração no tempo, a tradução livre da rubrica “Usos Sociais” que era da autoria da Baronesa de Savernon.
A Revista Pedagógica manteve ao longo dos anos em que foi editada um espaço dedicado à poesia, intitulado “Guarda-joias”, onde foram publicados poemas de vários autores, como Antero de Quental, Maria Veleda, Mário Pacheco e Alice Moderno.
Na rubrica referida, Alice Moderno publicou, entre outros, os seguintes poemas: “Amor Supremo”, escrito para uma récita de uma grande gala realizada no Teatro Micaelense, “A Itália Vitaliani”, “Jogos Florais”, soneto dedicado ao Marquês de Jácome Correia, e “A João Melo Abreu”, poesia que foi impressa na fita de uma coroa deposta sobre o seu ataúde.
Sobre a temática do ensino propriamente dito, Alice Moderno escreveu vários textos onde teve a oportunidade de expor o seu pensamento.
De entre eles, destacamos “Palavras de um “toast”, escrito em Angra do Heroísmo, a 22 de outubro de 1911, dedicado aos professores primários (hoje designados de professores do 1º ciclo do ensino básico).
No seu texto, Alice Moderno saúda os professores primários, dizendo que eles são “os funcionários mártires da instrução” e acrescenta, citando Renan “que o futuro intelectual do indivíduo depende principalmente de quem lhe ensina a ler” e termina afirmando que “a leitura, inteligentemente assimilada em tenros anos, pode fazer sábios, como a rotina sabe fabricar cretinos”. Alice Moderno conclui o seu curto texto, saudando “entusiasticamente os membros conscientes, independentes e dignos da classe à qual o estado menos paga e da qual mais exige…”
Outro texto que merece referência foi o publicado a 9 de dezembro de 1909, intitulado “Médicos Escolares”, onde Alice Moderno solidariza-se com a opinião de Maria Evelina de Sousa que numa reunião realizada em Ponta Delgada defendeu a necessidade de médicos escolares que deveriam visitar as escolas quinzenalmente a fim de verificar se aquelas se encontravam em boas condições de higiene “e se as crianças que as frequentavam estão em boas condições que lhes permitam matricular-se num estabelecimento de instrução, a que concorrem muitas outras que têm direito a não serem contaminadas pela doença alheia”.
Alice Moderno, para além de professora particular, foi nomeada regente da Escola Móvel de Ponta Delgada, tendo, no dia 15 de outubro de 1913, proferido a alocução inaugural.
No seu discurso Alice Moderno elogiou o regime republicano por “procurar extinguir, no feracíssimo solo lusitano, as flores nefastas da ignorância e da superstição” que infelizmente continuam a proliferar nos nossos dias.
Pelo interesse que tem para melhor conhcermos o pensamento de Alice Moderno, para terminar esta minha colaboração de hoje, abaixo apresenta-se um extrato do discurso mencionado:
“ A verdade é que somos todos iguais.
Iguais no nascimento, pelo sofrimento, e perante a morte. O que desnivela os homens é unicamente, mas cumpre dizê-lo inexoravelmente, a diferença de educações.
Instruí-vos, educai-vos, e colocar-vos-eis a par dos primeiros entre os vossos semelhantes.”
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30495, 26 de novembro de 2014, p.15)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

1º de Maio


A Propósito do primeiro 1º de Maio em São Miguel
Com o objetivo de reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas de trabalho diário realizou-se, a 1 de Maio de 1886, em Chicago, nos Estados Unidos da América uma greve que contou com a participação de 350 mil trabalhadores. Na sequência de um confronto entre a polícia e os grevistas foi convocada uma manifestação para o dia 4, tendo no decorrer desta morrido um polícia, resultado de uma explosão, e sido assassinados 80 operários. Foram presos alguns dos líderes, dos quais, depois de encerrado o processo, em Outubro de 1887, quatro foram enforcados, cinco condenados à morte, três condenados a prisão perpétua e um foi morto, em circunstâncias estranhas, na prisão.
Três anos mais tarde, em 1889, em homenagem aos mortos de Chicago, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário.
Em Portugal, as comemorações do 1º de Maio terão começado em 1890 e até 1894 as manifestações limitaram-se às cidades do Porto e de Lisboa. Nesta cidade, o número de participantes cresceu de 3000, em 1894, para 30 000, em 1896.

Em 1897, pela primeira vez o 1º de Maio foi celebrado, na ilha de São Miguel (nos Açores?), por iniciativa de Alfredo da Câmara que perfilhava ideias socialistas e entre os seus objetivos estava a luta pelas 8 horas de trabalho, que só viriam a ser conquistadas no ano de 1919.

A 25 de Abril de 1897, o jornal “O Repórter” anuncia para o sábado seguinte, 1 de maio, a realização de uma marcha em Ponta Delgada “que percorrerá as ruas da cidade, levando à frente a filarmónica “União Fraternal”, que já aderiu a este pensamento”.

A 30 de Abril, foi publicado um suplemento d’ “O Repórter”, onde é feito um convite a “todos os artistas e operários” para participarem na marcha que, segundo os organizadores, não é mais do que uma “manifestação pacifica” que tem “unicamente por fim adherir ao grande movimento operário das 8 horas de trabalho, que se vae alastrando por todos os paizes cultos”.
No dia 1 de Maio algumas centenas de pessoas, a maioria operários, reuniram-se “num espaçoso granel na rua do Brum, cedido bizarramente pelo abastado industrial sr. José Maria Caetano de Matos”. A seguir, falaram, o organizador do evento, Alfredo da Câmara, “que pela primeira vez falou em público” e Manuel da Câmara, colaborador da “Actualidade”, que fez a apologia dos ideais socialistas.

Depois dos discursos, todos os presentes integraram uma marcha “aux flambeaux”, “abrilhantada” pela filarmónica “União Fraternal”, que percorreu as principais ruas de Ponta Delgada.

No mesmo dia saiu uma edição especial do jornal “O Repórter” que, para além de um texto da responsabilidade da redação, contou com a colaboração de Francisco Maria Supico, farmacêutico de formação e influente jornalista e político ligado ao Partido Regenerador, Read Cabral, A.S. Alvim e Victor Cabral.

No seu texto, a redação do jornal (Alfredo da Câmara?) aborda sobretudo a falta de instrução dos operários como a causa principal dos problemas que os afetam e apela a que os mesmos trabalhem “sem exaltação mas sem desânimo, pela redução das horas de trabalho” pois só assim “encontrarão tempo para o estudo”.

Francisco Maria Supico elogia os partidários do socialismo por não imporem a sua ideia pela força mas sim “exaltam-na e defendem-na no campo sereno do exame e da crítica, e nas desapaixonadas discussões scientificas, pelo seu real valor afirmado em diarias conquistas”.
Read Cabral, no seu diálogo entre um industrial e os operários da sua fábrica, defende a conciliação de interesses entre os intervenientes, terminando o texto com a seguinte frase: “mas lembrem-se rapazes, que o capital e o trabalho são factores que teem necessariamente de caminhar par-a-par”.
A.S. Alvim por seu lado, defende as oito horas de labor e faz o elogio do trabalho que segundo ele não pode ser excessivo pois “a fadiga bestifica o intelecto, achaca a matéria, e desalenta o espírito, fornecendo assim excellente repasto aos abutres da seita negra. Fugi d’isso.”
Por último, Victor Cabral, continuando a defender a necessidade da conciliação de interesses entre classes, escreve o seguinte: “Se ao patrão e ao proprietário fica a imposição de não abusar do trabalhador em seu proveito, e de rodeá-lo de condições de salubridade, ao operário cumpre o desempenho das obrigações que o seu contracto lhe estabelece”.
Teófilo de Braga
(Correio dos Açores, nº 30489, 19 de Novembro de 2014, p.15)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A transição para a democracia em Vila Franca do Campo


A transição para a Democracia em Vila Franca do Campo

“Em fins de 1975 as elites de agora são as mesmas de ontem, acrescentadas de uns poucos que, hábeis, subindo a tempo, ocuparam um lugar” J. Rentes de Carvalho
Sempre com o objetivo de melhor conhecer a terra que me viu nascer, tenho pesquisado nos jornais locais, como “O Autonómico”, “A Vila” e “A Crença”, e no “Correio dos Açores”, de Ponta Delgada, tudo o que se relaciona com a vida social e política do concelho de Vila Franca do Campo, desde a implantação da República até aos nossos dias.
Tal como no resto do país, em Vila Franca do Campo, durante do Estado Novo havia uma convergência de opinião ou mesmo cumplicidade entre o governo de então e a hierarquia da Igreja católica.
Mais do que ter uma voz persistente e pública a louvar as políticas do Estado Novo, a Igreja de Vila Franca do Campo fazia o que era feito em toda a parte, isto é, calava todas as injustiças sociais criadas e mantidas pelo sistema económico vigente e que de algum modo perdura, silenciava a violência da guerra colonial para os jovens vila-franquenses e para os habitantes das chamadas colónias ou territórios ultramarinos e ignorava que direitos humanos básicos, como o direito de reunião ou a liberdade de expressar as suas opiniões, etc. eram desrespeitados.
João Miguel Almeida, no seu livro “A oposição católica ao estado novo” escreveu que, com exceção do Bispo do Porto, só com o aproximar do fim do marcelismo a hierarquia da igreja começou “a tomar as suas distâncias com vista a evitar- e evitou- o erro trágico da queda da monarquia: o de morrer abraçada aos vencidos.”
No caso de Vila Franca do Campo, a partir de 1957 passaram a existir dois semanários, “A Vila” e “A Crença”.
“A Vila”, de carácter noticioso e bairrista, que era dirigido por um dos dirigentes da União Nacional, o distinto médico Dr. Augusto Botelho Simas, encarregava-se de transmitir a ideologia do regime e de noticiar, de vez em quando, as atividades das organizações que o suportavam.
“A Crença”, fundada em 1915, dirigida pelo padre António Jacinto de Medeiros, raramente trazia um texto noticioso sobre a vida política ou qualquer referência à atividade local, limitando-se a apresentar assuntos de caracter religioso. A título de exemplo, para confirmar o referido anteriormente, faça-se uma consulta aos anos de 1973 e de 1974.
Se não me passou despercebido, o primeiro texto que A Crença publicou sobre as alterações ocorridas a 25 de Abril de 1974 foi a transcrição de uma comunicação do presidente da República General António de Spínola a que deu um curioso título: “Chegou a hora de se assumirem e de se exigirem responsabilidades, saneando por igual, o dirigente inepto ou corrupto, o funcionário venal, o trabalhador parasita e improdutivo e o político oportunista, autocrático ou demagogo”.
Depois deste texto muitos outros se seguiram com o objetivo de alertar para a incompatibilidade entre o cristianismo e o comunismo/marxismo, socorrendo-se de artigos publicados em outros meios de comunicação social que por sua vez citam bispos de outras paragens e o papa Paulo VI que curiosamente foi um papa que foi persona non grata para o regime de Salazar.
A este propósito o escritor J. Rentes de Carvalho relata a censura que sofreu um artigo publicado numa revista onde se podia ler “Paulo VI é um homem inteligente”. A censura não permitiu que a frase saísse completa, pelo que o título ficou apenas “Paulo VI é um homem”.
Excluindo algumas escaramuças ocorridas no chamado Verão Quente, quase todas da responsabilidade de gente de fora do concelho, evidentemente com cúmplices locais, alguns ligados até ao tutano à ditadura derrubada, a transição para a democracia, tal como a que temos hoje, foi pacífica, bastando para tal a conversão à partidocracia por parte de quem antes achava que bastava um só partido.
Se alguém fizer um levantamento de todas as pessoas que em Vila Franca do Campo, desde o 25 de Abril de 1974 até hoje, ocuparam cargos partidários ou que foram membros dos órgãos autárquicos, facilmente concluirá que um número significativo, pelo menos nos primeiros anos da democracia, militaram antes na União Nacional ou na Ação Nacional Popular. No caso da Câmara Municipal, pelo menos 50% dos seus presidentes foram militantes daquele partido único.
Mal não viria ao mundo se os antidemocratas de ontem reconhecessem os seus erros e tivessem vindo a público declarar que estavam equivocados ao terem sido os suportes de uma ditadura e que humildemente aceitavam viver em democracia e dar o seu contributo para que o “poder” passasse efetivamente para o povo.
Como muito bem disse um conhecido político que já devia se ter remetido ao silêncio: “só os burros é que não mudam”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores nº 30451, 1 de outubro de 2014, p.14)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ainda sobre as férias


Como estamos em Agosto, mês em que a maioria das pessoas gosta de gozar as suas férias, darei continuidade ao texto iniciado na semana passada que abordava visitas por mim efetuadas ao Parque Terra Nostra, à Caldeira Velha e ao ilhéu de Vila Franca do Campo.
O relato referente à visita ao ilhéu de Vila Franca do Campo mereceu um simpático esclarecimento por parte da SPEA- Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves que, entre outras questões, refere que as vidálias que foram lá plantadas tiveram como progenitoras duas plantas já existentes quando começou a intervenção em 2009.
A presença de vidálias no ilhéu, que nunca havia observado, foi confirmada por pessoa amiga que me enviou uma fotografia, de 2007, onde já se pode ver uma planta na época de floração. Esta constatação não deixa de suscitar a seguinte questão: estando, se não estou enganado, as mais próximas na costa do Faial da Terra, como chegaram as vidálias a Vila Franca do Campo?
Outro local por mim visitado, este mês, foi a Ferraria, local único para quem gosta de tomar o seu banho de mar.
Não me vou alongar em relatar as intervenções mal conseguidas feitas no local, pois muitas páginas de jornais têm sido ocupadas com o assunto, apenas queria lembrar que a classificação do local como área protegida surgiu na sequência de uma proposta apresentada pelos Amigos dos Açores- Associação Ecológica, em Outubro de 1988.
Aquando da apresentação da proposta, acreditava-se que “a preservação ambiental do Pico das Camarinhas e da Ponta da Ferraria em conjunto com a sua utilização racional para fins recreativos e turísticos, enquadrada pelo Farol da Ferraria e pelo Miradouro do Escalvado, poderá contribuir para a conservação da paisagem desta zona da ilha e para o desenvolvimento económico das freguesias limítrofes”.
Será que algum daqueles objetivos está a ser atingido?
Outro local que visito e onde levo sempre pessoas a visitar é a Gruta do Carvão, em Ponta Delgada, que conheço desde os primeiros anos da década de oitenta do século passado.

Hoje, parece que já ninguém duvida, a Gruta do Carvão é um caso de sucesso, quer em termos de polo turístico, quer como centro de divulgação de ciência e de educação ambiental.

Para chegar à situação atual foi percorrido um longo caminho, alguns voluntários muitas horas do seu merecido descanso despenderam, muitas barreiras e incompreensões tiveram de ser ultrapassadas, apesar de algumas promessas e projetos terem ficado por cumprir.

Não querendo perder muito tempo com as incompreensões, apenas relataria o que aconteceu quando a gruta foi afetada por obras realizadas na rua Pintor Domingos Rebelo.

Juntei algumas fotografias do seu interior de forma a mostrar as suas amplas dimensões e alguns pormenores, nomeadamente estalactites e bancadas laterais, e dirigi-me à Câmara Municipal de Ponta Delgada com o objetivo de sensibilizar o seu presidente para a necessidade de intervir o menos possível na gruta, pois a mesma apresentava um elevado potencial turístico e não só.

Não tive que esperar, não digo que fui mal recebido, mas a minha desilusão foi total. Ao ver as fotografias, o presidente apenas disse-me: “não sou coelho”. A seguir, mandou chamar o responsável pelas obras que, ao ver as fotografias, afirmou, referindo-se ao escoamento de águas das casas de banho da Escola do Carvão para a gruta, todo sorridente e pensando que tinha sido ele o responsável por uma grande ação: “Fui eu que mandei canalizar estes tubos para aí”.

Deles e de outros que nunca compreenderam a importância daquele monumento natural não guardo qualquer rancor, eram de outros tempos, tinham outros interesses, tiveram outra educação. Apenas, tenho pena de já não estarem entre nós para poderem ver, através de uma visita à gruta, como estavam enganados.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30416, 20 de Agosto de 2014, p.15)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Hiroshima



A PROPÓSITO DA BOMBA DE HIROSHIMA
“De todas as alterações que os homens introduziram na natureza a fissão nuclear em escala industrial é sem dúvida a mais perigosa e a mais profunda. Em consequência disso, as radiações ionizantes tornaram-se o mais sério agente de poluição do meio ambiente e a mais grave ameaça à sobrevivência do homem sobre a Terra.” Schumacher, Small is Beautiful
A 6 de Agosto de 1945, a Alemanha já estava derrotada, a Itália já se havia rendido e Hitler e Mussolini, já se encontravam no Inferno a pagar pelos seus pecados. Apenas restava o Japão que ainda resistia, mas já estava de joelhos.
Pelas 8 horas e 15 minutos do mencionado dia um avião dos Estados Unidos lançou uma “ogiva secreta de quase 20 quilos e potência equivalente a quase 20 mil toneladas de TNT”. O resultado, segundo Ireneu Gomes, foi a morte de 78 150 pessoas só no primeiro segundo após a detonação da bomba, 13 983 desaparecidos e 130 mil pessoas mortas, ao longo dos anos, vítimas da radiação.
Como se este horror fosse pouco, três dias depois outra bomba foi lançada sobre a cidade de Nagasaki, onde terão morrido cem mil pessoas.
Para alguns autores, a derrota do Japão estava assegurada pelo que o lançamento das duas bombas atómicas foi um crime contra a humanidade já que as principais vítimas foram populações indefesas e não passou de uma demonstração de força para todo o mundo e em especial para a União Soviética.
A rendição do Japão foi o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da “guerra fria”. Começou uma corrida louca aos armamentos, desde os ditos convencionais, aos nucleares, passando pelos químicos, por parte das duas superpotências imperialistas, os Estados Unidos da América e a União Soviética.
Hoje, com a quantidade e a qualidade dos armamentos disponíveis, se algum dos conflitos regionais se transformar numa guerra mundial as consequências para a humanidade serão incalculáveis. Como muto bem escreveu Albert Einstein, que é considerado um dos pais da bomba atómica e que se terá arrependido de ter escrito uma carta, a 2 de Agosto de 1939, ao presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Roosevelt, onde mencionava a possibilidade da criação de um novo tipo de bomba e sugeria os caminhos a serem seguidos: “Não sei que armas serão empregadas numa Terceira Guerra Mundial. Mas tenho a certeza de que, se houver uma Quarta Guerra Mundial, as armas serão paus e pedras”.
Nos Açores, os jornais referiram-se ao evento, nos dias a seguir, tendo relatado o ocorrido nas duas cidades japonesas e feito menção aos prodígios da energia nuclear.
No dia 9 de Agosto, o Correio dos Açores transcreveu uma notícia com origem em Lisboa e datada do dia anterior, intitulada: “A bomba atómica lançada sobre Hiroshima matou todos os seres vivos: homens e animais”. De acordo com a mesma notícia o “segredo do novo invento “foi levado por “uma senhora que conseguiu fugir da Alemanha para o campo aliado”.
Noutro texto, publicado no Correio dos Açores, no mesmo dia, refere-se a revolução que a descoberta da fissão nuclear trará para a humanidade. Assim, na altura, acreditava-se que a invenção poderia “fazer mover, indefinidamente, toda a espécie de veículos mecânicos, com uma quantidade diminuta de novos combustíveis, e será o fim do petróleo e de todos os seus derivados, será o fim das grandes fábricas que produzem energia” e resolveria “o problema das comunicações interplanetárias”.
No dia 16 de Agosto, o Correio dos Açores reproduz um texto publicado, em 1920, pela revista portuguesa de engenharia “Eletricidade e Mecânica”. Neste, o autor, para além de fazer uma descrição do átomo, hoje já ultrapassada, prevê a utilização da energia atómica como substituta do carvão e refere as suas possíveis utilizações.
A dado passo do texto, o autor refere que Sir Oliver Lodge, numa comunicação na Royal Society of Arts, em Londres, considerou que a energia atómica era tão “rica de aplicações” que se congratulava pelo facto do homem ainda não a saber utilizar. Segundo ele, a descoberta do modo como usar a energia atómica só devia ocorrer quando o homem tivesse “a inteligência e a moralidade necessárias para bem aplica-la, porque se esta descoberta for feita pelos maus, este planeta tornar-se-á inabitável”.
Infelizmente, a moralidade muitas vezes mete férias e a inteligência quando existe não é usada.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30405, 6 de Agosto de 2014)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Alice Moderno e a ALRA



Alice Moderno e a ALRA

Muito pouco se tem escrito sobre Alice Moderno e quando se escreve, algumas vezes esconde-se partes da sua vida e obra, outras vezes repetem-se falsas informações sem ter o cuidado de ir às fontes primárias ou mesmo ir além das simples pesquisas na internet.

Não sei que fonte ou fontes consultou a ALRA- Assembleia Legislativa Regional dos Açores para elaborar a nota biográfica de Alice Moderno (http://base.alra.pt:82/Doc_Noticias/NI6520.pdf), mas tenho, num caso, muitas dúvidas acerca do rigor de algumas das afirmações e, no outro, tenho a certeza de que se trata de um engano ou erro, espero que não voluntário.

Vejamos a primeira afirmação: “Republicana, depois de 1910, com a implantação da República Portuguesa, passou a participar ativamente na vida social e política de Ponta Delgada, designadamente na campanha a favor da aprovação da lei do divórcio.”

Escrever que Alice Moderno passou a tomar parte na vida social apenas depois de 1910 é ignorar que desde que começou a sua “vida literária”, em 1883, até à implantação da República, a “mulher piorneira” publicou “Aspirações”, “O Dr. Sandoval”, “Os mártires do Amor”, “No Adro”, “Açores: Pessoas e Coisas”, “Os Mártires” e “Mater Dolorosa”. É, também, passar uma esponja sobre a sua atividade jornalística, como fundadora do jornal “Recreio das Salas”, colabora ativa do “Diário de Anúncios” e fundadora do jornal “A Folha”.

Tanto quanto é do meu conhecimento, o divórcio foi legalizado em Portugal através de um decreto publicado a 3 de Novembro de 1910, portanto menos de um mês após a implantação da República, pelo que tenho muitas dúvidas acerca da ocorrência de uma campanha realizada entre 5 de Outubro de 1910 e 3 de Novembro do mesmo ano.

Aproveito, a oportunidade, para divulgar o que Alice Moderno escreveu sobre o assunto. No jornal “A Folha” de 16 de Outubro de 1910, pode ler-se:
“Informam telegraficamente que em dezembro próximo será decretada a lei do divórcio. Assim devia ser, e semelhante medida está perfeitamente de acordo com a perfeita orientação do governo provisório da República Portuguesa. O divórcio é permitido em todos os países em evidência pela sua supremacia intelectual, e, muito longe de contribuir para a dissolução da família, é, pelo contrário, um incentivo para a perfeita constituição da mesma”.

A 13 de Novembro, do mesmo ano, na rubrica “URBI ET ORBI”, no mesmo jornal, o assunto do divórcio é referido do seguinte modo:

“ Como noticiáramos no nosso último número, já foi decretada a lei do divórcio…Um telegrama para um nosso colega diário diz ter essa lei dado origem a muitos protestos. Suporão os protestantes que o divórcio é obrigatório, como o serviço militar?!”

A segunda afirmação “Legou os seus bens a diversas causas de beneficência e adquiriu o imóvel das Capelas destinado à Casa do Gaiato”, não faz qualquer sentido como se poderá verificar através da apresentação de alguns dados.

No dia 31 de Janeiro de 1946, Alice Moderno faz um testamento deixando como herdeira proprietária dos seus bens a Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, ficando esta obrigada a criar um hospital para animais no prazo de dois anos após a sua morte.

Alice Moderno morre em Fevereiro de 1946 e menos de dois anos depois começou a funcionar um espaço na Rua Coronel Chaves que mais parecia um canil do que um hospital, passando depois para novas instalações que, segundo a prof. Conceição Vilhena, “afirma-se, não tem aquelas dimensões desejadas pela sua fundadora”.

Depois da morte do seu irmão, Vítor Rodrigues Moderno, em 1953, que era o usufrutuário dos bens de Alice Moderno, a Junta Geral, em reunião realizada em 1954, decidiu vender todos os bens e comprar uma casa e propriedade para a instalação da Casa do Gaiato.

Como se poderá concluir Alice Moderno não comprou a Casa do Gaiato, nem deixou em seu testamento nenhuma indicação nesse sentido, tendo a aquisição sido da única responsabilidade da Junta Geral.

Se estiver errado darei a mão à palmatória.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30393, 23 de Julho de 2014)