sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
SOBRE A PARTICIPAÇÃO CÍVICA E POLÍTICA DE NATÁLIA CORREIA
Teófilo Braga
Filha de Manuel de Medeiros Correia e de Maria José de Oliveira, Natália Correia nas-ceu na freguesia da Fajã de Baixo, concelho de Ponta Delgada, no dia 13 de setembro de 1923 e faleceu em Lisboa a 16 de março de 1993. Ao longo da sua vida, Natália Cor-reia distinguiu-se como uma lutadora contra as ditaduras, tendo sido a mãe a intro-duzi-la nos meios da oposição ao Estado Novo. Se é verdade que recebeu o fim da ditadura com entusiasmo, também é verdade que seguiu com apreensão os aconte-cimentos ocorridos após o 25 de abril de 1974, tendo manifestado alguma da sua de-silusão na imprensa e no livro Não Percas a Rosa.
Não se subordinando a nada nem a ninguém, pode parecer contraditório com o seu pensamento a sua participação política após o 25 de Abril de 1974, nomeadamente a sua experiência como deputada na Assembleia da República, eleita em listas do PSD e do PRD. Sobre este assunto, Dacosta (2013) refere que “a passagem pela Assem-bleia da República depressa a desiludiria das formações políticas existentes entre nós. Interesses lobísticos, jogos pessoais, disciplina partidária, rigidez burocrática, não se coadunavam com as suas posturas de defesa da liberdade, da cultura, do bem comum” (p.148). Também será estranha a sua ligação ao movimento independentista dos Açores, cujos dirigentes tinham sido apoiantes do Estado Novo que ela combateu.
Mulher inigualável, cidadã independente, que não se vergava perante os contratem-pos, Natália Correia não deixou ninguém indiferente, merecendo que a sua vida e obra sejam mais conhecidas do grande público. Neste texto, necessariamente incom-pleto, pretendemos dar a conhecer alguns aspetos da sua participação cívica e políti-ca antes e depois do 25 de Abril de 1974.
Em ditadura
Natália Correia chega a Lisboa em 1934, acompanhada da mãe e da irmã, um ano após ter sido aprovada a Nova Constituição que da-va início ao Estado Novo, acabando com a Ditadura Militar instaurada com o golpe de 28 de maio de 1926. Em Lisboa, frequenta o Liceu Filipa de Lencastre onde será expulsa ou retirada pela mãe, por se recusar a fazer o “caderno diário” ou “porque a sua mãe não autori-zou o ingresso na Mocidade Portuguesa Feminina”. (Magalhães, 2006, pp. 41 e 42) Em 1933, foi publicada legislação diversa que cri-ava as bases da organização do regime, da qual destacamos a cria-ção, a 29 de agosto, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, a PVDE que, por várias vezes, atormentou a vida de Natália Correia.
Em 1945, de acordo com Mário Soares, citado por Ângela Almeida (1994, p.5) Natália Correia fez parte do Partido Trabalhista que teve uma vida muito curta, tendo em 1947 sido integrado no Partido Socia-lista Português, onde se distinguia António Sérgio, com quem Natália Correia colaborou no âmbito do cooperativismo. Natália Correia terá sido, segundo Ângela Almeida, uma das subscritoras das listas de adesão ao MUD – Movimento de Unidade Democrática, nascido em 8 de outubro de 1945, organização de oposição ao regime fascista de Salazar, tendo integrado a sua Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos.
Depois de ter sido uma das 8 mulheres, ao lado de 200 homens, a assinar, em 1946, uma carta, iniciativa da comissão referida anteri-ormente, dirigida ao Presidente da República a exigir a democratiza-ção do país, Natália Correia passou a ser vigiada regularmente pela polícia política. A 10 de abril de 1947 falhou mais uma tentativa de golpe militar por parte da Junta Militar de Libertação Nacional, em que estiveram envolvidos civis como João Soares e Castanheira Lobo, bem como as irmãs Natália e Cármen que iriam prestar serviço de lo-cutoras do “Serviço de Libertação Nacional”. (Pimentel, 2013, pp. 249 e 252 e Magalhães (2006, p.52)
Depois de ter aderido, em 1947, Natália Correia foi vogal da dire-ção da Cooperativa Fraternidade Operária, de Lisboa, tal como Antó-nio Sérgio, sendo presidente da organização Amílcar Ramada Curto (1886-1961), advogado que pertenceu ao antigo Partido Socialista Português, fundado em 1875 (Magalhães, 2006, p.53). No âmbito do movimento cooperativista, Natália Correia, em 1948, foi autora de dois textos: um intitulado “Cooperativismo”, publicado no jornal Sol, a 1 de maio, e outro com o título “Verdadeira Cooperação”, publicado, no mês de novembro”, no “Boletim Informativo das Cooperativas” (Correia, 2018, p.15 e 19) Também em 1948, Natália Correia, foi inter-rogada pela PIDE/DGS em virtude de sua mãe Maria José de Olivei-ra, que pertenceu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a convite de Maria Lamas, ter sido acusada de fazer propaganda contra o Estado Novo.
Em 1949, Natália Correia apoia publicamente a candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República (Magalhães, 2006, p. 54), que acaba por não ir às urnas, tendo apesar disso obti-do “bons resultados em partes do império onde a notícia da sua reti-rada não tinha chegado, acabando por ganhar na cidade angolana de Benguela (Meneses, 2014, p.36).
No 1.º Congresso Republicano, realizado no dia 6 de outubro de 1957, no Teatro Aveirense, Natália Correia “denunciou o “malthusia-nismo intelectual” de elites muito restritas e ciosas do seu domínio sobre uma sociedade arcaica e maioritariamente iletrada” (Pimentel, 2013, p. 311). De acordo com Magalhães (2006), “Natália participa neste congresso com a comunicação intitulada Política de espírito desnacionalizante. Nesta comunicação a autora sublinha o facto de a acção da censura e a proibição de obras de carácter científico, por versarem determinados assuntos sensíveis aos olhos do regime, conduzirem a uma desnacionalização da formação académica, uma vez que era necessário procurar os livros nas suas línguas originais. Embora o tema da comunicação seja revestido de um carácter sim-ples e quase inocente, traduziu-se num feroz ataque às instituições repressivas do Estado Novo.”
Em 1958, Natália Correia envolveu-se na candidatura de Humberto Delgado, tendo participado em jantares, onde era figura de destaque ao lado daquele general. Em novembro do ano seguinte, 1959, Natá-lia Correia vê o seu livro Comunicação ser apreendido pela PIDE, depois de ter sido, no mês anterior, proibido pela Censura (Maga-lhães, 2006, p.65). Depois deste, Natália Correia viu durante o Estado Novo outras obras suas serem apreendidas, como a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade, em 1966, A pécora, em 1967 e O Encoberto, em 1969.
A tomada do paquete Santa Maria, em 1961, por Henrique Galvão e seus companheiros do Diretório Ibérico de Libertação, foi seguida atentamente por Natália Correia que, em homenagem, escreveu um poema a que intitulou de Cântico do País Emerso (Magalhães, 2006, p.67), editado pela Contraponto, de Luiz Pacheco.
Em 1966, em resultado da publicação da Antologia de Poesia Por-tuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade, Natália Correia, bem como o editor Fernando Ribeiro de Melo, e al-guns dos poetas autores de textos incluídos na obra, são alvos de um processo que só terminaria em 27 de junho de 1973. Natália Cor-reia foi julgada em Tribunal Plenário, tendo sido condenada a três anos de cadeia com pena suspensa.
Em 1969, realizaram-se em Portugal eleições legislativas. A oposi-ção ao Estado Novo dividiu-se e, enquanto o PCP apoiou as CDE – Comissões Democráticas Eleitorais, a ASP – Ação Socialista Portu-guesa decidiu lançar a CEUD – Comissão Eleitoral de Unidade De-mocrática. Natália Correia, esteve ao lado dos socialistas na CEUD e dos também escritores José Régio, Sophia de Mello Breyner Andre-sen e Ruy Belo.
Mulher de coragem, Natália Correia, sempre que podia, manifesta-va publicamente a sua opinião. Mesmo no enterro do pensador António Sérgio, em 1969, quando o seu caixão descia à terra, Natália Cor-reia gritou: “É uma vergonha que este homem seja enterrado sem um morra ao fascismo” (Tomé, 2010, p.179).
Em 1972, Natália Correia voltou a ter problemas com a justiça, na sequência da publicação do livro Novas Cartas Portuguesas, de Ma-ria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Isabel Barreno, considerado de “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pú-blica”, pois era, na altura, a diretora literária dos Estúdios Cor. A situa-ção foi ultrapassada, pois estando ela ainda a cumprir a pena de pri-são suspensa, a responsabilidade pela edição foi assumida por intei-ro por Romeu de Melo, administrador daquela editora.
Em Democracia
Natália Correia, durante o Verão Quente, esteve na oposição “às tentativas de tomada de poder por forças do PCP”. De acordo com Dacosta (2001, p.184): Não Percas a Rosa diário que ela escreveu sobre esses meses de brasa, tornou-se uma premonição: do fim do 25 de Abril, da queda do bloco de Leste, da supremacia liberalista, da ditadura mercantilista, da perversão globalizadora”.
No que diz respeito ao modo como Natália Correia era vista no meio libertário, Dacosta (2013, p.55) refere que, num colóquio sobre homossexualidade, ocorrido a seguir ao 25 de abril, no Centro Naci-onal de Cultura, o espaço foi esgotado pelas “correntes mais jovens e libertárias (anarquistas e independentes)”. O jornal Voz Anarquista, de 28 de março de 1975, que apresenta Natália Correia como “nossa camarada e digna escritora”, transcreve um texto publicado em pri-meira mão no jornal vespertino A Capital intitulado “Que democra-cia?”, onde ela critica algumas limitações à liberdade por medo do excesso de democratismo. No seu texto, entre outras chamadas de atenção, Natália Correia alerta para o seguinte: Que o projecto de li-berdade individual foi pervertido pelo liberalismo que lhe deu forma; que a esperança de liberdade colectiva foi gorada pelo socialismo que a hasteou; que a aspiração do homem total foi atraiçoada pelas ideologias marxistas que a encarceraram. Quaisquer destas ilusões fizeram cair nos ardis do poder as liberdades que prometeram.
Durante o chamado PREC, e mesmo após o 25 de novembro de 1975, Natália Correia aliou-se ao movimento independentista açoria-no que então tinha como principais dirigentes figuras que haviam si-do apoiantes e dirigentes do Estado Novo, o que estava em contradi-ção com o seu espírito, de algum modo, libertário, tendo participado em várias reuniões “conspirativas”, sobretudo na ilha de São Miguel. Margarida Victória, relata várias reuniões onde esteve presente Natá-lia Correia na sua casa na Fajã de Baixo e no ilhéu de Vila Franca do Campo, onde a FLA, que reuniu à volta de um cozido cerca de meia centena de independentistas, convidou “Vitorino Nemésio a ser o Presidente da República se os Açores se tornassem independentes.” (Victória, 2004, p.168)
Relativamente ao independentismo/separatismo, Fagundes Duar-te, num texto intitulado “Quando se descobriu que Natália era açoria-na”, relata um episódio caricato, que abaixo se transcreve: Nemésio encontrava-se em Barcelona, sofria de…, e na noite de 30 para 31 de Março de 1976 foi acordado por Margarida Vitória e por Natália Cor-reia que, ao telefone, lhe pediam que regressasse de imediato a Lisboa, onde seriam recebidos – os três – pelo Gen. Ramalho Eanes, futuro candidato à Presidência da República, a quem iriam expor a situação que então se vivia no Arquipélago, e pedir apoio para a cau-sa da independência dos Açores. (…) Em resposta ao pedido das duas amigas, o poeta regressou a Lisboa, de maca, e de maca terá sido levado ao Palácio da Cova da Moura, sede do Conselho da Re-volução, onde, segundo consta, expôs as suas preocupações ao general – e dele recebeu palavras de sossego. (Duarte, 2010, p. 56)
A convite de Francisco Sá Carneiro, Natália Correia foi deputada, eleita nas listas do PSD, entre 1979 e 1983. Dacosta (2001, p. 204) escreveu que ela averbou “popularidades, irreverências, chistes, po-lémicas, ousadias, subversões, grandezas, como ninguém fez, por outro partido, na Assembleia da República”. Durante o período atrás referido há diversas posições tomadas por Natália Correia que cho-caram com o pensamento oficial do partido por que foi eleita ou são contrárias ao conservadorismo da sociedade portuguesa. Assim, em 1982, Natália Correia defendeu a despenalização do aborto, tendo ficado famoso o poema “Truca-truca” que escreveu a propósito de uma intervenção do deputado do CDS, João Morgado, na Assem-bleia da República, onde este afirmou que “o acto sexual é para fazer filhos”.
A propósito da discussão da despenalização do aborto, Mário To-mé, (2010, pp.176 e 177) cita os seguintes “argumentos” apresenta-dos por Natália Correia no parlamento: os que não são capazes de mudar uma sociedade em que a asfixia económica é, quantas vezes, causa do recurso infortunado ao aborto, não têm qualquer espécie de autoridade para legalmente o penalizarem” e “a despenalização do aborto não o encoraja. Desencoraja sim os malefícios do aborto ilegal”.
Ainda em 1982, Natália Correia subscreveu o Projeto-Lei 319/II que visava amnistiar os crimes de fim exclusiva ou predominantemente político entre 25 de abril e 30 de novembro de 1981, não abrangidos por anteriores amnistias independentemente da conjuntura em que tivessem ocorrido. Na votação ocorrida a 21 de maio de 1982, Natália Correia voltou a não seguir a orientação do seu partido. Assim, o pro-jeto foi rejeitado com votos contra do PSD, CDS, PPM e a favor do PS, PCP, ASDI, UEDS, MDP/CDE, UDP e de Francisco De Sousa Tavares (PSD), de Natália Correia (PSD) e de Helena Roseta (PSD).
Ainda no que diz respeito aos presos do PRP, Natália Correia mos-trou a sua visão humanista, tendo-se pronunciado, aquando da sua greve de fome, nos seguintes termos: Mas o padre Max, o Torres com a rede bombista do Norte ou com aqueles que incendiaram as sedes do PCP, como o vejo excitado (Narana Coissoró) em relação a presos que estão em risco de perder a sua vida, quando os outros, os que praticaram os crimes que referi, andam por aí a flanar liberda-de, isso não é humanismo, sr. Deputado. Gostaria de perguntar-lhe se acaso lhe repugna a memória de Aquilino Ribeiro, lembrando-lhe que ele foi terrorista, foi bombista. E teve que fugir para Paris porque participou nos preparativos do atentado que veio a matar D. Carlos, e tratava-se também de um regime estabilizado. (Tomé, 2010, p.184)
Lutadora pela liberdade, Natália Correia, em 1984, subscreveu um protesto conta a Lei de Segurança Interna, que surgiu após o início da Operação Oríon que levou ao desmantelamento das FP-25. De acordo com Tomé (2010), aquela lei “propunha limitar as liberdades em nome da luta contra o terrorismo” (p.185). De 1987 a 1991, a sua presença na Assembleia da República deve-se à sua eleição como deputada nas listas do PRD. Natália Correia condenou a guerra con-tra o Iraque, na Assembleia da República e na comunicação social. Mário Tomé, menciona que Natália afirmou na Assembleia da Repú-blica, no dia 26 de fevereiro de 1991, que a guerra “só poderá abrir abismos de ódios insanáveis entre civilizações” e que “a nós (ociden-tais) cabem responsabilidades especiais de sermos os fundadores dos direitos humanos. Solidariedade num mundo onde há crianças que morrem de fome a cada minuto ou é universal ou não é!” (Tomé, 2010, p. 174). Foi acusada de ser “amiga de Sadam”!
Natália Correia apoiou Jorge Sampaio quando se candidatou à Câmara Municipal de Lisboa (Dacosta, 2001, p. 180), em 1989, na coligação com o PCP “Por Lisboa” que contou com a adesão do PEV, UDP, MDP/CDE e PSR.
Bibliografia
Almeida, A. (1994). Retrato de Natália Correia. Lisboa: Círculo de Leitores; Correia, N. (2018). Entre a Raiz e a Utopia: Escritos sobre António Sérgio e o cooperativis-mo. Lisboa: Ponto de Fuga; Dacosta, F. (2001). Nascido no Estado Novo. Lisboa: Editorial Notícias; Dacosta, F. (2013). O Botequim da Liberdade. Alfragide: Casa das Letras; Duarte, L. (2010). Quando se descobriu que Natália era açoriana. In Abreu, M., Fernandes, M., Goulart, R., Mourão, J. (Orgs.) (2010), Natália Correia. A Festa da Escrita. Lisboa: Edições Colibri e Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Uni-versidade Nova de Lisboa; Magalhães, M. (2006). Natália Correia escritos autobio-gráficos. Dissertação de Mestrado em Literaturas Modernas e Contemporâneas apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Meneses, F. (2014). Salazar-Uma Biografia Política. Vol. V. Alfragide: Dom Quixote; Pimentel, I, (2013). História da Oposição à Ditadura 1926-1974. Porto: Figueirinhas; Tomé, M. (2010). Pela Mão de Natália. In Abreu, M., Fernandes, M., Goulart, R., Mourão, J. (Orgs.) (2010), Natália Correia. A Festa da Escrita. Lisboa: Edições Colibri e Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa; Victória, M. (2004). Amores da Cadela “Pura” II. Lisboa: Bertrand Editora.
domingo, 30 de janeiro de 2022
O JOVEM ANARQUISTA JOÃO ANGLIN
O JOVEM ANARQUISTA JOÃO ANGLIN
O gosto pela
leitura, em geral, nomeadamente de quase tudo ao que aos Açores diz respeito,
fez com que há alguns anos, possivelmente em 1996, tenha chegado às minhas mãos
uma separata da revista “Insulana”[1]
dedicada ao jornal de inspiração anarquista “Vida Nova”[2],
de Ponta Delgada, que terei lido e não dado muita importância.
Em 2010, no
âmbito do meu envolvimento na defesa dos animais, ao pesquisar sobre Alice
Moderno, precursora dos atuais movimentos de defesa do ambiente e amiga dos
animais, deparei-me com um texto de João Anglin, no jornal A Folha[3],
que primeiro havia sido publicado no “Vida Nova”.
A leitura, quase
simultânea, da História dos Açores, de Carlos Melo Bento, onde o Dr. João
Anglin era apresentado como “professor liceal de grande mérito pedagógico,
legionário nacionalista e um dos importantes esteios do regime” e do livro “A
oposição ao Salazarismo em São Miguel e em Outras Ilhas Açorianas (1950-1974) ”
onde a dado passo se pode ler que o Liceu Antero de Quental, em pleno regime
salazarista conservava sob a gestão do Dr. João Anglin “significativos traços
democráticos” e que aquele “estava longe de ser uma figura autoritária e era
coadjuvado, nas suas funções, por professores de tradições democráticas, como o
meu pai[4]
e o Dr. João Bernardo Rodrigues.” despertou-me a curiosidade em conhecer melhor
a personalidade do Dr. João Anglin que foi durante muitos anos reitor do Liceu
Antero de Quental, escola onde frequentei os antigos 6º e 7º anos do Ensino
Liceal, hoje correspondentes ao 10º e 11º anos de escolaridade.
A seguir, com
vista a conhecer melhor a vida e a obra do Dr. João Anglin, o primeiro passo
foi, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, consultar todos os exemplares
disponíveis do “Vida Nova”, fotografar todos os textos da sua autoria e depois
lê-los. Terminada, digamos, esta primeira fase, fui procurar, na minha pequena
biblioteca particular, todas as publicações sobre ele ou da sua autoria.
Através da
investigação, que fiz até ao presente, pode-se concluir que, na sua
adolescência, ele foi um militante libertário, já que, de acordo com João
Freire, não se limitou a “uma adesão
intelectual à doutrina”, mas teve uma actividade de relevo “no sentido de
difundir e alargar o raio de influência social” do ideal anarquista, como o
demonstram os textos que publicou no mencionado jornal.
Nos parágrafos
seguintes apresento a opinião do jovem João Anglin durante o período que vai de
8 de junho de 1908 a 22 de abril de 1911.
O 1º de Maio,
data comemorada em Portugal desde 1890, foi tema usado por João Anglin em dois
textos. Para além da denúncia da situação degradante em que viviam (e vivem) os
mais explorados, nomeadamente os operários, há nos textos uma mensagem de
denúncia do capitalismo e da transformação da data, por alguns, em dia de
“festas e patuscadas” e uma palavra de esperança numa revolução que “se não
fará esperar muito”. Só quando tal acontecer, escrevia Anglin, aquele dia
deixará “de ser um dia de protesto e de luta para ser um dia de festa e
regozijo universais”.
O combate aos
vícios, como o tabagismo e o alcoolismo, foi uma das batalhas em que se
envolverem muitos anarquistas. A propósito do alcoolismo, João Anglin lançou o
seguinte apelo:
“Operários micaelenses! Abandonai a
imunda taberna, esse antro de penúrias e desgraças; deixai de frequentar essas
nojentas espeluncas que não vos prestam outro serviço senão o de arruinar a
vossa saúde e consequentemente a de vossos filhos; renunciai a tudo isso e
trabalhai com ardor pela causa da vossa emancipação que é uma causa justa,
equitativa e racional”.
O Vida Nova,
pela pena de João Anglin, foi também um dos pioneiros, nos Açores, na chamada
de atenção para os maus tratos infligidos aos animais domésticos, nomeadamente
aos animais de tiro (bois, cavalos e burros). Os seus apelos, que eram
simultaneamente denúncias pelo facto das palavras não se traduzirem em atos,
foram importantes, ou mesmo decisivos, no sentido da criação da Sociedade
Micaelense Protectora dos Animais, que viria a ser legalizada a 13 de Setembro
de 1911, mas que começou a ter um funcionamento efetivo com a chegada à sua
presidência, em 1914, de Alice Moderno.
O antimilitarismo
foi, também, um assunto que não esteve ausente das preocupações e textos de
João Anglin e do “Vida Nova” à semelhança do que acontecia noutros jornais
nacionais que publicavam cartas/apelos aos soldados ou cartas destes a
descrever a vida nos quartéis. João Anglin, para além considerar os quartéis
como “focos de imoralidade e ociosidade”, escreveu que com a incorporação no
exército perdiam-se braços produtores (na agricultura) e quem beneficiava era “o
Estado e toda essa corte de satélites
que em torno dele adejam, porque assim é mais um autómato a servi-los, mais uma
lança a defendê-los”.
A influência da
Igreja Católica na sociedade micaelense foi um dos alvos de João Anglin como se
pode confirmar através da leitura de alguns dos seus textos, nomeadamente os
que polemizavam com o jornal “São Miguel” e o intitulado “Miséria”, escrito em
defesa do contramestre da banda regional e de outros militares que foram
detidos por não se terem confessado. Neste texto, para além da denúncia do
militarismo, o autor, tal como outros anarquistas, mais do que combater os fundamentos
da religião, aponta as suas baterias para os “ministros” que corrompem “as
sublimes doutrinas do fundador do Cristianismo”.
A leitura atenta
do que escreveu João Anglin sobre a igreja e a religião leva-nos a concluir que
o seu anticlericalismo está associado à ligação existente, segundo os
anarquistas, entre o clero e a sua oposição ao avanço da ciência.
Na maioria dos
textos de João Anglin a educação e a instrução são os temas principais. Segundo
ele, a sociedade retrógrada em que vivia só poderia ser destruída por meio da
instrução que segundo ele é:
“O único guia seguro que dirige os povos pela estrada que conduz à
civilização; ela é também o meio eficaz para as massas proletárias se
libertarem do jugo que lhes impõe a burguesia.
Só por meio de uma instrução
baseada nos princípios da justiça e do amor, é que o povo compreenderá os seus
direitos e gritará bem alto: Queremos liberdade.”
É por estar
convicto de que, como escreveu E. Valladares, “as pessoas educadas para a
liberdade e igualdade enxergariam o mundo a partir de uma óptica, bastante
distinta daquela filtrada pela ideologia que justificava a dominação e a
exploração” que João Anglin toma partido por Francisco Ferrer e Guardia, criador
da Escola Moderna pois, segundo ele, nas Escolas Racionalistas “o ensino é
baseado unicamente na razão, havendo da parte dos professores o máximo cuidado
em não inculcar às crianças ideias que a ciência rejeita e a razão reprova. D’est’arte
em lugar de escravos submissos as Escolas Racionalistas formavam homens
rebeldes e conscientes, fortemente preparados para a luta contra a tirania”.
Contrariamente
ao propalado pelos três grandes inimigos do anarquismo, o Estado, a Religião e
o Capital, a ação dos anarquistas ao longo dos tempos tem privilegiado a
propaganda e a violência só foi usada por correntes minoritárias ou por
indivíduos isolados. De acordo com João Freire os anarquistas “identificando no
estado, na propriedade privada açambarcada, no militarismo, no fanatismo
religioso ou patriótico, etc., formas permanentes de violência, e desejando que
esta situação cessasse - cessando com ela também a violência - não viam outro
meio senão o uso de uma outra violência, esta justa, legítima e necessária,
para atingir tão altruísta e benfazejo fim.”
Em muitos dos
textos escritos por João Anglin há um apelo contínuo à instrução e educação e
só esporadicamente surgem palavras apoiando a necessidade do uso da violência,
de que é exemplo o seguinte extrato:
“Multidões de famintos, cobertos de
andrajos que vos afundais no lodaçal da miséria, reflecti na vossa situação
desesperada, compenetrai-vos dos direitos que vos assistem, acordai da apatia
em que até aqui tendes permanecido e levantai-vos impetuosamente, revolucionariamente,
destruindo os males que vos oprimem, exterminando os vampiros que vos
atormentam”.
A citação
referida, está inserida no texto intitulado “O proletariado universal” que
começa com um extrato de William Godwin. Ao escrever o mencionado texto João
Anglin ter-se-á inspirado naquele autor ou no texto que abaixo se transcreve de
Eça de Queirós:
“As revoluções não são factos que
se aplaudam ou se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou
condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que
vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito,
mais uma felicidade.
Decerto que os horrores da
revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a
família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa
trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus
regímenes, com as tiranias, são maiores ainda.
……
As desgraças das revoluções são
dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.”
Através da
leitura dos textos da autoria de João Anglin, com aproximadamente cem anos,
pode-se constatar que tanto a nível regional como a nível mundial tanto e tão
pouco se alterou pelo que ainda, ao contrário do que ele dava a entender, está
muito longe e é tortuoso e íngreme o caminho para uma sociedade mais justa, fraterna
e pacífica. Mas, tal como escreveu Luce Fabbri:
“É mais importante o caminho – até à anarquia
-, do que a meta – porque à meta não se chega nunca e, em contrapartida, o
caminho é o concreto. É muito importante que o caminho se torne coerente com a
finalidade, pois é a única coisa palpável que temos. Se abandonamos o princípio
como forma de chegar mais rápido à meta, suicidamo-nos”[5]
Pico
da Pedra, 14 de março de 2021
T. Braga
Alguma Bibliografia
Freire, J. (1992). Anarquistas
e operários. Ideologia, ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado
em Portugal, 1900-1940. Porto: Edições Afrontamento.
Freire, J. (2009). De onde vem a violência. A Ideia nº 66, pp. 3-9.
Queirós, E. (1979). Primeiro de Maio. Lisboa: O Jornal.
Valladares, E. (2000). Anarquismo e Anticlericalismo. São Paulo: Editora Imaginário, Rio
de Janeiro: Instituto de Estudos Libertários, São Paulo: Nu-Sol.
(A Ideia, 94/95/96, outono
de 2021)
[1] Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, publica-se desde 1944.
[2] O Jornal Vida Nova publicou-se, quinzenalmente, em
Ponta Delgada entre 1908 e 1912 e intitulava-se de “órgão do operariado
micaelense”. Foi seu diretor Francisco Soares Silva, proprietário de um atelier
de pintura decorativa. Existe um trabalho sobre o jornal, datado de 1995,
realizado no âmbito do Seminário “História Económica e Social Contemporânea”,
da Universidade Lusófona, da autoria de Licínia Correia, que foi publicado, em
1996, na Revista “INSVLANA”, vol. LII.
[3] Jornal
criado por Alice Moderno.
Publicou-se, em Ponta Delgada, entre 1902 e1917.
[4] Dr. Lúcio Miranda, professor de matemática, pai de
Sacuntala de Miranda e casado com D. Fedora Serpa de Miranda. Faleceu em
Londres, onde se encontrava exilado.
[5]
Utopia, nº 6, p. 82
sexta-feira, 2 de março de 2018
Adriano Botelho, uma anarquista açoriano desconhecido na sua terra
Adriano Botelho, uma anarquista açoriano desconhecido na sua terra
No dia 26 de julho de 1989, o jornal Correio dos Açores noticiou o surgimento de uma nova edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, da Região Autónoma dos Açores: o livro “Adriano Botelho – Memória e Ideário”, uma antologia de textos organizada e prefaciada por Carlos Abreu e João Freire.
A notícia referida, talvez a única num jornal açoriano em que nome de Adriano Botelho é mencionado e uma pequena nota biográfica, da autoria de Carlos Enes, inserida na Enciclopédia Açoriana (1) são a prova de que os poderes instituídos estão mais interessados em dar a conhecer intelectuais amorfos, políticos retrógrados, pretensos fidalgos e quejandos, esquecendo-se de gente séria, modesta e boa e de quem perfilha ideias progressistas e/ou age para acabar com uma sociedade injusta.
Nesta pequena nota, pretende-se por um lado homenagear o anarquista açoriano que não traiu os seus ideais e dar a conhecer um pouco da sua vida e obra para que não caiam no esquecimento e sirvam de exemplo às novas gerações.
Adriano Inácio Botelho nasceu em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, a 12 de setembro de 1892, tendo lá residido até 1907, ano em que foi viver para Ponta Delgada, ilha de São Miguel, onde completou o curso dos liceus, em junho de 1909.
Embora tenha ouvido falar, por volta dos seus 12 ou 13 anos, através do seu professor de História, Geografia e Francês do liceu de Angra do Heroísmo, onde frequentou os primeiros cinco anos, de socialismo que era segundo aquele “a doutrina da igualdade económica” e se ter sentido “entusiasmado por esse sociedade, em que não haveria pobres e ricos”, até 1909, ano em que saiu de São Miguel não tinha “ideias político-sociais assentes”.
Chegou a Lisboa em outubro de 1910, onde se matriculou na Escola Politécnica com o objetivo de concorrer à Escola de Guerra. Como os estudos não correram bem, foi para Coimbra pouco depois da instauração da República, tendo aí acompanhado a agitação que “reclamava os cursos livres e a criação duma faculdade de Direito em Lisboa”. Foi nessa ocasião que aderiu ao anarquismo, tendo lido “o livro do Dr. Eltzbacher sobre as doutrinas anarquistas” bem como vários livros de Pedro Kropotkine que adquiriu e que Aurélio Quintanilha lhe emprestou.
Em junho de 1914 abandona Coimbra sem ter terminado a licenciatura em Ciências e foi para Lisboa. Como encontrou dificuldades em conseguir um emprego pensou ir para Paris e depois para os Estados Unidos da América, onde tinha familiares, tendo para tal regressado nos fins de 1914 para os Açores para dali seguir para a América do Norte.
Terminada a Guerra e cansado de esperar pela ida para os Estados Unidos, regressou a Lisboa em setembro de 1919. Foi aí que, através de Aurélio Quintanilha, também natural de Angra do Heroísmo e seu colega no liceu e na Universidade de Coimbra, que contatou com Alexandre Vieira, diretor do jornal “A Batalha”, tendo passado a colaborar com aquele jornal numa secção sobre o movimento sindical e libertário estrangeiro.
A sua maneira de ser fazia com que tivesse dificuldade em manter relações sociais e mesmo conversar só o fazia e pouco com quem se entendia bem. Além disso, a sua entrada para organizações libertárias, onde segundo ele “a principal colaboração foi dada por escrito, atirando como o semeador com o grão à terra, mas deixando que este se desenvolvesse por si, onde encontrasse terreno propício”, deu-se forçando-se um pouco a si próprio.
Após a Primeira Conferência Anarquista da Região Portuguesa que se realizou em maio de 1923, em Alenquer, e onde foi constituída a UAP – União Anarquista Portuguesa, foi constituído um grupo de que Adriano Botelho fez parte, por sugestão de outro açoriano, também natural de Angra do Heroísmo, António José de Ávila, que mais tarde se designou O Semeador. Adriano Botelho, também, fez parte do C. R. da Federação Anarquista da Região Centro, uma das federações regionais em que a UAP estava organizada.
Em 1926, Adriano Botelho foi nomeado para o Conselho Confederal da CGT – Confederação Geral do Trabalho, organização anarco-sindicalista criada a 13 de setembro de 1919, onde se manteve até 1931, ano em que pediu a demissão e escreveu o folheto “Da Conquista do Poder”.
Francisco Quintal, na nota introdutória à reedição do folheto feita, em 1979, pelo Grupo Cultura e Ação Libertária (2), justifica a mesma pelo facto de constituir “uma demonstração clara e eficiente da inutilidade do Estado” e pela sua atualidade então, e dizemos nós ainda hoje, pois vivia-se “numa época em que o corpo do Estado, em plena decomposição, está a ser assaltado por uma multidão de necrófilos constituída por aqueles que, hoje mais assanhados do que nunca e ostentando rótulos que não correspondem às suas ambições, pretendem conquistá-lo […] procurando assim reviver o estafado lema de que o poder é necessário como guia orientador dos povos”.
Em 1932, Adriano Botelho, a pedido de Mário Castelhano voltou para o Comité Confederal, sendo este responsável pela criação do comité que preparou a Greve Geral de 18 de janeiro de 1934, que não contou com a sua presença.
A entrada de anarquistas espanhóis para o governo, durante a Revolução Espanhola de 1936-1939 causou, em Adriano Botelho, “uma profunda revolta, cheia de ódio contra os prevaricadores e seus defensores que se convenceu “de que o que era mais necessário era a divulgação das doutrinas anarquistas” e convencido que não assistiria ao derrube do regime fascista começou “a distribuir jornais e folhetos, entregando alguns a camaradas de Almada e enviando outros para Edgar Rodrigues, no Brasil”.
Embora sempre dissesse que não queria voltar a participar na atividade da CGT, acabou por aceitar pertencer ao grupo que tentou a sua reconstituição, quando os resultados da Guerra de 1939-1945 começaram a ser favoráveis às “democracias”, tendo feito parte dos comités confederais até ao seu desaparecimento por volta de 1965.
Adriano Botelho que sempre preferiu no movimento específico anarquista dedicou quase toda a sua vida a divulgar os ideais em que acreditava, tendo sido, segundo Correia Pires (3), um “excelente jornalista e não houve nenhum jornal anarquista no tempo que não colaborasse e até nos jornais operários como “A Batalha”, “A Comuna”, a “Aurora” e muitos outros”.
Depois do 25 de abril de 1974, Adriano Botelho continuou a sua labuta, tendo colaborado com a “Voz Anarquista” e em maio de 1974 escreveu o texto “Ao Povo Português”, onde mostra alguma esperança na construção da sociedade que ele tanto almejou, uma “sociedade baseada na completa liberdade dos indivíduos, simplesmente limitada pela liberdade igual dos restantes.” Segundo ele, na sociedade pretendida haverá a “socialização (não nacionalização) de todos os meios de produção (terras, fábricas, minas), entregues aos próprios trabalhadores, para serem utilizados em benefício da coletividade e não de minorias parasitárias” e onde “será abolido o escravizante regime do salariato e cada um produzirá, segundo as suas forças e consumirá segundo as suas necessidades. Aliás esta é a forma praticada no seio de todas as famílias moralmente constituídas”.
Nos seus escritos, Adriano Botelho abordou os mais diversos temas de que são exemplo, a história do movimento operário e anarquista em Portugal, a luta contra o salazarismo, os acontecimentos no estrangeiro, nomeadamente os associados à Revolução Russa e à Guerra de 1936-39 em Espanha, a organização e a propaganda anarquista, o sindicalismo, a religião e a ciência, os espetáculos imorais, etc., etc.
Sobre as touradas de praça, um dos espetáculos imorais referidos, Adriano Botelho escreveu, a 10 de agosto de 1925, no suplemento ilustrado d’A Batalha, o seguinte: ”…fazem-se por outro lado, reclames entusiastas de espetáculos, como as touradas de praça onde por simples prazer se martirizam animais e onde os jorros de sangue quente, os urros de raiva e dor e os estertores da agonia só podem servir para perverter cada vez mais aqueles que se deleitam com o aparato dessa luta bruta e violenta, sem qualquer razão que a justifique” e acrescentou: “E - caso assombroso! – já se chegou até ao arrojo de se condecorar por atos de filantropia um toureiro qualquer, digno filho da Espanha fradesca e reacionária, como se na arte de atormentar barbaramente animais – quase sempre colocados em desigualdade de circunstâncias para a defesa – pudesse haver algo de generoso e altruísta”.
Tendo vivido apenas cerca da quinta-parte da sua vida nos Açores, Adriano Botelho escreveu muito pouco sobre a sua terra natal. Com efeito, sobre os Açores apenas conhecemos o texto “Independência dos Povos” que foi publicado pela primeira vez no número 24 da “Voz Anarquista, de Agosto de 1977.
No texto mencionado, depois de mencionar que a situação dos Açores é diferente da “dos outros povos colonizados por Portugal, na África, Ásia e América”, onde os seus habitantes foram escravizados e alguns vendidos “como animais de carga”, Adriano Botelho afirmou que “nas camadas populares não existem, em geral, ideias de integração na república norte-americana e muito menos aspirações separatistas”.
Segundo Adriano Botelho, apenas “alguns magnatas da ilha de S. Miguel, preocupados sobretudo com a situação que lhes possa melhor garantir a sua privilegiada posição”, sem muitos seguidores nas outras ilhas, terão aspirações separatistas. O povo, por seu turno, escreve Adriano Botelho” continuará explorado e oprimido, evidentemente enquanto estiver sob o domínio de qualquer Estado: Açoriano, Português ou Norte-Americano, pois só com o desaparecimento desta instituição, como aliás em todo o mundo, é que ele conseguirá libertar-se integralmente”.
São Miguel (Açores), 1 de maio de 2017
Teófilo Braga
(1) http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/pesquisa/?id=7376
(2) http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/components/com_library/texts/14_BNP_AHS3813.pdf
(3) Introdução ao folheto “Ao Povo Português”.
BIBLIOGRAFIA
Abreu, C., Freire, J. (1989). Adriano Botelho memória e ideário (antologia de textos). Angra do Heroísmo: Direção Regional dos Assuntos Culturais.
Botelho, A. (1974). Ao Povo Português. Almada: Delegação de Almada do Movimento Libertário Português.
(A Ideia, 81/83, outono de 2017, p: 250 e 251)
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Açores e Açorianos n' A IDEIA
AÇORES E AÇORIANOS N’A IDEIA
“A Ideia” é uma revista de cultura libertária portuguesa cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1974, em Paris. Ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, “A ideia” que passou por várias fases, estando durante algum tempo suspensa, define-se como “uma revista que faz da cultura o seu campo de ação. Através da criação poética e plástica, da expressão filosófica, da pesquisa social, da investigação histórica, da abertura a uma ciência humanizada, desligada de interesses lucrativos do dispositivo industrial/militar”, tendo por fim a criação das “bases dum espírito livre, criativo, gratuito e solidário, contributo efectivo para a realização plena de todos os seres vivos”.
Não tendo, por ora, acesso a todos os números publicados, neste texto, apenas, farei referência aos últimos três números dirigidos por António Cândido Franco, professor da universidade de Évora, que é autor de uma monumental biografia de Agostinho da Silva intitulada “O Estranhíssimo Colosso”, resultado de 10 anos de investigação.
No número duplo, 71/72, publicado em 2013, tal como no do ano seguinte, há referências ao Café Gelo, situado no Rossio, que foi um antigo botequim surgido no século XIX, onde se reuniam “anarquistas ligados à carbonária” e onde terá sido planeado o atentado contra a família real, em 1908. Mais tarde, no Café Gelo reuniram-se vários poetas surrealistas, ente os quais o açoriano José Sebag (1936-1989).
Sobre este açoriano quase desconhecido, também para mim que apenas me lembro dele como locutor da RDP, a revista “A Ideia” escreve: “Publicou em vida um único livro, O Planeta Precário (Açores, 1959), que foi atirado às águas do mar salgado pelo autor na viagem de regresso a Lisboa, salvando-se apenas o exemplar antes enviado por correio a João Gaspar Simões…José Carlos González, depois da morte do amigo, recolheu a sua criação poética em livro, Cão até Setembro (1991) ”.
Depois da leitura da Revista procurei mais informações sobre José Sebag e tive a oportunidade de ler algumas crónicas da sua autoria publicadas no jornal “Açores” no chamado Verão Quente.
Numa delas, a propósito da relação entre escritores e militares, José Sebag escreve: “Ou será que os escritores (e os intelectuais, por extensão) estão minados por um intimo ressentimento face aos militares, por estes lhes terem arrebatado a oportunidade e a hora de abater o fascismo? ... Ou será ainda que os escritores portugueses estiveram estes anos todos falando e defendendo uma abstração e agora que é possível e necessário falar do (e com) o povo real, não sabem como, não sabem quando, não sabem de quê?”
No número duplo, 73/74, publicado em 2014, que dá grande destaque ao “Surrealismo e Café Gelo”, pode ser lido um texto de Cristina Dias, doutoranda na Universidade de Évora, intitulado “A Revolução poética postulada no ensaio de Natália Correia: Poesia de arte de realismo poético”.
No último número editado, 75/76, relativo ao ano de 2015, é publicado o “Memorando Jaime Brasil”, ilustre jornalista e escritor terceirense, amigo íntimo de Vitorino Nemésio, que segundo Luís Amaro teve uma vida “nobremente acidentada – conheceu, como tantos de igual craveira cívica, a prisão, a mordaça, o exílio; talvez, em certos períodos até anteriormente ao Estado Novo, a fome…”
Neste número, também pode ser lida uma recensão crítica de Jaime Brasil ao livro de Nemésio “Mau tempo canal”, publicada em primeira mão no jornal “O Primeiro de Janeiro”.
Ainda neste número, não foi esquecida Natália Correia, através do texto de Miguel Real “Natália Correia e o Surrealismo”. Segundo o autor referido, Natália Correia cuja ligação ao surrealismo é frágil, “possui um espírito, uma vida e uma obra verdadeiramente heterodoxas e libertárias”.
Por último, Rui Machado, terceirense que entre outros trabalhos escreveu textos para Katia Guereiro e para os “Madredeus”, publica um poema intitulado “Plano à maneira de Carl Th. Dreyer”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30868 de 24 de fevereiro de 2016, p.14)
O último número d’A Ideia pode ser lida aqui: https://issuu.com/a.directa/docs/a_ideia_2015_n_75-76_web?e=6449204/32877278


