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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O que dizem de nós


Correio dos Açores, 25 de agosto de 2019

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Notas sobre Agostinho Sá Vieira


Notas sobre Agostinho Sá Vieira

A leitura do livro, de Augusto Cymbron, “Açorianos Ilustres” que reúne notas biográficas de alguns açorianos que de algum modo se distinguiram, fez-me pensar num conjunto de outros que também mereciam figurar entre os que é justo não ficarem esquecidos.

Antes de dar a conhecer alguns aspetos da vida de Agostinho Sá Vieira, um dos açorianos que, parafraseando Camões, da lei da morte se libertou, recomendo a leitura e a divulgação junto dos mais novos do livro referido que poderá ser ponto de partida para trabalhos de investigação ou pequenos trabalhos de projeto nas escolas.

Ainda relativamente ao livro, numa eventual futura reedição, sugiro que seja revista a bibliografia, pois tal como está, não obedecendo a nenhuma regra por mim conhecida, dificulta quem quer pistas para aprofundar os seus conhecimentos sobre as personalidades escolhidas pelo autor.

Agostinho de Sá Vieira (1896-1988), advogado natural da Ribeira Seca da Ribeira Grande, dedicou parte da sua vida aos outros e com coragem combateu o regime ditatorial instalado em Portugal depois da Primeira República.

O primeiro facto que se recorda é a sua participação na Primeira Guerra Mundial, onde como posto de alferes integrou o Corpo Expedicionário Português, tendo sido ferido e feito prisioneiro na Batalha de La Lys, em França. No regresso a Portugal foi promovido a capitão e condecorado. Sobre o assunto, o jornal “A República, de 27 de fevereiro de 1919, regsita o seguinte: “…sr. Alferes Agostinho Sá Vieira, nosso patrício e que em França, desde a primeira hora afirmou grandes qualidade de valentia e competência. Pende-lhe do peito a Cruz de Guerra e esse simples facto mostra bem os seus relevantes serviços à Pátria”.

Em 1931, Agostinho Sá Vieira participou na chamada Revolta da Madeira ou dos Deportados que se estendeu aos Açores, tendo feito parte da Junta Revolucionária em representação dos micaelenses. Com a derrota dos revoltosos que pretendiam “a instalação definitiva da perfeita Democracia – governo do povo pelo povo e para o povo- e única garantia da unidade e prosperidade da República de Portugal”, Sá Vieira foi afastado do exército e preso.

Se é muito conhecida a participação política de Agostinho Sá Vieira como opositor ao Estado Novo, menos divulgada é a sua dedicação ao próximo. Com efeito, em 1972, de acordo com notícia publicada no Diário dos Açores, de 8 de novembro daquele ano, aquele “instituiu um prémio anual de 5 mil escudos para galardoar o aluno do Externato Ribeira-grandense, natural da Ribeira Seca, sua terra natal, que melhor classificação obtivesse no curso geral dos liceus”. O prémio foi atribuído pela primeira vez, em 1973, à aluna Maria da Conceição Arruda Botelho.

De acordo com a notícia citada, outra prova do seu altruísmo foi a doação, à Junta de Freguesia da Ribeira Seca, de 20 mil euros destinados “à compra dum terreno para a construção de moradias para as pessoas necessitadas”.

Com a chamada Revolução dos Cravos, Agostinho Sá Vieira volta à sua terra, trinta e quatro anos depois de ter saído, tendo saudado os seus conterrâneos nos seguintes termos: “Com o espírito em alvoroço, apetece-me saudar os homens da minha terra, que não me voltaram a cara, que não me olhavam torvamente quando a pisava e afirmar-lhes com a dura experiência de 48 anos de ostracismo a que nos restaram os esbirros de negregado fascismo que a Democracia, bem compreendida e justamente interpretada, é o único sistema de vivência humana capaz de satisfazer todas as aspirações e todas as carências do trabalhador, em qualquer departamento da vida social” (A Ilha, 25 de maio de 1974).

Numa entrevista concedida ao Emissor Regional dos Açores, no dia 28 de maio de 1974, transcrita no jornal “A Ilha” no dia 1 de junho seguinte, perguntado sobre que deliberações deviam ser tomadas pelo governo, respondeu: “devem ser tomadas medidas de precaução e emergência tendentes a corrigir injustiças flagrantes e reparar danos inadiáveis de modo a proporcionar a formação de um clima nacional de harmonia e de compreensão que permita o melhor rendimento do trabalho e a sua mais adequada e justa remuneração, com vista ao progresso da Nação e bem estar de toda a gente”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31913, 28 de agosto de 2019, p.14)

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Provedor do animal: será uma prioridade?



Provedor do animal: será uma prioridade?

A ideia da criação de um Provedor do Animal, em Portugal, é muito antiga. Lembro-me de nos Amigos dos Açores, na década de oitenta do século passado, recebermos muitas cartas de um senhor que defendia que sua existência contribuiria para a melhoria do bem-estar animal.

Não tendo vingado a criação de um Provedor do Animal de âmbito nacional, como algumas das competências relacionadas com os animais são das autarquias, a opção foi a da sua criação a nível autárquico.

Se não me falha a memória, a primeira autarquia a criar o cargo de Provedor do Animal foi a Câmara Municipal de Lisboa, em 2013. Tendo por missão “garantir a defesa e prossecução dos direitos e interesses legítimos dos animais de Lisboa, o provedor exerce “as suas funções, a título gratuito, de forma independente, autónoma e imparcial”.

Na Madeira, que na questão dos direitos dos animais vai um passo à frente dos Açores, pois foi a primeira região do país a aprovar a proibição do abate dos animais de companhia e errantes, a Assembleia Legislativa, a 3 de julho deste ano, recomendou à Associação de Municípios da Região Autónoma da Madeira, a criação da figura do Provedor do Animal, com competência e atuação transversal a todos os municípios da Madeira e com capacidade para atuar em todas as questões que digam respeito ao bem-estar animal.

Nos Açores, também se não estou em erro, terá sido o PAN- Pessoas, Animais e Natureza quem pela primeira vez terá abordado o assunto. Com efeito, em 2016, durante a campanha eleitoral para a Assembleia Legislativa Regional dos Açores, aquele partido defendeu a criação do Provedor do Animal.

A 2 de julho de 2019, o deputado do PPM, na ALRA apresentou um Projeto de Decreto Legislativo Regional com o fim de criar a figura do Provedor do Animal na Região Autónoma dos Açores, o qual foi rejeitado pela Presidência da Assembleia por, alegadamente, violar artigos da Constituição da República Portuguesa.
Não sei se será o efeito do crescimento eleitoral do PAN nas últimas eleições para o Parlamento Europeu realizadas em maio ou se se trata de uma genuína preocupação com a vida de outros seres que não os humanos, mas parece-me que se assiste a uma “animalização” dos discursos políticos, tal como no passado se assistiu ao seu “esverdeamento”.

Mas quando pensamos que já assistimos a tudo, eis que surge uma surpresa, não pela candidata com provas dadas no âmbito da proteção aos animais, mas pelo partido político que pouco tem feito em relação ao assunto. Refiro-me não só aos animais de companhia, mas também aos animais ditos de produção ou mesmo aos espetáculos onde animais são torturados, como as touradas. Sobre estas, ainda recentemente deputados do PS que se candidatam de novo à Assembleia da República, tal como alguns do PSD, estiveram presentes numa tourada realizada no Campo Pequeno. Com efeito, Sofia Ávila Lima, candidata do PS à Assembleia da República, defendeu a criação do Provedor do Animal para “proteger não só os animais errantes e domésticos, como também espécies e os habitats”.

Não sabemos se o órgão da comunicação social que citamos foi fiel na transcrição das palavras de Sofia Lima, mas acreditando que sim, a proposta apresenta não apenas um provedor dos animais, mas um provedor do ambiente.

Penso que não virá mal ao mundo se for criado um provedor do animal nos Açores ou nalguma autarquia açoriana. Mas, será uma prioridade?

Do meu ponto de vista, a grande prioridade é o maior envolvimento dos cidadãos, não só na proteção dos animais, mas em tudo o que à vida em sociedade diz respeito. Relativamente às propostas mencionadas, se querem agir com seriedade, não criando mais uma figura para inglês ver ou um provedor especista, a primeira proposta a ser feita será a abolição das touradas de praça.

Por último, se dizem que o Estado é uma pessoa de bem, então deve ser respeitada a memória de Alice Moderno pelo que o seu hospital veterinário deve ser reaberto nas mesmas ou noutras instalações.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31907, 21 de agosto de 2019, p. 14)

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Francisco Soares Silva, Alice Moderno e Manuel Medeiros Cabral



Francisco Soares Silva, Alice Moderno e Manuel Medeiros Cabral

Por mais de uma vez escrevemos no Correio dos Açores sobre o operário micaelense Francisco Soares Silva que foi diretor dos jornais “Vida Nova”, Órgão do Operariado Micaelense e “O Intransigente”, órgão do Centro de Ponta Delgada da Federação Nacional Republicana que se publicaram em Ponta Delgada no início do século XX.

A leitura do livro “Os Alevantes da Memória”, da autoria de David Luna de Carvalho, editado em 1999, pelas Edições Salamandra dá-nos a conhecer a ligação de Francisco Soares Silva ao concelho do Nordeste, na ilha de São Miguel.

Tal como aconteceu com a democracia surgida com o 25 de abril de 1974, que foi construída essencialmente por antigos adeptos do Estado Novo, a República implantou-se em terreno onde escasseavam republicanos.

No caso do Nordeste, o autor referido menciona a pouca adesão à República, dando como prova o facto de apenas 43 pessoas terem assinado a sua proclamação. Ainda segundo a mesma fonte, para além do administrador do Concelho, “feito à pressa republicano”, apenas havia dois nomes que não estavam associados à monarquia, o médico-cirurgião, António Cabral de Mello e Francisco Soares da Silva, que se assumia como “Socialista-Libertário”.

Por que razão assinou Francisco Soares Silva, a proclamação da República nos Paços do Concelho do Nordeste?

De momento, desconhecemos já que nas pesquisas efetuadas o seu nome aparece sempre ligado a Ponta Delgada.

Outro livro consultado, recentemente, que esclarece um pouco mais a ligação da feminista Alice Moderno com os principais responsáveis pelo jornal Vida Nova é o da autoria de Breno de Vasconcelos, intitulado “Paz Cinzenta …os Açores através de algumas figuras e episódios de uma época”, editado em Lisboa, em 1979.

Francisco Soares Silva foi um dos primeiros sócios da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, instituição fundada por Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa. Foi também na tipografia de Alice Moderno que chegou a ser impresso o jornal Vida Nova de Francisco Soares Silva e de António da Costa Melo.

Através do livro de Breno de Vasconcelos ficamos a saber que um dos dirigentes do movimento operário em São Miguel, Manuel Medeiros Cabral, companheiro e vizinho de oficina de Francisco Soares Silva, possuía a sua “Agência Funerária Cabral” ao lado do escritório de Alice Moderno, no edifício que era pertença daquela ilustre escritora e defensora dos animais.

Manuel Medeiros Cabral foi diretor do jornal “O Estandarte”, órgão dos obreiros micaelenses que se publicou em 1926 que infelizmente não se encontra disponível nos Açores, podendo, apenas, ser consultado na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

Sobre o débil movimento operário micaelense, onde o nome de Francisco Soares Silva, teve um papel ímpar, Breno de Vasconcelos escreveu o seguinte:

“No auge das campanhas proletárias que também surgirem em Ponta Delgada, mestre Cabral tomou parte activa, juntamente com um seu vizinho de oficina, Francisco Soares Silva, mais conhecido por “mestre Chico Manco”, que era bastante inteligente e foi um dos acérrimos defensores da classe operária”.


Teófilo Braga

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Praças de Touros e touradas de praça em São Miguel

Praças de Touros e touradas de praça em São Miguel

Há alguns dias, tomei conhecimento do espanto de uma leitora pelo facto de existir numa conhecida rede social uma página intitulada “São Miguel Livre de Touradas”. Para além do referido, na página mencionada, alguém perguntou se na ilha de São Miguel já existiram touradas de praça.

A resposta à questão levantada é afirmativa, isto é, em São Miguel já houve touradas de praça e já existiram praças de touros, sendo a última (?) tentativa para a construção de uma datada de 1961.

No texto de hoje, darei a conhecer uma tentativa de construção de uma praça de touros e a realização de touradas no século XIX, a qual tal como as outras que se seguiram tiveram sempre o incentivo e ou colaboração de adeptos de touradas e de empresários da ilha Terceira.

A primeira notícia que encontrámos sobre o assunto foi publicada no jornal “A República Federal”, órgão do Centro Republicano Federal de Ponta Delgada, de 5 de abril de 1881. Na nota referida, o jornal menciona a construção de uma praça de touros para os lados da Mãe de Deus e insurge-se contra as touradas nos seguintes termos:

“Quando por toda a parte e mesmo nos países em que estes espetáculos tiveram a sua origem, estão a correr com esta barbaridade, aparece-nos este sujeito a querer iniciar entre nós um divertimento que até parece ser repelido pelo nosso clima; pois a nossa terra nunca produziu touros para este fim; e para vermos animais mal tratados, bastava termos as cenas que todos os dias se dão com os que andam em serviço..”

A 11 de abril de 1881, “A República Federal” volta à carga, lamentando que só depois de duas épocas é que surgiram outros jornais a condenar as touradas que classifica como “umas chinfrineiras a que se chama corridas de touros, mostrando-se o noticiarista desafeiçoado e reprovando a continuação d’esta desumana brincadeira”.

No ano seguinte, a 18 de julho de 1882, o referido jornal, tal como já havia divulgado no ano anterior que eram empresários da Terceira a fomentar e a animar as touradas em São Miguel, anuncia a chegada “das ilhas do Oeste o vapor Açor, trazendo para esta ilha os touros, seu empresário e mais pessoal”.

A 8 de agosto de 1882, depois de referir que o número de presentes a uma segunda tourada diminuiu, acrescenta o seguinte: “está-nos parecendo que se o tal sujeito da Terceira quiser importunar muito com estes espetáculos, talvez a brincadeira não acabe bem”. O texto prossegue, denunciando os maus tratos de que são vítimas os touros, nos seguintes termos:

“Asseguram-nos que pelo menos quatro touros já cá estiveram o ano passado e que todos os outros já foram corridos, e é talvez por isso que os tais amigos depois de espicaçarem bem os animais antes de entrarem na praça, como é costume, para darem melhor sorte, metem-lhes as farpas de maneira que o pobre animal fica logo a escorrer sangue, como aconteceu na primeira corrida, com o primeiro que entrou em praça.

Nós não fazemos questão do gado, nem das manadas a que pertençam; o que estimaríamos era ver que não pegava entre nós esta barbaridade, quando está a acabar por toda a parte, apesar de lá fora ter outros encantos para os amadores; mas infelizmente o nosso povo habituado a ser rigoroso com todos os animais, não tem deixado de consentir nas judiarias que para ali vão fazer a uns pobres bois que para ali vieram engaiolados de tal forma que abalou meia cidade!

Que se sacrifiquem animais para algum fim proveitoso estamos de acordo, mas para divertimentos ou por brutalidade, não nos podemos conformar.”

Logo que tenhamos mais informação voltaremos ao assunto.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores 31891, 1 de agosto de 2019, p. 16)

quinta-feira, 25 de julho de 2019

A propósito (ou não) de um Congresso sobre Educação


A propósito (ou não) de um Congresso sobre Educação

Na semana passada, entre os dias 18 e 20 de julho, realizou-se no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o 41º Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM), uma associação pedagógica de professores e de outros profissionais da educação com dois núcleos nos Açores, um na ilha Terceira e outro em São Miguel.

No texto de hoje, para além de algumas impressões sobre o evento, apresentarei algumas preocupações relativas ao ano escolar que se avizinha, onde pela primeira vez se vai generalizar a todas as turmas de início de ciclo novas matrizes curriculares para o ensino básico.

Relativamente ao número de participantes no congresso, é impressionante que, depois de um ano letivo de muito trabalho e cansaço, mais de quinhentos professores e educadores se disponibilizaram para estar presentes e alguns (mais de 80) para partilhar as suas práticas durante três longos dias.

Digna de registo é a idade da grande maioria dos participantes que, sendo baixa, revela que há razões para se ter esperança no futuro da educação no que diz respeito ao empenhamento e alteração de práticas nas salas de aula, onde os meios pedagógicos passem a vincular os fins democráticos da educação e o professor deixe de ser o único detentor da “verdade” e passe a ser o organizador das aprendizagens.

Outra informação que colhemos e que é preocupante é a inadmissível ingerência de alguns dirigentes de escolas sobretudo particulares e dos pais nas salas de aula, obrigando os professores a não usar estratégias inovadoras e fazendo-os a regressar às aulas expositivas. Para além disso, numa altura em que se apela à participação e à cooperação é uma aberração inqualificável alguns pais impedirem que os seus educandos ajudem colegas com mais dificuldades.

Para além do referido, o contato com alguns colegas de várias regiões do país leva-me a concluir que há um forte desejo de mudança, mas que uma das principais causas de não avançarem é o seu isolamento. Não estando o movimento implantado em muitas localidades, a solução só pode passar pelo recurso às novas tecnologias de informação e comunicação, através da criação de grupos cooperativos com membros de vários núcleos regionais ou da partilha de informações, materiais pedagógicos ou instrumentos de pilotagem.

Nas conversas mantidas com outros colegas, também, fiquei a saber que em alguns locais há quem frequente os Sábados Pedagógicos com o objetivo único de replicar ou adaptar as estratégias ou os instrumentos de pilotagem usados no MEM para uso em contextos onde se pretende apenas obter bons resultados em termos de aquisição de conhecimentos e não a formação integral dos alunos.

Embora considere que ninguém é obrigado a seguir o modelo pedagógico daquele movimento e saiba que há outros modelos e correntes pedagógicas que com toda a legitimidade possam ser seguidos pelos meus colegas, recordo o que sobre o assunto escreveu Maria Gutierrez: “Nem os instrumentos nem as técnicas têm sentido em si mesmos, pois pode-se muito bem conhecer e aplicar uma técnica e continuar a utilizá-la num contexto tradicional baseado na passividade do aluno”.

Não podendo comentar todas as sessões a que assisti, optei por fazer uma referência ao painel “Educação, sustentabilidade e economia circular” onde destaco um conjunto de informações importantes acerca dos desperdícios de recursos nas nossas sociedades e a experiência da construção de uma horta numa escola.

Não vou debruçar-me sobre o conceito de economia circular, mas parece-me que será ou poderá ser outro chavão a juntar ao de desenvolvimento sustentável usado pelos nossos políticos para continuarem a destruir o nosso planeta.

Por último, um aviso à navegação. A escola sozinha não muda a sociedade e a educação nunca é neutra. Como muito bem escreveu Paulo Freire, a atividade dos educadores “desenvolve-se ou para a libertação dos homens - a sua humanização -, ou para a sua domesticação - o domínio sobre eles”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31885, 25 de agosto de 2019, p.16)

terça-feira, 23 de julho de 2019

A Batalha madeirense e a Revolta da Madeira


A Batalha madeirense e a Revolta da Madeira

Na ilha da Madeira, publicou-se entre 1926 e 1932 o jornal A Batalha que era propriedade das Associações de Classe: carpinteiros, pedreiros, pintores, fabricantes de calçado e manipuladores de pão, apresentando-se como órgão defensor do povo dos consumidores e das vítimas dos homens.

O ano de 1931 foi um ano negro para o regime que sucedeu à Primeira República, tendo ocorrido várias tentativas de derrubar a ditadura nacional. De entre as insurreições havidas, destacamos a Revolta da Madeira, que também se estendeu aos Açores e que durou quase um mês, de 4 de abril a 2 de maio.

Neste texto, damos a conhecer o eco da chamada Revolta da Madeira, no referido jornal “A Batalha”, salientando o facto de, ao contrário do que aconteceu nos Açores, a revolta não se ter limitado aos militares e deportados, tendo obtido amplo apoio da população madeirense, sobretudo a urbana, em virtude daquela ilha estar “mergulhada num clima pré-insurrecional a que não faltava nenhum dos ingredientes da revolução social: crise económica e social, movimento de massas, com o operariado atingido por um forte desemprego e as classes médias descontentes pelo alegado abandono a que eram votadas pela Ditadura” (Farinha, 1988, p.145).

A Revolta da Madeira possuía objetivos bastante limitados, isto é, não tinha programa político e não apresentava uma proposta de governo para substituir o que estava em exercício em Lisboa, limitando-se a restaurar “os verdadeiros princípios republicanos que nortearam o 5 de Outubro” (Farinha, 1988, p. 149).

O anarquista Mário Castelhano que havia chegado à Madeira depois de ter estado deportado nas colónias, segundo Farinha (1988) participou ativamente na Revolta da Madeira e o movimento sindical, também, tomou posição de apoio aos revoltosos, como o demonstram os textos publicados no já referido jornal “A Batalha”.

Mário Castelhano conta no seu livro Quatro Anos de Deportação que chegou à Madeira, proveniente dos Açores, onde estivera deportado, depois de ter estado em Angola, no dia 6 de abril, dois dias depois da revolta da guarnição militar.

Através da leitura do livro Mário Castelhano fica-se a saber que não só todos os partidos republicanos aderiram à revolta como também uma parte significativa da população, tendo-se realizado “manifestações grandiosas que percorreram as ruas da cidade aos vivas à liberdade e morras à tirania” (Castelhano, 1975, p.194).

A posição das organizações operárias foi bem clara de apoio aos revoltosos, como o demonstram vários artigos publicados no jornal A Batalha.

No dia 11 de abril, num texto assinado por Teófilo Rodrigues, podemos ler o seguinte: “Liberdade! Todos viram o nosso jornal dar o primeiro viva à Liberdade, no dia 4, e seremos nós quem, também, manterá a mesma opinião… Agora, mais do que nunca, ponhamos os olhos no futuro, enfrentemos a situação, pela forma mais logica possível, e lutemos porque é chegada a hora que nos fará livres para sempre, como o somos agora…”

No mesmo jornal, no dia 13 de abril, podemos ler o seguinte: “Os trabalhadores da Madeira só têm um caminho a seguir nesta excepcional emergência: unirem-se a todas as vítimas da ditadura e lutarem a seu lado, ao lado da guarnição militar que rompeu fogo contra a mesma e lutar, lutar, até vencer!”

De acordo com Mário Castelhano, a questão não se ficava pelo derrube da ditadura, pois o povo “sabia que a sua vida económica pouco viria a melhorar com a mudança de situação, mas queria pelo menos ter mais liberdade para encaminhar seus passos a destinos mais vastos” (Castelhano, 1975, p. 202).

A opinião de Mário Castelhano é corroborada por um texto publicado n´A Batalha, a 18 de abril, onde o autor depois de referir a situação dramática em que viviam os madeirenses e os demais portugueses sob a ditadura termina do seguinte modo: “Prossigamos, pois na luta atá à queda da ditadura. Depois, colaboraremos com o restante proletariado, na conquista de direitos insofismáveis, no adento de princípios sociais mais justos e equilibrados”.
No primeiro número d’A Batalha publicado após a derrota da Revolta da Madeira, no dia 9 de maio de 1931, não há qualquer referência explicita ao ocorrido, destacando-se na primeira página em letras grandes o seguinte texto:
“SERENAMENTE
A vida é uma ilusão. O egoísmo é quem predomina em todos os campos, a sua ação é violável. A maldade sua companheira acompanha a passos lentos este tributar da vida em que todos nós estamos empenhados. Ai dos homens, desde o sábio ao plebe, que por caminhos diversos querem chegar ao fim da estrada da vida sem uma mácula.
Para estes as nossas saudações. Para os que erram o nosso desprezo.”

No mesmo número do jornal, destacamos dois textos “Exortação ao Trabalhador Rural” de Neno Vasco e “O 1º de Maio do ano Cincoenta (sonho)” de Leon Kobrin.



Bibliografia

Castelhano, M. (1975). Quatro anos de deportação. Lisboa: Seara Nova

Farinha, L. (1988). O Reviralho- Revoltas Republicanas contra a Ditadura e o Estado Novo 1926-1940. Lisboa: Editorial Estampa.

Teófilo Braga
26 de janeiro de 2019
(A Batalha, VI Série, Ano XLV, nº 284-285, Mar/Jun 2019)

domingo, 21 de julho de 2019

João Carlos Scholtz, o Jardim José do Canto e as plantas


João Carlos Scholtz, o Jardim José do Canto e as plantas

No passado dia 2 de julho, no âmbito de uma ação de formação do pessoal docente promovida pela Escola Secundária das Laranjeiras, depois de, numa sala da escola, ter sido abordada, pelo formador, a vida e a obra daquele vulto da sociedade micaelense, realizou-se uma visita de estudo ao Jardim José do Canto.
Antes da realização da primeira atividade que constou de um “peddy paper”, um dos participantes chamou-me a atenção para o nome da rua que fica ao lado da Escola EB1/ JI de Matriz (Anexas), o qual contradizia o que havia sido afirmado na formação. Com efeito, o formador havia dito que a construção do Jardim José do Canto havia começado em setembro de 1846 e na placa do nome da rua pode ler-se o seguinte: João Carlos Scholtz – impulsionador do Jardim José do Canto no século XVIII.
Tendo em conta que João Carlos Scholtz (1741-1823) faleceu três anos depois do nascimento de José do Canto e vinte e três anos antes daquele ter criado o seu jardim, a informação constante na placa não pode estar correta.
Podia ter ficado por aquela constatação, mas como aquele nome não me dizia nada, decidi tentar saber quem fora João Carlos Schotz e se o mesmo tinha alguma ligação a jardins ou à botânica.
João Carlos Scholtz que foi comerciante e cônsul da Rússia e da Prússia possuiu uma casa numa Quinta na Arquinha, onde era possível encontrar uma grande variedade de plantas.
Recorrendo ao livro “Quintas, Jardins e Parques da Ilha de São Miguel (1785-1885) da investigadora da Universidade dos Açores, Isabel Albergaria, fica-se a saber que a João Carlos Scholtz é atribuída a introdução do incenso (Pittoporum undulatum), espécie oriunda do sudoeste da Austrália, hoje, muito usada em sebes e que na sua quinta era possível encontrar um tulipeiro (Liriodendron tulipífera), oriundo da América do Norte, e um Laurus canariensis, “o primeiro exemplar de uma espécie erradamente popularizada na ilha como árvore da cânfora”. Para além do referido, também, existia uma magnólia e palmeiras.
Relativamente a esta última espécie a questão levantada tem razão de ser pois Laurus canarienses é o nome científico, não atual, do louro ou loureiro, não se tratando, portanto de uma canforeira.
Ainda em relação a esta última espécie referida, que em meados do século XIX atingia a altura de 30 metros e que necessitava de quatro homens para a abraçar, poderá ter havido um erro na sua classificação pelo naturalista Drouët.
Na publicação “Observações sobre a ilha de São Miguel recolhidas pela Comissão enviada à mesma ilha em agosto de 1825 e regressada em outubro do mesmo ano”, Luís Mouzinho da Silva Albuquerque e o seu ajudante Ignacio Menezes referem o seguinte:
“…A esta parte da cultura da ilha prestou importantes serviços o falecido prussiano João Carlos Scholtz, aclimatando nela diferentes árvores exóticas, propriíssimas para servirem de abrigo às laranjeiras, entre as quais se nota o Laurus camphora, que hoje é assaz comum na ilha, e cujo primeiro tronco se conserva na quinta…”
Será que estavam a referir-se à mesma árvore a que Drouët atribuiu uma classificação diferente?
A Laurus camphora que atualmente é denominada de Cinnamomum camphora é a canforeira e não sendo muito comum pode ser encontrada em alguns jardins, existindo no Jardim José do Canto alguns exemplares de um porte digno de registo.
Relativamente ao uso da canforeira, até agora não tenho qualquer referência que mencione a sua utilização em sebes. Para além do seu uso, entre nós, como planta ornamental, Alfredo da Silva Sampaio, na sua “Memória sobre a Ilha Terceira”, publicada em 1904, inclui a canforeira numa lista de plantas empregadas em construções e na marcenaria.
João Carlos Scholtz que, segundo Francisco Maria Supico, teve uma “opulenta posição comercial e correspondente representação na sociedade”, foi também um apaixonado pela botânica, tendo, de acordo com Briant Barret, numa propriedade sua existente nas Socas introduzido “…as melhores flores da Europa, árvores de boa madeira, bem como outras plantas, ainda não existentes nas outras ilhas”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores 31879 de 18 de julho de 2019 p. 16)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

CINCO PELO AMBIENTE



CINCO PELO AMBIENTE

No nosso país muitas são as pessoas que lutam por um melhor ambiente, por uma Terra onde todos possam viver com melhor qualidade de vida.

Embora ache que é coletivamente que podemos intervir na sociedade, considero que não são de desprezar atitudes e comportamentos individuais pelo que, no texto de hoje, darei a conhecer um pouco cinco personalidades que pelo seu pioneirismo muito deram e alguns continuam a dar em defesa do nosso planeta.

Afonso Cautela (1933-2018), nascido em Ferreira do Alentejo, foi o fundador da primeira organização ecologista portuguesa o MEP-Movimento Ecológico Português, em junho de 1974.

Com ideias próprias, inspirando- se em pensadores como “Ivan Illich, Michel Bosquet, Emanuel Mounier, Paulo Freire, Hélder Câmara e outros … profetas da Sociedade Pós- Industrial”, Afonso Cautela foi professor do primeiro ciclo e jornalista, tendo sido autor de vários livros e brochuras de que destaco as seguintes: “Contributo à Revolução Ecológica”, “Manifesto Ecológico Contra a Inflação e o Custo de Vida: Ecomania ou Ecologia?”, “Luta Ecológica e Luta de Classes”, “Essa Ecologia de que Somos Cobaia”, “Viva a Doença Abaixo a Medicina” e “Ecologia e Informação: Como os jornalistas nos lavam o cérebro”.

Afonso Cautela foi também um poeta distinto, tendo publicado entre outras o livro “Lama e Alvorada” cujo primeiro volume foi editado em 2017.

Gonçalo Ribeiro Teles (1922-), o mais conhecido de todos, é engenheiro agrónomo, arquiteto paisagista e ambientalista, tendo tido uma atividade política digna de registo. Com efeito depois de combater o Estado Novo chegou a ser Ministro de Estado e da Qualidade de Vida, depois do 25 de abril de 1974.

A criação, entre outras, da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional bem como os projetos de vários jardins urbanos, de que destacamos o da Fundação Calouste Gulbenkian e o Amália Rodrigues a ele se devem.

Os seus livros, “Para Além da Revolução”, de 1985, e “A Árvore em Portugal”, publicado em 1999, são de leitura obrigatória para quem quiser conhecer o seu pensamento.

Jacinto Rodrigues (1939-) esteve exilado em vários países europeus durante o Estado Novo para onde fugiu 12 anos antes do 25 de abril de 1974. Tendo por formação base a filosofia, em França licenciou-se em Sociologia e fez o mestrado em Urbanismo. Foi professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

É autor de uma vasta bibliografia científica e de intervenção social. De entre os livros publicados destaco "A Conspiração Solar do Padre Himalaya", sobre a vida e obra de um dos mais visionários cientistas portugueses, o Padre Manuel António Gomes que foi considerado, pelo Dr. José Crespo, como sendo um misto de Júlio Verno e de Edison.

José Carlos Costa Marques (1945-) nasceu no Porto. Foi professor, tradutor e assistente editorial. Neste momento é pequeno editor e presidente da direção da associação de defesa do ambiente Campo Aberto.

Um dos pioneiros do ecologismo português, José Calos Marques, mantém uma intervenção no movimento de defesa do ambiente desde 1974.

Poeta de mérito reconhecido, é autor do livro “Flor de um dia”, onde é reunida a sua poesia inédita e a alguma publicada.

Nuno Gomes de Oliveira (1956-) é biólogo e ambientalista, fundador do NEPVS- Núcleo de Estudos e Proteção da Vida Selvagem, organização fundada em agosto de 1974. Foi, também, fundador do Parque Biológico da Gaia

Teófilo Braga

(Correio dos Açores 31873 de 11 de julho de 2019, p. 16)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Alice Moderno e a Quinta do Norte


Alice Moderno e a Quinta do Norte

Hoje, na Quinta do Norte, nas Capelas, estão instaladas diversas instituições e projetos, entre os quais o de inovação pedagógica NOVAS ROTAS.

Quase todas as pessoas sabem que nesta quinta esteve instalada a Casa do Gaiato, instituição que tem por fins acolher, educar e integrar na sociedade crianças e jovens provados do seu meio familiar. Esta organização esteve nas Capelas desde 2 de abril de 1956 até agosto de 2011.

O que é quase desconhecido é que o nome de Alice Moderno está, também associado à Quinta do Norte, como se verá nos parágrafos seguintes.

A 31 de janeiro de 1946, Alice Moderno fez um testamento onde deixava a maioria dos seus bens à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada com a obrigação desta no prazo máximo de dois anos construir um Hospital Veterinário, o que acabou por acontecer.

Alguns anos após a morte de Alice Moderno que ocorreu a 20 de fevereiro de 1946, mais precisamente em 1954, a Junta Geral decidiu vender os bens restantes daquela benemérita para comprar uma propriedade destinada à instalação da Casa do Gaiato.

27 de junho de 2019
T.B.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Proteção às Árvores na Legislação Portuguesa


Proteção às Árvores na Legislação Portuguesa

A defesa de árvores isoladas ou não é preocupação bem antiga dos legisladores portugueses. Assim, durante o Estado Novo, foi publicado o Decreto-Lei nº 28 468, de 15 de fevereiro de 1938 que surgiu para proteger as árvores em jardins, parques, matas ou manchas de arvoredo existentes nas zonas de proteção de monumentos nacionais, edifícios de interesse público ou edifícios do Estado de reconhecido valor arquitetónico.

Como razão apontada para a sua criação, no preâmbulo do decreto mencionado pode ler-se o seguinte: “…Com efeito, o arvoredo, que constitui interessante moldura decorativa dos monumentos arquitetónicos e valoriza grandemente as paisagens, é por vezes impiedosamente sacrificado, sendo de esperar que a proteção que lhe for dada pelo Estado frutifique e seja seguida pelos particulares.”

Setenta e quatro anos depois, o Decreto-Lei nº 28 468, de 15 de fevereiro de 1938 foi, finalmente, revogado pela Lei nº 53/2012, de 5 de setembro, que aprova o regime jurídico da classificação de arvoredo de interesse público.

Mais abrangente do que a legislação que revogou, esta lei destina-se a proteger não só “ povoamentos florestais, bosques ou bosquetes, arboretos, alamedas e jardins de interesse botânico, histórico, paisagístico ou artístico” mas também “exemplares isolados de espécies vegetais que, pela sua representatividade, raridade, porte, idade, historial, significado cultural ou enquadramento paisagístico, possam ser considerados de relevante interesse público e se recomende a sua cuidadosa conservação.”

Interessante é a abertura que a lei permite à participação dos cidadãos que poderão ter uma palavra a dizer na classificação. Assim, de acordo com o artigo 3º, podem propor a classificação do arvoredo os proprietários, as autarquias locais, as organizações de produtores florestais ou entidades gestoras de espaços florestais, as organizações não-governamentais de ambiente e cidadãos ou movimentos de cidadãos.

A lei, em vigor, para além de obrigar a que “as operações de beneficiação do arvoredo de interesse público”, como desrama, poda de formação ou sanitária e outras carecerem de autorização, estipula a proibição de intervenções que possam danificar o arvoredo, como o corte do tronco, ramos ou raízes, a remoção de terras ou outro tipo de escavação, na zona de proteção, o depósito de materiais, seja qual for a sua natureza, e a queima de detritos ou outros produtos combustíveis, bem como a utilização de produtos fitotóxicos na zona de proteção e, por último, qualquer operação que possa causar dano, mutile, deteriore ou prejudique o estado vegetativo dos exemplares classificados.

No que diz respeito ao âmbito da aplicação, de acordo com o artigo 7º do diploma referido, o mesmo “aplica-se às Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, sem prejuízo dos diplomas regionais que são objeto das necessárias adaptações”.

Nos Açores, há legislação por vezes de âmbito muito restrito, como o Decreto Legislativo Regional nº 28/84/A que classifica diversas espécies arbóreas na cidade da Horta, na ilha do Faial.
O Decreto Legislativo Regional n.º 43/2008/A que altera o Decreto Legislativo Regional n.º 29/2004/A, de 24 de Agosto, que estabelece o regime jurídico de proteção e valorização do património cultural móvel e imóvel, para além de, no seu artigo 59º, reclassificar, como bens de interesse municipal, árvores e maciços de árvores classificadas anteriormente, no artigo 11º prevê a classificação dos históricos e outras composições arquitetónicas utilizando predominantemente material vegetal vivo” como imóveis de interesse público. De igual modo, também estipula que “podem ser objeto de classificação exemplares arbóreos, mesmo quando isolados, que pela sua representatividade, raridade, porte, historial ou significado cultural possam ser considerados como detendo relevante interesse cultural”.
Por último, o decreto Legislativo Regional n.º 3/2015/A, que substitui o Decreto Legislativo Regional n.º 29/2004/A, de 24 de agosto, retira a classificação e salvaguarda dos exemplares arbóreos notáveis do seu objeto pois considera “que é uma matéria do âmbito das competências do departamento governamental com competência na área de ambiente”.
Face ao exposto, não havendo legislação regional especifica e sendo a realidade regional muito diferente da do território continental ou mesmo madeirense, faz todo o sentido a adaptação da legislação nacional em vigor.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31861, 27 de junho de 2019, p. 16)

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Um Novo Regime Jurídico para os Percursos Pedestres


Um Novo Regime Jurídico para os Percursos Pedestres

O grupo parlamentar do PSD- Partido Social Democrata apresentou na Assembleia Legislativa Regional dos Açores uma proposta com vista a alterar o Decreto Legislativo Regional nº 30/2012/A, de 3 de junho, que estabelece o Regime Jurídico de Proteção e Classificação dos percursos pedestres da Região Autónoma dos Açores.

Com a sua proposta o PSD pretende alcançar o que não foi conseguido até hoje, isto é, tornar mais eficaz a manutenção, sinalização e fiscalização dos percursos pedestres classificados, facilitar a colaboração entre as entidades envolvidas e racionalizar os meios e recursos disponíveis.

Embora reconheça que a grande causa para a ineficiência é a falta de articulação entre os vários departamentos governamentais, o que é também a nossa opinião, o PSD considera que são as responsabilidades dos promotores dos percursos pedestres, nomeadamente a da sua manutenção, conservação e limpeza, que “leva ao desencorajamento da proposta de novos trilhos para classificação e, consequentemente, à inibição do aumento da rede de percursos pedestres classificados e homologados”.

Na proposta a que nos vimos referindo, achamos louvável a forte preocupação com a melhoria da “eficiência e eficácia das entidades e dos meios disponíveis” e com a conservação da natureza.

Como pretende o PSD que tal seja conseguindo?

Centralizando as decisões num órgão mais restrito e descentralizando o órgão consultivo. Assim, a competência para a inventariação, a proposta de classificação e a homologação dos percursos pedestres passa a pertencer ao departamento do Governo Regional com competências em matéria de turismo. Para o efeito aquele departamento cria um conselho de gestão com representantes de outros departamentos governamentais e da associação de municípios. No que diz respeito ao órgão consultivo, deixa de existir um de âmbito regional, sendo criadas comissões de acompanhamento por ilha, tornado possível a participação de agentes locais que melhor conhecem as realidades das suas terras.

Muito interessante é a introdução de uma classificação dos percursos pedestres em classes, tendo em conta os valores paisagísticos, naturais e culturais. Esta sugestão exigirá, mais tarde, a elaboração dos critérios para a inclusão dos percursos em cada uma das tipologias propostas.

Como consequência do referido no parágrafo anterior, louva-se também o surgimento dos percursos pedestres protegidos, os quais serão dotados de um plano de gestão que entre outros têm por objetivos:

“- Promover o ordenamento e disciplina das atividades turísticas, definindo regras de utilização e de acesso, de forma a evitar a degradação dos valores naturais e paisagísticos do percurso, possibilitando o exercício de atividades de lazer compatíveis com a sensibilidade dos valores em presença;
- Salvaguardar o carácter natural, paisagístico e cultural, possibilitando um incremento de atividades de carácter educativo e interpretativo, principalmente para benefício da população local e para a divulgação dos valores encerrados no percurso pedestre protegido.”

A minha grande dúvida em relação a esta proposta do PSD relaciona-se com a manutenção, conservação e limpeza dos percursos pedestres que passará a ser da responsabilidade do departamento governamental com competência em matéria de turismo quando antes era da responsabilidade dos promotores. Embora não saiba qual a melhor solução, tenho dúvidas de que a completa desresponsabilização dos promotores seja uma boa medida.

Pela a agilização do órgão executivo, pela democratização do órgão consultivo e pelo enfase dado à conservação da natureza, através da inovação introduzida com a classificação dos percursos pedestres tendo em conta aspetos patrimoniais, esta proposta depois de algumas alterações merece ser aprovada.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31856, 20 de junho de 2019, p.17)

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A propósito da Erva-das-lamparinas


A propósito da Erva-das-lamparinas

Depois de alguns anos à procura, finalmente encontrei no passado dia 2 de junho uma quinta onde o seu proprietário possui uma pequena plantação de erva-das-lamparinas ou erva-dos-pavios.

Desde muito pequeno conheço a planta que era cultivada por uma tia minha, Diamantina de Braga, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Há cerca de seis anos, voltei a encontrar a planta na Ribeira das Tainhas na casa de uma pessoa conhecida que me prometeu oferecer-me um pé quando chegasse a altura boa para as plantações.

Como a pessoa, entretanto, faleceu recorri à minha prima Teresinha Braga que morava na casa que outrora tinha pertencido à minha tia e a resposta foi a de que a erva teria desaparecido.

O outro contato com a planta deu-se em casa dos meus avós Manuel Soares e Maria dos Santos Verdadeiro que desde 1956 recebiam no dia 28 de cada mês a Sagrada Família. Para iluminar o quarto onde estava o nicho com a Sagrada Família, eram usados como pavios numa lamparina de azeite, os cálices da erva-das-lamparinas, depois de secos.

Este ano, depois da visita referida, comecei a investigação acerca do nome da planta ou plantas usadas como pavios, a sua origem e para que outros fins pode ser utilizada..

A primeira conclusão a que cheguei é a de que são usadas como pavio, mais do que uma espécie do género Ballota, nomeadamente a Ballota nigra que existe na Europa, no Sudoeste da Ásia e na Região Mediterrânica e terá sido introduzida nos Açores e a Ballota hirsuta que também existe na Região Mediterrânica e foi introduzida nos Açores.

Nos Açores, existe uma subespécie da Ballota nigra, a Ballota nigra subsp. uncinata cuja presença já é referida por Ruy Telles Palhinha no seu Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores, publicado em 1966 pela Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves.

A Ballota nigra, que pertence à família das Lamiaceae é conhecida cá pelo nome de marroio-negro, é usada para fins medicinais em vários locais do mundo e também nos Açores.

Yolanda Corsepius, no seu livro Plantas Medicinais dos Açores, editado em 1997, escreve que esta planta, que naturalmente pode ser encontrada junto a muros e sebes, tem as seguintes propriedades e indicações: “calmante-insónias, nervosismo; antiespasmódica; colerética.”

Maria Manuela Magalhães da Silva, num trabalho de fim de curso, apresentado na Universidade dos Açores em 1992, por seu lado escreve que o marroio-negro nos Açores para além de cultivado pode ser encontrado em depósitos pedregosos.

Quanto ao seu uso, Maria Manuela Silva diz que é “calmante nas perturbações de origem nervosa (depressão, enxaqueca, neurastenia, estados ansiosos e outras afeções nervosas ou psíquicas. É também um diaforético. Em aplicações externas, as compressas de marroio aliviam as dores reumatismais”.

Nos Açores. Também, existe o marroio-branco (Marrubium vulgare) que consta da lista das plantas usadas na medicina popular publicada no número 17 do Boletim da Comissão Reguladora dos cerais do Arquipélago dos Açores, relativo ao ano de 1953. De acordo com o autor do trabalho, Silvano Pereira, aquela planta também denominada marrolho aparecia sobretudo “nos matos e incultos”, sendo “a infusão das suas folhas…aconselhada para combater a icterícia”.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores,31850, 13 de junho de 2019, p.16)





sábado, 8 de junho de 2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Depois do ciclo da vaca, o do café?


Depois do ciclo da vaca, o do café?

Nos últimos tempos muitas notícias têm vindo a público sobre o cultivo do café. Uma delas dava conta da formação de uma associação regional que tem como objetivo a comercialização do café, através da instalação nos Açores de uma fábrica. Outra notícia, mais recente associava uma parceria entre a Associação de Produtores Açorianos de Café e uma conhecida empresa continental com vista à venda do “primeiro café 100% português e o primeiro produzido na Europa”.

Existem mais de 100 espécies de cafeeiro, sendo o mais conhecido o cafeeiro arábica (Coffea arábica L.) que é originário das zonas montanhosas da Abissínia. De lá foi levado pelos árabes e pelos holandeses para a Ásia. A partir da Ásia terá chegado aos jardins de França e da Holanda e depois à América. Embora não haja provas, pensa-se que terão sido os portugueses a introduzi-lo no Brasil a partir do Oriente.

Não pense o leitor que é recente a chegada do café aos Açores, pois já está entre nós há muito tempo.

Não havendo uma data precisa, pelo menos não conhecemos, para a introdução do café nos Açores, sabe-se que no princípio do século XIX já era cultivado em São Miguel como se constata através de uma nota publicada no volume III das Escavações de Francisco Maria Supico. Na página 1241 pode-se ler: “…O cafezeiro e a cana de açúcar, não obstante terem sido com trabalho e cuidado produtivos em alguns casos, contudo são cultivados principalmente como curiosidade.”

O Dr. Carreiro da Costa, por seu turno, no nº 17 do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, cita uma nota da autoria de André do Canto segundo o qual “por volta de 1844, havia alguns micaelenses que tinham plantado alguns cafeeiros deles colhendo os preciosos grãos com certa abundância”.

No texto referido são mencionados os nomes do Dr. João Borges de Medeiros Amorim que possuía uma “não pequena” plantação na Lagoa e do sr. Nicolau Maria Raposo do Amaral que da sua propriedade no Rosto do Cão colhia “mais de arroba e meia de grão encascado”.

Relativamente à qualidade do café produzido, André do Canto, referindo-se ao produzido pelo Dr. João Borges de Medeiros Amorim, garante que é boa, como se pode ler no seguinte extrato: “Pela nossa parte, podemos assegurar ser ele de boa qualidade, pois alguma vez o tomámos em sua casa, sempre aromático e mui saboroso, não diremos que igualasse o de Moka, mas certamente era igual, senão superior, ao melhor do Brasil”

Através de uma consulta ao periódico editado pela Sociedade Promotora Agricultura Micaelense, O Agricultor Micaelense, constata-se que o café, em 1848, chegava a São Miguel proveniente do Brasil e da ilha Terceira. No número de maio daquele ano há a referência à chegada de 15 sacas de Pernambuco e no número de julho há a menção a 12 sacas oriundas da ilha Terceira.

Naquele ano já se produzia café em São Miguel, tendo António Feliciano de Castilho feito publicar, no nº 4, d’O Agricultor Micaelense, uma proposta por ele redigida a 12 de março de 1848 cujo conteúdo é o seguinte:

“Atendendo a ser o café género de consumo fácil e caríssimo e a terra desta ilha e os seus ares parecerem mui próprios para criarem o cafeeiro, proponho que, a fim de promover a sua cultura, a SOCIEDADE estipule um prémio para o lavrador de S. Miguel que maior colheita de café manifestar dentro de certo prazo”.

No texto do referido anteriormente, André do Canto escreveu que não acreditava que a cultura do café pudesse “fazer a riqueza de S. Miguel e porventura equiparar-se à das laranjeiras, dos cereais, da seda das plantas oleíferas, etc.”.

Esperamos que, no futuro, o café seja mais uma das culturas de uma agricultura diversificada e respeitadora do ambiente e da saúde que os Açores e os açorianos precisam.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31845, 6 de junho de 2019, p.10)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Simplício Gago da Câmara e a agricultura micaelense


Simplício Gago da Câmara e a agricultura micaelense

Na semana passada dediquei o texto a Simplício Gago da Câmara, tendo mencionado, entre outros aspetos da sua vida, o seu contributo para a reflorestação da ilha de São Miguel. Neste texto, darei a conhecer o seu contributo para o desenvolvimento da agricultura.

Vila Franca do Campo foi um concelho com grandes quintas de laranjeiras, tendo a sua apanha sido magistralmente descrita pelos irmãos Joseph e Henry Bullar no seu livro “Um inverno nos Açores e um verão no Vale das Furnas”. Simplício Gago da Câmara foi, segundo Luís Arruda, produtor e exportador de laranja, tendo introduzido em São Miguel “a laranja dita sevilha, a partir de sementes obtidas em Londres”.

Simplício Gago da Câmara não era um mero produtor de laranjas, ou um agricultor passivo. Pelo contrário, tal como estudava muito sobre História Natural também observava com pormenor as plantações e experimentava. Assim, de acordo com um texto publicado no nº 7 d’O Agricultor Micaelense, verificando que possuía uma laranjeira enfezada que não reagia a qualquer tratamento resolveu “decotá-la para que rebentasse com mais força e que, traçando-a a meio do tronco, observara que o âmago estava todo negro, e azougado, o que não tinha dúvida de atribuir ao defeito proveniente da mergulhia”.

Na Gorreana, para além da plantação de matas com pinheiros, giestas e criptomérias, Simplício Gago da Câmara também cultivou chá e iniciou a sua industrialização.

Simplício Gago da Câmara foi produtor de vinho, a partir de videiras que possuía sobretudo no seu prédio do Convento. Para além dos terrenos do Convento, importa referir que depois de adquirir o ilhéu de Vila Franca do Campo, Simplício Gago da Câmara fez plantações de vinhas que perduram até ao século passado.

A criação de gado bovino também foi uma das atividades desenvolvidas por Simplício Gago da Câmara como se pode depreender de uma nota publicada no número dois d’ O Agricultor Micaelense. Com efeito, o autor do texto menciona o cultivo de beterraba que servia de alimento para os porcos, para os bois d’engorda, para as vacas de leite, para todos os animais” e acrescenta que “em Vila Franca o Sr. Simplício Gago está dando há mais de três meses, uma arroba de beterrabas por dia a cada um dos vários bois que prepara para o açougue e outro tanto às suas vacas e porcos, com o que têm medrado a olhos vistos..”

O cultivo do linho também foi experimentado por Simplício Gago da Câmara, como demonstra o relato de uma reunião da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense realizada 11 de dezembro de 1848. Assim, na reunião referida, presidida por José Jácome Correa, aquele expôs “uma amostra de linho com seis palmos de comprido, de semente originária de Riga”.

Simplício Gago da Câmara também se preocupou com o cultivo do trigo e com os trabalhos associados à debulha. Assim, de acordo com um texto publicado n’ O Agricultor Micaelense nº 7, ele introduziu “umas pequenas máquinas de debulhar, portáveis e movidas por dois homens”. Ainda no que diz respeito a maquinaria para aligeirar o trabalho no campo, é atribuída a Simplício Gago da Câmara uma máquina a vapor existente em São Miguel que era multifuncional, pois tanto servia para moer trigo ou milho como para serrar madeira.

Não sabemos se teve concretização, mas Simplício Gago da Câmara projetou a introdução de “um moinho de azeite, movido a vapor, e uma prensa hidráulica para a expressão do óleo”. De acordo com o texto publicado no primeiro número d’ O Agricultor Micaelense, “ a importante introdução a que aludimos será o mais forte incentivo e fomento de uma cultura abandonada entre nós [a produção de sementes oleaginosas] mas de incontestável e reconhecida vantagem entre os estranhos”.



Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31839, 30 de maio de 2019, p 13)

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Açores- natureza morta


Açores- natureza morta

A imagem do Largo do pelourinho, rebatizado de Largo Dr. José Medeiros Ferreira, em Vila Franca do Campo, mostra o horror que autarcas de todos os lugares têm à terra e o seu ódio às flores que só são úteis para uso em discursos hipocritamente ambientalistas.

Cinzentões como são, preferem a ditadura do cinzento!

TB

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A propósito de Simplício Gago da Câmara


A propósito de Simplício Gago da Câmara

Através da leitura do livro “Alguns aspectos de intervenção humana na evolução da paisagem da ilha de S. Miguel “Açores” da autoria do arquiteto paisagista José Marques Moreira, especialista em plantas ornamentais e uma referência como pedagogo, tomei conhecimento de que associado aos nomes de José do Canto, António Borges e José, Jácome Correa está Simplício Gago da Câmara, morador em Vila Franca do Campo, como responsáveis pela grande introdução de exóticas na ilha de São Miguel.

De acordo com Marques Moreira, a introdução referida ocorreu sobretudo a partir de 1853, mas enquanto os primeiros adquiriram as espécies, “originárias da América Central, ilhas do Pacífico, das costas Africanas, da Austrália e da Nova Zelândia”, em viveiristas de França, Bélgica e Inglaterra, Simplício Gago da Câmara mandava-as vir diretamente da Austrália.

Muito conhecidos José do Canto, António Borges, José Jácome Correa sobretudo pelos jardins que deixaram, Simplício Gago da Câmara é quase desconhecido da maioria das pessoas, pelo que importa recordar alguns aspetos da sua vida.

Simplício Gago da Câmara, proprietário rico e aventureiro que foi para a Austrália para explorar ouro, nasceu em Ponta Delgada a 19 de maio de 1808 e faleceu na mesma cidade a 7 de agosto de 1888.

A ida para a Austrália para explorar jazigos de ouro destinava-se, segundo o seu trineto José Gago, a fazer fortuna para “obter os meios de estabelecer novas indústrias e desenvolver a sua terra natal”. Se é certo que a exploração de ouro foi um fracasso, não é menos certo que o tempo em que Simplício Gago da Câmara esteve na Austrália permitiu que ele, apaixonado pela História Natural, observasse e estudasse a fauna e a flora locais, ao mesmo tempo que já selecionava as espécies da flora australiana que poderia levar para São Miguel.

Depois de ter ganho algum dinheiro como barbeiro e hortelão na Austrália, Simplício Gago da Câmara regressou a São Miguel trazendo consigo plantas e ou sementes de eucaliptos, acácias e araucárias.

De acordo com José Gago, Simplício Gago da Câmara oferecia às centenas ou aos milhares as plantas que obtinha nos seus viveiros localizados no prédio do Convento, em Vila Franca do Campo, e ele próprio plantava em matas em São Brás e na Fajã do Calhau. Para além das espécies já referidas, Simplício Gago da Câmara plantou, em terrenos localizados por cima da Gorreana, pinheiros, giestas e criptomérias.

Outra aventura em que se meteu e que se traduziu em mais um fracasso foi a da pesca do bacalhau. Com efeito, tentando introduzir a pesca do bacalhau nos Açores, em vez de comprar um navio no continente decidiu aproveitar as madeiras que possuía nas suas matas mandando construir um barco no Porto Formoso. Tendo partido para a Terra Nova, onde a pesca foi proveitosa, acabou por perder quase todo o bacalhau apanhado ao trazê-lo para Vila Franca do Campo para o secar.

Em termos de participação cívica, Simplício Gago da Câmara esteve ligado à Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense que teve como principal dinamizador o seu primo José do Canto, à Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo e à Associação das Escolas Móveis.

Agricultor, sendo produtor de vinho e produtor e exportador de laranja, Simplício Gago da Câmara foi membro da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, tendo sido secretário da comissão vinícola.

Dirigiu com sucesso durante quatro anos a Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo, tendo, entre outras iniciativas, contratado dois médicos. Apesar disso, tal não impediu que viesse a ser vítima de uma “demissão injusta e violenta”.

Simplício Gago da Câmara, generoso como era, foi um dos principais contribuintes da Associação das Escolas Móveis.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31835, 24 de maio de 2019, p. 16)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

José de Almeida Fernandes, pioneiro da Educação Ambiental


José de Almeida Fernandes, pioneiro da Educação Ambiental

Com 87 anos de idade, faleceu no passado dia 29 de abril um dos homens mais influentes em Portugal no que diz respeito à conservação da natureza e à educação ambiental, o biólogo José de Almeida Fernandes.

Figura (quase) desconhecida, mesmo por aqueles que promovem ou dinamizam ações ditas de educação ambiental no nosso arquipélago, José de Almeida Fernandes é recordado por mim em todas as ações de formação dinamizadas no âmbito da formação contínua de professores.

Este texto é o meu modesto contributo para que a sua obra não caia no esquecimento e a minha homenagem ao homem que dedicou a sua vida, quer em instituições públicas quer a nível associativo, à defesa do ambiente.

No que diz respeito ao associativismo, José de Almeida Fernandes foi durante três décadas dirigente da Liga para a Proteção da Natureza, a mais antiga organização de conservação da natureza da Península Ibérica, fundada em 1948 na sequência de um apelo do poeta Sebastião da Gama por ocasião da destruição da mata do Solitário, na Arrábida.

José de Almeida Fernandes, ainda durante o Estado Novo, desempenhou um papel importante na Comissão Nacional do Ambiente, criada a 19 de junho de 1971. Depois do 25 de abril de 1974, nomeadamente a partir de 1975, o seu trabalho prosseguiu e intensificou-se tendo representado o país em diversas organizações internacionais, presidiu ao Instituto de Conservação da Natureza e mais tarde ao IPAMB-Instituto de Promoção Ambiental, criado por ele em 1993 com o objetivo de promover ações no domínio da formação e informação dos cidadãos e apoiar as associações de defesa do ambiente.

José de Almeida Fernandes deixou-nos, entre outros, mais de 30 artigos científicos, um
trabalho sobre a sua paixão, a Arrábida, intitulado “A Serra da Arrábida: o seu interesse botânico perante o turismo”, publicado, em 1954, no Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Sociais e o livro, publicado em 2002, intitulado “Do Ambiente Propriamente Dito - Considerações pouco canónicas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento Humano”.

Denominando-se como ambientalista cético, mas não pessimista nem cínico, José de Almeida Fernandes no seu livro aborda temas como o lugar do homem na natureza, os recursos e a capacidade de carga da Terra, a conservação da natureza e as áreas protegidas, as crianças e o ambiente, a guerra como fenómeno ecológico e a educação ambiental.

José de Almeida Fernandes não foi nada meigo, diria que foi justo, quando criticou os que dizem uma coisa e fazem outra, os que não sabem o que dizem e os que usam determinadas palavras para, apenas, embelezar discursos.

Sobre o assunto escreveu que o “discurso do nosso tempo é, na realidade, um encadeamento mais ou menos lógico de palavras ditas e escritas para ocultar a lógica do discurso da vida” e acrescentou o seguinte: “A “muleta” ambiente é hoje indispensável à solidez” do discurso político, seja ele do poder ou do contra-poder. Com tal usura perdeu a força que devia ter dominada que foi pelo joio dos interesses, da mentira, da pseudopreocupação pela “gestão solidária” dos bens da terra”.

Ele que foi o grande impulsionador da educação ambiental no país, também denunciou os que usam e abusam da palavra educação para esconder a sua incapacidade para contribuir para melhorar a sociedade em que vivem.

A propósito da educação escreveu:

“Funciona como uma panaceia universal, que resolverá as asneiras que teimamos em cometer, ou que, como poeira nos olhos, perpetuará o poder, castrando conscientemente o Homem que existe dentro de todos nós”.

“Arma eleita pelo sistema, garante a reprodução do que interessa e o desprezo pela inovação que não seja “conveniente”. É, pois, urgente mondar a Educação, antes que o homem vá também acompanhar o joio na lâmina da gadanha da “ceifeira”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31828, 16 de maio de 2019, p. 8)

quarta-feira, 8 de maio de 2019