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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
A propósito de Agostinho da Silva e das festas do Espirito Santo
A propósito de Agostinho da Silva e das festas do Espirito Santo
Introdução
Desde os primórdios do povoamento do arquipélago, as festas do Espírito Santo são a maior manifestação da cultura e da religiosidade populares dos açorianos. Por tal motivo, ao longo dos tempos têm sido alvo de estudos vários, com destaque para os de cariz etnográfico.
No presente texto, não pretendendo esgotar o assunto e salvaguardando que não é possível fazer generalizações, pois há grandes diferenças nos festejos, mesmo dentro de uma dada localidade, abordaremos os seguintes tópicos: o culto do Espírito Santo para Agostinho da Silva, a evolução das festas na ilha de São Miguel, as festas, os gastos e a caridade, as tentativas de controlar as festas por diversas entidades, nomeadamente pela Igreja Católica e, por último, o tratamento dado aos animais.
O culto para Agostinho da Silva
O culto do Espírito Santo foi trazido para os Açores pelos primeiros povoadores portugueses, tendo sido depois levado, pelos açorianos, para os quatro cantos do mundo, nomeadamente para o Brasil e para a América do Norte.
Para a maioria da população dos Açores, creio, a Rainha Santa Isabel (1271-1336) é tida como a responsável pela criação das festividades e culto do Espírito Santo em Portugal. O etnógrafo micaelense, natural de Vila Franca do Campo, Padre Manuel Ernesto Ferreira, apresenta a hipótese do nascimento das festas em Coimbra ou em Alenquer, mas liga-as sempre à Rainha Santa Isabel, como se comprova pela seguinte frase: “O que parece mais provável é que a Rainha Santa, à imitação do que se fazia talvez em Espanha ou na Alemanha, instituísse a comovente solenidade em várias localidades, em anos em que acontecesse achar-se nelas no domingo de Pentecostes”(Ferreira, 1993, 179).
O historiador Jaime Cortesão (1884-1960), citado por Cabral e Nunes (1982-1983), sem por de parte o papel da Rainha Santa Isabel defende que a origem das festas do Espírito Santo deveu-se “a franciscanos, de tendência espiritual, e que a rainha [Isabel] a quem aquele culto de família e as cerimónias próprias lisonjeavam o tenha favorecido” (p.809).
Agostinho da Silva (George Agostinho Baptista da Silva), filósofo nascido no Porto em 1906, que faleceu em Lisboa em 1994, não contraria Jaime Cortesão, tendo sobre o assunto escrito o seguinte: “… é a do Culto Popular do Espírito Santo, afirmando em pleno durante duzentos e cinquenta anos, desde Isabel a Dom João III, sobrevivendo como pode no Continente, enraizado ainda nas Ilhas e em seus focos de imigração, passado, e nela igualmente radicado, a tanta localidade brasileira desde o XVI por diante” (Silva, 1988, p. 99).
Agostinho da Silva que terá tido contato com as festas do Espírito Santo no Brasil, país onde viveu, entre 1944 e 1969, não escreveu sobre o que observou, mas terá idealizado o que deveria ser o “culto popular do Espírito Santo”, que segundo ele “é a religião viva dos Açores, tão viva que me parece que a obrigação essencial dos açorianos deveria ser a de irem pelo mundo como missionários do seu culto” (Silva, 1996, p.21).
Nas festas do Espírito Santo, há três componentes, a coroação, o bodo e a libertação de presos. Com efeito, segundo Agostinho da Silva, “o que o Povo diz no seu mais autêntico e espontâneo Culto é que devam as Crianças a governar o mundo, como afinal defendia Cristo; que deve o que se consome de básico ser abundante e gratuito, como nas Bodas de que fala o Evangelho, multiplicando-se o Pão; que se devem abolir as prisões, como ordena o “Não julgueis” (Silva, 1988, p. 99).
No seu texto “A Educação de Portugal”, Agostinho da Silva relembra as várias componentes do culto e destaca uma delas. Assim, segundo ele “o ponto fundamental, do culto popular do Espírito Santo não é, porém, nem o banquete comum e livre, nem o soltar de presos, nem a procissão que segue a Pomba, no estandarte ou coroa; é a instalação de uma criança como Imperador do mundo” e acrescenta: “No Paraíso terrestre que se quer dispensam-se os adultos de todas as funções dirigentes que têm tido até hoje e se declara mais importante que tudo quanto possa ter sido na vida o menino que foram e tão infelizmente morreu; declara-se que todos os imperadores de qualquer Império declarado Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que uma convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro “(Silva, 1996, pp. 23-24).
Sobre a evolução das festas do Espírito Santo na Ilha de São Miguel
De acordo com o Padre Ernesto Ferreira, depois da iniciativa dos reis, os fidalgos obtiveram autorização para replicarem as festividades e “para mandarem fazer uma corôa similhante á portuguesa e que se chamaria Corôa Real do Divino Espírito Santo.” (Ferreira, 1993, p.180).
O mesmo etnógrafo, aventou a hipótese de o donatário das ilhas e dos fidalgos que com ele vieram terem trazido coroas e de que a devoção que estava associada à prática de “frequentes actos caridosos” (Ferreira, 1993, p. 180) se ter estendido às camadas populares.
Num texto de 1923, o escritor e etnógrafo vila-franquense Armando Cortes Rodrigues (1891-1971), um dos colaboradores da revista Orpheu, num texto publicado no Arquivo dos Açores intitulado “As festas do Espírito Santo na Ilha de S. Miguel” condena algumas alterações que ocorreram nas festas ao longo dos tempos. Sobre o assunto, Cortes Rodrigues, escreveu o seguinte:
“As folias, mesmo nas aldeias, vão sendo substituídas pelas filarmónicas; as coroações caíram no exibicionismo do luxo, aparatoso desfile de vestuários, feira de vaidades entre o sorriso inocente das creanças; o pensamento da caridade, vincando o valor social destes festejos, vai diminuindo tanto mais, quanto maior é a sua paganização.
Naquela parte do povo, onde é mais funda a ignorância religiosa, encontra-se um culto supersticioso e incoerente do Espírito Santo, simbolizando na coroa, no sceptro e na bandeira, a quem atribuem baixas qualidades como o rancor e a vingança, facto que pouco se harmoniza com a maioria dos sentimentos de religiosidade das promessas que motivam quasi todas estas festas.”.
O vigor das festas não foi sempre o mesmo ao longo dos tempos, havendo épocas em que quase desapareceram. O Padre Ernesto Ferreira (1993) menciona que “por volta de 1665 se achavam confinadas no Convento de Santo André de Vila Franca do Campo.
Idêntica opinião apresenta o investigador e publicista Aníbal Bicudo e Castro (1874-1948) que, no jornal Diário dos Açores de 15 de maio de 1924, depois de associar o revigoramento das Festas do Espírito Santo a diversos cataclismos ocorridos na ilha de são Miguel, como a subversão de Vila Franca do Campo, em 1522, ou a gripe pneumónica de 1673, lamenta o esbatimento do culto quando as pessoas se esquecem do sofrimento provocado pela Mãe Natureza.
Sobre o culto do Espírito Santo a dado passo do seu artigo podemos ler o seguinte:
“…Culto sempre latente na alma micaelense, ou melhor na alma simples e generosa do povo sertanejo, que é, na derrocada do presente momento, quem guarda avaro o escrínio das nossas melhores tradições [….]. Ao povo simples dos nossos campos não é mister relembrar o milagre da Pombinha, porque d’elle guarda impoluta memória e excelso culto…”(Castro, 1924, pp.2 e 4)
Relativamente às alterações mais recentes, como cada caso é um caso, faremos apenas referência à das Festas do Espírito Santo de Pentecostes que se realizam anualmente na freguesia da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo que acompanhamos desde meados da década de 60 do século XX, por sermos naturais da localidade.
No que diz respeito às festividades propriamente ditas, o essencial ocorria na sexta-feira (dos gueixos), dia em que havia a recolha dos animais (nomeadamente touros e bezerros). Destes, alguns eram arrematados para a realização de receitas para custear as festas, outros, os mais novos, eram entregues a criadores para serem alimentados até ao ano seguinte e outros eram abatidos, sendo a sua carne usada no jantar dos criadores, nas ofertas aos mais necessitados, essencialmente a viúvas e viúvos, e a restante nas pensões não só dos criadores, mas também de pessoas que pagavam para tal.
O sábado era dedicado à distribuição das pensões, no domingo realiza-se a componente religiosa, com a coroação, em geral de crianças, e missa na Matriz de São Miguel Arcanjo e na segunda-feira da Pombinha, realizava-se um arraial abrilhantado por uma filarmónica local.
Hoje, a situação é bastante diferente, como se poderá ver através da consulta ao programa das festas do presente ano. Assim, de entre as alterações registamos as seguintes: na sexta-feira foi introduzido um espetáculo musical, no sábado outro espetáculo musical com uma cantora contratada no continente português, neste caso a “Rosinha”, seguida de um DJ (disco-jóquei), no domingo foi introduzida uma noite de fados e mais um espetáculo com um DJ, na segunda-feira mais um espetáculo musical, o mesmo acontecendo na terça-feira.
Outra das alterações ocorridas na Irmandade de Pentecostes da Ribeira Seca foi a institucionalização da organização das festas que se traduziu na diminuição da participação da população na escolha dos organizadores das mesmas. Se antes, no último dia, dia da apresentação das contas que ainda se mantem, a população tinha a possibilidade de escolher o Mordomo para o ano seguinte, agora as festas são organizadas pela Irmandade que se encontra devidamente legalizada como associação sem fins lucrativos e a escolha do Mordomo é feita de entre os associados da mesma.
Ainda em relação às Irmandades, embora não possa garantir que seja regra geral, conheço três em que as mulheres, que são as grandes obreiras das festas, não fazem parte das mesmas, embora nos estatutos não haja qualquer disposição que as impeça.
Em jeito de conclusão, podemos dizer que enquanto a componente religiosa se manteve, a componente profana mais do que quadruplicou, pelo menos em termos de custos e a ajuda ao próximo nas festas do Espírito Santo quase desapareceu.
As festas, os gastos e a caridade.
Antes de apresentar algumas informações relativas à prática da caridade nas festas do passado e da atualidade, recordo que Agostinho da Silva sobre a mesma escreveu que “tempo virá de caridade, entendendo-se caridade não como aquele suplemento de humilhação que se leva aos que caíram na luta, mas como o amor irrestrito que, embora consciente dos defeitos do amado, o ama sem pensar em saldo positivo ou negativo” (Silva, 1996, p.11).
No século XIX, há vários relatos de festividades em honra do Espírito Santo, onde estão presentes as esmolas aos presos e aos mais necessitados.
Numa notícia, relativa a 1851, compilada por Francisco Maria Supico, podemos ler que num Império de Ponta Delgada foram distribuídas 700 esmolas. No mesmo império, e de acordo com Supico (1995, p. 583) no sábado “foram distribuídas esmolas às recolhidas da Trindade, Santa Bárbara, presos, e grilhetes do calabouço” e no domingo foi realizada uma procissão que levou “o jantar aos presos nas cadeias” e no arraial foram distribuídos “aos pobres que ali se encontravam, muito pão em fatias e algum vinho”. Na segunda-feira, na Mordomia, foi servido um jantar aos pobres.
A miséria em que vivia uma parte da população era tal que segundo a mesma fonte, no ano seguinte no Império da Santíssima Trindade de São Pedro Gonçalves, “por todo o correr da tarde de segunda-feira se revezavam as mesas em que centenas de pobres se assentaram como sempre servidos com a maior abundância e fartura…Distribuíram-se pelos pobres cento e onze arrobas de carne e três mil pães, quatro pipas de vinho, laranjas…” (Supico, 1995, p. 584)
Não contestando a necessidade do povo se divertir, Francisco Maria Supico, num texto publicado em 1857 no jornal “O Templo”, condenou “essas pomposas festividades chamadas impérios por não satisfazerem as “intensões dos que para elas concorrem com donativos, e muito menos os preceitos da caridade que nelas tanto se alardeia” (Supico, 1995, p. 586).
Que razões apresentou Supico para contestar alguns aspetos das Festas do Espírito Santo?
- Primeira razão- Se é verdade que a classe pobre é beneficiada, também é verdade que se muitos desacatos são cometidos. O autor não menciona, mas há relatos de muita pancadaria associada ao consumo de bebidas alcoólicas.
- Segunda razão- As intenções são beneficiar a indigência, mas esta nem sempre é beneficiada. Segundo Supico (1995)“na distribuição das esmolas no arraial de qualquer império, são as mesas cercadas quase exclusivamente por mendigos de profissão …Há um considerável número de indigentes que circunstâncias naturais tem reduzido a semelhante estado, que preferem estalar de fome em suas moradas, a sujeitarem-se a ir demonstrar a sua miséria no meio de tanto aparato”(p.586).
- Terceira razão – A filantropia não se pratica publicitando os atos. Supico escreveu: “Não se pratica a caridade num arraial guarnecido de loiros e flores abrilhantado de bandeiras, ao som de músicas e algazarras. Por certo que não é isso a caridade ensinada por Jesus Cristo” (p. 586).
No dia 25 de maio de 1929, de acordo com o jornal Correio dos Açores, do dia 4 de junho do mesmo ano, ocorreu a distribuição de pensões do império de Almeida, tendo havido “farta distribuição de esmolas de pão e carne pelos pobres, no que se praticou a sublime virtude da Caridade.”
Em 1932, o Correio dos Açores, do dia 20 de maio, noticiou várias festas do Espírito Santo realizadas no concelho de Vila Franca do Campo, tendo a propósito do Império do Largo Bento de Góis, depois de se referir ao “ostracismo a que tinha sido votado durante alguns anos” afirmado o seguinte: “Foi-lhe dada uma nova feição, que também devia ser seguida pelos outros impérios, a prática da “Caridade”, em harmonia com o verdadeiro Espírito Santo”.
Hoje, se se analisar os orçamentos de algumas irmandades, por vezes movimentando valores superiores a 50 mil euros, verifica-se que a solidariedade ou caridade é responsável por uma parte ínfima das despesas.
As tentativas de controlar as festas populares
Ao logo dos tempos, foram várias as tentativas de disciplinar as festas do Espírito Santo que perderam o controlo por parte da hierarquia da Igreja, quer a nível da diocese quer pelos diversos párocos. Se é verdade que por vezes as festas populares estavam mais próximas dos desígnios para que foram criadas, noutros casos nas mesmas existiam abusos de vária ordem que foram denunciados quer pela comunicação social quer por quem escreveu sobre a temática.
Manuel Gandra, no livro “O Império do divino na Amazónia”, apresenta várias casos em que a hierarquia da Igreja Católica impôs um conjunto de restrições ou mesmo proibições ao longo de vários séculos.
Neste texto, apenas faremos referência a um exemplo por século e em locais diferentes.
A primeira deliberação, datada de 1559, foi das Constituições Sinodais do Bispado de Angra. Entre ouras medidas tomadas foram proibidas “as danças dos foliões no interior dos templos, bem como as cantorias durante as coroações” (Gandra, 2017, p.78).
Em 1699, numa visita a Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, o Dr. Bernardo Estácio determinou que existisse apenas um império por freguesia e que os mordomos deviam ter um “livro de receita e despesa, controlado pelo Ouvidor, para que as esmolas sejam dadas fielmente aos pobres” (Gandra, 2017, p. 86)
Em 1745 são de novo condenados os Impérios das Mulheres, é proibido de se realizar o Império da Senhora da Vida, na freguesia de Ponta Garça e é imposto “que o Império da Misericórdia, em Vila Franca, se faça no dia de Pentecostes e que o de Santo André se realize na 1ª oitava da festa, “para que os padres aproveitassem das esmolas que se tiravam para o dito ministério” (Gandra, 2017, p. 89).
De acordo com Gandra (2017), o Bispo açoriano Dom Frei Estevão de Santa Maria ordenou “que os Coroamentos não tenham lugar para além do Domingo da Trindade, e mais interdita os bailes nas casas onde se encontre a Coroa do Santo Espírito” (p.96).
Em 1959, Dom Manuel Afonso de Carvalho emitiu uma Nota Episcopal que, segundo Gandra (2017) visava “a Evangelização da devoção ao Paracleto, bem como a regularização e regulamentação canónicas coercivas dos Estatutos das Irmandades do Espírito Santo” (p.107). Dois anos depois, o mesmo bispo declarou extintos todos os Impérios que não tinham os seus estatutos canonicamente aprovados, o que acontecia com a esmagadora maioria dos existentes dos Açores.
O jornal Correio dos Açores, de 18 de junho de 1961, relata o caso de seis filarmónicas da ilha Terceira que foram excomungadas pela Câmara Eclesiástica pelo facto de “terem participado em “Coroações do Espírito Santo” a que o Prelado negou carácter religioso por não serem realizadas de acordo com um regulamento cujos termos têm apaixonado a opinião pública”.
Mais recentemente, em 2012, uma paróquia da ilha de São Miguel tentou “disciplinar as Irmandades do Espírito Santo e as Coroações, apresentando um conjunto de regras que poderão fazer algum sentido para os crentes e para quem se revê na organização da Igreja Católica. Assim, de acordo com um conselho pastoral paroquial, foi recomendado que devem ser pessoas adultas a coroar, que “se possível, deverá coroar apenas a coroa da festa ou até 3 coroas”, que haja “decoro no vestir e no agir” de quem vai coroar e que “todos envolvidos na festa deverão ter o culto/cota em dia”.
Por parte do Estado a tentativa de disciplinar ou controlar as festas do Espirito Santo também existiu e continua a acontecer. Gandra (2017, p. 103) refere que em 1911 a república procurou “laicizar as Irmandades”, fazendo delas “associações culturais ao abrigo da Lei de Separação da Igreja e do Estado”.
Mais recentemente, ao mesmo tempo que o Governo passou a cobrar impostos e taxas também passou a apoiar a manutenção ou a construção dos Impérios e Casas do Espírito Santo, a declarar algumas Irmandades como instituições de interesse público e pasme-se a subsidiar algumas irmandades, como se pode constatar através da leitura do extrato de um despacho da Presidência do Governo Regional dos Açores:
“Considerando que é tradição das Festas do Divino Espírito Santo a distribuição de carne, pão, massa e vinho às muitas pessoas carenciadas, originando onerosos encargos que os Impérios têm de suportar, nomeadamente para a compra de gado;
Considerando o facto de os Impérios carecerem de apoio para poderem realizar as suas Festas Tradicionais e, ainda, o pedido oportunamente formulado; … determino a concessão à Organização das Festas do Divino Espírito Santo – Império da …., de € 200,00 (duzentos euros) destinados a apoiar os encargos com a realização das Festas Tradicionais em honra do Divino Espírito Santo, importância que deverá ser processada pela rubrica 04.08.02 – “Transferências Correntes – Famílias - Outras” do Orçamento da Presidência do Governo Regional para 2012.”
As festas do Espírito Santo e os animais
Agostinho da Silva manteve uma relação especial com os animais. Com efeito, embora tivesse uma predileção pelos gatos, que foram seus companheiros ao longo da vida, respeitava todos os animais a ponto de ter optado por um regime alimentar essencialmente vegetariano. Sobre o assunto escreveu Franco (2015): “Na conversa com Herman José, a 10 de Maio de 1990, no ciclo televisivo das “Conversas Vadias”, já ao cair do pano, ele mesmo declarou para todo o Pais “evito comer animal; coitado do bicho”. Há pelo menos 50 anos que evitava!” (p. 291).
Sobre o mesmo assunto, Agostinho da Silva, citado por Borges (2016, p.126) escreveu:
“Na produção animal, deve escolher-se a fonte de proteína que seja ao mesmo tempo a mais barata e a mais adequada a cada Povo, insistindo-se, porém, sempre, no consumo da proteína vegetal equiparável: animal está no mundo para ser nosso companheiro, não nosso escravo e vítima”
Nas festas do Espírito Santo sempre foram abatidos animais, para a sua carne ser usada na alimentação dos organizadores e colaboradores, como os criadores do gado e os pagantes de pensões, mas também para a oferta aos mais pobres. Neste texto não vamos tecer considerações acerca dos abates que hoje penso serem feitos nos matadouros oficiais, mas que no passado ocorriam nos mais variados locais, como, por exemplo, nas margens de uma ribeira, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.
Uma das práticas que ainda se mantém, pelo menos nalguns impérios, é a do desfile de animais, nomeadamente gueixos, pelas ruas das localidades, que durante a minha infância e juventude ocorria na sexta-feira (a Sexta-Feira dos Gueixos) antes do domingo da festa.
Esta prática tem sido contestada, pois as condições dos arruamentos do passado, que eram de terra, hoje estão alteradas e o risco de os animais escorregarem, caírem e ferirem-se é muito maior. A agravar a situação durante os desfiles são lançados foguetes, cujo ruído perturba os animais habituados ao sossego das pastagens.
Sobre este assunto, a feminista e defensora dos animais Alice Moderno (1867-1946) escreveu no seu jornal, A Folha, o seguinte: “É certamente uma época alegre para o povo; mas quem para a patente são os pobres bois, que são abatidos em grande número, depois de passeados pelas ruas com adornos de flores, o que faz lembrar a época do paganismo”.
Num texto, intitulado Os “Impérios” do Espírito Santo, publicado no Correio dos Açores, no dia 25 de abril de 1937, Eduardo Dias fez uma breve descrição de um Império da freguesia das Furnas. Sobre o sacrifício dos animais, o autor escreveu o seguinte:
“O mordomo, os amigos e a música vão acompanhando, como podem, os irrequietos e floridos condenados à imolação. Feita a volta à imensa e majestosa cratera – O Vale das Furnas – o cortejo regressa às imediações da casa do mordomo.
Começam então os sacrifícios ao ar livre:
O animal, forçado a ajoelhar, recebe entre os chifres a pontilha do improvisado magarefe e logo um novo e enorme golpe entre as patas dianteiras. Enquanto garotos montam sobre os quartos da rês para precipitar a hemorragia, outros acorrem com malgas, tigelões, alguidares e marmitas ao chafariz de sangue”.
Proibida esta prática, a que tivemos a oportunidade de assistir, na freguesia da Ribeira Seca, no concelho de Vila Franca do Campo, nos anos sessenta e setenta do século passado, hoje ainda persiste, pelo menos em algumas ilhas, sobretudo na ilha Terceira, a realização de touradas à corda associadas às festas do Espírito Santo. Segundo Lopes (2003, p.242) na referida ilha, aquelas “são remate certo de todas as festas, quer religiosas que profanas”.
Apesar de contestadas desde sempre, mesmo na ilha Terceira, as touradas à corda foram levadas pela indústria tauromáquica para outras ilhas, inclusive para São Miguel, com a ajuda de governantes, autarcas, comissões de festas religiosas e irmandades do Espírito Santo, onde não há controlo dos dinheiros que deviam ser usados com parcimónia e não para promover o abuso de animais.
Sobre este assunto, o Padre Ricardo Tavares, da paróquia dos Fenais da Luz, na ilha de São Miguel, uma das poucas localidades onde pretenderam associar touradas às Festas religiosas e aos impérios do Espirito Santo, emitiu um comunicado, no dia 25 de julho de 2017, onde afirmou o seguinte:
“A tourada é uma prática sádica, na qual as pessoas se divertem à custa do medo e do pânico do toiro, além de ser uma actividade bárbara, anti-civilizacional e dispendiosa, que queima verbas que podiam muito bem ser canalizadas para uma acção social ou até para o restauro da Igreja.
Infelizmente, a Comissão realizou a indesejada tourada, na qual poucas pessoas participaram. Porém, a Comissão foi demitida pela Diocese, por desobediência aos ditames da Igreja, a este e a outros. E acabam-se 7 anos de barbárie contra animais em nome de Deus!
Enquanto eu for pároco, não haverá lugar para violência contra animais, nem touradas nem bezerradas. Porque, enquanto houver maus-tratos contra animais, haverá sempre violência contra pessoas.”
Bibliografia
Borges, P. (2016). Agostinho da Silva - Uma Antologia Temática e Cronológica. Lisboa: Âncora Editora
Cabral, M., Nunes, M. (1982-1983). Contributos para o estudo das Festividades Populares em Louvor do Divino Espírito Santo no Lugar do Penedo (Colares-Sintra). Sintria, I-II, pp. 803-1028.
Castro, A. (1924). A festa da Pombinha-De como se radicou entre nós o culto do Espírito Santo. Separata do artigo inserto no “Diário dos Açores” de 15 de maio de 1924. 7 pp
Ferreira, E. (1993). A Alma do Povo Micaelense. Vila Franca do Campo: Editorial Ilha Nova-Câmara Municipal de Vila Franca do Campo. 232 pp.
Franco, A. (2015). O estranho colosso. Uma biografia de Agostinho da Silva. Lisboa: Quetzal. 735pp.
Gandra, M. (2017). O império do divino na Amazónia. Rio de Janeiro: Instituto Miukharajj Brasilan & Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica -Cesdies. 468 pp.
Lopes, F. (2003). Notas Etnográficas. Angra do Heroísmo: Instituto Histórico da Ilha Terceira. 437 pp.
Rodrigues, A. (1983). As festas do Espírito Santo na Ilha de S. Miguel. Arquivo dos Açores, volume XIV, Ponta Delgada.
Silva, A. (1988). Carta Vária. Lisboa: Relógio d´Água. 108 pp.
Silva, A. (1996). A educação de Portugal. Lisboa: Ulmeiro. 78 pp.
Supico. F. (1995). As Escavações, Volume II. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Pinheiros
Pinheiros
O meu último texto publicado no Correio dos Açores sobre a criptoméria, que considerei como sendo a planta mais utilizada como árvore de Natal, nos Açores, suscitou por parte de alguns leitores amigos alguns comentários, mencionando que nas suas casas, no passado usavam pinheiros.
Como me pediram algumas informações sobre os pinheiros, o texto de hoje é a eles dedicado.
O pinheiro terá sido uma das primeiras árvores introduzidas pelos povoadores na ilha de São Miguel. A propósito daquela árvore, o cronista Gaspar Frutuoso, no livro IV das Saudades da Terra, ao descrever a freguesia de São Roque escreveu o seguinte: “…porque tem um rico e grande pomar, com cento e sete grandes laranjeiras, todas arruadas por boa ordem, e um pinheiro de grande sombra e muitos limoeiros…”
Ainda sobre a introdução de pinheiros, há a registar o facto do capitão donatário Manuel da Câmara ter trazido de Lisboa, em 1553, sementes de pinheiros e que a sua cultura foi intensificada pelos padres da Companhia de Jesus que, por volta de 1750, fizeram grandes plantações nas Furnas, com grande sucesso, pois os mesmos foram cortados cerca de 40 anos depois, e no Charco da Madeira, que foram quase todos destruídos por um furacão ocorrido em 1779.
Outro facto relacionado com os pinheiros e que mostra o espírito empreendedor existente no século XIX foi a tentativa de aproveitar a sua resina. Estiveram envolvidos no projeto, por ordem decrescente das quotas que correspondiam à área de pinheiros: José do Canto (27%), José Jácome Correia (20%), Ernesto do Canto (20%), Barão da Fonte Bela (10%), Barão da Fonte Bela (Jacinto) (10%), Clemente Joaquim da Costa (8%) e Caetano de Andrade Albuquerque (5%). Embora com alguns resultados positivos em termos de extração da resina, o projeto foi abandonado, pois não compensava do ponto de vista económico.
Para além dos mencionados, entre outros, empenharam-se, no século XIX, na plantação de pinheiros bravos, Francisco Jerónimo Pacheco de Castro que os mandou plantar nas Furnas e José Pacheco de Castro que fez plantações na Gorreana e na Lagoa do Congro.
Outra nota curiosa, descrita por Carreiro da Costa, no primeiro volume do livro “Etnologia dos Açores” está relacionada com a utilização da resina numa festa realizada em Ponta Delgada. Segundo o autor citado, “em 1894, quando foi festejada, em São Miguel, a ligação do cabo submarino entre a Europa e a América, via Açores, a doca de Ponta Delgada foi toda iluminada com barricas de resina de pinheiro, extraídas das matas do Lameiro, pertencentes a José Jácome Correia”.
O género Pinus apresenta pouco mais de 100 espécies identificadas, sendo que nos Açores as mais abundantes são o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) que já se encontra naturalizado e o pinheiro-manso (Pinus pinea).
Nativo da região Mediterrânica o pinheiro-bravo, segundo os autores do livro “Árvores de Portugal e Europa”, editado, em 1992, pelo FAPAS- Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens, atualmente é cultivado “até à Grécia a E e atinge as costas atlânticas de França e de Portugal onde constitui a principal espécie florestal”.
Isabel Nogueira, no livro “Iconographia Selecta Florae Azoricae”, publicado pela Secretaria Regional da Cultura em 1988, depois de referir a importância da sua madeira para o fabrico de mobiliário, caixotes, aglomerados, etc., menciona a utilização na medicina. Segundo ela, “as gemas foliares postas de infusão e fervidas depois em água bastante açucarada produzem um bom xarope (xarope de seiva de pinheiro) que é utilizado na cura de catarros e bronquite”.
O pinheiro- manso, também originário da mesma região, por seu turno pode ser encontrado quer no Sul da Europa quer a Oeste da Ásia. É uma espécie muito cultivada devido às várias utilizações da sua madeira, por ser uma bonita ornamental e pelo pinhão que é comestível.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32014, 27 de dezembro de 2019, p.19)
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Sobre a criptoméria, a árvore de Natal dos Açores
Sobre a criptoméria, a árvore de Natal dos Açores
A planta mais utilizada como árvore de Natal nos Açores será a criptoméria (Criptomeria japonica) que é conhecida, também, pelos seguintes nomes vulgares: Clica, Cricomé, Titomé, Clipa.
A criptoméria é originária do Japão, onde para além de espontânea é cultivada, sendo uma das principais árvores produtoras de madeira daquele país e onde, também, é muito usada como ornamental em jardins, bosquetes e alamedas. A. Fernandes, no livro “Iconographia Selecta Florae Azorica”, publicado em 1983, faz referência a uma avenida “plantada por um padre, OGO SHONIN, há cerca de 650 anos (717 se nos referirmos à data actual)”, com mais de 1 milha de comprimento e com árvores com uma altura que varia entre os 38,4 m e os 57,6 m.
A introdução da criptoméria nos Açores terá ocorrido em meados do século XIX numa altura em que escasseava a madeira para as caixas usadas na exportação da laranja e depois para a do ananás.
Nos Açores, nomeadamente na ilha de São Miguel a área plantada de criptoméria tem variado ao longo dos tempos. Em 1934, o engenheiro silvicultor, Gonçalo Estrela Rego estimava que em São Miguel a mesma ocupava uma área de 1327,26 hectares o que correspondia a 29,45 % da área florestal da ilha.
Depois do relatório de Estrela Rego, na ilha de São Miguel assistiu-se a uma plantação intensiva, em regime de monocultura de criptoméria, de tal modo que hoje a criptoméria é a espécie florestal mais abundante, destronando o pinheiro bravo que era a espécie que ocupava maior área, segundo um inquérito florestal de 1932-1933. No final do século passado a criptoméria ocupava a área de 10 600 hectares, o que correspondia a 69% da área de matas de São Miguel.
A madeira de criptoméria é muito usada na construção civil e a espécie foi muito usada como cortina de abrigo em zonas de pastagem e em estradas de altitude.
De acordo com A. Fernandes, já mencionado, o género Criptomeria, cujo “nome deriva das palavras gregas Kryptos, escondido, e meroe, partes” possui apenas uma espécie, existindo várias variedades.
Uma cultivar muito bonito e que é usado sobretudo como planta ornamental é o “Elegans” que dá origem a árvores mais pequenas, com altura que varia entre os 5 e os 10 metros.
Esta cultivar que surgiu no Japão em meados do século XIX, foi importada para a Europa em 1854 pelo inglês Thomas Lobb, não se sabendo quem a trouxe para os Açores.
Conheço há muitos anos uma sebe de criptoméria elegante numa pastagem existente nas Lombas, na freguesia da Ribeira das Tainhas, no concelho de Vila Franca do Campo. Os interessados em conhecer a planta também a podem encontrar num caminho existentes nas plantações de chá da Fábrica de Chá da Gorreana e no Parque Beatriz do Canto, nas Furnas.
Como não há bela sem senão, a plantação de grandes áreas de criptoméria para além de transformar a paisagem das diversas ilhas dos Açores colocou em risco várias espécies endémicas. Sobre esta questão, o botânico sueco Erik Sjögren no seu livro Plantas e Flores dos Açores, publicado em 2001, escreveu o seguinte: “Apenas algumas plantas da laurissilva conseguem sobreviver debaixo do forte ensombramento dos povoamentos adultos de Cryptomeria e sobre a camada espessa de folhas e ramos, que se deposita sobre o solo e impede a colonização da maioria das plantas….O corte da floresta nativa para plantação de Cryptomeria é uma forte ameaça à sobrevivência da floresta endémica da zona-de-nuvens, que pertence ao mais valioso tipo de florestas, com características de relíquia do mundo”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32008, 18 de dezembro de 2019, p.14)
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Jane e Alfredo Bensaúde e a educação
Jane e Alfredo Bensaúde e a educação
Jane Bensaúde, que nasceu em Paris em 1862 e faleceu em Ponta Delgada em 1938, foi casada com Alfredo Bensaúde, que nasceu em Ponta Delgada em 1835 e faleceu na mesma cidade em 1922.
Jane Bensaúde foi escritora de livros para a infância e autora de vários manuais didáticos, adotados para as Escolas Primárias. Um dos seus livros, o “Método Simultâneo de Escrita e Leitura”, publicado em 1930, foi alvo de uma longa referência por parte do pedagogo Adolfo Lima, na Enciclopédia Pedagógica Progredior.
De acordo com um texto publicado no Dicionário de Educadores Portugueses, obra dirigida por António Nóvoa, Jane Bensaúde defendia o seguinte:
“As crianças aprendem mais facilmente a escrever do que a ler. Reter símbolos gráficos convencionais, a que correspondem símbolos orais igualmente arbitrários, é um trabalho árido, puramente de memória, que em nada pode interessar uma criança. Não acontece o mesmo com a aprendizagem da escrita, que é uma forma especial de desenho. Toda a criança normal manifesta desde muito cedo a tendência para desenhar; aproveitando-se convenientemente esse desejo, ela é conduzida por este método, não só a traçar as letras do alfabeto, mas subsidiariamente, a reconhecê-las e a compor palavras com elas”.
Jane Bensaúde colaborou com a revista “Os Açores” tendo publicado no número de março de 1928 o conto “O gato maltês”, ilustrado por Domingos Rebelo.
Alfredo Bensaúde, filho do abastado industrial José Bensaúde, depois de estudar em Ponta Delgada, a conselho do poeta Antero de Quental, aos 16 anos foi estudar para a Alemanha, onde concluiu, em 1879, o curso de engenheiro de minas, na Escola de Clausthal e, em 1881, o seu doutoramento na Universidade de Göttingen.
Apesar das oportunidades que teve para ficar na Alemanha a trabalhar, decidiu regressar a Portugal, onde a partir de 1885 passou a exercer a função de professor no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa.
Alfredo Bensaúde que repudiou o tipo de ensino que era praticado em Ponta Delgada que classificou de “verbalista e mnemónico”, segundo Carlos Enes, num texto publicado no já referido Dicionário de Educadores Portugueses, não aceitou o que era praticado em Lisboa, tendo introduzido “as novas pedagogias de um ensino técnico virado para a prática e a experiência, improvisando alguns aparelhos e custeando as despesas para a aquisição de materiais.”
A grande obra de Alfredo Bensaúde, ninguém tem dúvidas, foi a criação do prestigiado Instituto Superior Técnico, de que foi diretor desde a sua fundação em 1911 até 1920 e a reforma do ensino da Engenharia em Portugal.
Como pedagogo, Alfredo Bensaúde, defendeu, o ensino prático e a Educação Física que deveria começar no seio das famílias, hoje importantíssima num país onde a obesidade é grande entre os mais jovens que vivem obcecados pelos jogos de computadores. Também considerou “a aspiração à independência pelo próprio esforço” como “um elemento moral de mais valia para o êxito na vida”, o que ainda hoje é sobrevalorizada pelos docentes e sobretudo pelos pais que muitas vezes não se preocupam com a formação integral dos seus filhos, mas apenas com os resultados académicos (as classificações) dos mesmos.
Das obras de Alfredo Bensaúde, merecem uma leitura para melhor conhecermos o seu pensamento, a biografia de seu pai e a sociedade micaelense, as “Notas histórico-pedagógicas sobre o Instituto Superior Técnico”, publicação de 1922 e o livro “Vida de José Bensaúde”, editado em 1936.
Termino, este meu texto, com uma curiosidade: Alfredo Bensaúde foi um exímio construtor de instrumentos de arco, nomeadamente violinos. Esta sua paixão iniciou-se em 1875, ano em que interrompeu os estudos para aprender na oficina do construtor de violinos dinamarquês Jacob Eritzoe.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 11 de dezembro de 2019, p. 9)
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domingo, 8 de dezembro de 2019
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
Cenas da Vida Escolar
Cenas da vida escolar
Hoje, nas escolas há dois assuntos que estão na ordem do dia: a aposentação e o fim dos chumbos.
A aposentação é o tema preferido para os docentes que estão quase no fim da sua carreira e que quase todos os dias contam o tempo que está a faltar. Além disso, também, quase diariamente, é abordada a esperança da alteração das leis de modo a tornar possível a aposentação mais cedo ou a possibilidade da alteração das condições da pré-reforma de modo a torná-la mais atrativa.
O fim dos chumbos é o outro tema, havendo quem, ainda sem receber qualquer instrução superior sobre o assunto, já esteja a agir de modo a promover o facilitismo que tanto condenam nas supostas intensões dos governantes.
Certo que voltarei ao assunto, abaixo, dou a conhecer um relato que me foi enviado sobre o decorrer de uma aula do ensino secundário.
Quarta-feira, dia 15 de maio de 2019, um docente começa a sua aula e afirma que a mesma será sobre o efeito fotoelétrico e o contributo de Albert Einstein para a sua explicação, acrescentando que antes de fazer uma curta apresentação com recurso a um “powerpoint”, vai passar um pequeno vídeo sobre o assunto.
Um aluno que entrou na sala e pousou a cabeça sobre a mesa, sinal de noite mal dormida ou de má disposição, diz em voz perfeitamente audível por todos os presentes: Estou farto de ouvir brasileiros!
De seguida, baixa a cabeça sobre a mesa e assim fica cerca de 45 minutos, interrompendo alguns momentos de silêncio com gemidos.
Quando, finalmente levantou a cabeça, gemeu, cantarolou, bateu com os dedos na mesa, tentou falar com os colegas, interrompendo o trabalho que estavam a fazer.
Alguns minutos depois, o professor escreveu no quadro a relação entre o eletrão-volt (eV) e o joule (J). A Maria perguntou-lhe o que significava o símbolo eV, o aluno que nada havia feito até ao momento, querendo fazer-se engraçadinho disse: Educação Visual.
A aula prosseguiu e o aluno, voltou a colocar a cabeça sobre a mesa e começou a falar sozinho, num tom de voz que era escutada em toda a sala de aula.
Em seguida, continuando na posição em que estava, fez uma pergunta que o professor não percebeu. Aquele não pediu para o aluno repeti~la, pois em aulas anteriores costumava fazer questões não relacionadas com os conteúdos que estavam a ser trabalhados, como por exemplo quando o docente está a explicar uma lei física ele pergunta se o mesmo gostou do jogo do Sporting ou do Benfica.
Algum tempo depois, o aluno ligou o telemóvel na aula, o que não é permitido pelo Regulamento Interno da Escola, para possivelmente ver as horas. Recorda-se que na aula anterior, o mesmo aluno, depois de várias vezes advertido pelo comportamento inadequado, sem qualquer respeito pelas regras, havia ligado o telemóvel e passado um vídeo com o som muito alto.
Depois, continuando a interromper os outros que estavam a trabalhar, ele que não abriu o caderno e não fez nada durante a aula, disse a um colega: deixa de conversar e faz os exercícios”.
Quase a terminar a aula, alguém no corredor gritou “AOOO”, o aluno tal como um eco repetiu na sala “AOOO”. Este mau comportamento de repetir sons é habitual da parte dele, apesar de ter sido inúmeras vezes advertido para o não fazer. Assim, é habitual ele repetir tudo o que ouve, desde máquinas a funcionar, alunos a gritar no recreio ou até o som emitido pelos pavões existentes numa propriedade próxima da escola.
Hoje, para aquele aluno e para muitos outros. não há qualquer diferença entre uma sala de aula, um quarto de cama ou o recreio.
Teófilo Braga
sábado, 30 de novembro de 2019
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
Manuel Medeiros Cabral (2)
Manuel Medeiros Cabral (2)
Em texto anterior, demos a conhecer um pouco da participação cívica de Manuel de Medeiros Cabral, nomeadamente a sua forte ligação à Banda “Rival das Musas”, ao associativismo operário e ao jornal “O Estandarte”, de que foi administrador.
Hoje, damos a conhecer mais algumas facetas da sua vida, com destaque para sua participação escrita no referido jornal.
Depois do 28 de maio de 1926, Manuel de Medeiros Cabral foi durante muitos anos regedor da freguesia de São José, onde residia.
Sem fazer qualquer alarde, Manuel de Medeiros Cabral ajudava os mais necessitados. Com efeito, sempre que ia ao mercado de peixe e este estava barato comprava-o e enviava-o para instituições de caridade.
As várias instituições que apoiou não se esqueceram dele e no seu funeral lembraram a todos a sua dedicação. Assim, para além das coroas que acompanharam a urna com diversas dedicatórias, num ramo de flores encontrava-se um cartão com os seguintes dizeres: “Sociedade Feminina de S. Vicente de Paulo; Conferência de Santa Maria de Belém; Eterna Saudade das crianças do Infantário ao seu querido “Amiguinho””.
Embora muito limitada, a contribuição escrita de Manuel de Medeiros Cabral no jornal “O Estandarte” revela uma enorme dedicação a uma causa, a luta por melhores condições de vida dos operários e a solidariedade face aos injustiçados.
No nº 2 daquele jornal, de 15 de março de 1926, Manuel de Medeiros Cabral escreveu um texto intitulado “Em defesa d’uma vítima”, onde manifesta a sua solidariedade para com o tipógrafo João Duarte, que era editor de “O Estandarte”, pelo facto deste ter sido expulso “pelos mandatários das Artes Gráficas”.
A propósito daquela injustiça praticada com aquele trabalhador, Manuel de Medeiros Cabral escreveu o seguinte:
“…Mas que tenham paciência porque Deus quando formou o mundo foi para todos gozarem do mesmo, deixando a terra, a água e o ar livre ao homem, porquanto temos todos o mesmo direito da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, o que bastante outrora se pregou e ainda não tiveram a felicidade de a ter…”
Depois de referir que o jornal não acabaria fizessem o que fizessem, dedicou as seguintes palavras ao trabalhador despedido: “… e um dia que te visses na ruína da tua vida, o que alguém muito desejaria, ainda nesta terra há gente boa e amigos que te não deixariam morrer de fome e nós cá estamos para apontar os falsos e traidores”.
No nº 16 do mencionado jornal, publicado a 22 de outubro de 1926, Manuel de Medeiros Cabral apela à participação dos operários nas suas associações para melhor lutarem pelos seus direitos. No seu texto, a dado passo podemos ler o seguinte:
“Uni-vos para sacudir as aves de rapina que vos bicam.
Uni-vos para livrarmo-nos da maldita ganância que nos explora, e que, à sombra das lágrimas dos que trabalham, amontoam-se imensas fortunas.
…
Unimo-nos, para o progresso da nossa vida e preparar a educação dos nossos filhos…São os novos dirigentes do mundo, porque as escolas são o primeiro factor da vida, e com um povo analfabeto, que é o que o explorador e o açambarcador gosta, nada se poderá fazer…”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores 31780, 27 de novembro de 2019, p. 14)
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quinta-feira, 21 de novembro de 2019
Manuel Medeiros Cabral (1)
Manuel Medeiros Cabral (1)
Manuel de Medeiros Cabral, natural da freguesia de São José, concelho de Ponta Delgada, nasceu a 19 de fevereiro de 1884 e faleceu a 22 de junho de 1956.
Profissionalmente, Manuel de Medeiros Cabral terá começado por ser carpinteiro/marceneiro e mais tarde teve uma oficina de carpintaria e uma agência funerária. Sobre a profissão de Manuel Cabral, um documento de identificação datado de 1979 refere que foi “industrial de carpintaria e agente funerário”.
Manuel Cabral residiu na Rua da Vila Nova de Baixo, nº 13, e possuía a Agência Funerária localizada na rua Manuel da Ponte, no prédio pertencente a Alice Moderno, mesmo ao lado do escritório daquela escritora, mulher de negócios e protetora dos animais.
Durante algum tempo, a Agência Funerária localizou-se na Travessa de Santa Bárbara e a oficina de carpintaria na rua Manuel da Ponte, nº 38. Antes de se estabelecer por conta própria Manuel de Medeiros Cabral chegou a prestar serviços de marcenaria, nomeadamente a restaurar imagens, a um senhor Manuel António que foi o primeiro preparador do Museu Carlos Machado.
O nome de Manuel Medeiros Cabral está associado à história da Banda “Rival da Musas, filarmónica fundada em Ponta Delgada, em 1871. Joaquim Maria Cabral no seu livro “Filarmónicas da Ilha de São Miguel” refere-se à sua dedicação à banda de música do seguinte modo:
“…Por entre muitas dificuldades assegurou-lhe a existência o recém-falecido proprietário duma Agência Funerária, sr. Manuel de Medeiros Cabral.
Incontestáveis foram, todavia, os seus esforços abnegados para reconduzir a “Rival das Musas” ao seu antigo prestígio!
Não os viu, porém, frutificados!... Consta mesmo, no público, que os seus dias se abreviaram com os desgostos que ela lhe causou!...”
Manuel Medeiros Cabral foi um dos subscritores dos estatutos da Associação de Classe dos Operários Tipógrafos e Artes Correlativas de Ponta Delgada, criada em 1912. Foi relator dos Estatutos, outro dirigente operário micaelense, Francisco Soares Silva que na altura era diretor do jornal “Vida Nova” e que em 1911 presidia à Federação Operária.
De acordo com os seus estatutos, Associação de Classe dos Operários Tipógrafos e Artes Correlativas de Ponta Delgada tinha por fins o estudo e a defesa dos interesses económicos e comuns dos seus associados, através da criação de escolas e gabinetes de leitura, da promoção de conferências e outras reuniões educativas e da instrução profissional dos seus membros.
Em 1922, Manuel Medeiros Cabral e Francisco Soares Silva voltaram a estar juntos na criação de outra organização, a Associação de Classe dos Operários e Artes Correlativas de Ponta Delgada., curiosamente com os mesmos fins.
Em 1926, Manuel Medeiros Cabral continuava ligado ao associativismo operário, sendo presidente das Associações das Classes Operárias e a 15 de março daquele ano passa a figurar como administrador do jornal “O Estandarte” que era o órgão dos obreiros micaelenses. Este jornal que começou a ser publicado a 1 de março de 1926, com sede na Federação Operária, na 2ª Travessa dos Mártires da Pátria, 13-D, terá durado até 31 de maio de 1927, desconhecendo-se as razões do seu fim: dificuldades financeiras ou outras dos seus promotores ou mandado encerrar pela ditadura militar?
Tendo em conta a orientação do jornal que nas suas páginas transcrevia textos do jornal “A Batalha”, ligado à CGT- Confederação Geral do Trabalho, de orientação anarquista, e o facto do mesmo ter sido encerrado pela ditadura militar no dia 26 de maio de 1927, tudo leva a crer que “O Estandarte” terá tido a mesma sorte, já que o último número a que tivemos acesso, o 31, é de 31 de maio daquele ano.
No próximo número daremos a conhecer um pouco mais da vida de Manuel Medeiros Cabral, nomeadamente a sua intervenção no “Estandarte”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31774, 20 de novembro de 2019, p.14)
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domingo, 17 de novembro de 2019
Chã da Alegria
40 anos depois voltei à Chã da Alegria, onde ia com meu avô Manuel Soares ajudá-lo a dar água aos gueixos. O meu agradecimento a João Manuel Carreiro Oliveira.
16 de novembro de 2019
Teófilo Braga
16 de novembro de 2019
Teófilo Braga
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Manhãs de Páscoa
Manhãs de Páscoa
Numa conhecida rede social tenho vindo a divulgar algumas espécies existentes nos Açores, dando a conhecer o seu nome científico, o nome comum, a origem, a família e o local onde podem ser encontradas.
Uma das espécies que mais despertou a atenção dos leitores foi a Euphobia pulcherrima, a qual apresenta, entre outros, o nome comum de Manhãs de Páscoa. A maioria estranhou aquela designação, pois floresce por altura do Natal (neste momento está em flor) e houve um que disse que a conhecia pelo nome de Repúblicas.
Neste texto, para além de tentar esclarecer a questão dos nomes comuns, que variam de terra para terra e que são atribuídos pelas mais diversas razões, darei a conhecer um pouco mais a espécie referida que é oriunda do México.
O roubo de plantas da espécie mencionada dos Jardins de Ponta Delgada, monstra que o vandalismo continua a ser prática corrente na nossa ilha, e prova que a planta tem interesse económico, pois quem o faz, fá-lo porque quer embelezar a sua casa sem gastar dinheiro ou para ganhar dinheiro fácil, através da sua venda.
Não tendo dados sobre a importância económica da espécie nos Açores, menciono, abaixo, a informação recolhida num artigo publicado na “Revista Mexicana de Biodiversidad”, em junho de 2015. De acordo com os autores do artigo citado, a espécie é uma das plantas ornamentais de maior importância económica em todo o mundo, superando as suas vendas anuais os 100 milhões de dólares, nos Estados Unidos da América.
Não conhecemos qualquer utilização, nos Açores, da Euphobia pulcherrima para além da ornamental, mas há bibliografia que menciona diversos usos medicinais sobretudo relacionados com doenças de pele. Por outro lado, o livro Segredos e Virtudes das Plantas Medicinais, inclui a espécie na lista de plantas ornamentais exóticas, tóxicas ou alergizantes.
Luís Franquinho e António da Costa, no seu livro “Madeira Plantas e Flores”, apresentam três nomes comuns para a Euphobia pulcherrima: Manhãs de Páscoa, Poinsétia e Eufórbia Cardeal. Raimundo Quintal, na lista de plantas do Jardim José do Canto, por seu turno, apresenta os seguintes nomes comuns: Poinsétia e Estrela-de-Natal. Ainda sobre os nomes comuns da espécie que vimnos referindo, a página Web “Paisagismo Digital”, apresenta os seguintes: Estrella-federal, Pascuero, Poinsetia , Flor-de-pascua , Flor-de-nadal, Pascuero , Árvore-república , Poisetia , Flores-de-páscoa , Manhãs-de-páscoa , Folha-de-sangue , Flor-de-páscoa , Poinsétia e Bico-de-papagaio .
Os nomes comuns dados nos Açores à espécie são, pelo menos tudo leva a crer, importados. Por razões de economia de espaço e tempo, e por alguns nos parecerem óbvios, apresentamos a seguir uma explicação ou uma tentativa de explicação para dois deles.
O nome Manhãs de Páscoa poderá ser devido ao facto de, em Espanha, “Felices Pascuas!” ser uma “forma tradicional de felicitar la Navidad” e o de Poinsétia é uma forma de homenagear o médico, botânico e estadista dos Estados Unidos da América, Joel Roberts Poinsett (1779 - 1851).
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 319768, 13 de novembro de 2019, p. 14)
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quinta-feira, 7 de novembro de 2019
A HORTA NAS ESCOLAS
A HORTA NAS ESCOLAS
Horta como o lugar
onde crescem as
coisas que, no
momento próprio,
viram saladas,
refogados´, sopas e suflés.
Também isso. Mas não só.
Gosto dela, mesmo
que não tenha nada
para colher.
Ou melhor: há sempre
o que colher, só que
não para comer.
(Rubem Alves, em “O quarto do Mistério”)
Durante algum tempo, e pensamos que ainda hoje, a agricultura, não incluo a pecuária, foi e continua a ser desvalorizada por quem acha(va) que aos Açores o que interessava era aumentar o sector terciário, pois era possível obter os alimentos do exterior a preço mais baixo do que os produzidos cá.
A Escola Secundária das Laranjeiras, bem como outras, que chegou a ter no currículo disciplinas que serviam para a formação dos futuros engenheiros agrónomos e afins, foi forçada, pela legislação nacional a que a Região não se opôs, a acabar com elas.
O ensino da agricultura não despareceu por completo, tendo ficado destinado a alunos fora do ensino chamado regular: com necessidades educativas especiais, dos cursos do PROFIJ e outros.
Nos últimos tempos, parece que a situação está a ser ligeiramente alterada, pelo menos em termos da criação de hortas escolares, infelizmente apenas para alunos problemáticos e ou não integrados nas turmas do ensino regular. Além disso, não se sabe se as escolas que já possuem hortas estão a tirar o máximo proveito da sua existência, isto é, desconhece-se se as hortas se destinam apenas a “entreter” as criancinhas ou adolescentes que não são capazes de estar 45 min numa sala de aula (por vezes também não fazem nada nas hortas) e se, para além da função de “guarda”, se limitam à produção de alimentos, não sendo usadas e trabalhadas em todo o processo pedagógico.
Dadas as potencialidades das hortas ou em terrenos adjacentes ou próximos daquelas, o maior número possível de escolas deveria ter como prioritário nos seus projetos educativos a sua criação e manutenção, ao invés de estarem agarradas a programas que na maioria das vezes não passam de mera cosmética, como o é o programa Ecoescolas (ou a sua concretização), tão acarinhado pelas nossas autarquias especialistas em “greenwashing” (“esverdeamento”, branqueamento ou encobrimento).
Através das hortas escolares há um sem número de atividades que podem ser implementadas não só pelos docentes das disciplinas que as usam como “sala de aula”, mas também por todos os outros. Não pretendendo esgotar o assunto, abaixo indica-se alguns exemplos de como a horta poderá ser usada com fins pedagógicos.
Para além dos alunos ficarem a conhecer as diversas plantas e as suas possíveis utilizações, na alimentação, na medicina tradicional, para fins ornamentais, etc., com os produtos recolhidos é possível tornar mais motivadora o ensino da culinária e da educação alimentar, podendo o uso daqueles incentivar o seu consumo por parte de crianças e adolescentes empenhados no seu cultivo.
As hortas escolares também devem ser utilizadas para o ensino de uma agricultura mais respeitadora do ambiente e para o ensino da gestão correta de resíduos, nomeadamente os orgânicos que deverão ser usados em primeiro lugar e sempre que possível na compostagem doméstica.
A questão das relações entre a cidade e o campo, o consumo de energia nos transportes de adubos e dos próprios produtos da terra, como hortaliças, frutas, etc. que são importados ou as alterações climáticas são temas que também não deverão ser esquecidos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31972, 6 de novembro de 2019, p.14)
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Recordando Gualter Pereira Cordeiro
Recordando Gualter Pereira Cordeiro
Faleceu recentemente em Ponta Delgada o mariense, nascido a 14 de setembro de 1929, Gualter Pereira Cordeiro que foi durante vários anos Despachante de Operações ao serviço da SATA, onde começou a trabalhar em 1958. Antes desta data, foi funcionário da Fazenda Pública durante 6 anos e trabalhou durante dois anos na delegação de Santa Maria do Serviço Meteorológico Nacional.
Interessado por tudo o que dizia respeito aos Açores Gualter Cordeiro possuía uma rica biblioteca de temática açoriana, tendo, entre outros, a maioria das obras de Alice Moderno, de que destaco Os Mártires, de 1904, A Apoteose, de 1910, peça escrita para uma homenagem a João de Melo Abreu, Na Véspera da Incursão, de 1913, A Voz do Dever, de 1915, peça dedicada a Afonso Costa e Trevos, de 1930.
Os segredos da natureza, que sempre o fascinaram, fizeram com que Gualter Cordeiro trocasse correspondência com o cientista Tenente Coronel José Agostinho. Guardo religiosamente uma cópia das referidas cartas, algumas inéditas, trocadas entre eles.
Em 1992, a associação Amigos dos Açores publicou a brochura “Cartas Inéditas 1961-1971” que incluiu 6 cartas de José Agostinho e uma carta dirigida àquele por Gualter Cordeiro.
O tema principal das cartas era noticiar a presença de animais que eram raros ou desconhecidos ou disponibilizar informações sobre a presença dos mesmos, nomeadamente aves, em Santa Maria.
A título de exemplo aqui deixo um extrato da Carta de Gualter Cordeiro:
“Da concha pendia uma espécie de rendilhado muito alvo.
Por debaixo dos olhos azuis, saiam dois apêndices mais rijos e que me pareceram cartilagíneos. A ponta da causa terminava também em apêndice em forma de agulha (rabo espécie do rato do mar). O desenho apresenta o achado no seu tamanho natural. Para mim, como já disse, é muitíssimo estranho, mas para V. Exª pode ser já conhecido. O meu propósito é apenas dar-lhe o conhecimento deste achado e o meu interesse em saber do que se trata, pois apenas sou um entusiasta das coisas da Natureza”.
Como recordação do senhor Gualter Cordeiro tenho o livro que ele me ofereceu “Aeroporto de Santa Maria 1946-1996”, da autoria de Laurinda Sousa, em que o seu nome aparece na ficha técnica como colaborador na pesquisa. Para o referido livro também cedeu fotografias.
Gualter Pereira Cordeiro foi uma pessoa que lutou por uma melhor sociedade, quer através da sua participação cívica, quer através do seu envolvimento político.
No que diz respeito à proteção da natureza e conservação do ambiente, Gualter Cordeiro aderiu aos Amigos dos Açores a 14 de setembro de 1984 e durante nove anos fez parte dos seus órgãos sociais. Assim, em 1987, foi membro da direção daquela associação, em 1988 e 1989, fez parte da Mesa da Assembleia Geral e, de 1990 a 1995, pertenceu ao seu Conselho Fiscal.
No que toca à atividade política, Gualter Cordeiro, em 1973, foi Presidente da Comissão Concelhia de Vila do Porto da Ação Nacional Popular e em 1989, era membro da Comissão Política do PDA-Partido Democrático do Atlântico, tendo sido candidato a presidente da Junta de Freguesia da Matriz, Ponta Delgada.
Conheci Gualter Pereira Cordeiro, o senhor Gualter como nós o tratávamos, em 1984, quando ele aderiu à associação Amigos dos Açores que estava, então, a dar os primeiros passos e com ele participei em várias reuniões daquela associação.
Hoje, 18 de outubro de 2019, escrevo este texto com muita tristeza por termos perdido um homem bom e com ele muito da história da nossa terra, nomeadamente da sua ilha natal, Santa Maria.
Até sempre!
Teófilo Braga
(Correio dos Açores 31967, 30 de outubro de 2019, p.14)
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
As alterações climáticas vistas por alunos do 7º ano de escolaridade
As alterações climáticas vistas por alunos do 7º ano de escolaridade
Com o objetivo de conhecer o que sabiam sobre a questão das alterações climáticas, tão faladas nestes últimos tempos, um professor do 3º ciclo do ensino básico decidiu inquirir os seus alunos sobre o assunto, apresentando as seguintes cinco questões:
- O que é o efeito de estufa?
- O que são alterações climáticas?
- Quais são as causas das alterações climáticas?
- Quais são as consequências das alterações climáticas?
- O que é possível fazer para combater as alterações climáticas?
Foram inquiridos cerca de meia centena de alunos, uma grande parte deixou o questionário em branco, alegando que não sabia nada sobre o assunto, a grande maioria não estava bem informada, muito poucos já tinha ouvido falar, mas faziam algumas confusões com outros fenómenos atmosféricos e apenas uma aluna mostrou que estava atenta ao tema e possuía conhecimentos muito bons.
Para os leitores ficarem com uma ideia sobre os conhecimentos dos alunos, abaixo, dou a conhecer algumas respostas às questões referidas.
Sobre a primeira questão, de entre as respostas, a maioria relacionava o fenómeno com as estufas para cultivo de plantas ou de ananases. Assim, um aluno respondeu que o efeito de estufa servia para cultivar o ananás, outro respondeu que era o aumento das temperaturas e que ajudava os vegetais, uma aluna explicou que o efeito de estufa ocorria “quando o Sol bate em vidraças num espaço fechado e fica abafado que não se consegue respirar”, outro referiu que era a diminuição da camada de ozono e outra apresentou uma resposta mais elaborada, tendo dado a seguinte explicação: “Quando a luz entra no planeta só uma parte dela sai. O efeito de estufa faz com que no seu interior fique com temperaturas mais altas do que a temperatura ambiente
Relativamente às alterações climáticas, as diversas respostas mostram que raros são os alunos que acompanham as discussões sobre o assunto e outros que as confundem com as normais mudanças de temperatura. Assim, houve quem respondesse que as mesmas serviam para comer, quem dissesse que eram as mudanças de estação, outros que as alterações climáticas ocorriam quando o tempo mudava “de chuva para sol” e houve quem respondesse que eram “as alterações que o planeta está a sofrer com a poluição”.
No que diz respeito às causas das alterações climáticas, a maioria dos alunos referiu que eram as estações do ano, o vento, o Sol e a chuva. Apenas duas alunas apontaram como causa a poluição.
A questão sobre as consequências das alterações climáticas foi a que teve mais respostas. Houve quem respondesse que as alterações climáticas provocavam constipações, doenças e alergias, que prejudicavam a camada de ozono e que podiam originar incêndios. O aumento do nível do mar devido ao descongelamento do gelo do Ártico também foi mencionado, tal como o desaparecimento de espécies e o surgimento de mais tempestades e furacões. Uma aluna, depois de ter referido o aparecimento de mais tempestades escreveu: “cada vez haverá menos condições para habitarmos neste planeta”.
Relativamente à última questão, o que fazer para combater as alterações climáticas, tal como aconteceu nas questões anteriores, as respostas foram muito diversas e coerentes com as que os alunos deram às anteriores. Assim, houve quem respondesse que era preciso ficar de vigia nas estufas e evitar incêndios, estar longe das flores, fruir a natureza, tratar bem o ambiente, diminuir a poluição atmosférica, por o lixo na caixa para não ir parar ao mar. A resposta mais elaborada partiu, como é óbvio, da aluna que nas questões anteriores mostrou que acompanhava mais o assunto. Segundo ela, deviam ser tomadas as seguintes medidas: “Reciclar o lixo, não andar muito de automóvel, não colocar o lixo no chão ou para o mar, não consumir muita carne e peixe, não consumir muito papel. Para que não abatem mais árvores, produzir a sua própria energia, ou seja, painéis solares.”
Face aos resultados obtidos, está aberta a possibilidade de os alunos fazerem um trabalho de projeto para aprofundarem os seus conhecimentos, cabendo ao docente orientar as pesquisas dos alunos que escolherão os subtemas em incidirá a sua investigação.
Teófilo Braga
Correio dos Açores, 31961, 23 de outubro de 2019, p.14
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
O Dr. Guilherme Poças Falcão e o São João na Lagoa do Congro
O Dr. Guilherme Poças Falcão e o São João na Lagoa do Congro
Até à presente data não encontrei nenhum documento que me ajudasse a datar o início da tradição de comemorar o dia de São João, 24 de junho, nas margens da Lagoa do Congro, o mesmo se passando com a data em que a mesma terminou, nem as razões para que tal acontecesse.
Enquanto não encontrar prova em contrário, penso que o São João na Lagoa do Congro só terá começado depois de José do Canto ter comprado, em 1853, 9 moios de terra onde estava implantada a Lagoa do Congro, aberto vários caminhos, construído as casas e criado a sua mata ajardinada, com a ajuda do jardineiro inglês George Brown.
Em relação às casas, nos primeiros meses de 1855, foram postos vidros nas janelas, foi lajeado o seu interior e retelhadas, tendo José do Canto e a família passado alguns dias lá no verão daquele ano.
Sabe-se também que os caminhos abertos por José do Canto para além de se destinarem às plantações e à criação de pastos, também eram usados para proporcionar passeios aos seus familiares e visitantes.
Em toda a bibliografia consultada o nome que aparece associado às festas de São João na Lagoa do Congro é o do seu proprietário Guilherme de Poças Falcão (1855-1942) que sempre autorizou a utilização do espaço por parte dos vila-franquenses e de vários habitantes da costa norte que para lá convergiam a 24 de junho de cada ano.
Guilherme de Poças Falcão, natural de Ponta Delgada, formou-se em direito na Universidade de Coimbra, tendo sido advogado e exercido funções de oficial do Governo Civil do distrito de Ponta Delgada.
Para além da sua generosidade para com os vila-franquenses, o Dr. Guilherme de Poças Falcão distinguiu-se por ser sócio benemérito da Sociedade Afonso Chaves, apoiar diversas instituições de caridade bem como ajudar muitos estudantes pobres a prosseguir os seus estudos e a proteger viúvas e órfãos, de tal modo que o seu falecimento foi sentido em toda a ilha de São Miguel.
A propriedade da Lagoa do Congro, que não incluía a Lagoa dos Nenúfares que pertencia ao Conde Botelho, foi herdada pela filha de José do Canto Maria Guilhermina que era casada com o Dr. Guilherme de Poças Falcão que numa visita à mesma pensou recuperar a casa para servir de recreio.
Tudo levar a crer que terá sido no tempo Dr. Guilherme de Poças Falcão, que por vezes também participava, que começaram as festividades de São João na Lagoa do Congro. Sobre este assunto o professor José Cabral, num depoimento publicado no livro “São João da Vila”, de Eduardo Furtado, mencionou o seguinte: …Assim juntavam-se famílias que iam para a Lagoa do Congro, quando era ainda propriedade do Dr. Guilherme Poças Falcão. Toda a zona era um relvado bem cuidado onde se organizavam balhos populares e onde as pessoas se divertiam de manhã à noite”.
Terão sido alguns dos herdeiros do Dr. Guilherme de Poças Falcão, que não seguiram o seu generoso exemplo, e que pela proibição do acesso à propriedade levaram a que o São João na Lagoa do Congro terminasse.
Sobre o fim daquela salutar prática, Manuel Inácio de Melo, num texto publicado no jornal “A Vila”, em 1969, depois de escrever que ainda estava “aberta uma dívida a pagar a esse Bom Homem que foi o Sr. Dr. Guilherme Poças Falcão”, acrescentou:
“Repito, pois, Santos tempos aqueles em que se contam às dezenas as raparigas que balhavam sem haver rogos, trajando vestes garridas e chapéus de palha do nosso trigo com flores campestres. E ficamos por aqui, faleceram aqueles ricos proprietários e tudo morreu na Borda da Lagoa, que passou de um extremo a outro!”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31955, 16 de outubro de 2019, p.14)
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quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Ferreira Deusdado e os Educadores Portugueses
Ferreira Deusdado e os Educadores Portugueses
Manuel António Ferreira Deusdado (1857-1918), natural de Rio Frio, Bragança, teve uma vida dedicada ao ensino, tendo, depois concluído o Curso Superior de Letras, em 1881, sido professor liceal e lente auxiliar do Curso Superior de Letras.
A sua carreira científica foi reconhecida no estrangeiro, tendo sido alvo de várias homenagens, de que se destaca a atribuição do grau de doutor honoris causa pela Universidade Católica de Lovaina, em Filosofia e Letras.
Da vasta bibliografia de Ferreira Deusdado, destaca-se “Bosquejo Histórico de Puericultura. Educadores Portugueses”, um livro de consulta obrigatória para quem quiser conhecer a História da Educação em Portugal.
Há alguma razão para a escrita de um texto sobre Ferreira Deusdado para um jornal dos Açores?
Antes de responder à questão, esclareço que a primeira vez que ouvi falar em Ferreira Deusdado foi num livro sobre o terceirense Adriano Botelho, publicado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais.
No livro referido, o grande cientista Aurélio Quintanilha, numa carta de 3 de dezembro de 1980, dirigida a Adriano Botelho, recordou-lhe alguns episódios da sua juventude. Assim, depois de referir que Ferreira Deusdado quando se referia à imperatriz da Rússia “dizia sempre – a minha amiga a imperatriz da Rússia… Mas nós, os miúdos, já estávamos convencidos que a imperatriz se estava nas tintas para esse grande pavão e à socapa fazíamos troça dele”.
Aurélio Quintanilha e Adriano Botelho foram alunos do Liceu de Angra e Ferreira Deusdado professor no mesmo, tendo tomado posse a 10 de junho de 1901.
Como ninguém é capaz de agradar simultaneamente a gregos e a troianos, alguns alunos detestavam-no e a ele dedicaram uma quadra que segundo Aurélio Quintanilha era assim: “Dado a Deus por ser casmurro, cá na terra um rifado, lá no céu um alugado, porque Deus não quer um burro!”.
Vitorino Nemésio, por seu turno, conta que correu um boato sobre a transferência de Ferreira Deusdado para o Liceu de Ponta Delgada e que alunos e professores do Liceu de Angra do Heroísmo manifestaram o seu descontentamento e repudiaram a ideia.
No livro referido, Ferreira Deusdado apresenta algumas notas biográficas de educadores que viveram do século XII ao século XIX.
No que diz respeito ao século XIX, Ferreira Deusdado faz referência a cinco educadores açorianos: Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, natural de Angra do Heroísmo, João José da Graça, natural da Horta, Manuel Francisco de Medeiros Botelho, natural de Água Retorta, Teófilo Ferreira, natural da ilha das Flores, e Antero de Quental, natural de Ponta Delgada.
De todos os citados, o menos conhecido, pelo menos para mim, é Manuel Francisco de Medeiros Botelho, pelo que termino este texto com a menção ao seu contributo para a educação.
Em 1871, Manuel Medeiros Botelho escreveu um Projeto de Reforma Geral de Instrução Primária e Secundária e no ano seguinte publicou o livro intitulado “O que é e o que deve ser a instrução nacional”.
Para além do mencionado, Manuel Medeiros Botelho foi autor de um compêndio de Geografia que foi usado em várias escolas.
De acordo com o pedagogo Adolfo Lima, Manuel Medeiros Botelho “era partidário do ensino obrigatório, da sua gratuitidade e da sua descentralização. Quanto à liberdade do ensino admitia-a, somente para a instrução superior”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31949, 9 de outubro de 2019, p. 14)
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quinta-feira, 3 de outubro de 2019
terça-feira, 1 de outubro de 2019
Algumas confusões sobre as alterações climáticas
Algumas confusões sobre as alterações climáticas
Numa altura em que muito se fala e escreve sobre as alterações climáticas verifica-se que existe alguma confusão sobre o fenómeno, muitas vezes por desconhecimento outras vezes para tentar tapar o sol com a peneira.
Uma das questões que é muitas vezes levantada é a de que não existem alterações climática e que o facto não está comprovado cientificamente.
Se é verdade que há sempre alguém, mesmo na comunidade científica, que tem opiniões contrárias, sobre a questão das alterações climáticas há um grupo de 2000 cientistas de todo o mundo, denominado Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que faz investigações há mais de 25 anos e que em vários relatórios aponta para a influência da atividade humana sobre o clima e que o aquecimento global é inequívoco.
Se há quem diga que os que se preocupam com as alterações climáticas estão ao serviço ou são manipulados por algumas empresas “verdes”, que estão por aí e a fazer pela vida, podemos dizer que quem as nega ou não possui conhecimentos científicos adequados, está mal informado ou têm interesses diversos para negar a sua existência.
Uma confusão que aparece recorrentemente é associar o buraco da camada de ozono às alterações climáticas, muitas vezes considerando que estas são causadas por aquele.
Embora ambos sejam problemas relacionados com a atmosfera, as causas das alterações climáticas estão relacionadas com o excessivo aumento das emissões de gases com efeito de estufa, como o dióxido de carbono, o metano, o óxido nitroso, os clorofluorcarbonetos, etc.
O aumento das emissões de gases com efeito de estufa, deve-se, de acordo com o que se pode ler na página web da Agência Portuguesa do Ambiente, aos seguintes fatores:
“Queima de carvão, petróleo ou gás que produz CO2 e N2O;
• Abate de florestas (desflorestação): as árvores ajudam a regular o clima absorvendo o CO2 presente na atmosfera. Quando são abatidas, esse efeito benéfico desaparece e o carbono deixa de ser armazenado e permanece na atmosfera, reforçando o efeito de estufa;
• Aumento da atividade pecuária: as vacas e as ovelhas produzem grandes quantidades de CH4 durante a digestão dos alimentos;
• Utilização de fertilizantes que contêm azoto, estes produzem emissões de N2O;
• Os gases fluorados têm um efeito de aquecimento muito forte, que chega a ser 23 000 vezes superior ao do CO2. Felizmente, são libertados em pequenas quantidades e estão a ser gradualmente eliminados ao abrigo da regulamentação da UE.”
Outra confusão que ainda persiste é considerar o efeito de estufa como um problema ambiental.
De facto, ao contrário do que por vezes se afirma, o efeito de estufa é um fenómeno natural que permite que a temperatura média da terra seja de 15º Celsius. Se não houvesse efeito de estufa a temperatura seria de -18 º Celsius o que não tornava possível a vida na terra tal como ela existe.
Assim sendo, o problema não está no efeito de estufa, mas sim no seu incremento pelas atividades humanas.
No caso dos Açores, a moda das alterações climáticas está por aí e muita preocupação com as mesmas não vai passar disso mesmo.
A Região não precisa do papão das alterações climáticas para fazer alguma coisa pelo Planeta e pelos seus habitantes, basta optar por uma maior justiça social, por aproveitar melhor os seus recursos humanos e naturais, por tomar medidas eficazes para fazer com que diminuem as importações de produtos alimentares, fomentando a agricultura, nomeadamente a fruticultura e a horticultura, por gerir melhor os seus resíduos, apostando fortemente na redução da sua produção e acabar com a tentativa de criar um monstro comedor de recursos naturais, de energia e de dinheiro que é (vai ser?) a incineradora de São Miguel.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31 943, 2 de outubro de 2019, p. 14)
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