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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Ecologia e trabalho


1º de maio, 1982

terça-feira, 7 de abril de 2020

As feministas e o trabalho

Maria Evelina de Sousa

As feministas e o trabalho

Algumas correntes de esquerda, suponho que minoritárias, criticam os movimentos feministas atuais pelo facto de ignorarem as questões do trabalho, como o facto das mulheres terem ordenados mais baixos do que os homens para a mesma função, serem as principais vítimas dos empregos precários e, por último, não porem em causa o sistema de exploração que domina todo o mundo.

No passado, embora não ignorassem por completo o acesso ao trabalho e as condições deste fora de casa, também me parece que as principais questões levantadas pelas feministas eram, essencialmente, o direito ao voto e o acesso à educação.

Alice Moderno considerava que era importante a mulher ter acesso à educação, que era melhor do que ter um bom dote, para possibilitar ter um bom trabalho e uma vida não dependente de outrem. Segundo Maria da Conceição Vilhena, Alice Moderno defendia o seguinte:

“O papel social da mulher começa em casa, junto da família, onde a mulher burguesa deverá deixar de ser um dispendioso objeto de luxo ou “um cabide de vestidos” que o marido compra”

Maria Evelina de Sousa, a menos conhecida das duas companheiras feministas açorianas, numa carta a Ana de Castro Osório, que então ocupava o cargo de Inspetora dos Trabalhos Femininos de Portugal, publicada, no dia 1 de abril de 1917, no jornal “A Folha”, é clara na importância que dá ao trabalho feminino. Assim, depois de referir a importância de serem criadas “indústrias femininas” pelo contributo que poderiam dar “para a economia política do país”, acrescenta o seguinte:

“Não só compreendo a vantagem material que semelhantes indústrias nos proporcionariam, mas também avalio o simpático papel que desempenhariam, no campo moral porque, habituando a mulher a bastar-se a si própria, vivendo dos recursos do seu trabalho honesto, dignificavam-se, fazendo com que desprezasse o servil estado de alimentada do marido, do pai, do irmão ou, na falta deste, do amante”.
E por isso a criação de indústrias femininas seria o melhor, o mais eficaz e enérgico de todos os expedientes para fazer desaparecer a cancerosa pústula da prostituição, vergonha social, que enxovalha as famílias e corrompe as sociedades, desde os mais remotos tempos.”

Maria Evelina de Sousa, na carta referida, também, recordou que dedicou ao assunto da criação de indústrias femininas alguns textos na sua Revista Pedagógica, nomeadamente aquando da criação, em Ponta Delgada, da efémera Escola de Rendas de Bilros e voltou a referir a importância da criação em São Miguel de indústrias de rendas e bordados que poderiam ser exportados para o Novo Mundo.

Ana de Castro Osório, que foi jornalista, escritora, pedagoga, feminista e ativista republicana, por sua vez, no jornal “Açoriano Oriental, de 22 de setembro de 1917, num artigo intitulado “Respeito pelo trabalho”, aborda a questão do trabalho da mulher, denunciando que em Portugal o valo pago pelo trabalho feminino é uma coisa ridícula, para não dizer uma coisa odiosa”.

No seu texto Ana de Castro Osório denuncia que o que é pago pelo trabalho da mulher não é suficiente para ela “viver honestamente do seu próprio labor” e acrescenta que a mulher recebe um terço ou menos do que seria pago a um homem.

Termino este texto, ainda com um excerto do artigo de Ana de Castro Osório, muito elucidativo do pensamento de então (e de hoje?):

“Já dissemos a falta de respeito pelo trabalho da mulher, que esse é matéria corrente numa sociedade em que de alto a baixo das classes sociais os homens olham as suas companheiras como umas bonecas fabricadas pelo bom Deus providencial para o seu único proveito e divertimento…”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32101, 8 de abril de 2020, p.14)

sábado, 30 de março de 2013

Trabalhar menos, viver melhor



John Keynes, em 1930, previa que no início do século XXI a semana de trabalho estaria reduzida a 15 horas. Dizia ele que não precisaríamos de jornadas de trabalho muito longas para ganharmos o suficiente para a satisfação das necessidades materiais.
Se é verdade que a previsão de Keynes não se cumpriu, também não deixa de ser verdade que as políticas que têm sido seguidas têm prometido o paraíso para todos, mas na realidade para a maioria da população tem oferecido o contrário.
Se até há alguns anos acenava-se com a cenoura de mais trabalho para mais consumo, muitas vezes acima das possibilidades de cada um e para além dos recursos naturais disponíveis, hoje não há qualquer pejo em propor mais trabalho (mais horas diárias e maior idade de aposentação) e menor remuneração.

Contra estas soluções “milagrosas” que pressupõem um retrocesso no que diz respeito a direitos sociais conquistados pelas classes trabalhadoras ao longo de muitos anos de sacrifício, a organização NEF (The New Economics Foudation), um laboratório de ideias que trabalha em prol de uma economia que tem em conta as pessoas e o planeta, defende uma semana de trabalho de 21 horas.

Segundo a organização, uma semana de trabalho mais curta proporcionaria as bases para uma vida melhor, por duas razões:
- A redistribuição do trabalho remunerado levaria a uma sociedade mais igualitária;
- Se gastarmos menos horas de trabalho remunerado para manter os errados hábitos de consumo atuais, poderíamos aproveitar este tempo para fazer coisas que valorizamos mas que nunca temos disponibilidade, como estar mais tempo com os filhos, familiares e amigos, fazer voluntariado, etc.

Os ecologistas, não cooptados pelos valores do capitalismo puro e duro ou do capitalismo versão verde ou sustentável, desde sempre tiveram uma posição muito crítica relativamente ao trabalho que era considerado por Paul Lafargue, em 1883, uma “estranha loucura de que estão possuídas as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista”.

Alguns deles, com os quais estou de acordo, manifestaram a sua incompreensão pelo facto do progresso tecnológico ter contribuído apenas para o aumento da produção e não ter levado ao aligeiramento do trabalho humano.

Para tentar inverter a situação, algumas personalidades e grupos ecologistas apresentaram propostas que importa serem do conhecimento público. Assim, em 1974, René Dumond, engenheiro agrónomo francês, no seu Manifesto Eleitoral apresentado aquando da sua candidatura às eleições presidenciais intitulado “Para uma outra civilização”, defendeu, entre outras medidas, a “reconversão de toda a produção industrial no sentido de artigos mais duradouros, mais úteis e menos poluidores” e “medidas sociais, tais como a redução dos horários e as cadências de trabalho”.

A prestigiada rede internacional “Amigos da Terra”, num seu programa de 1976, também apresentou um conjunto de medidas que a serem levadas à prática levariam à redução do trabalho necessário. Assim, e de imediato a proposta era a de que a semana de trabalho fosse reduzida para 30 horas.

Segundo aquela organização o que se pretendia era, por um lado diminuir a parte do trabalho que tinha como único objetivo proporcionar um salário e, por outro lado “desenvolver a do trabalho “livre” (que estimula a criatividade e o interesse do trabalhador, ou que ele próprio está em condições de controlar o resultado”.

Será realizável a redução do horário para as 21 horas semanais?

A NEF acha que sim, porque as 21 horas não estão longe do tempo médio que as pessoas em idade de trabalhar dedicam ao trabalho remunerado. Com efeito, a título de exemplo, em Espanha, em 2011, considerando todas as pessoas com idades entre os 15 e os 64 anos, a média de horas de trabalho semanal remunerado era de 18,94.

Já sei que me vão dizer que estas propostas não passam de fantasias de quem não tem os pés bem assentes na terra e que são irrealizáveis. Como muito bem escreveu o ex- presidente da Assembleia da República Henrique de Barros, no prefácio ao livro Utopia ou Morte, de René Dumont, “ as loucas fantasias de hoje…serão as sensatas realidades de amanhã”.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2759, 27 de Março de 2013, p.16)